Prevost

Hábitos clericais na Idade Média

José Horta Manzano

Prevost, sobrenome do papa recém-eleito, é palavra de origem francesa. O significado variou com o tempo, como também variou a grafia. Ao longo dos séculos, o termo já se escreveu provost, prevoz, prevost e de outras formas pitorescas até chegar a prévôt, grafia atual.

Etimologicamente, é palavra descendente do latim, especificamente do verbo praeponere, onde prae = antes/à frente, ponere = pôr/colocar, ou seja, colocar à frente. Prévôt é aquele que, num grupo, ocupa a posição de chefia. Prévôt tem similaridade semântica com nosso preposto. Ambos indicam alguém que exerce funções de chefia ou direção.

Na Idade Média, prévôt podia ser, por exemplo, o oficial com poder jurisdicional sobre um determinado território, o chefe de uma companhia de arqueiros (atiradores de flecha), o magistrado encarregado de instruir processos de marinheiros acusados de crime. E outras tantas possibilidades.

Leão XIV certamente teve um prévôt em sua árvore genealógica, personagem longínquo mas importante por ter transmitido o nome à descendência.

Pelo que a mídia noticiou, o novo papa tem origem francesa e italiana, nasceu nos EUA, adquiriu a nacionalidade peruana. Sua língua materna é inglês e, além disso, fala também italiano e espanhol muito bem. Fiquei sabendo que fala também francês, mas não posso julgar porque não o ouvi nessa língua.

O domínio do italiano é condição indispensável para ser eleito papa. Afinal ele será o dirigente absoluto (chefe dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) do Vaticano, Estado cuja língua oficial é o italiano. Alguém imaginou eleger um presidente do Brasil que não falasse português?

Por causa dessa ascendência multinational, no dia seguinte de sua eleição, genealogistas puseram mãos à obra para desvendar os passos dos antepassados do papa. Não sei como conseguiram ir tão rápido, mas o fato é que, tanto nos EUA quanto na França, logo surgiram informações.

Na terra natal de Leão XIV (onde Leão se escreve “Leo” e se pronuncia “Lío”), logo encontraram os irmãos do papa, todos com idade regulando com ele. Fotos de família e declarações ao vivo de irmãos enfeitaram os programas do horário nobre da televisão.

Já na França, genealogistas seguiram a linha dos antepassados e descobriram que a avó do novo papa era filha de confeiteiros da Normandia, nascida na cidade do Havre em 1894 e falecida nos EUA em 1979. Todos os antepassados dessa senhora eram normandos – é verdade que mudanças de uma região a outra eram raras naqueles tempos.

Um jornal da região de Grenoble chegou a descobrir, em poucas horas, que os antepassados do papa teriam raízes naquela região. Vasculharam longe pra chegar a essa descoberta. Afirmam que a tetravó (avó do bisavô) de Leão XVI, uma certa Marie-Thérèse Rancurel, poderia até ter origens nobres(!).

É certamente uma linda história para contar para os sobrinhos-netos. Mas o que importa realmente não são tanto as origens de Leão XIV, mas como ele orientará seu trabalho. O papa não tem exército, não é pela força bruta que ele poderá ajudar a humanidade. De todo modo, força bruta nunca serviu pra ajudar ninguém.

Na minha recatada opinião, o chefe da Igreja Católica deveria ter a coragem de enfrentar as questões que, na atualidade, empacam a instituição. Não acredito que a ordenação de mulheres seja a questão primeira. Há outros assuntos que não adianta varrer para debaixo do tapete, como se não existissem.

Aborto voluntário e casamento entre pessoas do mesmo sexo são temas do nosso tempo. Ambos já estão regulados em dezenas de países – muitos deles, católicos –, enquadrados por leis ou por decisões de justiça. A Igreja não pode fugir a debates que a sociedade civil já resolveu e sacramentou.

Resta esperar que Leão XIV queira e consiga extirpar a Igreja do torpor timorato em que está mergulhada. Que o apego ao passado se limite aos hábitos medievais do clero.

Mãos repugnantes

Putin tomando banho com sangue ucraniano

José Horta Manzano

Todo político sabe que, na vida pública, há que engolir sapos. Faz parte da função.

Imagine um dirigente visceralmente contrário à monarquia e a todo regime cujo chefe ascenda ao poder por herança de sangue ou “pela graça de Deus”. Pense agora que o dirigente de nosso exemplo se encontre, numa recepção mundana, com o príncipe de Mônaco. Ai, um príncipe! Que fazer? Dar as costas e fingir que não viu? Ou apertar aquela mão aristocrática e sentir o sangue azul pulsando logo abaixo da pele? Nosso dirigente, que não é grosseirão, aperta a mão do nobre. E um sapo lhe desce goela abaixo.

Imagine agora um dirigente de direita, de tendências extremistas, daqueles que abominam pobres, não-brancos, LGBTs e tudo o que não se pareça com eles.

(Abro aqui um parêntese para contar que já conheci pelo menos dois figurões de comportamento constrangedoramente efeminado, daqueles que falam em falsete e quebram o pulso a cada frase – um sufoco. Não convém revelar nomes, só digo que um deles tinha sido rei da Itália e o outro era o xeique de Abu Dhabi à época. Mas faz tantos anos, que a poeira do tempo já cobriu tudo. Fecho o parêntese.)

Voltemos a nosso dirigente fricoteiro e homofóbico. Vamos imaginar que seja apresentado a um figurão que rebola, cheio de trejeitos. Vai dar as costas e recusar o aperto de mão? Ainda que extremista, nosso dirigente não é um ogro ignorante. Aperta a mãozinha. E solta logo. Mais um sapo escorre-lhe pela garganta.

Foram dois exemplos bastante forçados, caricatos. Dificilmente ocorreriam na vida real. Ou talvez… nunca se sabe.

Agora vamos a um caso bem real, que aconteceu de fato, notícia fresquinha desta semana. Não foi encontro casual ou fortuito. O colóquio foi real, pesado e pensado, discutido e deglutido, revolvido e resolvido. Não foi resultado de ato irrefletido, daqueles de que a gente acaba se arrependendo.

Lula decidiu aceitar o convite que Vladímir Putin lançou aos poucos “amigos” que lhe restam. Convocou a comitiva e, encantados feito crianças que saem de férias, embarcaram num avião de nossa Força Aérea para voar umas 13 horas rumo a Moscou.

Ao chegar – não sei se terá pensado nisso – calhou de ser, entre os convidados de Putin, um dos raros dirigentes democráticos. A seu redor, tinha uma boa seleção do melhor que o mundo tem em matéria de ditadores e dirigentes autoritários.

Além do anfitrião e de seu vizinho Xi Jinping, estavam Miguel Díaz-Canel (Cuba), Nicolás Maduro (Venezuela), Viktor Orbán (Hungria), Robert Fico (Eslováquia). Estavam lá também os dirigentes de Tajiquistão, Uzbequistão, Bielorrússia e de dezenas de outros regimes afins.

Vladímir Putin, cuja lista de guerras de conquista já inclui Tchetchênia, Geórgia e Ucrânia, é responsável direto pelos mortos, feridos, amputados e estropiados que esses conflitos engendraram – contando por baixo, serão entre 2 milhões e 3 milhões de velhos e jovens, homens e mulheres, militares e civis, anciãos e recém-nascidos, todos ceifados pela sede de poder e glória de um único homem.

Pois nosso Luiz Inácio, todo lampeiro, convoca acólitos e credores de favor, cruza o oceano, veste sua roupa de gala para apertar a mão do responsável por tanta desgraça. São mãos asquerosas, vermelhas de sangue inocente.

Lula agarra Putin como se fosse uma pessoa normal. Não é.

No momento desse repugnante aperto de mão, nenhum dos protagonistas engoliu sapo. Foi o Brasil, o Brasil decente, o Brasil atento, o Brasil humanitário, o Brasil digno, o Brasil amoroso – foi esse Brasil que engoliu mais um sapo.

Tudo por tua causa, Lula! Está na hora de cair na real e largar de prestigiar essa cambada de ditadores nojentos!

Caiu do céu

José Horta Manzano

Durante milênios, o céu foi apenas o lar dos astros, das nuvens e dos sonhos humanos. Hoje, ele é também o depósito de um perigoso quebra-cabeça metálico. Desde que o primeiro satélite artificial foi lançado em 1957, uma silenciosa e crescente multidão de objetos passou a orbitar a Terra. No começo, eram poucos e gloriosos marcos da corrida espacial. Depois, viraram dezenas, centenas e, com o tempo, milhares de artefatos — satélites ativos, lixo espacial, partes de foguetes, painéis solares desativados, parafusos soltos. Tudo isso formando uma espécie de anel invisível ao olho nu, mas cada vez mais denso, caótico e ameaçador.

Nosso céu, antes limpo e infinito, virou um carrossel de lixo.

E como já sabiam os antigos – e como confirma a física – tudo o que sobe acaba caindo. A gravidade, paciente e constante, cobra seu tributo com o tempo. E foi assim que, recentemente, veio a notícia de que um pedaço de 495 kg de uma nave lançada em 1972 – uma missão fracassada com destino a Vênus – deve reentrar na atmosfera terrestre nos próximos dias. Essa peça em particular é o estágio superior de um foguete soviético, vagando feito alma penada há mais de meio século, agora prestes a voltar para casa. Mas onde, exatamente, vai cair? Ninguém sabe.

O risco de atingir área habitada é pequeno. Estimativas apontam para uma probabilidade ínfima – mas não nula. E esse é o ponto que deveria nos preocupar. Porque, se não for esse específico destroço, amanhã pode ser outro. Existe uma classe crescente de zumbis espaciais – objetos não-funcionais que continuam em órbita – esperando sua vez de despencar sobre a Terra. Em geral, se desintegram ao reentrar, mas pedaços maiores, como esse, podem resistir e chegar ao solo.

A questão não é mais “se” algo vai cair em local povoado, mas “quando”. E o que temos feito para evitar isso? Ainda muito pouco. Existem planos, estudos e promessas de futuros satélites com sistemas de reentrada segura ou mecanismos de autodestruição. Há empresas e agências espaciais estudando “aspiradores” espaciais para recolher o lixo orbital. Mas são iniciativas pontuais, caras e lentas.

Enquanto isso, o número de satélites só aumenta. Com projetos como o Starlink e outros similares, a expectativa é que dezenas de milhares de novos objetos sejam lançados nos próximos anos. Multiplicam-se as conexões, mas também os riscos.

É hora de levar a sério o que vem do céu. Precisamos de regras internacionais mais firmes, de fiscalização real e de planos concretos para lidar com os resíduos espaciais. Porque esperar a desgraça para agir depois é a receita certa para ela acontecer.

Afinal, quando alguma coisa cai do céu, nem sempre é uma bênção.

Madame vai primeiro

José Horta Manzano

Todo chefe de Estado, antes de viajar ao exterior, envia exploradores para preparar sua chegada e sua permanência. Vão verificar assuntos variados, desde questões de segurança, alojamento e deslocamento até detalhes do cardápio a ser servido ao visitante. Além de contar com sua equipe de especialistas, Lula pode se apoiar numa personagem que lhe é especialmente próxima e fiel: sua esposa, Janja.

Lula ainda não foi, mas Madame já está lá, tendo embarcado cinco dias antes do marido e chefe. Um programa foi especialmente preparado para ela, incluindo manifestações ligadas à educação, à cultura e ao combate à fome. Está também prevista uma visita ao Teatro Bolshoi de Moscou para assistir a uma representação de “O lago dos cisnes”, balé composto por Tchaikovski.

O motivo oficial da longa viagem de Lula é prestigiar os festejos do 80° aniversário do fim da Segunda Guerra na Europa. Na Rússia, a guerra mundial é chamada Grande Guerra Patriótica. Por lá, a história oficial dá relevo à participação soviética, deixando para segundo plano os aliados. Nos demais países europeus, o fenômeno inverso ocorre: a glória maior é conferida aos europeus e norte-americanos, ficando os russos com um papel marginal.

É curioso que Lula nunca tenha pensado em comparecer à celebração do Desembarque do 6 de Junho de 1944, considerado o ponto de virada da vitória aliada na Segunda Guerra. Esse evento é comemorado todos os anos na Normandia, norte da França. Terá seus motivos para não ter ido; talvez porque seria apenas um entre vários, enquanto que, em Moscou, será um convidado importante. Putin, mandado para o banco pelo mundo democrático, precisa de visitantes conhecidos.

Os principais dirigentes a prestigiar os festejos moscovitas são ditadores ou dirigentes autoritários: Bielorrússia (Lukatchenko), Hungria (Orbán), Eslováquia (Fico), Azerbaidjão, Sérvia, Tadjikistão, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela. A figura de maior projeção a ter anunciado presença é Xi Jinping, ditador da China.

Entre eles, lá estará nosso Lula, cujas intenções não ficaram claras. Quem sabe:

  • Estará dando um enésimo sinal de rebeldia para com os EUA? Mandando uma banana pra eles, como quem diz: “Aqui sou amigo do rei”?
     
  • Está tentando recuperar para si a liderança do Brics, perdida desde que o grupo foi expandido, tornando-se uma agremiação de países heterogêneos, sem programa e sem objetivo.
     
  • Cansado dos miasmas tóxicos de Brasília, decidiu mudar de ares por alguns dias. O sacrifício de encarar mais de 24 horas de viagem de avião (ida mais volta) compensa. Afinal, não é todo dia que se dá um aperto de mão no coreano Kim Jong-Un.

Sejam quais forem as ideias que povoam a cabeça de Luiz Inácio, uma certeza fica: não é prestigiando a Rússia que ele vai obter vantagem. Simplesmente porque Moscou não tem nada a oferecer além de fertilizantes e armas. Fertilizantes, já compramos; armas, não, obrigados.

Bolsonaro disse um dia, em Moscou, diante de Putin, que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Agora vai Lula e, com sua visita, reitera as palavras do capitão. Putin vai acabar acreditando.

Prisão geriátrica

José Horta Manzano

Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um fenômeno curioso: um número crescente de personalidades públicas e figuras poderosas que passam a vida livres e apenas são alcançadas pela Justiça quando já se encontram em idade avançada. Políticos, empresários e outros figurões acabam sendo condenados e presos depois dos 60 anos, quando já estão abrigados sob o manto do Estatuto do Idoso. Essa situação aponta um novo desafio do sistema penitenciário brasileiro: como lidar com uma população carcerária cada vez mais velha.

O envelhecimento traz consigo condições de saúde que exigem cuidados específicos. Hipertensão, diabetes, obesidade, artrose, insuficiência cardíaca, problemas de visão, dificuldade de locomoção, entre outras mazelas, tornam-se mais comuns e demandam acompanhamento médico constante, acessibilidade adequada e medicações regulares.

As prisões brasileiras, no entanto, não estão preparadas para receber detentos com esse perfil e dar-lhes a atenção que necessitam. A infraestrutura deficitária, a escassez de profissionais de saúde e a superlotação agravam ainda mais o quadro. Mas os princípios de isonomia pontuam que cada condenado, idoso ou não, tem de cumprir sua pena.

Diante disso, torna-se legítimo pensar na criação de estabelecimentos penitenciários especializados no acolhimento de idosos. Uma prisão geriátrica, com equipe médica multidisciplinar, espaços adaptados e estrutura voltada às necessidades da terceira idade, poderia atender a essa demanda crescente. Isso frearia a recorrente concessão de prisões domiciliares e a suspensão de penas sob justificativas médicas, que frequentemente geram na população um sentimento de impunidade e de desigualdade perante a lei.

A criação de um certo número de unidades prisionais voltadas para a população idosa poderia, portanto, não apenas garantir o cumprimento da pena com dignidade, como também restaurar a confiança do cidadão comum na Justiça. Afinal, a punição deve ser igual para todos — inclusive para aqueles que só enfrentam a lei quando os cabelos já branquearam.

A nova camisa da Seleção: vermelho, paixão e o fim da seca?

José Horta Manzano

Uma polêmica desnecessária tomou conta das redes com o anúncio da nova camisa reserva da Seleção Brasileira. A cor? Vermelho. A reação? Uma enxurrada de interpretações políticas atribuindo ao tom escarlate significados ideológicos que beiram a comédia. Politizar a cor de um uniforme de futebol é comovente demonstração de estupidez.

A camisa, em si, é um símbolo. E o vermelho, longe de qualquer conotação política, representa exatamente aquilo que tem faltado à Seleção nos últimos tempos: alegria, vivacidade e paixão. Uma cor vibrante, que evoca energia e ardor, atributos essenciais para uma equipe que busca o sucesso.

É preciso lembrar que muitos países, alguns de longa tradição futebolística, usam, no uniforme, cor que não aparece em sua bandeira. O azul da Itália, o laranja da Holanda, o amarelo da Austrália e o azul do Japão são exemplos. A escolha da cor de um uniforme de futebol é uma decisão estética e mercadológica, que busca identidade e impacto visual, não uma declaração política.

O vermelho costuma carregar simbolismos históricos e culturais, mas reduzi-lo a uma única interpretação política é ignorar a riqueza de significados que a cor pode representar. No contexto do futebol, o vermelho grita paixão, força, e a busca incansável pela vitória. É uma cor que exalta a torcida, energiza os jogadores e impõe respeito aos adversários.

Após 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo, a Seleção precisa resgatar a alegria e a garra que a consagraram no passado. Quem sabe essa nova camisa, com sua cor vibrante e carregada de energia positiva, anuncie o despertar de que a equipe precisa. Quem sabe o vermelho, tão associado à paixão e à luta, seja o ingrediente que faltava para que a Seleção volte a erguer o caneco.

Mais do que uma simples camisa, é uma esperança renovada, uma busca pelo resgate da identidade e da glória de nosso futebol. Que o vermelho, então, não apenas seja uma cor, mas assinale o retorno triunfal do Brasil ao topo do futebol mundial.

Putin quer mesmo o fim da guerra?

José Horta Manzano

Dizer que Vladimir Putin deseja o fim da guerra é uma falácia, uma ideia que não resiste à menor análise. Desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o objetivo do Kremlin foi muito além de uma mera operação militar. Para Putin, a guerra não é um acidente de percurso, mas um instrumento essencial de sua estratégia de enfraquecer a Europa e impor-se num novo equilíbrio de forças no continente, quiçá no mundo.

Interessa ao líder russo que o conflito se prolongue indefinidamente – ou pelo menos até que os Estados Unidos se cansem de financiar e apoiar Kiev. Em sua lógica, trata-se de um jogo de paciência: enquanto a Rússia, acostumada a resistir a longos períodos de privações e adversidades, segura o terreno, ele aposta que o Ocidente, sujeito a pressões internas e a ciclos políticos curtos, acabará desistindo.

O cálculo é cínico, mas não desprovido de realismo: sem o respaldo militar, financeiro e diplomático dos EUA e da União Europeia, a Ucrânia se verá sozinha diante do colosso russo. A partir daí, Putin acredita que a resistência ucraniana acabará por desmoronar e que Kiev, isolada e exaurida, terá de se render – ou aceitar a paz nos termos impostos por Moscou.

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Cada trégua aparente, cada discurso em favor da paz vindo do Kremlin deve ser entendido como parte de uma estratégia maior: ganhar tempo, dividir o Ocidente, sem nunca perder de vista o objetivo final. Para Putin, a guerra não é algo a ser encerrado; é uma ferramenta a ser utilizada até a exaustão do adversário.

Enquanto houver esperança de ver o apoio ocidental à Ucrânia enfraquecer, a paz naquela região continuará sendo apenas o que é: uma linda palavra, útil para discursos diplomáticos e “tréguas” de ocasião, mas distante da realidade.

Collor na cadeia, muito bem. E os milhões?

José Horta Manzano

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito após a ditadura militar, marcou a história do Brasil de forma trágica ao ser também o primeiro a sofrer um impeachment. Driblou a Justiça por décadas; vê-se agora finalmente na hora do acerto de contas. Condenado em derradeira instância, foi encaminhado para a prisão. É passo importante para um país que tanto clama por responsabilização. Antes tarde do que nunca.

Mas se a prisão de um figurão mostra que, no fundo, ninguém está acima da lei, resta a pergunta que ecoa por ruas e redes: e o dinheiro desviado? Os milhões roubados de cofres públicos e privados, fruto de corrupção, favorecimentos e obscuras transações, serão recuperados? Ou a punição se resume apenas à perda da liberdade, deixando que o apenado saia da cadeia amanhã tão ilicitamente rico quanto entrou? Talvez a informação tenha me escapado, mas não encontrei no noticiário nenhuma menção a confiscação do dinheiro embolsado ilicitamente.

Prender corruptos é necessário, mas tão ou mais importante é assegurar a reparação do dano causado ao erário ou a outrem. O confisco de bens, a devolução de valores desviados e a indenização pelos prejuízos são passos que precisam caminhar junto com a responsabilização penal. Sem isso, a Justiça corre o risco de virar apenas um espetáculo, sem efetivo efeito reparador para a sociedade. Devolução e multa milionária têm de marchar pari passu com a prisão.

O brasileiro comum, que paga impostos diretos e indiretos, que enfrenta fila em hospitais públicos, que vê a educação sucateada, tem todo o direito de querer mais do que o encarceramento de figurões metidos a besta como esse cavalheiro: exige-se o ressarcimento. Não basta punir o corpo; é preciso recuperar e confiscar o patrimônio rapinado. Sem contar a imposição de multa milionária, correspondente ao valor embolsado.

Collor foi para a cadeia, ótimo. Mas que a Justiça vá além. Que também desfaça o que foi construído à custa da corrupção. Só assim poderemos, de fato, torcer o braço à ladroagem que nos circunda e construir uma democracia séria e respeitada.

E agora, para onde vai a Igreja?

José Horta Manzano

Conduzir a Igreja Católica não é tarefa para amadores – nem mesmo para santos. Desde que Pedro trocou as redes de pesca pelo governo das almas, o sucessor de Cristo na Terra tem vivido o angustiante dilema de apascentar um rebanho que, com o passar das décadas, vem mostrando tendência a afastar-se dos preceitos. Com o papa Francisco, esse drama atingiu novos e intricados capítulos.

Desde o início de seu pontificado, Jorge Bergoglio deixou claro que não seria apenas o “papa simpático” das selfies e dos discursos emocionantes. Ele tinha convicções firmes: uma Igreja pobre para os pobres, aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo e mais preocupada em acolher almas do que em policiar comportamentos. Mas querer é uma coisa; fazer, especialmente no Vaticano, é outra bem diferente.

Francisco viu-se sitiado entre duas frentes surdas: de um lado, a ala conservadora, sempre pronta a acionar o freio de mão dogmático a cada aceno de mudança; de outro, o progressismo ansioso, que muitas vezes lhe cobra avanços com a impaciência típica de quem desconhece a lentidão peculiar do tempo eclesiástico – um “sim” pode levar décadas e um “não” pode durar séculos.

Os conservadores escrutaram com desconfiança cada gesto pastoral do papa: se ele visitava uma prisão, era “populismo”; se falava em mudança climática, era “desvio de missão”. Já os progressistas, que sonham com reformas profundas – ordenação de mulheres, revisão do celibato, reconhecimento de novos modelos de família –, frequentemente se frustraram com a cautela e as meias palavras do pontífice argentino. Entre uns e outros, Francisco governou o barco como pôde, entre escolhos e sargaços.

Para impor uma visão de Igreja, é preciso mais do que carisma: é necessário ser uma força da natureza. Desde João XXIII – aquele que, com candura e astúcia, abriu as janelas do Vaticano ao mundo – não se viu outro papa com perfil verdadeiramente transformador. Paulo VI teve a intenção, mas não o apoio. João Paulo II, o vigor, mas o apego a velhas práticas. Bento XVI, o intelecto, mas não o pulso. E Francisco? Teve o sonho, mas faltou-lhe o exército.

No fundo, a Igreja continua esperando aquele homem providencial capaz de, com mão firme e sorriso sereno, romper o imobilismo e trazer a barca de Pedro a nossos tempos. Desta vez, ainda não foi possível. Mas resta a todos a esperança: essa, sim, uma virtude teologal.

A dança instável do poder global

by Serdar, desenhista turco

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 abril 2025

O tabuleiro geopolítico mundial assemelha-se, cada vez mais, a um palco onde os atores, antes bem definidos em seus papéis, ensaiam movimentos fora do roteiro, sob o olhar perplexo de uma plateia incrédula. O brilho da outrora incontestável hegemonia americana, farol seguro e firme, vai se atenuando de modo lento mas inexorável. Não se trata de apagão súbito, é crepúsculo gradual decorrente de medidas tomadas por Donald Trump. Elas corroem o poderio do próprio país que ele tencionava proteger. O remédio que ele receita revela-se demasiado tosco para fazer bem ao país debilitado. Por tabela, sacode as relações político-comerciais entre as nações.

Esse cenário de relativo declínio americano abre uma fresta de oportunidade para que outras potências reconfigurem a balança de poder, mexendo na dinâmica das relações internacionais por caminhos que ainda não compreendemos mas que já se deixam adivinhar.

Nesse intricado xadrez global, a China emerge com desenvoltura de mestre estratégico. O dragão asiático, impulsionado por décadas de crescimento econômico, consolida a rede de influência que vem tecendo com seus parceiros em nível intercontinental. A ordem tradicional vê-se desafiada. As ambiciosas novas Rotas da Seda, com seus tentáculos de infraestrutura e investimento, redefinem laços comerciais e econômicos, enquanto a ascensão de empresas tecnológicas chinesas alarga as fronteiras da inovação.

Paralelamente, com a modernização constante de suas forças armadas, Pequim projeta uma sombra de poderio militar que açambarca águas e ilhas ao largo de seus mares meridionais. O país não apenas aproveita o vácuo deixado por um possível recuo americano, mas também molda ativamente um novo cenário global, no qual sua voz e seus interesses ocupam lugar central. A questão atual não é se a China ascenderá, mas como essa ascensão se dará e qual será seu impacto na arquitetura mundial.

Enquanto o eixo de poder parece deslocar-se para Oriente, a Europa, até outro dia coadjuvante nos dramas globais, prepara-se para um despertar estratégico. Uma ameaça existencial se agita em suas fronteiras orientais, com o conflito latente e as tensões persistentes a lembrarem a fragilidade da paz no continente. Essa percepção, somada a uma crescente dúvida sobre a efetividade do apoio americano, impulsiona um robusto movimento de rearmamento em diversas capitais europeias. O debate sobre a autonomia estratégica ganha força, impulsionando investimentos em defesa e a busca por maior coesão militar no âmbito da União Europeia. A Europa, consciente de seu peso econômico e de sua herança cultural, está determinada a não ser apenas um espectador passivo na redefinição da ordem global, buscando forjar uma voz unificada e um papel proativo na cena internacional. Contudo, a coordenação entre os diversos interesses nacionais e a superação de antigas rivalidades representam desafios consideráveis nessa jornada rumo a uma autonomia mais ampla.

No extremo oposto dessa dinâmica de ascensão e reafirmação, a Rússia encontra-se imersa num atoleiro que expôs as fissuras de seu projeto de restauração de influência. A aventura militar, concebida para reafirmar sua esfera de poder e desafiar a expansão da Otan, virou um sorvedouro de perdas humanas e materiais, com consequências econômicas devastadoras e um isolamento internacional danoso. A antiga imagem de um poderio militar incontestável ruiu sob o peso da realidade do conflito prolongado, lançando dúvidas sobre suas ambições geopolíticas. O sonho de reviver a velha glória imperial esbarra na dura contingência de um conflito que consome recursos e erode sua posição no cenário global. A saída desse lamaçal e a redefinição de seu papel no mundo pós-conflito representam um formidável desafio para Moscou.

Diante desse panorama complexo, o planeta observa, surpreso a cada episódio. As certezas do século XX, moldadas pelo fim da Guerra Fria e pela unipolaridade americana, se esvaem e cedem lugar a um futuro incerto e marcado por incipiente multipolaridade. A ordem liberal internacional, com suas instituições e seus valores, enfrenta o desafio da ascensão de novas potências com visões de mundo distintas e de rivalidades que ressurgem.

A globalização, outrora vista como força inexorável de convergência, revela suas arestas, suas contradições e seus limites, com o protecionismo e o nacionalismo ganhando terreno. A busca por novo equilíbrio global, capaz de garantir paz e prosperidade num mundo ora interconectado e, paradoxalmente, mais fragmentado, emerge como a grande questão para o século XXI. As respostas, por ora, permanecem nebulosas, enquanto a dança instável do poder global continua a surpreender com movimentos imprevisíveis.

Guarda Pontifical

José Horta Manzano

O território suíço é pouco propício à agricultura. No fim da Idade Média, conforme a população aumentava, as magras colheitas foram se tornando cada vez mais insuficientes para alimentar a todos.

Essa é a razão principal para o êxodo de homens suíços em idade de portar uma arma. Iam trabalhar como soldados mercenários ao serviço de reis e príncipes por toda a Europa. Eram excelentes militares, sérios e dedicados, daí nunca lhes faltarem propostas.

A contratação de soldados suíços para garantir a proteção dos palácios papais data dessa época. Foi papa Júlio II que contratou, em 1505, um batalhão de mercenários suíços para proteger o Vaticano.

De lá pra cá, a Suíça venceu a miséria e seus cidadãos não foram mais obrigados a deixar o país para lutar em guerra alheia. Pouco a pouco, todos os batalhões helvéticos foram desaparecendo. A Guarda Suíça do Vaticano é a derradeira unidade de soldados que ainda lembra aqueles tempos antigos.

A quantidade de guardas suíços a serviço do papa variou através dos séculos. Atualmente, são 135 militares. Uns dizem que é o menor exército do mundo, enquanto outros rebatem afirmando que a Guarda Suíça é apenas um batalhão de polícia. São questões semânticas.

Os guardas têm por missão securizar as entradas do palácio apostólico, da secretaria de Estado e dos apartamentos privados do papa. A segurança privada do papa é o ponto que concentra todas as atenções.

Para se candidatar às funções de guarda, o pretendente precisa ser cidadão suíço, de sexo masculino, solteiro no momento da admissão, de confissão católica; precisa ter reputação imaculada, medir 1,74m ou mais de altura, ter entre 19 e 30 anos de idade. Precisa ainda ter completado a escolaridade obrigatória e ter feito o serviço militar suíço.

A seleção é rigorosa. O pároco do lugar de habitação do candidato será interrogado e deverá confirmar por escrito que o jovem é bom praticante e goza de reputação sem mancha. As primeiras entrevistas são realizadas na Suíça e podem durar mais de 5 horas. O postulante tem de conhecer bem o alemão, que é a língua oficial da Guarda; o conhecimento de outras línguas conta pontos.

O jovem é contratado por dois anos. O trabalho inclui casa, comida, roupa lavada e mais um salário mensal de 1.200 euros (R$ 7.700). Quem vê o uniforme característico, que aparece atualmente em todas as imagens, pode até pensar que é o desenho original, aquele de 1505. Não é bem assim. A vestimenta atual foi criada um século atrás.

As longas lanças (piques) e as alabardas com que os militares desfilam são objeto decorativo para turista fotografar. Em matéria de arma, eles não estacionaram na Idade Média. Estão treinados a utilizar pistolas Glock 19, fuzis de assalto SIG-550 e metralhadoras HK MP7, assim como spray de pimenta. Além disso, todos têm treinamento de esportes de combate.

Levar a breca

José Horta Manzano

O mundo está numa encruzilhada, balançando entre antigas certezas e novas dúvidas. A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA deu o pontapé inicial a essa turbulência civilizacional. Como acontece em todo sacolejo, há os que tombam da carroça, mas há os que se seguram firme e às vezes até saem ganhando quando a poeira se dissipa.

A nuvem de pó ainda não permite ver o horizonte com nitidez, mas já se distingue, apertando bem o olho, a silhueta de um país que vai sair desta encrenca melhor do que nela entrou: é a China. Receio que o Make America Great Again, grito de guerra de Trump, vai levar a breca (antiga expressão hoje traduzida por “ir para o brejo”).

O Grande Irmão do Norte periga sair desta aventura diminuído, e a China, aumentada.

Observação
Breca é palavra antiga, que já está morando no porão do esquecimento. Só sobrevive em algumas locuções que também já estão a caminho da aposentadoria. Por exemplo:

Levado da breca
Ex: É uma criança levada da breca.
É uma criança especialmente levada.

Levar a breca
Ex: Achou que ia ganhar a partida, mas levou a breca.
Achou que ia ganhar a partida, mas deu-se mal.

Com a breca
Ex: Com a breca! Por essa eu não esperava!
Putz! Por essa eu não esperava!
(esta expressão é do tempo do Onça)

Ir-se com a breca
E os bons modos desta gente, onde estão? Foram-se com a breca.
E os bons modos desta gente, onde estão? Perderam-se para sempre.

Sexta-feira da Paixão

José Horta Manzano

As sextas-feiras santas da minha infância eram marcadas pelo som dos sinos das igrejas e pelo perfume das flores frescas que adornavam os altares. Naquela época, a cidade inteira parecia entrar em um estado de contemplação e respeito, enquanto procissões serpenteavam pelas ruas, estreitas e largas, de terra e pavimentadas.

Naquele tempo, todos aprendiam desde pequeninos a diferenciar entre o profano e o sagrado, dois elementos que, como água e óleo, não se podem misturar. Eu me lembro da sensação de reverência que pairava no ar, misturada com a expectativa do sábado de Aleluia, dia em que os maiorzinhos tinham direito a dar com pau num judas de trapo e farrapo, amarrado a um poste. A meninava vibrava e mandava brasa porque tinham todos aprendido que o boneco representava um homem mau que estava ali pagando seus “malfeitos”. E dá-lhe paulada!

Depois vinha o domingo de Páscoa, dia especial em que todos se lançavam um “–Boa Páscoa!”. Eu não entendia bem por que razão os adultos externavam votos de que o dia de festa fosse bom. Pois o dia era, necessariamente, bom! Era domingo, não havia aula e, além de tudo, ganhava-se ovo de chocolate, um acontecimento!

Chocolate, hoje em dia, é mais disponível. Encontra-se em cada esquina e tem preço abordável. Naquele tempo, na venda do Seu Manuel, disponível era só doce de batata doce. E maria-mole.

Nas inchadas metrópoles brasileiras atuais, será que ainda se veem passar procissões?

Trapaça

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Futebolista de um time do Rio de Janeiro convocou família e amigos para organizarem, juntos, uma fraude. O objetivo era forjar um rápido enriquecimento ilícito para a numerosa parentada. Apostou-se na certeza de recebimento de cartão amarelo pelo futebolista. Tanto o rapaz fez, que conseguiu chamar a atenção do árbitro. E levou o tal cartão, fazendo feliz a família toda, cada um embolsando o prêmio correspondente a sua aposta.

Numa primeira apreciação do caso, o promotor havia concluído que essa fraude é comum no futebol brasileiro e que não valia a pena repreender.

Sem ser especialista em futebol (e muito menos em aposta esportiva), discordo do promotor. Não me parece normal que um crime, por ser cometido frequentemente e por muitos indivíduos, seja menos grave. Não estamos aqui falando de futebol de várzea, mas de jogo profissional.

Com a prática da fraude, os infratores estão:

  • passando a perna em outros cidadãos que apostaram certinho, sem embuste;
  • frustrando a veracidade daquilo que um dia foi “jogo bonito” e que hoje está mais para “me engana que eu gosto”;
  • incentivando colegas futebolistas, principalmente os novatos, a seguir o mesmo caminho e perpetuar a trapaça como modo de enriquecimento pessoal.

Longe do entendimento do mencionado promotor, entendo que cidadãos como o ora indiciado jogador devem ser punidos com rigor, incluindo algumas semanas de cadeia firme. Entre as ferramentas da prevenção, um exemplo de firmeza das instituições vale mais que mil ameaças.

  • Crime em bando organizado.
  • Crime contra a transparência do esporte nacional.
  • Fraude visando a lograr o grande público.

Vejam que, para tipificar o “malfeito”, denominações não faltam.

Família que trapaceia unida permanece unida? Tremai, famílias trapaceiras, tremai!

Imagens que intrigam

José Horta Manzano

Certas imagens me intrigam. Por exemplo, a foto estampada acima, tirada diante do hospital brasiliense que atualmente abriga Jair Bolsonaro.

Quando saiu a notícia de que o antigo presidente estava passando por uma intervenção cirúrgica complicada e de alto risco, muita gente deve ter se recolhido e pedido uma graça a seu santo de devoção. Muitos pediram proteção para o doente. Pode até ser que outros tenham formulado pedido diferente.

É normal e universal que um indivíduo se recolha para conectar-se com suas entidades protetoras. Em princípio, isso se faz em momentos íntimos, num ambiente caseiro e calmo. É nesse ponto que a foto me intriga.

Supõe-se que o retratado seja um apoiador de Bolsonaro em posição de oração. Se eu encontrasse o cidadão, ia fazer-lhe diversas perguntas. São caraminholas que não me saem da cabeça.

  • Por que razão preferiu prostrar-se em local público, à luz do dia, à vista de todos?
  • Qual o motivo de ter desfraldado nossa bandeira nacional, posicionada como se fosse altar?
  • Numa oração em que o fiel pede graças ao Altíssimo, a palma das mãos dever estar voltada para cima, simbolizando a espera das bênçãos que descem a este vale de lágrimas. Já o cidadão da foto voltou a palma das mãos para o hospital onde jaz o antigo presidente, numa postura que pode fazer escorregar as graças. Por que motivo voltou as mãos para o edifício? Acredita que, em vez de descer do céu, as bênçãos sejam emitidas pelo próprio ídolo recém-operado?

Quem entendeu o propósito do peregrino da foto, que me desculpe. Eu não entendi. Quando uma situação me parece fora dos eixos, gosto de tentar esclarecer.

Ocaso dos populistas

José Horta Manzano

Lula anda se comportando feito barata acuada. Corre pra um lado e pra outro, hesita em trocar ministros, tira da cartola um programinha populista aqui, outro ali, tudo de circunstância, sem consistência. Mostra, a cada dia, não ter programa de governo. Na sua cabeça, que parece ter estacionado no tempo de seus mandatos anteriores, imaginou que pudesse se comportar como Midas moderno, resolvendo todos os problemas com um toque. Não está dando certo.

Bolsonaro é outro que anda deslizando, cada vez mais enrolado. Nos bons tempos em que lhe serviam café quente, vencia todas e agredia sem medo todas as autoridades da república. Pairava, inatingível, acima da ralé e da grã-finada. Hoje o vento mudou. Não entra mais em palácio. Seus comparsas estão presos ou à beira de o ser. Desconcertado, agarra-se a qualquer miragem que lhe pareça poder livrá-lo da cadeia com a qual já tem encontro marcado.

Trump está decepcionando os que dele esperavam um poderoso “abre-te sésamo” que projetasse os EUA num futuro brilhante de riqueza e prosperidade. Suas promessas de campanha andam mal das pernas. A expulsão de 11 milhões de trabalhadores clandestinos está se verificando meta inatingível, fora de qualquer cogitação. O conflito ucraniano, que seria resolvido em 24 horas, foi posto de molho. Bombas continuam explodindo na capital ucraniana. O vaivém dos impostos de importação mostrou, depois de perturbar as finanças do planeta, que não tinha vindo pra ficar, que era só uma ameaça. Caiu mal.

Putin continua lá no seu canto, jururu, sem conseguir vencer a guerra que declarou contra um vizinho bem menor e menos poderoso que ele. Ele também há de estar perdendo a confiança em Trump, aquele que prometia acabar com a guerra em um dia.

Milei, dizem, também anda inconformado. Seu sonho teria sido que a Argentina, e não o Canadá, tivesse sido convidada a se tornar o 51° estado americano.

Marine Le Pen é deputada francesa da extrema direita populista. A cada eleição para a presidência da república, seu nome na urna é tão infalível quanto brigadeiro em festa de criança: está sempre lá. E já faz umas duas ou três vezes que passou para o segundo turno. Pois Madame acaba de receber uma pena de prisão e de cinco anos de inelegibilidade. Em vez de prisão, terá de andar com tornozeleira eletrônica, mas a inelegibilidade é pra valer: não poderá disputar a próxima eleição.

Os que mencionei não são os únicos, há muitos outros líderes populistas no mundo. Falei dos que estão mais próximos de nosso universo. A julgar por eles, este ano da graça de 2025 parece assinalar o fim – ou pelo menos uma pausa – na pestilenta vaga de populismo que nos circunda.

Tomara que a pausa dure bastante tempo. Tomara que as próximas presidenciais brasileiras não tragam nenhum candidato populista na urna. Uma eleição sem Lula e sem Bolsonaro será uma bênção.

São Benedito é santo forte. Não sei se seus braços alcançam Le Pen, Milei, Putin e Trump. Mas sei que têm poder em Brasília.

Sem Lula e sem Bolsonaro(s), por favor, meu Santo!

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

Até o começo deste século, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país hoje ostentam um desinibido «Made in China». Não dá pra dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, que seria um exagero. Mas a desconfiança nos produtos chineses vem se amenizando ano a ano.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido em favor da China. Na França, grande país produtor de pianos, ninguém mais fabrica esse instrumento. O Brasil que, em meados do século XX contava com imensa população infantil, tinha grandes fábricas de brinquedo; fecharam-se uma após a outra, não sei se terá sobrado alguma. A indústria têxtil suíça, que já teve fama mundial, desapareceu. E assim por diante.

Até muito poucos anos atrás, não se viam automóveis chineses na Europa. Com bom marketing e, sobretudo, com preços imbatíveis, os carros elétricos chineses estão fincando pé no continente. Com a antipatia que Mr Musk tem espalhado pelo mundo, a venda dos carros de sua marca Tesla tem escorregado ladeira abaixo deixando campo livre para os chineses.

Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Para salvar a face, restam os aviões da firma Embraer, florão da indústria nacional, que irradia uma imagem pra lá de positiva de nosso castigado país. Por sorte, ainda não foi nacionalizada. Já imaginaram nossa maior indústria de excelência tornar-se um cabide de empregos, “feudo” do Centrão & associados? Cruz-credo!

Boicote

José Horta Manzano

Gosto de comer apimentado. Para os dias em que a comida não está picante o suficiente, tenho sempre à mão um vidrinho do molho de pimenta Tabasco, feito justamente pra servir à mesa. Duas gotinhas e pronto: um prato sem graça vira uma iguaria.

Outro dia, passeando os olhos pela mesa da cozinha e lendo etiquetas de embalagem, um de meus passatempos preferidos, me dou conta de que o Tabasco é feito no país de Trump! De fato, é importado direto da Luisiana.

Me senti meio aborrecido. Com a agressividade comercial de Donald Trump fazendo o mundo inteiro temer pelo amanhã, não é confortável descobrir que estou agindo contra a corrente – em vez de me abster, continuo comprando produtos americanos.

Não é tanto por vingança, que não tenho nada contra eles, mas é questão de solidariedade para com os países que neste momento se sentem esmagados e banidos do comércio mundial.

Já que o assunto era Tabasco, tive curiosidade de saber um pouco mais sobre o produto. Descobri que já faz século e meio que é produzido na Ilha Avery, situada nos alagados do estuário do Rio Mississipi. Quem deu nome ao lugar foi a família Avery, franceses originários da Normandia, que por lá se estabeleceram nos anos 1830 e foram proprietários daquelas terras. Era o tempo em que a Nova Orléans era a porta de entrada da América francesa.

Imaginei vasculhar a lojinha do indiano aqui perto de casa. (Digo indiano, mas talvez seja paquistanês, não sei, o fato é que não fala língua nenhuma além da sua, fato que dificulta a compreensão.) A loja é minúscula, mas tem uma imensa quantidade de produtos espremidos nas prateleiras cambaleantes. Há centenas de produtos indianos, paquistaneses e de outras lonjuras do Extremo Oriente, além de artigos do mundo todo, incluindo latino-americanos e até brasileiros. Um bazar sortido.

Mesmo antes de ir ao indiano, já considerei que não vai ser fácil encontrar substituto para o Tabasco. Com todas aquelas embalagens escritas em caracteres extremo-orientais e com o balconista que não entende nada, estamos bem arranjados. Melhor não trocar o certo pelo duvidoso.

Está resolvido, fico com o Tabasco. Mas tomo uma resolução: em vez de duas gotas, vamos pingar uma gota só em cada prato.

Tenho certeza de que essa prova de desprendimento patriótico vai ajudar a cortar pela metade o PIB americano. Trump que se prepare, que comigo a conversa é apimentada.

Indignação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para espanto da plateia, o filósofo francês Luc Ferry afirmou certa vez durante uma palestra no Brasil que a indignação não pode ser considerada em absoluto um sentimento moral. E isso por uma razão muito simples: só nos indignamos com as ações e atitudes dos outros, nunca com nossas próprias. Temos sempre uma desculpa pronta para justificar qualquer ato moralmente reprovável que porventura tenhamos cometido: “Eu estava transtornado, perdi a cabeça”, “Estava sem dormir e tinha bebido muito”; “Só revidei depois de anos de injustas agressões contra mim”; “Não quis ofender ninguém com meu comentário, apenas usei as palavras erradas no calor do momento”.

Curiosamente, todas essas circunstâncias ‘atenuantes’ tendem a ser desconsideradas quando o que se está avaliando é a transgressão cometida por terceiros. Então, se sob o manto da moralidade esconde-se apenas a vontade de prejulgar e condenar, não faz sentido pedir isenção antecipada para os próprios desvios éticos, não é mesmo? Se eu acho que as contingências devem sempre ser levadas em consideração na análise da culpabilidade ou não da pessoa que cometeu a infração ética, então não passa de hipocrisia o arroubo passional condenatório demonstrado instantaneamente pela imensa maioria ao saber de uma notícia escabrosa de jornal, tevê ou de portais de notícias da Internet.

A indignação tem o mau hábito de reeditar, sob uma ótica dissimulada, a luta do ‘nós x eles’, colocando em lados opostos as ‘pessoas de bem’, amantes da verdade, da justiça e da ordem, ou seja, todos nós que nos pautamos pelas regras civilizatórias mais elementares e somos tementes a Deus, contra eles, os bandidos, os psicopatas, os genocidas, os corruptos e os que “não têm Deus no coração”. Montados em nossa alegada superioridade moral, rejeitamos até mesmo a ideia de incluí-los na categoria de humanos: são todos monstros, animais, aberrações da natureza. Assumir que a condição humana abrange tanto um lado luminoso de altruísmo quanto um lado sombrio de busca desenfreada pela autogratificação a qualquer preço é algo inapreensível pelas mentes honradas dos indignados crônicos. E, quando se revela que, em muitos casos, os causadores de nossa indignação eram anteriormente cidadãos pacatos, tímidos e gentis, essa divisão desaba por absoluta falta de sentido.

A ciência ainda não conseguiu identificar com clareza quais fatores biológicos, neurológicos e psicológicos/psiquiátricos estão na base de tanta torpeza humana. A discussão não termina nunca: a pessoa nasce assim ou é o ambiente no qual ela está inserida que favorece a eclosão de surtos de violência? A perversidade é fruto de genes deficientes ou de lares disfuncionais? Ela atinge todas as classes sociais ou é exclusividade das populações marginais? O que resta exaustivamente comprovado é que nunca nos consideramos pessoalmente sujeitos a cair na criminalidade, acreditamos ser imunes à doença mental e apostamos que nunca perderemos a capacidade de empatia e autocontenção, mesmo se submetidos a condições degradantes de vida e intenso estresse cotidiano.

Mas, se Luc Ferry está certo, que nome dar, então, ao sentimento que nos assola ao sabermos das atrocidades cometidas diariamente por indivíduos pertencentes a todos os setores da experiência humana? Talvez se pudesse denominar aquela sensação de travamento do diafragma, falta de ar, aperto no peito e nó na garganta de revolta, aversão, repulsa, estarrecimento ou qualquer outro sinônimo, mas nenhum deles parece dar conta de todo o peso emocional contido nos contínuos atentados à dignidade humana. De todo modo, cabe perguntar, parafraseando Shakespeare: se o sentimento de indignação tivesse outro nome, seria por acaso mais fácil de absorver, metabolizar e transformar?

E ainda, por que a tônica dos dias atuais parece ser a indignação compulsiva, em série? Somos expostos todos os dias a uma série infindável de notícias indignantes, veiculadas sempre em tom alarmista – seja no plano da nova ordem geopolítica, das guerras expansionistas e genocídios, as referentes à emergência climática, ao negacionismo científico ou aos danos psicológicos causados pelo avanço da IA, isso sem falar dos horrores próprios da criminalidade urbana.

O maior legado que minha professora de psicologia social, Ana Verônica Mautner, me deixou foi a ideia de que “Às vezes, é preciso não compreender”. Se, ao invés de tentarmos explicar os comos e os porquês da morte da empatia e dos valores iluministas, nos deixássemos afundar na perplexidade e na incompreensão, talvez fosse mais fácil encontrar respostas para reeducar nossas crianças e jovens. Só assim nos daríamos conta de que os mesmos demônios nos habitam.

Uma das consequências mais devastadoras da indignação em série é que ela permite a criação de uma espécie de calo emocional que acaba nos insensibilizando para a dor e o sofrimento causados nesta situação e nos preparando emocionalmente para reagir somente a crimes ainda mais perversos na próxima. É consequência da assim chamada banalização do mal.

Depois de muito pensar, acabei me dando conta de que não há nada de aleatório na divulgação espetaculosa de tantos fatos indignantes. Ao contrário, há uma intencionalidade difusa razoavelmente fácil de identificar por trás das manchetes: a necessidade de gerar a sensação de desamparo e desesperança crescentes na sociedade para, em consequência, vender a ideia de que só um líder absolutista com punhos de ferro poderá dar fim a toda espécie de injustiças e nos guiar rumo à eterna bem-aventurança. Trump, Bolsonaro e Milei estão aí para provar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.