Duas histórias para pensar em casa

José Horta Manzano

Primeira história
O jovem Alcebiades é um bom rapaz, sorridente, generoso, sempre pronto para dar uma mão a quem precisa. Seu defeito maior é vestir-se como gosta, apresentar-se ao mundo como lhe dá na telha. Não dá muita bola paCrete rouge 2ra o que os outros vão pensar. Ele é assim, uai.

Um dia, resolveu mandar rapar a cabeça nas laterais, deixando apenas uma faixa de cabelo da testa até a nuca. Pintou a crista de vermelho e modelou-a com gel ― parece que está na moda. Mandou fazer alguns piercings entre sobrancelhas, orelhas e lábios. Sem esquecer da língua, naturalmente.

Cebide, como é conhecido, gosta de contacto com gente e resolveu candidatar-se a um emprego de atendimento ao público. Currículo para lá, telefonema para cá, tudo correu bem. Foi chamado para entrevista.

Para se apresentar pessoalmente, Cebide achou que uma boa camada de sombra em torno dos olhos lhe daria um ar mais sério. Vestiu-se de negro dos pés à cabeça e foi. Não conseguiu passar da portaria da firma, o coitado. Foi barrado pelo segurança. Teimou, garantiu que tinha entrevista marcada. O leão de chácara foi-se informar e, meio a contragosto, deixou-o passar.

A moça da recepção mandou-o sentar-Crete rouge 1se numa salinha acanhada, lá no fundo do corredor. Depois de uma boa meia hora de espera, ela voltou para avisar que, infelizmente, o selecionador tinha tido um imprevisto e não ia poder recebê-lo. Cebide foi-se embora desenxabido e nunca mais conseguiu marcar outra entrevista lá.

Nosso amigo chegou até a desconfiar que a recusa pudesse ter sido causada por sua aparência física. As pessoas são preconceituosas, sacumé, não conseguem imaginar que há coisa boa por detrás de uma aparência surpreendente. Mas resolveu deixar pra lá. Achou que não valia a pena, que a vida é assim mesmo. Da próxima vez, havia de dar certo.

.:oOo:.

Segunda história
Um casal de classe média alta, já de idade madura, tinha muita vontade de ter um filho pequeno. Por algum motivo, tomaram a decisão de adotar. O destino é insondável. Os dois, brancos, tornaram-se pais adotivos de um menininho de pele negra. A história não registrou detalhes, mas é de crer que os três viviam felizes.inter-racial adoption

Um dia, foram visitar uma concessionária de automóveis importados da Alemanha, daqueles potentes, raçudos, de forte cilindrada. Coisa que não está ao alcance de qualquer mortal. Levaram o menino junto.

A um dado momento, enquanto o casal se preparava a entreter-se com o gerente da loja, o filho afastou-se alguns metros. O dirigente não se deu conta de que os três estavam juntos. Ao ver um menino pequeno e negro dentro de uma concessionária daquele porte, tomou-o por um intruso e não teve dúvida: fez que fosse enxotado.

Chocados, os pais julgaram que o acontecido não podia ficar por isso mesmo. Passando por cima do gerente, endereçaram uma reclamação diretamente à diretoria do grupo automobilístico. E não pararam por aí: criaram uma página numa dessas redes sociais para dar publicidade ao episódio. Só não deram queixa à polícia. Por enquanto.

.:oOo:.

Epílogo
A primeira história é totalmente inventada. Caso se assemelhe a algum fato real, terá sido mera coincidência. Já a segunda é verídica. Pode ser conferida no artigo publicado pela Folha de São Paulo faz pouco mais de duas semanas.Adotado 2

Parece-me interessante traçar um paralelo entre esses dois fatos que põem em evidência casos de gente bruscamente descartada com base na aparência externa. Surgem muitas perguntas , mas, infelizmente, poucas respostas.

O Cebide ficou quieto, enquanto o casal estrilou. Por que essa diferença de reação? Será porque o primeiro é pobrezinho enquanto os outros estão bem de vida? Será porque o preconceito que vitimou o casal foi classificado como racial, ao passo que o que prejudicou o Cebide foi apenas facial? Se o menininho enxotado não fosse filho do casal branco, será que teria tido direito a página de desagravo no facebook? Se o Cebide fosse um figurão, será que teria sido tratado com a mesma sem-cerimônia?

A rejeição ao diferente é inerente a todo ser vivente. É síndrome ancestral. As leis de quotas raciais que se propagam hoje em dia perigam maquiar o problema sem resolvê-lo. Pelo contrário, o risco é de que venham a azedar ânimos e a criar uma vala entre “os de cá” e “os de lá”. Em resumo: o resultado pode ser exatamente o oposto do que se pretendia.

Quando várias comunidades, sejam elas étnicas ou raciais, são obrigadas a conviver, enorme cuidado tem de ser tomado antes de votar leis que favoreçam uns em detrimento de outros. No Brasil, esse assunto tem sido tratado com leviandade.

.:oOo:.

Os picaretas

José Horta Manzano

Muitos anos atrás, um personagem da vida política declarou que o Congresso brasileiro era uma espécie de antro em que vadiavam «uns 300 picaretas». Talvez você se lembre quem disse isso. Eu esqueci.

Pode até ser que que o figurão tivesse razão. Aliás, nos tempos em que pronunciou sua frase lapidar, ele mesmo se candidatou ― e foi eleito ― deputado federal. Aconteceu na época em que foi preparada, temperada, cozinhada e servida ao bom povo a fabulosa ‘constituição-cidadã’ de 1988, ainda hoje em vigor. Com algumas centenas de correções e ajustes, naturalmente.

A seu favor, diga-se que o incriminador da picaretagem não teve atuação destacada na elaboração da Lei Maior. Por certo, havia de ter outras preocupações pela cabeça, que ninguém é de ferro.Picareta

Não me lembro se a constatação foi exprimida antes ou depois de ele ter sido eleito parlamentar. Pouco importa. Não consta que tenha jamais desmentido sua visão do Executivo, o que nos leva a crer que, até hoje, mantenha sua opinião. Está aí um homem de convicções firmes!

Infelizmente, estes últimos anos, numerosos indícios têm corroborado a afirmação do mandachuva. Ainda estes dias, houve troca de cadeiras em nosso parlamento tupiniquim. O recém-eleito presidente do Senado Federal, terceiro personagem na linha sucessória da presidência da República(!) , é alvo de processos criminais.

Um outro personagem, já condenado criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de assumir o cargo de deputado que lhe cabe. Com toda a pompa e a dignidade que lhe são devidas.

Para coroar, acabamos de tomar conhecimento da decepção de um nobilíssimo representante do povo, por acaso o deputado federal mais votado do País nas últimas eleições. Antes de ser levado pelos braços do povo à Casa dos Representantes, exercia o ofício de palhaço.

Tiririca quer voltar ao antigo mister. Era de esperar. A sabedoria popular, em sua secular erudição, sempre profetizou: cada macaco no seu galho. Tudo indica que fazer palhaçada é mais gratificante que fazer picaretagem. Talvez até mais rendoso.

Que ninguém mais acuse os parlamentares brasileiros de fazerem palhaçada! O nome do jogo é picaretagem. No duro.

Para quem esteve em cura de sono estes últimos dias e perdeu a notícia, aqui está a reportagem da Folha de São Paulo, que não me deixa mentir.

Plágio? (parte 2)

José Horta Manzano

O artigo de ontem rendeu pano para mangas. Dizem que os adolescentes querem todos ser diferentes vestindo-se todos da mesma maneira. Com gente grande não funciona exatamente do mesmo jeito.

É bem verdade que há gente de comportamento um tanto excêntrico ― antigamente, diríamos esquisito ― , que elege um modelo e passa a vida tentando imitá-lo, mas a maioria não chega a tal extremo de mimetismo.

Falei em plagiato porque me surpreendeu a semelhança entre duas canções populares, nada mais. O caso me deixou a impressão de ir além de uma simples coincidência.

Nunca tinha dado maior atenção a esse assunto, mas uma boa amiga e fiel leitora me chamou a atenção para outros casos tanto ou mais contundentes do que o que citei.Notas musicais

Andei pesquisando e me dei conta de que há muito mais plágios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia. Peraí!  O que eu acabo de dizer não é plágio, é citação, coisa bem diferente. Citação (ou paródia) é uma piscadela, uma reminiscência que se insere aqui e ali para florir um texto ou uma melodia. Copiar trechos inteiros de obra alheia e assinar embaixo são outros quinhentos.

Uma rápida busca me revelou inúmeras acusações de plágio. Há material para livros inteiros, um artiguinho não basta. Quero só apontar alguns casos mais flagrantes.

O ‘rei’ Roberto Carlos foi acusado, anos atrás, de se apoderar de uma canção de um músico diletante. Processado pelo autor, defendeu-se. Passou uns 15 anos interpondo recursos, mas não houve jeito: foi condenado. Veja aqui.

O crítico de arte Luís Antônio Giron  já publicou diversos artigos apontando trechos de composições de Tom Jobim que se assemelham estranhamente a obras de outros autores. Os cinco últimos parágrafos deste artigo publicado na Gazeta Mercantil são edificantes.

Lúcio Ribeiro e Pedro Alexandre Sanches, em texto estampado na Folha de São Paulo, vão pelo mesmo caminho. Lançam uma sombra de dúvida sobre a autoria de Águas de Março.

Tem um caso que merece a palma de prata. É a parecença entre o Prelúdio n°4 de Frédéric Chopin e A Insensatez de Antônio Carlos Jobim. As peças são gêmeas univitelinas. Veja o inteligente entrelaçamento.

And the winner is….  A palma de outro vai para… Lamartine Babo! Torcedor fanático do América Futebol Clube, não hesitou em copiar a canção americana Row Row Row e transformá-la em hino de seu time. Sem tirar nem pôr.Violino

Confira:

Row Row Row, de Joy Hodges

Hino do America F.C., de Lamartine Babo

Vamos copiar o Ai, se eu te pego, assinar embaixo, e entrar numa grana firme? Que tal?

Em boca fechada…

José Horta Manzano

Artigo da Folha online de 29 de janeiro nos dá conta de uma palestra proferida por um coronel. Em sua fala, o militar exprime temor de que ataques cibernéticos possam «acabar com a Copa do Mundo de 2014».

Tenho dois reparos a fazer. O primeiro vem perfeitamente expresso por um velho provérbio italiano: «certe cose no si dicono, si fanno», certas coisas não se dizem, se fazem.Psiu 1 Nós outros temos também um refrão, muito popular, que dá o mesmo recado. Costumamos dizer que «o segredo é a alma do negócio». No frigir dos ovos, os dois ditados vão na mesma direção. Lá, como aqui, a sabedoria popular costuma pairar acima de atitudes impensadas.

Anunciar aos quatro ventos que um hipotético malfeito pode até vir a realizar-se não ajuda ninguém, nem esconjura o perigo. Pelo contrário, pode até dar más ideias aos que, mal-intencionados, não tinham pensado nisso. É atitude contraproducente.

Certos riscos podem ― e devem ― ser sopesados, avaliados, considerados no âmbito de comitês, círculos e departamentos criados justamente para esse fim. Não é prudente subir ao telhado e gritar ao povo o nome do perigo e a estratégia que será usada para combatê-lo. Pouco estímulo já basta para que mentes malfazejas passem do plano ao ato.

Piratas, que antes arriscavam a pele ao atacar caravelas a fim de subtrair-lhes o precioso carregamento, hoje se ocultam por detrás da tela anônima de seus computadores. E podem ser tanto ou mais maléficos do que foram seus predecessores. A ver meu, a prudência impõe a discrição em assuntos sensíveis como esse de que o coronel tratou.

O segundo reparo que tenho a fazer é ainda menos alentador. Tantos são os possíveis ― e altamente previsíveis ― problemas que atropelarão nosso País durante a Copa e os Jogos Olímpicos, que a venda de bilhetes falsos parece um mal menor, se é que assim me posso exprimir.

Psiu 2Logística, acomodação, alimentação, intercompreensão, criminalidade corriqueira não dependem de especial malevolência de mentes tortuosas. São empecilhos que já estão aí e que atormentam nacionais e estrangeiros a cada dia. Com toda certeza, estorvarão também as manifestações esportivas previstas. A fala do militar só veio borrifar um pouco mais de combustível às brasas que dormitam.

Às vezes, é melhor trabalhar calado.

Melhorou um bocado

El Malecón

El Malecón

José Horta Manzano

Dia 8 de janeiro, postei o texto De quoi je me mêle?  para expressar minha indignação contra o que me pareceu uma intromissão irresponsável da República Federativa do Brasil nos assuntos internos da vizinha Venezuela.

Mais do que a ingerência explícita, chocou-me o fato de a manifestação impertinente, que empenhava nossa nação, ter partido de um mero assessor especial da presidência da República.

Uma semana depois, em 15 de janeiro, nova intrusão ― anônima, é verdade, mas presumivelmente oriunda do mesmo gabinete ― obrigou-me a voltar à carga. Argumentei em novo post ― Ah, se Bolivar soubesse… ― que a Venezuela não era um protetorado brasileiro. Não cabia a nossas autoridades dar pitacos em seus assuntos internos.

Não acredito que os mandachuvas de Brasília se deixem guiar por minha visão de mundo, embora ache modestamente que, se o fizessem de quando em vez, talvez não lhes ficasse mal.

Deve-se dar a César o que lhe pertence. E razão, como sabemos todos, dá-se a quem tem. Hoje quero exprimir meu alívio. Finalmente, o Itamaraty deu mostra de que ainda guarda um resquício de bom senso. Alvíssaras!

A Agência EFE, em notícia repercutida por diversos órgãos de imprensa, informa que o titular das Relações Exteriores de nossa República ― ministro que leva o adequado e conveniente nome de Antonio Patriota ― foi muitíssimo mais prudente sobre o assunto.

Em entrevista coletiva, nosso chanceler evitou dar diretivas ao governo venezuelano. Diferentemente do desastrado assessor especial, ponderou que cabe às autoridades do país vizinho encontrar solução para o imbróglio político em que se enfiaram. A meu ver, ainda falou mais do que precisava, talvez levado pelo entusiasmo do momento. Assim mesmo, manteve postura profissional e não cometeu o irreparável. Veja aqui e aqui.

Talvez nosso iracundo assessor especial tenha sentido o desaveu, o discreto puxão de orelha. Talvez não. Em todo caso, permito-me dar a ele uma sugestão: faria melhor se decidisse passar uma temporada numa certa ilha caribenha. Se faltar dinheiro para a passagem, posso até oferecer pequena contribuição para completar a vaquinha. Meu óbulo não há de ser pesado, pois periga sermos muitos a querer contribuir.

A brisa suave que sopra por sobre o malecón(*) e o mormaço tropical não hão de lhe fazer mal. Poderia até aproveitar para congraçar-se com velhos companheiros, hoje já companheiros velhos.

Entrevistas coletivas não são comuns naquelas paragens. O silêncio evitaria, assim, que o mundo ouvisse o santo nome de nossa República atrelado a uma percepção política que estacionou nos anos sessenta.

Não custa sonhar, não é mesmo?

(*) Malecón é o nome do passeio marítimo de Havana.

O Brasil e a saúde

José Horta Manzano

Uma vez, de visita a uma unidade de saúde de Porto Alegre, um mandachuva graúdo, muito conhecido, daquele tipo que costuma dizer o que lhe vem à cabeça, saiu-se com esta: “Eu acho que não está longe da gente atingir a perfeição no tratamento de saúde neste país”. O séquito anuiu e aplaudiu. Cortesãos costumam dizer amém a tudo o que seu mestre diz.  Parece que houve até quem acreditasse na gabarolice.

Passaram-se 7 anos. Um artigo da Folha de São Paulo deste 18 de janeiro escancara uma realidade a anos-luz do que havia declarado o figurão. Nunca saberemos se ele foi sincero quando disse o que disse ou se sabia que suas palavras levianas visavam apenas a aparecer no jornal televisivo.Boné enfermeiro

Segundo a investigação da Folha, é conveniente que os paulistanos fujam de dores lombares e de fraqueza nas pernas. O exame necessário para encontrar a origem do mal tem fila de espera de 35 meses (= 3 anos!). Já para os que precisam se submeter a uma colonoscopia, o futuro é mais risonho: apenas 10 meses de paciência são suficientes.

Na espera de conseguir a graça de uma consulta ou de um exame na maior, mais rica e mais bem aparelhada capital brasileira, perto de 700 mil compatriotas usufruem seu quinhão da quase-perfeição alardeada em 2006. Continuam na fila.

Il faut choisir entre la peste et le choléra, dizem os franceses quando se defrontam com um dilema, com uma escolha obrigatória entre duas opções ruins.

Que Deus ajude os trabalhadores brasileiros, aqueles mesmos que entregam ao governo parte de seu salário magro sem lograr reavê-lo sob forma de cuidados públicos com a saúde.

Dia destes, vão ter de escolher entre câncer e aids. E isso não é metáfora.

Life is cheap

Mãos ao alto 1José Horta Manzano

Pelo fim dos anos 70, numa época em que eu trabalhava para uma firma americana estabelecida em São Paulo, recebemos um visitante dos EEUU. Lá pelas tantas, em meio a um bate-papo despretensioso, não me lembro mais por que razão, ele se saiu com esta: life is cheap in this country ― a vida é barata neste País.

Levei um bom tempo tentando decifrar a mensagem do forasteiro. Certamente ele não se referia ao preço dos gêneros alimentícios, nem ao salário dos funcionários ― que, naquela época como hoje, andava um bocado defasado se comparado com os países mais adiantados.

Com o passar dos anos, confrontando fatos brasileiros com acontecimentos internacionais, fui pouco a pouco me dando conta do alcance das palavras do visitante. Acredito que hoje consigo decodificar o significado delas.

Faz umas duas semanas, os jornais deram, nas páginas internas, a notícia de que o dono de um restaurante havia assassinado um cliente. O motivo? Uma discussão provocada por uma reclamação sobre uma diferença de 7 reais na conta da refeição. Sete reais! Uma vida ceifada por três dólares! Para reavivar memórias curtas, aqui está a informação publicada pela Folha de São Paulo.

Estes dias, repeteco fúnebre. Desta feita, foi a vez de o dono de um restaurante ser presenteado com bilhete de ida simples para o necrotério em consequência de um litígio sobre uma conta de 8 reais. Oito reais! Quem esteve passeando na Polinésia semana passada pode se atualizar relendo a informação dada pelo Correio Braziliense.

Poderia ter acontecido com o distinto leitor, com a elegante leitora, com qualquer um de nós. Ou não?

A notícia de que um jovem desequilibrado trucidou 20 pessoas numa escola americana, faz alguns dias, chocou e comoveu o mundo. Baldes de tinta foram gastos em tentativas de explicação do tresloucado gesto. Jornais da Guatemala, da Somália e da Mongólia repercutiram a pavorosa informação.

Que eu tenha visto, salvo escassas notas internas de nossa mídia, poucos se interessaram pelos homicídios tupiniquins. Um filósofo de botequim poderia até chegar à conclusão de que massacres só chamam a atenção quando as vítimas são numerosas. Ou ricas e famosas.

Vamos, minha gente, matutemos um instante. Cometer o irreparável contra um semelhante já era, por si, uma barbárie condenada pelos neandertais, cinquenta mil anos atrás. Fazê-lo hoje, em pleno século XXI, por um punhado de reais ultrapassa o entendimento. É surrealista.

Mãos ao alto 2Desgraçadamente, como sabemos todos, selvagerias como essas acontecem diariamente em nosso País. As duas que mencionei só tiveram direito a menção na imprensa por terem sido perpetradas em recintos públicos de grandes cidades. Bateladas de acontecimentos semelhantes passam em branco. Sabe Deus o que se comete quotidianamente nos grotões de Santa Sebastiana do Fundão ou de Jururu d’Oeste.

Onde está o erro? Por que é que a constatação do visitante de 35 anos atrás permanece tão atual? De que serve adotar linguagem politicamente correta, patrocinar manifestações esportivas prestigiosas, trombetear crescimento econômico, enquanto o valor da vida humana continua tão insignificante?

Ah, se Bolivar soubesse…

José Horta Manzano

«Brasil pede que Venezuela realize eleições se Chávez morrer», proclamou a Folha de SP.

O Jornal do Brasil foi mais incisivo: «Brasil quer (sic) novas eleições em caso de morte de Chávez».

A Agência Reuters seguiu na mesma linha: «Exclusivo: Brasil quer (sic de novo) eleição na Venezuela se Chávez morrer».

Nenhum deles mencionou claramente suas fontes. Mas, pela convergência das afirmações, é de acreditar que a «vontade» do Brasil emane de esferas pra lá de elevadas. O desejo terá sido expresso por gabinetes estreitamente ligados ao Planalto. Talvez a ânsia venha dos mesmos aposentos que abrigam os sombrios personagens que já vêm se manifestando há alguns dias.

Mas que história é essa de «o Brasil quer»? A Venezuela não é um protetorado brasileiro. Ao que se saiba, não pediu a opinião ― e muito menos solicitou a intervenção ― de Brasília.

Fico curioso tentando adivinhar qual seria a reação de nossos mandachuvas se a situação fosse inversa. Imaginemos por um instante ― é somente um exercício hipotético, que não me atribuam votos nefastos! ― que o inquilino do nosso Planalto estivesse nos estertores, a um pé da cova, como diz o povo.

Suponhamos ainda ― continuo no campo da teoria, que ninguém me atire pedras ― que um governo estrangeiro se atrevesse a declarar abertamente como quer (sic) que a transição se passe em nossas plagas.

Dá para imaginar a indignação e o fuzuê que isso causaria por aqui?

Brasil e Venezuela 1

Tanto a sofrida Venezuela quanto o sofrido Brasil são, até segunda ordem, Estados (em teoria) civilizados, soberanos, organizados, reconhecidos internacionalmente e, acima de tudo, regidos por uma Constituição. A Venezuela, como todo país de direito, conta com uma Lei Maior que indica o caminho a seguir em caso de impedimento, ausência ou falecimento do primeiro mandatário. Não cabe a outros dar-lhe lições para enfrentar situações políticas particulares.

As regras geralmente aceitas de convivência pacífica entre nações não preveem, em hipótese alguma, que uma potência estrangeira intervenha com tal descaramento no destino de outro país. Pelo menos, não de maneira tão desabrida. Pelo menos, não em tempo de paz.

Troca de notas diplomáticas sigilosas sempre houve e sempre haverá. Faz parte do jogo. O que não tem cabimento é a publicidade que se tem dado a autoridades que, ao exprimir anseios pessoais, embaraçam e comprometem uma nação inteira.

Como dizem os ingleses, se cada um varresse diante de sua própria porta, o mundo inteiro seria mais limpo.

Para pensar em casa

José Horta Manzano

Este blogue traz uma que outra citação. Pode ser um provérbio latino, pode ser uma frase pronunciada por algum figurão de nossos tempos, se bem que garimpar frases inteligentes, nestes tempos estranhos, está-se tornando tarefa árdua. É trabalhoso, mas não impossível. A prova vem logo aqui abaixo. Não resisti à tentação de reproduzir duzentas e poucas palavras encharcadas de sensatez.

Sob o título Prepotência sem Fronteiras, o perspicaz Elio Gáspari tomou sua pluma mais corrosiva e publicou em sua coluna da Folha online deste 13 de janeiro um tópico digno de ser recortado e levado para ler em casa. É melhor morrer amigo dele.

Elio Gáspari

Elio Gáspari

“Don Corleone orienta o comissariado

Elio Gáspari

Num momento luminoso para o PT, o companheiro Olívio Dutra, fundador do partido, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, disse ao deputado José Genoino: “Eu acho que tu deverias pensar na tua biografia, na trajetória que tens dentro do partido. Eu acho que tu deverias renunciar. Mas é a minha opinião pessoal, a decisão é tua. Não tenho porque furungar(*) nisso”.

Dias depois, o comissário André Vargas, secretário de Comunicação do partido, disse que Olívio fora “pouco compreensivo”. E mostrou a faca: “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo o mundo. (…) Ele já passou por muitos problemas, né?”

Engano. Durante o governo de Olívio Dutra, o PT gaúcho foi apanhado numa maracutaia, mas ele nunca foi acusado de envolvimento direto no caso. Processo judicial, nem pensar. Genoino e seus colegas foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

Olívio Dutra é de um tempo em que petistas rachavam apartamento em Brasília (seu parceiro era Lula). Quando deixou a prefeitura, voltou a ser um bancário. Com seus bigodes e uma bolsa tétrica, anda de ônibus. Passou por problemas, mas nunca passou pelas soluções dos comissários de hoje.

A resposta de André Vargas indica que, no PT 2.0, uma pessoa com a biografia de Olívio é um estorvo, tornando-se necessário colocá-lo ao alcance de qualquer suspeita.”

(*) Furungar é regionalismo gaúcho. Quer dizer remexer, xeretar. (Nota do blogueiro).

Mais um

Àqueles que acham que me excedi ao criticar a intromissão da diplomacia brasileira no caso da vizinha Venezuela ― cujo presidente eleito está impedido de tomar posse do cargo por problemas de saúde ―  recomendo dar uma espiada no artigo de Elio Gáspari publicado pela Folha desta quarta-feira. Ultraexperiente em política, o jornalista não só vai direto ao ponto, como também faz um paralelo com situações já vividas pelo Brasil no tempo dos militares. Vale a pena conferir.

Polícia cartorial

Credito: Lego & Ricardo.ch

Credito: Lego & Ricardo.ch

José Horta Manzano

Acabo de voltar de férias no planeta Marte, onde passei estes dias que ligam o ano velho ao ano-novo.(*) Devo estar ainda com a cabeça nevoada ― a viagem é longa e cansativa.

Li hoje que o governo paulista proíbe sua polícia de socorrer vítimas de crimes graves, tais como tentativa de homicídio. Levei um susto. Achei que fosse algum delírio resultante da viagem interplanetária. Reli. Não, não havia engano. O relato do jornalista era esse mesmo.

Parece que a intervenção de policiais periga alterar a cena do crime. Se entendi bem, socorristas e urgentistas estão mais bem treinados que o corpo policial para intervir em caso de ocorrência violenta sem perverter o cenário.

Pervertido está o bom senso. Se a ajuda sanitária está capacitada para intervir sem alterar cenas de crime, com maior razão a polícia também deveria estar. O que não faz sentido é deixar que um cidadão agonize na sarjeta, que se esvazie de seu próprio sangue, sem que nenhum auxílio lhe seja prodigado.

Em vez de serem proibidos de socorrer feridos, os policiais deveriam, isso sim, ser treinados a desempenhar corretamente seu papel sem desfigurar o cenário de um suposto crime. É inconcebível que essa competência não faça parte de sua formação.

Não se pretende transformar as forças da ordem em urgentistas diplomados, mas noções básicas de primeiros socorros não fazem mal a ninguém. São ainda mais necessárias e úteis a profissionais cujo ofício os leva a defrontar quotidianamente acidentes, crimes e mortes.

(*) Não se assustem, que não é pilhéria. Ano velho se escreve assim, separado. Ano-novo pede hífen. Sabe Deus por quê. São caprichos de nossa grafia, que a reforma manquitola de 1990 não ousou enfrentar.

De quoi je me mêle?

José Horta Manzano

Caso você cometa a indelicadeza de se meter em assuntos alheios, caso se intrometa onde não foi chamado, os franceses têm uma receita pronta para exprimir irritação. «De quoi je me mêle?» ― lançam eles de bate-pronto. É sempre difícil traduzir expressões ao pé da letra. Mas o sentido da repreensão é claro: o que é que você tem a ver com isso?

Conhecemos todos várias expressões que vão pelo mesmo caminho. Sabemos que, em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher. Ninguém ignora tampouco que cada um deve saber onde lhe aperta o sapato. E até criança sabe que sapo de fora não chia. Todos sabemos disso. Eu disse todos? Engano meu, caro leitor, engano meu.

Tem gente por aí que deve ter perdido algumas aulas de bem viver. Enquanto opiniões indevidas se restringem ao âmbito privado, permanecemos no nível de desavenças familiares, de discussões de cortiço, de palpites de vizinho. O resultado pode ser, no máximo, uma cara-fechada.

O poder executivo brasileiro tem a felicidade de poder contar com os préstimos de diversos assessores. Em outros lugares do mundo, seriam chamados conselheiros. Um desses personagens ― que serviu ao presidente anterior e continua, firme e forte, aconselhando a presidente atual ― especializou-se em dar seus palpites em matéria de política estrangeira.

É um tanto inadequado, dado que temos um Ministério especificamente dedicado às relações com países estrangeiros. O assessor ao qual me refiro situa-se numa espécie de limbo, uma peça solta no organograma. Sua função parece ser a de corroborar, sempre que necessário se faça, que nosso País persiste em seu apoio a governos autoritários.

Esse senhor declarou estes dias que o Brasil apoia o adiamento da tomada de posse do mandatário da vizinha Venezuela. Confira aqui e aqui. Cada um é livre de ter sua opinião. Por enquanto, pelo menos. Mas aqui fomos mais longe. O assessor não disse que essa era sua opinião, mas exprimiu-se em nome de 200 milhões de compatriotas. É surpreendente que um simples conselheiro da República, que nem ministro é, esteja imbuído de poder tão excelso.Blabla 2

Alguns imaginaram que a malograda intromissão em assuntos internos de Honduras tivesse servido de lição a nossa diplomacia errática. Enganaram-se. Mais improvisação ainda estava por vir.

Outros acharam que a traiçoeira suspensão do Paraguai do Mercosul ― aprovada pelo Brasil ― era o vexame máximo, impossível de ser suplantado. Enganaram-se de novo. Os três sócios se irmanaram numa malandragem ainda mais audaciosa: valeram-se da ausência do parceiro privado de voz para determinar a entrada da Venezuela no clube.

Trágico é o destino de um País cujo governo não aprende com seus próprios erros. A reincidência está aí. Nosso sublime assessor especial alevantou um imenso auto de fé, lançou nele todos os manuais de recato e de prudência, e cedeu à soberba. Interferiu mais uma vez na política interna de um vizinho. Em nome de todos nós, frise-se.

Já dizia Tom Jobim que o Brasil não é um país para principiantes. Nem para amadores, completaria eu. Até prova em contrário, a Venezuela é um país de direito, adulto e vacinado. Rege-se por uma constituição. Se houver controvérsias, elas hão de ser resolvidas pelos próprios venezuelanos. Cabe a eles a decisão, e não a um assessor do governo brasileiro. Nem que esse assessor seja «especial».

Uma disputa enrolada

Primo Carbonari 2José Horta Manzano

Alguns meses atrás, a Folha de São Paulo publicou um texto do jornalista Rodrigo Salem. A reportagem descreve uma complicada pendenga judicial que tem a ver com rolos de filmes antigos. O pomo da discórdia são 13 mil rolos de documentários feitos por Primo Carbonari em 50 anos de trabalho. Um testemunho insubstituível de nossa História.

Litígios judiciais são corriqueiros. Sua frequência, alás, tem aumentado consideravelmente nestes tempos estranhos, em que tendemos a remedar comportamentos importados nunca dantes vistos neste País. Onde antigamente o bom senso e a boa vontade resolviam, depende-se hoje de decisão judicial. Lentas, as brigas se arrastam por anos. E sempre garantem à parte descontente o direito a recurso e a toda a parafernália que se costuma desembainhar nessas ocasiões.

Primo Carbonari 1

Primo Carbonari

Já litígios envolvendo rolos de filmes antigos são mais raros. É notória a indigência de nossa historiografia ilustrada. Fotos e filmes antigos são material escasso nesta parte do mundo. O Brasil orgulha-se de ter sido o primeiro país da América Latina a contar com a televisão. No entanto, se é verdade que, no recuado ano de 1950, alguns paulistanos privilegiados já podiam sintonizar o primeiro canal de tevê, poucas imagens dos anos pioneiros foram conservadas. Procure o leitor por registros dos primeiros 20 anos: excetuados retalhos de gravações miraculosamente conservados, não encontrará praticamente nada. Perdeu-se tudo. A ninguém ocorreu que estavam fazendo (e apagando) História.

Quem tem mais de 40 ou 50 anos já assistiu algum dia a um cinejornal de Primo Carbonari. Era praxe naqueles tempos pré-internet em que as imagens do mundo nos chegavam pelos jornais impressos, em fotos de qualidade sofrível. Assistir a um daqueles jornais cinematográficos era um colírio. Apesar da ausência de cor, as pessoas e os objetos eram visíveis, nítidos, enormes, se mexiam, tinham vida. Sem falar no fundo sonoro e na elocução caprichada dos narradores.

Como sabemos todos, filmes antigos deterioram-se com o tempo. Para perenizá-los, a melhor maneira é a digitalização. Não posso nem quero entrar no mérito do litígio sobre os documentários de Carbonari ― quando se toma o bonde andando, é melhor não se meter em briga de passageiros. Independentemente disso, acho que a memória nacional não deveria estar sujeita a contingências judiciais.

Faz seis meses que não se ouve mais falar na disputa pelos filmes documentários. Do jeito que se arrastam as coisas, a cada dia que passa mais um registro de nossa história periga desaparecer. É urgente que o Poder Público intervenha. Não há tempo a perder.

Um povo que despreza sua memória, além de escancarar sua indigência intelectual, condena-se a reviver seu próprio passado. Com as mesmas agruras e os mesmos apuros.

O medo da morte

José Horta Manzano

Assim que o primeiro estalo de civilização atingiu os contemporâneos de Lucy, o homem se habituou a dar sumiço no cadáver de seus mortos. Desde então, nenhum povo costuma derrogar a essa prática.

Até poucos séculos atrás, não incomodava a ninguém que águas usadas, transformadas em fedido esgoto, escorressem a céu aberto. No entanto, ninguém jamais admitiu ter de alargar o passo para evitar pisar em cadáveres insepultos. A barreira entre vivos e mortos tem de ser física, forte, visível, intransponível. Alguns recorrem à cremação, mas a maioria prefere enterrar seus defuntos. Naturalmente, sem esquecer de instalar algo pesado por cima.

Esse «algo pesado» com que se cobrem as sepulturas é revelador de um pavor ancestral de que o falecido possa voltar, seja para cobrar dívidas deixadas em aberto, seja para agarrar algum vivente e arrastá-lo inexoravelmente para as trevas.

Na ausência de espiritualismo elevado, o homem primitivo cobria as sepulturas de pedras pesadas. Não era simbólico: era pra valer. Garantia que o finado, caso resolvesse retornar para buscar alguém, não tivesse força suficiente para levantar-se da cova. As lápides de mármore ou granito que, ainda hoje, povoam cemitérios daqui e de alhures são reminiscências desse pavor de ser puxado para os infernos.

O respeito à vontade dos mortos continua sendo a regra em nossa sociedade. As determinações daquele que se foi costumam ser rigorosamente respeitadas, ainda que se situem fora do âmbito da obrigação legal. Vocês já repararam que todo morto «vira santo»? Frase do tipo: «Ah, Fulano era tão bom, homem bom tava ali, sô» são as mais ouvidas em velórios.

Oscar Niemeyer faleceu faz alguns dias

Porta de cemitério

Porta de cemitério

. Falou-se muito dele quando da construção de Brasília, nos anos 50. Depois, pouco a pouco, sua figura foi-se esvaecendo na poeira das décadas. Sem desaparecer de todo, menções à sua obra escassearam. Não fosse a provecta idade do arquiteto, pouca atenção mereceria da mídia.

Como costuma acontecer com todos os viventes, Niemeyer faleceu. De repente, o Brasil descobriu que abrigava, sem saber, um semideus. Todos os jornais, revistas e blogues se desdobraram em elogios. Algumas poucas vozes arriscaram timidamente a argumentar que o finado também tinha seus defeitinhos. Foram caladas pelo clamor indignado da maioria.

Barbara Gancia, apresentada como «mito vivo do jornalismo tapuia», contou, em sua coluna da Folha, um episódio relacionado ao arquiteto. Não é que o artigo seja ofensivo, simplesmente ele diz as coisas como aconteceram. Deixa nas entrelinhas, no entanto, a impressão de que nosso gênio nacional às vezes podia também se enganar.

A coluna da jornalista foi bombardeada com uma verdadeira avalanche de comentários revoltados, alguns francamente ofensivos. Pode haver outras razões, mas, a meu ver, o pavor ancestral que a morte nos causa está patente nessas demonstrações de repulsa. Não se deve falar mal dos mortos. Nunca se sabe, podem até se ofender e vir puxar nosso pé de noite. Cruz-credo!

Mas o tempo é remédio para tudo. Passado o luto, o medo diminui. Alguns anos depois, talvez sentindo que o perigo já passou, o homem volta a enxergar seus mortos como realmente foram, com suas qualidades e seus defeitos.

E a vida continua.