Polícia cartorial

Credito: Lego & Ricardo.ch

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José Horta Manzano

Acabo de voltar de férias no planeta Marte, onde passei estes dias que ligam o ano velho ao ano-novo.(*) Devo estar ainda com a cabeça nevoada ― a viagem é longa e cansativa.

Li hoje que o governo paulista proíbe sua polícia de socorrer vítimas de crimes graves, tais como tentativa de homicídio. Levei um susto. Achei que fosse algum delírio resultante da viagem interplanetária. Reli. Não, não havia engano. O relato do jornalista era esse mesmo.

Parece que a intervenção de policiais periga alterar a cena do crime. Se entendi bem, socorristas e urgentistas estão mais bem treinados que o corpo policial para intervir em caso de ocorrência violenta sem perverter o cenário.

Pervertido está o bom senso. Se a ajuda sanitária está capacitada para intervir sem alterar cenas de crime, com maior razão a polícia também deveria estar. O que não faz sentido é deixar que um cidadão agonize na sarjeta, que se esvazie de seu próprio sangue, sem que nenhum auxílio lhe seja prodigado.

Em vez de serem proibidos de socorrer feridos, os policiais deveriam, isso sim, ser treinados a desempenhar corretamente seu papel sem desfigurar o cenário de um suposto crime. É inconcebível que essa competência não faça parte de sua formação.

Não se pretende transformar as forças da ordem em urgentistas diplomados, mas noções básicas de primeiros socorros não fazem mal a ninguém. São ainda mais necessárias e úteis a profissionais cujo ofício os leva a defrontar quotidianamente acidentes, crimes e mortes.

(*) Não se assustem, que não é pilhéria. Ano velho se escreve assim, separado. Ano-novo pede hífen. Sabe Deus por quê. São caprichos de nossa grafia, que a reforma manquitola de 1990 não ousou enfrentar.

3 pensamentos sobre “Polícia cartorial

  1. Infelizmente – e bota infelizmente nisso – o Brasil não é mesmo um país para principiantes, nem para amadores, nem para os mentalmente sãos. Acredite você ou não, toda a classe médica perfilou-se ao lado do governador do estado (que, por sinal, também é médico). Aparentemente, eles instauraram um novo conceito de “emergência”: agora dizem que, mais importante do que a rapidez no atendimento, é a qualidade do serviço o que conta!!!! Ontem, o diretor do Samu de SP afirmou que os atendimentos a pessoas vítimas de crimes não chegam a 1% e que o Samu já atingiu o padrão de rapidez necessário (10 minutos, no máximo). Deus – que, decididamente é brasileiro e não está nem aí para estatística – providenciou um caso exemplar. Ontem mesmo um ladrão baleado ficou por 23 minutos estendido na calçada…

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