No sentido da corrente

José Horta Manzano

Estas últimas décadas, nossa civilização tende fortemente a eliminar a papelada e dar preferência ao imaterial. Pouco a pouco, sem que a gente se dê necessariamente conta, registros físicos vão cedendo lugar a arquivos invisíveis.

A assinatura eletrônica, que era vista como objeto exótico até pouco tempo atrás, está tomando o lugar da antiga «firma de próprio punho» e começa a ser admitida até em documentos cartoriais – um espanto! Não há que duvidar: caminhamos rapidamente para um universo de documentos desmaterializados.

No Brasil dos anos 1990, falava-se mais em hiperinflação do que em desmaterialização de documentos. Naquele regime de preços turbilhonantes, em que cada um corria pra comprar sua latinha de leite condensado pelo valor mais em conta, a adoção da urna eletrônica foi medida ousada. E grandiosa. Reduziu o tempo de apuração de duas ou três semanas a algumas horas. Só quem conheceu as eleições antigas consegue avaliar o avanço que isso representa.

É pensando na introdução da urna eletrônica que a gente se lembra, com saudade, de um tempo em que, apesar da ciranda infernal dos preços, o país andava pr’a frente. Hoje vivemos tempos de pororoca, época em que o rio reflui. Inertes e impotentes, assistimos à retornança do fluxo civilizatório; vivemos num mundo em que tudo parece andar p’ra trás.

Está em andamento no parlamento francês um projeto de introdução da urna eletrônica para as presidenciais de 2022. A intenção não é tanto agilizar a apuração, que já se desenrola com grande rapidez. Num país onde o voto é facultativo, a intenção é diminuir a abstenção. A ideia é usar a urna eletrônica para permitir voto antecipado. Em determinados municípios, uma urna estaria à disposição do eleitor já uma semana antes do dia do voto. O sistema se assemelha ao que foi adotado nos EUA nestas últimas eleições.

Este blogueiro é favorável ao voto frequente, descomplicado e facultativo – verdadeiro fortificante para a democracia. Dois anos entre cada eleição é muita coisa. Os eleitores tinham de ser convocados a se exprimir todos os anos. Voto antecipado também me parece excelente ideia, pois permite maior flexibilidade de horário ao votante.

Por mais que Bolsonaro esperneie, não voltaremos ao voto em cédula de papel. Se há risco de fraude com a urna eletrônica, o remédio não é voltar à cédula, mas reforçar os controles sobre o método atual. Há que lembrar que o sistema antigo também permitia fraudes pesadas, talvez mais ainda que hoje.

Peixe inteligente nada a favor da corrente. Todo movimento contra a corrente, além de ser cansativo, é improdutivo e está fadado ao fracasso. É, mas eu disse peixe… inteligente.

A floresta e a vacina

José Horta Manzano

A destruição patrocinada por Bolsonaro vai além da floresta amazônica. Os lampejos de delírio que se podem ler em seus olhos atingem outros tesouros da nação.

A floresta até que nem deu trabalho pra plantar. Em 1541, quando o espanhol Francisco de Orellana subiu o Rio Amazonas inteiro, atravessou a América do Sul e chegou ao Pacífico, a floresta já estava lá, prontinha.

Já outras conquistas brasileiras custaram tempo, dinheiro e trabalho. A vacinação em massa, por exemplo, entra nessa categoria.  Desde os tempos de Oswaldo Cruz, foi um século de trabalho duro, mas o esforço de gerações de autoridades conscienciosas acabou elevando o Brasil ao invejável patamar de referência mundial, de modelo planetário.

Até outro dia, era difícil encontrar outro país que fizesse tão bem quanto nós. Sólidas campanhas cobriam todo o território nacional e conseguiram erradicar a varíola, a poliomielite e uma coleção de doenças infantis que por séculos tinham castigado populações.

Mas isso foi antes da chegada do destruidor-mor. Com a arrogância que só a ignorância lhe permite, nosso presidente decidiu dar um basta a essa excelência. Sua campanha antivacina tem sido a antítese do que se espera de um governante que regule bem da cabeça.

Não preciso descrever aqui as barbaridades que Bolsonaro tem cometido em sua sede de eliminar as conquistas do país – o distinto leitor está cansado de saber. Ele deve estar feliz em ver o estrago que fez mas, para gente civilizada, o resultado é muito triste.

Ao olhar para a floresta amazônica, o presidente só enxerga árvores que precisam ser extirpadas pra dar lugar a uma savana semiárida; sabe-se lá por que absconsa razão, ele aprecia a caatinga. Ao olhar para a expertise brasileira no campo vacinal, não sei o que ele enxerga. Mas não deve ser nada bom, tanto que seu ímpeto é destruir. Será o medo da agulha? A raiva de ter sido criança num tempo em que não havia vacinação em massa? Só Deus sabe.

Journal de Montréal, Canadá

A notícia da destruição vai longe. No canadense Journal de Montréal, leio hoje um artigo. O título já diz tudo: «Au Brésil, un mois de vaccination poussive contre le coronavirus – No Brasil, um mês de vacinação ofegante contra o coronavírus».

Na sequência, informa que em nosso país, que era até aqui um modelo para a vacinação em massa, não mais que 2% dos habitantes receberam uma dose contra a covid. Nesse ritmo, fazendo as contas, serão necessários 42 meses (3 anos e meio) para cobrir toda a população. Preparem-se os que estiverem em grupo não prioritário. Com sorte, lá pelo início de 2024 vai chegar sua vez – se der tudo certo naturalmente. E pode agradecer a doutor Bolsonaro.

Preparei uma lista atualizada com 88 países e a situação da vacinação anticovid em cada um deles. O Brasil, antigo modelo de eficiência nesse campo, só aparece no fim da fila, num obscuro 58° lugar. É interessante notar que os EUA e o Reino Unido, países cujos respectivos dirigentes (Donald Trump e Boris Johnson) desdenharam da pandemia no começo, se redimiram. Deram uma guinada de bom senso e hoje se encontram lá em cima, entre os que mais vacinam. O Brasil, infelizmente, continua patinando, sem vacina e sem esperança. Também, com um presidente desses, o que é que você esperava?

Paetê

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça carece de matérias-primas. O país não dispõe de petróleo, nem de carvão, nem de ouro, nem de ferro, nem de minerais preciosos. Não tem saída para o mar. As terras cultiváveis são escassas. Sem outra saída, os habitantes sempre tiveram de usar a cabeça – e as mãos – para sobreviver.

A indústria têxtil, que começou a se desenvolver na Idade Média, deu fama ao país. Durante muito tempo, produtos têxteis (sedas, bordados, fitas, rendas e tecidos) foram o primeiro produto de exportação. Até os anos 1920, os têxteis ainda apareciam à frente dos relógios na lista de produtos exportados.

Nos tempos de antigamente, a produção era essencialmente manual, o que pressupõe uma certa lentidão e pequenas quantidades produzidas. Com a Revolução Industrial, a fabricação deixou de ser obra de artesãos e foi se reagrupando em manufaturas organizadas. No século 19, a Suíça viveu a época de ouro de sua indústria têxtil. A máquina de bordar, inventada nos anos 1820 e aperfeiçoada nas décadas seguintes, deu impulso às artes do bordado suíço e fez sua fama.

Antes da automatização, tecidos bordados com lantejoulas, por exemplo, se destinavam a quem tinha muitíssimo dinheiro. A confecção era lenta, visto que cada pecinha de metal era costurada à mão. Essa mão de obra elevava o preço final às alturas; só quem podia encomendar eram rainhas, princesas & assemelhados. As máquinas de costurar e bordar baixaram os custos de produção e puseram tecidos bordados ao alcance da maioria.

O termo lantejoula é corruptela de lentejoula, palavra que vem do espanhol lentejuela (=lentezinha). Já na língua francesa, aquela pecinha de aspecto brilhante e metálico com um furo no meio, destinada a ser costurada ao tecido, chama-se paillette (palhazinha, da família de palha).

Um tecido recoberto de paillettes se diz pailleté, termo que se pronuncia paietê. O distinto leitor já deve ter reconhecido a origem de nossa palavra paetê. Trata-se de aproximação fonética, uma tentativa de reprodução do som original. Paetê combina com estes dias de Carnaval frustrado. E faz par com strass, que aparece no post de 12 fev° 2021.

Já são dois

José Horta Manzano

Quando dois argutos analistas políticos cogitam e olham na mesma direção e no mesmo momento, convém prestar atenção. Estou falando de Carlos Brickmann e Eliane Cantanhêde. Neste domingo, cada um deles publicou um artigo apontando uma hipotética candidatura apta a encarar Bolsonaro nas eleições de 2022 – se ele se aguentar no trono até lá, naturalmente. Aqui vai um trecho de cada artigo.

Palpite

Carlos Brickmann

Preste atenção na empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza: caso o plano que vem articulando para vacinar toda a população do país antes do fim do ano dê certo, ela pode ser a novidade eleitoral. Terá feito aquilo que ninguém conseguiu fazer, sua reputação é excelente, já mostrou que é muito competente e capaz de fazer o que é preciso. Mas, exatamente por isso, espere pelos obstáculos que vão colocar-lhe no caminho. Não podemos nos iludir: salvar vidas, ajudar a vencer a pandemia, melhorar a situação da população, nada importa para os lá de cima. Importa é não ter adversário.

E Luiza Trajano?

Eliane Cantanhêde

Doria, Huck, Moro e Luiz Henrique Mandetta são torpedeados antes de alçar voo, mas, como não há vácuo em política, quem pode preencher esse vácuo é uma mulher, empresária, colecionadora de êxitos, com o pé no chão e defensora de boas causas, como cotas, vacinas, menos ideologia e mais resultados. Sim, Luiza Trajano, sem partido e sem traquejo político, mas instada a botar o bloco na rua e, num carnaval tão atípico, animar e atrair um grande aliado de Bolsonaro: o eleitor desiludido, ou desesperado, que só vê o buraco aumentando.

Comentário deste blogueiro
Estes últimos vinte anos, presidentes desastrosos têm reprimido o avanço do país, deixando-nos cada vez mais firmemente ancorados num Terceiro Mundo irrevogável. Pra consertar, os brasileiros bem-intencionados estão apelando pra qualquer um, desde que jure:

  • que a Terra não é plana,
  • que não pretende armar a população,
  • que não prestigiará ditador africano,
  • que não concederá passaporte diplomático aos parentes,
  • que não acreditará no E.T. de Varginha,
  • e, principalmente, que, sim, acredita na vacina e pretende imunizar toda a população.

Se dona Luíza preencher todos os requisitos, vamos de Madame Trajano!

Reinfecção

José Horta Manzano

Enquanto nossos míopes e empacados terraplanistas tupiniquins persistem em desdenhar do coronavírus tratando-o de «vírus chinês», a nomenclatura internacional já se alargou.

A turma dos devotos, naturalmente, não ficou sabendo. Isso ocorre por eles viverem em comunidade fechada e terem como fonte única de informação as notícias falsas que circulam entre eles em circuito fechado. O único complemento de informação que lhes traz algum enriquecimento são as prodigiosas lives presidenciais. O empacamento fica, assim, explicado.

Além-fronteiras, a imagem da China como lugar de origem da epidemia já começa a se dissipar, substituída pela preocupação com as novas variantes surgidas de mutações do vírus.

Essas variantes já receberam nome. Como o vírus ‘chinês’ do ano passado (que, aliás, ninguém sabe até hoje como apareceu), estas novas cepas são conhecidas como ‘britânica’, ‘sul-africana’ e ‘brasileira’.

Para a variante britânica, já ficou acertado que as vacinas que estão sendo aplicadas na Europa (Pfizer, Moderna e Astra-Zeneca) são eficazes. Para as variações brasileira e sul-africana, no entanto, a eficácia das vacinas ainda está sendo estudada. O que se sabe é que ambas as mutações são mais contagiosas que o vírus originário. Suspeita-se que até quem já teve covid pode ser reinfectado por uma dessas novas variantes. Formidável problema.

Pode ser apenas coincidência, mas é interessante notar que as variantes se desenvolveram em países que, no início, desdenharam da epidemia e deixaram o vírus correr à solta. Reino Unido e África do Sul se emendaram, mas o Brasil oficial continua fazendo pouco caso. Vamos ver no que dá.

Gente que virou coisa – 4

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 4

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

Strass
Georg Friedrich Strass nasceu em 1701 num vilarejo alsaciano, a poucos quilômetros de Estrasburgo, hoje em território francês. Desde a Idade Média, aquela região de fronteira era objeto de cobiça. Ao final de cada guerra, o território mudava de dono, oscilando entre príncipes germânicos e o governo central de Paris. Quando nasceu Georg Friedrich Strass, quem mandava era o rei da França. A instabilidade já aparece em seu registro de nascimento: o documento não foi redigido em francês, mas em alemão.

Filho de pastor protestante, Strass entrou como aprendiz num ateliê de joalheria, onde aprendeu a profissão. Com a idade de 20 e poucos anos, já se encontra em Paris trabalhando num ateliê de joalheria que produz joias muito procuradas. Imagina-se que o rapaz fosse bastante esperto, pois em poucos anos já aparece como sócio da firma.

De espírito criativo, Strass se interessou pelas joias de imitação, aquelas que aqui chamamos bijuteria. Modificando a química da preparação, conseguiu fabricar pedras preciosas artificiais tão luminosas e transparentes que tinham aspecto idêntico às verdadeiras.

O sucesso foi tão grande que o moço, que não tinha nem completado 35 anos, foi nomeado ‘joalheiro privilegiado do rei’ – um título de grande prestígio. Graças à invenção, os negócios prosperaram e Strass enriqueceu. Aos 52 anos, pôde aposentar-se e viver tranquilo até seu falecimento em 1773, aos 72 anos.

Nestes dias de Carnaval frustrado, as (falsas) pedrinhas de Strass vêm a calhar. Indumentária carnavalesca exige paetês e strass. Como o distinto leitor já se deu conta, strass – aquelas pedrinhas coloridas que fazem parte da festa – devem seu nome a Georg Friedrich Strass.

(continua)

O leite condensado e o rabo

José Horta Manzano

O pudim de leite de minha avó não levava leite condensado. Preparado com leite, ovos e açúcar, ia ao forno em banho-maria e lá ficava um bom tempo. Dava muito trabalho, mas o resultado era esplêndido, como se dizia na época. Nada a ver com esses pudins melequentos e enjoativos de hoje.

Estive pesquisando sobre a produção de leite condensado no Brasil. Aprendi que teve início nos anos 1920. Mas uma coisa é produzir, outra coisa é vender. Nos arquivos do jornal Folha de São Paulo, a primeira menção a esse produto só aparece, tímida, em 1933. Era então apresentado como alimento para “creanças, doentes e adolescentes”.

Em 1934, é citado mais duas vezes. No ano seguinte, aparece de novo uma vez só. É a prova de que estava ainda longe de se tornar artigo de consumo popular. Acostumadas ao leite fresco, as cozinheiras resistiram um bom tempo antes de adotar o produto enlatado. A difusão do leite condensado entre as donas de casa (é assim que se dizia na época) só ganhou força a partir dos anos 1950.

Na Europa, leite condensado não é produto de grande consumo. Nas raras vezes em que comprei, tive de perguntar pra saber em que gôndola estava escondido. Costuma ser apresentado em dois tipos de embalagem: latinha e tubo (do tamanho do tubo de maionese). Há ainda duas opções: com açúcar e sem. O que não contém açúcar é mais vendido que o adoçado.

A razão é simples. Em princípio, leite condensado é visto como substituto do leite fresco. Para pessoas que gostam de tomar café com pouquíssimo leite, não é interessante comprar leite de caixinha. Vai estragar antes de ser consumido. Esse cliente prefere comprar leite condensado de tubinho. Usa um pouco de cada vez, põe a tampa, e o produto não estraga.

Conforme o país e determinadas características de fabrico, a denominação varia: leite condensado, leite concentrado ou leite evaporado. Na culinária europeia, não é ingrediente constante. Continua sendo visto, não como um produto em si, mas como substituto do leite fresco. Não frequenta os livros de doçaria. É produto para se ter guardado no fundo da prateleira para alguma emergência.

Se, por milagre, minha avó ressuscitasse, havia de levar muitos sustos. Como primeira providência, ela certamente sairia correndo pra comprar um jornal, que sempre foi um hábito diário.

Havia de ficar encantada de encontrar um mundo bem mais colorido do que o que ela conheceu. É verdade que automóveis perderam a cor e se limitam hoje a preto, branco, tons de cinza e algum bordô. Em compensação, os jornais perderam a monotonia do preto e branco e são impressos em cores. A tevê também – que era um chuvisqueiro cinzento – ganhou cores vivas. E as roupas, então! Uma policromia!

No entanto, ele havia de ficar assustada de ver que o Brasil tem agora um presidente que solta palavrão em público. E palavrão pesado, daqueles que, quando aparecem no jornal, vêm com tarja preta.

E havia de ficar abismada de ler, por detrás da tarja acanhada, as palavras presidenciais. E havia de ficar aterrada ao perceber que o presidente sugeriu à imprensa enfiar leite condensado num lugar que, (apesar de ela não captar direito qual poderia ser), intuiu que fosse impublicável. E enfiar com lata e tudo!

Pasma com o desvio de finalidade de um produto que já foi precioso, raro e caro, não tenho dúvida: ela pediria imediatamente pra ser levada de volta ao lugar de onde veio. E remataria em seu mineirês do século 19: «Arre! Este mundo não serve mais pra mim não, gente. Me deixa muito aflita! Ocês, que são brancos, que se entendam. A conversa tá muito boa, mas eu já vou indo.»

Vacinado

José Horta Manzano

Pronto. Custou, mas chegou. Já fazia mais de mês que este escriba tinha marcado hora pra ser vacinado contra a covid. Eu sei que hoje se diz agendar e que ‘marcar hora’ soa um tanto démodé. Mas agendar é burocrático demais para meu gosto. Vamos em frente. Vacina pouca e demanda grande alongam a fila de espera. Mas o dia chegou. Foi nesta terça-feira. Me aplicaram a Moderna, made in USA.

Não sei como estão organizando a vacinação no Brasil. Apesar das rasteiras aplicadas por doutor Bolsonaro e pelo general Cloroquina, parece que a fila está andando. O presidente deve andar desacorçoado. Ele, que sonhava com o aparecimento de uma situação de insurreição causada pelo alastramento da doença e pela falta de imunizante, há de estar pra lá de decepcionado. A tática sugerida pelos bolsonarinhos falhou e o golpe encruou.

Espero que a fila da vacina no Brasil ande rápido, assim Bolsonaro vai poder mudar de tática e esquecer essa história de criar caos nacional. Mudar de ideia, pra ele, não é difícil: todos já viram que o homem não tem princípios e que se verga conforme manda a ventania. Seus propósitos são tão efêmeros e variáveis quanto pesquisas de opinião e quanto os likes das redes.

Enfim, voltemos à situação daqui. Na Suíça, o governo apostou no cavalo certo. Tinha passado pré-encomenda aos laboratórios Pfizer (EUA), Moderna (EUA) e Astra-Zeneca (UK/Suécia). Deu sorte. São vacinas que têm mostrado boa garantia de imunização. Hoje parece uma evidência mas, no meio do ano passado, quando elas estavam ainda em desenvolvimento, ninguém tinha certeza de nada. Foi um tiro no escuro.

Eficácia vacinal conforme anúncio dos laboratórios

E olhe que não é questão de o fabricante estar baseado em país adiantado ou não. O laboratório francês Sanofi, uma potência, também se lançou na corrida. Mas anunciou recentemente ter desistido de prosseguir com os testes. Sua vacina, muito provavelmente, está morta e enterrada. Enquanto isso, China, Índia e Rússia parece que chegaram lá.

Falando nisso, a Agência Europeia do Medicamento (que equivale a nossa Anvisa) não parece muito inclinada a dar sinal verde à vacina russa. Há de ter suas razões. Dado que Moscou anunciou uma taxa de proteção em torno de 95%, acho que pareceu bom demais pra ser verdade. Deve ser por isso que a agência continua sopesando os resultados. A tecnologia russa sofre os reflexos do autoritarismo de Putin. Não se sabe até que ponto a pressão estatal está influenciando o anúncio do laboratório que desenvolveu o imunizante.

Aqui na Suíça, depois de receber a primeira dose, os velhinhos (e os jovens que têm direito à vacina por apresentarem comorbidades) são convidados a sentar-se num salão de espera e lá permanecer 15 minutos antes de ir embora. É pra ter certeza de que ninguém virou jacaré. Tirando o calombo meio dolorido que fica no lugar da picada, não vi pele virando escama, nem dente crescendo, nem rabo espichando. Acho que o mau-olhado do Bolsonaro não chegou até aqui.

Estou me preparando para o baile funk de hoje à noite. Agora posso.

Impeachment, impedimento

José Horta Manzano

Pela nossa legislação, qualquer cidadão da República pode solicitar a destituição do presidente da República. O pedido fundamentado de impeachment(*) será acompanhado de provas documentais e mencionará 5 testemunhas. Deve ser apresentado à Câmara Federal, que proverá.

É interessante fazer as contas de quantos pedidos de impeachment foram apresentados contra os seis presidentes que antecederam Bolsonaro. Fiz as contas de quanto tempo cada presidente permaneceu no trono e comparei com os pedidos de destituição que sofreu. O resultado é interessante.

Itamar recebeu
um pedido de impeachment a cada 183 dias

FHC recebeu
um pedido de impeachment a cada 108 dias

Lula recebeu
um pedido de impeachment a cada 79 dias

Collor recebeu
um pedido de impeachment a cada 42 dias

Dilma recebeu
um pedido de impeachment a cada 30 dias

Temer recebeu
um pedido de impeachment a cada 26 dias

e agora, senhoras e senhores, o campeão estourado:

Bolsonaro recebeu
um pedido de impeachment a cada 11 dias!

Como diz Dona Cultura
Todo mal tem sua cura
Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Desde tempos antiquíssimos já se sabe que, no final, a insistência sempre acaba vencendo. Apesar da (frágil) barreira representada por cupinchas de circunstância instalados na Câmara, não custa insistir. Pedir o impeachment de Bolsonaro sai de graça e pode render dividendos inestimáveis. Livrar-se do homem não tem preço: vale mais que acertar no milhar. Já preparou seu pedido?

Na origem, o impedimento era feito por meio de um trabelho para entravar os pés e impedir a marcha.

(*) Impeachment é palavra que importamos diretamente do inglês. É substantivo derivado do verbo to impeach. Adotamos com casca e tudo, sem mexer em uma letra sequer.

O inglês importou essa palavra do francês empêcher, lá pelos anos 1300. Na travessia do Canal da Mancha, o verbo sofreu alteração de sentido. Em francês, equivalia a nosso impedir; em inglês, adquiriu o senso de impugnar, incriminar, acusar alguém de crime contra o Estado.

Por seu lado, o francês recebeu o termo do latim medieval impedicare, evolução do latim clássico impedire, que equivale a nosso impedir.

No original latino, o verbo é composto pela partícula in + pes/pedis (=pé). Impedire, na origem, traz a ideia de prender os pés, atravancar, não deixar andar, segurar.

Não é bem o sentido que atribuímos a nosso impeachment nacional. A intenção não é segurar o presidente. O que se quer é o contrário: vê-lo pelas costas. Que corra sem olhar pra trás, vá-se embora pra bem longe e não volte nunca mais.

A lagoa e o jacaré

José Horta Manzano

Com o estilo mordaz que caracteriza o espírito francês, Le Nouvel Observateur (l’Obs), órgão importante da imprensa, sintetizou o fim da Operação Lava a Jato.

Brésil: Bolsonaro enterre l’opération anticorruption à laquelle il doit son électionBrasil: Bolsonaro enterra a operação anticorrupção à qual ele deve a própria eleição.

Em matéria de logro eleitoral, é raro ver uma trapaça feita tão às claras. Mas deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar. Quem pelo engodo venceu, pelo engodo será vencido. Memento Lula – Lembrem-se do Lula!

Preço caro?

José Horta Manzano

Chamada da Folha SP

Barato e caro são atributos da mercadoria, não do preço nem do custo. O preço (=custo) é mero indicador do valor da mercadoria.

A mercadoria pode ter muitas qualidades. Por exemplo, pode ser:

  • barata,
  • cara,
  • bonita,
  • cheirosa,
  • pesada,
  • estragada,
  • duvidosa,
  • valiosa,

que são qualidades que o preço (=custo) não pode ter.

Por seu lado, o preço (=custo) pode ser, por exemplo:

  • elevado,
  • baixo,
  • exorbitante,
  • ínfimo,
  • nas alturas,
  • irrisório,
  • insuportável,
  • dissuasivo,

que são atributos que a mercadoria não pode ter.

Portanto, “custo caro”, “custo barato”, “preço caro” e “preço barato” são expressões a evitar. É a mercadoria que é cara, não o custo. A menção do preço nos permite saber se a mercadoria é cara ou barata. Uma vez que conhecemos o custo, concluímos se a mercadoria é barata, se é cara ou se está em conta.

Na chamada do jornal, entende-se que o voto é que chega a ser mais caro; portanto, seu custo é mais elevado. Consertando:

“Custo de voto em mulheres chega a ser quase 70 vezes mais elevado que em homens”

Mais fatos, menos mentiras

Carlos Brickmann (*)

A melhor maneira de desmentir uma notícia falsa é publicar a verdade. A destruição das fake news não se faz por censura ou por arbítrio, mas trocando o falso pelo verdadeiro.

Já ninguém diz, hoje, que quem toma vacina vai virar jacaré: a imbecilidade se desfez sozinha, e sozinha mostrou quem é o jacaré.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

País medieval

José Horta Manzano

É curioso constatar que o governo dirigido por doutor Bolsonaro nunca atira na direção certa. Se o tiro vem da direita, aponta a arma para a esquerda. E vice-versa. Não está claro se fazem isso de propósito ou se lhes falta senso de orientação. De orientação política e social, entenda-se.

No ano passado, quando governos do mundo inteiro sonhavam com o dia em que poderiam vacinar a população e livrar-se da pandemia, nosso doutor fazia pouco caso e torpedeava toda iniciativa que visasse a encomendar vacina.

Agora, que as vacinas começam a aparecer, ele levou uma trombada. Não sei se captou o anseio da população ou se os filhos o aconselharam, fato é que se tem mostrado menos veemente em sua cruzada antivacina. Mas o homem não dá ponto sem nó. Logo abaixo, veremos como, agora que era hora de gritar e bater o pé, se mantém em silêncio – o silêncio dos que calam e consentem.

No Brasil, a insegurança jurídica impera. Com isso, nunca se sabe se o que vale hoje continuará valendo amanhã. No momento em que escrevo, a Associação Brasileira das Clínicas de Vacina está em preparando a importação de cinco milhões de doses de Covaxin – a vacina indiana anticovid. Os destinatários da mercadoria são as clínicas particulares do país.

A meu conhecimento, nenhum país entre os quase 200 que há no planeta admitiu esse tipo de prática. Em todos eles, o trato da pandemia é da alçada governamental. Assim como cabe às autoridades determinar confinamento, fechamento de lojas e funcionamento de escolas, cabe também a elas adquirir, distribuir e aplicar vacina. Imagine se fosse deixada a cada comerciante a decisão sobre abertura do próprio estabelecimento: o resultado seria uma enorme confusão.

Embora o modo de agir do atual governo federal nem sempre dê essa impressão, governo serve, em princípio, para articular o funcionamento do país. Essa história de permitir que os que podem pagar passem à frente dos demais e tomem vacina antes é simplesmente escandalosa. Essa prática, indigna do século em que vivemos, tem de ser banida.

Pesquisa Instituto PoderData

Na Idade Média, o regime era outro. Quem era da classe nobre tinha filhos nobres; plebeus tinham filhos plebeus; filho do rei era príncipe. Assim, a estratificação da sociedade se perpetuava, sem permeabilidade possível. O elevador social ainda não tinha sido inventado. De lá pra cá, o mundo evoluiu.

Em muitos aspectos, nossa sociedade guarda resquícios medievais. Nosso elevador social anda emperrado e só funciona no tranco, à força de manivela. Temos um sistema de saúde pública bizarro, que segrega os usuários de segunda classe e os mantém higienicamente afastados dos que têm acesso aos mimos da primeira classe.

Se essa marca ostentiva de diferença de classe social na área de saúde costumava ser tolerada na vida de todos os dias, a pandemia baralhou as cartas e exige que seja distribuída nova mão. Não é admissível que cidadãos abastados sejam servidos antes dos menos favorecidos. A doença se alastra por toda parte. A mortalidade é ameaça para todos.

Se alguma pressão tem de ser exercida, que se pressione o governo central. Cabe a ele se mexer para suprir o sistema público de saúde com as vacinas necessárias. Isso não é – nem deve ser – tarefa de empresas particulares. A vida daquele que tem posses vale tanto quanto a daquele que não tem.

Neste momento, cabe, a quem tem o poder de fazê-lo, impedir que essa prática perversa se instale no país. Não convém dar mais uma mostra de que certos brasileiros são mais iguais que outros.

Pesquisa do Instituto PoderData mostra que um em cada três brasileiros acha justo que aqueles que podem pagar tenham o direito de procurar uma clínica privada para receber o imunizante. Sabe-se que não há 33% de gente abastada na população do país. A conclusão é terrível: boa parte dos que não têm condições de pagar pela vacina concorda com o privilégio e acha correto os mais ricos poderem se vacinar antes deles. Se isso não é mentalidade medieval, o que será?

Negar convite?

José Horta Manzano

Chamada do Valor Econômico

A reação de Donald Trump diante do convite para depor não surpreende, considerando o enorme rabo preso que o homem tem. Com as acusações que lhe pesam nas costas – incitação à violência, achaque às instituições, difusão de notícias falsas, desleixo no trato da pandemia y otras cositas –, é compreensível que ele fuja do depoimento. Já que não passa de “convite”, qualquer um fugia.

Só que o estagiário cometeu um escorrego no enunciado da chamada. Está escrito que Trump «nega convite». Não é uma construção adequada. O verbo negar, embora tenha numerosas nuances, não é sinônimo de recusar.

Negar um convite é afirmação que, neste caso, não tem propósito. Só faria sentido num caso muito especial. Suponhamos que, para o Carnaval americano (Halloween), Trump organizasse o baile das abóboras, uma festa onde só se pudesse entrar com convite. Suponhamos ainda que Biden, louco pra comparecer, pedisse pra ser convidado. Aí sim, Trump podia negar o convite (=negar-se a convidar). É que, neste caso, o emissor do convite é Trump, e ele pode conceder ou negar o convite a Biden.

Não é, evidentemente, o que o estagiário quis dizer na chamada acima. No caso presente, o convidado é o próprio Trump. Esse convite para depor pode ser aceito ou recusado, sem outra opção. Trump recusou. Portanto, a chamada do jornal ficará perfeita assim: “Trump recusa convite para depor em investigação de impeachment”.

O barquinho vai

José Horta Manzano

Em tempos normais, o Thurgau – barco comercial suíço de 47m de comprimento por 9,5m de largura – leva passageiros para passeios turísticos no Lago de Constança (em alemão: Bodensee), na fronteira entre a Suíça e a Alemanha.

Nestes tempos de pandemia, viagens turísticas estão complicadas, tanto por restrições impostas pelo governo como também por mera escassez de turistas. As autoridades propuseram, e a companhia de navegação aceitou, dar novo préstimo ao Thurgau: foi transformado em vacinódromo.

Bastou uma reforminha à toa pra dar ao barco ares de hospital de campanha. Esta semana, ele começou a receber os idosos (75 anos e mais) que se inscreveram para a vacinação. À diferença de outros locais fixos, que não saem do lugar e obrigam pacientes com dificuldade de locomoção a viajar quilômetros, este vacinódromo vai de encontro aos velhinhos. À noite, desliza sobre as águas mansas do lago e atraca num dos numerosos portos da margem suíça. De manhã, já está pronto pra receber nova leva de vacinandos. E assim por diante, de porto em porto, segundo o programa. Achei uma ideia muito prática. Simples e útil.

Não sei como nosso estratego da Saúde Pública (aquele mago da logística) está organizando a vacinação no país. Para alívio de todos, é provável que tudo esteja sendo planejado estado por estado. Melhor assim.

Assim mesmo, fica aqui a ideia, se é que alguém já não pensou nisso: a criação de vacinódromos ambulantes que vão ao encontro dos pacientes. Se não for viável fazer de barco, também vale utilizar ônibus, veículo mais adaptado às condições brasileiras. Há que ter em mente que há Brasil além dos grandes centros. Os habitantes dos rincões também têm direito a ser imunizados.

A China perdeu a face

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 janeiro 2021.

O povo chinês é extremamente sensível, dono de uma sensibilidade que foge a nossos padrões. A deles é mais rigorosa, formal, à flor da pele, apegada a valores milenares. O peso do coletivo esmaga arroubos individuais. Espera-se que todos se comportem como manda o figurino. No Brasil, somos mais indulgentes; não está em nossa índole levar tudo a ferro e fogo. Situações que consideramos triviais podem chocar os chineses. Quem se relaciona com eles – se quiser ser bem sucedido – deve tomar cuidado para não se indispor com o interlocutor. Deve ter em mente que até atitudes que nos parecem anódinas podem melindrar e bloquear o que estava sendo tratado.

Em qualquer parte do mundo, “perder a face” é visto como situação desagradável. Na China, é mais grave. Por um lado, não precisa muito para uma pessoa “perder a face”; por outro, é uma das ofensas mais profundas que se possa infligir a alguém. De todas as peculiaridades da alma chinesa, talvez seja o conceito de “face” o mais difícil de assimilar. Faz séculos que tradutores pelejam para encontrar o melhor termo para traduzi-lo. É mais ou menos o que ocorre com a palavra ‘saudade’. Assim mesmo, nossa saudade, que é sentimento humano e universal, pode ser traduzida com um rodeio de duas ou três palavras. Já o conceito chinês de “face”, para ser plenamente percebido, requer um mergulho na civilização daquele país.

Se a tradução exata é difícil de encontrar, os conceitos de orgulho, brio, dignidade e prestígio se aproximam e dão uma pista. O culto da “face” regula os relacionamentos sociais na China. O simples fato de interromper alguém que fala é considerado comportamento ofensivo, porque faz o interlocutor “perder a face”. Aquele que falava vai se sentir desprestigiado. Consertar o estrago não será tarefa simples. O único modo é “dar-lhe face”, conceito complementar ao anterior. Para devolver a face ao cidadão ofendido, pedido de desculpas não vale. As palavras-chave para reaver dignidade arranhada são: elogio, prestígio, admiração, deferência. Há que lisonjear, incensar, acariciar, paparicar.

Na China, espera-se que cada cidadão respeite o próximo como respeita a si mesmo. Um exemplo emblemático é quando duas pessoas travam conhecimento. Cada um vai entregar seu cartão de visitas ao outro segurando-o com as duas mãos. E, naturalmente, toma com as duas mãos o que lhe está sendo oferecido. Esse gesto de deferência significa que o respeito que se tem pelo próximo é igual ao que se tem por si mesmo.

Os chineses são especialmente ciosos da própria imagem quando se trata de relações internacionais. É terreno minado. Como toda nação antiga e de passado glorioso, os chineses sentem aquela nostalgia do brilho perdido, o que os torna deveras susceptíveis. Em 1999, quando de sua visita oficial à Suíça, Jiang Zemin, presidente da China, foi alvo de protestos populares. Não houve agressão física, apenas a presença de manifestantes com faixas que pediam a independência do Tibete – país anexado pela China em 1951. Furioso, o dirigente recusou-se a cumprir o resto do programa. Em rápido e inflamado discurso de despedida, declarou que aquilo não eram modos de receber um visitante, e que a Suíça havia perdido um bom amigo. As relações entre os dois países ficaram abaladas por uma década.

Imagine agora o distinto leitor como devem estar sendo recebidas, na China, as agressões proferidas por ministros e deputados nossos, compartilhadas pelos mais altos escalões sem que o presidente da República digne de reprovar. É a China inteira “perdendo a face”! A humilhação, como se sabe, é a melhor maneira de fazer inimigos duráveis. Quem faz um chinês “perder a face” arruma um inimigo vitalício.

Bolsonaro (ou quem lhe suceder) terá de tentar “devolver a face” à China para abrandar os efeitos da ofensa. Um “desculpa aí, pô!” não vai bastar. Há de ser tarefa longa e paciente. Um bom começo será convidar o presidente chinês para visita de Estado, com direito a recepção de arromba, todas as honras, desfile do 7 de Setembro ou camarote num sambódromo, giro turístico pelo Brasil, hospedagem em palácios de prestígio, banquetes de 15 pratos. Na hora da sobremesa, é bom lembrar que chinês não aprecia pratos de gosto açucarado demais. Convém evitar leite condensado.

Por que será?

José Horta Manzano

Quando alguém toma atitude fora dos parâmetros, convém desconfiar. Razões, pode haver muitas. Pode ser para ceder a chantagem, por convicção íntima, por vontade de aparecer. Há outras possibilidades. Vamos aos fatos.

É o Estadão(*) quem dá a notícia. Indusparquet, firma que se apresenta como a maior fabricante de pisos de madeira do país, é ativa na exportação. Algum tempo atrás, um lote de mercadoria sua foi apreendido pelo Ibama. Foi a maior apreensão já registrada no estado de São Paulo. A infração foi punida com multa milionária.

Foi aí que entrou em cena o modo Bolsonaro de gerir a coisa pública. A madeireira foi agraciada com perdão da dívida. Ficou o dito pelo não dito. E desculpe alguma coisa aí, hein! Não admira saber que a firma multiplicou suas exportações para EUA e Europa, nos últimos dois anos, justamente em virtude de produtos feitos de ipê e cumaru.

Se Bolsonaro insiste em liberar a pilhagem da floresta amazônica, não será por nenhuma das razões que mencionei na entrada. Que se saiba, não está sendo vítima de chantagem por parte das madeireiras. Não consta tampouco que faça isso por convicção íntima – convicção de quê? Vontade de aparecer, ele tem, é verdade; mas já aparece demais com a baixaria que sai de sua boca sem precisar aliviar multas.

Não sei como é que fica na cabeça do distinto leitor, mas na minha, espremendo bem, só sobra uma razão a explicar a estranha atitude do doutor. Se ele permite a destruição da floresta para beneficiar uns poucos neandertais, só vejo uma razão possível: ele está muito interessado em agradar a essa gente. É esquisito. Eleitoralmente, não contam. São muito poucos e não pesam na urna. O que é que sobra?

Bem, eu dei a pista. Cada um que tire suas conclusões.

(*) O artigo integral está aqui.

Orquídea

José Horta Manzano

Certas palavras têm origem surpreendente. Entre elas, está orquídea, nome da simpática flor cujas múltiplas variedades estão presentes em vastas regiões do globo, da zona tropical à temperada.

O nome vem do grego. Atribui-se o batismo da orquídea a Teofrasto, filósofo grego que viveu 300 anos antes de Cristo. Na língua dele, uma das acepções do termo órkhis designa uma variedade de azeitona. Mas não foi essa acepção que deu nome à flor.

É que órkhis também significa testículo. É daí que vem o nome da orquídea. A associação de ideias tem a ver com a forma da raiz da planta, uma espécie de bulbo que lembra o atributo da genitália masculina. O D que apareceu no meio da palavra – orquíDea – é tentativa tardia de latinização. Não consta no original grego.

Como prova da relação entre a flor e a anatomia, note-se que, em linguagem médica, o elemento de formação orqui- (orquid-) é utilizado para designar os testículos. Orquialgia é dor testicular, orquidectomia – ablação de um/dos testículo(s). E assim por diante.

Parece que, depois disso, o encanto da flor diminui, não? Mas o imenso charme das orquídeas logo faz esquecer a pouca poesia das origens.