Caminhos para o futuro

Georges Clémenceau (1841-1929), estadista francês

José Horta Manzano

De vez em quando, escuta-se de novo uma história curiosa que teria tido como personagem principal Georges Clémenceau (1841-1929), primeiro-ministro e estadista francês dotado de forte personalidade. Um dia, 100 anos atrás, alguém lhe disse que o Brasil era o país do futuro. E Clémenceau, na lata: «E vai continuar sendo por muito tempo».

A historinha é maldosa, mas, convenhamos, não desprovida de conteúdo. A prova é que ainda hoje continuamos dizendo que o Brasil é o ‘país do futuro’. Um futuro que, ai de nós, nunca chega. Não chega na vida real, mas no nosso falar é diferente. Que utilizemos linguajar caseiro ou uma fala tensa, temos nada menos que quatro caminhos para indicar o futuro.

Futuro sintético
O nome soa técnico, mas nada mais é que a frase com o verbo no futuro simples.

O presidente fará um discurso amanhã.
Os deputados reassumirão segunda-feira que vem.
Esse pneu estourará a qualquer hora.

Futuro perifrástico 1 (com ir)
Apesar do nome assustador, é a maneira mais popular de transmitir a ideia de futuro. Em português moderno, damos preferência ao verbo ir + verbo principal no infinitivo.

O vizinho vai dar uma festa no fim de semana.
O prefeito vai receber alta amanhã e vai voltar pra casa.
Esse pneu vai estourar a qualquer hora.

Futuro perifrástico 2 (com querer)
Em alguns casos, o português antigo se valia do verbo querer pra exprimir ideia de futuro. Embora o uso esteja quase extinto, ainda se ouve alguma relíquia aqui e ali.

Parece que quer chover.
Este gás quer acabar; qualquer hora, não sai mais nada.
Esse pneu quer estourar a qualquer hora.

Presente com função de futuro
Com frequência bem maior do que a gente imagina, usamos o presente do indicativo pra indicar ação futura. Quer ver?

Amanhã faço uma surpresa para a família: trago um bolo.
Hoje à tarde, não saio; fico em casa pra terminar o trabalho.
Esse pneu estoura a qualquer hora.

Viu? Além da nossa, não conheço nenhuma outra língua com quatro maneiras de formar o futuro. Muitas línguas têm dois caminhos. Três já é mais raro. Quatro, que eu saiba, só nós.

Pensando bem, ainda que o futuro nunca chegue, é sempre melhor ser país do futuro do que país do passado, como há alguns por aí(*). Certos povos que, no passado, foram mais importantes do que hoje são, caem nessa situação incômoda de dirigir com o olho grudado no retrovisor, lembrando a cada instante, com nostalgia, do bom passado de riqueza e glória.

Se for dirigir, olhe p’ra frente. Dá mais certo.

(*) Do jeito que o Brasil está sendo conduzido, já estamos com um pé na categoria dos que, sem ter chegado ao futuro, têm saudade do passado.

Lula não tem emenda

Lula pede desculpas aos italianos: “Sobre Battista, errei”  –   La Repubblica, Turim

José Horta Manzano

Todos devem se lembrar do maior vexame internacional que Lula da Silva impôs ao Brasil. Foi quando, no último dia de seu mandato (31 de dez° de 2010), se recusou a entregar o terrorista Cesare Battisti à Itália. A surpreendente decisão contrariava o STF, atropelava o bom senso e envenenava as relações entre os dois países. A insinuação de que a Itália não tinha sabido julgar o homicida foi recebida, por lá, como afronta, um tapa na cara.

Mas ninguém perde por esperar. O dia do acerto de contas sempre acaba chegando. E chegou para ambos. Por ironia do destino, acabaram os dois atrás das grades. Lula, por ano e meio; Battisti, para o resto de seus dias.

Em março de 2019, já preso na Itália, o terrorista respondeu a um interrogatório. Depois de 40 anos de negativa obstinada, confessou todos os assassinatos pelos quais tinha sido condenado. Assumiu ainda os disparos nas pernas de outras vítimas ‒ método típico dos terroristas dos anos de chumbo na Itália. Admitiu ainda ter participado de uma baciada de assaltos.

A confissão pôs nosso guia em posição desconfortável. Como sustentar agora a tese de que o terrorista era inocente, nada mais que um perseguido político? Lula, na época, estava numa masmorra de Curitiba. Posteriormente, apesar de seu costume de proferir ‘quase verdades’, não houve jeito. Teve de reconhecer que estava errado, mas fez durar o suspense: disse que, se fosse necessário, pediria desculpas.

O momento chegou. Faz uns dias, foi entrevistado pelo segundo canal da RAI (Radiotelevisão italiana). Realmente pediu desculpas aos italianos. Só que a maneira como apresentou o assunto anulou o que tinha acabado de dizer. Deu com uma mão e tirou com a outra.

Para justificar o asilo concedido, Lula confessou que estava enganado sobre Battisti. Acreditava que fosse inocente. Até aí, está no limite do aceitável. Em seguida, admitiu só ter se convencido quando o homem, já preso na Itália, assinou a confissão diante de um juiz.

Ficou claro que, se esperou até ouvir a confissão da boca do próprio Battisti, é porque acredita mais na palavra do encarcerado do que no veredicto da justiça italiana. Portanto, apesar do pedido de desculpas, segue ofendendo a justiça daquele país, ao considerar que o que vale mesmo é a palavra do terrorista.

Dos relatos que li na imprensa italiana, nenhum se ateve a esse ponto. Acho que, tão embevecidos estão com as sempre sábias palavras de nosso ‘pai dos pobres’, que se esquecem de analisar o que ele diz. Este blogueiro, que nunca esteve embevecido pelo personagem, não deixou escapar.

Quadrinhos ‒ 281

José Horta Manzano

A vacina AstraZeneca (de Oxford) vem sofrendo forte rejeição na Europa em decorrência de supostos efeitos secundários. Eles seriam terríveis, uma ameaça bem pior do que virar jacaré.

“Não, não foi daqui. Nós encomendamos pizza.”
by Harry Harrison (1961-), ilustrador do jornal South China Morning Post, Hong Kong.

École Nationale d’Administration

Ecole Nationale d’Administration, Estrasburgo (França)

José Horta Manzano

Em novembro de 2018, a França viu surgir um movimento de protesto que, em pouco tempo, se espalhou por todo o território nacional. Eram os “gilets jaunes” (coletes amarelos). Bloqueio ilegal de estradas e manifestações todos os sábados tornaram-se constantes. Com o passar do tempo, as passeatas foram atraindo um povo estranho, sem eira nem beira, daquela gente que aprecia evacuar o excesso de agressividade praticando atos violentos. Vitrines quebradas, automóveis incendiados, monumentos vandalizados, comércios saqueados – esse foi o pesadelo que a França teve de suportar durante meses. O primeiro confinamento, decretado em março de 2020 por causa da pandemia, acabou com o movimento.

As reivindicações eram tantas e tais, que confundiram a cabeça de eleitores e de eleitos. Tudo o que é demasiado dá indigestão. Reclamava-se do preço dos combustíveis (como acontece às vezes no Brasil, veja só), do custo de vida, das alíquotas do imposto de renda, do desemprego, da classe política, das desigualdades sociais. Era um programa pra lá de vasto.

Quando as demandas são tão plurais, as respostas perigam não satisfazer plenamente a ninguém. Foi o que aconteceu. No balanço final, praticamente nada mudou. O presidente continua lá, o primeiro-ministro e seu governo também. E a vida segue.

Com o fito de mostrar-se empenhado em diminuir o vão entre os do andar de cima e os demais, o presidente Macron decidiu fazer um gesto vistoso. Anunciou ontem que vai extinguir a École Nationale d’Administration (ENA).

Com sede em Estrasburgo, a ENA é a instituição de ensino que visa a preparar futuros quadros superiores da administração pública. Para se ter uma ideia da importância da instituição, note-se que de lá saíram 4 dos últimos 6 presidentes da França – Macron incluído. Nove dos 23 primeiros-ministros, desde 1958, também foram alunos. Também estudaram na ENA quase 15% dos ministros de Estado dos últimos 60 anos.

A fundação da escola foi determinada em 1945 pelo general De Gaulle. Seu objetivo era formar pessoal altamente qualificado com vistas à recomposição de um Estado que havia sido destruído pela Segunda Guerra.

Com o anúncio do fechamento da instituição, Emmanuel Macron dá a entender que contribui para diminuir a desigualdade social. A meu ver, a decisão é meramente eleitoralista – vistosa, mas sem efeito prático. Desníveis sociais não se corrigem podando as excelências, mas eliminando as deficiências.

Seria mais proveitoso gastar tempo e esforço numa reflexão sobre como melhorar a instrução básica da população. De qualquer maneira, sem a ENA, outro instituto virá fatalmente preencher o vácuo. O que não se pode é deixar que, por falta de formação, quadros despreparados venham a ocupar postos importantes no futuro.

Dá inveja ver o presidente de um país como a França esnobando ao suprimir um instituto que já provou sua excelência, enquanto, no Brasil, ai ai ai… Temos de nos contentar com gente do nível do Lula, da Dilma, do Bolsonaro. Sem esquecer gurus, ministros e assessores atrasados, incultos, burros, sem formação, incompetentes e mal-intencionados como Araújo, Pazuello, Salles, Damares & companhia.

Um estabelecimento de formação de quadros superiores não é máquina niveladora; os que lá se formam não saem idênticos, todos iguais e formatados como soldadinhos de chumbo. Cada um continua carregando a própria personalidade. O que os iguala e nivela, na verdade, é a solidez da cultura, a visão política e a percepção de mundo.

Se nossos últimos presidentes tivessem passado por lá, pelo menos saberiam se exprimir e não nos envergonhariam tanto. Já seria melhor que hoje.

Pólen & covid

José Horta Manzano

Você sabia?

Em regiões de clima mais frio, a vegetação descansa no inverno. Com a chegada da primavera, cada espécie vai despertando, lançando brotos e flores. Com as flores, vêm os pólens, cuja função é fecundar outras plantas da mesma espécie, num fenômeno chamado polinização.

Para o caso de flores ornamentais, a natureza dispõe das abelhas que, ao colher o néctar de uma flor, levam pólen grudado às patinhas. Esse pólen acabará sendo depositado em outra flor, fecundando-a. Essa é a função das abelhas: a polinização.

Para o caso de árvores – que também botam flores e dependem de polinização –, quem se encarrega de transportar o pozinho é o vento.

Enquanto pólen de flor ornamental é mais pesado e dificilmente levado pelo vento, o de árvore é fininho, levinho, às vezes invisível. Voa pelo ar. Em organismos mais sensíveis, costuma provocar a febre do feno, uma rinite alérgica – doença respiratória que causa grande desconforto.

A National Academy of Sciences (EUA) publicou recentemente um vasto estudo coapresentado por uma penca de cientistas originários de uma dúzia de países. Ele trata da interferência entre pólens e covid-19, visto que os dois causam afecção respiratória. O trabalho, muito completo, baseou-se nos dados de 130 estações de medição de pólen, situadas em 31 países do Hemisfério Norte.

O estudo é longo e altamente técnico, mas o que interessa saber é que a ação dos pólens é realmente fator agravante da covid. A abundância de pólen no ar resulta em significativo aumento das taxas de infecção. Não se tem absoluta certeza do mecanismo, mas o fato é este: mais pólen, mais covid.

Que eu saiba, não existem no Brasil estações destinadas a medir a quantidade de pólen no ar. Se as árvores de clima temperado se fecundam por meio de pólen lançado ao ar, quero crer que árvores tropicais sigam o mesmo caminho. A diferença é que, dado que nosso inverno não é tão marcado, as árvores não soltam o pólen todas ao mesmo tempo. Como resultado, nosso ar contém pólens de modo constante.

Talvez um dia alguma instituição que tiver escapado à atual sanha obscurantista consiga fazer um estudo sobre a interferência dos pólens tropicais na infecção por coronavírus. Enquanto nossa civilização não atinge esse estágio, distinto leitor, a melhor arma é a máscara. Para pessoas sensíveis ao pólen, são recomendadas máscaras mais especiais ainda: aquelas que protegem contra micropartículas.

Ao fugir de aglomeração, evita-se contaminação pelo bafo alheio. Mas não se evita respirar os pólens que, invisíveis, dançam por todos os ares em busca de uma árvore amiga. A única maneira de escapar aos dois – ao bafo e ao pólen – é usando máscara. Não é má ideia usá-la o tempo todo que se passa fora de casa, seja num baile clandestino, seja passeando no bosque.

Vacinação diferenciada

Chamada Estadão, 7 abril 2021

José Horta Manzano

Dos países civilizados que conheço, nenhum pensou, até agora, em privatizar a vacinação contra a covid. A lógica é a mesma das vacinas tradicionais – poliomielite, tuberculose, varíola, febre amarela, hepatite. Cabe ao governo cuidar da imunização da população.

Só o fato de haver cogitado essa possibilidade já mostra que algo continua torto em nosso país. Se o projeto for realmente posto em prática, será passado atestado de nossa fé inabalável na desigualdade social.

Não respondo pelos laboratórios situados, digamos assim, em países menos tradicionais – Rússia, Índia. Mas me surpreenderia que empresas farmacêuticas sérias acatassem um pedido de compra de vacina vindo de particulares brasileiros, enquanto os demais cidadãos continuam fazendo novena pra Santa Genoveva pra conseguirem ser imunizados logo. Sem muita esperança.

Se, no Brasil, esse projeto não causa escândalo, além-fronteiras não é bem assim. Num momento em que o mundo corre atrás de imunizantes, cairia mal fornecer imunizante para abastados enquanto o povão continua ao deus-dará.

Só rico lê

Chamada Estadão, 7 abril 2021

José Horta Manzano

Advertência da Receita Federal: livro pode perder isenção fiscal porque, segundo eles, «só rico lê».

Todo caminho é de mão dupla, dona Receita! Todo argumento tem de sofrer a prova da mão dupla, não parece lógico? Então, vamos lá.

Pelo raciocínio de algum luminar, rico pode pagar mais imposto. Mas não há que esquecer o corolário: que se cobre menos imposto do pobre.

Então, vamos fazer o seguinte. Aumenta-se o imposto do livro, já que é produto para o rico. E baixa-se o imposto do arroz e do feijão, produtos essenciais para o pobre. Estamos combinados?

Cada uma! Num país de iletrados, a ideia é aberrante. Quando é que será instituído imposto sobre a estupidez?

Promete mas não entrega

José Horta Manzano

Bolsonaro declarou ontem que ”resolve o problema do vírus em poucos minutos”. Falou assim, mas não deu a receita tim-tim por tim-tim, o que deixa uma leve suspeita de que não passe de (mais uma) bravata.

O presidente limitou-se a declarar que o que falta é dinheiro. Como de costume, aproveitou para ser grosseiro e acusar a imprensa de misteriosas malversações, ao revelar que o dinheiro que ‘governos anteriores’ pagavam aos grandes jornais do país não era para a imprensa, mas para ‘outras coisas’. Não explicitou que ‘outras coisas’ seriam.

Se o problema de combate ao vírus fosse simplesmente questão de dinheiro, países ricos já estariam livres da praga. É verdade que, sem dinheiro, um país está condenado a conviver com a desgraça por muitos anos. Não é o caso de nosso país. Nos altos círculos da República, dinheiro parece brotar em árvores. Aos bilhões.

Dinheiro, há. Acontece que ele, por espantosa incompetência, está sendo mal utilizado. Com gastos em cloroquina, com material esquecido em armazéns do exército, com investimento em desinformação, não há dinheiro que chegue. Quantas vacinas, seringas, agulhas, respiradores poderiam ter sido comprados com os bilhões – de nosso dinheiro! – que Bolsonaro usou pra cooptar o Centrão?

Como se vê, nosso presidente continua discursando para seus devotos. Ele e os que o aplaudem não sobreviviriam em outro ambiente que não fosse de ódio e revolta o tempo todo. É assim que essa gente funciona. Já faz tempo que Bolsonaro percebeu isso. Daí a insistência em insuflar os maus instintos de quem os tiver.

Colapso se agrava?

José Horta Manzano

De origem latina, a palavra colapso é originariamente de uso científico. Em medicina, dá nome à síndrome de insuficiência cárdio-circulatória aguda. Em engenharia, diz-se que há colapso quando uma estrutura deixa de suportar ao conjunto de forças externas. Em astrofísica também se usa essa palavra para descrever determinados fenômenos.

Muito apropriadamente, a língua de todos os dias tomou o termo emprestado para indicar situações em que aquilo que devia funcionar já não consegue fazê-lo, por algum motivo.

Nestes tempos de pandemia, a grande preocupação das autoridades – falo de autoridades sérias e civilizadas, não necessariamente de nosso presidente – é preservar o sistema nacional de saúde para evitar que entre em colapso. Em sentido figurado, o colapso equivale à estrutura de um edifício que, ao colapsar, provoca o desmoronamento do prédio, sem nada que se possa fazer para evitar.

A chamada do jornal diz que o “colapso hospitalar se agrava”. É uso inadequado. Se o funcionamento de uma UTI (ou, pior ainda, de um hospital inteiro) entrar em colapso, isso quer dizer que a UTI (ou o hospital inteiro) parou de funcionar, que não dá mais conta. Não é o que a chamada quis informar.

Não se deve falar em “colapso que se agrava”. Se a palavra colapso, que soa bem, tiver de ser usada, melhor será dizer:

que a situação se aproxima do colapso,
que o colapso se aproxima,
que há risco de colapsar,
que o colapso já aponta no horizonte,
que há forte ameaça de colapso,
que o colapso é iminente.

Não dá realmente pra dizer que o colapso se agrava. Colapso é fenômeno definitivo: colapsou, babau.

Absolver ou condenar?

Fernando Gabeira (*)

Tudo o que podemos fazer é prosseguir isolando Bolsonaro para derrubá-lo no momento em que for possível, ainda que isso só possa acontecer em 22. E julgá-lo também por sua incompetência assassina, quando for possível e tivermos força para que a Justiça não falhe.

Bolsonaro tem algumas características que podem absolvê-lo em certos tribunais brasileiros. Uma delas é a grande quantidade de provas contra ele. Já houve no país casos de absolvição por excesso de provas.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 5 abril 2021.

Bolsonaro e a fome

José Horta Manzano

Parece que faz uma eternidade, mas foi em julho do ano passado, não mais que nove meses atrás. A história se passou durante um café da manhã que doutor Bolsonaro ofereceu a jornalistas da imprensa internacional. Naquele tempo, o presidente ainda convidava jornalistas para encontro face a face e ainda se dignava de responder às perguntas.

Quando um dos profissionais levantou o problema da pobreza e da fome no país, o doutor respondeu de bate-pronto: «Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira!» E ensinou que não precisa nem de dados estatísticos; basta prestar atenção no fato de não se ver «gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo».

Duzentos e sessenta dias e uma pandemia depois, muita coisa mudou. Já faz tempo que o doutor deixou de receber jornalistas sérios. Se já não lhe agradava ter de responder a perguntas, hoje agrada ainda menos. De lá pra cá, a pandemia pegou forte, ministros caíram, Trump se foi, o Exército está se esquivando das locuras federais, a aposta no Centrão está se revelando um furo n’água.

Faz alguns dias, o Instituto PoderData publicou pesquisa feita em mais de 500 municípios de todas as unidades federativas. O que se buscava saber era como a pandemia tinha afetado a alimentação dos brasileiros. O resultado é triste de fazer dó.

Adicionando os que têm comido menos que de costume e os que têm passado fome, chega-se a assustadores 36%. Isso significa que 1 em cada 3 brasileiros estão em situação crônica de insegurança alimentar. Com ou sem pandemia. Um em cada três cidadãos!

Pra se dar conta do mundaréu de gente que isso significa, o distinto leitor está convidado a passear a pé pelo centro de sua cidade. Vá andando e observando os que vêm em sentido contrário. E vá contando: ‘este não, este não, este sim. (O sim corresponde aos que estão na corda bamba, sem dinheiro suficiente pra matar a fome hoje.) Pode continuar: ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim. Não é angustiante?

Isso significa que nosso doutor chegou ao mais alto encargo da República sem ter noção do mal maior que aflige o povo que o elegeu. Como ele é meio duro de cabeça, é bem capaz de não ter aprendido até hoje, passados dois anos. Pra dizer a verdade, a vidinha do brasileiro comum não parece fazer parte das preocupações maiores do doutor. Se ele tivesse disposição de cuidar dos que o puseram lá, sua atitude com relação à pandemia teria sido diferente.

Dificilmente quem está lendo este artigo tem ideia do que seja ir pr’a cama com fome. Tirando aquele dia em que o jantar queimou e a pizzaria estava em reforma, nenhum de nós sabe o que significa ter fome crônica, não ter comida suficiente para alimentar a família, ter de pôr as crianças pra dormir com a barriga roncando.

O Lula, sim, sabia o que é passar fome. Quando no governo, criou um arremedo de solução que lhe foi assaz benéfica em termos eleitorais. No entanto, não pôs fim à insegurança alimentar no país. Mitigou o problema, reelegeu-se, fez a sucessora, ficaram 14 anos no poder, mas o problema da fome continua inteiro, exatamente como era antes.

Já Bolsonaro, com o negacionismo que é característica incrustada de sua personalidade, nega tudo o que não lhe convém. Assim como nega hoje a pandemia, negou e continuará negando a fome crônica do brasileiro pobre. Se o problema, para ele, não existe, não há razão para se preocupar com essas miudezas.

Pode ser que, quando Bolsonaro tiver sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional e estiver encarcerado na Holanda, esqueçam um dia de levar-lhe a quentinha. Talvez lhe acuda então à memória o que afirmou aos jornalistas naquele longínquo café da manhã. Ou talvez não queira se lembrar.

O bem da família

Carlos Brickmann (*)

Quando Bolsonaro quis nomear seu filho Eduardo “Bananinha” (apelido que lhe foi dado pelo vice, general Mourão) para a Embaixada do Brasil em Washington, disse que era natural que entregasse o filé-mignon para sua família. Pois é. Já para a população em geral, ele recusou a oferta de vacinas da Pfizer; optou por entrar com a cota mínima no consórcio internacional que garantiria vacinas mais baratas; votou na ONU contra a quebra de patentes das vacinas, o que teria permitido que vários países as produzissem, garantindo a imunização de muito mais gente em muito menos tempo; disse que quem tomasse a vacina da Pfizer podia virar jacaré; desprezou a vacina do Butantan por achar que os chineses não sabiam fazer coisa boa, chamou-a de “vachina”.

Mas sua mãe, o presidente mandou vacinar. E sua nora, esposa do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01, foi vacinar-se no dia 2. Família merece sempre maior atenção.

Já dizia Chico Anysio que o povo é apenas um detalhe.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

ADN (=DNA)

José Horta Manzano

Há um assunto que me deixa cismado. Vamos a ele. Talvez algum detalhe esteja me escapando e alguém possa me trazer alguma luz.

Parto da premissa que, em matéria de pandemia, a maioria dos países está no mesmo barco. Vacina, que anda escassa por toda parte, tornou-se objeto de desejo. Com exceção de um ou outro personagem empacado como Bolsonaro, todos já entenderam que a salvação passa pela imunização. O fator mais importante a reter o avanço da vacinação é justamente a escassez de vacinas. Portanto, o cenário básico é o mesmo para todos os países.

Na região do mundo em que vivo, acompanho com atenção a atualidade de diversos países. Geográfica e culturalmente, os mais próximos são: Suíça, França, Itália, Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal. Mas o resto não fica muito longe. Deste lado do mundo, nunca ouvi falar em nenhum escândalo de roubo de vacina, nem muito menos de enfermeiro(a) desonesto(a) que tivesse apenas fingido aplicar o imunizante ou que tivesse ludibriado o paciente injetando soro fisiológico.

No Brasil, país cuja atualidade sigo também com atenção, não se passa um dia sem que apareça alguma notícia desse tipo. Já nem se pode mais chamar de escândalo, tão modesta é a repercussão. Vem em nota de rodapé. A mais recente que li foi ontem, a triste história de um idoso que recebeu «injeção de vento». O fato foi notado pela neta que o acompanhava e que, felizmente, botou a boca no trombone. Como se vê, os golpistas não disfarçam mais o crime, nem mesmo diante de testemunhas.

Volto à parte do mundo em que vivo. Por aqui, simplesmente não passaria pela cabeça de ninguém fazer alguma coisa desse tipo. E olhe que a escassez de vacinas é a mesma do Brasil. Veja-se o seguinte exemplo. Enquanto, no Brasil, já estão vacinando pessoas da faixa de 60 e poucos anos, na Suíça só idosos com 75 anos ou mais têm direito à vacinação – além das conhecidas exceções: pessoal médico e pessoas com comorbidade pesada. Cidadãos de 74 anos para baixo estão quietinhos esperando a vez.

Agora vem a pergunta. Por que esses atos criminosos acontecem no Brasil e não aqui? Tenho algumas pistas.

A quase certeza da impunidade incentivaria esses atos.
Dado que, por aqui, algo desse tipo é inimaginável, ninguém está desconfiado. Portanto, ninguém está vigiando. Assim, em teoria, aqui também há uma quase certeza de impunidade. No entanto, esses crimes não ocorrem.

A desigualdade social explicaria a criminalidade.
Não vejo bem por que é que a desigualdade social levaria enfermeiros a expor compatriotas idosos a risco de morte. A explicação da desigualdade é meio capenga.

O negacionismo de Bolsonaro explica.
O quê? Isso quer dizer que os enfermeiros que agem assim estão pondo em prática a doutrina do presidente de ‘resguardar’ os velhinhos contra os perigos da vacina? Ora, conte outra.

Posso continuar aqui desfiando supostas razões a explicar essa distorção nacional. Sem chegar a conclusão nenhuma. A ausência de razão objetiva conduz a uma conclusão terrível: a tendência ao crime estaria inscrita no ADN (=DNA) do brasileiro. Será? É de dar arrepio.

Luzes são bem-vindas! Se o distinto leitor quiser tecer suas considerações sobre o tema, não hesite: o espaço de comentários (assinalado no final do artigo) está aí para isso.