ADN (=DNA)

José Horta Manzano

Há um assunto que me deixa cismado. Vamos a ele. Talvez algum detalhe esteja me escapando e alguém possa me trazer alguma luz.

Parto da premissa que, em matéria de pandemia, a maioria dos países está no mesmo barco. Vacina, que anda escassa por toda parte, tornou-se objeto de desejo. Com exceção de um ou outro personagem empacado como Bolsonaro, todos já entenderam que a salvação passa pela imunização. O fator mais importante a reter o avanço da vacinação é justamente a escassez de vacinas. Portanto, o cenário básico é o mesmo para todos os países.

Na região do mundo em que vivo, acompanho com atenção a atualidade de diversos países. Geográfica e culturalmente, os mais próximos são: Suíça, França, Itália, Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal. Mas o resto não fica muito longe. Deste lado do mundo, nunca ouvi falar em nenhum escândalo de roubo de vacina, nem muito menos de enfermeiro(a) desonesto(a) que tivesse apenas fingido aplicar o imunizante ou que tivesse ludibriado o paciente injetando soro fisiológico.

No Brasil, país cuja atualidade sigo também com atenção, não se passa um dia sem que apareça alguma notícia desse tipo. Já nem se pode mais chamar de escândalo, tão modesta é a repercussão. Vem em nota de rodapé. A mais recente que li foi ontem, a triste história de um idoso que recebeu «injeção de vento». O fato foi notado pela neta que o acompanhava e que, felizmente, botou a boca no trombone. Como se vê, os golpistas não disfarçam mais o crime, nem mesmo diante de testemunhas.

Volto à parte do mundo em que vivo. Por aqui, simplesmente não passaria pela cabeça de ninguém fazer alguma coisa desse tipo. E olhe que a escassez de vacinas é a mesma do Brasil. Veja-se o seguinte exemplo. Enquanto, no Brasil, já estão vacinando pessoas da faixa de 60 e poucos anos, na Suíça só idosos com 75 anos ou mais têm direito à vacinação – além das conhecidas exceções: pessoal médico e pessoas com comorbidade pesada. Cidadãos de 74 anos para baixo estão quietinhos esperando a vez.

Agora vem a pergunta. Por que esses atos criminosos acontecem no Brasil e não aqui? Tenho algumas pistas.

A quase certeza da impunidade incentivaria esses atos.
Dado que, por aqui, algo desse tipo é inimaginável, ninguém está desconfiado. Portanto, ninguém está vigiando. Assim, em teoria, aqui também há uma quase certeza de impunidade. No entanto, esses crimes não ocorrem.

A desigualdade social explicaria a criminalidade.
Não vejo bem por que é que a desigualdade social levaria enfermeiros a expor compatriotas idosos a risco de morte. A explicação da desigualdade é meio capenga.

O negacionismo de Bolsonaro explica.
O quê? Isso quer dizer que os enfermeiros que agem assim estão pondo em prática a doutrina do presidente de ‘resguardar’ os velhinhos contra os perigos da vacina? Ora, conte outra.

Posso continuar aqui desfiando supostas razões a explicar essa distorção nacional. Sem chegar a conclusão nenhuma. A ausência de razão objetiva conduz a uma conclusão terrível: a tendência ao crime estaria inscrita no ADN (=DNA) do brasileiro. Será? É de dar arrepio.

Luzes são bem-vindas! Se o distinto leitor quiser tecer suas considerações sobre o tema, não hesite: o espaço de comentários (assinalado no final do artigo) está aí para isso.

5 pensamentos sobre “ADN (=DNA)

  1. Pingback: José Horta Manzano, meu vizinho que mora na Suiça… | Caetano de Campos

  2. Prezado Manzano, por estas plagas, continua valendo a lei da vantagem. Alguns (não acho que seja regra), surrupiam doses de vacinas do Programa Nacional de Imunização simulando a aplicação em pessoas desatentas. Outros (ai sim acho que são muitos) estariam dispostos a pagar generosamente para poder furar a fila. Estamos caminhando determinadamente de um mundo com.br para um mundo sem.br.

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    • Pois é, prezado Marcio, o que você diz conforta uma suspeita que tenho há muito tempo. Acredito que o ADN brasileiro foi forjado pelos aventureiros que, nos dois ou três séculos que se seguiram ao descobrimento, vieram povoar a terra.

      Alguns traços característicos da alma nacional são herança direta daquele espírito:

      a lei do mais forte (ou da carteirada);

      a rígida estratificação social;

      a certeza, que muitos têm, de pertencer à casta dos inimputáveis;

      a contínua criação de privilégios (=leis privadas), que beneficiam segmentos específicos da população em detrimento dos demais.

      Em suma, vivemos num faroeste que não quer terminar. Mas deixe estar, que não estamos sozinhos: o mesmo ocorre nos demais países americanos, EUA incluídos.

      É herança incômoda, da qual vai levar séculos para nos livrarmos. Se é que nos livraremos um dia.

      Obrigado pela participação. Venha sempre, que a casa é sua.

      Forte abraço.

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  3. Uma provocação e tanto! Se houvesse essa possibilidade, ela atingiria todos os brasileiros indistintamente, independentemente da origem racial de seus ancestrais? Depois de quantas gerações? O trecho “criminoso” do DNA brasileiro poderia ser editado e substituído por, digamos, um comportamento mais amistoso/pacífico de um costarriquenho ou islandês?

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    • Do costarriquenho, não tenho informação. Já do islandês, sim.

      A população da Islândia está entre as mais homogêneas do mundo. Sociedade pequena, em que praticamente todos se conhecem; um clima rude no qual, sem amparo do grupo, ninguém sobreviviria; uma economia que, na ausência de terras agrícolas, é baseada na pesca – atividade que depende do esforço coletivo. Enfim, o islandês não desfila no bloco do ‘eu sozinho’. Cresceu sabendo que cada um depende de todos.

      Com menos rigor, a Europa também se inscreve no rol de regiões em que a segurança dos povoados sempre deveu à organização coletiva. O Estado não é percebido como corpo estranho que impõe seus caprichos de cima para baixo, mas como extensão do coletivo, por ele designado e dele dependente.

      Quanto ao Brasil, vale o que eu disse ao correspondente anterior. A herança feudal ainda está latente na sociedade brasileira atual. Uns podem mais que outros – e ninguém parece muito preocupado com isso. Vivemos ainda nosso ‘ancien régime’. Ainda não fizemos nossa Revolução Francesa.

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