It is hot!

José Horta Manzano

O desregramento climático está cada dia mais evidente apesar do negacionismo de alguns. Pense na Grã-Bretanha. Quem não se lembra da imagem de um país onde chove e venta o tempo todo, o ano inteiro, com temperaturas de verão que raramente ultrapassam os 25°C? Quem não se lembra da figura típica do inglês de chapéu-coco, capa impermeável e o indispensável guarda-chuva?

Pois isso está mudando dramaticamente. A ilustração abaixo mostra a previsão da BBC para esta segunda-feira. Quarenta graus em Londres! Quem havera de dizer. Até para nossos costumes tropicais, essas temperaturas são extravagantes.

Mais compliance e menos complacência

Eduardo Affonso (*)

A intolerância e a impunidade não vicejaram no Brasil da noite para o dia. Faz tempo que vimos tolerando os intolerantes e tendo pena dos impunes.

O casal que assassinou a atriz Daniella Perez passou menos de sete anos na prisão. Se na Black Friday tudo custa a metade do dobro, pelo Código Penal os descontos são bem mais vantajosos: vão de 60% (crimes hediondos) a 83,33% (crimes comuns).

A progressão da pena também já beneficiou a moça que mandou executar os pais, a mulher que atirou no marido e o esquartejou, o casal que asfixiou a filha de 5 anos e a jogou pela janela, o goleiro que matou a ex-amante e deu sumiço no corpo. Em breve, entrarão nessa lista a dona de casa que envenenou os filhos do marido, o vereador que espancou até a morte o enteado de 4 anos e mais alguns milhares de feminicidas, infanticidas, parricidas e afins. Entre estes, se condenados, o policial que invadiu uma festa e assassinou o aniversariante (por “provocações políticas” ) e o médico que estuprou sabe-se lá quantas gestantes durante o parto.

O bom senso recomenda não ir ao supermercado quando se está com fome ou querer mudar as leis em momento de comoção (estômago vazio e desejo de vingança são péssimos conselheiros). Mas não há como não sentir certo desconforto com um sistema penal que tão depressa deixa tantos criminosos livres, leves e soltos.

Esse tipo de pensamento é tachado de “cultura do punitivismo”. Mas, se a pena serve para que o Estado reeduque e reinsira na sociedade aqueles que infringiram a lei, qual será o tempo necessário para que um psicopata ou um fanatizado voltem, regenerados, ao convívio social?

Não é de uma hora para a outra que um médico decide pôr em risco a vida da parturiente e do nascituro, com doses excessivas de sedativos, e consumar um estupro – em pleno centro cirúrgico, diante de uma equipe médica. Até adquirir tamanha desenvoltura, houve um longo aprimoramento da técnica. Muitos sinais devem ter sido percebidos – e ignorados.

– Para prender Lula, vai ter que matar gente – ameaçou Gleisi Hoffmann em 2018.

Meses depois, Bolsonaro conclamava os acrianos:

– Vamos fuzilar a petralhada.

Em 2017, Benedita da Silva se amparava na Bíblia para profetizar que “sem derramamento de sangue, não há redenção”. A mesma Bíblia invocada meses antes por Bolsonaro:

– Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem.

Avisos de radicalização não faltaram – e foram relevados. Eram “em sentido figurado” – pelo menos até a semana passada.

A demora da Justiça em perceber que não está fazendo jus ao nome pode levar o pêndulo para o lado oposto da leniência, a demanda por penas severas demais. E termos sido tão condescendentes com a radicalização política, a uma ruptura de consequências imprevisíveis.

Nada que um pouco mais de compliance (conformidade com as leis e padrões éticos) e menos de complacência não ajudassem a resolver.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Crime de responsabilidade

José Horta Manzano

Bolsonaro passou por cima do Itamaraty e mandou o chefe de cerimonial do Planalto convidar embaixadores estrangeiros lotados em Brasília para um encontro a realizar-se nesta segunda-feira. O convite não explicita o tema da reunião, mas todos já sabem do que se trata. O capitão já deixou vazar que tem intenção de “convencer” os diplomatas de que o sistema brasileiro de voto eletrônico é falho, disfuncional e aberto à fraude.

Em resumo, o objetivo é enxovalhar nosso avançado processo de voto, sistema que vem dando satisfação há um quarto de século. O presidente prefere não recordar o fato de ele vir sendo eleito e reeleito há décadas por esse mesmo sistema. Ousa acusar de fraudulenta a última eleição presidencial, vencida por ele. Os diplomatas hão de estar perplexos com o contorcionismo presidencial.

Agora vamos aos fatos. Eu, você e o menino da porteira, que não somos personalidades públicas, somos livres de ter e exprimir nossas opiniões. Já com o presidente, o caso é diferente. Ao receber em palácio diplomatas estrangeiros, ele deixa de ser o cidadão Jair Bolsonaro. Naquele momento, ele é o presidente da República do Brasil. Suas palavras têm um peso que as nossas não têm.

Diplomatas costumam ser discretos, é o próprio da função. Difícil será obter deles algum comentário depois do encontro. Mas as paredes têm ouvidos. Nestes tempos de redes sociais hiperativas, não vamos tardar a saber o que foi dito.

Caso se confirme que o presidente chamou representantes de dezenas de países estrangeiros para difamar e desacreditar nosso sistema eleitoral, rebaixando o Brasil ao vergonhoso patamar de republiqueta de bananas, ele terá cometido flagrante crime de responsabilidade – um crime que o expõe a processo de impeachment.

É surpreendente que ninguém, no entourage presidencial, tenha alertado o chefe para esse risco. Talvez seja a demonstração de que essa gente não pensa com a própria cabeça e não consegue enxergar um palmo além do nariz.

Se o crime não for denunciado por nenhum parlamentar da oposição, será porque estão todos dormindo no ponto.

Segunda urna

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

José Horta Manzano

No passado, na época em que se podia chamar gentes e coisas pelo nome certo, o ministério que cuidava das Forças Armadas de um país se chamava Ministério da Guerra. Ainda que não houvesse guerra à vista, entendia-se que sua função era estar de prontidão para a próxima.

Na década de 1960, o Brasil seguiu a tendência mundial de substituir o nome desse ministério. A menção à guerra desapareceu. Hoje, em nosso país, seria o caso de pensar seriamente em ressuscitar a antiga denominação.

O atual ministro da Defesa, um general de nome Paulo Sérgio de Oliveira, fiel escudeiro do capitão, vem agindo como menino de recados. Suas palavras estão encharcadas de pensamento bolsonárico.


O general é o porta-voz informal do desespero presidencial. Tornou-se verdadeiro ministro da Guerra. Da guerra às urnas.


Suas investidas são praticamente diárias. A última saiu ontem. Trata-se de uma proposta capenga de aproveitar a votação de outubro próximo para testar a confiabilidade da urna eletrônica. A ideia é organizar uma votação paralela, com registro em papel. Em seções eleitorais selecionadas, o eleitor votaria duas vezes: uma vez na urna tradicional e uma vez pelo arcaico sistema com cédula de papel ou coisa que o valha.

A apuração seria a prova dos noves. A totalização da eletrônica teria que bater com o voto em papel. Agora imagine o distinto leitor. Em outubro, além do presidente da República, elegeremos deputados federais, senadores, governadores e deputados estaduais. Votar uma vez já não é tarefa simples. Imagine então votar duas vezes: o risco de se enganar é elevado. Suponha que, por infelicidade, o total dos dois sistemas não bata. Como é que fica?

Será o sinal verde para a balbúrdia. As redes ferverão. Bolsonaro fará pronunciamentos mais agressivos que de costume. Generais se pronunciarão. É o caminho para melar as eleições e dar um jeito de prolongar mandatos à espera de nova votação. Isso na melhor das hipóteses – as consequências podem ser ainda piores.

A armadilha é clara, só não vê quem não quer. Vamos torcer para que o TSE não ceda à pressão.

Dizem…

José Horta Manzano

Certas declarações são inacreditáveis. Não, não estou falando de nosso capitão. Há gente que, com um pouco menos de grosseria, diz asneiras iguais ou piores que as dele. Vamos ver.


“Tem gente dizendo que já começou a terceira guerra mundial.”


Quem teria pronunciado essa sentença tão vaga quanto ameaçadora? Pelo impreciso “tem gente que”, supõe-se que seja um indivíduo distante dos círculos de decisão onde se prepara o futuro da nação. Quem terá sido?

Vamos a mais um indício. O mesmo sujeito, na mesma ocasião, emendou com ar sério: “[Nos fóruns internacionais] perguntam se estamos com as democracias ou do outro lado do mundo (com a Rússia)”. E acrescentou: “Já está havendo um estremecimento e o Brasil é tão abençoado que as pessoas disputam o poder sem perceber que lá fora pode ter uma guerra em andamento”.

Bem, pelo teor do palavreado, dá pra perceber que se trata de alguém que fez estudos mas que está distante do poder. Será um palestrante, um professor universitário, um empresário. Certo?

Errado, senhôras & senhores! O nome do homem é Paulo Guedes, ministro da Economia desde o início da (indi)gestão Bolsonaro. Num ato falho, talvez para impressionar a plateia ao revelar que frequenta importantes fóruns, acabou confessando dois pecados.

Em primeiro lugar, mostrou o pouco interesse que o ministro da Economia da maior potência da América Latina tem pela inserção de seu país nos negócios globais. O homem parece ter pouca leitura. Se este blogueiro, que não participa de “importantes fóruns internacionais”, está a par do que Sr. Guedes só conhece de ouvir dizer, ele também deveria estar sabendo. Basta ler a imprensa internacional.

Em segundo lugar, ao falar durante cerimônia no Ministério das Comunicações, o ministro escolheu hora e lugar errados. Assuntos dessa gravidade  têm de ser imediatamente repassados ao mais alto escalão. A informação de que ficou sabendo por ouvir falar cabia numa reunião ministerial, com o presidente e toda a tropa. Quem sabe algum ministro deixaria, por um instante, de apenas bajular o capitão, e determinasse que o corpo técnico de seu ministério encampasse a questão.

Do presidente, é sabido que nada se pode esperar. Nos numerosos ministros, tampouco se pode ter muita confiança.

Resta-nos São Benedito, que não costuma falhar. Quase nunca.

Presidente coisa fina

by Marian Kamensky, desenhista austríaco

José Horta Manzano

O linguajar de Bolsonaro é rico de palavras chulas, escarnecedoras e impiedosas. É tarefa quase impossível classificar suas frases e organizá-las em grau crescente de torpeza. Todas carregam tremendo potencial clivante, ofensivo e excludente.

Faz algum tempo, a Folha de São Paulo mergulhou na tarefa ingrata de selecionar as mais agressivas. Aqui está uma seleção com 20 das piores frases pronunciadas pelo capitão em 2021.

Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos.

Não vou dizer que sou um excelente presidente, mas tem muita gente querendo voltar o que eram os anteriores, reparou?

Não reclamo das dificuldades. Sofro ataques 24 horas por dia. Mas entre esses que atacam e vocês, vocês estão muito na frente. Não me vão fazer desistir porque, afinal de contas, eu sou imbrochável.

Tem idiota que a gente vê nas mídias sociais, na imprensa, né?… Vai comprar vacina. Só se for na casa da sua mãe.

Vou só dar um recado aqui: alguns querem que eu decrete lockdown. Não vou decretar. E pode ter certeza de uma coisa: o meu Exército não vai para a rua para obrigar o povo a ficar em casa.

Estão esticando a corda, faço qualquer coisa pelo meu povo. Esse qualquer coisa é o que está na nossa Constituição, nossa democracia e nosso direito de ir e vir.

Daí, vou ter que sair na porrada com um bosta desses [senador Randolfe Rodrigues, da Rede-AP].

A gente continua trabalhando a todo vapor. Não estamos preocupados com essa CPI. Nós não estamos preocupados.

Engraçado, né? Se falar cloroquina é crime, falar em maconha é legal. Jesus também não pode falar, não pode falar em Jesus também não.

O agro realmente não parou. Tem uns idiotas aí, o ‘fique em casa’. Tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa. Se o campo tivesse ficado em casa, esse cara tinha morrido de fome, esse idiota tinha morrido de fome. Daí, ficam reclamando de tudo.

Estão inventando agora na CPI uma corrupção virtual. Uma vacina que não foi comprada, não chegou uma ampola aqui, não foi gasto um real. E o governo está envolvido em corrupção. É o desespero. Por Deus que está no céu, me policio o tempo todo. Só Deus me tira daqui. Tapetão por tapetão sou mais o meu.

Não tenho como saber [o que acontece nos ministério]. O da Damares [Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos], o da Justiça, o da Educação. Não tenho como saber o que acontece nos ministérios, vou na confiança em cima de ministro, e nada fizemos de errado.

Sabe qual a minha resposta? Caguei. Caguei para a CPI, não vou responder nada!

Eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições.

Primeiro, eu entendo que a prevaricação se aplica a servidor público, não se aplicaria a mim. Mas qualquer denúncia de corrupção eu tomo providência.

Dizer a esse ministro que ele tem tempo ainda para se redimir. Tem tempo ainda de arquivar seus inquéritos. Sai Alexandre de Moraes, deixa de ser canalha, deixa de oprimir o povo brasileiro.

Muitas [vítimas] tinham alguma comorbidade, então a Covid apenas encurtou a vida delas por alguns dias ou algumas semanas.

Há três anos não converso com o deputado [Fernando] Francischini. A cassação dele foi um estupro. Por ter feito uma live 12 minutos antes, não influenciou em nada. Ele era deputado federal. Foi uma violência (…) Aquela cassação foi uma violência contra a democracia.

Já fui do PP, já fui do PTB. É um nome pejorativo que deram. Prefiro estar no centrão do que no esquerdão, lá você não consegue nada de bom para o país.

Não tá havendo morte de criança que justifique algo emergencial [vacinação contra Covid-19].

Brasil armado

José Horta Manzano

Nos bons tempos de antigamente, arma de fogo era artigo raro. Entre os civis, os que mais se interessavam eram os caçadores – por motivos óbvios. Aliás, armas se vendiam em loja de artigos para caça e pesca.

Mas toda sociedade evolui. Assim ocorreu com a sociedade brasileira, que nem sempre evoluiu no bom sentido. Em certos pontos, em vez de progredir temos regredido. No quesito armas, por exemplo.

Hoje qualquer pivete anda armado. E atira. Não se passa um dia sem notícia de algum homicídio causado por um assaltante imbecil, num ato que não traz proveito ao autor.

Pense agora no crime de Foz do Iguaçu, em que o bolsonarista matou o petista. Reparou que matador e vítima estavam ambos armados? Um trazia a arma dentro do carro de família – com a família dentro! O outro levava consigo um revólver em plena festa de aniversário – com a família ao lado!

É verdade que se tratava de profissionais da polícia, mas isso não os obriga a andar armados quando não estão em serviço. Aliás, suponho que devesse até ser proibido.

O fato é que, se nenhum dos dois estivesse carregando o trabuco, o entrevero teria se limitado a uma troca de insultos, como é moda atualmente, e mais nada. No entanto, com a bênção e o incentivo do clã presidencial, armas se disseminam e nosso faroeste cria raízes profundas.

Outros dramas estão a caminho.

Bolsonaro e os militares

Bolsonaro e chefes militares em reunião

Marcelo Godoy (*)

O Brasil tem atualmente na função de ministro da Defesa o general Paulo Sérgio Oliveira que, durante recente reunião ministerial, tratou das urnas eletrônicas, plantando dúvidas como a de que as Justiças Eleitorais dos Estados não fariam a soma dos votos para presidente.

Qualquer escrevente do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo sabe o tamanho dessa impostura. A magistratura paulista pode dar seu testemunho da lisura das eleições. Duvidar dela é ofender a honra de centenas de juízes que trabalham a cada ciclo eleitoral. E quem o faz tem apenas um objetivo: manter as sinecuras de uns tantos espertalhões em Brasília.

(*) Marcelo Godoy é jornalista especializado em assuntos militares. O texto foi extraído de artigo de 11 jul° 2022.

O crime do Paraná

José Horta Manzano

Este blogueiro é cidadão brasileiro de nascença e de sangue. Houve tempos em que me orgulhei muito disso. Hoje, menos.

Me lembro do dia em que o teatral (então) deputado Roberto Jefferson se virou para o (então) ministro José Dirceu e declamou: “Vossa Excelência desperta em mim os instintos mais primitivos”. Ninguém entendeu perfeitamente o sentido da frase. Não sei como terminou o affaire entre os dois figurões, se os instintos primitivos lograram satisfação. Pouco importa.

Em matéria de baixos instintos despertados em terceiros, Jair Bolsonaro ganha de lavada de qualquer figurão aparecido antes dele. Do futuro, ninguém sabe, mas até aqui, ele é campeão.

O assassinato perpetrado no Paraná por um de seus devotos é prova flagrante.

O assassino foi baleado de volta, mas, pelas últimas notícias, não morreu (ou não “veio a óbito”, pela linguagem policial). Ninguém esclarece de boa vontade, mas parece que foi ferido apenas levemente. A delegada que está conduzindo o inquérito é bolsonarista roxa, o que explica a ocultação de detalhes constrangedores.

Que país mais triste, minha gente. Com tanto para ser construído, dói ver que os baixos instintos levam gente a demolir, destruir, aniquilar.

O crime do Paraná tem dois autores. O primeiro é o que apertou o gatilho e que deveria ser enquadrado em uma série de crimes: intolerância, ódio, crime eleitoral, invasão de domicílio, uso desproporcionado de arma letal, perturbação da ordem pública e assassinato qualificado. O segundo autor não apertou o gatilho, mas deveria ser autuado como mandante. Vive num palácio em Brasília. Seu nome é fácil de encontrar no Google.

A notícia já deu a volta ao mundo. Em viagem, na fila dos passaportes, a gente procura esconder o nosso. Dá vergonha ser cidadão de um país violento e primitivo, onde querelas se resolvem à bala.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eremildo, o idiota

Elio Gaspari (*)

Eremildo é um idiota e acredita em tudo que o governo diz. Ele aplaudiu de pé o decreto que obriga os postos de gasolina a mostrar a evolução do preço do litro.

O cretino sugere a expansão da medida. As quitandas seriam obrigadas a mostrar o preço do tomate, do arroz e do feijão antes da posse de Bolsonaro. A gasolina, por exemplo, custava R$ 2,60.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 10 jul 2022 n’O Globo. Aqui para assinantes.

Brincando com fogo

Carlos Brickmann (*)

Chega! A escalada de provocações está criando um ambiente político em que alguma tragédia acabará acontecendo. Os dois principais candidatos têm adeptos fervorosos, que odeiam o adversário. Há grupos perigosos de ambos os lados: ou milicianos ou invasores (e destruidores) de propriedades. Para os dois principais candidatos, ideias, rumos, planos são bobagens. Ambos se oferecem como produtos contrabandeados: “La garantía soy yo”. Que se pode esperar de uma campanha suja, marcada por raiva e agressividade?

Já existem faíscas. Jogaram fezes e urina no carro do juiz que ordenou a prisão do ex-ministro acusado de terceirizar a distribuição de verbas. Já deram um tiro nas janelas do jornal Folha de S.Paulo. Jogaram uma garrafa de urina e fezes (deve ser padrão), numa garrafa com explosivos, no comício de Lula no Rio. Há dias, militantes de um grupo comunista impediram uma palestra de políticos adversários na Unicamp – numa universidade!

Por enquanto a coisa está limitada à grosseria e à falta de educação. Mas basta que um desses grupos nojentos encontre alguém irritado que acelere o carro e atropele alguém, ou um dos milhares de clientes das lojas de armas, para que haja a tragédia completa. Vamos fingir que não vemos até que alguém seja morto? A eleição existe para que o eleitor escolha seus dirigentes sem a necessidade de luta armada. Se é para haver luta armada, para que eleição?

Não é exagero: a Primeira Guerra Mundial começou com um atentado.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A matraca

O trem blindado, o capacete de aço e a matraca

José Horta Manzano

Faz hoje 90 anos que estourou em nosso país uma guerra interna. Em São Paulo, é conhecida como Revolução Constitucionalista, enquanto no resto do Brasil é chamada de Revolução Paulista. Tinha o objetivo de derrubar o governo e destituir o ditador Vargas.

Eram objetivos ambiciosos demais e praticamente impossíveis de alcançar, tanto que o movimento malogrou. As tropas federais eram superiores em número de combatentes e em equipamento. Os combates tiveram início em 9 de julho de 1932 e se encerraram três meses depois, com a rendição do exército paulista e o desterro dos chefes principais.

O capacete de aço, o trem blindado e a matraca entraram para a história como símbolos daquele conturbado período. O capacete de aço protegia a cabeça dos combatentes. O trem blindado, apelidado de “Fantasma da Morte” pelos soldados federais, semeava o terror, fazendo as vezes de um verdadeiro tanque de guerra, camuflado e com canhão. E a matraca era um engodo engenhoso; ao ser girada na noite escura, imitava ruído de metralhadora, assustando e retardando a progressão da tropa inimiga.

Não assisti à Revolução de 1932. Sem querer cometer sacrilégio, matraca, para mim, traz doces lembranças da infância. Era o vendedor de biju doce que passava na rua em frente de casa. O homem andava curvado sob o peso de um enorme tambor verde-claro onde estava armazenada sua preciosa carga de guloseimas.

A matraca e o biju

Para anunciar sua chegada, o vendedor de biju girava uma matraca. Mas era um modelo diferente da que tinha sido usada em ’32. A matraca do biju tinha um som característico, compassado, que me marcou a infância. Será que o homem do biju ainda passa?

Observação
Os símbolos da revolução foram tema de uma irreverente marchinha de carnaval composta por Braguinha, gravada por Almirante e lançada em 1933. No youtube aqui.

“Escolha moral é para quem não tem fome”

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Você concorda com essa afirmação? Pense um pouco: se, por um lado, ela explica por que o furto famélico encontra muitas vezes uma jurisprudência de tolerância e até de não-punição, por outro, pode servir de argumento para, por exemplo, justificar a reeleição de Bolsonaro, diante do pacote de bondades que ele acaba de implementar com o auxílio luxuoso do Centrão. Mesmo que os beneficiados estejam profundamente insatisfeitos com os atos de seu governo e condenem vigorosamente a defesa que ele faz da compra de armas em vez do feijão.

Antes de esclarecer quem foi que disse essa frase, proponho que você reflita sobre qual seria sua escolha caso estivesse na mesma situação das pessoas que se viram forçadas a abandonar seus princípios e valores morais para não ver sua família morrer de fome. Se você acha que está imune por ser uma “pessoa de bem”, incorruptível, que está acima das paixões humanas mais comezinhas, detentora de uma postura ética inabalável quaisquer que sejam as circunstâncias externas, eu o convido a pensar duas vezes. Responder com orgulho, dizendo que preferiria morrer de fome a se dobrar à tentação de roubar um pedaço de carne, um pacote de arroz, pão ou leite, revirar latas de lixo ou correr atrás de um caminhão para pegar ossos descartados, é se atribuir uma natureza essencialmente angelical – ou, pior, divina – mas que, em nenhuma hipótese, guarda relação com a frágil e imperfeita condição humana.

Absolutamente tudo já foi dito a respeito dos problemas cognitivos, disciplinares, diplomáticos e administrativos do ex-capitão. É chegada a hora de analisarmos com coragem o perfil de seus eleitores em potencial. Tradicionalmente, os eleitores do Nordeste e de outras áreas carentes da periferia do país foram acusados de serem os responsáveis pela manutenção de oligarquias perversas no poder, por aceitarem cair na armadilha do voto de cabresto, em troca de uma dentadura nova ou um par de alpargatas. Agora, num cenário desolador de pandemia, desemprego, redução de poder aquisitivo e desesperança entre os mais jovens, são os eleitores ‘nem-nem’ [que não querem a volta de Lula nem a reeleição de Bolsonaro] os mais propensos a mudar sua intenção de voto e cristãmente oferecer a outra face e dar uma segunda chance ao Anticristo em pessoa, imaginando que ele saberá finalmente orientar sua reeleição para o atendimento das demandas mais primárias do povo sofrido e contemplá-lo com novas benesses. Ao menos é isso o que indicam as mais recentes pesquisas eleitorais.

É preciso admitir: somos todos tão reféns da violência política e ideológica obscurantista de Bolsonaro quanto as mulheres vítimas de violência doméstica que decidem voltar para os braços de seus agressores alegando que “ruim com ele, pior sem ele”. E, parafraseando meu colega de profissão, Gasparetto, só se desilude quem se ilude.

Será a fome uma força-motriz superior à comoção pela morte de mais de 670 mil brasileiros e à indignação com o brutal retrocesso da democracia brasileira, além do descarado desmonte dos projetos de proteção ao meio ambiente e da educação de qualidade que poderiam garantir nosso futuro? Se você pensa que sim, lembre-se que a fome já ameaça a vida de 33 milhões de conterrâneos e coloca contra a parede 61 milhões que vivem em insegurança alimentar. Se essa turma toda resolver, de fato, abrir mão de uma escolha moral nas próximas eleições, estaremos definitivamente fritos. Por isso, antes de começar a atacar nas redes sociais esse “povinho alienado”, o gado bolsonarista, os evangélicos fundamentalistas, e reclamar pela enésima vez que “brasileiro não sabe votar”, reflita sobre os fatores estruturais que deram origem à nossa tenebrosa desigualdade social e a mantêm incólume até hoje. E pare de poupar os farialimers, os empresários ligados ao agronegócio e os economistas que colocam o equilíbrio fiscal acima do bem-estar e da qualidade de vida da população.

Identificar seu ‘lugar de fala’ na análise do quadro eleitoral pode ser uma providência necessária mas não suficiente. Há uma série de tarefas mais sérias e mais urgentes a realizar antes de outubro próximo. A primeira delas, me parece, é que você se desvie das polêmicas externas de ocasião e encare a frio de que forma você historicamente contribuiu com seu voto para perpetuar a eleição de pretensos salvadores da pátria de todas as colorações ideológicas.

Aprender a distinguir as consequências de votar em um nome forte o bastante para se opor “a tudo o que está aí” e da escolha consciente de um projeto de país talvez seja a tarefa mais difícil que o aguarda. Se a terceira via não lhe apetece porque você não quer “perder o voto”, pense que mais uma vez você está impedindo a renovação dos quadros políticos nacionais e empurrando todo mundo a fazer mais uma impossível “escolha de Sofia”. Embora a jornada de mapeamento honesto de suas próprias motivações seja longa e dolorosa, é fundamental que você entenda que eleição presidencial não é o mesmo que votar em um ‘reality-show’ para decidir quem fica e quem sai. Achar que democracia é apenas depositar seu voto na urna, lavar as mãos e voltar para casa à espera do milagre da multiplicação dos pães é a forma mais segura de fomentar o desastre.

Portanto, se você não passa fome (ainda), a única escolha legitima que tem a fazer é se juntar às forças de oposição para promover a conscientização – de famintos e não-famintos – a respeito do que é cidadania responsável. Deixar-se levar por falácias do tipo “É tudo farinha do mesmo saco” não ajuda a fazer avançar nossa carcomida República.

Ah, já ia me esquecendo de contar que não foi nenhum economista, sociólogo, psicólogo ou filósofo que disse a frase acima. Ela apareceu de surpresa, no meio do capítulo final de uma novela, na boca do protagonista, um indivíduo que hesitava o tempo todo entre assumir de vez sua vilania ou fazer acreditar que era apenas vítima impotente de um destino cruel.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Proteção pelo avesso

José Horta Manzano

Saiu hoje a notícia de que os ministros do STF vão se reunir com Bolsonaro em previsão dos festejos do 7 de Setembro. O objetivo é pôr em pratos limpos a questão da atitude que o presidente pretende tomar na ocasião.

Antes disso, os dois ministros apadrinhados do capitão – Nunes Marques e Mendonça – devem preparar o terreno. Em seguida, virão os menos alinhados. Pretendem todos convencer o presidente a não participar de nenhum evento além do desfile tradicional.

Vão pedir a Bolsonaro que se abstenha de marcar presença em manifestações a seu favor, sobretudo as que forem organizadas por grupos que costumam insultar o Supremo e exigir sua dissolução.

Os ministros estão conscientes de que esvaziar a Baía da Guanabara com colherinha é tarefa mais fácil do que convencer o capitão a não aparecer em palanque para louvar a si mesmo. De toda maneira, vão tentar.

O policiamento em torno do STF será importante, muito mais reforçado que no ano passado. A intenção é evitar que a turba mais agressiva se aproxime e tente saquear o prédio.

Não é corriqueiro ter de proteger a Corte Suprema de Justiça contra o próprio presidente da República. Normalmente, é ao contrário.

A ladeira da baderna

José Horta Manzano


Como líder, Bolsonaro já não faz jus à consideração do mundo. E os brasileiros, seus liderados, descem a ladeira da baderna.


Hoje de manhã, escutei uma reportagem de 15 minutos na rádio pública suíça sobre a campanha de desconfiança no voto eletrônico que Bolsonaro vem promovendo há três anos. E que se intensifica à medida que se aproxima a hora da onça. Ou da degola – que cada um escolha a imagem que preferir.

Fora do Brasil, a reação a esse fenômeno é de perplexidade. Todos se perguntam como é possível essa cruzada de desorientação estar sendo comandada por um indivíduo que foi eleito repetidas vezes por esse mesmo sistema eletrônico.

Se ele tivesse perdido alguma eleição, seria até compreensível que guardasse ressentimento. Mas ele ganhou todas! Essa campanha de desinformação e medo que ele promove agora é extravagante. Uma coisa não combina com a outra.

A reportagem radiofônica, feita durante um comício do capitão, trazia algumas dessas rápidas entrevistas com transeuntes. É surpreendente constatar que os devotos incorporam todas as imbecilidades que o chefe solta. Um aqui grita: “Quero minha pátria livre!”. Outra ali replica: “Sou contra o comunismo!”. E mais outro: “Os ministros do STF são todos estelionatários!”. Coisa de desequilibrados.

A impressão que fica é a de estar diante de um bando de zumbis descerebrados, sem eira nem beira, que perderam a capacidade de pensar com os próprios miolos. O mais chato é que, pouco a pouco, o veneno destilado por esse ser ignóbil vai respingando sobre a população. E o encanto com que o mundo mirava nosso país vai desmilinguindo. Um país de ingênuos capazes de aceitar o que diz Bolsonaro não merece ser objeto de consideração.

Em matéria de mentira e engodo, o capitão é um verdadeiro Putin tropical. Sem as armas.

El sueldo

José Horta Manzano

Quem traz a crônica é o Diario Financiero, publicado em Santiago, Chile. A historieta se passa numa empresa chamada Cial (Consórcio Industrial de Alimentos), que é de longe o maior fabricante de embutidos do país.

No fim de maio último – dia 30, precisamente – um funcionário com cargo de assistente de expedição recebeu pontualmente seu salário na conta bancária. Quando foi conferir, se deu conta de que algo estava errado.

De fato, em vez do montante habitual, que é por volta de 500.000 pesos (2.850 reais), havia um saldo enorme em sua conta. A firma tinha lhe pagado a astronômica soma de 165.398.851 pesos (950.000 reais), equivalente a 330 meses de seu salário!

Logo em seguida, o funcionário foi pessoalmente ao Departamento de Pessoal pra saber o que tinha acontecido. Foi aí que o erro foi constatado. O encarregado pediu desculpas pelo transtorno.

O problema é que o montante já estava na conta do funcionário e a empresa não tinha como recuperar. Só o funcionário, titular da conta, podia fazer a devolução. Ficou combinado que no dia seguinte, logo de manhã, ele iria ao banco e daria uma ordem de transferência em favor da empresa.

Dia seguinte chegou. No Departamento de Pessoal, as horas passavam, nada do funcionário e nada de transferência. Começaram a ficar nervosos. Telefonaram para o funcionário e deixaram mensagens, tudo sem resposta. Por fim, pelas 11h, o funcionário ligou para a firma, pediu desculpas, e informou que tinha levantado tarde. Estava a caminho do banco.

Foi o último contacto entre ele e a empresa. Dois dias depois, um advogado visita a firma e entrega a carta de demissão do funcionário indelicado. Já faz mais de um mês que o homem partiu, desapareceu na natureza e não deu mais notícias. Nem deixou endereço pra contacto.

A empresa fez boletim de ocorrência na polícia e abriu processo por apropriação indébita. Se alguém tiver notícias do fujão, roga-se informar à polícia de Santiago.

Observação
A história não conta o que aconteceu com o encarregado que cometeu o erro que resultou nesse pagamento em excesso. Foi uma exceção que resultou num excessão!

Top names 2021

José Horta Manzano

O mundo está cada vez menor. É impressionante constatar a que ponto a velocidade dos meios de transporte encurtou distâncias. A rapidez da circulação da informação tem contribuído para essa sensação de que o planeta virou um povoado. Todo o mundo fica sabendo de tudo o que acontece. O alastramento de modas e modismos acaba uniformizando o gosto dos humanos.

Exemplos, há de monte. Hoje trago mais um. Dei uma espiada em duas listas de prenomes mais atribuídos aos bebês nascidos em 2021. A primeira delas reúne as estatísticas dos EUA; a segunda traz os nomes dados aos pequerruchos nascidos em Paris.


Nos EUA e na França, diferentemente do que acontece no Brasil, é pouco comum a invenção de nomes. Mais raro ainda – pra não dizer inexistente – é o acréscimo de letras a esmo, em geral mal colocadas (Jhonatan, Anitta, Deyvid, Dennise).


Nomes bíblicos aparecem tanto entre os americanos como entre os franceses. O mais curioso é que, apesar das diferenças linguísticas entre os países, três nomes aparecem em ambas as listas – e escritos da mesmíssima forma. Confira abaixo.

Nomes mais atribuídos nos Estados Unidos em 2021

Meninos:

1. Liam
2. Noah
3. Oliver
4. Elijah
5. James
6. William
7. Benjamin
8. Lucas
9. Henry
10. Theodore

Meninas:

1. Olivia
2. Emma
3. Charlotte
4. Amelia
5. Ava
6. Sophia
7. Isabella
8. Mia
9. Evelyn
10. Harper

Nomes mais atribuídos na cidade de Paris em 2021

Meninos:

1. Gabriel
2. Adam
3. Louis
4. Raphaël
5. Arthur
6. Noah
7. Isaac
8. Joseph
9. Mohamed
10. Léon

Meninas:

1. Louise
2. Alma
3. Emma
4. Adèle
5. Chloé
6. Anna
7. Olivia
8. Eva
9. Jeanne
10. Rose.

Os nomes assinalados em cor aparecem entre os favoritos em ambos os países.