A cama já está feita

José Horta Manzano

Diversos analistas já deram o sinal de alerta para o perigo que nos espreita. Por razões que ainda estão por ser estudadas, os eleitores brasileiros abriram as portas do Congresso para ignorantes, incapazes e extremistas.

A partir daí, que Bolsonaro seja reeleito ou não, essa gente já detém a maioria no Senado e, mediante alguns poucos acertos, será majoritária também na Câmara.

Essa situação é como um trem engatado, que roda em alta velocidade em direção à autocracia (= governo de uma pessoa só). Como todos sabem, trem segue os trilhos, reto, sem olhar pros lados.

A não reeleição do capitão é a derradeira esperança de evitar o pior. É verdade que o Congresso continuará tal e qual, que não dá mais pra mudar. Mas pelo menos não teremos, no topo do Executivo, um desequilibrado metido a Mussolini tropical. Além do quê, um gelatinoso Centrão sempre acaba se acomodando aos caprichos do Presidente, seja ele quem for.

Estes dias, diversos analistas têm escrito sobre esse risco. Juntei alguns dos artigos e deixo aqui à disposição da graciosa leitora e do distinto leitor. A cama já está feita. Só falta o cafajeste se apossar dela.

É bom tomar consciência do triste destino que nos espera. O voto de cada um conta. Não deixe de votar e… vote bem!

 

 

 

 

 

 

Barbaridade no aeroporto

José Horta Manzano

Desde que Putin lançou sua guerra de conquista sobre o território ucraniano, cerca de 5 milhões de habitantes abandonaram o país e fugiram direção à Europa. Nenhum país estava preparado para um afluxo tão caudaloso, mas em pouco tempo, organizou-se uma corrente de solidariedade.

Governos, ongs e simples cidadãos arregaçaram as mangas e cada um deu contribuição à altura de suas possibilidades. A Polônia, com seus parcos 38 milhões de habitantes, já deu abrigo a um milhão e trezentos mil refugiados. A Alemanha já acolheu um milhão. A pequenina Moldávia, país mais pobre da Europa, recebeu quase cem mil ucranianos.

Uma reportagem do Estadão informa que, neste momento, um grupo de 150 afegãos vive acampado num saguão do Aeroporto de Guarulhos (SP). Adultos, anciãos e famílias com crianças pequenas integram o conjunto. Sobrevivem com a caridade de funcionários e frequentadores do aeroporto. Há quem traga um cobertor, comida, um colchão. Além de famintos, os estrangeiros estão precisando de um banho e de roupa lavada. Faltam remédios para os mais idosos.

Um detalhe muito importante: esses afegãos não são clandestinos como aqueles que atravessam ilegalmente a fronteira do México para os EUA. Os migrantes de Guarulhos são titulares de um visto humanitário concedido por uma representação diplomática do Brasil no exterior.

O tratamento que estão recebendo é uma barbaridade. É desesperante constatar a desarticulação entre as instituições brasileiras. Conceder visto humanitário é uma coisa, mas a sequência da acolhida tem de estar concatenada: recepção dos imigrantes, fornecimento de ajuda de custo, um abrigo, alimentação, cuidados de saúde, escola para as crianças – enfim, o necessário para amparar quem tudo perdeu e aqui chegou só com a roupa do corpo.

Onde está o senso de acolhida do povo brasileiro? Nunca passou de ilusão ou foram o capitão e seus neandertais que instalaram essa revoltante aporofobia?(*)

(*) O termo aporofobia define o ódio e o repúdio à pobreza e aos pobres.

Birds of a feather

Sites de namoro no Brasil:
“Por favor, não me diga que você é de esquerda, você é bonita demais pra ser esquerdista.”

 

José Horta Manzano

Em 1969, Jorge Ben compôs e Wilson Simonal cantou “País Tropical”, aquela que dizia:

Moro
Num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza

Desde aquela época, a expressão “bonito por natureza” tornou-se uma daquelas frases feitas, citadas a todo momento em relação a nosso país tropical. A expressão não chocou ninguém, muito pelo contrário: encantou. É que combina com a imagem que nos fazemos de nosso Brasil cheio de encantos mil.

Sempre aprendemos que em nossa terra de sol e de música reinavam a paz e a concórdia. Aprendemos também que em certas regiões do mundo, esquecidas pelo Altíssimo, os habitantes viviam em pé de guerra, parte da população jogada contra a outra parte.

Sabemos que na Irlanda do Norte católicos e protestantes se odeiam, e que volta e meia entram em conflito. Houve embates sangrentos até os anos 1990. De lá pra cá, as tensões arrefeceram, mas as brasas continuam quentes e podem se inflamar a qualquer momento.

Outra coisa que sabemos é que, em certos países do Oriente Médio, como o Líbano, a população vive dentro de bolhas confessionais. Homem de família muçulmana não se casa com mulher de religião cristã. Na segunda metade do século 20, o país já foi castigado por uma guerra mortífera de origem religiosa que durou dez anos.

Na Índia, o fosso divisório passa entre hinduístas e muçulmanos. Os dois grupos não se bicam. Dado que são bem minoritários no país, os muçulmanos são frequentemente atacados pelos hinduístas, majoritários. Misturar-se? Não passa pela cabeça de ninguém.

Quanto a nós, até outro dia tínhamos certeza de viver num país abençoado por Deus e, ainda por cima, bonito por natureza. Isso foi até outro dia. Depois do desastre lulopetista e da catástrofe bolsonárica, o panorama mudou. O distinto leitor há de ter notado. Mas fique sabendo que até a mídia estrangeira já se deu conta.

A revista francesa Notre temps (Nosso Tempo) traz uma reportagem sobre o surpreendente caso brasileiro. Para espanto de seus leitores, revela qual é a primeira pergunta feita por usuários de aplicativos de namoro – aqueles em que cada um procura a alma gêmea. Logo no primeiro contacto, antes de dar bom-dia, a pergunta é: “Você vai votar em quem?”. Vale também a variante: “Você é de esquerda ou de direita?”.

Usuários entrevistados explicam não ter vontade de perder tempo com uma pessoa com ideias políticas diferentes das suas. Há até quem já declare suas preferências políticas logo no perfil, descartando assim todo mal-entendido.

Parece que alguns aplicativos vão mais longe. Já se especializam em usuários de direita (ou de esquerda), numa tendência “private club” à moda dos aristocráticos ingleses. Os frequentadores desses sites pensam todos da mesma maneira, o que evita perguntas inúteis e potencialmente agressivas.

Não sei você, mas eu acho essa situação lastimável. Recuso-me a considerar que esse estado de coisas seja fruto de um “progresso” qualquer. Ao contrário, parece-me uma regressão, uma involução. Mostra que, tendo perdido a capacidade de conviver com diferentes, aspiramos a viver num mundo de iguais, onde todos têm as mesmas ideias, gostam das mesmas pessoas, detestam as mesmas coisas, pensam do mesmo jeito.

Pôxa, que monotonia, não lhes parece? É uma vida monacal, sem sal e sem sabor.

O nome do movimento

O inglês diz:
Birds of a feather flock together.
Pássaros de mesma plumagem se aninham juntos.

Os franceses dizem:
Qui se ressemble s’assemble.
Quem se parece se ajunta.

Os italianos preferem:
Dio li fa e poi li accoppia.
Deus os faz e depois os junta.

Quanto a nós, temos algumas expressões correspondentes:
Os semelhantes se atraem.
Cada qual com seu seu igual.
Uma vaca reconhece a outra.

Mas melhor mesmo é dizer: Vade retro, vida besta! Xô!

Teoria conspiratória de ocasião

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não gosto nem estou habituada a embarcar em teorias conspiratórias, mas não teve jeito: ainda em estado de choque com o resultado do primeiro turno das eleições, especialmente as dos governos estaduais, deputados federais e senadores, vi-me forçada a criar eu mesma uma que lavasse de alguma forma minha honra de pesquisadora com mais de 20 anos de experiência. Ela pode parecer um tanto alucinada, como aliás são todas as outras, mas retrata uma possibilidade bastante factível e traz um fundinho de veracidade que precisa ser ainda mais bem explorado.

Refletindo sobre as causas dos erros monumentais cometidos por todos os institutos de pesquisa de renome nacional, me ocorreu que a inversão de última hora nas preferências pode não ter sido fruto de incompetência técnica ou metodológica, ingenuidade, parcialidade ou falta de integridade ética de tantos pesquisadores envolvidos. Algo me diz que o “erro” está na força do bolsonarismo de raiz nas redes sociais. Os institutos podem apenas não ter sido capazes de rastrear a tempo o tsunami de votos despejados no capitão provavelmente porque embalados pela confiança na altíssima estabilidade das previsões e convergência da intenção de voto apontada pelas diferentes instituições e confirmada por diversos agregadores de pesquisa.

Convenhamos: para que tivesse havido uma fraude dessa dimensão, seria preciso que todos os dirigentes desses institutos e pesquisadores subordinados, que elaboraram os questionários, determinaram a amostragem e treinaram o pessoal de campo, tivessem concordado em “suicidar” sua reputação e afundar voluntariamente a futura credibilidade comercial e política de suas empresas. Uma possibilidade que evidentemente está longe de ser lógica ou exequível.

Imagino, então, que o arrastão de votos a favor de Bolsonaro no dia do primeiro turno tenha acontecido da seguinte maneira: um comando do Gabinete do Ódio teria sido enviado desde as últimas semanas das sondagens eleitorais aos principais cabos eleitorais do presidente para que determinassem por sua vez que, caso fossem entrevistados por algum grande instituto associado a jornais, emissoras de tevê e portais de internet “de esquerda”, os eleitores intencionalmente mentissem, respondendo ou que ainda não sabiam em quem votar ou que estivessem pensando em votar nulo ou branco. Mas essa era só a primeira fase do complô que imagino e descrevo a seguir.

O primeiro sinal de que algo de grande porte e malcheiroso estava sendo tramado por baixo dos panos foi dado quando, a menos de 10 dias da eleição, o próprio presidente se encarregou de espalhar a notícia de que seria reeleito, com “ao menos 60% dos votos”. Além disso, na mesma época ele ensaiou pela primeira vez encarnar o personagem “JB paz e amor”, conclamando os eleitores a optarem pela “harmonia” social, pela segurança das armas e pela diminuição dos indicadores de fome e desemprego.

Na sequência, entre sexta-feira e domingo, o comitê central da ala mais radical do bolsonarismo deve ter ordenado aos principais cabeças regionais da campanha – isto é, gente com forte ascendência sobre uma massa de subordinados/dependentes e também capaz de garantir sigilo absoluto da operação – que “persuadissem” gentilmente o maior número possível de eleitores indecisos, além dos de Ciro Gomes e Simone Tebet, a despejar seus votos em massa no capitão. Dada a complexidade logística da operação, o comando pode ter sido distribuído através de sites da ‘dark web’ que não pudessem ser facilmente monitorados, e multiplicado aos milhares através de grupos fechados de whatsapp. O que foi prometido a cada um para que alterassem de última hora sua intenção de voto é difícil de saber. Além das habituais promessas de dentadura e alpercatas, emprego e comida, deve ter funcionado fundamentalmente a pressão dos grandes empresários do agronegócio e da indústria extrativista, dada a promessa explícita de muitos de demitir todos os funcionários que manifestassem direta ou indiretamente a intenção de votar em Lula. Não me parece improvável ainda que a operação tenha contado com o auxílio luxuoso de lojistas de grande porte do sudeste, como Luciano Hang, e até de milicianos para reforçar o exigido código de silêncio.

O que me leva a pensar que isso tenha acontecido de fato? Antes de mais nada, o silêncio e a compostura dos bolsonaristas fanáticos no dia das eleições. Aquilo que todo mundo temia – gigantescas manifestações e conflitos sangrentos de rua, boca de urna agressiva, intimidação aberta de eleitores nas ruas do entorno das seções eleitorais – simplesmente não aconteceu. Nem aqui nem no exterior. Tenho vários amigos que moram além-mar e todos registraram, sem exceção, sua surpresa (e até uma pontinha de orgulho) com a civilidade dos apoiadores de Bolsonaro na França, na Suíça, na Holanda e na Inglaterra.

Ninguém mais voltou aos temas-lemas de urnas auditáveis, sala secreta de totalização dos votos, fiscalização dos militares, etc. por pelo menos duas semanas antes da eleição. Ninguém protestou ou xingou Alexandre de Moraes em função das regras de proibição de celulares e do transporte de armas. Um estranhíssimo silêncio, compatível com a tradicional estratégia dos índios americanos antes de um ataque mortal contra as caravanas dos primeiros colonizadores.

Outra evidência para lá de suspeita: pouquíssimos votos em branco e nulos foram observados na contagem final. Mais uma vez, uma estranhíssima coincidência dado o grande contingente de eleitores declaradamente ‘nem-nem’. Raríssimos casos de crimes eleitorais – como postagem de imagens de celular de dentro das cabines de votação, denúncias fake de fraudes ou conflitos com mesários – surgiram nas redes sociais e compõem os derradeiros indicadores. Curiosamente, todas as peças publicitárias da campanha de segundo turno do capitão exibem eleitores entusiasmados declarando que “consegui mais dois”, “e eu consegui trinta”. Coincidência?

Finalmente, uma vez constatada a gritante incoerência entre as previsões e o resultado efetivo colhido nas urnas, o que foi que aconteceu? A generalizada gritaria e exigência de criminalização dos institutos de pesquisa por parte de figuras manjadas do Centrão, além da cara de paisagem do filho de Bolsonaro, Carlos, ao lado do pai, subitamente sereno e com ar de aliviado, na primeira aparição pública após a divulgação dos resultados.

Seja ou não confirmada minha teoria conspiratória por outras evidências, posso apostar que a mesma estratégia será usada no segundo turno e causará um clima de tensão inaudito entre os analistas e cientistas políticos. Não me espantarei se Bolsonaro colher mais votos ainda em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já quanto à eleição do carioca Tarcísio de Freitas para o governo paulista, a meu são favas contadas, independentemente da participação dele ou não nesse grande imbróglio: paulista adora um canteiro de obras atrapalhando o trânsito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os cortes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Em artigo de sábado, o Estadão expõe os cortes feitos por Bolsonaro nas áreas da Educação e da Saúde Pública. A razão da poda é desviar recursos para alimentar o orçamento secreto, nebuloso sistema de distribuição de verbas a parlamentares, sem critério de transparência – daí o nome de “secreto”.

Percebe-se que a restrição de recursos é direcionada às áreas que o capitão odeia com maior furor.

De fato, a Saúde Pública é seu espantalho, como seu comportamento ao longo da pandemia revelou. Recluso num universo paralelo, Bolsonaro cultiva o negacionismo em seu esplendor. Nega-se obstinadamente a reconhecer a fragilidade do ser humano e as agruras do sofrimento alheio. Em sua lógica, o brasileiro deve enfrentar, peito aberto, todos os riscos à saúde. Afinal, este não pode ser um país de maricas! Que os fracos sejam varridos do mapa! Vacina? Tratamento? Remédio? Consulta? Pra quê? Tome cloroquina, que passa.

Ao lado da Saúde, a Instrução Pública é seu outro saco de pancada. Visto que ele não aprendeu grande coisa na vida, acabou atraindo uma coorte de brutos e ignorantes – o que é lógico e natural. Estendendo o raciocínio, ele não vê necessidade de oferecer os benefícios de uma educação de qualidade à população. Talvez pressinta que, se os eleitores tivessem aprendido a pensar, ele jamais teria sido eleito. Não serviria nem para síndico de condomínio.


Cortes de orçamento programados para 2023
– um florilégio –

Farmácia Popular
É programa que beneficia mais de 21 milhões de brasileiros. Sofrerá amputação de 59%. Ítens cortados: 13 diferentes princípios ativos. Entre eles, tratamentos usados contra diabetes, hipertensão, asma. A tesoura atingiu até fraldas geriátricas.

Prevenção e controle do câncer
O câncer é a segunda doença mais mortal no país. A verba destinada a prevenção e controle dessa enfermidade foi reduzida em 45%.

Aids
Programa que distribui remédios para tratar aids, hepatite viral e outras IST (infecções sexualmente transmissíveis) sofreu uma tesourada de R$ 407 milhões.

Merenda escolar
O governo de Bolsonaro vetou o reajuste, com correção pela inflação, da verba para a merenda escolar, que já não era reajustada havia 5 anos. Aluninhos vão continuar tendo de estender o dedinho pra receber um carimbo que indicará que já foram servidos e não podem repetir o prato. E vão continuar a dividir um ovo entre quatro crianças. Para muitos deles, a merenda é refeição mais nutritiva do dia – quando não é a única.

Outras áreas
Há outras áreas penalizadas pelos cortes. A Educação é a que mais vai sofrer. O programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é outra destinação visada pelo bloqueio bolsonárico. A pasta de Ciência e Tecnologia e a de Desenvolvimento Regional também vão receber recursos minguados. Há outras áreas, mas é bom parar por aqui, que é pra evitar ficar mais deprimido.

Quem achar que isso é uma beleza e que está muito bom assim, que vote no capitão. Só que tem uma coisa: depois não vale dizer que não sabia.

De volta para o futuro – 3

Carlos Brickmann (*)

Em 1618, na Europa, começou a Guerra dos 30 Anos, entre protestantes e católicos. No final, houve um acordo: em cada Estado a população teria a religião de seu monarca. Naqueles tempos, era estranhíssima a ideia de que cada pessoa pudesse ter a religião de sua escolha.

E que é que discutimos no Brasil de hoje? Se um candidato ter visitado um templo maçom é suficiente para que não se vote mais nele, ou se evangélico deve ser obrigado a votar em evangélico.

No século 17, Galileo Galilei demonstrou que a Terra é uma esfera. E hoje temos discussões sobre a Terra plana.

Só falta discutir se os índios têm alma – e dá até medo ver essa ideia voltar na campanha eleitoral mais antiga de nossa História.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A canoa furou

by Géraldine Streichert, artista francesa

José Horta Manzano

É difícil embarcar em duas canoas ao mesmo tempo. Alguns encontram a solução: ficar de pé e pôr um pé em cada canoa. Às vezes dá certo, mas é raro. Bolsonaro, com poucos cartuchos na mão depois do primeiro turno, está apostando na arte de equilibrar-se entre duas canoas, um pé em cada uma.

Durante quatro anos, botou fé no apoio das comunidades neopentecostais. Com a cumplicidade de sua mulher, transformaram comícios eleitorais em verdadeiros cultos evangélicos ao ar livre. Só que, apurados os votos do primeiro turno, levou um susto. Descobriu que estava longe da meta que tinha fixado: vencer com 60% dos votos. O voto evangélico não tinha sido suficiente.

Às pressas, o capitão decidiu mostrar que não é tão neopentecostal assim. Espichou o pé para outra canoa, disposto a provar que é também católico fervoroso. Por coincidência, as festividades do Círio de Nazaré caíam bem entre os dois turnos da presidencial.

Ao anunciar sua ida a Belém, Bolsonaro crispou o ambiente. A Arquidiocese de Belém fez saber que não admitiria uso político da celebração. Garantiu não haver convidado nenhuma autoridade política, nem mesmo o presidente da República. O prefeito de Belém chegou a declarar que “a fé de todos os paraenses não pode ser sequestrada por uma candidatura à Presidência”.

Mais claro, impossível. O recado que não foi pronunciado mas ficou implícito no não-convite era: “Vosmicê não é dos nossos; vá catar coquinho na sua paróquia”. Ficou evidente que a tentativa de se equilibrar entre duas canoas afundou. As autoridades católicas não estão dispostas a dar palanque a um trânsfuga. Se ele escolheu com tanta ênfase sua vertente do cristianismo, que se contente com ela e que não venha semear discórdia na nossa grei.

Um Bolsonaro desenxabido publicou nas redes sociais uma foto que mostra sua silhueta e serve de prova discreta de sua participação nas celebrações. Só que – ai, ai, ai – pouco familiarizado com festas católicas, imaginou que em Belém estivessem louvando a memória de um sírio que andou fazendo artes em Nazaré nos tempos bíblicos. E mandou ver: Sírio de Nazaré.

A zombaria chegou rápido e forte: “Como assim, Excelência, não sabe nem escrever o nome da festa de que participou?” (Traduzi em linguagem decente, porque, no original, os comentários são inflamados e bem mais ásperos.) A canoa furou.

 

 

Que sírio é esse?
Não é sírio, mas círio, com C. Círio, da família de cera, é uma vela grossa e alta. Esse termo, quem nos veio pelo latim, tem alguns poucos parentes em português, entre os quais o verbo encerar e o substantivo cerume. A palavra querosene também é derivada de uma raiz que significa cera, mas nos veio diretamente do grego.

Nordeste contra Bolsonaristão

Sérgio Rodrigues (*)

Folheio o “Dicionário do Nordeste” (Cepe), de Fred Navarro, procurando entre seus mais de 10 mil verbetes palavras que expressem o que escapa à minha linguagem habitual, como escapou às pesquisas de opinião. Já não falamos a mesma língua, o Brasil e eu?

Como bem observou Marcelo Coelho em sua coluna de 4 de outubro, era para Bolsonaro, que não vale um jerimum cheio d’água, não ter voto nenhum depois do mal que fez à população brasileira. Ao contrário, o que vimos foi essa estrovação, esse estrago.

Bem, falar em voto nenhum é exagero, pois o cabra detém a máquina e sempre vai haver abestalhados no mundo, gente que tem as tripas na cabeça. Mas no máximo, vamos supor, aqueles 27% dos votos que lhe deu o povo do Nordeste, contra os 67% de Lula.

Aí, sim, a gente estaria agora mesmo arretirado da luta e caindo por uns dias na vadiação, na folia merecida depois de atravessar o raso da Catarina desse governo dos infernos. Em vez disso, que vergonha – ou como se diz no Piauí, o mais antibolsonarista dos estados, que bonito pra sua priquita, Brasil!

Eu sei, devo estar falando nordestinês com sotaque, embriagado pelo ótimo dicionário de Navarro. Minhas intenções são as melhores. Cresci num engenho de açúcar com Zé Lins, contemplei treponemas com Zé Ramalho, estudei o samba com Tom Zé, estrangeiro é que não sou.

Nunca me esqueci de um show de Bráulio Tavares no Rio de Janeiro no início dos anos 1980, quando ouvi pela primeira vez as divertidas glosas do compositor e escritor paraibano para o mote “Imagine o Brasil ser dividido/E o Nordeste ficar independente”.

Pois acabo de imaginar e não gostei: subtraído do naco acima de Minas, o Brasil já seria neste momento um aleijão, uma Gilead histérica embalada em sertanejo universitário, slogans liberaloides de faria-limers e frases motivacionais de coaches semialfabetizados.

Encaremos os fatos: sem o voto nordestino, já estaríamos rendidos ao cabrunquento encarregado de pendurar o Brasil, conta gorda e vistosa, no colar da extrema direita internacional.

Pode ser que o país acabe sendo essa desgraça mesmo, mas não ainda, não tão depressa – graças ao Nordeste. Nossa metade sadia, que está toda dolorida como se tivesse tomado um chá de casca de vaca, uma surra de chicote, sabe bem para onde remeter seus votos de gratidão.

Se o futuro fascistoide não está rebocado, quer dizer, garantido, devemos essa graça à terra abençoada de Graciliano Ramos e Jackson do Pandeiro, de Nise da Silveira e João Cabral, de Lia de Itamaracá e Mestre Vitalino, de Maria Bonita e Xico Sá.

Mas talqualmente uma lagartixa, que sabe em que pau bate a cabeça, já passou da hora de todo mundo ficar esperto e proteger o franzidinho. Depois do dia 30, se nossos irmãos lá de cima não tiverem ajuda para varrer o basculho, ninguém vai poder dizer uste nem aste, vai ter que calar o bico.

Para quem não é caso perdido, mas anda com leseiras de neutralidade, um aviso: ou a gente elege o filho de Garanhuns ou pode esquecer. Mais quatro anos daquele xexéu e não vai ter democracia mais, não vai ter floresta mais, não vai ter índio mais, não vai ter Brasil mais.

Aí o jeito vai ser adotar a saída Bráulio Tavares e declarar a independência do Nordeste, quem sabe acompanhada da reivindicação do nome Brasil, que, acredito, o Bolsonaristão não fará questão de manter. Já estou estudando com o mestre Navarro para requerer minha cidadania.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Perda da nacionalidade

José Horta Manzano

Faz alguns dias, saiu uma notícia que, vista a proximidade das eleições, passou quase despercebida. Trata-se de um processo de perda de cidadania a ser possivelmente instaurado contra uma das ex-esposas do capitão.

 


Entre parênteses
Bolsonaro, que proclama alto e bom som ser “conservador nos costumes”, tem cinco filhos de três esposas diferentes. O objeto da notícia é uma delas.


 

O fato é que a referida senhora se casou com um norueguês, deixou o Brasil e acabou adquirindo a nacionalidade norueguesa. Nossa confusa Constituição, que às vezes parece ter sido feita no século 19, estipula que “será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que […] adquirir outra nacionalidade”.

O texto é aparentemente suavizado na alínea seguinte. Ela reza que, se a naturalização tiver sido imposta ao brasileiro “como condição para permanência no território ou para o exercício de direitos civis”, ele escapará da penalidade e não perderá a nacionalidade brasileira.

A ressalva mencionada no parágrafo anterior é apenas aparente, pois aborda um caso que não existe na vida real. Nunca ouvi falar de nenhum país que impusesse a naturalização de todo estrangeiro que quisesse permanecer em seu território.

Portanto, todo compatriota que ousar adquirir outra cidadania será punido com a perda da nacionalidade de origem.

A mim, que passei a vida rodando mundo, essa visão parece medieval. Vê-se que a Constituição (assim como as leis comuns) foi preparada por parlamentares com pouca vivência internacional. O mundo é vasto, variado, colorido, bem maior do que a cachola da maioria dos que estão refestelados no Congresso com o intuito de engordar o próprio patrimônio. O “exterior” não se resume a Paris ou Miami.

Países mais avançados não costumam confiscar a nacionalidade de seus filhos por terem adquirido outra(s) nacionalidade(s). A cidadania pode ser concedida a estrangeiros que tenham vivido um certo número de anos no território. A nacionalidade do país X pode ser outorgada por matrimônio, ou seja, ao estrangeiro que tiver vivido um certo número de anos casado com alguém originário do país X. O país Y pode ainda facilitar a naturalização de estrangeiros com filhos nascidos em território Y.

Sabendo-se que cerca de 3 milhões de compatriotas vivem no exterior, é permitido crer que boa parte deles adquiriu um segundo passaporte – não por imposição de ninguém, mas por iniciativa própria. Pela legislação brasileira, estão todos na ilegalidade, passíveis de perda da nacionalidade brasileira.

Fechar os olhos e fingir que o problema não existe não é a melhor solução. Entendo que nenhum parlamentar vai abraçar essa causa, visto que eleitores do estrangeiro não votam para deputado e senador. Eis por que defendo a criação de uma nova circunscrição eleitoral: o estrangeiro, no mesmo plano que os estados da Federação, com senadores e um determinado número de deputados. Esses seriam os defensores de nossos interesses.

Quanto à ex-mulher do capitão, não sei como terminou o caso. Fico devendo.

O Google mostra o caminho

José Horta Manzano

Este blogue está no ar há dez anos e conta com um acervo de quase 5.500 posts. Há de tudo aqui dentro. Em maioria, são artigos meus, mas há também textos alheios, máximas latinas, provérbios, desenhos de humor, reproduções de pinturas.

Durante os primeiros seis anos, dei muita pancada em Lula, Dilma e no lulopetismo. Eram os tempos do petrolão e das passeatas multitudinárias do “Fora, Dilma!”. Me parecia que, em matéria de dirigentes incapazes, o Brasil se tinha precipitado no fundo do poço. Achei que mais não era possível. Engano meu.

Foi-se o petismo, entrou em cena um cafajeste que prometeu mudança e acabou seguindo a mesma trilha dos anteriores, em versão piorada. À incapacidade dos anteriores, acrescentou a violência. À ignorância dos anteriores, acrescentou a demolição da cultura. Ao iletrismo dos anteriores, acrescentou o negacionismo da ciência. Seu governo foi esse horror que estamos cansados de saber.

A plataforma WordPress, que hospeda este blogue, oferece informações interessantes. Posso saber, por exemplo, quantas visitas cada post recebeu a cada dia. Certos textos, escritos muitos anos atrás, costumam receber visitas o tempo todo. São uns 20 ou 30 que entraram para a categoria dos “most viewed” – os mais procurados. Não passa um dia sem que cheguem visitantes por ali. Esses posts, eu sei quais são.

O que tenho notado estes dias é que outros artigos, que foram lidos à época em que foram publicados e depois caíram no esquecimento, estão sendo obrigados a varrer a sala às pressas e tirar as teias de aranha porque há uma fila de visitantes novos a cada dia.

São textos que respondem às palavras-chave que os brasileiros devem estar lançando no Google estes dias. Não sei quais são esses termos de busca, mas suponho que sejam algo como: “Lula, Nicarágua” ou “Bolsonaro, fome” ou “Lula, corrupção” ou “Bolsonaro, corrupção”. E por aí vai.

Fico orgulhoso de que minhas opiniões possam servir para orientar quem está se sentindo um pouco fora de eixo. Quem procurar artigos que desancam o Lula, vai encontrar. Quem preferir artigos que surram o Bolsonaro, também vai encontrar. Podem vir, que tem pra todos. Este espaço é eclético.

Maravilhados e frustrados

José Horta Manzano

MARAVILHA

“Jair Bolsonaro n’a eu de cesse de contester le processus électoral et notamment le mécanisme de vote électronique qui est fiable, sécurisé, parfaitement bien organisé et peut aboutir à des résultats satisfaisants pour tout le monde et notamment pour la démocratie.”

“Jair Bolsonaro desafiou repetidamente o processo eleitoral e em particular o mecanismo de votação eletrônica que é confiável, seguro, perfeitamente bem organizado e pode produzir resultados satisfatórios para todos, em especial para a democracia.”

Jean-Philippe Derosier, professor de Direito Constitucional na Universidade de Lille (França), presidente do Conselho Científico da missão de observação das eleições presidenciais 2022.

FRUSTRAÇÃO

“L’énormité de l’erreur des instituts de sondage sur le vote en faveur de Jair Bolsonaro, supérieur de 8 points aux estimations, est une claque à leur crédibilité, après les ratages des présidentielles américaines de 2016 et 2020. Comment ont-ils pu se fourvoyer à ce point?“

“A enormidade do erro dos institutos de pesquisa na votação de Jair Bolsonaro, que ficou 8 pontos acima do estimado, é uma bofetada na sua credibilidade, após as falhas nas eleições presidenciais americanas de 2016 e 2020. Como puderam derrapar a esse ponto?“

Le Nouvel Observateur, revista semanal francesa

As eleições presidenciais brasileiras deste ano estavam na mira de observadores estrangeiros. Governo e população de inúmeros países acompanharam passo a passo as semanas finais da campanha de primeiro turno.

Que o povo da Hungria ou da Polônia se deixe encantar pelo canto de sereia de populistas de extrema-direita é preocupante, mas não crucial – quando países menores escorregam, a Terra não deixa de girar. Já quando as vítimas são o caudaloso povo brasileiro, o fato assume dimensões de preocupação mundial.

A condução errática da política externa do Brasil nestes últimos quatro anos já mostrou a imprevisibilidade de um governo sem projeto, que troca de ministros como quem troca de camisa. Não interessa a ninguém fazer negócios com uma república instável, sem linha de conduta clara.

Essa é a razão pela qual o mundo se interessa tanto pelas presidenciais deste ano. A persistência de uma política de violência, de cidadãos armados, de conflitos religiosos, de destruição da floresta amazônica não faz o jogo de nenhum de nossos parceiros comerciais.

À vista da apregoada possibilidade de vitória de Lula da Silva já no primeiro turno, a mídia estrangeira despachou equipes de repórteres e cinegrafistas que fincaram base em São Paulo ou no Rio. A ansiedade aumentava diariamente. Os canais de televisão passaram documentários sobre o capitão e o demiurgo. E reservavam diariamente um bloco nos telejornais para comentários ao vivo dos enviados especiais.

Abertas as urnas, os enviados estrangeiros se sentiram, ao mesmo tempo, maravilhados e frustrados. Maravilhados porque nunca tinham imaginado que os votos de 125 milhões de eleitores pudessem ser computados em tão curto espaço de tempo. Frustrados porque, em contraposição à perfeita organização da apuração, descobriram um universo de pesquisas dissonante. De fato, nenhum instituto passou perto de acertar na cabeça. Pegou mal pra caramba.

Tenho ouvido comentários de analistas políticos que dão a nossos institutos de pesquisa o diagnóstico de “incapazes” e “amadores”. Deve haver razões para a divergência entre as previsões e a realidade, mas, seja como for, a imagem dessas empresas levou um baque. E reforçou-se a imagem de um Brasil incapaz de prever o que vai acontecer no dia seguinte.

Boa fama leva muito tempo pra construir – mas pode desmoronar de supetão.

Algumas vezes é preciso não entender

Luto

Myrthes Suplicy Vieira (*)


Algumas vezes é preciso não entender


A frase acima foi dita originalmente por Anna Verônica Mautner, psicóloga, psicanalista e escritora altamente provocativa, que foi também minha professora na USP. Na ocasião, ela havia sido chamada a explicar por que uma pessoa até então dita “normal” atingira um grau de crueldade tão inaudito. O caso era o de um homem que pensava em se suicidar e, de última hora, achou por bem jogar antes mulher e filho pela janela do 13º andar. Para piorar, no último instante, ele recuou de seu intuito e acabou preservando a própria vida.

O pasmo, a incompreensão, o estado de choque tem paradoxalmente um impacto esclarecedor e reumanizador poderoso sobre nosso psiquismo, mais forte talvez do que qualquer explicação científica ou policial. Servem de alerta que sempre estamos sujeitos a ultrapassar os limites civilizacionais e embarcar numa jornada inumana de destruição de tudo à nossa volta. Não há como explicar o inexplicável por mais que se tente: pulsão de morte, o mal-estar na cultura, a dimensão trágica da existência, o niilismo, a alienação, o predomínio da emoção sobre a razão, tudo isso pode servir de justificativa temporária apenas e tão somente para tentar exorcizar a possibilidade de que isso aconteça conosco. Mas não serve de consolo, nem de vacina. O inferno continuam sendo os outros, os tais psicopatas que continuam circulando livremente por aí.

Ficar com a dor, passar recibo do luto, contorcer-se dias sem fim diante da perda injustificável, praguejar contra os deuses e o destino, pode ser nossa única salvação. Reservar um tempo para lamber as próprias feridas é a única rota de escape admissível. Saber que o humano não abrange apenas um lado espiritualmente iluminado e gregário, mas chafurda também num poço sombrio e irracional, nos permite reavaliar nossos recursos internos e reequilibrar forças.

Essas considerações me ocorrem ao analisar os resultados das eleições 2022. Até dá para sacar timidamente uma explicação para o crescimento de última hora de Jair Bolsonaro e a acachapante vitória de seus aliados no pleito para governadores do sudeste – e mais grave ainda para a Câmara Federal e o Senado. Se há um fator racional para justificar a inversão das preferências, ele tem um nome: Ciro Gomes. Graças ao fato de ter elegido Lula – e não Bolsonaro, como seria de se esperar – como seu único adversário, de forma a se oferecer como contraponto palatável, ele conseguiu desestabilizar o emocional dos eleitores que já se dispunham a fechar o nariz, ignorar suas reservas intelectuais e votar no PT, na tentativa desesperada de salvar a democracia tupiniquim. Colheu o que plantou: até o final de sua vida vai ser forçado a ruminar em casa os motivos inconscientes de sua raivosa batalha egóica. Em volta de sua tumba política, vão se juntar as vivandeiras e carpideiras nem-nem que apostaram mais uma vez na própria incorruptibilidade e superioridade intelectual/moral.

Até aí, dá para tentar, não sem esforço, entender. No entanto, como explicar a eleição de Damares, de Pazuello, de Mário Frias, de Carla Zambelli e principalmente de Ricardo Salles? Que justificativa moral terão se concedido as pessoas que enfrentaram enormes perdas nos últimos três anos, desde mortes de familiares por covid, desemprego, fome, não-acesso à saúde e à educação, até as terríveis enchentes e as queimadas na Amazônia? Serão os eleitores das classes C, D e E os culpados mais uma vez por impedir o avanço civilizatório em nosso país? Ou será que os evangélicos se consolidarão como os novos bodes expiatórios da brasilidade?

Ontem fui dormir mais cedo, exausta de pensar na lógica estapafúrdia do quadro pós-eleitoral e arrasada emocionalmente com esse festival de mediocridade e agonia democrática. Embora minha intuição já me avisasse há algumas semanas que ainda não era hora de celebrar a volta da racionalidade ao jogo político-ideológico, eu ainda tinha esperança de ver esse pessoal jogado na lata de lixo da história. Não deu. Esqueci que também votam os farialimers, os empresários do agronegócio, os coronéis com expertise no voto de cabresto, os grileiros e os garimpeiros, os CACs, os milicianos, os moralistas de plantão e os ressentidos de classe média.

Fechei os olhos sem querer para a divisão bicentenária de nossa sociedade em dois Brasis irreconciliáveis: o Brasil das elites urbanas do Sul e do Sudeste e o Brasil dos desassistidos dos rincões miseráveis do país. Porém, acima e além da incompreensão com a aposta na perpetuação do fascismo à brasileira, meu maior desalento se deu com a escolha dos integrantes do Legislativo.

Lembrei que, há mais de duas décadas, o Senado solicitou uma pesquisa de imagem ao instituto para o qual eu trabalhava. Montamos uma gigantesca equipe de pesquisadores quantitativos e qualitativos, mantivemos reuniões exaustivas sobre a melhor forma de abordar o eleitorado sem permitir que simpatias e antipatias para com senadores isolados interferissem na análise do coletivo, gastamos horas e horas no treinamento do pessoal de campo. Já na primeira fase do projeto-piloto colhemos um resultado estarrecedor: pouquíssimos brasileiros sabiam dizer para que serve um senador da República e que importância ele tem como contrapeso ao Executivo. Simplesmente não dava para avançar no entendimento das características ideais para ocupar um cargo federal ou para a melhoria da imagem do Senado. Tiro n’água total, o restante do projeto acabou sendo abortado.

A pergunta, então, é como acontece a escolha dos representantes do Congresso. Intimidados com a profusão de nomes e números, desinformados sobre o histórico político dos candidatos e distraídos pela disputa mais tensa para o cargo presidencial, como apontar os que poderiam contribuir de forma mais efetiva para um futuro promissor, livre do toma lá, dá cá? Se não se sabe a quais tarefas eles vão se dedicar, só resta então aos eleitores mais apartados do jogo identificar os nomes já conhecidos – e mais polêmicos – do cenário político atual, que não por coincidência também se destacaram no apoio explícito às teses amalucadas do presidente de plantão. Antiabortistas, misóginos, portadores de virilidade tóxica, racistas, homotransfóbicos e companhia bela se unem então para exorcizar o “perigo comunista” e reafirmar os valores de defesa da família, da vida, da propriedade, da pátria e de Deus. Ganha uma passagem só de ida para a Ucrânia quem conseguir vislumbrar uma forma eficaz de reverter esse quadro dantesco e peitar os invasores russos.

Tristemente, cabe perguntar aos que, como eu, não conseguem atinar com uma explicação ou justificativa minimamente aceitável: ATÉ QUANDO?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

The day after

José Horta Manzano

Diante dos resultados oficiais do voto de ontem, ninguém ficou indiferente. Todos se surpreenderam. Grosso modo, metade do eleitorado estourou o champanhe e a outra metade baixou as orelhas e pôs as barbas de molho.

Os institutos de pesquisa levaram uma pancada na moleira – todos eles. Não conseguiram avaliar os sentimentos latentes na população dos grandes colégios eleitorais: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Agora tentam se escorar na explicação de um suposto “voto envergonhado”, fato que não bate com a realidade.

Veja só. Tenho conhecidos que, ao percorrerem o interior do estado de São Paulo seis meses atrás, já tinham me confiado que, naquela região, “todos são bolsonaristas”. Quase não acreditei, pois não é o que as sondagens indicavam. Se um simples cidadão consegue captar esse sentimento dominante, me parece erro grave que institutos especializados não detectem o fenômeno.

Andei fazendo umas continhas. Tomei o desempenho de Lula e Bolsonaro nesta eleição e comparei com eleições passadas. Cheguei a um resultado interessante. Vejam.

Em 2002, Lula conseguiu pela primeira vez passar para o segundo turno. Naquele primeiro turno, cravou 46,4% dos votos.

Na eleição seguinte (2006), depois de passar 4 anos no poder, nosso demiurgo se recandidatou e chegou de novo à final. No primeiro turno daquele ano, fez 48,6% dos votos, um incremento de 2,2 pontos percentuais. Excelente desempenho.

Seguiu-se um hiato de doze anos, em que se sucederam mensalão, petrolão, processos, julgamento, recurso e prisão. Passada a tempestade, Lula voltou à carga e recandidatou-se. Neste primeiro turno de 2022, acaba de obter 48,4%. Ou seja, apesar dos pesares, praticamente igualou sua marca de 12 anos atrás. Haja resiliência!

Em 2018, o candidato Bolsonaro passou para a etapa final. Naquele primeiro turno, atingiu a marca de 46,0% dos votos, excelente para um iniciante. Seguiram-se 4 anos caóticos, com pandemia tratada a bofetadas, destruição da Amazônia, disseminação de armas, insultos e baixarias no varejo e a granel.

Logo após a publicação dos resultados deste primeiro turno de 2022, o capitão se gaba de ter tido mais votos do que em 2018. O que ele omite é que o eleitorado cresceu 10%, proporção muito maior que os votos que ele recebeu a mais.

O TSE confirma que Bolsonaro acaba de cravar 43,2%, uma marca inferior de quase 3 pontos ao resultado de 2018. Uma análise honesta revela que, enquanto Lula soube conservar seu capital eleitoral, o capitão perdeu cerca de 3.300.000 votos (três milhões e trezentos mil). Portanto, teve, sim, menos votos do que em 2018.

Ser abandonado por milhões de eleitores nunca é bom sinal. O básico, para um governante que pretende se reeleger, é reforçar seu patrimônio eleitoral ao longo do primeiro mandato. Se o capitão não conseguiu, apesar de toda a ginástica que tem feito, é porque não leva jeito para a coisa.

Consideração final
Não acredito que metade dos brasileiros seja bolsonarista e que a outra metade seja lulopetista. Não é assim que se devem analisar os resultados. A meu ver, mais do que a adesão às ideias ou ao “programa” de cada um deles, os resultados estão a indicar um voto contra.

É simples: há os antipetistas e há os antibolsonaristas. Uns juram não querer um ladrão na Presidência. Outros afirmam não suportar um cafajeste no Planalto.

Partindo do princípio que, uns mais e outros menos, todos roubam, a escolha não me parece complicada.

Allegro moderato, con speranza

O sorriso, por enquanto, sai meio forçado
by Oskar Weiss (1944-), artista suíço

José Horta Manzano

O dia amanheceu carrancudo em Genebra. A garoa fina e a temperatura baixa não convidavam a passeio nenhum. Mas é dia em que todos os brasileiros têm, mais que a obrigação, o dever de exprimir suas escolhas políticas. Os mais jovens não imaginam a falta que nos fez essa liberdade durante os anos mais sombrios da ditadura.

Quando cheguei para votar, no fim da manhã, o tempo já estava dando sinal de que ia abrir. Somos muitos conterrâneos atualmente por aqui. As dependências do consulado não comportam tanta gente. O voto de desenrola num vasto pavilhão do salão de exposições da cidade. São 12 seções eleitorais num mesmo salão, separadas por cordinhas como a fila do check-in do aeroporto.

Quem conhecia o número da seção podia entrar diretamente; quem não conhecia tinha de entrar numa fila formada em frente ao guichê de informações. O problema é que a fila de informações era tão comprida, que virava à esquerda, entrava num outro corredor, de onde não se via o guichê. De bobeira, entrei na fila e lá passei uma boa meia hora até que me avisaram que, visto que eu conhecia o número de minha seção, podia entrar direto.

Enquanto esperava, admirei a paisagem. Faz muito tempo que não via tanto brasileiro junto. Nem imaginava que fôssemos tantos patrícios por aqui. Jovens, velhos, crianças, uns de pele alvinha, outros de pele bronzeada, todos falando em voz relativamente baixa – acho que é influência do país em que estamos.

Eu diria que 95% dos eleitores estavam vestidos “normalmente”, ou seja, com roupas comuns do dia a dia, de acordo com a temperatura externa. Já uns 5% vieram de amarelo ou de vermelho.

Os de amarelo eram mais espalhafatosos, falavam mais alto que os demais, alguns chegavam a se enrolar na bandeira nacional, os que tinham músculos para mostrar desafiaram o frio, vieram de camiseta e arregaçavam a manga.

Os de vermelho eram mais discretos. A uniformização da ala colorada é menos rigorosa. O vermelho podia estar no cachecol, no sapato, num lenço comprido displicentemente pousado sobre o ombro ou amarrado em volta da cintura. Alguns jovens carregavam o vermelho no boné.

Fico a matutar o que leva certas pessoas a declararem publicamente suas preferências políticas.

Será um desafio petulante lançado aos circunstantes, como se dissessem: “Eu já tomei minha decisão. E você? Não gostou? Vai encarar?”

Será o orgulho de se sentir do lado certo da história, diferentemente dos infelizes que não pensam igual?

Será uma marca de pertencimento, como quem arbora um distintivo com o logo de seu time de futebol?

Não tenho a resposta. O que sei é que, cada vez que vejo esse pessoal fantasiado, sou invadido pela mesma sensação de quando encontro uma mensagem publicitária não solicitada (spam) na caixa de cartas. Dá vontade de perguntar: “Que é que você está fazendo aqui? Eu te perguntei alguma coisa? Não estou interessado em saber pra quem você torce.”.

Enfim, enquanto a violência se limita a mostrar os músculos, falar mais alto ou usar sapatos vermelhos, dá pra aguentar sem problemas.

Quando saí do palácio de exposições, o céu estava azul e o sol brilhava.

Esperemos que a situação não degenere. Eu disse “esperemos”? Espero eu! Tem um certo capitão que ficaria muito feliz se degenerasse. Te esconjuro!

O mundo de olho

“Debate venenoso entre Bolsonaro e Lula”
Le Monde, França – 30 set° 2022

José Horta Manzano

Antes deste ano da graça de 2022, nunca jamais uma eleição presidencial brasileira tinha despertado tamanho interesse além-fronteiras. No tempo dos militares, nem se fala. A “eleição” estava mais pra nomeação e não levantava paixões. Desde a redemocratização, o interesse aumentou, mas não resultou em entusiasmo internacional.

Este ano é diferente. O mundo está assustado. Assustado com o espantalho de um Trump ameaçando voltar a se apossar do governo da maior potência do planeta. Assustado com a ditadura de Putin, que aterroriza com suas bombas atômicas. Assustado com regimes populistas e autoritários que pipocam no coração da Europa: Hungria, Polônia. Assustado com as eleições da semana passada na Itália, que deram a vitória a uma extrema-direita populista e xenófoba.

O mundo civilizado tem acompanhado os quatro anos do desastre bolsonárico. Embora dirigentes dos principais países respeitem o dever de reserva que se exige deles, sabe-se que todos estão preocupados com as eleições brasileiras.

O temor de um autogolpe, presente até pouco tempo atrás, arrefeceu. Bolsonaro, decerto por não receber o apoio que esperava, anda mais calmo. E todos nós nos damos conta de que o perigo de uma reviravolta no regime, se não estiver de todo esconjurado, está menos ameaçador.

Resta o risco de uma reeleição do capitão, fato considerado um verdadeiro desastre. Bolsonaro, com sua visão simplória de geopolítica, não tem capacidade de entender o perigo representado pela ditadura totalitária de Putin. Chegou a declarar que “o Brasil é solidário à (sic) Rússia”. Dirigentes de visão sentem calafrios ao imaginar o Brasil entrando no clube das pseudodemocracias autoritárias.

Não se passa um dia sem que se fale de nosso país e destas eleições. Estações de rádio e de tevê mandaram enviados especiais, que já estão no país à espera do domingo. Diariamente, há bloco nos telejornais especialmente para analisar o Brasil pelo direito e pelo avesso. Os jornais seguem na mesma linha. Assisti estes dias a dois longos documentários sobre o clã dos Bolsonaros. O primeiro, com uma hora de duração, passou na tevê suíça; o outro, de três horas espalhadas por três capítulos, passou na britânica BBC.

Até o debate de ontem já apareceu na imprensa europeia. A ilustração mostra longo artigo com boa análise feita praticamente no fogo da ação.

Faz bem ao ego ver que o mundo se interessa pelo país da gente. Só que, francamente, eu preferia que esse interesse fosse por aspectos mais civilizados de nossa sociedade, e não por esse indivíduo repulsivo.

Que ele seja logo despachado de volta pr’a geleia geral dos baixos círculos milicianos. De onde nunca deveria ter saído.

De uniforme ou sem?

by Alberto Benett (1974), desenhista paranaense

José Horta Manzano

Não sei como anda a moda vestimentária da juventude no Brasil. Aqui onde vivo, as cores desapareceram: todos (ou quase todos) os jovens se vestem de preto. Dos pés à cabeça. Minto – é só das canelas à cabeça. O calçado escapa à ditadura do luto. É a única peça que dá um pouco de cor à silhueta.

Quando este escriba era jovem, o uso era o inverso do que é hoje. O sapato é que era obrigatoriamente preto, enquanto a roupa era livre. Era uma época mais colorida, com camisas estampadas, calças de todas as cores imagináveis. Só o calçado era uniformizado. Não usar sapato preto era pecado tão grave quanto ir a um baile de formatura de smoking e sandália de dedo.

Não sei de onde terá vindo essa ideia de cada um tentar afirmar a própria personalidade vestindo-se todos de urubu.

Enfim, se estão felizes assim, melhor pra eles.

O dia do voto está chegando. Os eleitores sairão de casa e, se não forem incomodados por algum assalto ou bala perdida, entrarão na cabine de votação. Cabine, daquelas de cortininha, é modo de dizer; nestes tempos de penúria, a cabine é virtual. Virou um minibiombo de papelão.

Aos que, distantes de corpo e alma da pátria-mãe, vêm me pedir orientação sobre os candidatos, dou meu conselho. E não esqueço de acrescentar um ponto primordial: o cuidado com a indumentária.

O risco não é grande, mas no exterior também há grupelhos exaltados e até violentos. São, em geral, pupilos do capitão – veja-se o que aconteceu em Londres, diante da residência do embaixador, quando da estada de Bolsonaro. Aquela gente mostrou aos ingleses o grau de incivilidade que a passagem do capitão pela Presidência provocou.

Aconselho a todos evitar vestir-se de vermelho no dia de votar. Touros selvagens se excitam com essa cor e podem tentar dar chifrada. Por seu lado, é bom evitar também a cor amarela. Ninguém é santo, e não é impossível que algum apóstolo inflamado do demiurgo de Garanhuns saque a peixeira.

Nesta época do ano, em que camisetas já foram lavadas, dobradas e empilhadas no fundo do armário, estamos todos de agasalho pesado, que costuma ter cores menos vibrantes. É raro ver capote vermelhão; mais raro ainda é ver abrigo amarelo. Assim mesmo, todo cuidado é pouco.

A gente se espanta e se solidariza com as infelizes mulheres iranianas que estão sendo massacradas por saírem de casa sem o véu islâmico. Ao mesmo tempo, não nos damos conta de que em nosso país, a sinistra função de Polícia de Costumes foi delegada a todos os cidadãos. Os mais desvairados estão sempre prontos a despachar para o Pronto Socorro os que não rezam pela sua cartilha. Para o Pronto Socorro ou para o outro mundo.

Veja quanto regredimos!

Voto desparelhado

Golden Gate Bridge, San Francisco (California)

José Horta Manzano


De quatro em quatro anos volto ao assunto na época das presidenciais. Mas vamos começar pelo começo.


No Brasil, a colonização europeia chegou pela costa marítima. No primeiro século, com a notável exceção do vilarejo de São Paulo, os numerosos estabelecimentos portugueses estavam à beira-mar, de norte a sul do território.

Diferentemente dos EUA e do México, países com duas faces costeiras, o Brasil só pode contar com a costa atlântica. Sem a atratividade de uma outra face marítima, nosso povoamento demorou a penetrar fundo no território. A construção da nova capital federal, Brasília, e os incentivos dados nos anos 1970 à internalização do “progresso” não provocaram caudalosa marcha para o Oeste. O grosso da população e das atividades do país continuaram concentradas numa faixa de poucas centenas de quilômetros ao longo da faixa costeira.

Assim é até hoje. Veja um exemplo flagrante. Nosso país, com seus 4.400 km de extensão leste-oeste, cobre 4 fusos horários. No entanto, quando o locutor de alguma estação de rádio de projeção nacional ouvida em todo o território proclama, com voz empolada, que são 10 horas, está dando somente a hora da costa atlântica.

É verdade que cerca de 90% dos brasileiros se encontram dentro desse fuso, mas não deixa de ser injusto para com os demais. O relógio de mato-grossenses, amazonenses e vizinhos ainda está marcando 9 horas. Devem sentir-se cidadãos de segunda zona. Pior ainda são os acrianos, para os quais são ainda 8 horas. Ah, e tem o caso dos habitantes de Fernando de Noronha. São poucos, mas merecem atenção como os demais. Os relógios do arquipélago estão marcando 11 horas.

Até aqui, tratei de uma indelicadeza para com parte da população. Fica feio, mas não é ilegal. Já o que vem a seguir resvala para terreno pantanoso.

Faz uns vinte anos que os brasileiros do exterior temos direito de votar nas presidenciais. Vota-se somente para presidente, visto que, no Congresso, ainda não foram criadas vagas de deputados e senadores para defender especificamente os interesses dos expatriados.

Brasileiros da Nova Zelândia são os primeiros a apertar teclas na urna eletrônica. Em seguida, vêm os conterrâneos estabelecidos na Austrália, no Japão, na China, e assim por diante, até a Terra girar e o dia clarear em território nacional. Começam primeiro a votar os fernando-noronhenses, em seguida votam os da grande faixa que segue a hora de Brasília. Uma hora depois, abrem-se as urnas de amazonenses e mato-grossenses. Por último, vêm os acrianos.

Enquanto isso, continua o voto no exterior. A Terra vai girando – Ásia, África, Europa – e as urnas vão se abrindo. E chega a vez dos Estados Unidos. Consulados da costa atlântica são seguidos pelos do interior do país até chegar à costa do Pacífico.

No Brasil, cada estado encerra a votação às 17 horas locais. Os últimos a bloquear as maquinetas são os do Acre, que só terminam de votar duas horas depois do grosso da população do país. Fechadas as urnas do Acre, todos os veículos de informação anunciam a esperada estimativa geral colhida na boca de urna. Em seguida, vão pingando, um atrás do outro, resultados parciais daqui e dali. Em meia hora ou coisa assim, conhece-se o nome do(s) vencedor(es).

Até aí, beleza pura. Só que… nos EUA, na costa do Pacífico, as urnas ainda estão abertas e há gente esperando pra votar. Temos aí um grave problema. Em princípio, o horário de votação de todos os brasileiros tem de estar encerrado pra que se saiba dos resultados. Como é possível terem esquecido os que votam em Los Angeles ou em San Francisco? E não são poucos.

Chegamos assim à bizarra situação de ver eleitores que votam sabendo já do resultado, como se o voto deles não fizesse a menor diferença. Ou, pior ainda, podendo, sim, fazer diferença no caso de resultado apertadíssimo.

É uma anomalia que tem de ser sanada. Quem sabe para as próximas eleições, quando estará menos absorvido em se esquivar de ataques da extrema-direita belicosa, o TSE vai poder se debruçar sobre esse problema.

Como fazer então?
A França, que tem ilhas e pequenos territórios ao redor do planeta, já resolveu o problema faz tempo. Os eleitores do exterior não votam no domingo, mas um dia antes, no sábado. Assim, sem afobação, as seções eleitorais transmitem o resultado a Paris. Os votos do estrangeiro ficam armazenados no computador central à espera do fim do voto nacional.

Pra tudo tem remédio, basta querer.