Patriota?

by Matías Tolsà (1983-), desenhista argentino

 

José Horta Manzano


O brasileiro ama o Brasil?


Deixo a pergunta no ar. Volto a ela mais tarde.

Um dos expedientes mais utilizados por ditadores para se firmar no poder é a fabricação de um inimigo externo. A própria pátria estar sendo ameaçada de fora para dentro é situação capaz de federar os cidadãos e despertar neles a detestação profunda e unânime do agressor e a urgência de defender a pátria em perigo.

Nessa linha, Putin não se cansa de repetir ao povo russo que a Ucrânia, governada por nazistas, é uma ameaça existencial para a Rússia. Trump se atraca à ameaça representada pela imigração de gente pobre e suja que periga corromper o “sangue americano”. Maduro tenta convencer seu povo de que os malvados vizinhos guianenses roubaram a Guiana Essequiba, parte integrante da Venezuela. E assim por diante.

Mr. Musk, um novo-rico arrogante nascido na África do Sul e naturalizado americano, é daquele tipo de nababo convencido de que, com seu dinheiro, consegue comprar tudo. É verdade que sua imensa fortuna é maior que o PIB anual de dezenas de países ao redor do globo, só que nem tudo está à venda. A dignidade de uma nação, por exemplo, não está. Ou não deveria estar.

Com a petulância que sua fortuna lhe concede, o insolente personagem decidiu afrontar a justiça brasileira. Declarou, alto e bom som, que não cumpriria injunções emanadas por nosso Tribunal Supremo. De lambuja, aproveitou para insultar pessoalmente um dos magistrados.

Pra se dar conta do desprezo e da grosseria implícitos no palavreado do bacana, basta pensar um pouco. Será que ele ousaria atacar da mesma forma um país europeu? Será que se alevantaria contra a justiça alemã ou francesa? É de duvidar fortemente.

Desdém desse quilate é reservado a países do Terceiro Mundo. Portanto, ao mesmo tempo, o empafiado personagem atacou nossas instituições e mostrou o menoscabo que sente por nosso povo. É dose pra elefante, suficiente pra pôr nosso povo de pé em repúdio à ousadia do atrevido. Os articulistas da imprensa fizeram sua parte. O presidente do STF também se manifestou. Na Presidência, Luiz Inácio, com suas metáforas peculiares, escrachou o personagem.

No entanto, uma parte dos congressistas, muitos deles filiados ao mesmo partido que o antecessor de Lula, engoliu a ofensa. Fez mais que isso: uniu-se e formou uma frente de defesa do agressor.

São raras as ocasiões que o Brasil tem de forjar um inimigo externo. Quando um aparece, claro e nítido como agora, é desolante perceber que interesses paroquiais impedem alguns congressistas de alargar o próprio horizonte e enxergar mais longe que o próprio umbigo. O que interessa a essa gente é resolver suas picuinhas, a honra da pátria que se lixe.

A figura do inimigo externo costuma funcionar por toda parte mas, em nossa terra, não convence a todos. Repito a pergunta:


O brasileiro ama o Brasil?


Grande parte dos brasileiros amam sem dúvida sua pátria. Mas os acontecimentos destes últimos dias indicam que muitos, embora se apresentem como “patriotas”, põem interesses mesquinhos à frente do patriotismo.

Praticam o novíssimo “patriotismo relativo”.

Refúgio na embaixada

Embaixada do México em Quito invadida no meio da noite pela polícia equatoriana

José Horta Manzano

Quando me inteirei do que tinha acontecido na noite de 5 para 6 de abril na embaixada do México em Quito (Equador), me lembrei de Jószef Mindszenty, o cardeal húngaro que passou 15 anos na embaixada dos EUA em Budapest, de 1956 a 1971.

O prelado, ao mesmo tempo antifascista e anticomunista, conseguiu a façanha de irritar todos os tipos de governo que a Hungria teve ao longo de anos (os pró-Hitler e os pró-Stalin). As temporadas que passou na prisão não foram suficientes para fazê-lo renunciar a suas convicções.

Um dia, aproveitou uma liberação temporária da cadeia onde cumpria pena de prisão perpétua e solicitou asilo à embaixada americana em Budapest. Foi acolhido e passou a viver no imóvel da representação diplomática. Permaneceu lá à espera de ser liberado para transferência para os EUA. Mas os anos se passavam e a solução para seu caso não vinha.

Foi só depois de 15 anos de espera e muita negociação entre a Hungria comunista, os Estados Unidos, a Áustria e o Vaticano que o cardeal conseguiu autorização para viajar para Viena (Áustria), onde viria a se instalar, falecendo 4 anos mais tarde, aos 83 anos.

Não vamos esquecer que, naqueles tempos sombrios, a Hungria vivia sob a tutela de Moscou e amargava um rigoroso regime comunista. Assim mesmo, apesar do pouco respeito que se dava então aos direitos humanos, as forças policiais húngaras nunca ousaram forçar a inviolabilidade da representação diplomática. Policiais vigiando em roda do edifício da embaixada americana, é certo que havia. Mas nenhum jamais tentou arrombar a porta.

Neste fim de semana, de repente, estoura a notícia de que a polícia do Equador invadiu a embaixada do México em Quito para recuperar um cidadão equatoriano que lá se encontrava. Esse cidadão, que foi vice-presidente do Equador, tinha procurado abrigo na embaixada meses atrás para escapar da cadeia.

Segundo convenções internacionais (e segundo o bom senso) toda missão diplomática de um país no estrangeiro é considerada juridicamente território nacional desse mesmo país. Sua sede é inviolável. Violar intencionalmente uma representação diplomática equivale a invadir o território nacional do país ali representado. É ato de extrema gravidade, verdadeiro casus belli – motivo suficiente para declaração de guerra.

Nosso ex-presidente sabia disso quando entrou na embaixada da Hungria em Brasília para solicitar asilo diplomático – refúgio que, em 48 horas, lhe foi negado. Se seu pedido tivesse sido aceito, sua permanência ali havia de criar uma dor de cabeça para os governos húngaro e brasileiro. Mas Bolsonaro deu com os burros n’água, o que lhe arrefeceu os ânimos. Vai pensar duas vezes antes de entrar noutra embaixada.

O eco da selvageria cometida pelo Equador foi planetário. Missão diplomática é santuário, todos os países concordam. Como é que o pequeno Equador ousou cometer tamanha irresponsabilidade? A reação dos países não se fez esperar.

O México, país agredido, cortou na hora suas relações diplomáticas com o Equador; seu pessoal diplomático deixou o país no dia seguinte, domingo, no primeiro voo comercial. A Nicarágua de Ortega emulou o México e também anunciou a ruptura de suas relações com o Equador. Os demais latino-americanos reprovaram a violência contra as convenções internacionais.

Até o Brasil, que, nestes tempos lulopetistas, tem ficado frequentemente em cima do muro, soltou uma nota bastante dura contra a atitude equatoriana. Notas de condenação foram emitidas por chancelarias tão diversas como: Cuba, Chile, Venezuela, Argentina, Bolívia, Panamá, Costa Rica.

Não sou amigo do Bolsonaro, mas aproveito o espaço para mandar-lhe um aviso.

 

Prezado ex-presidente,

Se ainda lhe passar pela cabeça mendigar asilo em embaixada estrangeira, recomendo-lhe evitar o Equador. Essa mancada que acabam de dar ao invadir a embaixada do México não é a primeira na história recente do país. Há pelo menos um grave precedente.

Vosmicê deve se lembrar que, tempos atrás, deram refúgio a Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres, não lembra? Pois é, depois de abrigar o asilado durante sete anos, um belo dia avisaram que a autorização de permanência tinha vencido e não seria renovada. Ao fim e ao cabo, o infeliz hóspede teve de deixar a embaixada e se entregar à polícia inglesa, que o levou para uma prisão de segurança. Está lá há vários anos.

Portanto, risque o Equador de sua lista, Seu Jair. De toda maneira, embaixada é cumbuca furada. Papuda é lugar mais tranquilo, acredite.

Saudações

 

Nós, que não estamos fugindo da polícia, vamos hoje parando por aqui.

Tiroteio

credit: Markku Uländer via Reuters

José Horta Manzano

Para nós, ouvir falar de disparos de arma de fogo dentro de uma escola finlandesa parece notícia falsa (em bom português: fake news). Para um finlandês, é ainda mais perturbador. De memória, não me lembro de ter nunca ouvido falar de ocorrência desse tipo num país que é considerado o mais feliz do mundo.

Pois foi o que aconteceu alguns dias atrás num colégio da capital, Helsique. Professores e alunos, ninguém está preparando para um acontecimento desse calibre. Foi chamada uma força de intervenção. A foto acima mostra a chegda de alguns dos policiais, armados até os dentes.

Vosmicê vai reparar que, dos quatro figurantes, um destoa do resto do batalhão. O rapaz calça tênis e veste uma calça jeans (que, na minha juventude, levava o jurássico nome de ‘calça rancheira’). Onde é que já se viu integrante de força de intervenção tática carregando metralhadora e… calçando tênis?

Talvez o homem estivesse de folga e foi sacudido na cama? Ué, mas nesse caso teria vestido o uniforme e não essa roupa de passear no parque.

Talvez o uniforme estivesse no tintureiro, quando ele foi chamado às pessas? Ora, nesse caso, um outro policial teria sido convocado no lugar desse.

Talvez a polícia esteja com falta de pessoal e, na urgência, tenha chamado esse cidadão na rua: “Ei, você aí, que é alto e fortão, precisamos de você! Venha já aqui, é a pátria chamando!”

Não saberemos nunca o que aconteceu. Mas que é engraçado, é.

Repare também que, na Finlândia, prédios residenciais não têm guarita nem porteiro. E janelas do andar térreo não têm grades. As bicicletas se estacionam na rua, em frente de casa. É um outro mundo.

Que um muro alto proibia 2…

Chamada Folha de SP

José Horta Manzano

Se as autoridades competentes tivessem sido competentes, a penitenciária estaria rodeada por um muro de 4 metros de altura desde a inauguração. Teria custado menos que a caça aos bichos-homem.

Atenção! A dica é extensiva às outras quatro prisões federais “de segurança máxima”. Um muro alto pode evitar futuros vexames.

Terremoto em Taiwan

credit: Markku Uländer via Reuters

José Horta Manzano

Há imagens que não dizem grande coisa. Há outras que prendem a atenção e fazem refletir. A foto acima é daquelas que não deixam ninguém indiferente.

Esteticamente, é belíssima, uma réplica taiwanesa da torre original, situada em Pisa. Acho até que a inclinação desse prédio é mais forte do que a da torre italiana.

Há outros espantos. Dos aparelhos de ar condicionado, nove ainda estão lá, quietinhos, exatamente no lugar em que foram instalados. Aguentaram o baque. Instalador taiwanês é gente competente.

Dos vidros espelhados, excetuando os que foram esmagados no movimento de inclinação, a quase totalidade resistiu sem cair.

Fico imaginando o pavor de quem estivesse dentro do prédio na hora do sismo. Sentir um tranco e perceber que o assoalho se inclina, se inclina… Situação de infarto.

Aqui em Pindorama, volta e meia cai um prédio aqui, outro ali, sem terremoto mesmo. Engenheiros e arquitetos da ilha de Formosa (hoje Taiwan) merecem forte aplauso. Sabem fazer edifícios sólidos e resistentes.

Dá a impressão de que, com um guindaste gigantesco, se conseguiria erguer o imóvel e recolocá-lo na posição original.

Vai ver que ele só se inclinou pra dar bom-dia à cidade.

O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Você, que vive no Sul ou no Sudeste, às vezes sente um friozinho. Mas saiba que já houve épocas bem mais geladas. Entre os distintos leitores, só alguns dinossauros hão de se lembrar do terrível inverno de 1955.

Aqui vai a descrição detalhada do fenômeno extraordinário daquele ano, coisa que só acontece uma vez por século. É até possível que, nos séculos passados, algum inverno tenha sido mais rigoroso que o de 55, mas não dispomos de nenhum registro.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, quase 70 anos atrás, tinha início a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.

Anitápolis (SC) com neve

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi atípica em cinco aspectos.

1°) A extensão territorial
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sido conservadas as respectivas cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2°) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3°) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4°) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5°) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO
(Os dados que se seguem baseiam-se nos registros do Inmet.)

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu acima de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a temperatura mais alta do dia foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e, na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul

Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina

São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná

Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo

Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso

Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia

Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio ainda pegou forte principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:

Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

Se bandido bom é bandido morto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

….um corolário necessário é o de que policial bom é policial matador, pois não? Simples questão de lógica. E também, indiretamente, um convite mal disfarçado para que a população faça justiça com as próprias mãos, sempre que possível.

É inescapável para quem lê jornais regularmente a conclusão de que nossa sociedade não só tolera a eliminação física dos acusados de violar as leis, desde que, obviamente, os abatidos se enquadrem na categoria PPP (pretos, pobres e periféricos), mas também aplaude a truculência policial ocasional contra outros alvos civis, como mulheres, idosos, crianças e moradores de rua, mesmo que não envolvidos diretamente com atos criminosos.

Uma das vantagens de ser velha é ter sido testemunha ocular da história, poder contar às gerações seguintes como os fatos realmente se deram. Pode-se argumentar que será sempre uma interpretação pessoal dos eventos passados, mas os detalhes relatados poderão ser confrontados com as versões de outras testemunhas, investigados em jornais e documentos oficiais da época e comprovados, ou não, por quem se interessa em desvendar a verdade.

Que ninguém se engane: as forças policiais brasileiras são legitimas herdeiras dos capitães do mato, sempre à caça de ‘negros fujões’ e absolutamente alienados do fato de que são eles mesmos oriundos dos mesmos estratos sociais, a soldo da perpetuação da desigualdade social e do racismo estrutural. Truculência policial não é, portanto, nenhuma novidade entre nós, sempre foi assim e provavelmente continuará sendo. No entanto, a brutalidade policial desmedida escalonou bem mais durante a ditadura militar. Naquela época, é bom lembrar, militares eram oficialmente liberados para atirar contra supostos “subversivos” antes de perguntar qualquer coisa. O uso de força letal, agindo de surpresa e impedindo a reação da vítima, era desculpada como inquestionável “segurança nacional”.

Mas à medida que a repressão urbana passou a ser mais capilarizada, tornou-se necessário contar com o reforço das forças policiais locais. Para isso, oficiais do exército foram designados para treinar policiais militares, especialmente os integrantes dos batalhões da Rota. E, claro, foram transferidas a ela as mesmas prerrogativas de “excludente de ilicitude”. Tortura para obter confissões e delações e execuções sumárias acabaram se tornando práticas corriqueiras.

Mais ou menos na mesma época, por volta do final dos anos 70, um fato de grande repercussão nacional aconteceu em São Paulo: um garoto de 12 anos, em situação de rua, que havia roubado uma corrente de ouro de um comerciante da Praça da Sé foi perseguido e morto por um bando de lojistas. Na sequência, o corpo do garoto foi abandonado sobre um banco da praça. O então arcebispo metropolitano, Dom Paulo Evaristo Arns, inconformado com a desproporcionalidade da reação, resolveu organizar uma procissão, clamando por uma atitude mais cristã de respeito à dignidade de toda pessoa humana. A iniciativa acabou dando início ao que se convencionou chamar de Movimento dos Direitos Humanos.

Imediatamente, capitaneadas por apresentadores de bizarros programas policiais televisivos, milhares de vozes se fizeram ouvir no Brasil todo, associando maldosamente o movimento de Direitos Humanos à “defesa de bandidos”. Ficou famoso desde então o refrão de que a sociedade e a segurança pública deveriam se concentrar apenas na defesa dos “humanos direitos”.

Nunca ocorreu aos detratores de Dom Paulo que, por mais bárbaro que seja o criminoso, ele continua sendo um ser humano. Está aí uma verdade difícil de ser digerida até hoje. Se compreensível por um lado (psicologicamente é mesmo difícil admitir que sejamos capazes de atos irracionais de extrema perversidade), não há como esconder o lado execrável da ideia de que bandido bom é bandido morto: desqualificar a condição humana de adversários é pré-requisito para nos tornarmos tão ou mais insensíveis quanto o mais insensível dos criminosos.

Pouquíssimos brasileiros entendem que não é função das polícias julgar da culpa ou inocência de ninguém e, menos ainda, a de matar. Mesmo quando recebidos a tiros, ainda resta aos agentes policiais a opção de atirar na mão que segura o revólver ou nos pés do agressor para evitar uma fuga. Mas atirar preferencialmente em áreas vitais infelizmente continua sendo uma prática explicitamente valorizada por muitos comandantes militares, governadores e políticos em geral.

Um pouco de conhecimento de psicologia humana não faz mal a ninguém: quais sentimentos você acha que brotam no peito de parentes e amigos dos que foram mortos em operações no interior de comunidades pobres de periferia, sejam eles inocentes ou não: respeito, medo ou ódio da PM? A despeito dos inúmeros relatos de tiros pelas costas, inocentes desarmados atingidos, invasão de residências sem mandado judicial e descaracterização da cena de crimes, o ativista dos direitos dos humanos direitos e governador de SP não vê razão para se indignar com as macabras estatísticas das Operações Escudo e Verão. Afirmar que “não tem bandido na polícia” é muito mais do que simples profissão de fé, é projeto de poder.

Que ninguém se engane: Guilherme Derrite, seu atual secretário de segurança pública, foi alfabetizado na mesma cartilha de Netanyahu: para cada um dos nossos abatidos, ao menos dez dos deles deverão pagar com a própria vida. E eis-nos de volta aos tempos de Átila, o Huno e do primeiro código civil da história da humanidade: olho por olho, dente por dente.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Acerte seu relógio

Relógio solar antigo

José Horta Manzano

No tempo dos romanos, não havia relógio. Nem precisava. A passagem do tempo era marcada pelo sol, pelo canto do galo, pelo mugir das vacas. Sabia-se que era meio-dia porque o sol estava no ponto mais elevado. E isso bastava.

Assim continuou na Idade Média. Os viventes, em maioria analfabetos, não sabiam sequer em que ano estavam. E isso não tinha a menor importância. O tempo era ritmado pelo calendário litúrgico que os clérigos não deixavam de recordar.

Todos sabiam que era tempo de Quaresma, que domingo que vem é Pentecostes, que estava para chegar a festa da Ascensão, de São José, ou da Imaculada. A hora do dia pouco importava.

Media-se a passagem de um tempo específico. Para os gregos, a clepsidra preenchia essa função. Seu parente, a ampulheta, continuou a satisfazer o mundo medieval. Para quem fizesse questão de ter uma ideia mais precisa das horas do dia, havia o relógio solar ― esse mesmo que ainda se pode observar no frontispício de antigos edifícios europeus. É verdade que só funcionava em dias de sol. Mas não havia outro jeito, que a técnica da época não permitia voos mais altos.

O problema começou a se agravar com as grandes navegações. Para medir latitudes, o sextante era suficiente. Mas como medir longitudes? Na falta de um relógio razoavelmente preciso, como saber que distância havia percorrido o barco e quanto faltava para chegar ao destino?

Ideias havia, já desde a antiguidade. Mas a precisão não era lá muito confiável. Há controvérsia quanto à invenção do relógio tal como o conhecemos hoje. Os ingleses são reconhecidos por sua importante contribuição para aperfeiçoar o aparelho. Grandes navegadores, tinham necessidade crucial de uma medida confiável.

Durante alguns séculos, o relógio embarcado nos navios resolveu o problema dos navegantes. E o mostrador redondo encravado na torre das igrejas foi suficiente para ritmar o dia a dia de vilas e vilarejos.

Lá por meados do século XIX, quando começaram a aparecer as primeiras ferrovias, a coisa se complicou. Antes disso, cada localidade era regulada pelo relógio de sua igreja. Contudo, os horários dos trens careciam de marcação uniforme da hora. Era impossível estabelecer horários se cada vilarejo seguia uma hora diferente.

Para encurtar a história, digamos simplesmente que o problema acabou sendo resolvido. A precisão cada vez maior dos relógios e o telégrafo ajudaram. A humanidade chegou ao século XX com uma hora, se não universal, pelo menos bem mais generalizada do que 50 anos antes.

Guerras são acontecimentos terríveis, sem sombra de dúvida. Mas são também períodos que favorecem avanços nas artes médicas, nas comunicações e na vida prática.

A Grande Guerra 1914-1918 trouxe penúria para os beligerantes. O petróleo, que já então começava a substituir o vapor e a mover o mundo, fez-se raro. A Alemanha, envolvida até o pescoço no conflito, não produzia uma gota sequer do precioso líquido. Medidas tiveram de ser tomadas para reduzir seu consumo doméstico, a fim de que sobrasse para uso militar.

Foi quando surgiu a ideia de instituir o horário de verão. A defasagem artificial entre a hora solar e a hora oficial seria benéfica para poupar combustível. A economia de eletricidade significaria, naturalmente, diminuição do gasto de petróleo.

Em 1916, os alemães foram os primeiros a oficializar o avanço dos relógios durante o período estival. Outros países apreciaram a ideia e, pouco a pouco, adotaram o sistema. Dois anos depois, os Estados Unidos já fariam sua primeira experiência.

A França discutiu, tentou, tergiversou, torceu o nariz, hesitou. A partir de 1940, ocupada pelas tropas alemãs, não teve como escapar. Enquanto durou a presença estrangeira, a cada verão os relógios tiveram de ser adiantados em uma hora. Depreciativamente, os franceses diziam que aquela era a heure allemande, a hora alemã.

O Brasil fez sua primeira experiência em 1931, quando Getúlio mandava no País. De lá para cá, houve outras tentativas esporádicas. A partir de 1986, a hora de verão foi oficializada. Tornou-se medida rotineira até ser abolida alguns anos atrás.

A Europa generalizou a medida em meados dos anos 1970. Desde então, às 2h da madrugada do último domingo de março, «perde-se» uma hora, ou seja, os relógios têm de ser adiantados. Essa hora nos é devolvida às 3h da madrugada do último domingo de outubro, a noite mais longa do ano.

A partir deste 31 de março, portanto, a Europa está um pouquinho mais distante do Brasil. Brasília está a quatro horas de Lisboa e a cinco de Madrid, Paris, Berlim, Roma.

Voltaremos a nos reaproximar no fim de outubro.

Estamos com a maioria

José Horta Manzano

Mais um Datafolha saiu. Parece que essa turma trabalha de verdade. Desta vez, quiseram saber o que pensa o povo brasileiro da comemoração do 31 de março, dia que já foi “da Revolução Gloriosa” mas, decaindo com o tempo, tornou-se “do Golpe Militar”. Nenhuma farsa dura pra sempre; com o passar do tempo, arrancam-se máscaras e descobrem-se fedores.

A quota de 63% de brasileiros que estão de acordo para desprezar o 31 de março me surpreende um pouco. Imaginava que todos os integrantes da seita bolsonárica fossem devotos da militarização do Estado brasileiro. O resultado das últimas eleições mostrou um Brasil partido em dois. Ora, 63% está mais para 2 de cada 3 conterrâneos ansiosos para virar essa página.

O de 1964 não foi o único golpe de Estado a que se assistiu no Brasil. Nossa história está coalhada por dezenas deles. Mas tem uma coisa: só são comemorados os que deram certo e perduraram até hoje.

Um exemplo é o golpe dado em 1822 por D. Pedro, quando mandou a própria família às favas e se autoproclamou imperador. O gesto foi fantasiado de “Grito da Independência” e, com esse qualificativo, é comemorado até hoje. Foi golpe que deu certo.

Outro exemplo é o golpe dado em 1889 pelo Marechal Deodoro. A família imperial foi despachada para a Europa no primeiro barco, o governo constituído foi destituído e o regime mudou de nome. Nós nos esquecemos do golpe, mas comemoramos até hoje a “Proclamação da República”. Foi outro golpe bem sucedido.

O golpe de 1964 não deu certo. Instalou militares no poder por 21 anos, mas o poder civil acabou recuperando as rédeas. Longeva por longeva, a ditadura que se seguiu ao golpe de Vargas, em 1930, durou 15 anos, tempo pra nenhum aprendiz de ditador botar defeito.

Por que razão deveríamos santuarizar 1964, quando já esquecemos totalmente 1930? E 1977, 1955, 1924, 1918 e tantos outros golpes menos importantes, que praticamente viraram pó e foram instalados na lata do lixo da História, como se diz. Por que venerar o 31 de março?

A meu ver, falar ou deixar de falar nessa data não incita nem dissuade os militares de dar um golpe. O ex-presidente passou 4 anos inteiros a insinuar sua simpatia e seu desejo de que os militares dessem um golpe de Estado e o deixassem assumir a Presidência – o que não seria automático. Apesar da insistência, à exceção de um pequeno grupo de oficiais, os fardados não lhe deram bola e o deixaram falando sozinho.

Quanto a mim, fico com os 63% de brasileiros cansados de ouvir falar num tema que não lhes parece primordial. Os tempos mudaram. Militares já demonstraram não estar interessados em golpe. Temos tantos outros problemas, não me parece inteligente criar mais um.

Quem pode, quem não pode

Chega um pouquinho mais pra lá!
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 março 2024

Num discurso pronunciado poucos dias atrás, Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, pisou com força no calo de muita gente. Atacou forte o primeiro-ministro de Israel. Com todas as letras, afirmou que, com os crimes que vem cometendo em Gaza, Benjamin Netanyahu “inscreve seu nome ao lado de Hitler, Mussolini e Stalin, como um nazista dos dias atuais”.

E não parou por aí. Garantiu que “ninguém jamais obrigará a Turquia a chamar o Hamas de organização terrorista”. Acrescentou ainda que a Turquia “conversa abertamente com os líderes do Hamas e os apoia com determinação”.

São poucos os líderes a poder pronunciar tais palavras sem que o mundo venha abaixo. Erdogan é um deles, e sabe que pode fazê-lo sem ser cobrado. O dirigente turco entendeu que a liberdade de palavra de um líder está ligada à importância de seu país no tabuleiro da política mundial. Há nações importantes pelo poder econômico, outras se impõem pelo arsenal atômico, há ainda países que, por sua posição geográfica, são estratégicos.

Antes de falar grosso, Erdogan manobrou paulatinamente para aumentar o peso de seu país. O território turco se assenta nas duas margens do Bósforo, o estreito por onde é obrigado a passar todo navio com destino ao Mar Negro.

Isso significa que toda a frota russa baseada naquelas águas tem de pedir licença à Turquia para transitar por ali, até poder largar âncoras em seu porto de armamento situado na margem russa do Mar Negro. A política externa de Erdogan torna seu país polivalente. Membro da Otan, a Turquia é próxima da Ucrânia, amiga da Rússia e inimiga de Israel. Numa hipotética futura mesa de negociação da paz na Ucrânia, a Turquia será um participante por assim dizer obrigatório.

Essa esperta ambiguidade da política turca, aliada à importância geográfica do país, faz que se releve boa parte dos exageros retóricos do presidente – que são basicamente destinados a seu público interno. Fecham-se os ouvidos para a comparação extravagante entre Netanyahu e Hitler, e fecha-se o olho para o apoio veemente e fraterno ao Hamas, grupo considerado por muitos como terrorista.

Nosso Lula nacional, depois de levar puxões de orelha por falas inoportunas e inapropriadas, parece ter mudado a espingarda de ombro. (Essa é a situação no momento em que escrevo; amanhã, ninguém sabe.) A importância estratégica do Brasil ainda não permite a nosso presidente sair por aí dando murros na mesa. Lula acaba quebrando os dentes a cada vez que se aventura por mares que não costumamos navegar.

Tudo indica que sua nova meta é assumir a liderança do “Sul Global”. O alvo está distante e o caminho será pra lá de árduo. Há sinais de que nossa sociedade está mudando. Um fato novo revelado pelo último Datafolha mostra que 10% dos entrevistados apontam a política externa de Lula como algo negativo. Isso é novidade. Política exterior nunca foi tema importante para o grande público no Brasil, sendo reservado, via de regra, para iniciados. Percebe-se que já não é assim.

Mas o que vem a ser esse tal de Sul Global? O nome é portentoso, deixando a impressão de que congrega todos os países ao sul do Equador, irmanados num interesse comum. Não é nada disso. Não passa de uma etiqueta. É um elenco de países díspares que se imagina não terem simpatia pelos Estados Unidos, país cuja hegemonia talvez os incomode. Assim, excluídos os EUA, a Europa e mais algumas antigas colônias britânicas, a etiqueta reúne em tese todos os países restantes.

O nome da etiqueta foi mal escolhido. China, Índia e Rússia – apesar de se situarem inteiramente no Hemisfério Norte, com a Rússia roçando até o Polo Norte – fariam parte do “Sul Global”. Vê-se que é uma congregação de interesses contrastados, às vezes divergentes e até antagônicos. São países que pouco têm a ver entre si. É esse Sul Global que Luiz Inácio tem intenção de liderar? Um Lula a liderar Putin, Xi Jinping e Modi?

O Brasil é um país lindo e cheio de promessas mas nossas potencialidades têm de ser desenvolvidas. Em vez de tentar liderar etiquetas ao redor do mundo, Lula deveria começar combatendo os males nacionais, pelo menos os mais evidentes e urgentes, como a dengue, a miséria, o massacre sistemático dos povos indígenas. Seria o melhor caminho para tentar recobrar a velha aura que murchou.

Um dia, o Brasil certamente será importante. Mas a estrada ainda é longa.

Bolsonaro já está preso

José Horta Manzano

Julian Assange é cidadão australiano residente na Inglaterra. Em 2012, passou a ser procurado pela justiça americana por estar envolvido no rumoroso caso Wikileaks. Para escapar a uma extradição capaz de lhe valer mais de um século de prisão, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres.

Ficou sete anos na representação diplomática, dormindo num cubículo, sem sair jamais, sem sequer ver a luz do sol. Só não embranqueceu de vez por ter à mão uma lâmpada bronzeadora facial. Só não travou das pernas por ter conseguido uma esteira.

Um dia, o Equador anulou o asilo diplomáico e expulsou Assange. Diante da porta, o rapaz foi acolhido (e colhido) pela polícia inglesa. Desde então, ele curte as delícias da prisão londrina de Belmarsh, uma das mais rigorosas do reino. Está no aguardo de uma provável extradição para os EUA. No total, já passou doze anos como prisioneiro – ainda sem julgamento, sublinhe-se.

Jair Bolsonaro vive atualmente na situação em que Assange vivia antes do asilo na embaixada. Em outras terras, com todas as acusações que lhe pesam sobre a cabeça, o capitão já estaria encarcerado à espera de julgamento. Nossa justiça é menos rigorosa que outras, razão pela qual ele ainda está solto.

Solto, sim, mas não mais senhor de seus movimentos. Está sem passaporte, com restrições de deslocamento e… monitorado (esta parte não se põe por escrito). Discretamente, a PF há de estar a par de seus menores deslocamentos. Sabem onde está, a que horas chegou, a que horas saiu, o que veio fazer, onde dormiu, com quem se comunicou, essas minúcias.

Eis por que é errado dizer que Bolsonaro está livre. Livre de verdade, como qualquer um de nós, ele não está. Você e eu, se tivermos amanhã vontade (e condições econômicas) de viajar para Israel, marcamos a passagem e vamos. Já o capitão não pode. Aliás, ele pediu estes dias a Alexandre de Morais licença para embarcar para Tel Aviv. A autorização pode até ser que venha; por enquanto, não veio.

Na verdade, Bolsonaro está num limbo entre cidadão livre e prisioneiro. O andamento dos processos que lhe pesam sobre os ombros é que decidirá de que lado ele vai cair: do lado do cidadão livre ou do outro.

Se o ex-presidente tentar de novo e obtiver asilo numa embaixada (como já tentou em fevereiro), vai pular da panela pro fogo. Vai seguir o exemplo de Julian Assange. Periga passar um bom tempo lá dentro, vivendo num cubículo, comendo quentinha ou miojo, sem ver a luz do sol, à espera de que a situação se decante. Isso pode durar meses, anos.

À porta da embaixada estará sempre estacionado um carro descaracterizado com uma duplinha de federais. Deixar a embaixada num porta-malas? Nem pensar! Se o embaixador permitisse isso, perderia o emprego e era capaz de terminar na cadeia. Além de abrir uma grave crise diplomática entre seu país e o Brasil. Não, o capitão não sairia de lá.

Portanto, Seu Jair, asilo em embaixada, melhor esquecer. Vosmicê devia ter aproveitado o turismo que fez em Orlando para negociar asilo em algum país, não na embaixada, no país mesmo. Não fez? Bobeou, dormiu no ponto.

Na situação atual, o que lhe resta é esperar tranquilo, enfrentar os processos. Em caso de encarceração, ninguém vai mandá-lo para o Complexo de Gericinó, no meio de seus amigos milicianos. Vosmicê vai ocupar uma suite confortável na Papuda, com direito a lâmpada solar e esteira. Vai ficar alguns anos, mas certamente menos do que teria de ficar no quartinho da embaixada.

Tranquilo, pois! Tome um chá de camomila e aguente firme. Vale a pena.

Observação
Na ilustração, pus uma embaixada de Cuba de propósito. Não é gozação. É porque acredito que, caso se asilasse em Cuba, Bolsonaro teria recepção e tratamento de primeiríssima. Imagine o orgulho dos bondosos dirigentes da ilha, de poder mostrar ao mundo que, entre quase 200 países e territórios, o capitão escolheu o país deles!

O espanhol se aprende facilmente em Havana, cidade de garotas estupendas, onde, para um homem de olhos azuis e 1m85, em cada esquina “pinta um clima”.

O “lapsus linguæ” do Lula

José Horta Manzano

Como todos os meus cultos leitores sabem, a expressão latina lapsus linguæ, que, ao pé da letra quer dizer “escorregão da língua”, é usada para indicar o ato de tropeçar na língua, dizer uma coisa por outra. O próprio Houaiss informa que, por influência das ciências psicanalíticas, um lapsus linguæ costuma ser interpretado como a expressão de “pensamentos reprimidos”.

Ontem, no abafamento úmido da selva amazônica, Lula recebia um Macron meio pálido, mangas arregaçadas, rosto transpirado e ar cansado. Via-se que o visitante não está habituado aos trinta e tantos graus de calor.

Os dois personagens principais tocavam conversa amena, sentados formando uma roda com numerosos participantes, entre ministros e índios paramentados.

Era a vez de Lula, personagem que nunca rejeita um microfonezinho. De repente, ele olha para Macron e lança, em seu dialeto costumeiro: “Eu e o Sarkozy vamo viajá po Rio de Janeiro inda agora à noite”.

Passado um instante de estupor, a pequena assembleia se tumultua. Vozes se elevam para apontar o erro. Lula logo conserta: “Eu e o Macron…” E a fala continua. (Trechinho de 20 segundos disponível no youtube.)

O erro não passa de um errinho sem consequências. Volta e meia, um dirigente troca o nome de um par. Talvez Macron nem tenha se dado conta, dependendo da pirueta dada pelo intérprete.

O que me ficou foi mais uma demonstração de que o Lula versão 3.0 não passa de um Lula 1.0 recauchutado por fora, mas com o miolo (=cerne) intocado. É verdade que Lula se encontrou com Sarkozy em numerosas ocasiões, mas esse fato, sozinho, não seria suficiente pra fazê-lo trocar o nome do atual presidente da França.

Muita gente reclama dos erros de governança cometidos por Luiz Inácio, que tenta aplicar hoje soluções que já não deram certo ontem. A verdade é que nosso presidente não se desgrudou de seus primeiros tempos na Presidência. Pelo jeito, não se desprenderá nunca.

Será que ele chegaria a chamar seu amigo Maduro de Chávez?

Cagão

José Horta Manzano


Disclaimer
Este texto apenas enumera hipóteses elaboradas pelo autor. Ainda não são (e talvez nunca se tornem) verdade atestada.


Peço desculpas ao distinto leitor e à graciosa leitora pelo título deste escrito. Por estas bandas, não costumamos nos alimentar de pratos escatológicos, mas a situação é especial. No entourage do capitão, palavras como essa do título são como arroz e feijão: são servidas em todas as refeições.

Mas o fato do dia é que… o imbroxável broxou de vez. Se homiziou na embaixada da Hungria em Brasília e lá passou dois dias. Não sei quanto está cobrando a embaixada pelo pernoite com pensão completa. Se o preço for abordável, vou bater-lhes à porta dia desses.

Quem liberou as imagens?

Achei estranho, em todos os papéis que li, não ter visto ninguém querendo saber quem liberou os vídeos e como eles foram parar na mídia mundial. Pois a resolução do mistério reside exatamente nesse ponto: quem liberou as imagens?

Se alguém quiser causar a maior repercussão planetária utilizando um só veículo da mídia, não há dúvida – o caminho é um só: The New York Times, de longe o jornal mais importante do mundo.

Pensei: como é que os vídeos chegaram lá? Tentei imaginar um repórter do NYT escalando o muro da embaixada da Hungria no escurinho da madrugada, em seguida arrombando a porta da entrada e aspirando, com um pen drive (chave USB), o arquivo de vídeos de segurança. Coisa de filme de espionagem, inimaginável na vida real. Mas se ninguém roubou, quem passou as imagens para o NYT?

Ora, se as imagens não foram surrupiadas, só podem ter sido entregues ao jornal pela própria embaixada, não vejo outra possibilidade. E por que razão terão feito isso?

Vamos começar do começo. Quando a justiça retirou o passaporte de Bolsonaro, o pavor de uma prisão iminente deve ter se instalado no entorno dele. Conselho de crise foi instalado e ideias foram brotando, umas mais estrambóticas que as outras: deixar o país dentro de um porta-malas, encomendar a um meliante mais jeitoso que confeccionasse passaporte falso, fretar jatinho privado capaz de percorrer longas distâncias.

A intenção era de escapar à cadeia. Mas cada ideia tinha seus inconvenientes. Deixar o país num porta-malas e, no dia seguinte, como fazer sem passaporte? Encomendar passaporte falso que responda a todos os requisitos tecnológicos? Impossível, seria parado no primeiro guichê de imigração. Viajar num jatinho privado? Seria como viajar no porta-malas. No dia seguinte, sem documento, como é que fica?

Depois de uns dias espremendo as meninges, um dos pequenos gênios que cercam o capitão veio com a ideia de pedir refúgio a uma embaixada estrangeira. Se aceitassem, ele estaria protegido, visto o estatuto de extraterritorialidade das representações diplomáticas: nenhuma polícia poderia alcançá-lo ali. Se não aceitassem dar-lhe refúgio, ficariam elas por elas, tudo discreto, episódio não visto e não sabido. A ninguém ocorreu levar em consideração o risco de a própria embaixada botar a boca no trombone.

Sim, senhores, porque foi exatamente o que ocorreu. Vamos ver como.

A embaixada deve ter sido avisada da chegada iminente de Bolsonaro, ex-presidente do Brasil. Sabiam que ele tinha um assunto urgente a tratar com o embaixador. Visita de ex-presidente não se pode recusar. O visitante chegou, entrevistou-se com o embaixador, pediu asilo diplomático. Naturalmente, nenhuma resposta lhe pôde ser dada na hora. O profissional ficou de consultar Budapest.

Era noite, e o capitão assustado pediu licença para se recolher na embaixada. Foi alojado na ala de visitantes.

Dia seguinte, ficou sabendo que nenhuma resposta tinha vindo de Budapest. O jeito era esperar, que essas coisas são complicadas e demoradas. Fico imaginando o apuro do governo húngaro, atarantado, sem saber o que fazer. Bolsonaro é um sujeito pestilento – ou tóxico, como se diz hoje em dia. É daquelas visitas fortemente incômodas, que merecem vassoura atrás da porta, de cabeça pra baixo. Não sei se, nas tradições magiares, essa simpatia também funciona.

Pousou mais uma noite nos locais, sempre na incerteza da concessão do asilo. Os vídeos publicados pelo NYT não deixam claro, mas imagino que o ex não tenha sido deixado à míngua. Pensão completa deve ter sido servida. Talvez em quentinhas, que é sempre melhor “jair se acostumando”.

No terceiro dia, não dava mais pra segurar. Deram a Bolsonaro a notícia chata: nada de refúgio, capitão, que Budapeste não está de acordo. Se você ainda não assistiu aos vídeos, preste atenção no finalzinho, quando nosso ex deixa a embaixada. Provavelmente estava sendo gentilmente acompanhado até a porta. Sai apressado, enfezado, sem olhar para os lados, não cumprimenta ninguém, encafua-se no carro e zarpa. Se aquilo não é sintoma de que seu objetivo foi pro espaço…

Isso tudo ainda não explica por que razão os vídeos saíram no NYT.

Já venho. Os serviços de segurança da Hungria são herdeiros do duro sistema soviético. Faz tempo que recobraram a independência, mas há coisas que marcam um país por décadas. Entendem que Bolsonaro, embora pareça viver livre e solto na natureza, está sendo discretamente seguido pela nossa PF. Compreenderam que a Federal estava a par da longa visita à embaixada da Hungria e devia estar com a pulga atrás da orelha.

Antes de cair na desconfiança da polícia brasileira, os diplomatas, certamente instruídos por Budapest, fizeram chegar os vídeos de segurança ao New York Times. É até possível que o jornal tenha se comprometido a não divulgar a verdadeira fonte, talvez inventem o nome de um intermediário qualquer.

Agora, publicados os vídeos, a embaixada da Hungria lava as mãos. Por certo não dirão mais nada. Vão deixar que cada um faça sua própria ideia sobre a razão da visita de Bolsonaro.

Pronto, gente boa, o círculo está fechado. Podem se dispersar, o espetáculo acabou.

Para Bolsonaro ficou a lição. “Países não têm amigos, têm interesses”. Enquanto ele era presidente do Brasil, representava um certo interesse para a Hungria. Agora, derrotado e na mira da Polícia Federal, virou um lixo que ninguém quer ver por perto.

Dicas de Português

Ortografia 4José Horta Manzano

1. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja autoincensação decorre justamente do parco conhecimento linguístico de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações antipáticas altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

5. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai-se tornar palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer que a palavra repetida desqualifique o texto onde tal palavra for com insistência repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “Quem cita terceiros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: “Mesóclises: evitá-las-ei!”

23. De regra importante esquecer não nunca: crucial a das palavras é ordem!

24. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

25. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!! Acaba parecendo um tuíte!!!

26. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

27. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

28. Seja incisivo e coerente. Ou não.

29. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade. Com certeza, você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em abandonar esta maneira irritante de estar falando.

30. Venha cá, meu rei! Outra barbaridade que deves evitar, tchê, é usar expressões que denunciem a região de onde vens, ô meu! Uai…esquece esse trem! Vixi… entendeu, bichinho?

31. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Educação

José Horta Manzano

No verbete ‘Educação’, o Dicionário Houaiss é claro. Garante que:


“Educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano.”


Ministro da Educação é o profissional que vela pela aplicação e pelo bom cumprimento das diretivas mestras relativas à Instrução Pública nacional. Como sabemos, nosso ensino é laico, obrigatório e gratuito.

Diretivas elaboradas num ambiente como o Estadão descreve, sem música mas com acompanhamento de gritos e socos na mesa não podem dar bons frutos. Para começar, de onde saiu essa gente que, para se entender, recorre a gritos e a socos na mesa? Serão trogloditas que o capitão esqueceu de levar na bagagem?

O presidente da República (e seus assessores) têm absoluta necessidade de dar maior atenção à escolha dos que cuidam da Educação nacional. É um terreno por demais importante para ser largado nas mãos de gente que, contrariada numa reunião de trabalho, arregaça as mangas e chama pra briga.

Indivíduos que só conseguem se entender no grito e na pancada não servem para estruturar a Instrução Pública. Seja qual for o motivo do barraco, teriam de ser demitidos imediatamente.

“Dor de cabeça” ou “problemas familiares” não servem como desculpa para a violência no trato profissional.

Parabéns, chefe!

José Horta Manzano

Fica cada dia mais claro que tanto Lula quanto o PT estacionaram na era soviética, uma época em que, por falta de internet, a comunicação circulava de forma lenta e muito mais restrita que hoje.

Putin venceu uma pseudoeleição, uma votação de cartas marcadas, com os adversários mais fortes fora do páreo: afogados na própria banheira, tombados do terraço do apartamento ou simplesmente encarcerados nalguma masmorra perto do Polo Norte.

Apenas conhecido o resultado, o PT se apressou a parabenizar o presidente russo reeleito. Usou expressões elogiosas como “resultado expressivo”, “participação popular impressionante”, “momento importante e especial para o país”. Faz sentido. O partido, que ainda não se deu conta da queda do Muro de Berlim, continua afagando o Kremlin, como se lá ainda reinasse Josef Stalin, o “pai dos pobres” (o original).

Lula, como sabemos, não resiste a uma ocasião de dar uma boa escorregada. Viu a casca de banana e correu antes da passagem do gari. Mandou escrever uma carta de congratulações ao companheiro Putin em nome do povo brasileiro.

Com essa atitude, fez companhia aos dirigentes de Venezuela, Cuba, Nicarágua, China e mais alguns ao redor do planeta. Os líderes de países democráticos, por seu lado, manifestaram pesar e preocupação por uma eleição classificada como “farsa eleitoral”.

Francamente, este Lula versão 2022 é o mesmo que o de 2002, só que descomplexado. Nos dois primeiros mandatos, Luiz Inácio se segurou, tentou enfiar o terno presidencial e, bem ou mal, deixou de herança para o mundo uma imagem simpática de político pacífico e de pai dos pobres.

É que, nos dois primeiros mandatos, um Lula mais jovem tinha conseguido se conter e, a seu modo, se apropriar do estilo que se espera de um presidente. Depois disso, houve a humilhação da prisão e as trevas da era bolsonárica. Lula voltou à corrida eleitoral sabendo que este seria seu derradeiro período na Presidência, quer dure um mandato ou dois.

Assim sendo, parece ter se soltado de vez. O que vimos antes foi um Luiz Inácio tentando ser Mister Da Silva. Hoje ele se contenta de ser apenas Lula.

O indiciamento do capitão visto de fora

José Horta Manzano

Desgraça (ou júbilo, dependendo do ponto de vista) costuma dar a volta ao mundo num segundo. Nem Júlio Verne, em seus eflúvios fantasistas, ousaria imaginar que uma notícia pudesse circular a tal velocidade.

Bastou nossa PF soltar uma nota sobre o pedido de indiciamento de Bolsonaro, que de Buenos Aires a Berlim, de Washington a Moscou, a notícia já estava nos portais por aí afora.

A nota da polícia brasileira não era acompanhada por foto, dando assim liberdade a cada redação para a escolha da imagem. A maioria optou por inserir uma foto do próprio Bolsonaro.

Três das redações postaram uma imagem cômica de Bolsonaro de máscara antiviral. Quanto à expressão facial do capitão, nenhum dos portais foi “bonzinho” na escolha – os instantâneos são todos infelizes.

Ou, quem sabe, ainda está por vir um fotógrafo capaz de colher imagem “feliz” do ex-presidente. O trabalho é complicado e as inscrições para a façanha continuam abertas.

 

Brasil: Polícia acusa Bolsonaro de fraude em registros de vacinas contra a covid

 

 

Brasil, Bolsonaro é indiciado pela polícia por certificados falsos de covid

 

 

No Brasil, Jair Bolsonaro acusado de falsificar certificados de vacinação contra a covid

 

 

Jair Bolsonaro é indiciado por falsificar passaportes de vacinação

 

 

Polícia brasileira pede que Bolsonaro seja indiciado por falsificar sua carteira de vacinação

 

 

Bolsonaro é acusado de falsificar certificados de vacina

 

 

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Aperta o cerco a Bolsonaro: ele é acusado de “falsificar” registros de vacinação

 

 

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