Ex-primeira-dama

José Horta Manzano

Li hoje um artigo que me pôs a par das últimas peripécias de Michelle Bolsonaro. O nome dela dispensa apresentações mas, se alguém devesse não a conhecer, é a esposa de nosso ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fiquei sabendo que, longe de se resignar ao papel de rainha do lar, como convém a toda esposa de marido “conservador nos costumes”, dona Michelle desenvolve atividades múltiplas. A ex-primeira-dama vende sapatos, uma função diferenciada, como se costuma dizer hoje em dia.

Nos tempos de antigamente, vendedor de sapatos tinha de se ajoelhar diante de cada cliente e quase cheirar-lhe os pés, postura humilhante que não combina com a imagem que a Senhora Bolsonaro deseja projetar. Imagino que ela fique atrás do caixa, deixando que se ajoelhem os outros.

Além desse trabalho árduo, Madame está matriculada na Universidade Estácio de Sá, setor de Letras, modalidade EaD. Aprendi que a sigla EaD indica opção pelo ensino a distância. A informação que tenho é de que ela costuma estudar na própria sede do PL. Com certeza, ao estudar no partido, está buscando economizar o valor da assinatura a um provedor de sinal de internet; dessa forma, não paga internet nem energia.

Acho que é digna de aplauso toda iniciativa, seja de quem for, que tenha o objetivo de aprender e aumentar a própria bagagem de conhecimento. Que felicidade se todos os brasileiros seguissem os passos da antiga primeira-dama. A nação daria um salto adiante. (Não falo dos sapatos, mas dos estudos.)

Dizem que o sonho de dona Michelle é tornar-se senadora da República. Seria uma ascensão vertiginosa para quem jamais exerceu mandato nem função pública. E que, além disso, ainda frequenta os bancos da escola.

Ambição é bom mas, quando é demais, deslumbra o dono. E o dono periga tropeçar no próprio deslumbramento.

Lunático

José Horta Manzano

Para falar de um homem pouco confiável, daqueles que mudam de ideia a toda hora, antigamente se dizia que era lunático. Em mediquês moderno, deve haver uma ou várias traduções. Não vou me aventurar por esse caminho, que é vespeiro, e não sou do ramo.

Continuo achando que lunático é uma boa expressão. Ampla, não ofensiva, tem a vantagem de abarcar muitas patologias, desde a leve cabeça de vento até formas mais graves de mentes que ziguezagueiam.

Lunático é expressão criada em analogia à Lua. De fato, de todos os corpos celestes, é aquele que dá a volta à Terra em tempo mais curto. Além disso, muda rapidamente de aspecto. Você dá uma cochilada, e a Lua já aparece com outro aspecto.

Temos um presidente que, embora continue, no fundo da alma, agarrado firme à vanguarda do atraso, hesita muito nas ações do dia a dia, oscila pra lá e pra cá, vacila entre a visão real e técnica do que deve ser feito e a expectativa de seus eleitores, que esperam dele o conforto de uma boa palavra.

Faz meses que espanca diariamente o presidente do Banco Central acusando-o de ser o responsável pelo mau desempenho das finanças da nação. De repente, certamente orientado por assessores, Luiz Inácio mudou de ideia. De uma hora para a outra, deixou de criticar o dirigente do BC.

Fica a impressão de os assessores terem alertado o presidente para uma realidade: de tanto criticar publicamente o chefe de um banco, forma-se a ideia de que o presidente é fraco, que não pode tudo, que é tutelado por forças superiores à sua vontade. Um perigo para sua popularidade!

Eis senão quando, uma pesquisa Genial/Quaest detecta que as críticas de Lula à política do BC são aprovadas por 66% dos brasileiros. De cada 3 brasileiros, 2 acreditam na conversa fiada de Luiz Inácio, pela qual os juros estão elevados só porque o presidente do BC é “um homem malvado que quer prejudicar os pobres”. Como todos sabem, Lula é homem sensível a críticas e a pesquisas. Esta da Genial/Quaest não há de deixá-lo indiferente.

A situação agora se complicou. Se Lula quebrar seu voto de silêncio e voltar a martelar o chefe do BC, vai apenas gritar no deserto sem obter o que exige. Vai acabar reforçando a ideia de ser um presidente fraco, sem o poder de baixar os juros que prejudicam os pobres. Se, no entanto, guardar silêncio e não mais criticar o desafeto, vai acabar desagradando aqueles 66% de brasileiros que aprovavam suas críticas.

Agora a sinuca é de bico. Vamos ver como ele sai dessa.

Conservadorismo

Fabiano Lana (*)

O termo “conservador” muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo de gente de extrema direita ou reacionária – o que é um erro. Conservadorismo tem a ver com prudência, respeito às instituições, reformismo, ao invés de revoluções ou atos radicais. Mas, num mundo em que conservadores de fato perderam relevância, o rótulo foi tomado de assalto por certos bandoleiros ideológicos que se orgulham de seus arroubos irrefletidos.

(*) Fabiano Lana é filósofo e analista político.
Trecho de artigo publicado no Estadão, 9 jul° 2024

Assembleia Francesa: convivência forçada

Nouveau Front populaire = Bloco de esquerda
Majorité présidentielle = Partido macronista
RN et alliés = Agrupamento Nacional (extrema direita)

José Horta Manzano

As eleições passaram mas o caldeirão continua fervendo na França. Por causa das surpresas que só o sistema eleitoral desse país permite, o resultado deixou a todos boquiabertos. Todos, sem exceção, foi espanto total. Até diretores de institutos de pesquisa sentiram o baque.

Até sexta-feira passada, último dia de campanha, o jovem Bardella, presidente do Agrupamento Nacional (extrema direita), já ensaiava o discurso de futuro primeiro-ministro. Imagino até que já tivesse encomendado o terno para a tomada de posse, tão convencido estava de chegar lá rapidinho. Também, os institutos de pesquisa lhe davam corda: todos indicavam que ele e seu partido atingiriam fácil fácil a marca dos 249 deputados, contingente suficiente para garantir-lhe maioria absoluta na Assemblée.

No entanto, particularidades do sistema eleitoral francês permitem, com certo malabarismo, o erguimento de um cordão sanitário em torno de um partido que não se quer que vença. É, até certo ponto, um desvio de finalidade: induz-se o eleitor a votar contra o partido indesejado em vez de votar a favor do partido preferido. No Brasil, as duas últimas eleições presidenciais já nos tornaram peritos nessa forma de desvirtuar o voto.

O fato é que, quando a boca de urna foi anunciada, o espanto foi geral. Em vez de partido dominante, o Agrupamento Nacional ficou em terceiro lugar. Não foi nenhuma débâcle mas, para quem visava o topo do pódio, foi uma lavada. Com água fria.

Esse foi o tipo de eleição em que ninguém ganhou. Por mais que os barulhentos eleitores da esquerda batam três vezes no peito, subam em monumentos, pichem edifícios públicos e clamem vitória, não ganharam. Ganhar, quando se elegem os deputados, é conseguir metade dos assentos mais um. Ficaram longe disso.

A mesma coisa se pode dizer dos centristas (macronistas) e dos Le Pen (extrema direita). Nenhum deles ganhou. Dos 577 assentos da Assembleia Nacional, o bloco de esquerda ficou com 180 e a “macronia” garantiu 163. Para os ultradireitistas, sobraram 143 assentos. O restante se distribui, picado miudinho, entre a direita moderada e os partidos menores. Como se vê,estão todos bem distante da marca dos 50% do parlamento (289 assentos).

Que vai acontecer agora? No momento em que escrevo, ninguém é capaz de dizer com certeza. O presidente Macron não aceitou a demissão do atual primeiro-ministro. Ao contrário, solicitou-lhe que segure as rédeas por enquanto, despachando as miudezas do expediente até que os parlamentares mostrem ter entrado em alguma espécie de acordo.

De fato, do jeito que está, sem um grupo majoritário, o país fica ingovernável. No Brasil, estamos hiperacostumados a isso. Nosso sistema, por falta de um ou dois partidos dominantes, sobrevive à custa de coalizões. Por um lado, é uma saída para destravar o parlamento; por outro, o risco é que os deputados se sintam suficientemente fortes a ponto de cobrar “pedágios” do governo – por meio de emendas, por exemplo. A longo prazo, isso pode custar caro à nação.

Bem, eles, que são eurodescendentes, que se entendam. A Constituição Francesa impõe prazo mínimo de um ano entre duas dissoluções da Assembleia. Portanto, por um ano, a Casa não será dissolvida e a composição vai ficar como está. Não há outra saída: eles vão ter de se entender e formar uma coalizão para formar maioria estável.

É a melhor maneira de evitar chantagem parlamentar à brasileira.

Quem paga a conta?

José Horta Manzano

Houve uma era – e não faz tanto tempo assim – em que praticamente todo pagamento se fazia em dinheiro (à vista, como se dizia; cash, como se diz hoje). Outros meios, como tranferência bancária, só eram utilizados em raras ocasiões, quando da compra de um imóvel, por exemplo. Por falta de precisão, o cidadão comum nem costumava ter conta bancária.

A popularização do cheque, lá pelos anos 1970, veio perturbar o hábito de catar moedinhas no fundo do bolso ou da carteira na hora de pagar. Em pouco tempo, o novo meio de pagamento parecia que ia aposentar o dinheiro em espécies.

Não demorou muitos anos, quem surgiu, com ares de conquistador, foi o cartão de crédito. Começou como artigo raro, que conferia a seu detentor uma sensação de superioridade sobre a massa dos não titulares de cartão. Mas a rede bancária facilitou a abertura de contas, o que provocou a distribuição de cartões de crédito a granel. Com isso, o novo meio de pagamento se espalhou rapidamente. Não aposentou o dinheiro cash, mas contribuiu para o desaparecimento do cheque.

Com o cartão, os humanos imaginaram ter chegado ao ápice da modernidade, ao meio de pagamento por excelência, definitivo, insuperável. Grande engano. Tudo passa, tudo evolui, tudo se aperfeiçoa.

Eis que, uns trinta anos atrás, uma tal de internet começou a se popularizar. No princípio, eu me perguntei (e acredito que tenha havido outros no meu caso) para que diabo servia aquela rede. Quando me explicaram, ainda continuei meio desconfiado, tentando encontrar a utilidade que me escapava.

O tempo passou, internet evoluiu e nos trouxe o telefone celular. Os primeiros modelos só falavam, e já era uma façanha: no meio da rua, sem fio, sem bercinho! A sequência, todo o mundo conhece. O celular tornou-se inescapável. É capaz de fazer tanta coisa, que fica mais fácil perguntar o que é que ele não faz.

À medida que vai passando o tempo, o telefone celular vai cada vez mais sendo usado como meio de pagamento. É tão simples! Um movimento de braço, dois toques de dedo e pronto! A operação dispensa contacto físico, o que não deixa de ser importante nestes tempos em que epidemias correm umas atrás das outras.

Especialistas das universidades de Melbourne e Adelaide, na Austrália, se reuniram numa análise da incessante evolução dos meios de pagamento nestes últimos 50 anos. Conclusões preliminares indicam que, com os meios modernos (pagamento com telefone e pagamento com cartão sem contacto), os utilizadores tendem a gastar mais do que antes. Não é uma diferença enorme, mas “significativa”, segundo os pesquisadores responsáveis.

Essa diferença se deve a compras de impulso de artigos de luxo como roupas, joias e bijuteria. Essa tendência já havia sido notada em estudos anteriores, mas jamais com a nitidez atual. Conclui-se que o meio de pagamento tem mais influência do que se imagina no montante que o consumidor está disposto a gastar.

Não é difícil compreender que, quando a gente pagava com notas e moedas, a sensação de estar gastando era quase física. Aliás, dizia-se que “doeu no bolso”. Já hoje, quando se paga com um clique, temos a momentânea (e enganosa) impressão de que um anjo escorregou de uma nuvem e tomou a si a obrigação de pagar. Antes fosse! É puro e alegre engano.

Dieta crudívera

José Horta Manzano

Era de madrugada, o estagiário estava com sono, leu mal, não entendeu o que leu, escreveu o que lhe pareceu.

Dieta crudívera? Que será? Com tanta receita miraculosa pra emagrecer, pra engordar, pra desenrugar, pra tirar pelanca, pra parar de envelhecer, essa aí deve ser mais uma. O problema é que, às 4 da matina, ainda mais com sono, não é hora de pesquisar. Vamos de “dieta crudívera” mesmo.

Só que não. Um dia, no futuro, quem sabe, ainda vão inventar. Por enquanto, o que temos é a dieta crudívora, com o de olho vivo.

Como lembrar? É fácil. A família toda leva um o:

Devorar
Voraz
Vórtex
Voragem
Herbívoro
Carnívoro
Insectívoro
Frutívoro

E, naturalmente, nossa dieta crudívora. Quem a segue só ingere alimentos crus.

A França e a extrema direita

Jordan Bardella
possível futuro primeiro-ministro da França

José Horta Manzano

Na Europa, enquanto a extrema direita obtinha sucesso em países pequenos e periféricos, o fenômeno não passava de pequeno incômodo aos olhos dos demais parceiros. Que Hungria ou Eslovênia tivessem um primeiro-ministro extremista, com ideias trancadas e obscurantistas, era realmente um problema menor. A força conjunta dos demais países era suficiente para dar-lhes um “cala a boca” na hora dos votos cruciais para o bom andamento da União Europeia.

Quando a epidemia extremista se estendeu à Itália, a Europa levou um susto e prendeu a respiração. Afinal, estamos agora falando de um membro importante, assinante do Tratado de Roma (1957), que serviu de base para a atual União. No entanto, depois de alguns meses no poder, Giorgia Meloni começou a dar sinais de um certo distanciamento da doutrina rígida de suas origens neofascistas. Não ordenou a expulsão de imigrantes nem renegou a ajuda à Ucrânia invadida, que eram os dois pontos que mais assustavam os governos parceiros.

Ontem à noite, domingo 30 de junho, o mundo ficou sabendo que, após o 1° turno das eleições legislativas, é a França que se encontra à beira de ter um primeiro-ministro e um governo de extrema direita. Desta vez, o susto é maior. Além de também ser membro fundador da União, a França é considerada, junto com a Alemanha, o motor da Europa. Potência econômica, diplomática, militar e nuclear, a França é incontornável entre seus vizinhos. A perspectiva de que o país tenha um governo extremista inquieta a todos.

No original, o partido de direita extrema de Madame Marine Le Pen se chama Rassemblement National. Não há tradução oficial em nossa língua. Para o termo “rassemblement”, tenho visto diversas versões na mídia: reunião, ajuntamento e reagrupamento são as mais frequentes. Quanto a mim, prefiro Agrupamento Nacional – é simples e diz o que tem de ser dito.

O miolo do pensamento dos extremistas de direita é sempre o mesmo: estão à cata do super-homem que venha salvar o povo e conduzi-lo a um futuro radioso. O inimigo varia conforme a época. Até a Segunda Guerra, o judeu preenchia essa pouco invejável condição de ser o culpado pela desgraça do país. Logo, a solução parecia simples: eliminando os judeus, os problemas nacionais desapareceriam.

Hoje, os extremistas de direita continuam tão antissemitas quanto sempre foram, só que já não é permitido exprimir essa tendência em público. Na Europa, em especial na França, o imigrante tomou o lugar do judeu. Trabalhadores originários do norte da África e da África Negra passaram a ser considerados culpados por todos os males da França.

Além de salvacionistas e racistas, os extremistas de direita são também isolacionistas. Está em seu programa político a retirada da França da União Europeia, o fechamento das fronteiras, o abandono do euro e a volta ao franco francês, a diminuição drástica das importações e o fechamento do país ao mundo.

Os franceses, ao votarem nos candidatos desse partido, parecem ter ficado loucos. Será que todos querem mesmo assistir ao isolamento do país, à expulsão de estrangeiros e a volta do velho franco francês?

Não é bem assim. Racistas, todos são. Ou quase todos, como em qualquer parte do mundo, ainda que ninguém admita que é. Mas não é o racismo que move a maioria do eleitorado do Agrupamento Nacional. Os franceses estão descontentes – com bastante razão – com seu salário. Considerando que o custo de vida no país é elevado, a remuneração do assalariado médio é baixa. Muitos cidadãos têm dificuldade em fazer o dinheiro render até o fim do mês. Frequentemente têm de fazer escolhas, porque o dinheiro não dá pra tudo. E essa situação, que perdura há décadas, vai chegando ao ponto de ebulição.

O voto extremista, portanto, tem pouco a ver com o ideário dos seguidores de Marine Le Pen, e muito mais com a esperança de uma melhora do poder aquisitivo.

Para a família Le Pen, foi um achado encontrar Jordan Bardella, que teve ascensão fulgurante e é hoje presidente do partido. Filho e neto de imigrantes italianos, o rapaz é bastante jovem (28 anos), bem apessoado, com pinta de galã de cinema. Discreto, sabe falar, e sabe evitar o palavrório agressivo e desdenhoso de Madame. Apesar de suas origens modestas, sabe comportar-se como cria de boa família.

Filho de pais divorciados, cresceu na periferia de Paris, com a mãe, num bairro pobre, em meio a pequenos traficantes. Duas vezes por semana, tinha direito a passar com o pai, num bairro chique nas proximidades de Paris. O pai, em melhores condições financeiras que a mãe, presenteou o filho com carro novo (para seus 18 anos) e viagens a Miami. (Bardella não costuma se espichar nesses detalhes.) Acredito que a boa-pinta do rapaz seja responsável por boa parte do sucesso eleitoral do partido.

O modo de eleger deputados na França é bastante complexo. O voto é distrital. O país é dividido em 577 distritos, que correspondem às 577 cadeiras de deputado na Assembleia Nacional. Cada distrito manda um só deputado a Paris. A eleição se faz em dois turnos. Elege-se quem tiver 50% dos votos já no 1° turno em cada distrito. Se não, os dois ou três mais bem colocados voltam para um segundo turno. Aí, será eleito aquele que tiver mais votos.

Entre o primeiro e o segundo turno, pode haver desistências, que ocorrem quando se quer evitar que tal partido ganhe. É difícil explicar aqui em poucas linhas, mas acredite: o sistema dá dor de cabeça nos pesquisadores.

Não é garantido, mas é possível que, daqui a oito dias, Monsieur Jordan Bardella se torne primeiro-ministro da França.

Mas ninguém deve pensar que, da noite pro dia, os franceses se tornaram todos extremistas de direita. Não é bem assim.

Em primeiro lugar, a ascensão do Agrupamento Nacional não começou semana passada. Faz 40 anos que o partido vem crescendo paulatinamente.

Em segundo lugar, se 33% dos franceses votaram nesse partido, há que lembrar que 66% não votaram nele. Portanto, de cada 3 eleitores, 1 deu seu voto à família Le Pen, mas 2 preferiram outros caminhos.

A extrema direita ainda está longe de ocupar, sozinha, o variado cenário político francês.

Parceiro duvidoso

by Caio Gomez (1984-), ilustrador brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 junho 2024

O R do Brics é a Rússia. No acrônimo, ela aparece coladinha ao Brasil. Na vida real, a distância física, histórica e cultural entre os dois países é imensa. Basta um exemplo: o povo russo jamais viveu sob um regime que não fosse autoritário, enquanto os brasileiros já conheceram largos períodos democráticos, inclusive o atual. Os russos vivem atualmente um momento apertado, com o fechamento da porta que dava para o Ocidente. Mesmo com os combates na Ucrânia ainda longe das grandes cidades russas, a vida já não é como antes.

Dirigentes de numerosos países já cometeram erros fundamentais que mudaram os rumos da nação. Se arrependimento matasse… cemitérios estariam lotados – é o que se costuma dizer. Mas há erros que deixam mais remorso que outros.

Os dirigentes do Japão que participaram da decisão de atacar a frota marítima americana na Pearl Harbour de 1941 hão de ter se arrependido amargamente de ter elaborado o plano que acabou por desgraçar o Império do Sol Levante.

Nosso Jânio Quadros é outro que, depois de renunciar ao mandato de presidente do Brasil, certo de que o povo o traria de volta “carregado nos ombros”, há de ter chorado lágrimas de aflição em seu autoexílio londrino. Além de perder o mandato, abriu as portas para um regime de exceção, que castigaria o país por mais de 20 anos, na sequência do golpe de 1964.

Talvez o exemplo mais eloquente de “post errorem desperandum” (desespero depois do erro) seja a monumental derrapada que Vladímir Pútin deu ao mandar suas tropas invadirem a Ucrânia em 2022. O fiasco foi tão grande que ele só continuou no comando da ditadura russa até hoje por obra e graça do sistema mafioso que o sustenta no trono. Não fosse a máquina governamental repressiva e opressiva, e o total enquadramento do sistema judiciário, é possível que Pútin já tivesse desaparecido num “desafortunado acidente” e já tivesse deixado o trono para um sucessor.

Estes dias, os discretos serviços secretos britânicos publicaram uma estimativa das perdas sofridas pela Rússia na guerra atual. Meio milhão de humanos (incluindo militares e civis) teriam sido mortos ou feridos! O morticínio continua a um ritmo superior a 1.200 pessoas por dia. Quanto às perdas materiais, teriam sido destruídos: 10 mil blindados, 3 mil tanques de guerra (número que representa quinze vezes o número total de tanques do exército francês!), 109 aviões, 136 helicópteros, 23 navios de guerra. A esses números, convém acrescentar cerca de 400 drones e mais de 1.500 peças de artilharia.

Essa impressionante quantidade de combatentes e de material perdidos em dois anos seria uma sangria insuportável para qualquer país, mesmo para os mais equipados. Para a Rússia, a situação é dramática, bem pior do que se imagina. A prolongação dos combates obrigou Moscou a reanimar sua indústria bélica. As compras de material bélico no orçamento de 2024 representam entre 30% e 40% das despesas totais do Estado russo. Para juntar essa montanha de dinheiro, cortes profundos têm de ser feitos em outras áreas, enfraquecendo o funcionamento do país como um todo.

Em momentos específicos do século passado, a economia da hoje falecida União Soviética chegou a ter certo vigor. Essa potência perdeu muito de seu antigo brilho. Na verdade, a Rússia de hoje é um país pobre. Para comparar, seu PIB corresponde aos PIBs somados de Holanda e Bélgica. Só que Bélgica e Holanda, adicionadas, têm 30 milhões de habitantes, enquanto a Rússia tem 146 milhões. Moscou tornou-se basicamente exportador de matéria prima (gás e petróleo).

Do ponto de vista militar, a Rússia, orgulhosa herdeira do laureado Exército Vermelho, perdeu esta guerra logo nos primeiros dias, ao não conseguir tomar Kiev e ser obrigada a retirar-se da Ucrânia. Naqueles dias o mundo assistiu, pasmo, à débâcle de um temido grande exército diante de tropas menos poderosas. Para a Rússia, o vexame e o desgaste de imagem foram tremendos. Hoje, para a Rússia, o exército perdeu a majestade. Para servir de espantalho, só restou o espectro do arsenal atômico que, aliás, Pútin agita dia sim, outro também.

Ao desprezar o Ocidente democrático e se jogar de cabeça no Brics, um clube de países que não combinam com o nosso, a dupla Lulamorim está fazendo mau negócio. Fosse eu, refletia duas vezes.

Todos são (quase) iguais

José Horta Manzano


“Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”


No Artigo 5°, parágrafo I de nossa Constituição está escrita, preto no branco e dentro das quatro linhas, uma das sentenças mais impactantes da Lei Maior. Ela determina claramente que todos os habitantes do território têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações.

Preste atenção à formulação “homens e mulheres”, comum na linguagem dita “inclusiva” dos dias de hoje, mas ausente do linguajar dos anos 1980, época em que o documento foi redigido. Se a expressão aparece assim formulada, é para deixar bem claro que tanto homens quanto mulheres são iguais, que gozam dos mesmos direitos e que são submetidos às mesmas obrigações.

Há mais um detalhe interessante. Repare que não está escrito “brasileiros e brasileiras”, formulação que excluiria cidadãos estrangeiros. Deduz-se que a expressão “homens e mulheres” inclui todos os habitantes do território, sejam nacionais ou estrangeiros. Mais abrangente, impossível.

No longínquo ano de 2009, o jornalista Hélio Schwartsman associou-se a dois colegas de trabalho na Folha de São Paulo e juntos abriram uma igreja. O registro foi pra lá de simples: em cinco dias, a nova denominação estava pronta para funcionar. Após pagamento da módica taxa de R$ 418,42, a Igreja Heliocêtrica do Sagrado EvangÉlio já recebeu CNPJ e já pôde abrir conta bancária e fazer aplicações financeiras isentas de IR e de IOF.

De fato, outro artigo da Constituição determina que templos de qualquer culto serão isentos de tributação. No momento em que a Lei Maior foi promulgada, essa exceção não feria a afirmação de que todos têm os mesmos direitos e obrigações. Acontece que, com o passar das décadas, nossos legisladores têm aprovado leis de constitucionalidade contestável.

Volta e meia, por razões meramente eleitoreiras, alarga-se a isenção tributária que deveria, em princípio, aplicar-se unicamente às igrejas, na qualidade de pessoas jurídicas. Quinze anos atrás, quando o jornalista criou sua “Igreja Heliocêntrica”, esse benefício já se havia estendido às pessoas físicas cujo nome aparecesse na folha de pagamento do templo. Uma festa para a família e amigos próximos do dono da igreja.

Esses funcionários estavam também isentos de cumprir Serviço Militar obrigatório, e já tinham direito a prisão dita “especial” (se é que alguma prisão possa ser “especial”).

Vamos pôr a questão em pratos limpos. O imposto representa a contribuição de cada cidadão para o funcionamento da sociedade. Diretos ou indiretos, os impostos saem do bolso de todos os integrantes da sociedade. Conceder isenção fiscal aos membros desta ou daquela corporação é um acinte, pois abala a isonomia propalada pela própria Constituição. Em princípio, nada justifica que haja exceções à regra de contribuição fiscal universal.

Eis que surge agora uma proposta de emenda constitucional (PEC) visando a ampliar a isenção tributária de denominações religiosas. A proposta é perdulária e contempla toda uma série de atividades sobre as quais o cidadão comum tem de contribuir para o bem comum, enquanto igrejas têm o direito de guardar no bolso. E a sociedade que se vire!

Se a PEC passar, deve custar às contas públicas 1 bilhão de reais de renúncia fiscal por ano (mas poderá angariar votos para a bancada da Bíblia & conexos).

Nem o governo parece impressionado com a mamata que está para ser concedida. Talvez seja porque imagina que as benesses lhe trarão votos no futuro.

Se a PEC for aprovada, seria bom mandar apagar aquela frase que pus lá em cima. Apesar da lei – ou talvez por causa dela – os habitantes deste país estão ficando cada vez menos iguais em direitos e obrigações.

Dirigentes provincianos

José Horta Manzano

“O Brasil se solidariza com a Rússia” – foram as palavras que Jair Bolsonaro, então presidente da República, dirigiu a Putin quando de sua visita ao Kremlin naquele fevereiro de 2022. O horizonte da Europa se assombreava naqueles dias, com a perspectiva da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, na guerra que estouraria uma semana depois e que dura até hoje.

“Eu espero que o Biden ganhe as eleições” – foram as palavras de Lula da Silva em fevereiro deste ano em entrevista a um canal de tevê.

Há certas coisas que um presidente não deve dizer, certos pareceres que ele não pode dar, certas opiniões que ele não precisa externar. Pelo menos em público. Em privado, em sua sala de visitas diante de amigos e longe da imprensa, está livre para dar opiniões pessoais. Assim mesmo, é sempre bom ter cuidado porque, como se sabe, amigos são amigos até o momento em que deixam de o ser.

Já em público é outra conversa. As opiniões de um chefe de Estado têm o dom de comprometer o Estado inteiro.

Bolsonaro bajulou Trump e aplaudiu Putin, mas insultou a primeira-dama francesa e ofendeu o presidente argentino.

Lula apoiou a reeleição do presidente da Argentina e aplaudiu o Partido Socialista português, mas encrencou com Milei e desdenhou o presidente da Ucrânia.

Tanto Bolsonaro quanto Lula fizeram o que não deviam. Mostrar preferência por um dirigente estrangeiro, especialmente em época de eleições, é comportamento desajeitado, leviano e perigoso.

Quando o dirigente adulado perde, como é que fica? Digamos que Biden venha a perder, o que é não é improvável, com que cara Lula vai encarar Trump?

Em vez de atiçar Luiz Inácio e incutir-lhe doses de antiamericanismo radical, o “assessor” Amorim deveria abrir os olhos do presidente para evitar esse tipo de comportamento e fugir a futuras saias justas.

Se nossos provincianos dirigentes fossem mais cuidadosos no trato internacional, enfrentariam um caminho menos pedregoso.

Preparando a paz da Ucrânia – 2a. parte

José Horta Manzano

(Este post dá sequência à primeira parte, publicada aqui abaixo)

Ao preparar a cúpula, a Suíça estava preocupada com o risco de o encontro parecer um convescote entre ricos. Logo na abertura dos trabalhos, a presença de 57 chefes de Estado, 92 Estados e 8 organizações internacionais desfez esse receio de parecer clube fechado. Países do chamado “Sul Global”, com intervenções importantes e pertinentes enriqueceram os debates.

Luiz Inácio perdeu excelente ocasião para reparar suas cruéis declarações do passado recente. Um discurso seu teria tido o dom de mostrar que, no fundo, o presidente do Brasil não não é aquele sujeito insensível que o mundo imagina, mas é um homem preocupado de verdade com a paz mundial e com o sofrimento que os conflitos causam a todos.

A fala de William Ruto, presidente do Quênia (África Oriental), poderia perfeitamente ter sido pronunciada por Lula. Ao abrir seu discurso, Mr.Ruto logo deplorou o “horrível espetáculo e a carnificina” que representa a guerra na Ucrânia lançada pela Rússia em 2022. Mas usou como exemplo os numerosos conflitos que castigam o planeta – Sudão, Chifre da África, Oriente Médio – para mostrar preocupação com a governança mundial. Falou ainda da falta de fertilizantes e da explosão dos preços que os países menos ricos têm de pagar por causa de uma guerra que não é a deles.

Luiz Inácio voltou do G7 de mãos abanando. Foi à festa dos ricos, mas nem levou presente, nem voltou com um pratinho de doces.

Algumas horas de presença sua na reunião dos que buscam a paz na Ucrânia teria sido mais útil para o mundo e mais gratificante para ele mesmo.

Da próxima vez, quem sabe.

Preparando a paz na Ucrânia – 1a. parte

Bürgenstock, Suíça: local da conferência

José Horta Manzano

Em 2023, a reunião anual do G7 teve lugar em terra japonesa. Como frequentemente acontece, Lula foi convidado a ocupar uma poltrona sobressalente. Questionado por jornalistas sobre a guerra decorrente da invasão russa à Ucrânia, Luiz Inácio deu sua lição:


“Tenho repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz. Nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo. Precisamos trabalhar para criar espaço para negociações”, afirmou.


Trabalhar para criar espaço para negociações – foram as sábias palavras de seu evangelho. Nenhum dirigente político bem-intencionado discordaria. Lula tem razão. No momento atual, com os canhões ainda troando e os tanques sulcando campos que costumavam ver brotar espigas de trigo, é complicado convocar uma conferência entre as partes com vistas ao fim das hostilidades.

A Rússia reclama para si a totalidade da Ucrânia, que considera sua propriedade. A Ucrânia, invadida de surpresa por terra, mar e ar pelo exército russo, não faz mais que se defender de forças estrangeiras que ocuparam seu território.

Paz, para a Rússia, significa rendição incondicional da Ucrânia e anexação do território ucraniano à Rússia. Paz, para a Ucrânia, significa a imediata retirada das forças russas de seu território.

Nessas circunstâncias, fica complicado colocar face a face, em volta de uma mesa, negociadores russos e ucranianos. No momento atual, a reivindicação de uma parte é inaceitável para a outra. E vice-versa.

Para se chegar a uma reunião séria e objetiva entre Rússia e Ucrânia, os países patrocinadores da paz vão ter de gastar muita conversa, usar muito poder de convicção, fazer algumas ameaças veladas nos bastidores. Não vai ser fácil nem rápido.

Para dar início a essa maratona de conversas e negociações, que perigam levar anos, a Suíça organizou uma conferência preparatória para a qual praticamente todos os países foram convidados, com duas notáveis exceções: a Rússia e a China. A Rússia, porque já tem declarado querer a rendição incondicional da Ucrânia, exigência incompatível com negociações que ainda nem começaram. E a China, porque já fez saber que não aceitaria o convite.

Durante a conferência

A conferência para preparar a paz na Ucrânia realizou-se nos dias 14 e 15 de junho num cenário de cartão postal, num centro de conferências situado no alto de um penhasco com vertiginosa vista para um lago. No total, uma centena de países e organizações internacionais mandaram representantes. Entre chefes de Estado e chefes de governo, eram 57. A vice-presidente dos EUA e o líder de praticamente todos os países europeus estavam presentes. Entre os latino-americanos, diversos presidentes compareceram: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala.

Por coincidência, Lula esteve pertinho dali na véspera da conferência. Estava, como no ano passado, ocupando uma poltrona sobressalente na reunião de 2024 do G7, realizada este ano na Itália, para a qual tinha sido convidado pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Será difícil alegar incompatibilidade de agenda para não dar uma esticada até terras alpinas (até Meloni foi à conferência preparatória da paz na Ucrânia). Assim mesmo, Lula preferiu embarcar em seu jatão A330 da FAB, avião grande, que tem maior autonomia que o pequenino Aerolula. Sem escalas, levantou voo em Bríndisi (Itália) e pousou em Brasília.

O Brasil pediu para não ser contado como participante à conferência da Suíça. Solicitou ser inscrito como “observador”. Não mandou presidente, nem vice, nem ministro nenhum. Nosso país foi representado pela embaixadora do Brasil na Suíça. Fiquei com impressão de que inscrever-se como “observador” foi pretexto para não ter de assinar a declaração final (que poderia conter algum parágrafo em desacordo com o atual Itamaraty, de Lula e Amorim).

Agora vem a pergunta: Senhor presidente, com que então, aquela história de “Trabalhar para criar espaço para negociações”, repetida “à exaustão” por Vossa Excelência, era só gogó pra inglês ouvir? Que história é essa de sair de fininho justamente na hora em que finalmente se realizou a primeira conferência preparatória para a paz na Ucrânia? Medo de desagradar a seu amigo Putin?

Quem fica sempre em cima do muro um dia se desconcentra e acaba caindo. Além do vexame, pode se machucar. Que a duplinha Lulamorim se cuide!

Pé no peito com a perna esticada

José Horta Manzano

Um pacato senhor de 77 anos atravessava uma rua da cidade de Santos (SP) levando pela mão o netinho de 11 anos. O sinal estava fechado, os carros enfileirados, e os dois se esgueiravam entre os automóveis. Quando cruzaram a frente de um motorista, este encrespou e fez menção de acelerar pra cima dos dois. Para não cair, o senhor se apoiou no capô do carro. Invocado, o motorista não gostou. (Talvez seja do tipo que, tendo horror a pobre, sentiu como se o toque no carro fosse uma invasão de propriedade.)

Em seguida, demonstrando que seu ressentimento é colérico, frio e persistente, o motorista ofendido, homem de 39 anos, estacionou o carro e voltou para tirar satisfações do ancião. Furibundo, logo ao encontrar o velhinho que tinha ousado tocar em seu carro, pespegou-lhe uma “voadora”. Não sabe o que é? É um tipo de golpe violento que se costuma ver em filme de Kung Fu. Dar uma voadora é aplicar na vítima um impetuoso “pé no peito com a perna esticada”.

O senhor atacado caiu desacordado, de costas no cimento, e lá ficou, imóvel. Os esforços do Samu foram inúteis. Depois de algumas paradas cardíacas e reanimações, seu coração não aguentou. Parou para sempre. O agressor fugiu e tentou se misturar ao burburinho de um shopping center. Não deu certo: foi apanhado e levado à delegacia.


“O coração desse senhor quase estourou no peito, tamanha a violência dessa voadora”, afirmou a delegada que registrou o caso. “Ele faleceu em virtude dessa lesão”.


A sordidez do acontecido revoltou a sociedade santista e ecoou no Brasil inteiro. É que o caso concentra três das oposições mais clivantes de nossa sociedade.

Pedestres x donos de carro de alto padrão
Pobres x ricos
Jovens x velhos

O Brasil, que gostamos de imaginar já ter entrado no século 21, ainda sofre esse tipo de mazela em intensidade africana. Muitos brasileiros, com notável concentração entre os que têm simpatia pela extrema direita, sofrem de aversão a pobre. Consideram-se superiores a essa “gentinha”. Quando um pobre ousa encostar a mão no “MEU” automóvel – que é prolongamento de “MEU” próprio corpo – a explosão de cólera é inevitável. Pode conduzir à violência e até ao homicídio, como prova o caso de Santos.

Esse mesmo valentão, que se atreveu a matar um ser humano com as próprias mãos (mais adequadamente, com os próprios pés calçados), voltou ao local da voadora dias após o crime. Foi trazido pela polícia para uma reconstituição. Lá pelas tantas, resolveu mostrar seu talento cênico. Ensaiou um choro convulso, ajoelhou-se no cimento, levantou os braços ao céu como quem pede bênção, e implorou por perdão diante da pequena multidão que o apupava e que clamava por justiça.

Ainda não se sabe quando será julgado. Por minha parte, torço para que pegue uma pena bem longa, que lhe dê o tempo necessário para refletir e baixar a crista. Se sair um dia da cadeia compenetrado de que é um ser humano igual aos outros, nem pior nem melhor, o encarceramento já terá sido útil.

Meu amigo Aldo Bizzocchi, doutor em Linguística, me chamou a atenção para o enrosco em que se meteu o estagiário do portal G1 ao bolar a chamada da reconstituição. É o texto que aparece lá em cima, na entrada deste post.

“Deu voadora em idoso morto”? Que horror! Configuraria crime de necrofobia! Acontece que a vítima estava viva ao ser atacada. Portanto, não houve crime de vilipêndio de cadáver, mas de homicídio.

Dependendo da requalificação do crime, o hoje encarcerado autor da voadora periga ser julgado por homicídio doloso com agravantes (impossibilidade de defesa da vítima). Pode pegar 20 anos à sombra. O fato de já ter passagem pela polícia por desacato e estelionato só serve para enevoar sua imagem.

Viva Santo Antônio!

José Horta Manzano

Hoje é dia de um santo muito popular, Santo Antônio, aquele que encontra as coisas. Nossas avós já ensinavam que, quando se perde alguma coisa, o mais prático é invocar logo Santo Antônio. Não costuma falhar. Diz-se também que ele é casamenteiro. Encontrar um par para almas solitárias há de fazer parte de suas atribuições.

Na verdade, a hagiologia é um tanto vaga e um bocado imprecisa quanto a esse personagem. Sabe-se que nasceu em Lisboa pouco antes do ano 1200, que estudou e se tornou grande orador, que abraçou a Ordem Franciscana, que morreu com trinta e poucos anos, em 1231. De estirpe aristocrática, era descendente de Carlos Magno e adquiriu elevada cultura. Foi canonizado a toque de caixa, menos de um ano após a morte.

É o santo padroeiro da capital portuguesa, onde o conhecem como Santo Antônio de Lisboa. Já no resto do mundo é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua, epíteto que lhe foi pespegado por ter vivido algum tempo na cidade italiana.

Por que encontra objetos? Não há consenso quanto à origem da lenda. Muito mistério envolve a vida desse santo. Atribuem-lhe o dom da ubiquidade ― dizem que conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Dizem também que tinha o poder de falar aos animais e ser escutado com atenção. Tão difícil é contestar quanto provar essas habilidades.

Mas hoje não é dia de missa, podemos nos dedicar a atividades mais profanas. A dança, por exemplo. Estamos em época de festas juninas. Falemos um pouco de quadrilha, vamos lá?

A dança de grupo que se costuma praticar no Brasil nesta época não é de origem nacional. Nem portuguesa tampouco. É possível que suas raízes estejam plantadas em terras inglesas. O que se sabe com segurança é que a quadrilha se pôs de moda na França no começo do século XIX. Sobreviveu mais de um século, até a Primeira Guerra Mundial, quando foi varrida dos salões pelos novos ritmos trazidos pelos militares americanos que tinham vindo combater nas trincheiras europeias. E pela popularização dos gramofones, naturalmente.

A quadrilha francesa era dança de salão rigorosamente codificada. Naqueles tempos anteriores à valsa vienense, os pares não tinham liberdade de inventar os próprios passos. Obedeciam todos a um ritual imutável. Os participantes tinham obrigatoriamente de formar pares, cavalheiros e damas em número igual.

Os movimentos da quadrilha eram classificados em grupos e subgrupos. Alguns passos juntavam os homens e os apartavam das mulheres. Outros reagrupavam os participantes em pares. Alguns compositores se dedicaram a escrever música especialmente para essa dança.

Na França, algumas reminiscências da quadrilha sobrevivem, nada mais que em associações folclóricas dedicadas à conservação do patrimônio cultural. Na Áustria, a quadrilha ainda sobrevive, tradicionalmente dançada em ocasiões especiais como nos grandes bailes vienenses de fim de ano. Não sei como andam as coisas no Brasil estes últimos anos, mas é bem capaz de essa dança de salão ― ou de terreiro, depende do clima… ― estar mais vivaz em terras de Pindorama do que na Europa.

Um detalhe interessantíssimo é o fato de a quadrilha brasileira ter mantido, para alguns dos passos codificados, os nomes originais franceses. Estão um pouco arrevezados, é verdade. Assim mesmo, por detrás dos sons deturpados e amoldados à nossa fonética, ainda dá para reconhecer alguns comandos de 200 anos atrás. Eis alguns:

Balancê = balancer
movimento do corpo para a frente e para trás

Tur = tour (de main)
passo que reaparece no rockn’ roll

Alavantu = à l’avant tous / en avant tous
todos para a frente

Alavandê = à l’avant deux / en avant deux
dois passos à frente

Anarriê = en arrière
para trás

Changê = changer (de dame)
mudar (de dama)

Visavi = vis à vis
pra frente e pra trás com as damas paradas em frente

Outros passos foram conservados na coreografia, mas tiveram seus nomes traduzidos ou adaptados:

Caminho da roça
promenade, demi-promenade

Grande roda das damas
chaîne des dames

Grande roda
chaîne, chaîne anglaise

O importante é que Santo Antônio dê a cada um o que ele estiver procurando. E quentão, pinhão e pé de moleque para todos nós!

Doutor Eurípedes

José Horta Manzano

Não sabia quem era doutor Eurípedes Júnior, presidente de um partido político da República brasileira. Fui conferir.

Atualmente é presidente de um partido chamado Solidariedade (sic). Anteriormente, foi presidente de outro partido político de nossa infeliz República. Um certo Partido Republicano da Ordem Social (Pros).

Doutor Eurípedes Júnior saiu do Pros mas as marcas de sua brilhante atuação ficaram. Ele é hoje investigado por:

  • organização criminosa,
  • lavagem de dinheiro,
  • furto qualificado,
  • apropriação indébita,
  • falsidade ideológica,
  • apropriação de recursos destinados ao financiamento eleitoral.

Agora que meus distintos leitores já têm o cartão de visitas de Sua Excelência, vamos à chamada d’O Globo.

Talvez impressionado diante dessa folha corrida, o funcionário encarregado de resumir o caso em poucas palavras não hesitou. Tascou: “Desvio de fundo”.

Imagino que o autor seja um menino com idade para ser meu neto. Me deixa mais com pena do que indignado. Ele deve ter sido o melhor numa seleção entre dezenas de outros candidatos. É o Brasil de hoje, que fazer?

Desvio de fundo
Numa fábrica de garrafas, uma máquina engasgou e um vasilhame saiu torto. Olhando pela boca, se vê um “desvio de fundo”.

No oftalmologista, o cliente tem hora marcada para um exame de fundo de olho. Está receoso de que seja constatado um “desvio de fundo” (de olho).

Ainda que pareçam meio absurdas na vida real, essas frases estão gramaticalmente corretas. Dona Santinha, professora de Linguagem, não daria reguada em ninguém.

Já quando o desvio é de dinheiro, precisa botar um s no final e falar em ‘Desvio de fundos.

Aí, dona Santinha vai dar nota 100 com louvor.

Faltam palavras

José Horta Manzano

Como sabem todos os meus leitores, que são gente estudada, a Lua, nosso único satélite natural, gira em volta da Terra. Entre outras particularidades, esse interessante corpo celeste tem duas notáveis.

Com relação à Terra, é um satélite de tamanho fora das normas. De fato, nenhum dos planetas de nosso sistema solar possui um satélite de dimensões tão imponentes – com relação à massa do planeta. Se nossa Lua seguisse o padrão satelitar do sistema solar, nós a enxergaríamos como um pequeno ponto luminoso no céu noturno, pouco maior que uma estrela.

Outra particularidade da Lua é nos mostrar sempre a mesma face. Gira, gira, gira, passam os meses e os séculos, e sempre vemos o mesmo lado. Até cinquenta anos atrás, antes da era espacial, ninguém sabia como era o outro lado de nosso satélite. Agora todos sabem. Foguetes chineses estão até pousando do lado de lá.

É por isso que o lado que não se vê daqui se chama face oculta. Os encarregados das chamadas da Folha parecem ter fugido da aula de Geografia de dona Pasqualina. Chamam a face oculta de “lado afastado”.

Procure ensinar a expressão correta a seus filhos, netos, sobrinhos e outros rebentos, antes que eles cresçam sem palavras para descrever o mundo que os cerca. Triste, não?

O que querem os franceses?

José Horta Manzano

A Constituição de 1958 instaurou na França um regime político sui-generis. O presidente da República (chefe do Estado) é eleito pelo voto popular direto, para um mandato de 5 anos. Ele convive com um primeiro-ministro (chefe do governo) indicado por ele mesmo e confirmado pela Assembleia dos deputados. Cabe ao primeiro-ministro (PM) formar o governo, ou seja, escolher o titular de cada pasta e de cada secretaria especial e, com eles, governar o país.

No papel, a autonomia do PM parece ampla. Na vida real, quando presidente e PM são do mesmo campo político, o PM serve como correia transmissora das diretivas presidenciais. Em outros termos, o presidente extrapola suas funções de apenas chefiar o Estado e acaba governando.

Na França, diferentemente do que se vê no Brasil, os partidos têm consistência. Não funcionam como biruta de aeroporto, como agem nossos partidos, amorfos e desprovidos de coluna vertebral. Em Paris, atrás de cada sigla partidária, há uma ideologia conhecida e uma visão da coisa pública aferível.

Emmanuel Macron está no meio de seu segundo mandato como presidente, o último ao qual se pode candidatar, segundo a lei francesa. É vedado candidatar-se a um terceiro tempo. Essa situação lhe dá calma de espírito e lhe confere a tranquilidade de quem conduziu o país da melhor maneira que lhe pareceu. Como ele mesmo declarou em sua fala de ontem, é o único político francês sem ambições pessoais para as próximas eleições de 2027.

Como as pesquisas já haviam adiantado, o campo da extrema direita avançou algumas casas nas eleições de domingo, ontem. Os 27 países membros da União Europeia votaram para escolher os deputados que enviarão a Estrasburgo (França), sede do Parlamento Europeu. Cada país tem direito a uma quota de deputados correspondente a sua população.

A direita extrema cresceu um pouco, mas abaixo do que se esperava. Já os resultados nacionais franceses confirmaram a tendência que já se vinha delineando: o partido populista-extremista de Madame Le Pen deu um salto à frente e se tornou o primeiro partido do país. Abocanhou 31,4% dos votos e deixou o partido do presidente Macron em segundo, comendo poeira, com menos de 15%.

Era mais ou menos o que se esperava, mas as previsões são uma coisa e o resultado final é outra. Dá um susto ver que os extremistas de direita, herdeiros de um passado de tenebrosa memória, viraram a maior força do país. Para os 70% que não votaram neles, dá um nó no estômago. Muitos dos que deram seu voto a essa gente só para mostrar descontentamento com a carestia, com a violência ou com a alta do preço da gasolina estão agora arrependidos.

Macron, um político agora descompromissado, agiu rapidíssimo. Uma hora depois do anúncio dos resultados (das projeções, porque nem resultados oficiais eram), fez um pronunciamento nacional por cadeia de rádio e tevê. Anunciou que, a partir desta segunda-feira, a Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados) estaria dissolvida e que eleições para escolher novos deputados estavam convocadas para 30 de junho (1° turno) e 7 de maio (2° turno).

É o caso de dizer: pegou todo o mundo de calça curta! A maioria do eleitorado tinha descartado que ele lançasse mão dessa medida. Da minoria que tinha considerado esse passo, ninguém acreditou que viesse com tal rapidez. Pensaram que o presidente fosse tergiversar, resistir um pouco e só ceder depois de muita reclamação.

O Artigo 12 da Constituição Francesa dá ao presidente o poder de dissolver a Câmara e convocar novas eleições. A única restrição é que se deixe um espaço de um ano entre dissoluções.

O decreto de dissolução vale imediatamente e fixa as eleições para 30 de junho, com segundo turno uma semana depois. A partir desta segunda, a França está sem Assembleia Nacional. Todos os deputados compareceram para esvaziar gavetas e recolher objetos pessoais. Projetos de lei em discussão ficam bloqueados até segunda ordem.

A campanha eleitoral (20 dias) será uma das mais curtas que já se viram, embora dentro do prazo constitucional. As candidaturas terão de ser registradas até sexta-feira desta semana. Uma eleição a jato, como se costumava dizer (minha mãe escrevia “a jacto”).

Macron está fazendo verdadeiro lance de pôquer. Está colocando os eleitores franceses diante de suas responsabilidades. Eles têm agora 20 dias para pensar se realmente querem ser governados por deputados de extrema direita ou se deram somente um voto de protesto do qual se arrependem.

A resposta será conhecida dia 7 de julho às 20h em ponto, 15h pela hora de Brasília.