José Horta Manzano
A cada vez que nosso ex-presidente, hoje preso, subia à tribuna da ONU para proferir seu discurso anual, os brasileiros ligados já sentiam subir pela garganta o incômodo de ter de ouvir enormidades. Me lembro de ele ter-se gabado, uma vez, de ter “livrado o Brasil do socialismo”. Esqueceu-se, ou simplesmente não sabia, que grande parte dos países europeus já teve governo socialista: Suécia, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Noruega e outros mais. Nenhum deles naufragou, muito ao contrário. O autor dos discursos de Bolsonaro tinha a mente tão entupida quanto a do patrão.
Já o discurso que Lula pronunciou estes dias na mesma tribuna foi elaborado com engenho e arte. Muito bem estruturado e articulado. Não foi um discurso de campanha, como julgaram alguns. Veja só, numa disputa acirrada em que nenhum voto pode ser desperdiçado, Luiz Inácio ousou tachar Netanyahu e o governo de Israel de genocidas. Sente-se que, nesse momento, Lula não falou para plateia nenhuma. Ele disse bem alto o que muitos pensam em voz baixa.
Para aqueles que desfilam no 7 de Setembro enrolados na bandeira israelense, não há de ter sido um convite a votar pela reeleição do atual presidente. Se havia votos a desperdiçar, aqui foram alguns pelo ralo.
Aliás, essa acusação de genocídio lançada contra o Estado de Israel, embora muitos concordem, é pouco diplomática. Há outras maneiras de expressar descontentamento sem apelar para esse tipo de expediente. Mas entendo a explosão de raiva que Lula deve estar sentindo desde que foi etiquetado como persona non grata em Israel por esse mesmo governo Netanyahu. Sua fala foi uma espécie de revanche. Assim mesmo, teria sido melhor não se expressar assim.
Longe de discursar para ganhar votos, Lula falou como verdadeiro estadista, em contraste com os discursos tradicionalmente pronunciados por presidentes brasileiros – incluindo suas proprias falas dos anos anteriores.
Tratou de Gaza, falou do Tribunal Penal Internacional, mencionou a Cisjordânia ocupada. Discorreu sobre o Irã, a guerra Russo-ucraniana. Criticou o regime da Nicarágua (Aleluia!), lembrou do desprezado Haiti, disse duas palavras sobre a Venezuela. Estendeu-se um pouco mais sobre o drama atual de Cuba.
A meu julgar, os redatores do discurso não se lembraram de que as palavras do presidente estariam sendo traduzidas nas 6 línguas oficiais da ONU. Expressões difundidas no Brasil, mas desconhecidas no exterior, deveriam ter sido substituídas. Por exemplo, Escala 6×1, Tarifaço, BETs deveriam ter sido mais bem explicadas.
Na frase “Impor derrota ao negacionismo”, ficou faltando explicar que se trata de negacionismo climático, e não do negacionismo que antissemitas propagam desde 1945, negando que as câmaras de gás tenham existido.
O ponto alto do discurso – não sei se era a intenção dos autores, mas é o que ocorreu – foi quando Luiz Inácio garantiu que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. De tão genial e marcante, a frase ecoou em numerosas línguas estrangeiras, de “backyard” a “giardino di casa”, cada um traduziu a seu modo, que nem todos têm quintal.
Não sei se os brasileiros têm noção do privilêgio que nos é concedido de poder ser o primeiro a discursar a cada ano, antes mesmo do dono da casa. Além de o Brasil passar em primeiro, nossa fala precede a dos EUA. Essas duas razões fazem que a plateia esteja lotada e nos escute com atenção.
Os demais países, que não gozam do privilégio de ser os primeiros, discursam na terça, na quarta, e assim por diante, até o sábado. Sempre com plateia esvaziada, diga-se. A França, por exemplo, país fundador e membro permanente do Conselho de Segurança, falou na 3ª. feira de manhã em 14° lugar. Imagine como a plateia já estava cansada de ouvir discurso. À Itália coube discursar na quarta-feira à tarde, o 17° discursante da tarde, ou seja, o 38° do dia.
Percebem o imenso privilégio de ser o primeiro?
Se Luiz Inácio conseguir se reeleger, temos uma boa perspectiva para o discurso de abertura da ONU para os próximos anos. Se ele perder, que é que se pode fazer? Esperar que o filho seja menos primitivo que o pai.
Se bem que… é permitido duvidar.
