Palpite infeliz

José Horta Manzano

A coroa do rei não é de ouro nem de prata

A coroa do rei
não é de ouro nem de prata

Todo Noticias, site informativo do grupo argentino Clarín, classificou de «desafortunado» o comentário feito por Pelé sobre a morte acidental de um operário, dez dias atrás, nas obras do estádio Itaquerão.

O acidente foi gravíssimo e causou perda de uma vida. Apesar disso, Pelé minimizou o acontecido dizendo que «são coisas da vida, nada que assuste». E concluiu dizendo que importante mesmo é a infraestrutura e os aeroportos.

O site atribui o infeliz pronunciamento do «rei» à pressão que ele vem sofrendo por parte da Fifa e do governo do Brasil.

Como já dizia, anos atrás, conhecido futebolista carioca: «O Pelé, de boca fechada, é um poeta».

Com unhas e dentes

José Horta Manzano

Reportagem do Estadão deste 8 de abril informa que, para o Lula, o governo precisa defender a Petrobras «com unhas e dentes».

Não precisava nem dizer. Ninguém vai ser louco de maltratar a galinha dos ovos de ouro. Ou não?

De menor

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 abril 2014

Atividades criminosas ocorrem em qualquer lugar do mundo. Em nosso país, infelizmente, sua frequência tende a ser mais elevada do que a média mundial. Refiro-me a todos os comportamentos que se enquadram no Código Penal, desde roubo de maçã até assassinato, passando por todo tipo de assalto ao erário. O volume exagerado de malfeitos tem poder anestesiante. A gente acaba nem prestando mais a atenção que deveria.

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

Crimes particularmente odiosos têm, ainda assim, o poder de sacudir a opinião pública. Quando algum feito escabroso é obra de um menor de idade, uma grita costuma se levantar para pedir que seja adiantada a idade da maioridade penal.

É o que acontece estes dias. Na sequência de crime excepcionalmente abjecto cometido por um menor de idade, o legislativo prevê desengavetar e levar a votação, ainda este mês, projeto de adiantamento da maioridade penal. A proposta é baixar o limite, em casos específicos, de 18 para 16 anos de idade.

A mim, me parece que o assunto é complexo demais para ser tratado a vassouradas. Comoção nacional não é boa conselheira. Decisão tomada na hora do abalo, sob o impacto de forte emoção, periga não ser a mais adequada. A problema complexo, solução ajuizada e bem arquitetada.

Para começar, há que encarar uma questão que roça a filosofia: que objetivo se persegue ao determinar que seja tolhida ou limitada a liberdade do criminoso condenado? Fazemos isso por simples castigo ou por vingança? Interessa à sociedade tentar a reeducação do delinquente? Ou será que procuramos simplesmente banir a ovelha negra para evitar que a contaminação se alastre aos demais cidadãos?

Basilar, essa reflexão extravasa amplamente dos limites do parlamento. Merece ser confiada a uma comissão de sábios, que inclua gente do ramo e gente de bom-senso. Antes de definir a razão pela qual mandamos o transgressor para trás das grades, não faz sentido discutir idade.

A fixação da idade a partir da qual as leis penais são aplicáveis é assunto espinhoso. Nem países europeus, que já uniformizaram longa fieira de procedimentos em variados campos, enxergam essa matéria de maneira homogênea. Na falta de acordo, cada qual procede a seu modo.

Nosso Código Penal talha a questão de modo exageradamente brusco, sem grande sutileza: a barreira que separa o adolescente do adulto cai, abrupta, no dia em que o cidadão completa seus dezoito anos. À meia-noite, mais precisamente.

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Ora, sabemos todos que o amadurecimento não acontece, como por milagre, de um dia para o outro. Ninguém vai dormir criança para, de manhã, acordar adulto. O processo de desenvolvimento do indivíduo é gradual. E como tal deveria ser encarado. Quando não se sabe que caminho tomar, não há que envergonhar-se. Tomar decisões no escuro será ainda pior. Melhor mesmo é baixar a crista e tomar o pulso em outros países. Quem sabe outros povos já não terão encontrado soluções que nos possam ser úteis?

A fixação da maioridade penal está longe de ser universal. É controversa e varia de país a país. Na Suíça, a idade a partir da qual o indivíduo pode ser considerado penalmente responsável é de 7 anos. Na Inglaterra, de 10 anos. Na Holanda, de 12 anos. Na França, de 13 anos. Na Alemanha e na Itália, de 14 anos. Na Bélgica e na Espanha, de 16 – sendo que, neste último país, está em estudo a redução para 13 anos. Em vista do volume crescente de crimes graves cometidos por adolescentes, a Alemanha e a Bélgica tencionam baixar o limite da responsabilidade penal para 12 anos.

A alteração que está sendo proposta no Brasil, de 18 para 16 anos, não vai, por si, conter a violência. Vai – isso sim – contribuir para a superlotação das prisões, que são por muitos consideradas verdadeiras escolas do crime.

Num país onde o ministro da Justiça – aquele que tem a faca, o queijo, o pão e a manteiga na mão – já chegou a declarar que «preferia morrer» caso tivesse de cumprir alguns anos em prisão brasileira, a idade em que o indivíduo atinge a maioridade penal é de importância secundária. Nenhuma reforma do sistema será eficaz se não incluir reformulação total do universo prisional. Do porão ao telhado. País rico é país sem miséria carcerária.

Rapidinha 24

José Horta Manzano

«Houve um verdadeiro tsunami contra o governo e, mesmo assim, ela continua liderando»(*)

Fragmento de pronunciamento do senhor Falcão, presidente do Partido do Trabalhadores

Rui FalcaoO referido senhor faz alusão à enxurrada de escândalos referentes à Petrobras, que desvelam a inabilidade e a desenvoltura da atual presidente da República no trato da coisa pública.

Na mais benigna das hipóteses, bilhões de dólares do povo brasileiro foram engordar o patrimônio de um enigmático barão belga.

Numa conjectura maliciosa ouvida outro dia num elevador, o dito barão teria sido utilizado apenas como ponto de passagem do dinheiro ― uma espécie de laranja. Destino final da bolada? Cada um é livre de imaginar o que melhor lhe aprouver.

Em vez de lamentar o alheamento de seus concidadãos, senhor Falcão festeja o fato de boa parte deles não estar em condições de entender o presente capítulo do drama nacional.

É surpreendente constatar que um medalhão desse quilate se orgulhe de ser sustentado pela ingenuidade da massa ignara.

Tomar apoio na simplicidade alheia é coisa feia. Fosse eu, teria vergonha.

Como diz o outro: deixa estar, jacaré, que um dia a lagoa há de secar. Nada é eterno.

Interligne 18b

(*) «Ela continua liderando» alude à posição ocupada por dona Dilma na corrida presidencial.

Era uma vez… José Wilker

Wilma Schiesari-Legris (*)

A primeira vez que vi o José foi quando ele fez o papel do arquiteto, na peça de Arrabal O arquiteto e o imperador da Assíria, montada pela primeira vez no Brasil em 1970.

A peça começou no Teatro Ipanema, com direção de Ivan Albuquerque. O elenco era formado por Rubens Corrêa e José Wilker.

Não foi no Rio que assisti à peça, mas no TBC, em São Paulo, numa matinée de domingo. O ator José Wilker havia chegado ao teatro no mesmo momento que eu, como um hippie, vasto chapéu feito de retalhos de couro ― provavelmente adquirido na feira artesanal da Praça da República ― e uma calça branca boca de sino de cintura baixa.José Wilker 1

Foi num cenário deslumbrante feito de retalhos de jornal, engolindo aquele palco de alto a baixo, que pressenti estar na presença de um enorme ator.

Jamais, durante aquele espetáculo, poderia imaginar que ele pudesse entrar também na minha vida. Explico melhor. Nos anos 70, minha melhor amiga da época, colega de escola, foi viver com ele. Um casamento de dez anos, do qual tive notícias unicamente através das cartas que me chegavam, primeiramente em São Paulo e, depois de 78, na França.

Pois bem, foi dentro dos envelopes que acompanhei a vida de ambos, que habitavam um apartamento muito simpático, no Jardim Botânico, que lhes fora alugado através da atriz Debora Duarte.

Estive uma única vez naquele lugar e o que mais me impressionou foi uma coleção de LPs, que precedeu a outra, de 4.000 filmes em videoteipe. Aquilo era um templo de cultura: os discos enfileirados ocupavam uma estante que dava a volta num cômodo amplo e os livros abarrotavam as prateleiras de outra sala.

Depois os vi aqui em Paris. Foi em 1979, atravessando um corredor do metrô na estação Trocadéro, de onde voltavam, de mãos dadas, de uma festa do Partido Socialista, quando Giscard ainda era o presidente da França. Dali, seguimos até a minha kitinete, e o José nos ofereceu, ao meu marido e a mim, um de seus livros, que ele dedicou assim:

Interligne vertical 12Para Wilma e Pierre,
Com carinho, meu primeiro livro a atravessar o Atlântico.

E assinou. Era Em algum lugar fora deste mundo, o título do livro e a situação.

Minha amiga estava grávida e desconhecia o seu estado. Quando eles souberam o que os esperava, o José também ficou grávido e dentro dos envelopes jamais havia alusões à vida artística de ambos, dois atores de muito sucesso na ocasião. Eram sempre cartas adoráveis, longe das luzes da ribalta e dos estúdios de filmagem, com fotos da minha amiga envergando uma linda barriga, depois substituídas pelas imagens da Mariana que crescia. Guardei-as todas, até ela se mudar de casa.

Um dia a sua vida se partiu e a minha amiga partiu também, instalando-se no Leblon e levando adiante a educação da pequena, até que a nossa amizade também murchou, me deixando órfã, assim, até hoje.

José Wilker 2Quando José Wilker esteve em Paris em 2007 para presidir o Festival de Cinema Brasileiro, foi condecorado com altas distinções tanto pela França como pelo Brasil.

O festival também fazia uma homenagem ao José, que esteve ali presente durante alguns dias. Sempre na plateia, eu também estive lá e tomei coragem para conversar com ele numa daquelas noites.

Será que ele se lembraria de mim, depois de mais de 35 anos sem nos vermos? De quando lhe preparei ovos fritos com linguiça, tudo o que havia na geladeira de casa?

Falamos de muitas coisas na ordem e na desordem dos meus pensamentos. Havia muito tempo que minha melhor amiga saíra de sua vida e, agora, da minha.

Foi quando ele me disse que Mariana, morando com ele, estava sendo formada pelo Carlos Diegues para ser roteirista do filme deles. José tinha o peito estufado ao falar da filha, agora interessada menos por psicologia e mais por arte. A sétima!

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Hoje soube que José Wilker morreu. Constatei que deve ter partido feliz, pois ele mesmo, grande epicurista, dizia do bem que faz um bom vinho e o amor de uma mulher.

Deixa órfão o cinema brasileiro, os palcos cariocas e os estúdios de televisão. Deixa infelizes todos os que o amaram.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora

O meu primeiro de abril

José Horta Manzano

Folhinha 1964-1Podem dizer o que quiserem do Grito do Ipiranga, da Guerra do Paraguai ou da Revolução de 1930. Desses acontecimentos antigos, só tive notícia pelos livros de História. A visão que tenho deles terá sido obrigatoriamente filtrada pelas lentes de outrem.

Os eventos de 1964 são outros quinhentos. Fazendo eco ao bordão do velho Repórter Esso, fui «testemunha ocular da História». Quem viveu os fatos não depende de relatos.

O golpe de 1889, que despachou a família imperial para o exílio e instaurou um regime republicano, inaugurou uma era de instabilidade política. Entre golpes, revoluções e tentativas, fica difícil nomear todos. O nome que se dava a golpes de Estado bem-sucedidos era revolução. Do verbo revolver, virar de ponta-cabeça.Folhinha 1964-2

De memória familiar, todos já tínhamos ouvido falar nas revoluções de 1924, de 1930, de 1932. A intentona de 1935 estava na memória de nossos pais, assim como os putsches de 1937, 1945, 1955. O último movimento insurrecional, a Revolta de Jacareacanga, tinha acontecido fazia apenas 8 anos. Revolução e golpe de Estado não costumavam assustar ninguém.

Naquele fim de março, embora não fosse ainda adulto, eu já era bem crescidinho. Frequentava o último ano do ensino médio e já me preparava para prestar vestibular no fim do ano.

Dia 1° de abril caiu numa quarta-feira. Era um dia fresquinho, de pouco sol, um antegosto do inverno. Lá pelo meio-dia, voltando da escola de ônibus, alguém veio espalhar a notícia:

Interligne vertical 14― Você soube da revolução?

― Revolução? Não. Como é que foi?

― Parece que o exército derrubou o presidente da República.

― Ah, é? Mas aqui está tudo tão calmo. Será que vai ter confusão?

― Acho que não.

Pronto, encerrado o assunto. Confusão, não houve. Cada um voltou pra casa e a vida continuou, como tinha sempre continuado após cada golpe e cada revolução. Logo de cara, a mudança de regime não teve particular incidência na vida da imensa maioria do povo do Brasil. Não me lembro de multidões que tenham saído às ruas na sequência da destituição do presidente ― nem para aplaudir, nem para amaldiçoar. As preocupações eram outras. O golpe de 1964 foi apenas mais um.

Assim foi o 1° de abril que eu vi.

Basta, por favor!

José Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal, daí ser relegada a rodapé de página. Notícia ruim faz a alegria de todo editor. Quanto pior, maior será a manchete. É da vida.

Esta semana, saiu o assustador resultado de uma pesquisa sobre a percepção que têm os brasileiros de mulher vestida com panos mais exíguos. Segundo o Ipea, 2 em cada 3 brasileiros, na impossibilidade de despachar as pecadoras para a fogueira, acham justo e correto que seu castigo seja o assédio sexual.

Para quem vive no exterior, é dose cavalar. É daquele tipo de notícia que você torce para o vizinho do lado não ter ficado sabendo. Dá vergonha de cumprimentá-lo no elevador no dia seguinte. É muito desagradável você ver seu país de origem nivelado a um Afeganistão qualquer.

Passados 2 ou 3 dias ― catapum! ― lá vem o desmentido. Não era bem isso, o resultado foi lido pelo avesso. Como é que é? Duas versões para a mesma pesquisa? Será que se pode acreditar nalguma delas?

Sondagens de intenção de voto se chocam às vezes com a realidade. Abertas as urnas, vem o desmentido. Embora irritante, é, até certo ponto, compreensível. Por alguma razão, os eleitores não terão sido sinceros em suas respostas ou, quem sabe, terão mudado de ideia na hora agá.

Crédito: Caio Leal, AFP

Crédito: Caio Leal, AFP

Já o presente caso é de outra safra. Os entrevistados não mudaram de ideia. Foram os pesquisadores que, incompetentes, se embananaram.

É inacreditável a leviandade, a displicência, a irresponsabilidade com que informações desse calibre são dadas a público. Dizer que «nove entre dez estrelas do cinema preferem tal sabonete» não traz consequências, é informação inócua. Agora, proclamar que 2/3 dos brasileiros ainda pensam como na Idade Média é muitíssimo mais grave, é constatação acachapante.

Uma informação dessa importância deveria ter passado por várias peneiras finas antes de vir a público. Com todas as notícias ruins ― mas verdadeiras ― que têm circulado fora do Brasil estas semanas que antecedem a «Copa das copas», não precisávamos de falsas informações. O que temos de ruim já basta, é favor não acrescentar mais uma camada.

É tarde demais para desmentir. O mal está feito. A notícia de que o povo brasileiro ainda vive nas trevas já deu a volta ao mundo.

Desgraçadamente, se todos publicaram a incrível informação, nem todos publicarão o desmentido. Melhor subir pela escada, que o risco de cruzar o vizinho é menor.

Interligne 23

Quem tiver tempo a perder vai encontrar aqui um flagrante do alastramento da espantosa notícia pela mídia internacional.

Interligne vertical 12Itália
França
Espanha
Suíça
EUA
Reino Unido
Alemanha
Suécia
Emirados Árabes

Frase do dia — 126

«Ao alinhar-se a Maduro, legitimando-o justamente no momento em que o chavista mais se empenha em esmagar qualquer forma de oposição, o governo Dilma escolheu a causa que mais lhe agrada.»

Editorial do Estadão, 4 abr 2014.

Pior do que se imaginava

José Horta Manzano

A aproximação da «Copa das copas» vai girando os holofotes em direção a nosso país. Artigos, comentários, reportagens, emissões de rádio e de tevê vão pipocando aqui e ali.

Diferentemente do que imaginavam nossos ingênuos e inexperientes figurões quando «conseguiram convencer» a Fifa a atribuir ao Brasil a realização da copa, o que menos chama a atenção dos estrangeiros são os estádios. De «arenas», o mundo está cheio. Disseminado desde o tempo dos romanos, esse tipo de construção já não deixa mais ninguém estupefacto.

Jornalistas, em princípio, são bisbilhoteiros. Fogem de lugares-comuns e partem à cata do que está por detrás do cenário. No Brasil, não precisa ir muito longe. A decepção mora ao lado.

Duas jornalistas belgas vieram ao «país do futebol» para fazer uma radiografia detalhada. Passaram 5 meses em solo tupiniquim. O resultado, que está começando a ser publicado agora, não traz a imagem cintilante com que nossos medalhões sonhavam.

A edição online do jornal L’Avenir (de Namur, Bélgica) mostra um esboço do que será o trabalho final. Cito, a seguir, alguns trechos do artigo.Copa 14 logo 2

Interligne vertical 11a«Naquele país paradoxal, em pleno crescimento econômico, mas que carrega o peso de grandes desigualdades sociais e de extrema pobreza, a grande festa está sendo preparada, mas a cólera cresce e ameaça.»

«Em junho passado, milhões de brasileiros berraram seu descontentamento nas ruas do país inteiro com o slogan “Copa para quem?”»

«Fortaleza se caracteriza pelo turismo sexual, por milhares de crianças de rua e pelas favelas. Uma realidade negra, que não corresponde à imagem que o Brasil quer vender à mídia internacional.»

«O Brasil aproveita a copa para limpar as cidades, mas sem dar solução aos problemas. A miséria é simplesmente afastada.»

«Vimos coisas que, aqui na Europa, ninguém pode imaginar. Uma das piores imagens foi a de uma menina de 10 anos, magrelinha e completamente drogada, que se prostituía.»

Prefiro parar por aqui. Se alguém quiser ler o original em francês, que clique aqui.

O respeito que um país inspira não provém da excelência de seus estádios, mas do grau de civilização de seu povo.

Empurrando a culpa

José Horta Manzano

Lado A
Dois anos atrás, François Hollande ganhou de Nicolas Sarkozy e foi eleito presidente da França. O sistema político francês ― a meio caminho entre o presidencialismo e o parlamentarismo ― dá grande poder ao presidente, mas impõe que ele nomeie um primeiro-ministro, que, por sua vez, deverá receber o voto de confiança da assembleia. É cargo que funciona como fusível: está na linha de frente para receber choques. Quando queima, é substituído.

Jean-Marc Ayrault

Jean-Marc Ayrault

Ao ser eleito, Hollande concedeu o posto de primeiro-ministro a um amigo de muitos anos, Monsieur Ayrault. Mas os tempos são difíceis, com estagnação econômica e taxa de desemprego nas alturas. Indústrias abandonam o território para se instalar em país de mão de obra barata. Como resultado, a popularidade de Hollande baixou a níveis jamais registrados para um presidente.

Faz poucos dias ― como lhes contei em post de 27 de março ― realizaram-se eleições para prefeito em todos os municípios do país. O povo não perdeu a ocasião de mostrar seu descontentamento: o partido do presidente levou uma surra nas urnas. Os socialistas perderam a prefeitura de dezenas de cidades importantes.

Em países civilizados, certas regras do jogo democrático, embora apenas consensuais e não escritas, costumam ser respeitadas. Quando um figurão não tem mais o apoio popular, melhor dizer adeus e ir-se embora. Foi o que fez Monsieur Ayrault, o primeiro-ministro. Fechadas as urnas, contados os votos e constatada a lavada, convocou a imprensa. Em breve discurso diante das câmeras, assumiu pessoalmente a inteira responsabilidade pelo insucesso. Dia seguinte, apresentou sua demissão ao presidente da República. E se foi.

Lado B
Estamos todos assistindo, estes dias, a espetáculo consternante proporcionado por dona Dilma. Diante da evidência de que houve «irregularidades» ― para usar palavra gentil ― nos negócios da Petrobras nos EUA durante sua gestão, vem ela com a versão 2.0 do conhecido «eu não sabia de nada».

Petrobras 3Não contente de confessar sua ignorância sobre o que se passava na empresa que estava sob sua guarda, vai mais longe: desce à baixaria de acusar um subordinado. «A culpa é daquele ali, ó! Eu sou boazinha, gentil, reta e proba ― jamais faria uma coisa dessas. Assinei sem ler! Fui traída!»

Para uma antiga revolucionária, que se vangloriou de jamais ter denunciado um companheiro, nem sob tortura, cai mal. Para quem ocupa o cargo maior da República, cai pior ainda. Um pouco de dignidade não lhe faria mal.

Não se exige a verdade integral, mesmo porque talvez nem ela a conheça. Que dê a desculpa que lhe parecer mais conveniente, mas que, pelo menos, não entregue o companheiro. Coisa feia.

Francamente, não se fazem mais revolucionários ― nem revolucionárias ― como antigamente.

Pânico no trem

José Horta Manzano

Na manhã desta quarta-feira 2 de abril, um trem inteiro teve de ser evacuado na estação de Berna (Suíça). Os 450 passageiros foram obrigados a se aglomerar na plataforma enquanto um grupo de intervenção especialmente treinado foi chamado a operar a bordo.

O motivo? Uma cobrinha de 50cm, fininha e não-venenosa. Apareceu de repente. Um primeiro viajante deu o alarme, e o corre-corre foi geral. Um tigre teria causado o mesmo efeito.

Foto: Polícia Cantonal de Berna

Crédito foto: Polícia Cantonal de Berna

O trem deveria ter partido às 7h34 com destino a Basileia. Teve um atraso de meia hora. Alguns passageiros que contavam apanhar um avião no aeroporto basileense perderam a conexão. Ficaram a dizer cobras, lagartos e cobrinhas suíças da companhia nacional de estrada de ferro.

Frase do dia — 125

«O Brasil é politicamente “démodé”. Não inova, recorre aos mesmos métodos há décadas e deles não desgruda por mais que o esgotamento seja uma evidência. É quase como se o País tivesse reconquistado a democracia mas não soubesse direito o que fazer com ela.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 1° abril 2014.