Frase do dia — 117

«Filmado arremessando pedaços de fruta na rua, [Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro] explicou que os jogou na direção de uma lixeira longínqua “ou para que um de seus assessores fizesse o descarte em local adequado”. Fica criada assim a categoria de assessor de descarte, ou gari de prefeito.»

Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de São Paulo, 9 mar 2014.

Quem viver, verá

José Horta Manzano

O marco simbólico dos 100 dias que faltam para a «Copa das copas» (*) acaba de ser transposto. A ocasião foi propícia para um balancete. O resultado parece não ter sido brilhante.Estadio 1

O site LanceNet, especializado em futebol e, marginalmente, em outros esportes, andou verificando matérias publicadas por jornais europeus. Não são lá muito lisonjeiras.

Numa certa altura, o site diz:
Interligne vertical 14«O britânico The Times trouxe uma entrevista com Jérôme Valcke em que o secretário-geral da Fifa fala da preocupação da entidade em relação à organização da Copa. O diário cita o caos na sede do próximo Mundial e diz que esta pode ser a pior Copa do Mundo.»

Eta coisa desagradável de ler, não?

E tem mais:
Interligne vertical 14«Outros empecilhos para o Mundial citados pelo jornal são a queda de apoio ao evento por parte dos brasileiros e a possível revolta popular à época do torneio, além da distância física entre as 12 sedes brasileiras. A publicação diz que os cerca de 3,6 milhões de torcedores esperados para a Copa sofrerão para chegar aos jogos por terem de trafegar “desde a Floresta Amazônica até a dominada pelo crime São Paulo”.»

São Paulo dominada pelo crime! Vejam, senhores, a imagem que estamos transmitindo do Brasil que, um dia, foi habitado por um povo cordial.

Li outro dia uma frase maldosa, daquelas que não deixam de ter sua dose de verdade. Na montagem fotográfica, nossa sorridente presidente aparece em primeiro plano. Como pano de fundo, a maquete de todos os luxuosos estádios que ― imagina-se ― estarão prontos para o campeonato mundial. No rodapé da charge, a frase que choca: «Se seu filho adoecer, leve-o a um dos estádios da Copa». Para não chocar mais, renuncio a reproduzir aqui a ilustração.

Interligne 18e

(*) «Copa das copas»

A expressão não é minha. Foi bolada ao molho do informal Ministério do Marketing, a mais preciosa entre as numerosas pastas que assessoram a presidência do Brasil. Resta esperar que não entre para a História como expressão de mau agouro. Há precedentes.

Prestes a fazer sua primeira (e última) travessia do Atlântico, o ultrassofisticado Titanic foi saudado como «the unsinkable ship», o navio insubmersível. Sabemos como terminou.

No início da Guerra do Golfo (1990), Saddam Hussein deu ao conflito o epíteto de «Mother of Battles», mãe de todas as batalhas. Sabemos como terminou.

Melhor parar por aqui. Sai, azar!

Interligne 18e

Quem quiser ler o artigo de LanceNet na íntegra clique aqui.

Da alma?

José Horta Manzano

Você sabia?

A morte precoce de Diana, Princesa de Gales, comoveu o mundo. A tragédia aconteceu em Paris na noite de 31 agosto 1997. Foi consequência de um violento desastre de automóvel na via expressa que passa sob uma das pontes que atravessam o rio Sena. A construção, erigida entre 1854 e 1856, chama-se em francês Pont de l’Alma.

Na época, a mídia brasileira hesitou na hora de indicar o local do acidente. Houve quem conservasse a grafia original. Outros ficaram no meio do caminho e mencionaram a Ponte Alma. E houve até quem ousasse afirmar que a desgraça tinha acontecido debaixo da Ponte da Alma. Ficou pra lá de esquisito, coisa de assombração. Passar embaixo da Ponte da Alma seria como passar debaixo de escada ou cruzar gato preto numa sexta-feira?

Riacho Alma, Crimeia

Riacho Alma, Crimeia

A história é diferente e bem menos charmosa. Essa «alma» não tem nada que ver com crenças religiosas nem com predestinação de família real. O nome faz simplesmente referência a um rio às margens do qual a coalizão franco-britânico-otomana ganhou sua primeira batalha, contra o Império Russo, na Guerra da Crimeia (1853-1854).

O rio ― que, de tão magrinho, está mais para riacho ― chama-se justamente Alma. Corre a meio caminho entre Sebastopol e Simferopol. A batalha entrou para a História como Batalha do (rio) Alma. Donde, a Ponte do (rio) Alma ou, mais simplesmente, Ponte do Alma.

Precedente
Mesmo havendo perdido a guerra, o Império Russo conseguiu, no tapetão, conservar a Crimeia. Eis mais um argumento a reforçar o que previ faz alguns dias: os russos não abandonarão aquela península por nada deste mundo.

Cabo de guerra

José Horta Manzano

Michelle Bachelet presidente eleita do Chile

Michelle Bachelet
presidente eleita do Chile

Michelle Bachelet, presidente eleita do Chile, tomará posse de seu cargo na semana que entra. Aproveitando o embalo, os ministros de Relações Exteriores sul-americanos vão-se reunir para debater os atuais problemas venezuelanos.

Em passado longínquo, era imprescindível que figurões se reunissem para discutir. Na ausência de telefone e de internet, mensagens tinham de ser encaminhadas por escrito. Entre proposições e contraproposições, podiam passar-se meses, anos até.

Essas cúpulas de hoje em dia são encenadas mais pra inglês ver. Na era da videoconferência, decisões são tomadas nos bastidores e dispensam encontros físicos. O resultado mais notável dessas reuniões de medalhões são fotos de grupo que farão as manchetes de todos os jornais.

Grosso modo, o Brasil ocupa metade do território do subcontinente, reúne metade de sua população e responde por metade de seu PIB. Assim como a posição da Alemanha é predominante nas cúpulas europeias, é natural que o peso do Brasil oriente os debates e a conclusão final de todo concertamento regional.

Nada indica, infelizmente, que desse encontro chileno alguma novidade boa possa sair. Por quê? Simplesmente porque nossa alta cúpula se debate em lutas intestinas que a paralisam.

A máquina governamental brasileira aloja ideólogos que, por afinidade, preconizam o alinhamento automático com governos autoritários. Sejam eles de direita, de esquerda, de cima, de baixo, pouco importa. O atual regime venezuelano, autoritário e semidemocrático, encaixa-se perfeitamente no molde.

Por outro lado, nossa abundante equipe de governo abriga também gente menos ingênua, menos cabeça-dura, menos ressentida, mais realista. Há, certo, medalhões que já entenderam que a exacerbação do populismo e do autoritarismo, à moda bolivariana, é caminho certo para o desastre.

Na ausência de um presidente respeitado, daqueles cuja palavra não se discute, os habitués do Planalto travam uma interminável partida de cabo de guerra. Falo daquela brincadeira em que uma corda grossa é puxada por duas equipes, uma de cada lado. O mais das vezes, a corda fica imobilizada, sem se mover para lado nenhum.

Palácio do Itamaraty e seu espelho d'água

Palácio do Itamaraty e seu espelho d’água

A prova maior foi dada dias atrás por nosso chanceler, Luiz Alberto Figueiredo, em entrevista concedida a Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo. A jornalista, íntima da política brasileira, foi direto ao que interessava e pisou onde doía.

O resultado foi constrangedor. Descobrimos um ministro de Relações Exteriores ― diplomata de carreira! ― acabrunhado, envergonhado. Tentou escapulir aos questionamentos, fugir à realidade. Dourou pílulas, divagou, esquivou-se, esgueirou-se, resvalou. O homem é mais «escorregoso» que sabão de lavadeira. É daqueles que falam e falam para, no final, não dizer nada. Um horror.

Tudo isso faz sentido. O desmonte da imagem externa do Brasil caminha pari passu com o desmantelamento das instituições. Essa hesitação entre servir a Deus ou a Mamon deixa a impressão de um país em estado de liquefação.

Interligne 18c

A quem não leu, recomendo uma vista d’olhos à entrevista do chanceler. É edificante. Clique aqui.

Daqui ninguém me tira

José Horta Manzano

A Rússia é o maior país do planeta. Sua superfície equivale a dois Brasis. Com tanto espaço para população relativamente pequena ― de uns 140 milhões de habitantes ― convém perguntar por que razão se batem pela Crimeia.

Por que fazem tanta questão de conservar um território exíguo, do tamanho do pequenino Estado das Alagoas? Seriam os russos gananciosos a ponto de tomarem à força um pedaço de terra estrangeira, assim, sem mais nem menos, pelo prazer de aumentar seu próprio território? Que diferença faz acrescentar 27 mil km2 a um país que já dispõe de 17 milhões de km2? A Crimeia, afinal, não tem petróleo, nem ouro, nem urânio.

O buraco é mais profundo. Por grande que seja, a Rússia tem um problema antigo de difícil solução: seu imenso território é encravado, a porta de saída é estreita. Com exceção de alguns trechos, suas costas estão expostas a mares frios, daqueles que congelam no inverno e dificultam ou impedem a navegação.

Faz séculos que o governo russo tenta por todas as maneiras estender suas costas a águas mais clementes. Cada quilômetro de beira-mar livre de gelo agregada ao território representa uma vitória.

O avanço em direção ao sul é o objetivo maior do Estado russo. Em todas as guerras que o país travou, o butim mais significativo foi sempre a conquista de mais uma franja de costa. Foi o que aconteceu ao final da Guerra Russo-Finlandesa e da Segunda Guerra Mundial. Cada uma delas aumentou a exposição do país a mares temperados.

Rússia e península da Crimeia

Rússia e península da Crimeia

Pois a Crimeia entra nessa linha. Banhada pelo Mar Negro, situada a uma latitude de 45 graus, tem suas costas livres de gelo o ano inteiro. Do ponto de vista estratégico, é uma das joias da coroa. Para Moscou, aquela peninsulazinha vale ouro.

De qualquer maneira, era território russo até 1954, quando foi atribuída à Ucrânia por decisão burocrática tomada em Moscou. Na época, como a Rússia e a Ucrânia faziam parte da União Soviética, essa redefinição de fronteiras internas não trazia consequência. Hoje não é mais assim. Mas frise-se que a população daquele território ainda é majoritariamente de origem e de língua russa.

Os EUA e a UE podem reclamar, ameaçar, espernear ― não vai adiantar. Exagerando nas tintas, eu diria que é mais fácil os russos entregarem um pedaço da Sibéria que a Crimeia. Os estrategistas do mundo inteiro sabem disso. O que se vê estes dias não passa de jogo de cena. A Rússia lá está e lá continuará «duela a quién duela». (*)

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(*) Nota em atenção aos mais jovens
Em 1992, quando de uma entrevista à televisão argentina, Collor de Mello ― então presidente do Brasil ― soltou uma joia de puro portuñol. Querendo afirmar que todos os corruptos seriam desmascarados e punidos, traduziu ao pé da letra nossa expressão “doa a quem doer”. Ficou incompreensível para ouvidos castelhanos. Foi um desastre.

Que vexame!

José Horta Manzano

«Enquanto não recebermos o salário em dia, não retomaremos o atendimento», disseram os funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Paris enquanto fechavam as portas.

Atendimento restrito a emergências

Atendimento restrito a emergências
devido à falta de pagamento dos auxiliares locais

Quem nos traz a notícia é Roberta Namour, correspondente em Paris do site 247.

Como se não bastassem os desacertos de nossa diplomacia, os compatriotas do exterior são largados ao deus-dará. De barriga cheia, nossas autoridades se esquecem de que o mundo não se resume às mordomias palacianas de Brasília.

Deveriam ter sempre em mente que:

Interligne vertical 91. Todo trabalho merece salário.

2. Há três milhões de brasileiros no exterior.

3. Os bilhões de dólares enviados mensalmente ao Brasil pelos expatriados não são dinheiro especulativo. São fundos injetados definitivamente na economia nacional, sem contrapartida.

4. Os brasileiros do exterior votam para presidente da República.

Crédito: 247.com.br

Crédito: 247.com.br

Fica desbeiçada a imagem de Brasil grande que nossa atual administração gostaria de ressuscitar. O país mostra que continua com pés de barro. Deixar de pagar seus funcionários não é sinal de grandeza. Muito pelo contrário.

Burocracia

José Horta Manzano

É voz corrente que a burocracia brasileira é pesada. Carimbos, firmas reconhecidas, atestados, certificados e quejandos tornam ainda mais complicado o dia a dia do cidadão.Burocracia

Eu me pergunto, contudo, se esses entraves não seriam a essência, o espírito de nosso povo: desconfiado, minucioso, cheio de pormenores. Todo o mundo é considerado suspeito até que prove o contrário.

Ainda agora, estava lendo um artigo interessante de Bianca Pinto Lima publicado no Estadão deste 6 de março. A articulista lança um alerta aos que estão a ponto de declarar sua renda ao fisco. Lembra aos declarantes que certos erros primários e fáceis de evitar podem trazer consequências pra lá de desagradáveis.

Em seguida, o artigo discorre sobre limites, montantes admitidos, porcentagens, minúcias. Fiquei surpreso com um rigor detalhista ao qual não estou habituado.

by Serguêi Túnin, desenhista russo

by Serguêi Túnin, desenhista russo

Despesas com educação permitem abatimento de até 3’230,46 reais. Empregado doméstico dá ao patrão o direito de deduzir 1’078,08 reais de sua renda tributável. Cada dependente propicia franquia de 2’063,64 reais. Por que tamanha precisão? Por que 46 centavos aqui, 8 ali, 64 acolá?

Peço desculpa pela franqueza: muito mais do que exatidão, isso é burrice. Alguém já fez a conta dos minutos perdidos pelo declarante entre escrever e calcular os 8 centavos aqui e os 46 ali? Alguém já multiplicou esses minutos pelos milhões de declarações preenchidas a cada ano? Alguém já calculou o desperdício de tempo e de energia que isso acarreta ao País? Sem contar o risco de erro que, reforçado, acaba penalizando inocentes.

É simples remediar. Que se comece por desprezar os centavos nas declarações. Que se fixem montantes e deduções arredondadas. Nada de centavos. Se possível, que terminem em 10, 20, 30. Melhor ainda se terminarem em centenas redondas.

No nosso exemplo, os abatimentos ficariam assim:

Interligne vertical 10Educação = 3’200 reais
Empregado doméstico = 1’100 reais
Dependente = 2’100 reais

Não fica mais fácil? O que se perde aqui, ganha-se ali. Por que complicar? Um tijolinho cá, outro lá, um dia a casa fica pronta.

Deixo aqui a sugestão. Se algum de meus distintos leitores for um chegado do doutor Leão, que nos faça o obséquio de dar-lhe um toque. De leve, porque leão, como sabemos todos, é animal irracional.

Frase do dia — 116

«Le Vénézuéla c’est l’Ucraine de l’Amérique Latine.»

«A Venezuela é a Ucrânia da América Latina.»

Patricia Loison, apresentadora do Grand Soir 3, importante telejornal com duração de uma hora transmitido diariamente pela televisão francesa. Vai ao ar assim que termina o programa principal do dia. Em geral, começa por volta de 22h.

Quem tiver curiosidade de assistir vai encontrar neste link. A menção a nosso vizinho bolivariano está na edição de 5 mar 2014. Começa no minuto 17’30’’

Frase do dia — 115

«Tendo a acreditar, como dizem alguns inconformados com as decisões da última semana, que no STF de hoje nem mesmo a denúncia do Ministério Público contra os mensaleiros seria aceita.»

Marcelo Coelho, em sua coluna da Folha de São Paulo, 5 mar 2014.

Rapidinha 20

José Horta Manzano

Com a voz embargada

Pai, o que são embargos infringentes?

― É o seguinte, meu filho: imagine que nossa casa seja um tribunal e que, quando alguém erra, é julgado pelo voto de todos. Um dia, por exemplo, o papai comete um deslize e é apanhado traindo sua mãe com uma prostituta. Eu passarei por julgamento.

Sua mãe, a mãe dela, o pai dela, sua irmã mais velha, você e seu irmão mais velho votam pela minha condenação. Meu pai, minha mãe, a Lelé e a Mimi, nossas gatinhas, votam pela minha absolvição.

― Tá, pai, mas aí você terá sido condenado por 6 a 4, não?

Fonte: Colunacontraponto

Fonte: Colunacontraponto

― Sim. Mas é aí que entram os embargos infringentes, filho. Como eu recebi quatro votos a favor da absolvição, tenho direito a novo julgamento.

― Mas pai, no novo julgamento todos vão votar do mesmo jeito!

― Não se eu tiver trocado a sua mãe, o pai dela e a mãe dela, sua irmã mais velha, você e o seu irmão mais velho por 6 prostitutas da minha confiança, pagas para me inocentar!

Historinha entreouvida por aí.

Rapidinha 19

José Horta Manzano

Internet & Copa

Em regiões do mundo mais civilizadas que a nossa, a expressão «conflito fundiário» é desconhecida. Aqui e ali pode aparecer alguma briga de vizinho do tipo «Ele roubou um metro do meu terreno, seu juiz!». Não vai muito mais longe.

Antena 3Na Tupiniquínia, forasteiros europeus, africanos, médio-orientais e asiáticos ainda estão se batendo contra os que haviam chegado antes deles. Em outros termos: ainda estamos brigando com índio por causa de terra.

Leio hoje reportagem de Anne Warth, publicada no Estadão de 5 mar 2014. Enquanto a «Copa das copas» custará 30 bilhões(!) de reais, o artigo informa que a tecnologia 2G ainda é preponderante na internet brasileira.

Certos países ― poucos, é verdade ― têm a sorte de contar com dirigentes bem-intencionados e previdentes. Não é, infelizmente, nosso caso.

Não precisa ser doutor em futurologia para entender que o bom desempenho da rede nacional de internet é fator pra lá de importante para o avanço do País. Mais valia ter investido todos esses bilhões no desenvolvimento de tecnologia do que em construção de estádios.

Cena pré-diluviana

Cena pré-diluviana

As consequências ― memento Conselheiro Acácio! ― vêm sempre depois. Algumas semanas depois de os dirigentes da Fifa e de nossa República terem recebido a vaia final no Maracanã, a «Copa das copas» já terá sido esquecida. E os desafortunados tupiniquins terão de trabalhar por alguns decênios para tapar, com seus impostos, o rombo causado ao Tesouro Nacional pela insensatez de um punhado de mandarins deslumbrados, apalermados e interesseiros.

E a internet? A tecnologia 5G já está apontando na esquina. Previsões realistas dão como certa sua introdução nos próximos 5 ou 6 anos. Enquanto isso, a maioria dos brasileiros ainda engatinha com seu pré-diluviano 2G.

E as tarifas? As nossas estão entre as mais elevadas do planeta. É o preço a pagar para ter acesso ao Primeiro Mundo, ora pois!

Alô? Está lá?

Frase do dia — 114

«Foi-se o tempo em que os idealistas se candidatavam [a postos eletivos] com o desejo de ajudar o povo na busca de caminho decente (…). Hoje essa qualidade de gente é minoria. Os gananciosos, egoístas, injustos e irresponsáveis assumiram a direção de nosso destino ― em arriscada jornada.»

Vera Brant, in Correio Braziliense, 3 mar 2014.

Do trabalho que dá ter um cachorro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Muitas pessoas já me pararam no meio da rua, admiradas com minhas cachorras – seja por seu porte, por sua estrutura corporal, pela beleza e brilho de seus pelos longos, por seu ar de vivacidade ou, ainda, por sua doce mansidão – para me fazer sempre uma mesma pergunta: “Dá muito trabalho?”Cachorro 2

Nunca soube responder com precisão a essa pergunta. Gastava sempre alguns minutos me perguntando se a rotina diária de cuidados com elas podia ou não ser enquadrada na categoria “trabalho”. Explico melhor: para mim, trabalho e prazer não são categorias mutuamente excludentes. Na cabeça de muitas pessoas, trabalho vem normalmente associado a obrigação, sacrifício, dedicação, esforço, atos repetitivos, chatice, tensão, busca por resultados, etc.

Já prazer é comumente associado a ficar deitado de barriga para cima, preferencialmente ao ar livre, sem fazer nada e, no mais das vezes, desfrutando de algum estímulo revigorante, como uma brisa, uma bebida gelada, uma comidinha bem temperada, carícias corporais, etc. Para meu cérebro, entretanto, a coisa não é tão simples assim. Nem sempre dá para catalogar os cuidados necessários para a manutenção de uma vida saudável [humana ou animal] em um único dos extremos dessa falsa dicotomia. Quem faz o que gosta, meu cérebro não se cansa de argumentar, não considera isso um trabalho, apenas e tão somente se delicia fazendo o que precisa ser feito. Como todas essas ponderações sempre me ocorriam ao ouvir a pergunta, eu impulsivamente devolvia: “Depende do que você considera trabalho!”

A piada é velha mas, ainda assim, acho que vale a pena ilustrar com ela o que eu tentava comunicar: “Você sabe que está ficando velho quando o trabalho dá prazer e o prazer dá trabalho”. Como já estou “entrada em anos” e tenho tido poucas oportunidades de me deleitar com outros prazeres, resolvi dedicar o tempo que me sobra para condensar numa espécie de “cartilha” minhas percepções a respeito do trabalho que dá ter um cachorro. Ofereço a lista de pontos abaixo como minha contribuição pessoal para que entusiastas da posse responsável de animais de estimação (não conheço muito sobre gatos, minha referência é o trato com cachorros) possam tomar uma decisão informada.Cachorro 1

Interligne vertical 91. Cachorros não sabem limpar os pés no capacho. Em função disso, você corre sempre o risco de ver o piso que acabou de limpar ser conspurcado por uma trilha de pegadas de patinhas sujas de terra, de xixi ou de cocô.

2. Cachorros não sabem sugar nem aspirar sua própria baba. Dessa forma, o lugar determinado por você para eles tomarem água vai estar sempre circundado por uma pocinha peculiar e, muitas vezes, haverá uma trilha de respingos indicando o trajeto que eles fazem indo e voltando do pote.

3. Cachorros nunca se tornarão independentes de você para se alimentar, tomar água, tomar banho, nem para fazer suas necessidades fisiológicas de uma maneira ecologicamente sustentável e higienicamente responsável. Cabe a você tomar todas as providências necessárias.

4. Cachorros não falam e, portanto, você vai ter de se esforçar muito para compreender o que eles estão querendo comunicar quando o olham com aquele ar de perplexidade, principalmente quando esse olhar vem acompanhado de desobediência. Também não adianta nada perguntar o que está acontecendo quando eles ficam deitados por muito tempo e se recusam a comer.

5. Cachorros carregam para dentro de sua casa – nas patas e nos pelos – uma série infindável de bactérias, germes, virus, alérgenos de toda espécie, galhinhos, torrões de terra, pulgas, carrapatos e outros desafios importantes ao seu sistema imunológico. Tudo o que você precisa fazer é se perguntar: eu acredito que meu sistema imunológico é reforçado ou se fragiliza diante desses desafios?

6. Cachorros não fazem nenhuma ideia de suas dimensões corporais nem de seu peso e, além disso, não sabem calcular distâncias muito bem. Assim, seus móveis, cristais, pratarias e bibelôs estarão permanentemente em risco quando de seus deslocamentos dentro de casa, principalmente quando eles estão felizes e abanando seu rabo com vigor.

7. Cachorros costumam se empolgar – tanto no sentido afetuoso quanto agressivo – quando encontram pelas ruas algum companheiro de quatro patas e, portanto, você precisará ficar eternamente em alerta para evitar tropeções e arrastões. Caso o encontro seja com humanos, você precisará cuidar para que não assustem nem derrubem crianças pequenas ou idosos debilitados. Outro cuidado sempre necessário é treina-los para que não façam movimentos bruscos nem saiam correndo caso se assustem com o ruído do trânsito.

8. Cachorros não obedecem às convenções sociais. Podem cheirar suas partes íntimas sem qualquer pudor, pular nas suas visitas, agarrar-se às suas pernas e pés, fazendo movimentos copulatórios explícitos, e até mesmo fazer xixi como forma de demonstrar alegria por vê-lo.

9. Cachorros podem produzir ruídos altos e irritantes por horas a fio quando se sentem sozinhos mas, certamente, o que mais vai incomodá-lo é quando eles ficam em silêncio absoluto por muito tempo. Não dê chance ao azar: levante-se imediatamente tão logo se dê conta de que eles estão muito quietos e vá verificar o que eles estão aprontando. Nove vezes em dez você terá surpresas desagradáveis.

10. Cachorros não sabem determinar o valor dos objetos que encontram em seu caminho – nem em termos financeiros, nem em termos afetivos. Seus óculos, seu celular, o controle de seus aparelhos eletrônicos, seus documentos, boletos de pagamento, aqueles seus sapatos caríssimos, aquela roupa que você adora, seus acessórios, suas jóias, etc. despertarão sempre uma grande curiosidade neles. Como cachorros não tem mãos para segurá-los e examiná-los mais de perto, eles os colocarão em sua boca e experimentarão seu gosto e sua textura. Caso gostem…

11. Cachorros podem despertar temor, raiva ou ternura em terceiros. Ao circular com eles em elevadores, nas ruas, nos parques, esteja preparado para enfrentar reações imprevisíveis das pessoas com quem você cruza. Elas podem ir desde os afagos e elogios até gritos, impropérios e escoriações generalizadas – em você, neles e nos tais terceiros.

12. Cachorros não podem ser deixados sozinhos por muito tempo – nem ao longo de um único dia, nem principalmente quando de suas férias, viagens a trabalho ou de lazer, compromissos de última hora, doenças, ou simples cansaço. Tenha sempre à mão o telefone de um hotelzinho, spa ou clube de campo para pets. Nem pense em pedir a seus familiares e amigos para ficarem com eles, já que, no mais das vezes, você receberá apenas um sorriso amarelo de volta. Qualquer que seja a solução encontrada, você terá sempre de arcar com os custos de hospedagem, alimentação e transporte.

13. Cachorros são emocionalmente “grudentos”. Transformam-se em suas sombras e o acompanham caminhando literalmente em seus calcanhares onde quer que você vá. Estão sempre necessitados de atenção e não se constrangem em lançar aqueles olhares “pidões” solicitando que você jogue bolinha com eles, que os acaricie ou que interrompa qualquer coisa que esteja fazendo, por mais importante que seja, só para olhar para eles.

14. Cachorros não têm noção de tempo. Para eles, não existe passado nem futuro. Assim, não adianta nada você caprichar na bronca por algum malfeito que eles tenham perpetrado apenas alguns minutos atrás ou que você já cansou de tentar corrigir, nem pedir que eles esperem você terminar o que está fazendo para levá-los para passear. Mas atenção: essa desvantagem tem um lado bom. Cachorros não guardam ressentimentos, não vão nunca jogar na sua cara seus descontroles emocionais do passado nem querer “discutir a relação”. Depois de um conflito qualquer, basta chamá-los que eles virão correndo, balançando alegremente o rabinho.

15. Cachorros são seres paradoxais. Apesar de serem a causa direta ou remota de tantos transtornos, desconfortos, ameaças, irritações e constrangimentos no seu cotidiano, certamente o seu pior defeito é estabelecer um padrão de relacionamento que não encontra paralelo na espécie humana. Eles fazem com que você se acostume a esperar das pessoas o mesmo comportamento ético, a mesma lealdade, a mesma sensibilidade para decifrar suas emoções e aquele mesmo olhar de admiração. Daí….. você desaprende a viver sem eles!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga.

A atração do lucro

José Horta Manzano

Semana passada, depois de hesitar por um tempo, a Fifa formalizou sua decisão: no futebol feminino, ficam as jogadoras autorizadas a atuar com a cabeça envolta pelo véu islâmico. A entidade máxima do ludopédio acredita que, com isso, a disseminação do esporte se fará mais facilmente nos países muçulmanos. É sempre um dinheiro a mais que vai guarnecer os cofres da organização, isso sim.

À primeira vista, é decisão sem grande alcance. Se futebol feminino já é esporte pouco difundido, o interesse do apreciador brasileiro médio por um jogo entre mulheres cobertas por véu é praticamente nulo. Assim é na maior parte do globo. Seria como se anunciassem que os jogadores de críquete estão proibidos de usar roupa verde, para evitar que se confundam com o gramado. Que coisa mais sem importância, não?

Futebol com véu islâmico

Futebol com véu islâmico

Pois o mundo é vasto. O que passa batido por aqui pode engasgar ali. Em alguns países europeus ― mas especialmente na França ― a integração de imigrantes de origem muçulmana tem sido problemática. Uma sequência de erros históricos cometidos nos últimos 60 anos levou a uma situação bastante tensa.

Na França, o uso do véu é regulamentado. A burca ― o véu integral ― é banida do espaço público. Quanto aos outros tipos de mantilha, não se passa uma semana sem que estoure algum incidente. Ora é uma funcionária pública que se obstina a cobrir a cabeça onde não é permitido, ora é uma jovem muçulmana agredida por ter andado descoberta nas cercanias de um bairro majoritariamente muçulmano.

A situação é confusa. Franceses de origem europeia se sentem invadidos. Franceses de origem árabe se sentem discriminados. Embora a convivência transcorra sem verdadeiros problemas, paira sempre no ar um perfume de desconfiança ― pra não dizer de ressentimento ― entre duas comunidades que têm dificuldade em se amalgamar. Políticos oportunistas fazem questão de soprar as brasas a fim de angariar votos entre os mais descontentes.

Pois bem, a decisão tomada pela Fifa causou um pequeno terremoto de Paris a Marselha, passando por Lyon e Nice. A lei francesa regulamenta o porte de véu por mulheres no espaço público.

Futebol com véu islâmico

Futebol com véu islâmico

A França é diferente do Brasil. Não passaria pela cabeça de um parlamentar francês alterar a legislação nacional para satisfazer a entidade máxima do futebol, como fizeram, sem hesitar, os eleitos brasileiros.

Gente do ramo foi entrevistada estes dias por jornais, rádios e emissoras de televisão. Todos se mostraram fechados a toda ingerência externa em assuntos internos do país. No estrangeiro, que cada um faça como quiser. No território francês, mulher que quiser jogar futebol terá de fazê-lo cabeça descoberta.

C’est comme ça ― assim é.

Rapidinha 18

José Horta Manzano

Quem tem pressa come cru

Madame Bernadette Chirac, mulher de Jacques Chirac, foi esposa do prefeito de Paris durante 18 anos, esposa do Primeiro-Ministro por 4 anos, esposa de um ministro da República por 10 anos e mulher do presidente da República durante dois mandatos.

Hoje, com 80 anos mas ainda muito ativa, é a antiga primeira-dama mais apreciada pelos franceses. Presidente da Fundação dos Hospitais da França, encabeça, todo mês de janeiro, uma campanha nacional de arrecadação de fundos para hospitais infantis.

Bernadette Chirac

Bernadette Chirac

A «Opération Pièces Jaunes» ― Campanha das Moedinhas Amarelas ― conclama a população a doar as moedinhas de pouco valor (geralmente de cor amarela ou avermelhada). Um punhadinho não faz muita falta no bolso de ninguém, mas, juntas, podem formar um patrimônio que será utilizado para minorar o sofrimento de quem precisa.

No Brasil, é verdade, os tempos estranhos que vivemos nos desacostumaram a esse tipo de empenho pessoal em troca de nada. Há quem faça, desde que seja na base do toma lá dá cá. Mas essa é uma outra história.

Quinta-feira passada, um automóvel, possivelmente para cortar caminho, pegou uma ruazinha parisiense na contramão. Deu zebra. Estava ali justamente um policial, que ordenou ao carro que parasse. Baixado o vidro, o guarda descobre que, além do motorista, o veículo transporta, no banco de trás, uma passageira famosa: Madame Chirac.

Exasperada pela parada, que atrasava ainda mais o compromisso ao qual se dirigia, a velha senhora ameaçou continuar seu caminho a pé, largando guarda, motorista e veículo. A estratégia não deu certo. Mesmo sendo uma das personagens mais admiradas pelos franceses, teve de seguir a lei igualzinho aos demais. O coração do guarda não amoleceu. Bernadette Chirac continuou acomodada no banco e o carro foi obrigado a dar meia-volta.