A pressa é inimiga da perfeição?

Myrthes Suplicy Vieira (*)


A pressa é inimiga da perfeição?


Depende. Se você for um burocrata distraído e, principalmente se trabalha com números, é muito provável que a pressa seja mesmo inimiga da perfeição. Com quase toda certeza, se você for um neurocirurgião de ponta operando um AVC hemorrágico posicionado numa região cerebral muito delicada ou inacessível, sua necessária atenção aos mínimos detalhes pode também ser comprometida pela sensação de urgência. Por outro lado, se você for um socorrista do SAMU atendendo a um acidente de trânsito grave com muitas vítimas, piloto de helicóptero da PM, motorista de ambulância ou bombeiro atendendo a um incêndio em um asilo de idosos ou na UTI neonatal de um grande hospital, a pressa pode muito bem ser entendida como um estímulo à perfeição.

O desafio é sempre, em todos os casos, equilibrar a entrega do trabalho dentro do menor prazo possível e com o maior padrão de excelência/qualidade disponível. A isso se dá o nome de competência e, para atingi-la, é preciso contar com uma equipe multidisciplinar altamente capacitada para acompanhar cada etapa do processo e comunicar rapidamente aos demais envolvidos a necessidade de providências extraordinárias.

Doutor Queiroga não entendeu bem, no início, onde o presidente queria chegar ao pedir que ele impedisse – ou, em caso de insucesso por falta de argumentos técnico-científicos convincentes, que atrasasse ao máximo – a vacinação infantil. Mas anuiu mesmo assim. Depois que lhe explicaram que seu chefe ainda oferecia muita resistência ao projeto e estava inseguro quanto à ocorrência de eventuais efeitos colaterais graves nesse público que poderiam cair nas suas costas, ele finalmente vislumbrou uma solução: discutir o tema com todos os órgãos intermediários de controle e com a sociedade civil organizada, antes da tomada final de posição do Ministério da Saúde. Não contava, porém, com a agilidade dos técnicos da Anvisa para aprovar por unanimidade a vacinação para esse segmento etário e o beneplácito de um sem-número de associações de pediatria, imunologia e infectologia.

No afã de mostrar serviço e agradar à chefia, sem comprometer sua permanência no cargo, ele no entanto acabou trocando as bolas: entendeu que sua missão era a de entregar a pior qualidade possível (no sentido da urgência do pedido de compra de novas doses e da logística de distribuição aos estados) dentro do prazo mais dilatado autorizado pelo STF. E foi isso o que ele fez, com total denodo. Contrariando todas as expectativas até mesmo de pais e mestres, ele imaginou ter feito um pronunciamento médico respeitável, durante o qual tentou disfarçar seu servilismo acrítico e sua incompetência atrás da alegação cor-de-rosa de que está comprometido com a segurança dos pequeninos brasileiros. Seria comovente se não fosse pela inevitável comparação com o desempenho tétrico de seu antecessor.

Um antigo colega consultor de empresas desenvolveu um conceito revolucionário para explicar às chefias as causas de frequentes erros em áreas sensíveis da organização capitaneadas por um gestor imaturo, autoritário ou inexperiente, que me encanta desde sempre: o da Síndrome da Anuência Precoce. Sabe aquele garoto assustado, acostumado a ser maltratado por um pai arrogante, perfeccionista e ditatorial, que não consegue ouvir até o fim a mais nova exigência de cumprimento de uma tarefa que lhe é apresentada aos berros? Então, dada sua enorme ansiedade e medo de falhar, a criança não consegue interromper a fala do pai para pedir esclarecimentos adicionais, contra-argumentar com dados realísticos ou tentar negociar um prazo mais elástico. Atira-se de cabeça na tarefa e, afundado na angústia da provável surra que vai levar se não obedecer aos conformes do combinado, não se organiza, atropela as fases do processo, ignora a necessidade de revisão da eficácia dos procedimentos adotados em cada passo e descuida do acabamento, terminando por falhar miseravelmente outra vez. À culpa vem se somar a crença de que é burro, desajeitado e não talhado para se destacar no mundo profissional. Pronto, está criado mais um jovem neurótico, especializado na arte de responsabilizar as contingências de sua vida, botar a culpa em terceiros e se alienar de toda e qualquer iniciativa no futuro.

Mesmo um observador não-treinado pode afirmar com toda a segurança que o fenômeno atinge pesadamente todos os integrantes do ministério bolsonarista. Da educação e cultura (inserida curiosamente, para vergonha nossa diante dos espantados olhares de estrangeiros, na estrutura do ministério do turismo), passando pelo Itamaraty e pelas Forças Armadas, até os criativos ministérios da economia e do meio-ambiente (que não se cansam de apresentar em fóruns internacionais um Brasil que desconhecemos integralmente), não há um só dia em que não sejamos convidados a interpretar as estatísticas nacionais sob o prisma de Alice no País das Maravilhas, elaboradas por orgulhosos portadores crônicos da Síndrome de Anuência Precoce.

Mas não se preocupe, prezado concidadão. Tudo isso deve acabar em breve. Deve ser apenas um efeito colateral indesejado da prevalência de militares em cargos civis de grande especialização técnica. E, para um militar, contrariar a voz de comando é uma insensatez inaceitável. Quem diria que um ex-capitão reformado por indisciplina agregaria tanto poder e influência para fazer calar generais e humilhar em público os mais prestigiados cientistas e instituições nacionais?

Que falta faz um estadista! Cuidado redobrado com quem você vai eleger no ano que vem.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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