No llores por mi

José Horta Manzano

Não é de hoje que a história dos dois vizinhos ibéricos, Portugal e Espanha, se entrelaça. Condenados a uma proximidade física incontornável, os dois países já viveram momentos de tensão, de briga, de reconciliação. Houve até um longo período de unificação, que os espanhóis conhecem como «união fraterna» ou «união dinástica», enquanto os portugueses o chamam «domínio espanhol» quando não «abominável dominação castelhana».

Críquete

Críquete

Na época das grandes navegações, a partir de 1450, a concorrência entre os dois reinos se acirrou. No entanto, o sentimento de nacionalidade, tal como o conhecemos hoje, ainda não estava ancorado nos espíritos. Decisões pessoais e procedimentos individuais que atualmente poderiam se assemelhar a uma traição à pátria eram encarados com naturalidade.

Sem o menor sentimento de culpa, navegadores espanhóis punham-se ao serviço do rei de Portugal, assim como portugueses serviam à Casa Real espanhola. O ultraconhecido Fernão de Magalhães, o primeiro a comandar uma expedição que deu ― reconhecidamente ― uma volta completa ao planeta, era português. Mas navegou a serviço da coroa espanhola.

Quase um século depois de Magalhães, um outro português, nascido em Évora em 1565, também se pôs a explorar novas terras a serviço do rei da Espanha. Chamava-se Pedro Fernandes de Queirós, nome que às vezes aparece castelhanizado em Fernández de Quirós.

Naquela época já se intuía que devesse existir um grande continente austral. As nações mais bem equipadas para fazê-lo lançavam periodicamente expedições em busca de novas descobertas.

Alguns historiógrafos já tentaram demonstrar que Fernandes de Queirós foi o primeiro europeu a avistar as costas australianas, décadas antes de Tasman e de Cook. Os documentos que nos chegaram, no entanto, não trazem a prova incontestável de tal primazia.

Muitos acreditam também que o navegante português tenha sido o primeiro europeu a chegar à ilha de Tahiti, em 1606. Se a grande ilha onde desembarcou a expedição era realmente Tahiti, é difícil afirmar. Nenhuma prova sobreviveu. A descoberta oficial da ilha é atribuída a uma expedição britânica que lá acostou 150 anos mais tarde.

Tahiti

Tahiti

Depois de seu achamento, a ilha foi objeto de disputa entre ingleses e franceses, uma história longa e acidentada. Em 1877, o último rei autóctone abdicou do trono em favor da França. Desde então, Tahiti perdeu sua soberania e tornou-se colônia francesa.

O termo colônia, em desuso há mais de 50 anos, é hoje politicamente inaceitável, quase ofensivo. As antigas dependências francesas hoje são conhecidas como departamentos ou territórios ultramarinos.

Tahiti faz parte da Polinésia Francesa, coletividade subordinada a Paris. A língua oficial da ilha é o francês, mas o falar originário guardou sua vivacidade. A maioria da população é bilíngue. Na política, persiste uma forte corrente a favor da independência do território.

Les Nouvelles de Tahiti 24 junho 2013

Les Nouvelles de Tahiti
24 junho 2013

Tahiti não é terra de futebol. Fica até difícil entender por que a fraca seleção local foi chamada a participar de um torneio como a Copa das Confederações. Por mais que os jogadores sejam simpáticos, há uma discrepância gritante ― em matéria de excelência futebolística ― entre o nível tahitiano e o das demais equipes.

De qualquer maneira, a leitura dos jornais locais desta segunda-feira deixa claro que os resultados da Copa não fazem parte das preocupações principais do povo de lá. Nenhum dos dois principais quotidianos faz, na primeira página, menção alguma ao evento que nós outros julgamos planetário. Para você ver…

La Dépêche de Tahiti 24 junho 2013

La Dépêche de Tahiti
24 junho 2013

As derrotas acachapantes sofridas pela sorridente seleção polinésia abalaram mais os brasileiros que os tahitianos. É mais ou menos como se a seleção brasileira de críquete ou de beisebol fosse esmagada por adversários mais fortes. Poucas lágrimas correriam.

De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação soa estranha. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Municípios suíços

Municípios suíços

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, o nome é vilarejo (=village).

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é uma honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o mesmo sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade.

Vilarejo Crédito: Jamyshots.com

Vilarejo
Crédito: Jamyshots.com

No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, no ano passado. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de meio milhão de viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França ― ah! o país das regulamentações rigorosas ― a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE gaulês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando sua população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau (=lugarejo, aldeia, arraial)(*).Interligne 13

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente.

Cidade imaginária

Cidade imaginária

Estive lendo hoje sobre a onda atual de desmembrar municípios existentes para criar novos. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, a proximidade das eleições incentiva esse tipo de «bondade». Mais que possível, é altamente provável que um exército de novos municípios apareça nos próximos meses.

Na Europa, temos assistido a um movimento inverso. Mais instruídos, os cidadãos resistem a acatar bovinamente caprichos e casuísmos vindos do andar de cima.

Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos fizeram as contas e chegaram à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensavam amplamente a perda de autonomia.

Hameau Crédito: kako.artblog.fr

Hameau
Crédito: kako.artblog.fr

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos atuais mandachuvas brasileiros confirma que pouco mudou desde o Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas.

É bom que acordem a tempo.Interligne 18

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham, Arnhem, Mannheim, Trondheim são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

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Falta espaço

José Horta Manzano

Quem já teve ocasião de chegar a Londres de avião deve ter reparado ― se o tempo estava claro e sem névoa, coisa rara por aquelas bandas ― que a metrópole britânica é composta de casinhas baixas, cada uma com seu jardinzinho e muitas com quintal.

Como é possível que uma aglomeração de mais de 12 milhões de almas possa se dar ao luxo de ter aquela multidão de casinhas, cada uma com seu terreno, sua grama e suas flores? É ainda mais intrigante se pensarmos que o Reino Unido, com uma superfície comparável à do Estado de São Paulo, abriga 60 milhões de habitantes.

E a Europa, então, com seus 750 milhões de viventes? Deveria ter a aparência de um formigueiro, mas não tem. Qual é o segredo?

Aglomeração urbana em pouco espaço

Aglomeração urbana em pouco espaço

Uma dispersão populacional lenta, como a Europa conheceu ao longo dos últimos dois milênios, favorece o estabelecimento dos habitantes de maneira pouco concentrada, mais equilibrada. Já o povoamento rápido que caracterizou o Brasil no século XX privilegiou o inchaço de aglomerações.

Entre 1900 e os dias atuais, a população europeia não chegou a dobrar ― seu aumento foi de 76%. No mesmo período, a população do Brasil mais que decuplicou, num aumento superior a 1000%. As cidades oferecem melhores perspectivas que o campo. É compreensível que os numerosos novos habitantes de nosso País, imigrantes ou nascidos na terra, tenham preferido aglomerar-se em meio urbano.

A enorme procura por espaço para morar, aliada à precariedade dos transportes, faz que o preço da terra suba às alturas. O resultado é que os terrenos oferecidos têm superfície ridiculamente exígua. Casas e prédios são construídos praticamente colados uns aos outros, dando esse aspecto apinhado, que lembra vagamente a China ou a Índia.

Nosso País é palco de contrastes difíceis de explicar a olhos estrangeiros. Latifúndios de milhares de hectares se estendem pelo interior das terras, vazios, sem um casebre para contar a história. Pode-se percorrer quilômetros sem encontrar vivalma. Os brasileiros se amontoam em aglomerações ultradensas, dentro de perímetros minguados, fato que contribui para estimular comportamentos agressivos e suas nefastas consequências.

Não só as pessoas vivem empilhadas, mas também as plantas, como nos mostra artigo publicado no Correio Braziliense.

Plantas em pirâmide Crédito: Correio Braziliense

Plantas em pirâmide
Crédito: Correio Braziliense

Alguns até podem encontrar uma certa beleza plástica nesse estado de coisas, mas não passa de estética. No fundo, o bom mesmo é viver em sua casinha, com seu jardinzinho, sem vizinho em cima, sem vizinho embaixo, com espaço para abrir os braços.

Infelizmente, a persistir o estado calamitoso do transporte público nas aglomerações brasileiras, a casinha com terreno generoso ainda é um sonho longínquo.

Quem tem padrinho

José Horta Manzano

Jacques Chirac, que foi presidente da República Francesa por 12 anos seguidos, é grande admirador do Japão e de sua cultura. Dizem que o respeito que ele nutre por aquele país é sincero.

Segundo diversas fontes, o antigo presidente fez mais de 50 viagens ao País do Sol Levante. Era apaixonado pelos combates de sumô. O objetivo de algumas de suas visitas teria sido exatamente o de assistir a torneios desse esporte.

François Hollande, presidente atual, está estes dias em visita oficial ao Japão. Fazia 17 anos que um evento dessa importância não ocorria. A última visita de um chefe de estado francês àquele país havia sido em 1996.

Que se saiba, Hollande não nutre nenhuma paixão especial pelo arquipélago nipônico. No entanto, em discurso pronunciado no parlamento de Tóquio nesta sexta-feira, não foi por caminhos tortuosos: declarou, explicitamente, que o Japão deve tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. É impossível ser mais claro.

Se a paixão que Chirac nutria pelo país oriental era pessoal e sincera, não se pode afirmar que a declaração de Hollande venha do fundo do coração. Em política, principalmente em relações internacionais, as atitudes obedecem a um emaranhado de interesses. O que parece nem sempre é.Interligne 10

Quando dona Dilma anunciou, semana passada, que o dinheiro emprestado aos governos corruptos da África será dado por perdido, não o fez porque tem bom coração. Há outras intenções por detrás dessa atitude estranha, intempestiva, inesperada. Alguns, como Elio Gaspari, veem lá interesses econômicos. Pode ser. Eu percebo, mais que isso, uma manobra malandra e sorrateira, que nenhum benefício trará ao povo brasileiro.

ONU ― Conselho de Segurança

ONU ― Conselho de Segurança

Já faz bem uns 10 anos que o alto escalão de nossa República elegeu como objetivo internacional principal a obtenção de assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Com o tempo, foi-se tornando fixação obsessiva. Dado que velhos rancores impedem a muitos mandachuvas brasileiros de se aproximar daqueles que realmente decidem, nossa diplomacia tem-se dedicado a fazer lobby junto a governos inexpressivos.

A África, com seus 54 países em maioria pobres, representa ― na visão da diplomacia brasileira ― um cabo eleitoral de peso na batalha que o governo decidiu travar para obter o ansiado assento. Daí o esforço para parecer simpático a tiranos e cleptocratas africanos, segundo a pluma irreverente de Gaspari. É o programa bolsa-família expandido em escala planetária. Cooptam-se dirigentes estrangeiros corruptos a fim de conseguir apoio à cruzada brasileira rumo ao CS.Interligne 10

Tampouco a declaração de Hollande corresponde a um sentimento de especial amor pelo Japão. É nada mais que um puxão de orelhas aplicado ao governo chinês. Eis o que aconteceu.

Alguns dias atrás, ao se dar conta de que a China estava praticando dumping para acaparar o mercado europeu de painéis de energia solar, o governo francês ameaçou penalizar a importação desses artefatos produzidos na China. Em represália imediata, o governo chinês garantiu que estava estudando aumentar drasticamente as tarifas de importação de vinhos franceses.

Pronto, está aí a continuação da novela. A declaração de Hollande não passa de retórica. Está mais para jogo de cena. São palavras vazias que, no entanto, podem trazer bom retorno. Por um lado, alfinetam a China ― grande adversária da entrada do Japão no CS; por outro, afagam o orgulho nipônico. Quem é que não gosta que se lhe alise o ego?

Interligne 10

Resumo da ópera
Cinco dos membros permanentes do CS da ONU têm poder de veto. Basta que um só deles ― EUA, Rússia, China, Reino Unido ou França ― oponha seu veto a uma resolução, e ela será rechaçada e despachada para o arquivo morto.

Portanto, claro está que não adianta Monsieur Hollande jogar flores ao hóspede. Enquanto a China se opuser, o Japão não entrará no CS.

Tampouco adianta dona Dilma esbanjar na África perto de um bilhão do dinheiro suado dos brasileiros. Melhor faria se gastasse seu tempo e seu esforço fazendo o necessário para cativar os grandes, os que decidem. Quem tem padrinho não morre pagão.

É melhor entrar pela porta da frente. Dá mais certo do que forçar a janela.

O plebiscito

José Horta Manzano

Domingo 10 e segunda-feira 11 de março, os habitantes das Ilhas Falkland/Malvinas estão sendo chamados às urnas. Devem responder se querem que seu arquipélago continue a fazer parte do Império Britânico. Prevê-se que o sim vença por esmagadora maioria.

A intenção do Reino Unido é reforçar sua posição para fazer face às recorrentes reivindicações argentinas sobre o território. Um sim maciço permitirá aos britânicos proclamar que, além de já terem a posse de facto, os ilhéus querem manter o statu quo ante bellum, o estado em que as coisas estavam antes da guerra. Em outras palavras, nem os donos da terra, nem muito menos seus habitantes desejam que a situação mude.

As Falkland/Malvinas são um caso peculiar. A história daquele pedaço de terra desolado, frio, sem árvores, batido pelos ventos já começa tão enevoada como o clima. Américo Vespúcio em pessoa, ingleses, espanhóis e até holandeses são apontados como primeiros visitantes das ilhas. Provavelmente não saberemos nunca quem foi o pioneiro. Pouco importa.

Nos primeiros 250 anos, ninguém se interessou em providenciar envio de população para ocupar e colonizar as ilhas. Os estabelecimentos europeus não ultrapassaram o estágio de simples presença militar.

Os primeiros a tentar implantar uma colônia, com famílias, foram os franceses, já na segunda metade do século XVIII. A colônia não prosperou, mas o nome ficou. Grande parte dos colonos vinha do vilarejo francês de Saint-Malo, na região da Bretanha. Os de Saint-Malo são chamados «malouins». Daí terem rebatizado as ilhas como «malouines». Os espanhóis gostaram da ideia e logo hispanizaram para «malvinas».

Saint-Malo, Bretagne, France

Saint-Malo, Bretagne, France

Longe de tudo e de todos, impróprio para a agricultura, o território foi abandonado por hispânicos e por franceses. No início do século XIX, as colônias sul-americanas foram, uma após a outra, declarando sua independência da coroa espanhola. O Império Britânico, potência dominante, entendeu que a maneira mais eficaz de guardar uma presença estratégica no Atlântico Sul seria instalar uma colônia e povoar aquelas ilhas desoladas que não interessavam ninguém.

O plano tornou-se realidade a partir de 1833. Podemos, assim, dizer que, salvo alguma incursão de caráter militar, os primeiros e únicos habitantes do território são de origem britânica. Estão lá há 180 anos, o que equivale a cerca de uma dezena de gerações.

Quem é o dono? Será o que reivindica sua posse baseado em legado histórico ou documental? Ou será o povo que aí nasceu, tirou seu sustento da terra, aí se reproduziu e criou filhos, num ciclo que já dura quase dois séculos?

A resposta não é simples nem evidente. Se fosse tão fácil, a tensão que eletriza o Oriente Médio seria bem mais branda. Que dizer de Gibraltar, um enclave inglês em território espanhol? E com Ceuta e Melilla, enclaves espanhois em território marroquino, como é que ficamos? E que dizer então de Büsingen, pequeno município alemão encravado na Suíça, cercado de território helvético por todos os lados?

Não tenho a resposta, muito menos a solução. Mas tendo a levar em conta o princípio do usucapião. Seja quem for o dono da terra abandonada, seja qual for o motivo do abandono, uma ocupação continuada pode transformar o «invasor» em dono. A meu conhecimento, não há legislação internacional regulando esse assunto. É complexo e delicado demais.

No fundo, o que continua valendo é a lei do mais forte.

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Quem se interessar pode consultar o site do Telegraph de Londres sobre o plebiscito. O artigo traz vídeos de interessantes entrevistas com ilhéus. Aqui.

UE e Mercosul

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 janeiro 2013

Marché communCasamento só faz sentido se for completo e consumado. Se não, não passará de aliança, combinação, arreglo, confraria. É a conclusão amarga a que estão chegando os que acreditaram que a União Europeia desembocaria numa união política federal. O navio está fazendo água e, pelo jeito, o casamento não se consumará.

Assim como a extinta URSS deixou pelo caminho levas de viúvas ― algumas das quais até hoje se recusam a deixar cair a ficha ―, a União Europeia já começa a engendrar seus órfãos.

As recentes ameaças proferidas pelo primeiro-ministro britânico não deixam dúvidas: seu povo não vê mais vantagem em continuar amarrando seu destino ao do continente. Mais dia, menos dia, Londres periga anunciar o divórcio.

Mas comecemos pelo começo. As cinzas da Segunda Guerra racharam a Europa em dois campos antagônicos. A URSS acaparou um deles e tratou de amansar seu novo protetorado. A ferro e a fogo. Deixou claro que ordens do Kremlin não eram passíveis de contestação.

O outro campo ficou solto, como nau sem mastro. Faziam parte dele perdedores da guerra (Alemanha, Itália), ganhadores (Reino Unido, França) e países neutros. Para complicar, havia a sombra amiga mas acachapante dos EUA. Esse ecletismo tornava difícil designar um ponto de convergência.

Se objetivo comum havia entre as nações do bloco ocidental, era a firme determinação de enterrar de vez o espectro da guerra. Fora isso, cada um tinha suas necessidades próprias. A Alemanha, derrotada e fragmentada, sonhava com sua reunificação. A Itália, destruída e cansada de guerra, queria crescer e estancar o sangramento que a emigração maciça lhe causava. A França, a Holanda, a Bélgica tinham um projeto comum: docilizar e conter a vizinha Alemanha, que tanto mal lhes havia feito e que tanto temor ainda infundia. O Reino Unido sonhava recobrar o status de potência mundial que tinha usufruído por mais de um século. Espanha e Portugal queriam distância: seus dirigentes ambicionavam tão somente conservar o poder que tinham conquistado.Mercosul 2

Se pessoas se casam, firmas se associam, entidades se fundem, países se unem, será por imposição ou porque algum interesse comum os aproxima. De amor, o casamento europeu certamente não foi. Se foi de razão, as motivações inconfessas de cada membro acabaram por revelar-se incompatíveis.

Por que iludir-se? Como as gentes, as nações só procuram ajuda de outras quando ― e enquanto ― duram suas necessidades. Terminada a precisão, tchau e bença. Juras de amor eterno entre países não valem.

Erros foram cometidos desde que o Tratado de Roma criou o Mercado Comum em 1957. Os dirigentes não conseguiram ― ou não quiseram ― ver que ao redor da mesa se concentravam interesses divergentes e até conflitantes. Enquanto o povo se entreteve a colar os cacos dos vasos que a Segunda Guerra tinha estilhaçado, a convivência foi cordial e até pareceu confluir. A conjuntura também ajudou: até poucos anos atrás, o mundo viveu decênios de inusitado e ininterrupto crescimento econômico.

Hoje os ideais europeus parecem esgarçados. A geração é outra. Nenhum dos atuais dirigentes conheceu a guerra e seu cortejo de misérias. Nenhum viveu infância aterrorizada por passos cadenciados da soldadesca invasora. Não conheceram desemprego. Conflitos armados lhes parecem inimagináveis, coisa de gente pobre.

Eis por que a maioria dos europeus de hoje julga a união política do continente desnecessária. A UE é hoje vista mais como entrave que como solução.Euromercosul

Na crença ingênua de que todos os membros obedeceriam às orientações do Banco Central, 17 países adotaram uma moeda única. Não se preocuparam com centralizar controles e torná-los obrigatórios. Erraram feio. Livres e desimpedidos, cada um deles fez o que bem entendeu. E deu no que deu, com países inteiros à beira da falência, enquanto outros esbanjam saúde financeira. A exasperação das populações é compreensível. Uns carecem desesperadamente de ajuda, enquanto outros, considerando que não lhes toca pagar por erros alheios, torcem o nariz à ideia de levantar o tampo da burra. O balaio de gatos em que se meteram os europeus é de bom tamanho. Cabe a eles agora encontrar a saída.

Quanto a nós, com nosso Mercosul bizarro, estamos alguns passos atrás. Ainda dá para evitar o pior. Vamos torcer para que vaidades individuais de nossos mandachuvas não sobrepujem o interesse das populações. Para não perder a face, que se atenham ao simulacro de mercado comum que temos. E que parem por aí.

União política é assunto sério. Se não deu certo na URSS, nem na Europa, por que teria sucesso entre nós?