Frase do dia — 190

«Ao dizer que ‘voto não se transfere’, a fim de desdenhar do apoio de Marina Silva a Aécio Neves, a presidente Dilma Rousseff contraria a razão de sua própria eleição em 2010. Ou então, nestes quatro anos, passou a acreditar que era ela a dona daqueles quase 56 milhões de votos transferidos por Lula.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 14 out° 2014.

Menosprezo oportunista

José Horta Manzano

Dizer isto hoje parece mentira, mas houve tempos em que o PT carregava aura de ética, de sabedoria, de retidão e de credibilidade. Os mais jovens podem achar que estou delirando. Assim era, garanto.

Dislike 2Nos tempos benditos que antecederam o ascenso aos mais altos cargos, os dirigentes do partido da estrela solitária conseguiam discernir o bem do mal. Não acreditam? Pois assim era, garanto.

Antes de trocar a ética pela prostituição política, antes de ceder às tentações do vil metal, antes de renegar os princípios fundadores do partido, pautavam-se por um certo discernimento. Acham que não? Pois assim era, garanto.

Dislike 1Querem uma prova? Aqui vai. Todos ficaram sabendo que o candidato Aécio, se eleito, nomeará Armínio Fraga para segurar as rédeas da economia do País. O senhor Fraga, para quem não se lembra, é economista de alto coturno. Foi presidente do Banco Central e diretor do Banco do Brasil. Lecionou em universidades americanas e brasileiras.

Quando tomaram conhecimento das intenções do senhor Aécio, dirigentes petistas botaram a boca no trombone para menosprezar a capacidade do provável futuro condutor da política econômica do País. «Caíram de pau», como se dizia, ou «foram pra cima», como se diz agora. Pois têm a memória curta, os desmiolados…

Em plena campanha presidencial de 2002, quando o Lula ainda vivia na tentativa de alçar-se ao trono do Planalto, a Folha de São Paulo publicou reportagem sobre a visão petista da economia nacional. Aqui vai um trecho:

Interligne vertical 10«Integrantes do alto escalão da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva defendem a colaboração do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, em um eventual governo do PT, no mínimo como um consultor informal.

Petistas com voz ativa na campanha consultados pela Folha vêem o presidente do BC como peça importante para o período de transição e para a fase subsequente à hipotética posse de Lula.

Há quem sugira até a criação de uma espécie de “conselho” para assessorar o governo, do qual Armínio poderia constar.  (…) É tido, inclusive por Lula, como técnico competente, que se preocupa mais com a economia do que com posicionamentos partidários.»

Dislike 3Como veem meus distintos leitores, os tempos eram outros. Hoje, por despeito ou ignorância – talvez por ambos os motivos – o partido cospe no prato que ontem cobiçou.

Para ler na íntegra o artigo da Folha de São Paulo de 10 ago 2002, clique aqui.

O PT e a modernidade

«Em geral, se quer atribuir esse antipetismo [paulista] a uma posição conservadora. Eu penso que é o contrário. O PT não está conseguindo dialogar com o contrário do que eles dizem, que é a modernidade de São Paulo.

Se pegar São Paulo como metáfora do capitalismo brasileiro, é o estado com a maior presença de desenvolvimento econômico, onde a classe média é muito expressiva, gente que opera sabendo que o que ela tem se deve ao próprio esforço e não a benesses do Estado, do governo ou de quem quer que seja.

Esse eleitorado tem sido muito maltratado pelo discurso petista. De certo modo, a maioria da população de São Paulo tem esse éthos empreendedor, individualista. O paulista tem sido tratado em bloco como se fosse reacionário, de direita.

Eu acredito que isso é um grande equívoco do PT, que explica não só o crescimento de Aécio, como a vitória de Alckmin.»

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Excerto de entrevista concedida por Milton Lahuerta ao jornal O Globo. O entrevistado é coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp. Para ler o texto integral, clique aqui.

Os de fora ‒ 1

José Horta Manzano

Nós, de fora, também temos obrigação de votar. É só meio voto, mas já é melhor que nada. Por que meio voto? Porque só nos obrigam a escolher o presidente, chefe do Executivo. Quanto a nossos representantes no parlamento, aqueles que levam nossa voz até lá, não os temos. Do ponto de vista da representação democrática, somos cidadãos de segunda linha.

Voto inteiro ou meio voto, o fato é que mais 350 mil conterrâneos que vivem fora das fronteiras estavam inscritos e habilitados a votar. Muitos, desse contingente, se dirigiram àquela maquineta esquisita e despositaram ali crença e esperança.

2014 Exterior Turno 1É compreensível que a taxa de abstenção dos que votam no exterior seja elevada. Diferentemente dos que residem em terras de Santa Cruz, a urna mais próxima não está ali na esquina: pode estar a centenas de quilômetros de distância. Nem todos têm tempo, dinheiro e paciência para fazer o trajeto.

Assim mesmo, formamos contingente de eleitores maior que o do Estado de Roraima. Visto sob o aspecto eleitoral, os brasileiros do exterior constituem a 28a. unidade federativa da República.

Por definição, vivemos todos mergulhados num universo diferente da pátria-mãe. Não fomos bombardeados com propaganda eleitoral. Nenhum de nós recebe bolsa isto ou bolsa aquilo. Nem cesta básica. Isso nos confere certa isenção na hora de votar. Se a gente vota neste ou naquele candidato, será mais por acreditar que levará o País a bom porto, e menos por algum interesse pessoal.

Acredito que a esmagadora maioria dos expatriados brasileiros esteja feliz com os resultados vindos do exterior. Dona Dilma foi a preferida de apenas 18,3% de nós. Dona Marina foi sufragada por 26,1% dos expatriados. E Aécio levou a parte do leão: 49,5%. Por um trisquinho, não teria sido eleito no primeiro turno!

Andei examinando o voto dos brasileiros ao redor do mundo. Salvo alguma discrepância notável, a tendência foi a mesma: Aécio em primeiro, bem distanciado. Marina em segundo. E, na rabeira, dona Dilma.

Discrepâncias, há. Duas são mais gritantes.

Entre os brasileiros residentes em Havana (Cuba), dona Dilma sugou 84% dos votos – um espanto! Eu disse espanto? Nem tanto assim. Pensando bem, Cuba não é exatamente o paraíso sonhado de todo candidato à emigração. Em sua esmagadora maioria, os gatos pingados que vivem na capital cubana hão de ser gente ligada a interesses diferentes do dia a dia do comum dos mortais: Porto de Mariel, pessoal diplomático, pessoal das empreiteiras, espiões, olheiros, lobistas. O voto faz sentido.

Colégio Eleitoral de Caracas, Venezuela

Colégio Eleitoral de Caracas, Venezuela

A surpresa grande está em outro lugar: na velha, boa e muy bolivariana cidade de Caracas (Venezuela). Naquele reduto controlado com o braço armado de um certo señor Maduro, os eleitores puseram Aécio Neves na cabeça. Com 50,75% dos votos, seria eleito no primeiro turno! Sei não. Nossos compatriotas estabelecidos no paraíso moldado por Chávez não dão a impressão de estar muito felizes com a situação.

Questão de interpretação

José Horta Manzano

Foto Agência Estado

Foto Agência Estado, 5 out° 2014

A fotomontagem que ilustra este escrito saiu este 5 out° no Estadão online. Ela abre portas para várias interpretações:

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Vestidos com as cores primárias – vermelho, azul e amarelo – os candidatos deixam claro que cobrem todo o espectro de qualidades que se podem esperar de um presidente da República. Dão, assim, uma banana para os nanicos.

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Nos bastidores, os três combinaram para não usar roupa da mesma cor. Para saírem bem caracterizados na foto.

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Cada um deles vestiu a cor do principal partido de sua pletórica coalizão.

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A candidata que aparece à esquerda já vem ocupando o cargo máximo da República faz quatro anos – o que justifica a silhueta mais nutrida.

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O candidato que aparece no meio não passou de governador de Estado – fato que explica a silhueta levemente acima do que é aconselhado para sua idade.

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A candidata que aparece à direita nunca ocupou cargo de chefia no Poder Executivo – o que justifica sua aparência esgrouviada.

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Aécio e Marina, optimistas, mimam o número 2 com os dedos. Cada um sinaliza estar confiante de que ocupará o segundo lugar na classificação.

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Aécio e Marina, optimistas, mimam o número 2 com os dedos. Cada um sinaliza estar confiante de que estará presente no segundo turno.

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Todos acenam com a mão direita, menos Aécio. Se for canhoto, faz sentido. Se não for, ai, ai, ai. Não é bom sinal. Convicção se mostra com a mão dominante.

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Dois dos candidatos mimam o V da vitória enquanto dona Dilma, com ar resignado, parece já dizer adeus.

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Basta de divagação. O voto aqui na Europa já terminou. É questão de fuso horário. O que tem de brasileiro não está no gibi. Em Genebra, tinha gente saindo pelo ladrão.

Tenho uma sugestão a fazer a quem organiza o voto dos brasileiros no exterior. No Brasil, a população é bombardeada durante semanas pela propaganda eleitoral dita gratuita. Todos acabam conhecendo e guardando de cor nomes e números. Aqui não é assim que acontece.

Não temos propaganda eleitoral. Eu imaginava que a «urna» mostrasse o nome dos onze candidatos numa tela táctil. Aí, era moleza: bastava passar o dedo em cima do candidato desejado e confirmar. Mas não funciona assim. O eleitor tem de teclar um número – que ele não conhece necessariamente.

Minha sugestão, em consideração aos eleitores do estrangeiro, é que nos forneçam uma lista com o nome dos candidatos e o número correspondente a cada um. O que é evidente para uns nem sempre é claro para outros.

Língua de gente para gente

Dad Squarisi (*)

Blabla 2«Que língua é essa?» A questão procede. Jovens e adultos de Europa, França e Ceilândia sentam-se diante da telinha. Indecisos, sem saber a quem dar o voto, esperam luzes do programa eleitoral. Quem aparece? Ela, Dilma.

A presidente fala em «propostas que criam política de Estado», diz que as medidas «não significam justiça sumária. O contraditório deve estar presente», cita «certas iniciativas que tramitam no Congresso».

Olha quem vem lá. É Salve Jorge. O homem jura que «a melhor saída é precificar o carbono». E segue, impávido colosso. Marina? Séria, promete «reduzir os preços administrativos».

Aécio, sorridente, se dispõe a «ampla discussão alternativa ao fator previdenciário». Fala em «força capaz de transformar indignação em mudança». Promete «experiência de 30 anos de vida pública honrada».

Na estrada 20A turma suspira. Sente saudade dos políticos de tempos idos e vividos. Cadê Lacerda, Getúlio, Brizola, Tancredo? Eles não se dirigiam a câmeras, mas a pessoas de carne e osso.

De olho em Marias, Paulos, Josés e Chicos, davam recados que todos queriam ouvir: «Ninguém pode morar debaixo da ponte. Ninguém pode viver sem emprego. A barriga não espera».

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Vive la différence!

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«O candidato Fulano de Tal apresentou-se diante das câmeras trajando blazer azul-marinho e calça cinza-chumbo. Uma gravata rajada com nuances de azul-celeste ton sur ton sobressaía sobre o fundo impecavelmente branco da camisa. Nos pés, um par de meias combinando com a gravata. Para completar o todo, sapatos de couro preto brilhante cuidadosamente engraxados. Um último detalhe: o candidato exibia novo corte de cabelo, que o fazia parecer mais jovem.»

Alguém imagina topar com uma descrição de candidato nos termos que acabo de esboçar? Impensável. Não só pelo perfume antediluviano das palavras, mas principalmente por se referirem ao candidato Fulano – um homem.

Elegancia 2Por mais que se editem leis de igualdade de direitos, sempre sobram, no inconsciente coletivo, marcas incrustadas difíceis de remover. O raio de alcance de regulamentos, decretos e leis não é suficientemente amplo para revirar mentalidades.

A Constituição determina que somos todos iguais. Em princípio, portanto, homens e mulheres deveriam receber tratamento idêntico. Fica muito bonito no papel, mas, na vida real, não é exatamente assim.

Que um cavalheiro ceda seu assento a uma dama ou que lhe dê preferência, ao passarem os dois por porta apertada, é aceito e até esperado. O inverso ― que uma senhora devote ao homem essas mesuras ― é menos comum.

A descrição do candidato, com que abri este artigo, seria hoje pra lá de surpreendente, é verdade. Mas… e se o candidato fosse uma senhora? Pois as palavras não chocariam ninguém. A sociedade está longe de se sentir espantada com descrição da aparência e da indumentária de candidata. É narrativa, aliás, bem-vinda.

Elegancia 1Vejam um exemplo perfeitamente aceitável:

Dona Dilma apareceu diante das câmeras com o habitual terninho. Parecia mais elegante que de costume. As mangas três quartos mais curtas conferiam sobriedade ao conjunto. A cor verde pastel disfarçava a carranca e completava o quadro, insinuando uma disposição mais aberta ao diálogo.

Ou ainda:

Em vez de exibir o costumeiro semblante sizudo, dona Marina manteve fixo o sorriso durante toda a entrevista. Há de ter-lhe custado dor nos músculos da face. Quanto à vestimenta, a candidata manteve o habitual comedimento. O coque impecável e um colar de bolas gordinhas, de cor azul, contrastando com a silhueta delgada. A austeridade do conjunto duas-peças de feitio simples, de cor entre azul-petróleo e cinza-titânio, era quebrada pelo único adereço jovial: largo e vistoso cinto amarelo marcava-lhe a cintura de vespa, marca persistente da infância necessitosa.

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Pois é. A lei faz o que pode para equiparar cidadãos de ambos os sexos. Na vida real, no entanto, ainda resta um longo caminho.

Vive la différence!

Show às avessas

Dad Squarisi (*)

A maior tragédia nacional? É a educação. Se alguém tinha dúvida, ela se evaporou ontem. No programa eleitoral, candidatos e padrinhos deram um show às avessas. Ao lado de declarações de amor ao povo, exibição de feitos, promessa de nirvanas, elegeram o inimigo número 1 de todos. É a língua. O português apanhou feio.

A surra começa com o TSE. O tribunal escreve “lei 9.504/97”. Numerada, lei vira Lei. Continua com Aécio & cia. “A proposta mantém a regra geral“. Que desperdício, mineiro! Toda regra é geral. Basta regra. Passa por Marina: “PT e PSDB guerreiam entre eles”. Entre eles? Não. Entre si. Caetano arremata: “Nesse momento, Marina representa nossos anseios”. Ops! Ele fala do tempo presente? É neste momento.

Dilma faz a festa. Reprisa o programa sobre educação exibido na semana passada. Deslumbrada com o país maravilha criado por marqueteiros, nem se lembra do Brasil real. Pela primeira vez, nossa Pindorama caiu no Ideb. Andamos pra trás. Ela prova.

Vovó 1Bate na regência. “As mudanças chegaram no ensino superior”. Nããããão! Chegaram ao ensino superior. Maltrata o demonstrativo. Estava na sede do Senai. Em vez de esta unidade, refere-se a ela como essa unidade.

Lula amplia os estragos: “A partir do nosso governo, o Brasil começa a mudar”. Xô, pleonasmo! A partir e começar dão o mesmo recado. Melhor: No nosso governo, o Brasil começa a mudar. A partir do nosso governo, o Brasil muda.

A vovó, quietinha até então, desliga a tevê e cantarola: “Essa gente toda em vez de inglês / precisava um pouco mais de português”.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Quem vai ganhar?

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Como todos os brasileiros, Sigismeno anda empolgado com a eleição para a presidência da Republica. Até quinze dias atrás, nem tocava no assunto. Achava modorrento, maçante, aborrecido, um jogo de cartas marcadas.

Ainda ontem nos encontramos. Depois de falar do sol e da chuva, ele abriu um largo sorriso ― acho até que chegou a dar uma piscadela ― e veio direto: «Você viu as eleições?».

«Claro que vi, Sigismeno. Quis o destino que um dos pretendentes ao trono tenha desaparecido naquele avião espatifado. Que coisa trágica, não?»

urna 4«Pois é, e foi acontecer justamente com o mais jovem dos candidatos que tinham alguma chance. Não há que dizer, era a hora dele. Mas deixe estar, que há males que vêm pra bem.»

«É, tem razão. A desgraça serviu pra sacudir o processo. Dona Marina, que andava meio apagada no incômodo lugar de vice, desabrochou.»

«Desabrochou?» ― bradou Sigismeno ― «explodiu, isso sim!».

«Andam até dizendo que ela tem chance de chegar ao segundo turno. O que é que você acha, Sigismeno?»

«Pois não só vai chegar ao segundo turno, como vai ganhar a eleição. Pode se preparar. Nossa próxima presidente já está ungida pelo destino, acredite.»

«E como é que você pode ter tanta certeza, Sigismeno?»

«É cristalino como água de fonte. Mas vamos começar pelo começo. O que valia para os anos 50 já não vale mais hoje. Tem muito político por aí achando que a maioria do povo brasileiro é constituída de broncos, desdentados, analfabetos, perfeitos ignorantes. Já não é assim.»

Eleição 1«As coisas têm mudado um bocado, é verdade.»

«As mudanças se aceleraram estes últimos anos. Se a eleição que ocorreu em 2002 fosse hoje, não tenho nem certeza de que ganharia o Lula. O povo anda meio vacinado contra líderes messiânicos.»

«Você acha, Sigismeno? Pois essa ascensão de dona Marina Silva, a evangélica, não deixa evidente que o povo ainda espera seu messias?»

«De jeito nenhum. A fé neopentecostal está longe de deriva messiânica. Essas novas seitas pregam a redenção pela transformação pessoal, pelo esforço individual, pela persistência no caminho da virtude. A base é: “faz a tua parte, que Eu te ajudarei”.»

«Mas, nesse caso, o que é que explica a explosão de dona Marina, como você mesmo disse, Sigismeno?»

«É simples. O povo brasileiro, que deixou de ser bronco e desdentado, sabe que a coisa anda podre lá no andar de cima. Todos ouviram falar em mensalão, corrupção, dinheiro na cueca, presídio da Papuda, fuga para o exterior, cãezinhos passeando de helicóptero, bifurcação de rios de mentirinha, desvio de bilhões da Petrobrás e outros bichos. Ou não?»

«É verdade, Sigismeno. Não precisa ser cientista político pra perceber que a turma da primeira classe anda exagerando.»

«Pois é, de cada três eleitores, dois gostariam de substituir os mandatários. Só que… só que muitos deles, antigos eleitores dos que ora nos governam, hesitavam em dar seu voto a esse outro jovem, o Aécio. Sentiam como se estivessem cometendo traição.»

«E agora mudou, Sigismeno?»

«Com a entrada de Marina no páreo, sim. Os desencantados, que vacilavam em dar voto ao moço de Minas, se jogaram em cima da acriana. Não por messianismo nem por programa de governo. Aliás, pouco importa quais sejam as metas de governo dela. O povo sente que, se lhe confiar o mandato, vai conseguir dois objetivos: varrer a bandalheira e entregar o poder a alguém que vem do andar de baixo, que venceu por seu próprio esforço e não por Q.I.»

Urna 2«Não deixa de fazer sentido o que você diz, Sigismeno. E… você tem uma previsão do resultado da votação?»

«Olhe, certeza ninguém tem. Mas eu apostaria num primeiro turno com 45% para dona Marina, 35% para dona Dilma, 15% para o moço de Minas e umas migalhinhas para os paraquedistas.»

«Só 35% para a presidente atual, Sigismeno?»

«Ela atingiu o teto do núcleo duro do eleitorado petista. Daí, não passa.»

«E o segundo turno, como é que fica?»

«Marina leva com um placar em torno dos 60%. Se não houver manipulação dessas urnas eletrônicas. Como você sabe, para mim, elas são pra lá de suspeitas. Todo cuidado é pouco.»

«Olhe, Sigismeno» ― disse eu ― «vou botar no blogue». «Mas que fique bem claro: é o seu palpite, não necessariamente o meu.»

Promessa cumprida.

Dilma e o fantasma Marina

Eliane Cantanhêde (*)

A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.

Estatísticas 2Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chão e lavava banheiro das freiras para ter direito às aulas.

Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, tornou-se a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.

Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre “desenvolvimentismo” e “sustentabilidade” e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas.

Estatísticas 3Contrariando pesquisas e evidências de que tudo mudou com a queda do Cessna Citation, a campanha de Dilma continuou, estranhamente, desperdiçando munição contra o tucano Aécio Neves. Demorou a cair a ficha. Talvez porque Dilma e Lula tenham fixação em tucanos. Talvez porque não tenham discurso e bala para atingir Marina, de figura frágil e projeto abstrato.

Dilma acordou ontem, 28 de agosto, tateando, improvisando para acertar a intangível Marina. Com um detalhe: passou a mirar Marina, mas sem tirar o olho de Aécio. Além do medo de perder para Marina, o pavor de Lula, Dilma e PT é… terem de entregar o Planalto às mãos de uma aliança da ex-petista Marina com o PSDB.

(*) Eliane Cantenhêde, jornalista, é colunista da Folha de São Paulo

Viva o povo brasileiro

Dad Squarisi (*)

Oba! No ar, o programa eleitoral gratuito. Os presidenciáveis se apresentam. São 11. Oito parecem meteoros. Surgem, prometem milagres, batem asas e voam. Os outros dispõem de mais tempo. Eduardo Campos ressuscita e reafirma promessas. Dilma e Aécio têm complexo de Deus. Ela fez e aconteceu. Ele acha pouco. Fará mais. Ela, mais ainda.

Televisao 2Na tela, coisas de campanha. Faixas, bandeiras, santinhos. E, claro, a grande vedete — o povo. Povo? Que povo? Alguns o chamam de povinho. Outros, de zé-ninguém. Massa serve. Povão também. Na França, foi denominado de terceiro estado — tudo que não era clero nem nobreza.

Aqui ganhou outras especificações. «Apenas um detalhe», rotulou-o Zélia Cardoso de Mello. «É o dono da Praça Castro Alves», cantou Caetano. «É o porta-voz do Senhor», afirmam os pais de santo. E explicam: «A voz do povo é a voz de Deus».

Seja como for, é comovente. Os corações moles derramam oceanos de lágrimas. Os durões também. Ninguém resiste a tanto afeto. Sobram abraços, beijos e juras de gratidão. Os louquinhos pelo Planalto só dizem «esse país, nesse país». E dá-lhe povo.

Alguém (do povo) pergunta: «A que país eles se referem?». Outro (do povo) responde: «Este país não é. Deve ser uma Suécia melhorada».

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Frase do dia — 171

«Dilma Rousseff tenta transmitir ao eleitor a mensagem de que o Estado é tutor do bem-estar dos cidadãos e que, sem a continuidade do PT no poder, este ente provedor e “solucionador” se desmantela.

Aécio Neves tenta mostrar justamente o contrário: que o problema do País é o governo, ao atribuir à administração ‘dos últimos quatro anos’ tudo o que deu errado e ‘ao esforço dos brasileiros’ tudo o que deu certo.»

Dora Kramer, colunista do Estadão, ao comentar o primeiro dia de campanha política compulsória na tevê. Em 20 ago 2014.