Radioatividade

José Horta Manzano

As propriedades medicinais das águas do município paulista de Lindoia (hoje Águas de Lindoia) já eram conhecidas 350 anos atrás. É que as fontes ficavam no trecho paulista do caminho dos bandeirantes que seguiam em direção às minas gerais e ao planalto goiano.

A fama das águas, cuja radioatividade supera a de qualquer outra fonte conhecida em todo o planeta, chegou ao conhecimento de Madame Marie Curie, única pessoa a ter conseguido a proeza de ganhar dois prêmios Nobel em duas categorias diferentes (Física em 1903 e Química em 1911).

Em 1928, quando de sua visita ao Brasil, a cientista fez questão de passar por Lindoia e medir pessoalmente a radioatividade da água. Essa visita já seria suficiente para encher de orgulho os habitantes da cidade, mas eles têm mais uma razão.

Dia 2 de abril de 1969, três meses antes da partida da missão Apollo 11 em direção à Lua, um misterioso cliente fez uma encomenda numa distribuidora de bebidas carioca. Comprou 100 dúzias de garrafas de meio litro de água Lindoia. A nota fiscal foi extraída em nome da Missão N. Americana, Cabo Kennedy, EUA, e o total deu 226 cruzeiros novos. A mercadoria seguia para o Aeroporto Santos Dumont em caixas com tampa para viagem.

Ninguém tem certeza absoluta de que o reservatório de água da cápsula espacial foi enchido com água mineral de nossa terra. A Nasa, consultada, nunca respondeu. E nunca responderá, imagino.

O povo de Lindoia acredita firmemente na viagem espacial de suas águas. Para quem também acredita, fica a ideia de que os astronautas, ao fazer pipi, tenham encharcado o solo lunar com água brasileira.

(Ilusão boba. Pipi de astronauta é trazido de volta à Terra. Mas não precisa contar pra ninguém porque estraga o prazer.)

Com informações do artigo publicado pelo G1 em 7 jul 2017.

Significado mole em palavra dura

Ricardo Araújo Pereira (*)

Uma característica engraçada das palavras é o fato de terem significados mais ou menos precisos. É conveniente, para que a gente consiga comunicar. Por exemplo, se eu disser que uma rocha é mole, talvez as pessoas fiquem confusas. Em princípio, a palavra “mole” não se aplica a rochas – que, de acordo com a nossa experiência, são duras.

O mundo digital, no entanto, tem uma semântica própria, em que as palavras significam o contrário do que querem dizer na vida real. A palavra “conteúdo”, por exemplo, significa quase sempre “ausência de conteúdo”. É curioso. A frase “vou criar um conteúdo filmando o meu gato dormindo” quer dizer, na verdade, “vou produzir um pouco de vácuo”.

A palavra “amigo”, no Facebook, significa muitas vezes o contrário do que vem nos dicionários. No Facebook, é possível ser amigo de pessoas que nem conhecemos. Diga-se que essa é, por vezes, a maneira mais eficaz de nutrir amizade por alguém. Mas não é esse o significado do termo.

Por outro lado, a palavra “seguidor” não significa, nas redes sociais, discípulo ou partidário. É mais frequente significar “pessoa que nos observa porque tem interesse na nossa queda”. São seguidores que vêm atrás de nós porque pretendem nos passar uma rasteira.

A palavra cujo significado mudou mais radicalmente foi “compartilhar”. Compartilhar, fora do mundo digital, é um ato de generosidade. Quando, por exemplo, compartilhamos um pão com alguém, isso quer dizer que lhe damos um pouco do nosso pão. Nas redes sociais, o ato não é exatamente generoso, uma vez que compartilhar significa, na verdade, exibir.

Alguém que compartilha a fotografia de um pão não oferece nada aos outros. Quem compartilha uma foto do seu carro novo não dá carona a quem vê. Quando alguém compartilha imagens das suas férias, normalmente até ganha dinheiro com isso, porque uma agência de viagens, uma companhia aérea ou um hotel estão pagando. Sinto em dizer que esse dinheiro também não é compartilhado.

O alambique das redes sociais transforma a mesquinhez da exibição na nobreza da partilha. É ótimo.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Follow the money

José Horta Manzano

Você sabe o que é rastrear? É seguir o rastro (de alguém ou de algo). Pois é, é tão simples, mas parece que o estagiário que bolou a chamada não sabe.

Relatando uma ocorrência de resgate pago em dinheiro, a chamada diz que a polícia e o Ministério Público rastreiam o caminho do dinheiro. Está errado.

Ninguém rastreia o caminho, nem o policial mais meticuloso do mundo. Rastreia-se o dinheiro, não o caminho.

Reescrevendo a chamada, fica assim:

“Resgate de sequestro foi depositado em 40 contas; polícia e MPRJ rastreiam o dinheiro.”

Copa do Mundo Feminina

José Horta Manzano

Quase quase eu diria que a atribuição da Copa do Mundo Feminina ao Brasil foi mais notícia no estrangeiro que em nossa terra, que será a sede do campeonato. A mídia internacional noticiou com ênfase e comentou com paixão, afinal não é todo dia que a versão feminina do esporte mais popular do planeta vem dar um abraço na “pátria do futebol”. E o círculo estará fechado: o futebol que reencontra sua ‘pátria’.

A mídia brasileira relegou a informação a uma nota de pé de página, onde se adivinhava uma falta de interesse, quase um incômodo. Por que será que isso ocorre? Este é um país em que, a cada quatro anos, na época da Copa, o território se transforma numa imensa bandeira, a paisagem vestida de um persistente verde-amarelo que engalana casas, ruas, vielas, bairros chiques e favelas, carrões de luxo e carrinhos de mão. O evidente desinteresse popular por esta Copa não é de bom agouro.

Será porque os jogadores são as jogadoras? Será que a ideologia que prega “Lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos” venceu? Será que a mescla de futebol com mulher mexeu com os brios dos cidadãos que votam Bolsonaro, aqueles que adorariam levar uma garrucha à cinta? Será isso?

Não acredito. Afinal, ainda deve existir gente normal neste país, gente que apoia a libertação das mulheres, uma liberação que lhes permita pelo menos exercer a profissão que desejam e praticar o esporte que lhes agrada. Será que nossos cidadãos liberais (de verdade) sumiram todos, engolfados pelos miasmas tóxicos da direita extrema?

O mais provável é que a origem do desinteresse pela feminização do esporte-rei se perca nas brumas do passado da humanidade. Trata-se de forte resistência da sociedade (homens, principalmente, mas mulheres também) em permitir que a mulher assuma certas funções e profissões antes exclusivamente masculinas.

O homem sempre participou das decisões importantes; a mulher só conquistou o direito de votar no século XX. As primeiras mulheres que conseguiram se inscrever nas faculdades de medicina ao redor do mundo encontraram forte resistência da sociedade e dos próprios colegas masculinos. E assim por diante – a primeira a dirigir um ônibus, a pilotar um avião de caça, a pegar em armas num exército regular, a jogar tênis num torneio maior – todas essas pioneiras tiveram de comer poeira e mastigar lagartos antes de chegarem lá.

A meu ver, a relutância do grande público em aceitar que mulher jogue futebol é resquício de resistências atávicas. Assim como as outras cederam, esta cairá também.

Deixe de ser ranzinza! Procure assistir, sem compromisso, a umas partidas de futebol feminino. Verá que, quando bem tratado, o cão não ladra e o gato é manso. Bom divertimento!

Cura gay

José Horta Manzano

Vamos considerar que o autor dessa matéria da Folha deixou escorregar esse “Influencers” sem querer. Vamos dizer que, sinceramente, ele pretendia escrever “Influenciadores”. Pronto, faz de conta que foi assim, se não vamos passar o resto do dia reclamando. (À toa, presumo.)

Esse título me deixou meio desconcertado. A “cura gay” é permitida ou proibida? O subtítulo diz que, há 25 anos, a ‘terapia’ é vedada pelo Conselho Federal de Psicologia. Tem gente ainda praticando essa falcatrua. E aí? Como é que fica? Pode abrir processo ou a vedação do Conselho de Psicologia não vale nada? Afinal, pode ou não pode?

Se bem entendi, “influencers” – uma casta que não sobreviveria sem a intensa e permanente exposição da própria imagem – andam se valendo de “discurso religioso” (seja lá o que isso quer dizer) para a apologia da ‘cura gay’. Se fazem isso à luz do meio-dia, é sinal de que não arriscam nada. Portanto, pode-se concluir que a vedação mencionada só vale para psicólogos, e que exorcistas modernos continuam tentando expulsar o demo do corpo dos infelizes que lhes caem nas garras.

Coitadas das vítimas! Devem ser centenas, até milhares, pelo Brasilzão todo. Pessoas simples, que acreditam que sua orientação sexual não é inata, mas que foi distorcida por entidades cruéis, especializadas em perseguir e atormentar. Coitadas das vítimas!

É meritório que o Conselho Federal de Psicologia já tenha proibido a seus membros o uso dessa terapia. Mas uma regra que concerne unicamente aos psicólogos não basta. Essa proibição teria de alcançar também médicos, enfermeiros, psiquiatras, clérigos, pastores. Como fazer, então?

Não faz sentido esperar que cada confraria institua em seu seio a mesma proibição. O mais lógico será fazer uma lei – federal e de âmbito nacional. A pressão tem de ser colocada sobre os representantes do povo (senadores e deputados) para que discutam e votem, o mais rapidamente possível, um texto de proibição de terapia de “cura gay” em todo o território nacional.

O Brasil é um país curioso, no qual uma parte da população acredita que a Terra é plana. Assim mesmo, não faz sentido acariciar e conservar em nossos constumes uma prática medieval.

Dos anjos ao pecado

José Horta Manzano

Quem se lembra do trem-bala que, em 2010, nossa “presidenta” garantiu que estaria pronto para as Olimpíadas de 2016? Era pra ligar São Paulo ao Rio de Janeiro. As duas pontas de linha estão até hoje esperando o apito de um trem que não vem.

Detalhe: para confirmar nosso jeitinho “Me engana que eu gosto”, a ínclita presidenta foi perdoada pela engabelação; paulistas, cariocas e também os outros brasileiros votaram nela e a reelegeram.

Em matéria de trem, os Estados Unidos foram do tudo ao quase nada. Me explico. O grande progresso do país se deu nos cem anos que correram entre meados do séc. 19 e meados do séc. 20, ao mesmo tempo que o desenvolvimento das estradas de ferro.

Naquela época em que o trem supria praticamente todas as necessidades de transporte de cidadãos e de mercadoria, a costa Atlântica se ligou ao Pacífico, cidades brotaram, o país se instalou de verdade no território e se transformou na potência que é hoje.

De repente, a partir de meados do séc. 20, o transporte por via férrea foi minguando, dando lugar às estradas de rodagem. Gente e mercadoria passaram a ser levados de carro, de ônibus e de caminhão. E o trem quase desapareceu da paisagem.

Neste ano, estamos a exatamente quatro anos das próximas Olimpíadas, programadas para 2028 em Los Angeles. Mês passado, Joe Biden autorizou o início da construção da primeira linha de verdadeiro trem-bala do país. Deverá ligar Los Angeles a Las Vegas, numa viagem de 2h10, em trens que rodarão a até 320 km/h! O mesmo trajeto em automóvel leva no mínimo 4h30.

Em espanhol, como sabem meus espertos leitores, Los Angeles quer dizer Os Anjos. Em inglês, Las Vegas, a cidade dos jogos e do strip-tease, tem o apelido de “Sin City” (= a cidade do pecado). Fica explicada a brincadeira feita no título deste artigo: Dos anjos (Los Angeles) ao pecado (Las Vegas).

Fico muito curioso pra saber se o trem-bala americano ficará pronto em 4 anos, que é pouquíssimo tempo, ou se dará com os burros n’água como o brasileiro. Dá vontade de rodar o filme para a frente só pra ver no que deu.

Viemos todos de algum lugar

Mauro Vieira com Ignazio Cassis, ministro suíço das Relações Exteriores

José Horta Manzano

Mês passado, Mauro Vieira, nosso chanceler, estava na Europa em viagem de trabalho. Passando pela Suíça, foi recebido pelo ministro de Relações Exteriores, Ignazio Cassis. Não sei se o que ocorreu em seguida já estava combinado entre os dois ou se foi improvisado.

Foram os dois de passeio numa pequena cidade da Suíça de expressão alemã. O burgo de 15 mil habitantes se chama Solothurn (que alguns traduzem em português com o estranho nome de “Soleura”). Mas, afinal, o que estariam fazendo dois chanceleres numa cidadezinha sem nenhuma expressão no xadrez mundial?

É que nosso chanceler se chama Mauro Iecker Vieira. Não parece, mas atrás desse pouco comum Iecker, aportuguesamento do original alemão, se esconde um tradicional Jecker, sobrenome suíço da região de Solothurn.

É isso mesmo: pelo lado materno, doutor Mauro Vieira descende de imigrantes suíços, originários do vilarejo de Erschwil (menos de 1000 habitantes), situado na região de Solothurn. Por fome, falta de perspectiva numa Suíça então paupérrima, seus longínquos ascendentes emigraram 150 anos atrás em busca da terra prometida.

Aportaram no Brasil e seguiram o caminho dos demais imigrantes: acabaram se amoldando à nova pátria e (quase) esquecendo a terra de origem. Sobrou o nome de família como marca de um passado de luta.

STF e os eventos

José Horta Manzano

Meu arguto leitor e minha atenta leitora sabem que este blogueiro não faz parte da turma que bota a culpa dos males do país nas costas dos ministros do STF. Deixo isso pra quem lê um pouquinho só e acredita no pouco que lê – geralmente informações que circulam nas redes sociais.

Não. Para mim, o Supremo, em que pesem opiniões contrárias, continua sendo a pedra de toque da democracia brasileira, especialmente visível nestes tempos de desvario. Acredito que, não fosse o braço firme do STF, nosso sistema democrático teria naufragado antes do fim do governo do capitão. E estaríamos hoje chafurdando na mesma meleca que nossos vizinhos do norte, os venezuelanos. Thank you, STF!

Mas nada permite que os magistrados do Supremo se considerem integrantes de uma raça especial, situada acima da lei, da ética, do recato e do bom senso. Recebem salários elevados, e é normal que assim seja. Têm direito a certas regalias, e, até certo limite, é aceitável que assim seja. Só respeitam a lei, a ética, o recato e o bom senso quando lhes dá na telha; sentem-se autorizados a pular cercas e desrespeitar limites quando lhes apraz. Aí, não! Certos limites não podem e não devem ser ultrapassados.

O que vou dar agora não são notícias de rede social. É o Estadão que, depois de ter feito o respectivo levantamento, informa:


“Ministros do STF participaram de quase dois eventos internacionais por mês no último ano”.


Na Europa é possível sair de Berlim de manhãzinha, tomar o avião, passar o dia em conferência em Londres, tomar o avião de volta e dormir em casa. Mencionei Berlim e Londres, mas poderia ter mencionado Bruxelas, Milão, Madrid, Varsóvia, Genebra, Paris, Copenhague ou qualquer outra capital europeia. O exemplo continua válido.

Feliz ou infelizmente, o Brasil está a 10 mil km da Europa e dos EUA. Nem com a maior boa vontade, não dá pra tomar café da manhã aqui, almoçar lá e voltar para o jantar. Isso significa que qualquer deslocamento de Suas Excelências implica pelo menos três dias de ausência, pra dizer o mínimo. Visto que (que coisa desagradável!) um fim de semana costuma aparecer antes ou depois do evento, o convescote acaba durando 5 ou 6 dias.

Acontecesse duas vezes ao ano, ninguém se ofuscaria. Mas duas vezes por mês! A displicência é insuportável, sobretudo quando vem de funcionários entre os mais bem remunerados do país. Nessas idas e vindas, de uma tacada só, são desrespeitados o recato, a lei, a ética e o bom senso.

Suas Excelências só serão tratados com o devido respeito e com a devida reverência na medida que mantiverem comportamento majestático. Tapinha nas costas não combina com juiz do Supremo. Evento no exterior, seja ele qual for, deveria ser excluído da agenda. Fica pra quando se aposentarem.

Ao continuarem a agir como agem, atropelam a ética, abandonam o recato e colidem contra o bom senso. Não se devem deixar dominar pela vaidade nem pelo apelo dos cachês. Isso é para artista de palco.

Suas Excelências têm dificuldade em se dar conta de que sua função na ordem jurídica brasileira os coloca bem acima dessas picuinhas humanas. Não precisam disso.

1,6 milhão?

Agência Brasil

José Horta Manzano

A Agência Brasil contou, todo o mundo copiou. A manchete é bastante precisa: “Show de Madonna reúne 1,6 milhão de pessoas em Copacabana”. Se tivesse dito “reúne 1,6 milhão”, já estaria de bom tamanho, visto que todos entendem tratar-se de “pessoas”. Mas o manchetista achou que a exatidão vale mais que a imprecisão.

A mídia europeia, que consultei, não deixou a ocasião passar em branco. Repetiram todos a contagem expressiva: 1,6 milhão (de pessoas, naturalmente)! Afinal, estava ali a prova de que um dos shows de maior plateia do mundo tinha ocorrido nas areias de Copacabana.

Passada uma semana, o assunto já amornou embora seus ecos ainda surjam aqui e ali, em bate-papos de boteco. E não é que o Instituto Datafolha publicou neste sábado o resultado de uma pesquisa traiçoeira, que vai decepcionar muita gente.

Valendo-se de um método novo, que passa até pela utilização de fotos aéreas do Google, o instituto concluiu que, no espaço em que a multidão se amontoou, não cabem mais de 875 mil pessoas. Assim mesmo, apertando muito, com 7 pessoas por metro quadrado. 1,6 milhão? Nem por sonho. Pode esquecer.

Não estou sabendo se há alguma rixa pessoal entre os que fizeram esse estudo (875 mil) e os que fizeram a primeira contagem (1,6 milhão). Se não for isso, esse novo estudo deixa no ar um climão do tipo: “Erraram eles ou erramos nós?”.

A contagem “científica” do instituto tinha de ter saído bem mais rapidamente, no dia do show ou no dia seguinte. Hoje, passada uma semana, é tarde demais. A nova contagem não tem serventia.

Não acredito que o levantamento do Datafolha contribua para a serenidade da atmosfera nacional. Na verdade, não serve pra nada, a não ser como jogada de marketing em causa própria: “Vejam como somos fantásticos, nós! Sabemos contar melhor que vosmicês!”.

Num ambiente nacional de polarização sistemática de tudo o que se diz e de tudo o que se faz, melhor teria sido se tivessem calado.

Termômetro da sociedade

José Horta Manzano

Que as redes se tornaram o termômetro maior da sociedade mundial, ninguém há de discordar. Pois essas redes às vezes me parecem um tanto hipócritas. Ou estarão desnorteadas.

A foto acima circulou pela internet. É um instantâneo do círculo mais chegado a Bolsonaro, colhido no show que a cantora Madonna estrelou sábado passado no Rio de Janeiro. Em princípio, seria mais uma imagem banal, semelhante a milhares de outros selfies tirados durante o concerto da diva. Mas este aqui tem uma carga diferenciada, como se diz hoje em dia.

As redes dos bolsonaristas se interessam por tudo o que diz respeito ao Jair, ídolo deles. Pois eles torceram o nariz para a foto, que elevou o nível de tensões internas preexistentes na extrema direita.

Entre os admiradores do capitão, forte contingente idealiza um mundo de sonho, sem pecados, sem erotismo, todo regradinho, sem desvios comportamentais de natureza sexual. A estrela do show de sábado não é conhecida por seu puritanismo. Bem ao contrário, nunca escondeu suas ideias de mulher liberada, empoderada, livre de preconceitos de ordem sexual.

Ora, ver que os colaboradores mais próximos do capitão – incluindo seu advogado pessoal – assistiram a um espetáculo a tal ponto ímpio deu frio na barriga de muito bolsonarista radical. A luta pela decência moral e contra toda desenvoltura sexual, razão de ser de todo cidadão de extrema direita, não combina com o escândalo dado pelos integrantes do primeiro escalão da seita bolsonárica que assistiram ao show de Madonna e ainda ousaram tirar essa foto com tanto sorriso.

Compreende-se que os demais seguidores do capitão, que se inteiraram do acontecido pelas redes, tenham ficado chocados e desorientados.

Quanto a nós, que não rezamos por essa cartilha, o que salta aos olhos são outros detalhes reveladores.

  • Como de costume, a galera vem do clube da testosterona, onde menina não entra. Para eles, lugar de mulher é certamente em casa, cuidando da numerosa prole. Como Deus manda.
  • Como de costume, a confraria é composta unicamente de homens brancos (ou quase brancos). É um conciliábulo em que diversidade não entra. As esposas? Decerto em casa, cerzindo as meias.

Agora dá pra entender como é que Madonna consegue reunir um milhão e meio em Copacabana. Ela, que não é boba, não faz diferença entre espectadores de esquerda ou de extrema direita. Quer que venham todos, desde que aplaudam.

A enchente do 41

Porto Alegre: enchente de 1941

José Horta Manzano

Assinalo um relato do qual, pessoalmente, não havia ouvido falar: a enchente que o Rio Grande do Sul sofreu pouco mais de oitenta anos atrás. O jornal Globo publicou hoje uma carta redigida em 1941 por uma jovem gaúcha. A moça, que tinha vindo passar uns dias com a família em Porto Alegre, dá uma descrição detalhada, em conformidade com seu estatuto de “testemunha ocular da História”.

Faz a relação dos acontecimentos daqueles dias. Menciona os bairros inundados. Reclama que, durante dias, a cidade ficou às escuras, sem trens, sem água, sem leite e sem jornal. Imagine, num tempo em que o jornal era o veículo que trazia todas as notícias – as boas e as más – ficar sem ele. Era como se, hoje, internet apagasse por uma semana.

A carta conta ainda o sufoco de parentes e conhecidos da missivista que, vítimas das enchentes, tornaram-se flagelados, palavra hoje menos usada nesse contexto, substituída por desabrigados. A missiva vem numa escrita de nível equivalente ou até superior ao que hoje conhecemos como português padrão.

As frases tem começo, meio e fim. Os verbos estão bem conjugados. As concordâncias estão todas coerentes. A ortografia, anterior à reforma de 1943, ainda conserva saborosas reminiscências de outras eras: sahiram, mez, assoalho (em vez de chão), cousa horrorosa, e por aí vai.

Tenho lido reportagens e artigos sobre a catástrofe do Rio Grande do Sul. Precisou aparecer essa cartinha, pescada de algum baú (bahu?), pra lembrar que a mesma barbaridade já aconteceu em maio de 1941. Com as mesmas consequências.

É verdade que o estado era menos populoso, assim como é também verdade que as cidades tinham menos gente. Assim mesmo, morreram brasileiros, afogaram-se animais e gado, arruinaram-se lavouras, pontes, estradas e instalações.

Este escriba, que é velho mas não a esse ponto, não poderia lembrar, de memória, da enchente de 1941. Mas os jornais, que a gente imagina possuírem arquivos robustos, deveriam ter comparado, desde os primeiros dias, a inundação atual com a dos anos 1940. A mídia gaúcha relembrou outras enchentes, mas os jornais de circulação nacional foram menos atirados. Se eu não tiver zapeado.

A repetição das cheias vai continuar, ainda que nossa memória falhe. Mas a memória é um componente poderoso na prevenção e na mitigação de problemas futuros.

À direita da extrema direita

Ruy Castro (*)

Em 1932, um jornalista português, António Ferro, 37 anos, conseguiu o que era dado como impossível: entrevistar o quase inatingível António de Oliveira Salazar, todo-poderoso de um governo que se definia como ditadura. Ferro teve com Salazar longas conversas, reunidas num livro de 300 páginas com o pensamento do ditador de Portugal.

Como foram essas conversas? A bordo de carros em movimento, à mesa de jantar, em torno de “fumegantes caldos verdes” e em passeios a pé por estradas, às vezes “à beira do anoitecer” ou sob “uma chuva miudinha e enervante”. As perguntas de Ferro eram curtas, como sói, mas as respostas de Salazar eram caudalosas e demoradas, de páginas e páginas.

Como veterano entrevistador, tiro o chapéu para António Ferro. Em 1932, não havia gravadores, os alemães só lançariam o magnetofone em 1935. Ferro teve de anotar tudo a lápis ou caneta, nas terríveis condições descritas, e Salazar não as deve ter ditado com vagar. E eu queria ver Ferro taquigrafar no escuro, debaixo de chuva.

Donde só há uma explicação: todas as palavras atribuídas a Salazar são de Ferro. Por que Salazar se submeteria a tal? Porque confiava nele. Ferro era culto, ladino, muito inteligente – aliás, amigo dos modernistas brasileiros e colaborador da revista Klaxon. E os dois tinham muito em comum: desprezo pelo povo português, aversão ao Judiciário, ódio à democracia e admiração por Mussolini e Hitler.

A extrema direita costuma ser creditada a certos governantes. Mas eles talvez fossem apenas os executores da estratégia de um pensador maléfico, à direita da extrema direita. Ferro pode ter sido para Salazar o que Marinetti, criador do futurismo, foi para Mussolini; Oswald Spengler, para Hitler; Steve Bannon, para Donald Trump; e Olavo de Carvalho, para Bolsonaro.

O que nos salva é quando esses governantes se empolgam e resolvem pensar por conta própria.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado n’O Globo.

Pimenta nos olhos

José Horta Manzano

Pimenta em olhos alheios é refresco, todo o mundo sabe disso. Incêndio na casa dos outros é espetáculo. Ver terras distantes cair em apuros é curiosidade. Contagem de mortos em transtornos de grande amplitude é estatística.

Estes dias, o espetáculo dado por uma cantora chamada Madonna e o dilúvio que castiga o Rio Grande do Sul têm competido no noticiário internacional. Até os jornais televisivos falaram dos dois fatos.

Para quem vive longe do Brasil, as tragédias climáticas que têm agredido nossa terra ultimamente são como incêndio na casa dos outros: não levam ninguém ao desespero. Já para os que moram no território nacional, o drama está fisicamente mais perto, portanto é mais envolvente.

Pouco a pouco, severos desastres climáticos por toda parte vão confirmando os gritos de alerta que climatologistas têm lançado nas últimas duas décadas: o planeta está se aquecendo e o clima está mudando rapidamente.

O que se esperava para 2050 está acontecendo já agora. O ritmo das mudanças vai se acelerando. Parte da China está afundando. Com a subida do nível dos oceanos, países insulares do Pacífico estão desaparecendo. Na Europa, faz dois anos que cada mês representa um recorde de temperatura em comparação com a média das décadas anteriores para o mesmo mês.

No Brasil, o que vemos são períodos de calor extremo que se repetem, nem bem acaba um, já vem o outro. Calor fora de época, como esse que assola o Sudeste em pleno mês de maio. Que dizer então do dilúvio catastrófico que atingiu o Rio Grande do Sul, seguido de mortos, feridos, desalojados temporários (que não conseguem voltar pra casa) e desabrigados perenes (que perderam a casa). Dois terços do estado foram atingidos – uma calamidade de proporções bíblicas.

No Brasil, a praga do cepticismo climático não é tão generalizada como em outros países. Por seu lado, a consciência da urgência climática também não é arraigada entre os cidadãos.

Vamos esperar que, de tanta desgraceira, saiam pelo menos duas consequências positivas. Por um lado, que o grasnido agourento de nossos urubus negacionistas se cale; por outro lado, que o povo brasileiro comece a se conscientizar de que, para amenizar e retardar a degradação do planeta, é preciso contar com a ação conjunta de todos os habitantes da Terra.

Cada um tem de fazer sua parte. Está mais que na hora de o governo programar campanhas nacionais de conscientização.

Fiasco do 1° de maio

José Horta Manzano

O comício que Lula da Silva convocou para o 1° de maio foi um furo n’água. Você assistiu? Nem eu. Comparando com os sucessos de bilheteria do capitão, dá pena ver o grupo magrinho de admiradores que foram ouvir o Lula. Qualquer cantor(a) de renome atrairia mais gente que o velho guerreiro de Garanhuns. Como é possível que o antigo torneiro mecânico, que eletrizava multidões até algum tempo atrás, tenha perdido o charme? Qual é a razão, afinal, do fiasco de público?

A maioria dos analistas explicam, com razâo, que a esquerda murchou e que o mundo que Lula deixou ao sair da Presidência mudou muito sem que ele perceba. É verdade, mas não pode ser só isso. O mundo mudou, sim, mas, dede o ano de 2010, a Terra não passou a girar ao contrário. Mudanças houve, mas não a ponto de cortar a conexão entre o Lula e o povo.

A meu ver, o buraco é um pouco mais embaixo. Mudou o mundo e Lula, que insiste em não aceitar isso, continua a fazer de conta. Mas acredito que, nessa explicação, está faltando um ingrediente.

Acredito que o grande fator que elegeu Lula em 2022 foi o desejo de milhões de eleitores de se livrarem do capitão. Se o adversário de Luiz Inácio fosse qualquer outro, Lula muito provavelmente teria fracassado. Ele só foi eleito, repito, para derrubar Bolsonaro e desalojá-lo do Planalto.

O fato de ter sido eleito praticamente sem um esboço de programa de governo é forte indício de que, para os eleitores, isso era mero detalhe. Votaram nele assim mesmo.

A última eleição foi diferente das anteriores. Enorme contingente de brasileiros estavam fartos de Bolsonaro e queriam se livrar dele. Acredito que qualquer adversário que não fosse o Lula teria vencido por margem até mais ampla do que os magros 50,9% do antigo metalúrgico. É que, para um número considerável de eleitores, Lula era tão repulsivo que votar nele era impensável.

A meu ver, o ingrediente que está faltando nas análises que li é o fator cansaço. O Brasil está cansado de Lula. Veja só, a candidatura de Lula às presidenciais equivale, guardadas as proporções, à candidatura de um Collor de Mello. Há diversos pontos comuns entre eles. Ambos foram presidentes. Ambos deram boa contribuição ao país, Collor com a abertura do Brasil ao mundo e Lula com um olhar compassivo em direção aos desvalidos. Ambos saíram chamuscados de problemas com a justiça: um foi destituído e outro acabou na cadeia.

Por que razão uma candidatura de Collor de Mello hoje em dia é inconcebível? Porque é figura do passado. Já deu o que tinha que dar, e passou. A página está virada. O homem, que é senador da República, ainda circula pelos palácios de Brasília feito um zumbi, mas seu tempo passou.

E o Lula? Pois está nas mesmas condições: é figura do passado, já deu o que tinha pra dar, já passou, é página virada. Para alguns, deixou saudade, mas não se faz um país com saudade. Ele quis candidatar-se à Presidencia num momento crucial da vida da nação.

Venceu, mas venceu por um fio. No dia seguinte, já tinha esquecido das condições da vitória. Está governando como se tivesse sido eleito com cem porcento dos votos. Na parte internacional, envergonha o país a cada ocasião que se apresenta. Na parte nacional, está sempre atrasado, correndo atrás da realidade, que lhe escapa.

Sem Bolsonaro, Lula jamais teria sido eleito. Ele deve sua estreita vitória ao forte antibolsonarismo. Nosso país não tem demonstrado especial preferência por um governo gerontocrático. À porta dos 80 anos, Lula já está fazendo hora extra.

Seria bom não ceder à vaidade que o impele a solicitar mais um mandato. Seu oponente não será o inelegível Jair Bolsonaro. Dependendo de quem for o candidato, Lula periga ser derrotado, o que seria um desastre para sua biografia.

Que solte as cartas, passe a mão, levante-se e vá preparar sanduichinhos. Sem ele, a partida continuará do mesmo jeito. Talvez até melhor do que com ele.

Desejo de emigrar

Viagem no século XIX

José Horta Manzano

“Les voyages forment la jeunesse” (As viagens formam a juventude) é citação do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). A frase tornou-se um aforismo da língua francesa, que ressurge na linguagem comum sempre que o contexto favorece.

Faz sentido. Viajar, sobretudo deslocando-se lenta e demoradamente como se fazia no tempo de Montaigne, é atividade excelente para alargar o horizonte de jovens e de menos jovens. Se todos os humanos pudessem passar pelo menos um ou dois anos fora da terra natal, nem que fosse só uma vez na vida, o mundo seria certamente melhor.

Li um artigo do cientista político Bruno Soller, publicado semana passada no Estadão, comentando os resultados da mais recente pesquisa do instituto RealTime Big Data. O estudo conclui que 67% dos brasileiros de 16 a 35 anos sairiam do Brasil se lhes fosse possível. Quando dizem “sairiam”, não se referem apenas a um fim de semana na Disneylândia – sairiam de fato, definitivamente, de mala e cuia, firme sempre pra frente.

Seja qual for o ângulo de leitura desse resultado, a realidade é inescapável: quando 2 em cada 3 jovens gostariam de abandonar o país sem olhar pra trás, é sinal de que alguma coisa está tragicamente errada.

Observando o número de brasileiros vivendo atualmente no exterior, já temos uma rápida visão do problema. Em Portugal, entre legalizados e clandestinos, nossos compatriotas já estão batendo no meio milhão de indivíduos. Num país de 10 milhões de habitantes, esse contingente barulhento começa a incomodar e a alimentar o discurso xenofóbico da extrema direita.

O Itamaraty calcula que pouco menos de 2 milhões de brasileiros vivam hoje nos EUA. Não há razão pra duvidar dos cálculos do governo brasileiro, mas não seria espantoso se esse número estivesse subestimado.

Pelos mesmos motivos, o total de brasileiros no exterior, calculado pelo Itamaraty em 4,6 milhões, pode, na realidade, ser maior.

O Itamaraty registra 64 mil brasileiros residindo na Suíça. O número verdadeiro é bem mais elevado. Ao longo dos anos, conheci brasileiros que vivem aqui há décadas na mais perfeita clandestinidade, sem existência administrativa, sem autorização de permanência, sem seguro de saúde, sem contribuir para a aposentadoria. São não-pessoas. E esse é, sem sombra de dúvida, o caso não invejável de multidões de brasileiros pelo mundo.

Acho de uma tristeza infinita que 2/3 dos jovens brasileiros estejam dispostos a pagar coiotes no México, a suportar clandestinidade na Europa, a ser hostilizados em Portugal, contanto que se livrem de um Brasil violento que virou purgatório para pecadores e inocentes.

A tragédia a que assistimos hoje é resultado de décadas de corrupção, de domínio das instituições por capitães do mato que se dedicam ao ataque organizado e sistemático contra os dinheiros públicos, de desprezo para com o povão abestalhado que os elege, de acaparamento do que é de todos por camarilhas hereditárias. Eis a fonte da obesa miséria que mantém na ignorância contingentes desdentados.

Se todos os brasileiros que desejam fazer as malas e partir definitivamente forem bem-sucedidos, o país vai se esvaziar. Será a solução para o excesso de natalidade, mas será a condenação do país a se tornar um Brasil decadente, cada vez mais pobre, travado, sem futuro e sem esperança.

Não sei se é isso que queremos, mas tudo indica que é a isso que nos dirigimos.

Descriminação

José Horta Manzano

Em princípio, não é na escola que surgem casos de descriminação, como está escrito na chamada. Termo empregado em textos jurídicos, a descriminação é o resultado do ato de isentar de crime um fato.

Já o que costuma, infelizmente, acontecer em escolas, são casos de discriminação. Significa tratar de modo injusto ou desigual alunos de religião, origem social ou cor de pele diferente da maioria. Quem agir assim estará cometendo ato de discriminação, ofensa prevista na lei penal.

Portanto:

  • descriminação (isentar de crime um fato) – começa com des
  • discriminação (tratar um grupo de indivíduos de forma desigual) – começa com dis.

Na minha opinião, o autor do título do artigo d’O Globo cometeu hipercorreção, que é o escriba substituir a forma correta por outra que lhe pareça ainda mais de acordo com o português culto.

É o mesmo mecanismo que leva muita gente a abandonar dispensa (que, embora seja a forma correta, soa errado) e substituir por despensa. Assim:

  • Estava resfriado e pediu despensa” da aula de Educação Física. (hipercorreção)

O artigo d’O Globo trata de casos de discriminação na escola, é claro.

Terra plana

José Horta Manzano

Pensei que, com a derrota do capitão e com o falecimento de seu mentor, a teoria do complô que deu vida à terra plana também teria caído no esquecimento. Parece que não. Vamos lá.

Semana passada saiu nova pesquisa Datafolha baseada na entrevista de mais de 2 mil brasileiros em 113 municípios do país. A pergunta era:


“Na sua opinião, qual é o formato do planeta Terra: redondo ou plano?”


Nove em cada dez entrevistados responderam “redondo”, mostrando estabilidade com o percentual aferido na pesquisa de 2019, quando a mesma pergunta tinha sido feita.

No entanto, a par desses que deram a resposta padrão, um punhado de cidadãos mostrou acreditar que a Terra é plana – e tiveram a coragem de afirmá-lo. Entre os bolsonaristas, 8% são dessa opinião. Entre os petistas, nada menos que 7% estão também convictos de que a Terra é plana. Se acrescentarmos os que não souberam responder, que são 2% entre bolsonaristas e 3% entre lulistas, chegamos a um total de 10% da população. São indivíduos que se encontram numa zona de insegurança cognitiva.

Se esses 10% estão longe de representar a maioria dos brasileiros, assim mesmo não deixam de representar um cidadão em cada dez. Não é uma franja tão desprezível. Por que essas pessoas terão aberto os braços para o ensino dessa estranha cartilha?

Que eu me lembre, não se falava em “Terra plana” décadas atrás. Esse assunto surgiu depois da vulgarização da internet. Antes disso, não era um ponto polêmico. A gente aprendia que a Terra era redonda e pronto. Seria descabido pôr em dúvida.

A internet permitiu a disseminação dessa teoria complotista. De lá deve ter vindo o alerta: “Ô galera, olho vivo! Estamos sendo enganados pelos bilionários pedófilos que dirigem o mundo. A Terra não é redonda, é plana! Qualquer um pode constatar isso a qualquer momento, em qualquer lugar. Olhe em torno de você e não se deixe enganar!”

Bolsonaristas não são donos exclusivos da internet; lulopetistas também têm acesso. Em razão disso, 10% de nossos compatriotas, de esquerda ou de extrema-direita, se deixaram contaminar pela dúvida. E hoje todo esse contingente tem suspeita (ou certeza) de que nosso planeta não é uma bola redonda, que está mais pra bola murcha e achatada.

À vista disso, pode-se concluir que o espírito acrítico capaz de aceitar qualquer bobajada não é monopólio do torcedor bolsonarista. Os fãs do lulopetismo têm, em igual medida, o mesmíssimo espírito acrítico. Os números não mentem: 10% de uns contra 10% dos outros.

Na realidade, só adquire crença em algo que não foi ensinado na escola quem teve pouca escola. Ou escola fraca. O terraplanismo brota num ambiente em que não entra a leitura. É o mesmo terreno em que surgem as demais teorias complotistas e complotizantes.

Parodiando o que se dizia nos anos 1940 e 1950 sobre a saúva:


Ou o Brasil acaba com a ignorância ou a ignorância acaba com o Brasil.


 

Orbis terrarum novissima tabula in Brasilia facta

Mapa-múndi de Nicolaes Visscher, 1658

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 25 abril 2024

No ano de 1658, o cartógrafo e editor holandês Nicolaes Visscher publicou um planisfério de sua autoria intitulado “Orbis terrarum nova et accuratissima tabula” – Mapa novo e exato do globo terrestre. O mapa, que mostra nossa Terra distribuída por dois hemisférios, é verdadeira obra de arte, com cenas mitológicas desenhadas nos quatro cantos da folha. Os dizeres são em latim, que ainda era a língua das obras sérias, não destinadas ao povão mas a um público culto.

É interessante notar que a porção de América do Sul que mais tarde viria a ser nosso país é a terra mais central do globo. Aparece em destaque, bem no meio do mundo. Europa e América do Norte se encontram distantes do meridiano central. É compreensível que Visscher tenha decidido retratar dessa maneira o mundo então conhecido. À época, muitas terras situadas na região do Oceano Pacífico ainda estavam por descobrir, o que possibilitou ao cartógrafo amputar parte do Japão e da Austrália, regiões mal conhecidas que acabaram ficando fora do mapa. Hoje, nenhum profissional sério faria mais isso.

Duas semanas atrás, o IBGE revelou ao grande público, com estrondo, sua mais recente façanha: um mapa-múndi que, enfim, coloca o Brasil no lugar que lhe é devido – no centro do mundo! Nas palavras de Doutor Pochmann, diretor do Instituto, o costume de desenhar o planisfério com o Meridiano de Greenwich no centro não passa de “projeto eurocentrista de modernidade ocidental”. São palavras panfletárias, distantes do processo científico. Na Ciência de verdade, projetos diferentes não se excluem, se complementam.

Assim mesmo, vamos admitir que o tal “projeto eurocentrista de modernidade ocidental” existe e que o Meridiano de Greenwich são suas impressões digitais. Ainda assim, será ingenuidade acreditar que o fato de o Brasil impor a seus estudantes um planisfério em que o meridiano central foi empurrado com o cotovelo vá influir nos desígnios do planeta. A Terra vai continuar a girar e o Meridiano de Greenwich continuará aparecendo no centro dos mapas-múndi que não forem impressos pelo IBGE. Eis aí o tipo de protesto naïf e inútil, que só vai servir para confundir a cabecinha de nossos estudantes, que terão mais dificuldade em entender por que razão esse meridiano foi escolhido para iniciar a contagem das 24 horas do dia.

O alvoroço gerado pela publicação do novíssimo Atlas Geográfico Escolar do IBGE destoa da seriedade do objeto. Um atlas é coleção de conhecimentos, uma enciclopédia sócio-geográfica que tem direito a ser lançada com a reverência e o recato que lhe são devidos.

Nosso cartógrafo holandês do século XVII até que tinha direito de omitir terras ainda não exploradas. Tinha também o direito de cortar as terras distantes e pouco conhecidas em dois pedaços, aparecendo um de cada lado do planisfério. Nosso IBGE, herdeiro de 150 anos de tradição de seriedade, não tem mais esse direito. Quando preparamos um mapa do Brasil, toda a atenção tem de estar focada no Brasil, evidentemente. Já quando desenhamos um mapa-múndi, nosso horizonte tem de se alargar. Além do Brasil, temos de cartografar também o resto do mundo. Se não temos capacidade de fazer isso certinho, é melhor desistir e importar planisférios já prontos.

O Novíssimo Atlas Escolar do IBGE peca em diversos aspectos. Com o deslocamento do Meridiano de Greenwich de 30 graus a leste, a Austrália aparece cortada em dois pedaços. A China e a Rússia idem. O mesmo vale para a Indonésia. Detalhe: como integrantes do G20, nenhum desses 4 países há de apreciar a travessura de nossa Novissima Tabula. Tem mais: o Canal da Mancha é descrito como “Estreito de Dover” enquanto o Estreito de Malaca aparece como “Estreito de Málaca”. Outra pérola: as Ilhas Falkland (Malvinas), território britânico, são unilateralmente atribuídas à Argentina.

Numa prova de inconsistência, a “arte de deslocar o Brasil para fazê-lo entrar à força no centro do mundo” não contaminou toda a coleção de mapas-múndi guardados no site do IBGE. De meia centena de planisférios, somente uma meia dúzia foram redesenhados conforme a novíssima versão. Os demais continuam mostrando Greenwich no centro do mapa. Parece que nem o IBGE acredita em sua própria mágica.

No centro do mundo não se entra pela janela nem pela porta dos fundos. Se um dia o Brasil chegar lá, terá que passar pela porta da frente. E ser recebido com dupla ala de guardas de honra, emplumados e engalanados.