Áurea

Áurea (RS)

José Horta Manzano

Você sabia?

Duas semanas atrás, a Câmara de uma cidadezinha gaúcha de 3.600 habitantes aprovou uma lei municipal pouco comum no Brasil. Vamos conhecer a história.

A cidadezinha é Áurea, no alto vale do Rio Uruguai, norte do Rio Grande do Sul. O povoado começou a se formar 120 anos atrás, com a chegada de imigrantes poloneses. Seus descendentes constituem hoje mais de 90% da população.

Nos anos 1930, na tentativa de consolidar o advento de um “homo brasilicus” alforriado dos laços que prendiam os imigrantes à pátria de origem, a ditadura Vargas exerceu forte pressão para transformar os recém-chegados de então em brasileirinhos de quatrocentos anos. Em Áurea, o uso da língua polonesa no espaço público foi banido. Também foi proibido o ensino dessa língua em escolas.

Assim mesmo, Áurea resistiu. Não podendo fazer parte do ensino escolar, o polonês foi transmitido de geração em geração por via oral, no seio de cada família. Chegamos ao dia de hoje com boa parte da população – principalmente os mais velhos – “se virando” em polonês. Uns falam bem, outros mais ou menos, muitos entendem mas não falam, uns poucos leem.

Agora vamos à nova lei municipal. Ela institui a língua polonesa como idioma cooficial no município, ao lado da língua portuguesa – como permite o Artigo 216 da Constituição Federal. O objetivo é valorizar o aprendizado e a transmissão dessa língua, além de dar apoio a eventos culturais, artísticos e turísticos que promovam o idioma dos antepassados.

A (quase) totalidade dos habitantes tem sobrenome de origem polonesa, muitas vezes estropiado. Para corrigir essa anomalia, um dos incisos da lei preconiza que esses sobrenomes passem a ser corretamente grafados.

Os vereadores de Áurea estão de parabéns. A iniciativa me parece simpática, justa e oportuna. Nenhum aureense vai deixar de falar português só porque melhorou seu conhecimento da língua dos avós ou bisavós. O conhecimento de uma língua estrangeira, seja ela qual for, desempoeira a mente e alarga o horizonte intelectual. Só traz benefícios.

A coisa e o nome da coisa

José Horta Manzano

Minha avó jamais pronunciou a palavra câncer, o nome da doença. Quando lhe perguntavam de que tinha morrido fulana, costumava responder: “Foi daquela doença horrorosa que a gente nem gosta de falar o nome”. E logo encerrava o assunto e mudava de conversa.

Em fase terminal, câncer é doença muito sofrida. Se hoje em dia ainda é assim, imagine nos tempos de antigamente. Tratamentos balbuciavam, analgésicos não eram poderosos como hoje. Só de pensar, dava medo.

Desde que aprendeu a falar e a dar nome a seres e coisas, o ser humano demonstrou ser altamente supersticioso. Dizer em voz alta o nome de seres maléficos ou de coisas desagradáveis era perigoso: podia chamar desgraça.

Assim como os antigos sentiam (e os modernos continuam sentindo) pavor do câncer, há muitos que evitam pronunciar a palavra morte ou o verbo morrer. Para contornar, os mais poéticos dizem que fulano descansou, que expirou, que nos deixou, que se foi. Os mais crus dirão que abotoou o paletó, que vestiu o pijama de madeira, que bateu as botas. Religiosos ou reencarnacionistas preferirão dizer que voltou para a casa do Pai ou simplesmente que desencarnou.

No Brasil – mas não só –, há os que jamais pronunciam a palavra diabo. É que nunca se sabe – ao ouvir seu nome pronunciado em voz alta, belzebu pode até achar que está sendo chamado. Melhor evitar. Há uma série impressionante de substitutivos, que vão desde o corriqueiro demônio até o requintado príncipe das trevas, passando pelo cão-tinhoso, lúcifer, satanás, maldito, cornudo, tentador, pai do mal e tantos outros.

Os povos latinos e mediterrâneos parecem ter especial aversão à raposa. É verdade que o canídeo opera de noite, quando todos estão recolhidos, e pode fazer estrago grande num galinheiro. Das línguas da família latina, apenas o italiano continua a utilizar palavra derivada do original: usam volpe, uma adaptação fonética da vulpes latina. (É curioso notar o paralelismo entre a vulpes latina, que quer dizer raposa, e o Wolf germânico, que designa o lobo. Mas essa já é outra história.)

Na Idade Média, todo lar criava algumas galinhas para seu sustento. Evitavam pronunciar o nome da raposa, num esforço para evitar que ela se sentisse convocada a dizimar o galinheiro. Todos deram um apelido à vulpes latina.

O catalão diz guineu, palavra de origem incerta. O francês escolheu renard, em referência a uma fábula medieval. O espanhol prefere zorro, termo que, segundo uns, provém do vasco, e, segundo outros, tem origem na língua portuguesa, de um antigo adjetivo zorro, que significava ocioso, folgado, vagabundo. Quanto a nós, dizemos raposa (=rabosa), em alusão ao imponente rabo do animal, que parece espanador felpudo.

Ah, como seria prático se, quando a gente quer afugentar uma realidade, bastasse mudar-lhe o nome! Por mim, mudava já o nome do presidente da República. E o de todos os que até agora se apresentaram para suceder-lhe. Assim, afastava toda essa gente. Que fossem cantar noutra freguesia e deixassem campo livre para gente bem-intencionada.

Brienfing

José Horta Manzano

A propósito do encontro do capitão com o corpo diplomático, todos apontaram o dedo para o imperdoável erro de grafia da palavra inglesa “Briefing”, que apareceu na tela grafada “Brienfing”. Só essa mancada já teria bastado pra desmerecer o discurso, não precisava nem soltar aquele caudal de asneiras.

A língua inglesa tomou o termo briefing do latim breve (brevis), que chegou à Grã-Bretanha através do francês medieval bref. No original, a palavra corresponde a nosso breve (= curto, pequeno, que dura pouco tempo).

Em inglês, com o passar dos séculos, o sentido de briefing foi se alterando. Na língua atual, designa o ato de dar instruções preparatórias a alguém. Por exemplo, antes de uma missão, o piloto de guerra passará por um briefing, ocasião em que receberá instruções precisas sobre o que deve fazer.

Portanto, o “Brienfing” presidencial há de ter posto os diplomatas na incômoda situação de quem volta aos bancos da escola para receber instruções de um desvairado dirigente estrangeiro. Uma ousadia com forte potencial ofensivo.

Sorte tem a douta equipe presidencial de ter caído com diplomatas do século 21, que costumam ser gente letrada, que não liga para gesticulação de ignorantes. Em outros tempos, poderia até ser considerado casus belli – ato suficientemente grave para justificar uma declaração de guerra.

Pobre Brasil! Em apenas duas décadas, como te rebaixaram!

Cuidado com o sub do sub

José Horta Manzano

No Brasil, tirando algum analista mais comedido, as grosserias e o palavreado chulo que são marca registrada do capitão parecem não incomodar. Deve ser efeito da repetição. É como quem mora numa avenida movimentada que, de tanto ouvir barulho de caminhão, nem percebe mais que tem veículo passando. Ou de quem vive no eixo da pista de aeroporto movimentado, que acaba não se dando mais conta de que um avião rela seu telhado a cada 15, 10 ou 3 minutos.

Já nos States, tem disso não. A coleção de impropérios e palavrões deles é tão rica quanto a nossa, o problema não está aí. O fato é que, num país cuja certidão de nascimento foi assinada por um grupo de famílias devotas que estavam imigrando por motivo de perseguição religiosa, certas baixarias são reservadas para o âmbito privado; é inconcebível pronunciá-las em público.

A CPI que investiga o comportamento de Donald Trump nos dias que precederam a invasão do Capitólio de Washington, no ano passado, ouviu ontem uma moça jovem, assistente do chefe de gabinete do presidente. Ela encarna aquela figura meio invisível, que trafega livre e despercebida pelos altos círculos. Sua presença não intimida, de modo que ninguém policia muito as palavras diante dela, e as falas correm fluidas.

Pois foi essa senhora que, chamada a depor na comissão parlamentar, botou a boca no trombone. É que ouviu, da boca do presidente, um palavreado que – nos Estados Unidos – presidente não deveria ousar.

Não vou aqui repetir a notícia que todos já conhecem. O que me chamou a atenção foi, primeiro, o que disse Trump; segundo, como o palavrão foi estampado na mídia internacional

O que ele disse
“I’m the effing president. Take me up to the Capitol now!”
“Effing” é a forma suavizada usada pela imprensa para evitar de escrever o original fucking, que, embora frequente na linguagem falada, é considerada ofensiva demais pra aparecer em jornal. Pra saber o que o presidente disse exatamente, substitua-se effing por fucking.

Em espanhol
“Soy el maldito presidente, ¡llévame al Capitolio ahora!”
Foi assim que saiu a maioria dos títulos em espanhol. Maldito, nesse caso, embora seja expressão pesada, não chega a ser tabuística.

Assim mesmo, o jornal El País, decerto pra não correr risco de ofender ninguém, mostrou que a moda do “politicamente correto” vem fazendo estragos em seu país e optou por omitir a palavra mais vulgar. Numa solução radical, suavizou:
“Soy el presidente de Estados Unidos, ¡llévenme allí!”

Em alemão
A imprensa alemã utilizou expressão corrente na língua. Curiosamente, trata-se da tradução do mesmo “maldito” espanhol. Ficou assim:
“Ich bin der verdammte Präsident, bringt mich zum Capitol”

Em italiano
Os italianos aproveitaram a ocasião. Usaram uma palavra que trota na cabeça de todos, mas que só vem à boca depois que as senhoras tenham deixado a sala. É cazzo (= cacete).
“Sono il cazzo di capo, vai al Campidoglio!”

Em francês
Os franceses fizeram como os italianos – idem com batatas.
“Je suis le putain de président, amenez-moi au Capitole tout de suite!”
A palavra tabuística lembra a nossa versão, dado que usa um substantivo que não faz sentido lógico naquela posição mas denota exasperação e traz carga ameaçadora. Putain = puta.

Em português
No Brasil, a mídia deitou e rolou. Alguns veículos deram a letra inicial do palavrão seguida por estrelinhas, forma antiga de dizer sem dizer. Mas a maioria mandou ver:
“Eu sou a porra do presidente, me leve para o Capitólio agora!”

Já em Portugal, a grande imprensa preferiu uma saída à moda de El País:
“Sou o presidente, leve-me ao Capitólio agora!”
Não dói no ouvido, mas também não transmite o estado furibundo em que se encontrava Trump.

Em holandês
Na Holanda, país em que grande parte da população fala, além da língua do país, inglês fluente, a expressão inglesa não dá medo a ninguém.
“Ik ben de fucking president, breng me naar het Capitool, nú.”

Moral da história
Desconfie do sub do sub. Por mais alheio que ele possa parecer, ele também tem ouvidos para ouvir e boca para falar.

Os brasileiros e as brasileiras

José Horta Manzano

Certos tiques de linguagem são irritantes. Essa tendência que acomete jornalistas e outros escribas a confundir sexo de gente com gênero de palavra complica desnecessariamente o trabalho de escrita. Este blogueiro, por ser antigo, conserva os hábitos dos tempos de antigamente.

De fato, não é do meu feitio usar a moderna “linguagem inclusiva” do tipo “Brasileiros e brasileiras!”, saudação introduzida pelo pranteado (embora ainda vivo) presidente Sarney.

Se não me dobro a essa modernidade, não é tanto por convicção, mas por não achar que ela seja útil nem necessária. Portanto, quando digo “o brasileiro”, estou me referindo a todos os brasileiros e brasileiras, independentemente de sexo. Se menciono “o político brasileiro”, estou incluindo os personagens políticos de todos os sexos. Me parece uma evidência.

Se menciono, genericamente, “o jornalista”, “o mensageiro”, “o diretor”, estou me referindo, naturalmente, a jornalistas homens e a jornalistas mulheres, a mensageiros e mensageiras, a diretores e diretoras. Seria ridículo dobrar-se a modismos como “os jornalistas e as jornalistas”, “o diretor ou a diretora”, “o (a) mensageiro (a)”. Sobrecarrega a frase sem precisão.

Em dez anos de blogue, jamais recebi nenhuma reclamação ligada a essa recusa a me dobrar diante dessa imposição. É sinal de que meus leitores são gente inteligente. E minhas leitoras também, evidentemente.

O que acabo de dizer não precisava nem ser explicado. Mas, explicando, fica melhor ainda.

A reforma da gramática

Eduardo Affonso (*)

A tentativa de implantar uma linguagem neutra, obrigando 213 milhões de brasileiros a incorporar novos substantivos (amigue, alune, patroe, empregade), pode até não ser uma ideia ruim de todo.

Se essa turma voltar ao poder (e ela está à frente nas pesquisas de intenção de voto), teremos a chance única de pegar carona no fim do machismo tóxico do idioma, aproveitar o inevitável processo de realfabetização e liquidar vários outros problemas da língua.

Com os novos adjetivos (progressiste, gorde, fasciste, golpiste), podíamos dar um jeito nos verbos irregulares.

Não há criança que não diga “eu fazi” antes de ser repreendida e adestrada a dizer “eu fiz” – que não faz nenhum sentido e vem sem qualquer explicação.

“Fazi” é, intuitivamente, o certo – e o cérebro (principalmente o infantil) é inteligente o bastante para entender conceitos, generalizá-los e colocá-los em prática. Cada verbo irregular é obstáculo ao aprendizado, uma freada brusca nas sinapses, um “volte duas casas” na compreensão de como funciona essa abstração maravilhosa que é a linguagem.

Se a criança diz “eu comi, eu li, eu corri”, por que haveria de estar errada ao dizer “eu queri, eu sabi, eu trazi ou eu cabi”? Acabemos com o falocentrismo do masculino genérico e com as irregularidades verbais, de uma tacada só.

Como vamos ter novos pronomes inclusivos (elu, minhe, nenhume, outre, cuje), que tal eliminar os privilégios ortográficos? Poderíamos começar pela palavra “exceção”, que costuma ser escrita das mais variadas formas – excepcionalmente, até da forma correta.

Pronomes neutros e tratamento igualitário à grafia – isso, sim, é uma pauta democrática. Se o som é de S, só o S deve ter lugar de fala (ops, de escrita). Não à apropriação fonética feita por Ç, SS, SC ou X. Exceção vira “esesão” – e, assim, até ministros do atual governo serão capazes de escrever palavras difíceis como “acesso” e “impressionante” (doravante, tudo com S). O mesmo valerá para o que soe como Z ou como J. Quem corrige prova do Enem poderá se ater apenas ao conteúdo, sem uma síncope a cada batatada ortográfica.

Com particípios também passados a limpo (eleite, derrotade, auditade, ressentide), será hora de abolir o hífen. Por que guarda-chuva tem hífen e mandachuva não tem? Por que não tem hífen em camisa de força e tem em água-de-colônia? “Fora, hífen!” viria se juntar às faixas de “Fora FHC!”, “Fora Temer!”, “Fora Bolsonaro!” e “Fora ____!” (preencher com o nome do próximo presidente que não for de esquerda). Vírgula separando o vocativo, por favor.

Mas pode-se também partir para a terceira via, que é ensinar a língua como se deve, entendendo que mudanças ocorrem naturalmente e que as supostas imperfeições têm uma história e só tornam o idioma mais belo, mais humano. Que não se obriga ninguém a nada, seja na linguagem, seja na política: conversa-se, articula-se, dialoga-se, trocando o “vencer” pelo “convencer” (etimologicamente, “vencer junto”).

Emília, a boneca de pano que resolveu reformar a natureza, colocou abóboras em árvores e jabuticabas em plantas rasteiras. Quem leu Monteiro Lobato sabe no que deu.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Anônimos

Chamada de O Globo, 17 jun 2022

José Horta Manzano

Desde os tempos bíblicos, uma das diferenças entre o ser humano e o resto dos animais é o fato de os humanos terem nome próprio. Todos os humanos. Até esquimó e índio têm nome.

Dependendo do estágio de civilização, alguns pequenos grupos de indivíduos, por razão de viverem isolados, podem até não ter (ainda) inventado o costume de dar sobrenomes. Mas prenome, isso sim, cada pessoa tem pelo menos um.

Sempre achei inadequado tratar indivíduos desconhecidos por “anônimos”. Como é possível que haja “anônimos” numa multidão, se todos temos nome?

Numa época em que todos buscam se exprimir de modo politicamente correto, me parece desrespeitoso tratar um conjunto de pessoas que aparecem numa foto como se constituíssem uma massa informe, sem identidade e sem individualidade, contratados pra dar volume ao retrato.

Operários, obra de 1933
by Tarsila do Amaral (1886-1973), artista paulista

Ninguém jamais associou mulato à ideia de mula até o dia em que apareceu um desmancha-prazeres pra apontar a etimologia. Ninguém jamais pensou estar sendo indelicado ao chamar um índio de índio, até que ficou combinado que não pode: agora os índios viraram “povos originários”.

A lista de palavras e expressões legítimas que se tornaram impróprias está se alongando a cada dia. Minha observação sobre a impropriedade de tratar de anônimo aquele de quem simplesmente se desconhece o nome entra nessa categoria de inutilidades que só estão aí pra azucrinar.

Mas, cá entre nós, se o termo “anônimos” fosse substituído por “desconhecidos”, até que a chamada do jornal ficava mais sexy, não acha? Veja:


Cenas inéditas da Passeata dos Cem Mil mostram desconhecidos e famosos marchando contra a ditadura militar.


 

Os golos

José Horta Manzano

Ontem à noite passavam na televisão um jogo de futebol entre Portugal e a Suíça. Com evidente motivação comercial, os cartolas não param de inventar campeonatos. Toda hora tem um novo. Esse de agora se chama Liga das Nações.

Não acompanho como torcedor de verdade. Dou uma espiadinha quando imagino que vai ser um belo jogo. Só que começou a ficar tarde e desliguei a tevê. Hoje de manhã, curioso pra saber o resultado, fui dar uma olhada na imprensa portuguesa. Nossos amigos lusos estão sorridentes: a seleção (deles) ganhou da Suíça por 4 a 0.

Talvez o distinto leitor já tenha lido textos lusos. Costumo dizer que já vêm com sotaque. Não se passam duas linhas sem a gente tropeçar numa palavra. Com frequência, desconhecemos o significado. Pra descobrir, temos de fazer esforço mental ou apelar pro dicionário.

Acho estimulante. Veja algumas frases que colhi hoje na rubrica esportiva da imprensa lusa.

“Depois de ter estado na origem do primeiro tento, o avançado do Manchester United bisou frente à Suíça.”

Tento. Termo pouco usado no Brasil, é da família de talento. Na Roma antiga, talento era uma moeda. No texto é sinônimo de gol.

Avançado. Nós diríamos centroavante.

Bisar. Não usamos com frequência. Significa fazer algo de novo, repetir. Vem de bis.

“O médio do Betis inaugurou o marcador aos 15 minutos, na recarga a uma defesa incompleta do guarda-redes helvético, na sequência de um livre direto de Ronaldo.”

Médio. É o jogador de meio de campo, que dizemos meio-campo ou meio-campista.

Recarga. Para nós, é o rebote.

Guarda-redes. Não usamos essa simpática expressão, mas ela é autoexplicativa. Quem guarda as redes é o goleiro.

Na sequência de. Raramente usada no Brasil, a expressão é importada diretamente da França. É decalque de “à la suite de”. Nós diríamos “como resultado de”, “em decorrência de”, “dando sequência a” ou expressão similar.

Um livre direto. Esse é mais misterioso. Eu sei o que é porque ainda estava assistindo ao jogo quando aconteceu. Um livre direto é uma cobrança de falta em que há possibilidade de mandar a bola por cima da barreira e fazer o gol diretamente. Ontem, Cristiano Ronaldo executou um livre direto, mas o guarda-redes suíço espalmou. A bola quicou. Na recarga, um jogador da equipa lusa chutou e fez o golo.

“Cristiano Ronaldo aumentou para 117 o seu recorde de golos pela seleção, ao bisar na receção à Suíça (4-0).”

Golo. Como é sabido, os portugueses não dizem gol, mas golo.

Receção. Essa me deu dor de cabeça. Estou acostumado a ler sobre recessão, mas descartei por achar que não é exatamente termo futebolístico. Já ia apanhar o dicionário quando veio o estalo. É uma divergência de grafia. Fosse um jornal brasileiro, não estaria escrito receção, mas… recepção! A Suíça era o time visitante, portanto os portugueses receberam os estrangeiros. Fizeram uma recepção.

Essa grafia anômala resulta do famigerado Acordo Ortográfico de 1990, que determinou que letras não pronunciadas deixariam de ser escritas. No Brasil, pronunciamos o P de recepção, por isso ele continua sendo grafado. Já em Portugal, a pronúncia soa a nossos ouvidos como “rr’-cé-ção”. A regra foi impiedosa: baniu o P.

É mais uma mostra dos problemas criados por uma absurda reforma meia-sola, que só serviu para atrapalhar. Deu canseira a muitos e lucro a uns poucos. Por mim, teria ido pro lixo.

Durante o jogo, o presidente da República Portuguesa não estava grudado na tela da tevê. Nem andando de jet ski, nem fazendo motociata. Encontrava-se na Festa do Livro em Belém, manifestação que ele mesmo criou em 2016 e que reúne anualmente editoras, livreiros e autores para diversas conferências e sessões de autógrafos. É como nossa Flip de Paraty.

O dirigente foi efusivo ao cumprimentar a equipa. Disse que “foram quatro golos, podiam ter sido oito…”. E justificou o entusiasmo: “Termos muitos atletas a competir nos melhores clubes do mundo dá-lhes uma forma espetacular”.

Falou como a gente espera que um presidente decente fale. Nada a ver com o esfarrapado que nos dirige. Pô!

Querides amigues

Vivian Cabrelli Mansano (*)

Vamos conversar com a tia. Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. Eu sou professora de Português.

Eu estava ensinando um conceito de Português e fui chamada de desrespeitosa. Ué. Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser “neutre”.

Em português, na maioria dos casos, a vogal temática não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Vou mostrar pra vocês:

O motorista – termina em A e não é feminino.

O poeta – termina em A e não é feminino.

Ação, depressão, impressão, ficção – todos os substantivos abstratos com o final ão são femininos, embora terminem com O.

Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, sem alteração da letra final. Veja: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável.

Colocar um E no final de uma palavra não faz com que ela seja neutra.

A alface – termina em E e é feminino.

O elefante – termina em E e é masculino.

Como o gênero em português é determinado muito mais pelo artigo do que pela vogal temática, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.

E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o “preconceito”.

Meu conselho é: em vez de insistir tanto na história de gênero, entendam de uma vez por todas que gênero não existe, é um conceito construído pela sociedade.


O que existe é sexo.


Entendam, em segundo lugar, que gênero linguístico, gênero literário, gênero musical, são coisas totalmente diferentes de “gênero”. Não faz sentido mudar gênero de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor nem menos preconceituoso.

E entendam, em terceiro lugar, que vocês bem que podiam tirar o dedo da tela, parar de falar abobrinha e se engajar em algo que realmente fizesse diferença, em vez de arrumar pano pra manga discutindo coisas sem sentido.

(*) Vivian Cabrelli Mansano é professora de Português.

Sua Majestade

O Globo online, 3 junho 2022

José Horta Manzano

Por mais alto que seja o pedestal em que está instalada, Sua Majestade é mortal como nós outros. A pergunta não deve ser “se“, mas “quando“.

Corrija-se o texto. Após substituição de “se” por “para quando“, ficará nota cem. (Ou nota mil pela inflacionada escala atual.)

O bicho de muitos nomes

José Horta Manzano

A história do peru é interessante. (Estou falando do peru de Natal, não do país vizinho.) O pássaro é endêmico na América do Norte. Aliás, foi o único bicho voador a ser domesticado na América pré-colombiana.

Os primeiros espanhóis levaram consigo, no regresso, casais dessa ave. Era uma época em que os navegantes não tinham certeza sobre a real localização das novas terras. Os primeiros exploradores acreditavam haver chegado às Índias – daí os nativos terem sido chamados de índios.

Chegando à Europa, a ave, que ainda não tinha nome, foi batizada conforme a lógica de cada país; só que nem todos seguiam a mesma lógica.

França
Os franceses foram provavelmente os mais rápidos a lhe dar nome. Certos de que as novas terras correspondiam à Índia, chamaram a ave de “poule d’Inde” (=galinha da Índia). O nome ficou até hoje. A primeira parte da expressão caiu (poule), mas a segunda ficou. O nome do peru hoje se escreve sem apóstrofo: “dinde”.

Espanha
Os espanhóis hão de ter nomeado o peru mais tardiamente, pois parece que já sabiam que as terras descobertas não eram a Índia. Deram ao bicho voador o nome de “pavo”, em contraposição a “pavo real”, que é o pavão, ave já conhecida.

Inglaterra
Quanto aos ingleses, a história é diferente. Décadas antes da descoberta da América, os portugueses haviam trazido da África um galináceo desconhecido na Europa: a galinha d’Angola. Seu comércio se alastrou pelo norte da África até chegar à Turquia.

Quando o peru apareceu, já fazia tempo que os ingleses conheciam as angolinhas “da Turquia”. Ao ver a nova ave, pensaram que fosse uma variedade de galinha turca. Deram-lhe o nome de “Turkey hen” (galinha da Turquia), posteriormente abreviado para o atual “Turkey”.

Alemanha
Os alemães, provavelmente fascinados pela novidade, não se preocuparam tanto com a origem do animal. Encantaram-se com o som que ela emitia, especialmente quando queria chamar os pintinhos. Aos ouvidos germânicos, o som soou como “put, put”.

Até hoje, usam a forma onomatopaica “Pute” – forma que, para nós, soa francamente bizarra. O animal também é conhecido pelo nome “Truthenne” (=galinha “trut”), sendo que “trut” também é onomatopeia do grito do peru.

Os fãs da Índia
Diversos povos europeus se deixaram levar pela influência francesa. Deram ao peru um nome lembrando a suposta origem. Assim, temos: polonês “indyk”, russo “indeika”, turco “hindi”. Todos eles apostaram numa espécie de galinha proveniente da Índia.

Os mais rigorosos
Alguns procuraram ser ainda mais precisos. Não se contentaram em dar como origem a imensa Índia, mas especificaram a suposta região de origem do bicho.

Com variantes gráficas que refletem as convenções de cada língua, o termo “kalkun” vigora na Holanda e na Escandinávia. Atrás dessa estranha palavra, esconde-se uma região imprecisa, que tanto pode ser Calicute como Calcutá.

Para o europeu da época, tratava-se de uma única cidade. Hoje sabemos que são duas, bem diferentes, situadas a 1.500 km uma da outra, ambas na Índia.

Portugal
Quando os primeiros exemplares da ave foram levados a Portugal, as parcas informações de que se dispunha à época não permitiam identificar exatamente a origem. (No fundo, acredito que ninguém, exceto os importadores, estava muito interessado em saber o caminho e o trajeto da mercadoria.)

O galináceo acabou recebendo o nome do lugar de sua suposta origem: o Peru. Há que lembrar que, naqueles tempos recuados, “Peru” era um nome mágico, designando uma imensa e riquíssima região situada nalgum impreciso lugar da América do Sul.

É curioso notar que a imagem de um lugar fabuloso e abarrotado de ouro e prata persiste numa expressão francesa utilizada até hoje. No francês  coloquial, a exclamação “Ce n’est pas le Pérou!” (= Não é o Peru!) é utilizada quando se quer dizer que algo não é extremamente caro ou valioso.

Pra você ver que o nome daquele riquíssimo país marcou a memória coletiva. Pra nós, é nome de ave. Mas, pelo preço que andam cobrando, faz jus à imagem de riqueza que os antigos lhe atribuíam.

As férias do presidente

Jornal online Fórum, de tendência lulopetista

José Horta Manzano

O autor da manchete tropeçou na concordância(*), mas acertou na petulância.

Estou me referindo à petulância de um presidente que faz questão de mostrar que trabalha pouco. Deve achar bonito.

Em outras terras, presidentes e figurões de alto coturno costumam ser bastante discretos na hora de sair de férias. Não querem jornalistas nem fotógrafos por perto. Nem dão informações, nem publicam foto em rede social.

Nosso presidente, petulante, não vê problema nenhum em divulgar seu pouco apego ao batente. Numa terra em que tem gente batalhando duro, de sol a sol, pra poder sobreviver!

(*) As regras de nossa língua pedem que, quando o sujeito estiver no plural, o verbo acompanhe. O sujeito da frase é viagens. Portanto, a forma verbal deveria ser fizeram e não fez.

No Sergipe?

José Horta Manzano

O nome de alguns estados brasileiros deve ser precedido por artigo, mas Sergipe, certamente, não é membro desse clube.

Por um lado, temos os que pedem artigo:
o Amazonas, o Rio Grande do Sul, o Ceará, o Acre. E diversos outros.

Por outro, há o clube dos que rejeitam artigo:
São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, Rondônia, etc. E, naturalmente, Sergipe.

Que ninguém jamais escreva o Sergipe” como na chamada do jornal. Nem por decreto do papa. Pega mal.

Matriz e filial

Chamada Estadão, 28 maio 2022

José Horta Manzano

Não se pode dizer que quem escreveu a chamada do Estadão tenha escrito bobagem. Errado, não está. Mas está esquisito. Dizer que a Igreja Ortodoxa da Ucrânia era “afiliada” a Moscou soa estranho.

Deve-se evocar afiliação quando se fala de clube, de partido, de firma comercial. Uma igreja séria não tem “filiais”. Quando há uma relação hierárquica entre ramos da mesma organização eclesiástica, melhor será dizer que uma é subordinada à outra, ou que está assujeitada, ou ainda que vive sob tutela da principal. Ex:

“Igreja Ortodoxa da Ucrânia, subordinada ao patriarcado de Moscou…”
“Igreja Ortodoxa da Ucrânia, assujeitada ao patriarcado de Moscou…”
“Igreja Ortodoxa da Ucrânia, sob a tutela do patriarcado de Moscou…”

O termo “ruptura”, utilizado na chamada, não está errado. Mas existe uma palavra específica para a dissidência de um ramo com relação ao tronco. É cisma, substantivo masculino. Quem fez um pouquinho de História Geral talvez se lembre do grande Cisma do Oriente (do ano 1054), que dividiu o cristianismo em dois grandes ramos: o catolicismo e a ortodoxia.

A chamada do jornal contém mais uma imprecisão. Não é correto falar em “ruptura com a Rússia”. A ortodoxia ucraniana não é um Estado, portanto a afirmação não faz sentido. A Igreja Ortodoxa Ucraniana não rompe com a Rússia (país), mas com o patriarcado (ortodoxo) de Moscou.

Portanto, a chamada do jornal estará mais bem escrita assim:

Igreja Ortodoxa da Ucrânia, subordinada ao patriarcado de Moscou, anuncia cisma.

ou

Igreja Ortodoxa da Ucrânia, assujeitada [ao patriarcado] de Moscou, anuncia cisma.

Viva o Brazil!

Brasil em 1821, às vésperas de se tornar independente.
Repare que o nome do futuro país se escrevia com Z

José Horta Manzano

Já vi gente irritada por ter visto a palavra Brazil grafada com Z em textos escritos em inglês. Há quem reclame e quase se ofenda com isso. Se pudessem, exigiriam que o nome de nosso país fosse sempre escrito com S.

Sem ranzinzice nem histeria, vamos ao fundo da questão.

Foi no século 19 que as colônias espanholas e portuguesas da América alcançaram independência. Foi uma atrás da outra. Naquela altura, o resto do mundo teve de lidar com o nome de países novos: Argentina, México, Peru, Nicarágua e muitos outros.

Entre eles, estava o nosso. Só que tem uma coisa. Nossa grafia daquele tempo não era normatizada (engessada) como hoje. Eram poucos os que sabiam escrever, e cada um deles grafava como lhe parecia adequado.

Mas o nome do país era unanimidade: todos grafavam com Z (Brazil).

Nosso primeiro nome oficial por extenso foi Imperio do Brazil; em seguida, tivemos os Estados Unidos do Brazil. O mundo viu, anotou, copiou e escreve até hoje Brazil com Z.

Nos dois séculos que decorreram desde a independência, nós mexemos na ortografia oficial inúmeras vezes. Faz já algumas décadas que ficou combinado que o nome do país deve se escrever com S.

Mas como fazer para avisar ao resto do mundo que nossa ortografia mudou?

Pensando bem… será que vale a pena explicar que limpeza é com Z, mas despesa é com S?

Não é moleza… (Com Z)

Observação interessante
Em qualquer texto em inglês, o nome da capital, Brasília, aparece sempre com S. Por quê será?

A razão é simples: Brasília, que então tinha o apelido de Novacap, foi apresentada ao mundo em 1961 grafada com S. Cada língua adaptou o original a sua escrita própria. Muitas ficaram com o S mesmo; entre elas, o inglês.

Falta ensinar aos ingleses que nossas atuais regras mandam acentuar o i do meio. Ou quem sabe será melhor esperar até a próxima reforma ortográfica? Assim, evita-se ficar incomodando o tempo todo.

O lapso de Señor Cuadrado

José Horta Manzano

Gabriel Boric, o jovem presidente do Chile eleito recentemente, arrancou a todo vapor, disposto a mostrar-se antenado e sintonizado com as tendências dos tempos atuais. Estendeu tapete vermelho para o feminismo e para a linguagem inclusiva – adulada por uns, execrada por outros.

No discurso de entronização, Boric já deu o tom. Afirmou que seria “o presidente dos chilenos e chilenas”. Sua alocução foi recheada daqueles cansativos “todos e todas”, “chilenos e chilenas”, “cidadãos e cidadãs”. O moço ousou adulterar uma frase famosa de Salvador Allende – seu ídolo, assassinado em 1973 pelos esbirros de Pinochet. Onde Allende havia dito “o homem livre”, acrescentou “a mulher livre”.

Até na distribuição das pastas ministeriais, especial atenção foi prestada às mulheres. Foi criado o Ministério da Mulher e da Igualdade de Gênero. Evidentemente, a titular é uma mulher.

Semana passada, o subsecretário da Saúde Pública, um certo Señor Cuadrado, discursou ao lado das titulares da Saúde e da Igualdade de Gênero. Diante de uma plateia de jornalistas, discorria sobre o trabalho que sua secretaria vem exercendo para oferecer remédios à população carente.

A certa altura, lançou: “E avançamos sobretudo na ideia do direito à saúde, no qual os e as medicamentos são fundamentais para poder garantir o acesso à saúde”.

A gargalhada geral ecoou por toda a mídia latino-americana e foi parar até no Youtube. O excesso de zelo do aplicado funcionário pregou-lhe uma peça e mostrou a inconsistência e o artificialismo da linguagem dita “inclusiva”. Esse modismo, que alguns entendem como obrigatório, é tentativa de distorcer idiomas sedimentados há séculos.

Quem envereda por esse caminho mostra não entender que gênero gramatical não se confunde com sexo humano. As duas noções nem sempre vão de mãos dadas.

Falar para um público de bom nível já é suficientemente complicado, especialmente numa terra como a nossa, em que a língua caseira diverge sensivelmente da norma culta. Não vale a pena acrescentar um fator complicador.

Novas vagas

Estadão, 20 maio 2022

José Horta Manzano

Ganha dez minutos de massagem cardíaca quem conseguir criar velhas vagas.

O custo de vida anda nas alturas. Se poupar reais é bom, economizar palavras também é. Com as verbas do MEC racionadas do jeito que estão, é proibido jogar fora palavras.

Na chamada do jornal, criação de vagas basta e já dá o recado. O “novas” está sobrando.

Donbas ou Donbass?

Donbas / Donbass

José Horta Manzano

Com a estúpida guerra que se instalou em território ucraniano, a palavra está no noticiário diário. A mídia brasileira hesita entre as duas formas Donbas e Donbass – com um S final e com dois. Qual é a grafia correta?

Pra começar, vamos ver qual é o significado do termo. O Rio Donets(1) é um curso d’água de certa importância. Nasce em território russo, entra na Ucrânia, irriga mais de 700km de terras desse país, em seguida volta a terras russas para desaguar no Rio Don. No total, o Donets percorre mais de 1000 quilômetros.

Desde o fim do século 19, a bacia do Rio Donets é conhecida pela abundância de minas de carvão natural. A conjunção de um curso d’água importante e da presença de carvão deu origem à siderurgia e à indústria pesada que se estabeleceram na região. É uma das razões pelas quais a Rússia faz o que pode para anexar essa província a seu território.

A palavra bacinus tinha, no latim medieval, numerosas variantes: baccinus, bassinus, bachinon e até bacca. Em espanhol, o étimo caiu em desuso, mas permanece vivo no italiano bacino, no português bacia e no francês bassin. Com o significado de “conjunto de terras ligeiramente inclinadas”, como em “bacia amazônica”, o russo e o ucraniano tomaram emprestada a forma francesa bassin, transliterada бассейн (russo) e басейн (ucraniano). Ambas são pronunciadas “basséin”.

A palavra Donbas (Donbass) nada mais é que a contração da expressão Донецкий бассейн (=Donetski bassein, em russo) ou Донецький басейн (=Donetski basein, em ucraniano). Donbas (Donbass) é a Bacia do Rio Donets.

A grafia russa requer dois ss, enquanto a ucraniana se contenta com um só. Dado que a bacia carbonífera se estende pelos dois países, eu diria que ambas as grafias são aceitáveis. Os ucranianos certamente ficarão mais felizes se transliterarmos com um S só – Donbás.(2)

(1) Tanto em russo quanto em ucraniano, o final “ets” indica o diminutivo. Portanto, Donets é “pequeno Don”, em referência ao Rio Don, o mais importante da região. No Brasil, tendo em vista que grande parte dos cursos d’água têm nome indígena, a oposição entre o maior e o menor é indicada pelos termos mirim (pequeno) e guaçu (grande), empréstimos da língua tupi. Em Santa Catarina, por exemplo, temos os Rios Saí Mirim e Saí Guaçu. Em São Paulo, estão os rios Apiaí Mirim e Apiaí Guaçu.

(2) Acentuei o á para indicar que o acento tônico cai na sílaba final. Em ambas as línguas.