Brasil x México

José Horta Manzano

Lula caricatura 1Abusando de seu senso inato para a delicadeza e para a diplomacia, nosso guia fez recentemente sutil pronunciamento repercutido pelo diário mexicano El Economista.

Declarou que, enquanto o Brasil é uma realidade econômica, o México não passa de uma promessa.

El Economista não hesitou em destilar a frase e fazer dela o título do artigo: «Brasil se envaidece de seu passado; México, de seu futuro».

Bateu, levou.

Cada cabeça, uma sentença

José Horta Manzano

No Brasil, a Gazeta Esportiva, publicação especializada, botou na manchete:
«Seleção espanhola desembarca em Curitiba longe da torcida».

Na Espanha, o diário La Verdad, de Murcia, preferiu um tom mais ufanista. E mandou o título:
«Brasil recibe con pasión a España».

Cada um enxerga o mundo com seus óculos.

Fascínio e contradição

«La gente che protesta per le strade, ma che poi s’incanta davanti alla tv non appena da quello schermo spunta la maglia verdeoro della Seleçao. Contraddizione più evidente e profonda forse non potrebbe esserci, per raccontare, o magari solo provare a immaginare, quello che sarà questo Mondiale, in cui il Brasile degli stereotipi e dei rassicuranti luoghi comuni, tutto samba, futebol e joga bonito, si scontra e collide con l'”altro” Brasile, quello che pure è lì da almeno un decennio e che il mondo non ha voluto però vedere, cioè il Paese – Continente che certo è entrato tra i “brics” della Terra, ma pagando un costo sociale enorme e ancora lontano dall’essere saldato.»

Interligne vertical 8«Um povo que protesta nas ruas mas que depois se encanta em frente à tevê assim que surge a camisa verde-amarela da Seleção: é difícil encontrar contradição mais flagrante e mais profunda para descrever (ou só para tentar imaginar) o que será esta Copa.

Será um campeonato em que o Brasil dos estereótipos e dos repousantes lugares-comuns ― samba, futebol, jogo bonito ― entrará em colisão com o ‘outro’ Brasil, aquele que está aí já faz mais de uma década e que o mundo não quis ver: o país-continente cuja entrada nos ‘brics’ acarretou enorme custo social ainda longe de ser saldado.»

Dario Ricci, jornalista italiano, in Il Sole 24 Ore, 8 jun° 2014.

Conselhos aos turistas

José Horta Manzano

Nos anos 90, a coisa fervia pelos lados da Península Balcânica. Entre sérvios, croatas, bosnianos, a convivência ficou explosiva. Muito guerrearam, muitos mataram, muitos morreram.

Mãos ao alto 1Se, na época, um hipotético viajante tivesse de aventurar-se por aquelas bandas, convinha seguir rigorosas regras de sobrevivência em regiões de conflito. Assim mesmo, por mais obediente que fosse nosso aventuroso turista, regra nenhuma poderia salvá-lo de um míssil ou uma bomba.

A Guerra dos Bálcãs acabou. Hoje, não só a Albânia é uma festa (dixit Jorge Amado), mas toda a península. A Albânia, por sinal, com seus 3 milhões de habitantes, recebe 3 milhões de visitantes a cada ano. A Croácia, país de 4 milhões de almas, acolhe incríveis 10 milhões de turistas! Manuais de sobrevivência saíram de moda.

Oficialmente, o Brasil não está em guerra ― pelo menos no papel. No entanto, a situação de conflagração civil que castiga o país e se agrava ano após ano causa efeitos iguais aos de um conflito tradicional. Talvez até piores.

Numa guerra, pelo menos, há um inimigo declarado, o que facilita sua identificação. Num estado de quase-guerra, como é o caso brasileiro, a ameaça é difusa. O inimigo não ataca necessariamente com bazuca. O leque de armas é mais sutil, bem sortido, traiçoeiro. A ameaça pode vir de onde menos se espera.

Mãos ao alto 2Não é à toa que a Croácia, cujo território ardia inóspito 20 anos atrás, acolhe hoje o dobro de turistas que acolhemos nós no Brasil. Tenha-se em mente que o pequeno país balcânico tem área equivalente à do Estado da Paraíba.

A Suécia não passou pelas eliminatórias e não conseguiu se classificar para a fase final da «Copa das copas». Assim mesmo, alguns apreciadores do esporte decidiram viajar ao Brasil para assistir a alguns jogos. Estive lendo, horrorizado, as recomendações que o governo sueco dá a seus ousados súditos que se estejam dirigindo a nosso paraíso tropical.

Aqui está uma seleção dessas advertências.

Interligne vertical 11cConselhos de segurança

* A vigilância é sua melhor defesa. Procure saber onde você se encontra e preste atenção a toda modificação súbita na composição do grupo. Fique sempre junto a seu grupo ― quanto mais gente, melhor.

* Mulheres não devem viajar sozinhas sob nenhum pretexto.

* Não use transporte público, especialmente depois de escurecer. Viaje somente em táxis munidos de taxímetro. À noite, se estiver sozinho, o melhor mesmo é evitar andar de táxi.

* Não passeie na praia após o pôr do sol. Evite todo e qualquer lugar pouco frequentado.

* Escolha um hotel seguro. Nunca abra a porta do quarto antes de saber quem está batendo. Em caso de dúvida, confirme por telefone com a portaria antes de abrir.

* Seja cauteloso ao comer ou beber em lugares muito frequentados. Nunca aceite comida ou bebida de estranhos.

* Estelionatos e engodos são comuns: seja vigilante se um estranho tentar atrair sua atenção ou distraí-lo.

* Deixe documentos originais no cofre do hotel. Carregue uma cópia, se necessário.

* Planeje com bastante folga traslados entre hotel e aeroporto. Certos percursos são mais arriscados que outros.

* Nunca ofereça resistência a criminoso armado. Guarde a calma e entregue, sem hesitação, seus pertences. Evite olhá-lo nos olhos.

* Não dirija. Se não houver outro jeito, siga as regras de proteção contra assaltos e sequestros.

* ‘Arrastões’ são uma forma local de crime. Uma gangue pode, por exemplo, bloquear uma rua, uma loja, um bar ou um restaurante e roubar todos os que ficarem encurralados.

Francamente, um guia para intrépidos viajores de malas prontas para Cabul, Bagdá ou Damasco não seria muito diferente. Ou não?

Dá uma vergonha…

De jegue

José Horta Manzano

Burro 2O dia já começou bem. Em seu noticiário matinal, as estações de rádio europeias anunciaram, entre as manchetes, que os empregados do metrô paulistano estavam em greve.

Explicaram que o metrô é a maneira mais prática de chegar ao estádio onde terá lugar o jogo inicial da « Copa das copas ». Insinuaram que, a prosseguir a paralisação, torcedores terão de se dirigir ao estádio a pé.

Ninguém ousou mencionar lombo de burro.

Cada dia mais falado

José Horta Manzano

Se a intenção era projetar o nome do Brasil, o objetivo está sendo alcançado. Estas últimas semanas, nosso país não passa em branco nem um dia na mídia global.

Ainda anteontem, o Wall Street Journal, respeitado órgão focado em aspectos econômico-financeiros, publicava uma enésima reportagem sobre a «Copa das copas» e sua provável influência na economia brasileira. Aqui está um trecho do texto:

Interligne vertical 11a«For many Brazilians, the Cup has become a symbol of the unfulfilled promise of an economic boom for this South American nation. But the boom has fizzled. And now the World Cup’s $11.5 billion price tag—the most expensive ever—and a list of unfinished construction projects have become reminders of the shortcomings that many believe keep Brazil poor: overwhelming bureaucracy, corruption and shortsighted policy-making that prioritizes grand projects over needs like education and health care.»

Traduzindo, fica assim:

Interligne vertical 11a«Para muitos brasileiros, a Copa tornou-se símbolo da promessa não cumprida de boom econômico nacional. O rojão deu chabu. E agora, a Copa do Mundo de 11,5 bilhões de dólares ― a mais cara jamais vista ― e uma lista de obras inacabadas tornaram-se a marca evidente das deficiências que, segundo muitos, perenizam a pobreza do Brasil: burocracia sufocante, corrupção e políticas míopes que privilegiam projetos grandiosos em detrimento de necessidades como educação e saúde pública.»

Bem que podíamos ir dormir sem essa, não?

Nem só de grama

José Horta Manzano

Basta abrir qualquer jornal ou ligar em qualquer estação de rádio para ouvir alguém preocupado com os estádios da Copa ― agora transmudados em «arenas», olé! Vai ficar pronto a tempo? Não vai?

Estadio 3A dar crédito ao que se ouve, a única premissa para organizar uma «grande copa» é a construção de estádios. Secundariamente, chegou-se até a pensar no deslocamento de dezenas de milhares de pessoas a esses locais. Alguns meios mecânicos de transporte, trem ou metrô, chegaram a ser cogitados. No entanto, segundo um floclórico ex-presidente da nação, o povo pode muito bem deslocar-se em lombo de burro. O problema da mobilidade, portanto, deixa de existir. Era pura babaquice.

O gargalo, infelizmente, não se limita aos estádios nem aos caminhos que levam até lá. A onda de choque emitida por um evento da magnitude de um campeonato mundial de futebol influencia infinitos meandros da sociedade.

Hello 1Além da construção das «arenas» e das vias de acesso que conduzem a elas, numerosos outros setores são atingidos. A assistência médica e sanitária tem de estar preparada para atender a casos de emergência. Hospitais têm de prever chegada maciça de feridos em tumultos. O transporte, o alojamento e a alimentação de grandes grupos de visitantes tem de satisfazer à demanda. O Poder Público será obrigado a decretar dias feriados ― com a consequente baixa na produtividade anual. E mais uma miríade de respingos acaba caindo sobre a sociedade.

Entre os efeitos colaterais gerados pela concentração de multidões nos estádios, está a conexão de cada telefone individual à rede mundial. Quando 200 mil espectadores se aglutinaram no Maracanã, em junho 1950, para decepcionar-se com um Brasil x Uruguai de triste memória, esse problema não existia. Naquela época, mesmo em casa, poucos eram os detentores de uma linha telefônica. «Cérebros eletrônicos», então, eram peças de ficção.

Celular 3Hoje não é mais assim. Cada um carrega no bolso um minúsculo aparelhinho, não maior que uma carteira, capaz de proezas inimagináveis 70 anos atrás. Só que tem um porém: para funcionar, essa maquineta precisa captar o sinal de uma rede. E é aí que a porca torce o rabo. Imagine você 50 mil ou 60 mil celulares procurando conexão ao mesmo tempo, num mesmo lugar. Cada um vai querer mandar sua mensagem, curta ou longa. Pra comemorar um gol, por exemplo.

Segundo um despacho da Associated Press, repercutido pelo site da americana revista Time, o governo brasileiro e os concessionários estão de tal maneira mal preparados para a eventualidade que apagões telefônicos ou congestionamento de chamadas de emergência podem ocorrer.

Na hipótese mais benigna, conexões internet serão irritantemente lentas e chamadas telefônicas cairão com frequência. O governo brasileiro tinha-se comprometido a dotar os estádios de tecnologia 4G, mas isso ficou na promessa.

Sarcasticamente, o articulista da Time sugere ao torcedor que telefone a sua namorada antes de cada jogo. É mais garantido.

Ameaça à vista

José Horta Manzano

Les Echos é a publicação francesa mais reverenciada em matéria de informação econômica e financeira. É o vade-mécum dos investidores e dos grandes capitães de indústria. Principalmente franceses, mas não só. Faz mais de um século que suas análises costumam ser apreciadas e respeitadas.

Esta semana, publicou um artigo bastante contundente sobre o momento atual da economia brasileira. O título já diz muito: «Brasil ― para a economia, a Copa do Mundo se transforma em ameaça».

Durante muito tempo, segundo o texto, o Brasil contou com a Copa do Mundo para dar um empurrão a sua economia. Hoje, essa esperança deu lugar ao receio de que a convulsão social assuste os investidores e deteriore, por muito tempo, a imagem do país.

Les EchosO governo de Dilma Rousseff espera que o Mundial acrescente meio ponto percentual ao PIB nacional e crie mais de um milhão de empregos. Segundo pesquisa da Reuters, contudo, economistas independentes são mais prudentes e miram a um magro aumento de 0,2 ponto.

Sete anos atrás ― continua a análise ― quando a organização da Copa foi atribuída ao Brasil, o governo de então acariciou a ideia de poder afirmar o novo estatuto nacional de potência econômica de primeiro plano. Era também ocasião propícia para uma profunda transformação da infraestrutura de transportes.

Mas hoje a conta não fecha. Dos 11,7 bilhões de dólares de investimento previsto, nada mais que 7 bilhões foram aplicados ― uma discrepância que observadores atribuem a mau planejamento e a entraves burocráticos. Somente 36 dos 93 grandes projetos previstos foram entregues.

Essas falhas não impedirão que o campeonato se desenrole, mas, em vez de destacar a força do país, o evento periga desnudar suas fraquezas e a falta de vontade política para tocar grandes projetos.

GlandO artigo prossegue com uma grande interrogação: «Os 600 mil turistas esperados… virão?».

A reportagem fecha citando Antenor Barros Leal, presidente da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, que se declara muito preocupado com a imagem do país.

Barros Leal afirma que não podemos assumir o risco de perder nenhum investimento num momento em que nossa economia vai mal. Acrescenta que «todo sinal de instabilidade poderia atemorizar investidores dispostos a investir dinheiro no Brasil».

Interligne 18g

Da semente imperfeita que foi plantada estes últimos sete anos, dificilmente brotarão bons frutos.

Vão pousar

José Horta Manzano

Fitch é uma agência de classificação de risco, como é conhecido esse tipo de empresa no Brasil. Em Portugal, prefere-se a denominação de agência de notação financeira. Tanto faz como tanto fez.

Aviãozinho da alegria

A agência Fitch, dizia eu, faz saber que os aeroportos brasileiros passarão no exame do Mundial. Ainda que, em vários dos campos de pouso, reformas ainda estejam sendo feitas, as instalações já prontas deverão dar conta do fluxo esperado no período da «Copa das copas» ― de uns 3,7 milhões de passageiros, entre os quais 600 mil estrangeiros. Quem nos relata é o jornal francês Les Echos.

Vamos torcer para que assim seja. Depois do fiasco que essas agências deram ao não prever a maior hecatombe financeira que o planeta já conheceu desde 1929, todo cuidado é pouco.

Melhor botar as barbas de molho.

Bundeskanzlerin

José Horta Manzano

Você sabia?

Despacho do Der Spiegel anuncia que Frau Angela Merkel, a chanceler federal (Bundeskanzlerin) alemã, conta assistir de corpo presente ao jogo Alemanha x Portugal, previsto para 16 de junho em Salvador, válido pela “Copa das copas”. Vai verificar in loco o que é que a baiana tem.

Sepp Blatter & Angela Merkel

Sepp Blatter & Angela Merkel

A chefe do governo alemão é grande apreciadora de ludopédio(*). Ela não confirma, mas garantem que seu jogador favorito é o bávaro Bastian Schweinsteiger.

Interligne 18e

(*) Ludopédio, termo pouco utilizado, é o outro nome do futebol. Combina as raízes latinas ludus (brincadeira, jogo, diversão) e pedis (pé).

Visão panorâmica

José Horta Manzano

Aproveitando o fim de semana, vamos dar uma espiada em torno pra ver o que é que andam dizendo de nós.

Le Brésil reste sur un chaudron social
O Brasil continua em cima de um caldeirão social
Manchete do diário argelino Liberté, num apanhado da convulsão social que sacode o país-sede da «Copa das copas».

Interligne 28aBrasilien: protester mot VM-2014 växer
Brasil: protestos contra Copa-14 crescem
Manchete do site A Voz da Rússia, em sua versão em língua sueca. Traz um relato dos protestos do dia 15 de maio.

Interligne 28aBrasilien im Chaos ― Vier Wochen vor der WM: Panzer am Strand!
Brasil em caos ― Quatro semanas antes da Copa: tanques de guerra na praia!
Reportagem do sensacionalista Bild, o jornal de maior circulação na Alemanha. Conta o que aconteceu quando da greve de policiais no Recife.

Interligne 28aMundial en Brasil, ¿una pesadilla para los viajeros?
Copa no Brasil: um pesadelo para os turistas?
Artigo do Forbes (edição mexicana) sobre os desafios que os turistas que visitarem o Brasil durante a Copa deverão enfrentar.

Interligne 28aIl Brasile rischia di perdere le Olimpiadi 2016
O Brasil está arriscado a perder as Olimpíadas de 2016
Artigo intrigante do Il Secolo XIX, tradicional diário de Gênova, Itália. Revela rumores de que, à vista do atraso na preparação da infraestrutura, o CIO (Comitê Internacional Olímpico) estaria estudando um plano B: a transferência dos jogos de 2016 do Rio para Londres.

Interligne 28aLe Mondial de tous les dangers
A Copa de todos os perigos
Artigo do jornal francês L’Alsace. Dá uma visão dos acontecimentos recentes e diz textualmente: «Infelizmente, a um mês do início da competição, a escolha do Brasil para acolher a Copa aparece como aposta de alto risco, transformando esta edição no «Mundial de todos os perigos».

Interligne 28aBrasilien: Fußball statt Schule
Brasil: futebol em vez de escola
Manchete de reportagem da rede de televisão Euronews (versão alemã). O texto descreve a comoção que toma conta do Brasil. O título sintetiza.

Copa das copas 2Quando «lutaram» para que a organização da Copa fosse atribuída ao Brasil, nossos medalhões tinham duas intenções:

Interligne vertical 141) dar uma dentadinha (ou dentadona, depende do apetite) onde fosse possível;
2) mostrar ao mundo a imagem de um Brasil evoluído, rico, poderoso, harmônico, feliz.

Ninguém tem dúvida quanto à primeira intenção: foi amplamente alcançada. Já quanto à segunda… ai, ai, ai.

Mas os figurões devem estar se lixando. Já levaram seus trocados. A vergonha fica para nós.

Olhar italiano

José Horta Manzano

A ANSA ― Agenzia Nazionale Stampa Associata ― é a mais importante agência italiana de notícias. Seu site apresentou, alguns dias atrás, um retrato cru dos preparativos para a «Copa das copas». Cru, mas verdadeiro, não há que contestar.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
olhaquemaneiro.com.br

Começa contando que, a um mês do apito inicial do campeonato, o Brasil já ganhou a copa dos atrasos e do desperdício. Refere-se a obras previstas e nunca realizadas como o trem-bala Rio-SP ou o futurístico monotrilho do centro de Brasília ao estádio. Há ainda obras inacabadas, como três dos doze estádios. A isso tudo há que adicionar os custos faraônicos, que superam amplamente o que se gastou com a copas da Alemanha e da África do Sul reunidas.

O artigo pondera que, no pesado balanço, ainda tem de ser debitada a perda de nove vidas nos trabalhos de construção. Diz também que esse conjunto de trapalhadas suscitou um vasto descontentamento em muitas camadas da sociedade, gente que teria preferido ver esses fundos utilizados para melhorar serviços de saúde, instrução e transporte.

O autor explica que, quando festejou a atribuição da Copa ao Brasil, sete anos atrás, o Lula pretendia mostrar ao mundo o progresso econômico e social do País. Não podia prever a série interminável de incidentes e de acontecimentos negativos que acabaram projetando ao exterior a imagem do Brasil como gigante de pés de barro, incapaz de programar e de organizar um evento de alcance mundial.

Copa 14 logo 2Referindo-se à Copa das Confederações de 2013, o texto assinala que a competição será pouco lembrada pelo futebol e muito mais por causa das «oceânicas» manifestações de protesto contra o dinheiro público gasto por Dilma Rousseff para a Copa, enquanto os serviços públicos brasileiros não estão à altura de um País que reclama o direito de acesso ao restrito clube das grandes potências.

O articulista fecha seu escrito recordando que a torcida (em português no texto) espera que a Selecao jogue e vença a final. Mas Dilma, em constante queda nas pesquisas, terá um motivo a mais para torcer.

Quem viver verá.

Panem et circenses

José Horta Manzano

Truques para acariciar a alma de um povo sofrido não são invenção moderna. Dois mil anos atrás, os dirigentes romanos já se tinham dado conta de que um agradozinho ao povão pode fazer milagres.

Der Spiegel 1Como marca da época, restou a expressão Panem et circenses, em geral traduzida como Pão e circo (por Pão e jogos circenses). Adaptada aos tempos modernos, a máxima fica assim: «Para acalmar o povão, nada melhor que comida e diversão».

Com bolsas várias, o governo federal brasileiro tem reavivado o tradicional viés paternalista de nossa sociedade. Pouco preocupados com os alicerces bambos sobre os quais se está construindo o futuro dos brasileiros, os atuais medalhões estão mais é interessados nos dividendos imediatos que possam colher. Sob forma de votos preferivelmente.

O truque da distribuição de pão vem funcionando. Faltava o circo. O campeonato mundial de futebol veio a calhar, verdadeira mão na roda. Pouco importou que os bilhões pudessem vir a ser mais bem empregados: o que interessava era encher os olhos do povo ignaro com os paetês e as lantejoulas do imenso circo futebolístico.

Assim foi feito. No entanto, como já berrava o outro numa passeata, o povo não é bobo. Ninguém aprecia ver a própria inteligência insultada. De um ano para cá, o paciente tem recusado a anestesia. Está de olhão aberto. E o pior é que o mundo inteiro está-se dando conta da real situação do País. Uma humilhação.

Interligne 18h

Fundada logo após o término da Segunda Guerra, a revista semanal Der Spiegel (O Espelho) é a maior e mais influente publicação investigativa da Alemanha.

Sua edição datada de 12 maio 2014 traz uma reportagem de capa sobre a «Copa das copas». O título Tod und Spiele (Morte e jogos) faz alusão à expressão Brot und Spiele, tradução alemã da original latina. Sutilmente, a revista substituiu o pão (Brot) pela morte (Tod). A rima e o ritmo permanecem, mas o sentido muda drasticamente.

Está aí a demonstração de que o nome do Brasil está, como se diz, na boca do povo. Infelizmente, o mundo está descobrindo justamente o lado que gostaríamos de esconder.Der Spiegel 2

Eigentor Brasilien
Ausgerechnet im Land des Fussballs könnte die Weltmeisterschaft zum Fiasko werden: Demonstrationen, Streiks und Schiessereien statt Party. Die Bürger sind wütend über teure Stadien und korrupte Politiker – und sie leiden unter den stagnierenden Wirtschaft.

Brasil: gol contra
Justamente no país do futebol, a Copa do Mundo poderia ser um fiasco: manifestações, greves e tiroteios em vez de festa. Os cidadãos estão furiosos por causa dos estádios caros e dos políticos corruptos. Ademais, sofrem com a estagnação da economia.

Exportando desleixo

José Horta Manzano

Sabemos todos que a Vale é importante multinacional de origem brasileira. Implantada nos cinco continentes, explora minas em mais de 30 países. Dá emprego a perto de 200 mil funcionários e integra o seleto cartel mundial das produtoras de matérias-primas.

O que nem todos sabem é que, em 2012, Greenpeace lhe atribuiu o pouco invejável Public Eye Award, o «prêmio da vergonha», concedido à pior empresa do planeta. Desde então, ela figura na Galeria dos Horrores.

Quarta-feira passada, a mina de níquel explorada pela Vale na Nova Caledônia ― território francês do Oceano Pacífico ― registrou seu sétimo acidente industrial desde 2009. Desta vez, foi um vazamento de ácido da unidade metalúrgica.

Vale: exploração de níquel Nova Caledônia

Vale: exploração de níquel
Nova Caledônia

Assustada, a população da vizinhança está à beira de uma explosão de nervos. Tendo em vista a repetição desses incidentes e a falta de comunicação por parte da empresa, a presidente da província tomou a decisão de suspender imediatamente as atividades da usina metalúrgica. Madame Ligeart, a presidente, instaurou um comitê de crise.

Vale 1Pelas primeiras informações, 96 mil litros de ácido clorídrico contendo forte concentração de metais foram despejados. O vazamento poluiu um riacho acabando com os peixes. Do jeito que as coisas vão, a empresa continua forte candidata ao prêmio da vergonha 2015. And the winner is…

Obs:
A informação foi difundida por um site neo-caledoniano de nome altamente sugestivo e perfeitamente adequado às circunstâncias: www.cagou.com.
Isso não é lorota.

As causas e os efeitos

José Horta Manzano

O site internet do Christian Science Monitor, de Boston, publica um artigo bastante didático intitulado How Brazil’s oil boom went bust ― Como o boom petrolífero do Brasil enguiçou.

Segundo a matéria, a produção brasileira de petróleo ― insignificante nos anos oitenta ― cresceu continuamente durante trinta anos até atingir 2.7 milhões de barris por dia em 2010.

Petrobras 3Nos primeiros anos deste século, com a descoberta de imensas reservas na camada pré-sal, tudo indicava que a extração cresceria vertiginosamente e que o país se encaminhava para destino inexorável de superpotência petroleira.

Lá por 2010, no entanto, algo aconteceu. Estes últimos quatro anos, a extração estagnou. A produção de 2013 foi a mesma de três anos antes. Qual a razão?

O Christian Science atribui o desempenho pífio da Petrobras à má gestão da companhia. Menciona os escândalos, a lavagem de dinheiro, as propinas, a prisão de um diretor. Ah, esse mundo moderno onde tudo se sabe…

Depois de considerações técnicas e financeiras, o jornal cita uma fala em que a presidente de nossa República deixou claro que enxerga o país como uma grande Venezuela: «A Petrobras é maior que nós todos. Ela é tão grande quanto o Brasil».

O artigo termina vaticinando: «O destino [de Dilma Rousseff], tanto quanto o do país, depende do desempenho da maior companhia do Brasil».

Poderiam também ter dito que a Petrobras é a cara do Brasil: os males que afligem a gigantesca companhia são os mesmos que atormentam o País.

É sabido que as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. A Petrobras andou pra trás, perdeu credibilidade e valor de mercado. O País vai pelo mesmo caminho.

Nem só de futebol

José Horta Manzano

Com o título “No Brasil, há outra coisa além do futebol!”, o jornal Le Parisien anuncia uma exposição de obras de Cândido Portinari (1903-1962) no Grand Palais de Paris. Pela primeira vez, o distinto público parisiense poderá apreciar a arte do pintor maior, um dos três mestres da pintura latino-americana.

Um longo artigo informa sobre vida e obra do paulista de Brodowski. Portinari, que havia visitado Paris em 1930, morreu prematuramente aos 59 anos vítima de saturnismo ― envenenamento provocado pelo chumbo contido nas tintas que utilizava.

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Guerra e Paz, by Candido Portinari

Os painéis monumentais chamados Guerra e Paz (14m x 10m) são o ponto culminante de sua obra. Pintados em meados dos anos 1950, tinham sido encomendados pelo governo brasileiro para presentear a sede das Nações Unidas em Nova York.

.

Esses painéis, exibidos em permanência na ONU, foram expostos no Brasil em 2012. E agora se oferecem ao olhar do público francês. Que os interessados tomem nota: a exposição abre as portas hoje, 7 maio, por cinco semanas. A entrada é grátis. Folga às terças-feiras.

Chuva de turistas

José Horta Manzano

Torre Eiffel

O site de informações da cidade de Angers (França) revela que 660 mil turistas brasileiros visitaram a França em 2013. É um bocado de gente!

Na América do Sul, o Brasil é o maior mercado emissor de turistas para a França.

Já ganhou!

José Horta Manzano

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

by Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O site francês Eurosport dá conta de pesquisa de opinião publicada dois dias atrás. Nada menos que 43% dos franceses acreditam que a seleção do Brasil vai levar a «Copa das copas».

Nas apostas francesas, a Espanha vem em segundo lugar, lá longe, com 9% dos palpites. A Alemanha (8%), a Argentina (4%) e a própria França (4%) vêm a seguir.

Somente 8% dos entrevistados acredita que a França chegará à final. E minguados 6% imaginam que ela vença e leve a taça.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

Interligne 18d

PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

Frase do dia — 132

«La violenza negli stadi brasiliani non sembra aver limiti. Un tifoso è morto al termine di una partita di calcio, all’esterno dello stadio, colpito da un water lanciato dagli spalti.»

«A violência nos estádios brasileiros parece não ter limites. Ao término de um jogo de futebol, um torcedor morreu, no exterior de um estádio, atingido por um vaso sanitário atirado das arquibancadas.»

in QN ― Quotidiano Net, do grupo editorial italiano Monrif, que publica Il Giorno (Milão) e La Nazione (Florença). 3 maio 2014.