Devolvido 77 anos depois

José Horta Manzano

Naquele fim de abril de 1945, os combates no norte da Itália se travavam com ferocidade. As tropas nazistas, que tinham ocupado a região por mais de um ano, estavam em franco recuo diante do avanço das forças americanas. Mas não era uma retirada pacífica: metralhadoras matraqueavam e canhões ribombavam.

No vilarejo de San Pietro in Gù, perto de Vicenza, uma garotinha chamada Meri Mion estava para completar 13 anos. Na véspera do aniversário, assustadas pelos combates que se aproximavam do povoado, a mãe e ela passaram a noite escondidas no sótão da pequena granja familiar.

Na manhã seguinte, o ambiente parecia mais calmo. Dando uma espiada na ruela em frente de casa, viram que os soldados alemães haviam desaparecido. Os que circulavam agora usavam outros uniformes e falavam uma língua diferente: eram os americanos. No vilarejo, o tiroteio havia cessado.

Entenderam logo que os novos soldados não vinham com a intenção de oprimir, mas para liberar o país dos ocupantes nazistas. Feliz com a notícia, a mãe resolveu fazer um bolo de aniversário para os 13 anos da menina. Foi um bolo caseiro, simples, que as privações do momento não permitiam muita fantasia.

Saído do forno, o bolo foi posto pra esfriar no peitoril da janela da cozinha. Mais tarde, na hora de conferir se o doce já estava na boa temperatura, quase não acreditaram: o bolo havia desaparecido! O aniversário foi meio triste.

Na época, todos os habitantes do vilarejo ficaram sabendo do sumiço do bolo. Como todos ali se conheciam, ninguém ousaria roubar o bolo de um vizinho. A travessura certamente era obra de um grupo de soldados americanos famintos. Com o passar do tempo, Meri foi crescendo, e a história do bolo surrupiado foi se perdendo.

Estes dias, como fazem todos os anos, jovens soldados do exército americano visitaram a região para uma pequena cerimônia de comemoração da retomada de Vicenza. Meri Mion recebeu convite para comparecer. Ficou um tanto intrigada: “Por que estão me convidando?”.

Em 28 de abril, exatamente no dia em que completava 90 anos, a menininha que não tinha podido comemorar seu 13° aniversário teve uma surpresa. Em meio às celebrações militares, um punhado de jovens soldados americanos, devidamente uniformizados, lhe entregaram um belíssimo bolo de aniversário. Com direito a “Parabéns a você” cantado em italiano e em inglês. Era um ressarcimento por aquele que lhe havia sido furtado 77 anos antes.

Feliz, Meri – agora uma nonagenária – declarou que pretendia compartilhar o presente com filhos, netos e demais membros da família.

Com informações do site oficial do Exército dos EUA.

Quem vai ganhar a guerra?

José Horta Manzano


Como diz o outro, fazer prognósticos é muito difícil, especialmente para o futuro.


Pra responder à pergunta “Quem vai ganhar a guerra?”, é preciso primeiro saber o que se entende por “ganhar a guerra”.

Rússia
Para a Rússia, ganhar a guerra consistiria numa anexação pura, em que a Ucrânia seria engolida inteira, crua, sem mastigar. A crer nas falas de Putin, a vitória seria coroada pela total ‘desnazificação’ do país – o que subentende a derrubada do governo atual e sua substituição por um governo vassalo. O ditador russo cometeu a afronta de afirmar que a Ucrânia não existe como país, que não passa de uma invenção de prancheta, que aquele território foi, é e sempre será russo.

Decorridos dois meses desde o início da invasão, vai ficando evidente que a Rússia não tem como atingir os objetivos fixados. Submeter e ocupar um país cabisbaixo e desarmado é uma coisa; vencer e se apossar de um país habitado por gente bem armada e disposta a defender seu solo palmo a palmo é outra coisa. Nem o analista mais pró-Putin consegue vislumbrar a bandeira russa ondulando no topo de todas as prefeituras do país.

Nesses termos, a Rússia, desde já, perdeu a guerra. Movimenta-se, agita-se, ameaça o mundo com guerra nuclear. Mas não passa de figuração – pelo menos, é o que se espera. É ponto pacífico que não atingirá os objetivos iniciais.

Ucrânia
Para a Ucrânia, a vitória seria a total expulsão do exército russo do território pátrio, incluindo Crimeia e Donbás. Seria a reconquista de todo o terreno que as tropas russas ocuparam nestes meses de guerra. Impossível não é, mas não será tarefa fácil. A Ucrânia tem drones, mas não tem mais aviação. Tem mísseis antitanque, mas não tem mísseis de longo alcance. Não dispõe de forças navais. Nesse particular, por mais que o Ocidente forneça armamento aos ucranianos, os meios da Rússia serão sempre superiores.

A Ucrânia está semidestruída. Suas cidades foram bombardeadas, aeroportos estão impraticáveis, pontes foram dinamitadas, edifícios, teatros e hospitais foram pulverizados, a infraestrutura foi seriamente danificada.

Nesses termos, pode-se dizer que também a Ucrânia, desde já, perdeu a guerra.

Conclusão
A fim de evitar uma longa guerra de posição, como não se via desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as partes beligerantes terão de sentar-se ao redor de uma mesa e chegar a um acordo. Nenhum dos lados vai atingir seus objetivos. Mas não há outro jeito. Em seguida, cada dirigente poderá apresentar a seu povo a “narrativa” que lhe parecer mais conveniente.

A grande ganhadora deste conflito está a milhares de quilômetros do front. É a China, que, sem disparar um tiro, tem agora a Rússia a seus pés. Uma Rússia que precisa vender seu gás, seu petróleo e seu trigo. Uma Rússia que precisa importar insumos e peças tecnológicas. Pelos próximos anos, as normas do comércio exterior russo e, até certo ponto, da economia russa serão ditadas pela China.

No resultado final, a Rússia sai humilhada e diminuída. A Otan sai ressuscitada. Os EUA mostram quem é que dá as ordens no mundo ocidental. A União Europeia prova que, quando se sente ameaçada, tem capacidade para dar resposta rápida, unânime e enérgica. E a China, que ganha a Rússia como fornecedor e cliente preferencial, continua crescendo.

Madame e os frangos do Brasil

José Horta Manzano

Como lembrei anteontem, estamos entre os dois turnos das eleições presidenciais francesas. Ontem realizou-se o grande debate, o único organizado entre os dois finalistas. Foram duas horas e meia de perguntas, respostas, explicações, afirmações, aproximações, esgueiradas, maldades, dardos envenenados, sorrisos desajeitados.

Cada um dos candidatos – o atual presidente, Emmanuel Macron e a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen – deu o que tinha pra dar, fez o que sabe fazer e representou o papel que costuma representar. Foi sem surpresa. O medidor de audiência marcou 15,6 milhões de telespectadores, aos quais convém acrescentar os que, em algum momento, deram uma espiada nas redes sociais, que também transmitiam ao vivo.

Pra se ter uma ideia de quanto tem baixado o interesse público por esse tipo de confrontação, é bom saber que o primeiro debate, travado em 1974 entre Mitterrand e Giscard d’Estaing, tinha reunido 30 milhões de telespectadores – o dobro da audiência de ontem.

Mas o diálogo entre os adversários, às vezes polido, às vezes ácido, sempre traz algum momento interessante. Uma passagem impagável surgiu quando Madame Le Pen criticava o funcionamento da União Europeia, cavalo de batalha que ela costuma montar com frequência. Adepta do fechamento de seu país para o mundo, ela deprecia a Europa dia sim, outro também.

Madame Le Pen (de estreita visão nacionalista-passadista) acusou Monsieur Macron (europeísta convicto) de ter intenção de “substituir o povo francês pelo povo europeu”. E continuou argumentando que há “uma série de políticas da UE com as quais não estou de acordo”. Citou “a multiplicação de acordos de livre-comércio que servem para vender carros alemães e castigam os agricultores franceses com a concorrência de frangos do Brasil ou bovinos do Canadá”.

Nesse ponto, Monsieur Macron percebeu que Madame – por ignorância ou má-fé – misturava alhos com bugalhos. Perguntou: “Que frango do Brasil?”. E lembrou à distraída adversária que ele tinha se oposto ao acordo da UE com o Mercosul, porque “quando impomos certas exigências aos agricultores nacionais, exigimos o mesmo dos de fora”. Diante do silêncio embaraçado da adversária, acusou Madame Le Pen de “tentar vender gato por lebre”.

É verdade que, enquanto Macron é dotado de uma inteligência superior à média, sua adversária se limita à esperteza dos populistas: diz o que a audiência quer ouvir. Mas uma coisa é falar num cercadinho qualquer para público cativo, e outra é argumentar diante de um homem que está há cinco anos lidando diariamente com esses temas. Não tem como.

Observação
A história dos “frangos do Brasil”, que Madame pôs à mesa, rendeu pano pra mangas e fez a alegria das redes sociais. Nos momentos seguintes, houve milhares de comentários, menções, tuítes, retuítes, likes & alia. A maioria dos comentaristas dizia não saber do que ela estava falando.

Le grand débat

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira, os dois finalistas da eleição presidencial francesa se enfrentam no único debate televisivo a ser travado antes do segundo turno. Na França, o espaço entre o primeiro e o segundo turnos é de apenas 2 semanas. A votação final é domingo que vem.

Antes do primeiro turno, há alguns debates. No entanto, a grande quantidade de candidatos (12 ao total) transforma o ambiente em verdadeiro mercado persa. Todos falam e ninguém se entende. Aliás, o presidente Macron não quis participar de nenhum desses combates engalfinhados.

O debate organizado entre os dois turnos, unicamente com os dois finalistas, é um momento intenso na vida política do país. Entre 15 milhões e 20 milhões de eleitores devem escrutar com grande atenção o face a face entre o presidente Emmanuel Macron, candidato à reeleição, e Marine Le Pen, sua adversária de extrema-direita. Ninguém quer perder nem uma palavra.

O formato
O espetáculo tem duração de 150 minutos (2 horas e meia). A moderação é feita por dois apresentadores, um de cada um dos dois canais mais importantes do país. Até os dois campos chegarem a um consenso, diversos apresentadores foram descartados.

Os acertos prévios são negociados entre as equipes dos dois candidatos. Tudo é milimetrado e cada detalhe tem de ser aprovado pelas duas partes. Cada candidato vem com uma equipe de uma dúzia de pessoas. A quantidade de câmeras e o ângulo delas é discutido.

As duas equipes concordaram em regular a temperatura do estúdio em 19°C. A ordem dos temas é sorteada. É também a sorte que decide quem será o primeiro a falar. Cada equipe leva seu profissional experiente em direção de tevê, com a função de se instalar atrás do vidro e supervisionar as tomadas de cena. Nada é deixado ao acaso.

Não está provado que o debate defina o vencedor da eleição, mas, em anos como este, em que as sondagens preveem resultado apertado, todo cuidado é pouco. Um escorregão, um deslize, uma frase mal colocada, um gesto agressivo, um gaguejo, uma verdade aproximativa, uma gravata mal posicionada, uma maquiagem exagerada ou insuficiente podem ser fatais. O resultado das urnas será conhecido domingo às 20 horas em ponto.

Anti-europeísmo
Como muitos outros observadores, este blogueiro acredita que uma vitória de Madame Le Pen seria catastrófica para a Europa e, de tabela, para o resto do mundo. O nacionalismo da candidata é do tempo do Onça, cada país no seu canto, todos desconfiando de todos, todos com medo de todos. Seu anti-europeísmo é tão visceral que, se ela tomasse as rédeas da França, a Europa deixaria de existir tal como a conhecemos. Se isso acontecesse, os frágeis equilíbrios geopolíticos atuais estariam a perigo.

Não se sabe se essa senhora realmente acredita no que diz ou se procura apenas seduzir, com seu discurso populista, o maior número possível de descontentes. O fato é que ela defende valores anacrônicos, passadistas. Seu sonho final é ver a França fora da União Europeia. Ela não diz isso com todas as letras, mas as medidas que pretende tomar, se eleita, levam a esse desfecho.

Quer que a França abandone a moeda comum, o euro, e volte ao finado franco francês, uma absurdidade. Quer entravar a livre circulação dos cidadãos, uma conquista que levou décadas pra ser alcançada. Gostaria de ressuscitar fronteiras, cercar, murar, fechar, barrar, instalar postos alfandegários em torno do país. Outro de seus sonhos é implementar políticas de expulsão de estrangeiros. É bom lembrar que uma Europa sem a França vai ter dificuldade em seguir adiante, daí o abalo que o continente sentiria.

Putin sim, Bolsonaro não!
Madame é admiradora de Vladímir Putin. No passado, chegou a declarar que gostaria de ver a França fora da Otan, e aliada militarmente à Rússia – declaração que pega muito mal atualmente. É aliada do líder populista húngaro Viktor Orbán.

De Bolsonaro, porém, não quer ouvir falar; já declarou isso quando o capitão era ainda candidato à Presidência. Entrevistada naquela ocasião, Madame teve um raro momento de lucidez e desvencilhou-se da imagem de Bolsonaro. Quando lhe disseram que o então candidato à Presidência do Brasil era do mesmo campo político que ela, respondeu que não faz sentido etiquetar “de extrema direita” qualquer político que disser “coisas desagradáveis”.

Como se vê, a tradicional extrema direita não considera que o capitão faça parte de seu time. Já entenderam, lá atrás, que o homem é apenas rasteiro, oportunista, mal-educado e mal-intencionado. Muitas vezes quem está fora tem visão mais clara do que quem está dentro. Pra você ver.

São Benedito (Saint Benoît, em francês) é santo forte e não há de faltar. Nem a eles, nem a nós.

Até amanhã, se não chover

José Horta Manzano


Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher


É quase indecente mencionar versos de Noel Rosa, o grande poeta de nossa música, em tempos de guerra, com gente morrendo e um país sendo destruído.

É que, ao condenar a barbaridade que está sendo cometida pelos russos, a gente se sente do lado certo da história. E quem está do lado certo tem direito a certa licença poética. Na guerra desencadeada pelo orgulhoso Putin, tudo o que puder atrapalhar o exército agressor é motivo de contento.

As terras negras que cobrem a Ucrânia e o sul da Rússia são extremamente férteis. Aqueles vastos espaços onde se planta trigo são responsáveis pela garantia alimentar não somente de russos e ucranianos, mas também de numerosos países ao redor do globo.

Só no norte da África (o Oriente Próximo), o trigo de lá garante o pão de 100 milhões de egípcios, 45 milhões de argelinos, 12 milhões de tunisinos e quase 40 milhões de marroquinos, num total de quase 200 milhões de indivíduos.

As terras negras, férteis e fofas permitem que o arado se afunde fácil e rasgue sulcos generosos, que permitirão a semeadura anual. Essa mesma fofura, no entanto, já causou sérios problemas a exércitos estrangeiros que tentaram invadir a região.

Napoleão, no começo do século 19, foi um dos primeiros a se afundar naquela terra. A região serviu de barreira natural, ao servir de atoleiro para cavalos e canhões. Mais de um século depois, Hitler voltou a cometer o mesmo erro. Imaginando uma conquista fácil, se afundou nas terras russas e ucranianas.

Ao invadir a Ucrânia em fevereiro último, Putin imaginou trilhar uma avenida asfaltada. Acreditava que, em questão de dois ou três dias, Kiev cairia e o exército russo seria acolhido por uma população entusiasmada. Deu tudo errado.

As estradas estavam minadas. As pontes tinham sido explodidas. O exército ucraniano estava emboscado em cada vilarejo, atrás de cada árvore, um pesadelo.

Putin já avisou que está preparando operação militar importante para assenhorear-se da região do Donbas (Leste da Ucrânia). Impassíveis, os serviços meteorológicos informam que temos pela frente uma semana de chuva pesada, que deverá transformar a terra fofa em lama preta. Aliviados, os ucranianos agradecem aos céus.

O ditador e o aprendiz

José Horta Manzano

Na Europa, o fim das hostilidades da Segunda Guerra Mundial representou o ponto final de um terror de seis anos, que ceifou entre 60 milhões e 70 milhões de vidas humanas. Entre todos os países envolvidos, a União Soviética pagou o tributo mais elevado. A fatura total, entre civis e militares, passa dos 20 milhões de mortos – um cataclismo.

A rendição incondicional da Alemanha foi assinada em Berlim, às 23h de 8 de maio de 1945. Naquele instante, em razão da diferença de fuso horário, já era 9 de maio em Moscou. Essa é a razão pela qual o День Победы (Dia da Vitória) se festeja nessa data na Rússia.

Por feliz coincidência, o 9 de maio coincide com a chegada da primavera. As árvores folhudas, os campos floridos e a temperatura amena propiciam um clima de festa. O fim da “Grande Guerra Patriótica” é festejado com desfile militar na Praça Vermelha na presença do ditador de turno e dos que estiverem no topo do poder.

Este ano, o 9 de maio reveste importância crucial para Vladímir Putin. É a data-limite para anunciar ao bom povo o êxito e a vitória da “operação especial” levada a cabo na Ucrânia. É impensável deixar passar em branco esse dia de comemorações sem dar a boa-nova que todos esperam.

O ministro de Relações Exteriores da França declarou nesta sexta-feira que “o pior está por vir”. Ele também deve estar pensando no frenesi que se apodera de Putin à aproximação do 9 de maio, o prazo-limite.

O ditador russo, como todo autocrata que se preza, tem dado mostras de que a preservação de vidas humanas não está no centro de suas preocupações.


A propósito, repare em nosso Bolsonaro. Nessa matéria, ele ainda não passou do estágio de aprendiz, mas já segue a mesma linha de pensamento do modelo putiniano. Apesar de ser tupiniquim, o capitão leva jeito para a coisa. Basta recordar sua atitude no auge da pandemia, na época em que, ao ver que compatriotas caíam como moscas, repetia que “todo o mundo tem de morrer mesmo”. Como Putin, ele pertence a essa categoria de indivíduos para os quais a vida (dos outros) tem pouca ou nenhuma importância.


Ao fim e ao cabo, Putin tem necessidade absoluta de exibir ao povo russo algo que possa ser chamado de vitória. Afinal, 9 de maio é o Dia da Vitória! A queda de Kiev está descartada. A ocupação da Ucrânia inteira também foi posta de lado. Que rumo tomará a invasão daqui até a data fatídica?

Ocupará a região do Donbass? Conquistará extensa faixa litorânea? Atacará a cidade de Odessa? Usará armas químicas, bacteriológicas ou até nucleares? Ninguém sabe, talvez nem o próprio ditador. O que se sabe é que ele não hesitará em fazer vítimas civis, como acaba de demonstrar ao bombardear a estação ferroviária de Kramatorsk sexta-feira passada. Muita gente ainda há de morrer.

Putin se meteu numa enrascada. Ele já se deu conta de que as sanções econômicas serão mantidas por muito tempo e, irremediavelmente, vão estrangular seu país. Sabe também que, ainda que mandasse suspender a guerra amanhã, as sanções continuariam em vigor. Portanto, a única coisa que ainda pode fazer é manter a censura aos meios de comunicação e apresentar ao povo boas notícias. Talvez isso baste para permitir-lhe permanecer no poder. Talvez.

Boas notícias para Putin são péssimas notícias para o povo ucraniano. É inacreditável o mal que a mente doentia de um só indivíduo pode causar à humanidade.

Sorte temos nós, no Brasil. Sabemos que nosso pequeno aprendiz não tem – e nunca terá – o poderio do compadre russo.


“Somos solidários à Rússia” (sic)
Declaração dada por Jair Bolsonaro em Moscou, no dia 16 fev° 2022 diante de Vladímir Putin.


 

Uma pancada no soft power russo

Alexander Malofeev, jovem pianista russo

José Horta Manzano

O assunto é espinhudo. Em razão de Vladímir Putin ter declarado guerra à Ucrânia e invadido o país, a imagem da Rússia no exterior levou um golpe. Independentemente de quem venha a ser o vencedor do confronto – se houver –, um perdedor está desde já confirmado: a Rússia.

A simpatia ou antipatia que se tem por um país representa um papel importante. A categoria dos que se apresentam no exterior é peça central desse soft power. A dimensão internacional dos artistas e dos esportistas russos é significativa, bem maior do que os 145 milhões de habitantes do país poderiam fazer supor.

Desde que a primeira bomba estourou na Ucrânia, faz pouco mais de um mês, o contingente de russos que se apresentam fora do país passou a ser olhado com desconfiança. Essa suspeição é mais forte justamente nos países em que eles costumam se apresentar com maior frequência.

Cada país tem lidado com o problema a seu modo, sem acerto com aliados e parceiros. No mês passado, os festivais de cinema de Estocolmo (Suécia) e de Glasgow (Escócia) anunciaram ter retirado filmes russos da programação. As películas sofriam de um pecado original: tinham recebido subvenções do Estado russo.

Por seu lado, a Orquestra Sinfônica de Montreal (Canadá) anulou as três apresentações de Alexander Malofeev, pianista-prodígio russo nascido em 2001. O mesmo azar coube a Roman Kosyakov, outro jovem pianista, excluído do Concurso Internacional de Piano de Dublin (Irlanda) pelo fato de ser russo. Em razão da nacionalidade, também os para-atletas russos foram excluídos dos Jogos Paraolímpicos de Pequim.

Embora os artistas e esportistas russos que dão com a cara na porta sejam numerosos, o grande público nem sempre fica sabendo, visto que só os mais conhecidos aparecem na mídia. A lista dos excluídos é bem mais longa do que os que mencionei.

Agora vem a pergunta: é justo fazer pagar, a quem não tem nada a ver com o peixe, o preço da brutal estupidez de Putin? A arquitetura de nosso Direito exclui a expiação coletiva – a culpa é sempre individual, não cabendo a ninguém pagar por crime alheio.

A intenção dos que vetam a apresentação de artistas e esportistas russos carece de eficacidade. Os que impõem a proibição esperam que ela force os prejudicados a tomar partido e condenar publicamente a guerra. Mas acontece que, logo no começo de março, entrou em vigor na Rússia uma lei que permite condenar a até 15 anos de cárcere qualquer um que se posicione contra a Guerra de Putin. O veto aos artistas e esportistas os deixa num beco sem saída. Ainda que, no fundo, fossem contra a guerra, não ousariam declará-lo em voz alta.

Além dessa lei, as consequências para os infelizes podem ser ainda piores. Sob Putin, a Rússia se tornou um Estado ditatorial tão pesado e violento como na era soviética. Nenhuma discordância é tolerada. Toda oposição é reprimida com brutalidade. Caso um artista (ou um esportista) decida declarar-se contrário ao regime, correrá grande risco. Não adianta nem passar a residir no exterior e não mais retornar ao país: os membros de sua família que tiverem ficado na Rússia podem sentir a mão pesada do regime.

Não tenho a pretensão de trazer a solução do problema. A sinuca é de bico. O ideal seria que a Rússia se livrasse do ditador e se tornasse, pela primeira vez em sua longa existência, uma nação democrática. Mas aí já estamos pedindo demais.

Destalinização

José Horta Manzano


Não se fazem mais guerras como antigamente.


As guerras de antigamente eram sinônimo de morticínio em grande escala. Só a Segunda Guerra (1939-1945) deixou um rastro de desolação estimado entre 70 milhões e 80 milhões de mortos, barbaridade difícil de imaginar.

Estas últimas décadas, vem se aperfeiçoando a técnica de guerra à distância, em que um indivíduo fica comodamente acomodado numa poltrona em frente a um monitor e, de lá, aciona um míssil para um “ataque cirúrgico” a ser desfechado a milhares de quilômetros de distância, visando a atingir unicamente determinado objetivo, sem deixar vítimas colaterais. A falácia é evidente, visto que todo bombardeio, por mais “cirúrgico” que seja, deixa vítimas.

Não se pode negar que as guerras modernas causam menos mortes civis e militares do que os horrores do passado. Mas não se pode esquecer tampouco um dado importante: conflitos de antigamente tinham vencedor e perdedor. A distinção era nítida entre quem ganhou e quem perdeu a guerra. Rendição ou capitulação eram o final esperado de todo conflito.

Hoje a distinção ficou bem mais difícil. Nesse arranca-rabo entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, sabe-se desde já que não haverá vencedor. A guerra só pode ser encerrada por meio de acordo. Pra não perder a face, as duas partes vão cantar vitória, mas todo o mundo sabe que ambas terão perdido. Uma Ucrânia semidestruída vai demandar anos de trabalho duro pra ser reconstruída – mas vai poder contar com ajuda do mundo civilizado.

Quanto à Rússia, vai continuar se estrangulando aos poucos. Além de ter angariado a antipatia do mundo, suas exportações de petróleo e gás tendem a minguar. Uma Europa assustada, que se deu conta de sua dependência energética para com a Rússia, está mexendo os pauzinhos para acelerar o passo em direção a energias renováveis.

Três anos depois da morte de Stalin, a União Soviética denunciou seus crimes e deu início ao grande movimento de destalinização, que funcionou para cancelar o antigo ditador, como se diria hoje. Não seria espantoso se, num futuro bastante próximo, os crimes de Putin fossem denunciados e a Rússia virasse a página e cancelasse o antigo ditador. O único caminho que a Rússia tem para se eximir de culpa é jogá-la inteirinha no ditador atual.

E passar algum tempo tranquila até que novo aventureiro se apodere do Kremlin.

Ucrânia: os refugiados

Fluxo de refugiados que deixam a Ucrânia
Crédito Infográfico: Alto-Comissariado da ONU para Refugiados

José Horta Manzano

Na terça-feira 29 de março, a contagem oficial dos ucranianos que deixaram o país em busca de refúgio no exterior atingiu a marca simbólica e impressionante de 4 milhões. Pela contagem do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, exatamente 4.019.287 pessoas tinham atravessado a fronteira.

A imensa maioria de solicitantes de asilo é constituída de mulheres, crianças e anciãos. De fato, todos os homens com idade entre 18 e 60 anos foram convocados pelo Ministério da Defesa. Não podem partir. Têm de ficar para defender a pátria agredida.

Embora todas as mulheres tenham permissão para ir-se, muitas delas preferiram ficar para ajudar como podem. Enfermeiras, parteiras, médicas e outras terapeutas estão nesse caso. Mas outras, ainda que não estejam familiarizadas com funções médicas nem paramédicas, contribuem na logística, na preparação de refeições para os combatentes, na confecção de peças de camuflagem e em outras atividades que não exijam extraordinária força física.

Mais da metade dos ucranianos que buscam refúgio no estrangeiro se dirigiram à Polônia. Exatamente 2.336.800 pessoas entraram no país, segundo o governo polonês. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, entre as fronteiras da Ucrânia com países ocidentais, a polonesa é a mais extensa. Em segundo lugar, a Polônia sofre com falta crônica de mão de obra, provocada pela emigração de muitíssimos poloneses que partiram em busca de trabalho mais bem remunerado em outros países da Europa.

Os países europeus – incluindo a Suíça, que não é membro da União Europeia – decidiram, em conjunto, conceder gratuidade de transporte a todo titular de passaporte ucraniano. Os requerentes de asilo podem viajar de ônibus ou de trem sem pagar. Quando passa o controlador, basta exibir o passaporte. É medida simbólica, simpática e extremamente útil. Muitos deles deixaram tudo pra trás e não têm mais que a roupa do corpo.

Faz muito tempo que a Europa não assistia a uma onda de solidariedade tão intensa. A última vez tinha sido em 1956, quando a Rússia (sempre ela!), que se chamava então União Soviética, mandou suas tropas à Hungria para esmagar no nascedouro um levante popular contra o autoritarismo do regime comunista, vassalo de Moscou. Os refugiados húngaros de então se espalharam por toda a Europa ocidental. Mas dois grandes fatores fazem a grande diferença entre os civis que fugiram da Hungria em 1956 e os ucranianos de hoje.

O primeiro é uma simples questão de volume; os húngaros eram “apenas” 200 mil, ao passo que os ucranianos já passam de 4 milhões – 20 vezes mais. Em seguida, o que talvez seja a diferença mais importante. Os húngaros deixaram o país natal em família (homens, mulheres, crianças e até anciãos), ou seja, saíram para não mais voltar. Já os refugiados ucranianos são praticamente só mulheres e crianças; as famílias estão separadas. Todos têm em mente a ideia fixa de reunir a família e retomar a vida de antes.

Assim, prevê-se que a maioria dos ucranianos expatriados retornará ao país natal assim que as coisas se acalmarem e que o ogro russo tiver voltado a hibernar nas neves da Sibéria. Até despertar de novo.

A guerra e a mídia

Folha da Manhã (SP), 24 junho 1941
Capa mostra exclusivamente notícias da guerra

José Horta Manzano

É curioso constatar a que ponto o peso de cada acontecimento depende do ponto do planeta onde se situe o observador.

Nesta semana que assinala o início da primavera, olho pela janela e vejo a vegetação começar a dar sinal de vida. Saio à rua e assisto, em cada esquina, ao milagre do renascimento que retorna todos os anos. Os galhos das árvores, secos e nus de novembro até agora, soltam folhas novas, pequeninas, de um verde infantil.

Abro os jornais. A imprensa da Europa segue o mesmo roteiro das últimas 4 semanas: fala da invasão da Ucrânia – ou “Guerra de Putin”, como possivelmente virá a ser lembrada nos livros de história.

Na França, dado que o primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para daqui a menos de duas semanas, o noticiário político devia estar ocupando todo o espaço midiático, com informações, análises e comentários. No entanto, o drama ucraniano supera as paixões partidárias. São as notícias do front que ocupam as manchetes.

Lembro as palavras que Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, pronunciou ao discursar perante o Congresso no dia seguinte ao do ataque japonês ao Havaí: “… a date which will live in infamy” (… uma data que ficará marcada pela infâmia).

Na memória dos europeus, o 24 de fevereiro de 2022 também ficou marcado para sempre. Foi tão impactante, que conseguiu a façanha de mandar para escanteio até a interminável pandemia – que ainda dá sinais de sobreviver nos acréscimos, pra continuar na metáfora futebolística.

Tivesse o ditador russo invadido o Turcomenistão ou a Quirguízia, não teria levantado oposição tão forte. Protestos protocolares, uma ou outra sançãozinha, e mais nada. O mundo teria continuado a girar. Mas não: o infeliz resolveu invadir um país europeu. Terrível engano.

Em matéria de guerra de conquista, a invasão da Ucrânia foi o maior erro tático cometido por um chefe de guerra desde que um certo Adolf Hitler decretou a Operação Barbarossa – a invasão da União Soviética, 81 anos atrás.

Apesar das declarações de vitória que cada uma das partes beligerantes possa vir a fazer, esta guerra não terá vencedor. Perderão todos. Uma vez cessadas as hostilidades, a Ucrânia receberá ajuda maciça para sua reconstrução. Vai levar alguns anos, mas o país vai ficar melhor do que era antes. Quanto à Rússia, sofrerá embargo, má-vontade e antipatia durante décadas.

As consequências negativas serão duradouras. Enquanto isso, quais são as manchetes na imprensa do Brasil? O tapa desferido no palco de entrega do prêmio Oscar ainda ressoa. Bolsonaro foi internado com “desconforto” digestivo (por “desconforto”, entenda-se “dores fortíssimas”; sem isso, dificilmente o homem teria sido internado). O ministro da Educação foi demitido por motivo de corrupção, deixando no ar a pergunta “cui bono?” – quem deu as diretivas ao ministro-pastor?

Notícias da guerra? Sim, há. Mas relegadas a segundo plano. A Operação Barbarossa, desencadeada num tempo sem internet e sem tevê, recebeu cobertura bem mais importante. Na imprensa, as informações cobriam a primeira página inteirinha. Os tempos mudaram.

Naquele ano de 1941, James Stewart (melhor ator) e Ginger Rogers (melhor atriz) tinham vencido o Oscar. Ainda não era costume astros e estrelas se estapearem no palco.

Standing ovation

José Horta Manzano

Até um mês atrás, a popularidade de Volodímir Zelenski, presidente da Ucrânia, andava baixa. Ele seguia o destino reservado a todos os políticos de quem os eleitores esperam milagres. Dado que, em tempos normais, milagres não costumam ocorrer, a população que conta com eles acaba se sentindo frustrada.

Acontece que a invasão das tropas russas virou o país de ponta-cabeça, e a situação mudou drasticamente. Calcula-se que, até agora, 10 milhões de cidadãos tiveram de fugir abandonando casa e bens. Isso representa 23% da população do país. Proporcionalmente, é como se 49 milhões de brasileiros tivessem sido obrigados a fugir, sem destino certo, só para salvar a pele. Uma calamidade!

O Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados informa que, até ontem 23 de fevereiro, 3,7 milhões de ucranianos – um contingente constituído basicamente de mulheres, crianças e anciãos – foram mais longe: atravessaram a fronteira e deixaram o país natal em busca de refúgio no estrangeiro, principalmente na Polônia.

Zelenski, o presidente em quem ninguém botava muita fé até outro dia(1), tem mostrado ser excelente chefe de guerra. Encarna o herói tal como é definido nos dicionários: aquele ser carismático que, em circunstâncias adversas, se destaca como figura protetora que mostra o caminho a seguir.

Seu passado de ator tem sido precioso na adversidade. O trabalho de anos diante das câmeras deu-lhe segurança na hora de falar ao público. Por meio de internet, zoom e telão, tem sido o convidado de honra de numerosos parlamentos ao redor do globo.

Sempre ovacionado de pé por parlamentares, já discursou ao vivo, por meio de telão, no Parlamento da União Europeia, no Congresso Americano, no Bundestag (Parlamento Alemão). Já se exprimiu também nos seguintes parlamentos: Canadá, Itália, Japão, Israel, Reino Unido. Ontem foi a vez da França, onde foi ouvido por deputados e senadores reunidos em sessão extraordinária. Recebeu a habitual standing ovation.

Zelenski sabe encontrar as palavras certas para tocar o fundo da alma dos que o escutam. Nos EUA, lembrou os ataques a Pearl Harbour e às torres gêmeas; na Europa, mencionou as invasões da Segunda Guerra; na França, comparou as ruínas da cidade-mártir de Mariúpol à destruição da francesa Verdun, na Primeira Guerra.

Diferentemente de seu xará russo, que pensa muito em si e pouco no próprio povo, Volodímir Zelenski tem demonstrado pouco apego à própria vida e grande amor pelo povo que o elegeu. Sabe perfeitamente que, a todo momento, um míssil russo pode destruir o palácio do governo, que ele transformou em seu quartel-general. Transpira coragem, enquanto Putin, seu agressor, vive cercado por um batalhão de seguranças e não come nada que não tenha sido antes experimentado por um dos provadores oficiais.

A Ucrânia, a Europa e o mundo inteiro torcem para que esse pesadelo termine logo. Esta é uma guerra que só deixará perdedores. Perde a Ucrânia, um país destruído. Perde a Rússia, um país condenado a passar as próximas décadas à margem da civilização. Perde o mundo, que vê ressurgir o pavor do urso soviético, que todos imaginavam morto e enterrado.

Folha de São Paulo, 20 out° 1977

Zelenski não discursou para os parlamentares brasileiros. Desconheço a razão. Talvez, ocupados com escândalos paroquiais, tenham esquecido de convidá-lo. Ou talvez nosso Congresso não disponha de telão – deve ser isso.

Em outubro de 1977, em pleno regime militar – só os muito antigos se lembrarão – nosso Congresso recebeu a visita da lindíssima atriz holandesa Sylvia Kristel. Ela tinha sido a estrela do filme Emmanuelle. A exibição do filme tinha sido proibida no Brasil, por ele ter sido considerado ousado demais. A censura só viria a liberá-lo 3 anos mais tarde.

Jornais da época relatam a tietagem de que a moça foi objeto por parte de assanhados parlamentares. (A palavra tietagem ainda não existia; dizia-se paparicação.) Sylvia Kristel conversou com deputados e senadores, todos encantados e admirativos. Foi recebida até pelos presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente Petronio Portella e Marco Maciel(2).

Não se deve tirar nenhuma conclusão apressada. Seria injusto afirmar que nossos parlamentares se encantam mais com a visita de uma beldade estrangeira do que com um drama que sacode a Europa e que trará, é certeza, repercussões (negativas) para a economia nacional e para o dia a dia de nossa população.

Vai ver que só não convidaram Zelenski para discursar por videoconferência por não disporem do número de telefone dele.

(1) Muitos não botavam fé em Zelenski, é verdade. Mas eu não soube de nenhum chefe de Estado que tenha cometido a imprudência de zombar dele, logo nos primeiros dias da invasão, como fez nosso capitão Bolsonaro, quando fez pouco e tentou rebaixar o colega ucraniano chamando-o de “comediante”. Com direito a muxoxo.

(2) Marco Maciel, que foi vice-presidente do Brasil ao longo dos dois mandatos de FHC, faleceu no ano passado. Ele e um certo Olavo de Carvalho foram as únicas personalidades falecidas durante o governo Bolsonaro que tiveram direito a um decreto de luto oficial. (Coincidentemente, ambos faleceram de covid, doença que o capitão diz que não existiu.) Diga-se, em desagravo à memória de Maciel, que ele dificilmente terá cruzado algum dia com o outro homenageado. Não frequentavam a mesma paróquia.

Lviv

José Horta Manzano

As bombas de Putin trouxeram ao noticiário o nome de Lviv, importante cidade da Ucrânia. Para alívio de seus assustados habitantes, Lviv não foi sitiada, nem invadida, tampouco bombardeada. Até o momento em que escrevo.

A cidade foi fundada numa dessas esquinas estratégicas da Europa medieval, no que era então o Reino da Galícia-Volínia. Foi durante o reinado de Daniel I, em meados do século 13.

Nestes oito séculos, a cidade mudou de mãos numerosas vezes, pertenceu a reinos, principados, impérios e repúblicas. Teve grande número de “donos”. A impressionante lista vai aqui abaixo.

Principado da Galícia-Volínia (1256-1349)
Reino da Polônia (1349-1569)
República das Duas Nações (Polônia e Lituânia) (1569-1772)
Reino da Galícia e Lodoméria (1772-1804)
Império Austríaco (1804-1867)
Império Austro-Húngaro (1867-1918)
República Popular da Ucrânia Ocidental (1918)
Polônia (1918-1939)
União Soviética (1939-1941)
Alemanha nazista (1941-1944)
União Soviética (1944-1991)
Ucrânia (1991 até o presente)

Essa concentração de heranças tão diversas fez de Lviv uma cidade que destoa, em arquitetura, das demais cidades ucranianas. Enquanto as outras, em maior ou menor escala, guardam fortes traços da era soviética, Lviv ostenta um charme tranquilo, indefinível, com toques germânicos, bálticos e até nórdicos.

Outra marca do cosmopolitismo da cidade é sua coleção de nomes. O rei fundador deu-lhe o nome do filho Lev – que significa Leão nas línguas eslavas. Diferentes línguas traduziram, bem ou mal, o nome original. Ou simplesmente o adaptaram a sua fonética.

Os franceses hesitaram entre Léopol, Léoville e Lionville. Acabaram ficando com Lviv mesmo. Em italiano e em espanhol, o nome é Leopoli/Leópolis(*). Lituanos e letões preferem Lvovas/Lviva. Os alemães deram-lhe o nome de Lemberg. Os judeus, que chegaram a ser numerosos por lá antes dos massacres da Segunda Guerra, utilizavam o mesmo nome Lemberg, embora escrito com caracteres hebraicos. Em russo, o nome é Львов (pr: Lhvôf). Os poloneses utilizam praticamente o mesmo nome, mas escrevem em caracteres latinos: Lwów. Os ucranianos, que são os donos atuais, escrevem Львів (pr: Lhvif). Entre nós, visto que a cidade era muito pouco conhecida até outro dia, tem sido adotada a transliteração do ucraniano = Lviv.

O centro histórico da cidade está inscrito na lista do patrimônio arquitetural da Unesco. Ao sabor de guerras e ocupações, sua demografia sofreu mudanças drásticas. Em 1931, a população se subdividia em 50% de poloneses, 32% de judeus e 16% de ucranianos – cada grupo falando sua língua. Na virada do século, por volta do ano 2000, os judeus haviam praticamente desaparecido, assim como os poloneses. Por seu lado a porcentagem de ucranianos havia saltado de 16% para 88% e persistia um contingente de russos de 9%, num resquício da era soviética.

Atirar bombas sobre populações civis, como vêm fazendo as tropas de Putin em outros centros urbanos da Ucrânia, é crime contra a Humanidade. Bombardear Lviv agravaria o nível da ação celerada, acrescentando mais um crime à extensa lista de selvajaria: a destruição de patrimônio da Humanidade.

(*) Temos, no estado do Paraná, um município de nome Leópolis. Logo que fiquei sabendo, imaginei que fosse região de colonização polonesa ou ucraniana. Engano. A origem é mais prosaica. Trata-se simplesmente de homenagem ao proprietário da gleba na qual o povoado foi fundado. Ele se chamava Léo, donde o nome de Leópolis. Portanto, nada a ver com Lviv.

De cara limpa

José Horta Manzano

Dia 16 de fevereiro, faz mais de um mês, o governo federal suíço fez um aviso importante: a partir da zero hora do dia seguinte, o uso de máscara anticovid deixava de ser obrigatório no país inteiro. A liberação incluía todos os lugares públicos fechados: supermercados, lojas, centros comerciais, igrejas, teatros, cinemas, bibliotecas, universidades. O uso da máscara continuava obrigatório apenas no transporte público e em hospitais, clínicas e casas de repouso para idosos.

Pois acredite: a partir do dia 17 de fevereiro, todos tiraram a máscara. Excetuando um gato pingado aqui, outro ali, todos acreditaram nas autoridades. Foi como se o Conselho Federal (o Executivo colegiado) tivesse o poder de expulsar os vírus para fora das fronteiras e decretar o fim da pandemia. Com hora e dia marcados.

Passado mais de um mês, este blogueiro, que é prudente, não põe os pés nem no elevador sem ostentar aquela mascarinha esverdeada, modelito básico made in China, incômodo, mas precioso. Às vezes sinto que me olham como se eu fosse um E.T. que acaba de desembarcar de um disco voador.

Um mês depois da Suíça, o governo paulista aliviou – ou “flexibilizou”, que é a palavra oficial – as regras de uso de máscara em ambiente fechado, em todo o território do estado. Em “shoppings”, faculdades, escritórios e estabelecimentos comerciais, pode-se de novo mostrar o sorriso. E qual foi a reação popular? Lançaram “hurras!” de alegria e alívio?

No primeiro dia, repórteres de campo fizeram contagem da população e repararam que os passantes se distribuíam entre os que, adotando imediatamente a liberação, saíram sem máscara (30%) e os mais prudentes, que preferem esperar pra ver o que vai dar (70%).

Como a situação evoluiu, não sei. Mas no início, apenas 3 de cada 10 paulistas acataram imediatamente as diretivas oficiais. Houve até gente que confiou ao repórter que, no transporte coletivo, pretendia continuar usando máscara “pelo resto da vida”. É grave, doutor?

Meu diagnóstico não tem a pretensão de estabelecer nenhuma verdade estatística, mas mostra uma tendência. Uma linha demarcatória pode ser traçada entre a reação de cada um dos povos mencionados.

Os suíços
1) Botam fé (até demais) nas autoridades. Acreditam no que ouvem, não se rebelam e seguem as ordens.

2) Têm consciência de que os eleitos realmente representam o povo e que a voz das autoridades é, no fundo, a voz da população.

Os brasileiros
1) Em princípio, desconfiam das próprias autoridades. Têm dificuldade em acreditar em diretivas oficiais e em segui-las. Não acreditando no que ouvem, costumam rebelar-se. Dependendo da época, essa revolta já se exprimiu pelas armas, pelas revoluções, pelas marchas, pelos protestos, pelos panelaços; hoje, a rebeldia marca presença nos comentários, raivosos ou não, lançados em redes sociais.

2) Têm consciência de que os eleitos constituem uma classe à parte e que vivem desligados do povo que os elegeu. Sabem que os valores que movem as autoridades não representam necessariamente os valores dos eleitores.

A Suíça é formada por 26 cantões, cada um com sua própria Constituição, suas regras fiscais, seu sistema escolar. Uns cantões são de maioria católica, outros têm mais protestantes, outros são “mistos”. Há cantões predominantemente urbanos, enquanto outros são rurais. Uns são ricos, ao passo que outros são bem menos abastados.

Se esse complexo quebra-cabeça – com populações que não se entendem nem frequentam a mesma igreja – conseguiu, há séculos, encontrar uma fórmula de convivência harmoniosa, por que continuamos nós, no Brasil, a cavar fossos entre “nós e eles” e a alimentar campanhas de ódio contra os que não pensam como nós?

Quando a gente não consegue fazer um mingau que preste, convém pedir a receita ao vizinho.

Boicote

Stroganoff 2.0
(versão vegetaniana)

José Horta Manzano

Quase 20 anos atrás, na sequência do ataque terrorista que derrubou as torres gêmeas de Nova York, os EUA encasquetaram de invadir o Iraque de Saddam Hussein. Ao apresentar o projeto ao Conselho de Segurança da ONU, encontraram firme oposição da França. George Bush Júnior, então presidente americano, deu de ombros e foi em frente com sua guerra.

Mas a objeção francesa decepcionou a população americana e acabou gerando um sentimento antifrancês. Na ocasião, muitos bares e restaurantes reescreveram parte do cardápio. Batatas fritas, que tradicionalmente levam o nome de “French fries” (fritas francesas) passaram a se chamar “Freedom fries” (fritas da liberdade).

Os anos passaram, a guerra acabou, e não se falou mais do assunto. Acredito que a molecagem das batatas tenha sido abandonada e que elas tenham recobrado o nome tradicional.

Este terrível 2022, que era para ser alegre e marcar o fim da pandemia, acabou reservando ao mundo a pior das surpresas: uma guerra de conquista territorial em plena Europa. Um país soberano e democrático está sendo atacado por uma potência nuclear, dona do segundo maior exército do planeta. Uma covardia que, na Europa, não se via desde os anos sinistros da Segunda Guerra.

Muita revolta tem surgido, cada um reagindo à sua maneira. Pesadas sanções financeiras e econômicas estão sendo aplicadas ao país agressor, decisão que me parece sensata. Mas outras marcas de desapreço para com o invasor russo soam folclóricas, ainda que estejam mais pra ignorância que pra má-fé. Aqui estão algumas delas.

Faz duas semanas, a Universidade Bicocca, de Milão, anunciou o cancelamento de um curso, previsto havia meses, a ser dado pelo escritor Paolo Nori sobre a obra de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), considerado o maior romancista russo, falecido há 140 anos, antes do nascimento do avô de Vladímir Putin. A revolta contra o estúpido cancelamento foi tão clamorosa, que a universidade acabou voltando atrás e mantendo o curso. Repare que não foi o boteco da esquina, mas uma universidade que tinha decretado o bizarro boicote.

Semana passada, foi a vez de botecos de verdade porem as manguinhas de fora. Pelo menos dois estabelecimentos paulistas seguiram o caminho das “fritas da liberdade” de 20 anos atrás e alteraram o cardápio. Numa das empresas, o estrogonofe (às vezes grafado estroganofe ou ainda stroganoff) perdeu o sotaque russo e tornou-se picadinho. Na outra casa, um bar, o coquetel “Moscow mule” virou “Kiev mule”. Não creio que as mudanças tenham contribuído para a paz na Europa oriental, mas valeu a intenção. De qualquer modo, o protesto é infinitamente menos grave que o banimento de Dostoiévski da universidade.

No capítulo “boicotes bizarros”, o mais curioso, até o momento, ocorreu ontem. Por ordem do ditador Putin, Joe Biden ficou proibido de pisar território russo até segunda ordem. Nenhuma viagem aos gelos de Moscou estava prevista na agenda do presidente americano, mas fica o aviso: que nem pense em aparecer. Não consta que o banimento tenha sido considerado como afronta pela diplomacia americana.

Parece que a estupidez humana não tem limites. Quem diz isso não está muito longe da verdade.

O autocrata e a bomba

José Horta Manzano

O destino de todo autocrata é o isolamento. É a consequência de seu estilo de mando, não há como escapar. Aquele que reina pelo terror não chega a colher reações sinceras dos que o cercam. Receosos de perder benesses, os integrantes do entourage não ousam contradizer o capo, e só lhe dizem sim.

Ao fim e ao cabo, o chefão se vê cada vez mais prisioneiro de uma bolha de aduladores, um grupo fechado onde o debate de ideias não tem lugar. Em tempos de bonança, quando os dias escorrem suavemente e a conjuntura é favorável, essa ausência de diálogo no topo da pirâmide não chega a entravar o andamento da nação. Já quando o céu escurece, o desastre é inevitável. O aprendiz de caudilho atualmente instalado no Planalto já nos deu um antegosto dessa tragédia.

Entre os autocratas do século passado, Saddam Hussein e Adolf Hitler cometeram a loucura de lançar guerra de conquista – o primeiro, sobre o Kuwait; o segundo, sobre a Europa inteira. Não acredito que faltassem bons assessores a nenhum deles. O fato é que, por funcionarem permanentemente em modo terror, inibiam os encarregados de aconselhá-los. Não davam ouvidos nem às tímidas advertências de seus generais mais experientes. Ambos os ditadores acreditavam ser super-homens e estar sempre no caminho certo. Sabemos como terminou a aventura deles.

Faz mais de uma década que o mundo vem acompanhando a ascensão de Vladímir Putin, personalidade de tendência fortemente autocrata. Por meio de cooptação das elites, de corrupção em todos os níveis e de eleições fraudulentas, chegou ao topo da pirâmide. Não tem opositores, todos assassinados ou encarcerados. Governa sozinho, faz o que quer, e ninguém ousa discordar.

Baseado numa análise tosca da geopolítica, achou que era chegada a hora de recobrar a glória perdida do finado Império Russo. Decidiu começar pela Ucrânia. Não levou em conta o fato de que um agressor externo sempre atiça o sentimento de patriotismo e de união nacional do povo agredido. Não percebeu que a invasão da Ucrânia despertaria os mesmos sentimentos entre todos os europeus – o temor de um inimigo comum é maior que querelas entre vizinhos. Não pensou que um sentimento antirrusso tão vigoroso se levantaria no mundo inteiro.

Mandou ver. Imaginou que em de poucos dias estaria tudo dominado. Não deu certo. Seu exército meteu-se num atoleiro. Sua economia está estrangulada. Sua popularidade está em queda. Seu povo periga deixar de confiar nele – suprema desonra para um orgulhoso autocrata. Que resta a Putin?

Resta a ameaça nuclear, que ele não para de mencionar, dia sim, outro também. No entanto, autocrata ou não, aconselhado ou não, o capo do Kremlin sabe que, se ele ousar apertar o botão, estará se expondo a duas consequências.

A primeira é imediata. Caso lance uma bomba atômica sobre a Ucrânia, Moscou periga ser riscada do mapa na meia hora seguinte. Submarinos americanos dotados de mísseis de ogiva nuclear rondam nas cercanias.

A segunda consequência pode até tardar, mas não vai falhar. A atmosfera do globo, imperturbável, vai continuar a se comportar como de hábito, independentemente das vontades de Putin. Já nos anos 1400, os portugueses que se aventuraram em mares nunca dantes navegados se deram conta de que, no Hemisfério Norte, as massas de ar se movimentam no sentido horário, de Oeste para Leste. Por um capricho da geografia, o território russo está situado a Leste da Ucrânia e da Europa.

Assim sendo, bombardear a Europa é como cuspir pra cima: quem comete essa besteira acaba sendo atingido no próprio cocuruto. A onda de contaminação provocada pela explosão atômica será fatalmente carregada pelos ventos e, em pouco tempo, atingirá em cheio a própria Rússia.

É pouco provável que o ditador russo escolha a opção atômica, a menos que tenha perdido, por completo, as faculdades mentais. Se tiver realmente endoidado, só resta uma derradeira esperança: que a camarilha se revolte, enfie o desvairado dentro duma camisa de força e dê um golpe de Estado. Assim, a Terceira Guerra Mundial fica adiada para o dia em que um novo aprendiz de autocrata se apossar do poder na Rússia.