Boicote

Stroganoff 2.0
(versão vegetaniana)

José Horta Manzano

Quase 20 anos atrás, na sequência do ataque terrorista que derrubou as torres gêmeas de Nova York, os EUA encasquetaram de invadir o Iraque de Saddam Hussein. Ao apresentar o projeto ao Conselho de Segurança da ONU, encontraram firme oposição da França. George Bush Júnior, então presidente americano, deu de ombros e foi em frente com sua guerra.

Mas a objeção francesa decepcionou a população americana e acabou gerando um sentimento antifrancês. Na ocasião, muitos bares e restaurantes reescreveram parte do cardápio. Batatas fritas, que tradicionalmente levam o nome de “French fries” (fritas francesas) passaram a se chamar “Freedom fries” (fritas da liberdade).

Os anos passaram, a guerra acabou, e não se falou mais do assunto. Acredito que a molecagem das batatas tenha sido abandonada e que elas tenham recobrado o nome tradicional.

Este terrível 2022, que era para ser alegre e marcar o fim da pandemia, acabou reservando ao mundo a pior das surpresas: uma guerra de conquista territorial em plena Europa. Um país soberano e democrático está sendo atacado por uma potência nuclear, dona do segundo maior exército do planeta. Uma covardia que, na Europa, não se via desde os anos sinistros da Segunda Guerra.

Muita revolta tem surgido, cada um reagindo à sua maneira. Pesadas sanções financeiras e econômicas estão sendo aplicadas ao país agressor, decisão que me parece sensata. Mas outras marcas de desapreço para com o invasor russo soam folclóricas, ainda que estejam mais pra ignorância que pra má-fé. Aqui estão algumas delas.

Faz duas semanas, a Universidade Bicocca, de Milão, anunciou o cancelamento de um curso, previsto havia meses, a ser dado pelo escritor Paolo Nori sobre a obra de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), considerado o maior romancista russo, falecido há 140 anos, antes do nascimento do avô de Vladímir Putin. A revolta contra o estúpido cancelamento foi tão clamorosa, que a universidade acabou voltando atrás e mantendo o curso. Repare que não foi o boteco da esquina, mas uma universidade que tinha decretado o bizarro boicote.

Semana passada, foi a vez de botecos de verdade porem as manguinhas de fora. Pelo menos dois estabelecimentos paulistas seguiram o caminho das “fritas da liberdade” de 20 anos atrás e alteraram o cardápio. Numa das empresas, o estrogonofe (às vezes grafado estroganofe ou ainda stroganoff) perdeu o sotaque russo e tornou-se picadinho. Na outra casa, um bar, o coquetel “Moscow mule” virou “Kiev mule”. Não creio que as mudanças tenham contribuído para a paz na Europa oriental, mas valeu a intenção. De qualquer modo, o protesto é infinitamente menos grave que o banimento de Dostoiévski da universidade.

No capítulo “boicotes bizarros”, o mais curioso, até o momento, ocorreu ontem. Por ordem do ditador Putin, Joe Biden ficou proibido de pisar território russo até segunda ordem. Nenhuma viagem aos gelos de Moscou estava prevista na agenda do presidente americano, mas fica o aviso: que nem pense em aparecer. Não consta que o banimento tenha sido considerado como afronta pela diplomacia americana.

Parece que a estupidez humana não tem limites. Quem diz isso não está muito longe da verdade.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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