Se esqueceram

source: Câmara dos Deputados

José Horta Manzano

Em dias de tempestade, a cada trovão que arrebentava, minha avó murmurava “Santa Bárbara!”. E ia assim, de trovão em invocação, até o tempo acalmar. Anos mais tarde fiquei sabendo que, na hagiologia católica, Santa Bárbara protege contra raios e tempestades.

Vim a conhecer também um provérbio português: “Só se lembra Santa Bárbara quando troveja”. Tem algo a ver com a ingratidão. Se a santa nos salvou um dia de ser fulminado por um raio, não precisa esperar a próxima situação de perigo para só então lembrar-se dela; convém dar-lhe um alozinho fora da precisão. Apego interessado é muito feio.

Com certa frequência, tenho lido notícias de brasileiros hostilizados em Portugal. Nem sempre isso acontece por terem cometido algum malfeito, mais frequente é serem interpelados pelo simples fato de serem brasileiros. Essa atitude me preocupa e me traz à mente lúgubres precedentes.

Penso nos judeus, nos armênios e em outros grupos étnicos que, ao longo da história, foram perseguidos pelo simples fato de serem judeus ou armênios. São agressões pérfidas e imensamente covardes.

Os brasileiros que estão em Portugal – ou em qualquer outro país – não são pessoalmente responsáveis pelo fato de haver muitos recém-imigrados nesses lugares. Se alguma queixa tem de ser feita, que seja feita aos que fazem as leis.

Li outro dia que, em Portugal, uma senhora insultou uma brasileira, na rua, sem motivo que não fosse estar irritada com a abundância de estrangeiros. “Volte para sua terra! Aqui mandamos nós!”. Ouvem-se gritos desse teor, um verdadeiro horror.

Ninguém tem o direito de xingar cidadãos na rua só pelo fato de não gostar de estrangeiros. Em Portugal há até um partido político xenófobo. Chama-se Chega. Quem adere a suas ideias, que se afilie a esse partido, vote em seus candidatos, participe de suas passeatas e manifestações. Isso pode. Xingar, não.

Saíram hoje as estatísticas oficiais da Confederação Suíça que esmiúçam os nascimentos do ano passado. O que todos querem saber é quais foram os nomes mais atribuídos aos recém-nascidos. Aqui, como em outras partes do mundo, há nomes da moda. Faz alguns anos que a moda impõe nomes curtos. Ninguém mais chama um filho de Epaminondas ou Zacarias, nem uma filha de Genoveva ou Madalena.

Em 2023, o top 5 de nomes femininos foi: Mia, Emma, Sofia, Emilia, Elena. E os cinco nomes masculinos mais atribuídos foram: Noah, Liam, Matteo, Gabriel, Leano. Acho um pouco sem graça dar a uma criança um nome da moda, que, no futuro, será igual ao de primos, colegas, vizinhos, amigos. Mas, enfim, de gosto não se deve discutir.

A justificação do título deste artigo vem agora. Junto com as estatísticas dos prenomes, saíram também as dos nomes de família. Saibam os distintos leitores que, no dia 31 de dezembro de 2023, os três sobrenomes mais comuns na Suíça de expressão francesa eram, na ordem:

1° Silva

2° Ferreira

3° Pereira

É isso mesmo. Na contagem oficial dos Serviços Federais de Estatística, sobrenomes portugueses aparecem na frente dos nomes locais. Os cidadãos portugueses que insultam imigrantes brasileiros e sugerem a eles que voltem para a terra de origem deveriam pensar nisto: os imigrantes portugueses que trabalham na Suíça são multidão! E não só na Suíça, em outros países é igual: França, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e outros mais. E não estou falando do século 19, mas do ano de 2023.

Posso garantir que, aqui na Suíça, jamais ouvi alguém se dirigir a um desses portugueses de maneira irrespeitosa para sugerir-lhes que voltem pra casa. As senhôras que se irritam ao cruzar com imigrantes em Portugal deveriam tomar um chazinho de humildade todas as noites antes de se deitar.

Goste-se ou não, aqui está a verdade: todos nós – todos mesmo – vimos de algum lugar.

Azar

Flor de laranjeira

José Horta Manzano

É interessante observar como a evolução das línguas é imprevisível. Há casos em que, da mesma raiz, brotam galhos diferentes. De fato, termos que descendem de um mesmo tronco podem, em casos extremos, ter significado divergente em diferentes idiomas.

Um caso curioso é o da voz árabe as-sahr (ou az-zahr), presente no falar popular e no árabe ibérico, mas ausente do árabe clássico. Na nossa língua, acabou desembocando em azar, palavra usada geralmente com significado negativo para indicar má sorte, infelicidade, revés, contratempo. Os dicionários chegam a abonar o uso de azar em circunstâncias positivas, mas essa acepção não se encontra no falar popular.

Segundo a maioria dos especialistas, os dados (de jogar) introduzidos pelos mouros ‒ que mandaram por sete séculos na Península Ibérica ‒ tinham uma flor pintada em uma das faces. Em árabe hispânico, flor se dizia az-zahr, nome que se estendeu ao dado e, em seguida, ao próprio jogo. Falando em flor, em espanhol moderno, azahar é o nome da flor de laranjeira.

Na língua de Cervantes, o termo azar não costuma ser usado com o mesmo significado que tem em português. Utiliza-se geralmente com o sentido de acaso. Para dizer ‘má sorte’, o espanhol, mais dramático, prefere falar em desgracia.

Através do espanhol, a palavra entrou no francês na Idade Média. Naquela época, a grafia ainda não estava estabilizada, o que resultou em formas um tanto fantasiosas sobretudo para palavras importadas.

O azar espanhol foi grafado hazard, com agá inicial e dê final. Mais tarde, o zê foi substituído por um esse, mas o agá inicial e o dê final permanecem até hoje. Hasard não tem sentido positivo nem negativo. Designa apenas o acaso, o imprevisível. Par hasard, expressão do dia a dia, significa por acaso.

Já em italiano, a mesma voz escorregou para um sentido de risco, de perigo, de ato temerário. Entrou na língua através do francês, o que explica a preservação do dê: azzardo.

O inglês também importou o termo do francês medieval, daí ter guardado a grafia da época: hazard. Diferentemente do que aconteceu em francês, o sentido da palavra não se modificou. Até hoje indica risco ou perigo. Hazardous se diz do que é perigoso, que comporta grande risco.

Temos aí curioso caso de uma palavra que tanto pode espargir perfume de flor de laranjeira quanto evocar grande perigo. Não há comprovação de que uma coisa tenha a ver com a outra.

Metamorfose ambulante

Metamorphose
by Brenda Erickson

José Horta Manzano

Se alguém tivesse dito que Lula era uma “metamorfose ambulante”, teria sido imediatamente acusado de crime de ódio e talvez tomasse até um processo. Mas foi ele mesmo, Luiz Inácio, quem se qualificou assim. Portanto, quem achar que o presidente está se comportando feito biruta de aeroporto, que vá em frente e use a expressão. O termo está liberado.

Alguns anos atrás, Lula defendeu o regime bolivariano dizendo que “lá tem democracia até demais”. Referia-se ao fato de, segundo ele, o povo vizinho votar com mais frequência que os brasileiros.

Nesse meio tempo, a metamorfose operou. Segundo os jornais de hoje, Luiz Inácio admitiu que o povo venezuelano vive sob regime autoritário, mas não ditatorial. Considere-se que estamos falando do mesmo povo, do mesmo regime e, pra coroar, do mesmo dirigente.

Se isso não é comportamento metamorfótico, não sei o que será.

Um ponto me chama a atenção no tratamento que o Brasil e o mundo estão dando ao que ocorre na Venezuela.

Faz décadas que o regime autoritário se instalou. Se parecia manso no princípio, foi endurecendo com o tempo até chegar ao ponto em que está hoje, a um passo da ditadura ao estilo russo.

Em tempos normais, o drama venezuelano tem sido tratado pelo governo brasileiro como um não acontecimento. É como se a Venezuela não existisse. Não fosse o afluxo de centenas de milhares de venezuelanos famintos e desesperados, o silêncio sobre nosso vizinho do norte seria total.

De repente, em consequência das eleições (das quais todo o mundo sabia que Maduro sairia vencedor), a Venezuela entrou no noticiário. Já se passaram quase três semanas e Caracas continua no foco dos holofotes.

O que chama minha atenção é o contraste entre o olhar intenso que lançamos sobre nossos vizinhos agora, com relação ao descaso que lhes dedicamos em tempos normais.

Me parece que, longe do período eleitoral, teria sido o momento de agir, conversar, combinar e, principalmente, avisar o ditador venezuelano que o Brasil não toleraria eleições fraudadas. Acredito que um aviso prévio nesse sentido teria sido mais eficaz que toda a atual gritaria mundial, com pressões daqui e dali, e com sugestões incômodas e ofensivas para Maduro e seu desafiante, como essa história maluca de novas eleições.

A diplomacia brasileira bobeou nessa matéria. Ou, quem sabe, não bobeou não, simplesmente deu a entender ao vizinho ditador que o Brasil estava disposto a apoiá-lo nas eleições. Em seguida, diante do escândalo internacional, enfiamos o rabo no meio das pernas.

Quando se lida com um personagem metamorfótico, poder-se-á esperar dele tudo.

Brasília é uma usina de reciclagem de erros

Elio Gaspari (*)

Com a reforma tributária na reta final, os carros elétricos entraram, ao lado do tabaco e das bebidas alcoólicas, na lista dos produtos que pagarão o “imposto do pecado”. Em tese, esse imposto recairá sobre mercadorias que fazem mal à saúde ou agridem o meio ambiente. Ganha um fim de semana num incêndio do Pantanal quem souber o que um carro elétrico tem a ver com isso.

As montadoras nacionais fazem o que podem contra os carros elétricos, valendo-se do trânsito de que dispõem pelo corredores de Brasília, mas desta vez exageraram.

Uma reforma tributária que pretende ser racional acabou acordando o velho monstro do atraso. A sabedoria convencional ensina que tendo sido um dos últimos países a abolir a escravidão (em 1888), Pindorama tem um pé no atraso.

A coisa é pior. Até 1850, o andar de cima nacional estava amarrado ao contrabando de africanos escravizados, uma atividade supostamente ilegal desde 1831.

Admita-se que isso é coisa de um passado remoto, mas o atraso está sempre por aí.

Em 1978, a Associação dos Supermercados excluiu de seu quadro social a rede Carrefour porque ela aceitava pagamentos com cartões de crédito. Nessa época, burocratas e espertalhões criaram um regime pelo qual era mais fácil entrar no Brasil com um pacote de cocaína do que com um computador.

Encrenca-se com os carros elétricos em nome de uma proteção ao parque industrial das montadoras. Trata-se de uma jovem indústria, septuagenária e anacrônica. Enquanto fábricas reinventam-se pelo mundo afora, no Brasil fala-se em importar linhas de montagem de veículos a gasolina desativadas pelo progresso. Seria o ProSucata.

Em 2003, os maganos das montadoras viviam muito bem quando um jovem chamado Elon Musk se meteu no mercado de carros elétricos e criou a Tesla. A China foi na bola e hoje suas montadoras têm a maior fatia do mercado mundial.

Quando Juscelino Kubitschek dirigiu o primeiro carro saído de uma montadora de São Paulo, os chineses andavam de bicicleta. Em matéria de fazer besteiras, a China batia o Brasil de longe. Pindorama tinha JK, quando a China teve o Grande Salto de Mao Tsé-Tung, com dezenas de milhões de mortos de fome.

Os dois países diferem em muitas coisas, mas a China consegue abandonar as ideias erradas. Enquanto o Brasil recicla-as.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado na Folha de SP.

Jogo de dados

José Horta Manzano

Joãozinho queria um dadinho de jogar. Os pais, solícitos, logo compraram um. Veio com copinho e tudo, uma graça. Depois do jantar, foram brincar de Banco Imobiliário. (Não sei se criança ainda se diverte com esse jogo – Joãozinho se encanta.)

A certa altura da brincadeira, o menino queria cair na casa da Avenida Paulista, que era o imóvel mais caro do jogo. Faltavam três casas, e ele tinha de tirar 3 no dado. Jogou. Saiu o 2.

– Mas eu queria o 3!

– Não tem importância, João. Joga outra vez.

Saiu o 5.

– Mais uma vez, menino! Agora sai, você vai ver.

Saiu o 4.

– Tá esquentando, João. Só mais uma e você vai ver que acerta.

Saiu o 3! A família aplaudiu, o garoto ficou feliz e o ambiente sossegou.

Esse sistema, a que os ingleses chamam “Trial and error”, foi idealizado no século 19 por um cavalheiro chamado C. Lloyd Morgan. Consiste em tentar repetidamente até que dê certo. Funciona em campos específicos, como em jogo de dados por exemplo. Já em política eleitoral, seu uso é mais complicado.

Consistiria, por exemplo, em Nicolás Maduro repetir a eleição em seu país, fazendo o povo votar indefinidamente, mais uma vez, mais outra vez, e outra mais, até que o resultado lhe conviesse. Falando assim, parece ridiculamente absurdo. Vosmicê acha? Pois é o que doutor Amorim, nosso chanceler “de facto”, está propondo. A proposta é começar com nova rodada de eleiçôes. Depois, dependendo do resultado, veremos.

Nosso empacado comitê de política externa está a confundir alhos com bugalhos. O voto popular não é fato aleatório como uma lançada de dados. Detrás de cada cédula, está a decisão pessoal do eleitor; detrás do conjunto de cédulas, está o decantado veredicto popular. A vontade nacional.

O dado, que não depende da vontade do jogador, tanto pode cair no 1, no 2 ou em qualquer outro número. Com o voto, não é assim que funciona. A eleição venezuelana de 28 de julho representou, por certo, o anseio do povo naquela data. Mas nada prediz que esse anseio possa ter mudado ou que venha a mudar num futuro próximo.

O problema havido com as eleições não foi erro de apuração – possibilidade, aliás, que ninguém aventou. Falou-se em fraude, não em erro. Portanto, eliminando-se a fraude, nova eleição tenderá a mostrar o mesmo resultado que a contagem extra-oficial revelou desta vez. Que se volte a votar daqui a uma semana, um mês ou mais tarde.

Lula deveria parar de acrescentar confusão à confusão já reinante naquele país. A curto ou médio prazo, seu compadre Maduro está condenado. Terá de deixar o trono por bem ou por mal. Melhor faria a diplomacia brasileira se desse um passo atrás e não se envolvesse tanto com o que se passa em Caracas.

A ideia de mandar lançar de novo os dados só protela o desfecho da novela e arrelia um ambiente que está precisando ser pacificado.

Falecimento dos famosos

José Horta Manzano

Quando um personagem famoso morre de repente, na flor da idade, sem que ninguém pudesse imaginar, a mídia traz imediatamente, na manchete, o acontecido. Já o obituário propriamente dito, com a cronologia dos feitos e malfeitos do falecido, só vem no dia seguinte. Precisa dar tempo aos jornalistas de passar do susto à pesquisa.

Já quando falece um famoso de idade avançada, é diferente. Foi como quando morreu a rainha Elizabeth: na hora seguinte ao anúncio, todos os jornais, portais e revistas traziam um longo obituário, completo, com fotos, relatando desde a infância da ilustre falecida. Vê-se que os textos já estavam preparados, cochilando numa gaveta.

Acaba de sair a notícia do falecimento de Antônio Delfim Netto, economista que se achegou ao regime militar e chegou a ser todo-poderoso ministro da Fazenda por sete anos. Sua carreira não parou aí. Na sequência, foi embaixador do Brasil em Paris, ministro da Agricultura, ministro do Planejamento e ainda deputado federal. Esteve na política durante a ditadura e, enterrada esta, continuou no Congresso por mais dez anos.

Como ocorre com famosos que falecem “entrados em anos”, Delfim teve direito a obituários imediatos. Todos os veículos entraram com um ou mais artigos longos dedicados ao relato da vida desse senhor. Nem todos os escritos mostram grande simpatia por ele, forçoso é dizer.

Por minha parte, pouco conheci Delfim Netto. Não morava no Brasil na época do “milagre econômico” nem do famigerado AI-5, coassinado por ele. O único ponto em comum que tivemos, anos mais tarde, foi frequentar o mesmo alfaiate. Os mais jovens talvez nunca tenham visto uma alfaiataria; aliás, nem sei se ainda existem esses ateliês. Nosso alfaiate era o Sr. Fusaro, que tinha lojinha na região do Cambuci, em São Paulo, onde Delfim tinha nascido e crescido. Tenho até hoje um terno feito lá em 1985. Ainda serve.

Dizem que não se deve falar mal de quem já morreu. Mas não acredito que todos os que morrem viram santos imediatamente. Então, lá vai.

Quando Delfim Netto era embaixador do Brasil em Paris, corria, à voz pequena, um boato insistente. O homem teria o apelido de “Monsieur 10%”. A razão era o valor da propina que ele cobrava de todos os grandes negócios que se fechavam entre fornecedores franceses e o Estado brasileiro.

Não sei se é verdade. Era uma época de muitos (e bem guardados) segredos…

Venezuela: não dá mais tempo

Manifestação anti-Maduro em Londres, 4 ago 2024
credit: Marcio Manzano

José Horta Manzano

Para os cidadãos venezuelanos, os maiores interessados nesse quiproquó, o horizonte está longe de desanuviar. O céu continua carrancudo e carregado. Do jeito que as coisas vão, não é desta vez que vão se resolver. Não é desta vez que o país volta aos trilhos da normalidade democrática. Não é desta vez que remédios vão voltar às farmácias, que comida vai voltar aos supermercados, que a inflação vai dar sinal de arrefecer.

Se algo tinha de acontecer, era nos dias que se seguiram imediatamente ao anúncio do resultado do pleito. Invasão de exército estrangeiro, golpe militar interno, gigantescas manifestações no-stop de entupir Caracas – fosse qual fosse o caminho da redenção, o remédio tinha de ter sido aplicado antes que a nomenklatura e os apparátchiks pudessem reagir. A ação tinha de ter sido rápida, pegando aos donos do regime de calças curtas, sem lhes dar tempo de levantar os suspensórios.

Assim não foi feito. Hesitação de alguns governos como o brasileiro e resoluto apoio de países autocráticos como a China, a Rússia e o Irã deram fôlego a Maduro (que, mesmo sem isso, não estava nem um pouco disposto a ceder).

Como é fácil de entender, se o governo venezuelano cedesse e entregasse o poder à oposição, que venceu as eleições, iam todos parar na cadeia: desde o casal Maduro até o porteiro do Palacio Miraflores; do general mais agalardoado até o cabo mais obscuro.

A cada dia que passa, mais pedregoso fica o caminho dos que gostariam de entregar o bastão ao verdadeiro vencedor da eleição. Depois de mandar prender centenas de cidadãos a esmo, Maduro já conseguiu o que queria: calou o populacho. Ninguém mais é louco de marchar pelas avenidas carregando cartazes. Señor González, o mais que provável ganhador do pleito, já não ousa se proclamar vencedor. A Venezuela volta a ser estrangulada por uma atmosfera de desconfiança mútua, medo de ser agredido e pavor de ser denunciado.

Tenho a impressão de que, por anos ainda, o Brasil terá de encarar um afluxo reforçado de migrantes venezuelanos. A diáspora venezuelana vai engrossar e se espalhar ainda mais. Famílias vão vender o pouco que possuem pra pagar coiotes e tentar penetrar nos EUA. A miséria vai continuar se alastrando no país.

O petismo esteve no comando de nosso país durante 14 longos anos. Naquela época, ainda teria dado pra estancar o processo de deterioração da democracia venezuelana. Por que nossos petistas, de espírito tão humanista, que sempre tiveram bom trânsito em Caracas, não agiram? Porque, ingênuos, não se deram conta da gravidade da evolução. Agora, que o panorama apodreceu, ficou difícil, quase impossível.

Venezuela, uma narcoditadura, nossa vizinha de parede.

Venezuela, um narcoestado

Roberto Saviano (1979-) é um escritor, jornalista e cineasta italiano. Nascido em Nápoles, cresceu ouvindo relatos dos horrores praticados pelas máfias. Interessou-se pelo assunto e, durante anos de muita pesquisa, inteirou-se de minúcias daquele submundo, segredos conhecidos por quase ninguém do lado de fora.

Em 2006, escreveu o livro “Gomorra”, uma vibrante denúncia dos métodos mafiosos. Como se pode imaginar, seus escritos provocaram a ira dos membros de Cosa Nostra, ‘Ndrangheta & afins. Desde então, jurado de morte, é obrigado a levar vida nômade, como se fosse um fugitivo, trocando de endereço com frequência, uma vida de sufoco. Conta com proteção policial fornecida pelo Estado italiano 24 horas por dia.

O artigo que reproduzo abaixo, assinado por ele e publicado no Corriere della Sera, relata a real natureza mafiosa do regime bolivariano conduzido por Nicolás Maduro em nossa vizinha Venezuela. Não são suposições, são a constatação de um perito no assunto.

Fica aqui para quem ainda sentir um restinho de simpatia pelo “pai dos pobres” de Caracas.

A tradução é deste escriba.

 

 

Os dois sobrinhos de Maduro, símbolo da terra dos narcos

Roberto Saviano

Foi em 10 de novembro de 2015 que Efraín Campo Flores e Francisco Flores, de 30 anos, foram presos pelo esquadrão antidrogas dos EUA no Haiti, onde tinham ido receber a primeira parcela de um pagamento de US$ 11 milhões para enviar 800 quilos de coca para Honduras, com destino ao mercado mais exigente do mundo: Nova York.

Os primos Flores são sobrinhos da esposa de Nicolás Maduro, Cilia Flores, filhos de suas duas irmãs. Efraín é chamado de filho adotivo do casal, vive com frequência na residência presidencial e é próximo à administração do poder político de Maduro. Os “narcosobrinos”, como agora são chamados, tinham acesso ao hangar presidencial localizado na Rampa 4 do Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, e usavam aviões particulares para transportar cocaína pela América do Sul.

Eles foram descobertos graças a um infiltrado. Esses 800 quilos de coca pura cortada a 25% (qualidade superior) se transformariam em 3.200 quilos que, vendidos em Manhattan, teriam rendido entre US$ 89mi e US$ 100mi de dólares. Os sobrinhos de Maduro, no entanto, haviam acertado o valor de 20 milhões de dólares e, antes de serem presos com a boca na botija, estavam recebendo apenas um sinal de US$ 11 milhões. Era o adiantamento que eles estavam pedindo antes de enviar a mercadoria.

Quem delatou? Um homem do cartel que, nos últimos anos, esteve mais intimamente ligado ao regime de Maduro: o cartel de Sinaloa, comandado pela diarquia de El Chapo Guzmán e El Mayo Zambada (que acaba de ser preso após anos de fuga). O narcotraficante José Santos Peña foi o homem que abarrotou Maduro com o dinheiro dos narcotraficantes. Uma vez preso, ele esperava, ao fornecer todas as informações sobre a política venezuelana, ver sua sentença reduzida. No tribunal, ele traz provas e o infiltrado do DEA traz principalmente áudios em que os dois contam como o governo venezuelano administra a coca dos cartéis, como eles precisam de dinheiro para apoiar campanhas eleitorais, comprar votos, pagar os militares. Efraín se referiu a Cilia Flores como “sua mãe”.

No final do julgamento, Efraín Campo Flores e Francisco Flores, os sobrinhos de Maduro, foram condenados a 18 anos de prisão. Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte, abaixo apenas do chefe do governo (Maduro), começou a falar em “sequestro dos meninos” pelos americanos, mas durante o julgamento veio à luz a informação de que ele próprio era o chefe do “Cartel de los Soles”, um grupo de oficiais de alta patente do exército venezuelano acusado de controlar o tráfico de cocaína.

Os dois sobrinhos passaram menos de cinco dos 18 anos na prisão, porque Maduro começou a prender, sob pretextos variados, cidadãos norte-americanos. Cinco só em 2017: eles estavam em uma conferência da empresa nacional de petróleo da Venezuela e foram presos por roubo. Depois, prenderam em um posto de controle um ex-fuzileiro naval e um homem que estava visitando sua namorada. Por fim, Biden decidiu perdoar os dois sobrinhos em troca da libertação dos cidadãos americanos. Os sobrinhos do narcotráfico estão em casa.

Não há melhor maneira de ocultar tráfico e corrupção do que o manto da revolução. Falar de justiça social desvia a atenção dos negócios criminosos, e a melhor maneira de construir uma rede de traficantes é chamar a atenção para a paz, a solidariedade e a luta contra o imperialismo. Isso traz vantagens estratégicas e também proteção da mídia, uma vez desvendada a tramoia, para poder proclamar ao mundo que tudo não passa de manipulação ianque.

É assim que o mundo funciona, estamos cientes disso. No entanto, é deveras curioso que em todos esses anos, especialmente simpatizantes de esquerda, tenham realmente acreditado que o sistema bolivariano venezuelano, corroído e corrompido até as tripas, fosse outra coisa além de um Estado-Máfia. Enquanto dizia ao mundo que se opunha às guerras, prestando solidariedade a Putin e aos povos explorados, Nicolás Maduro transformava a Venezuela no centro mundial do tráfico de cocaína, o lugar para armazenar e despachar cocaína para todos os cantos do planeta.

As investigações do DEA mostram que os portos venezuelanos estão completamente nas mãos dos cartéis e que o gerenciamento das remessas emana diretamente das autoridades políticas. Diante das evidências, a resposta é sempre a mesma: é tudo propaganda americana. No entanto, há vários arrependidos delatores – entre eles Leamsy Salazar, chefe da segurança de Chávez – que forneceram provas de como a Venezuela é um narcoestado. Salazar resolveu delatar depois de ser desmascarado pelo DEA. Quando alguém é desmascarado e não é parente de Maduro, acaba na cadeia para que o governo possa dizer que é apenas uma maçã podre, não um sistema…

A Venezuela é um narcoestado, a cocaína permite a entrada do dinheiro perdido com a crise de produção de petróleo. Os homens de Chávez eram todos ligados ao petróleo, os homens de Maduro estão mais próximos do narcotráfico. Em resposta a Barack Obama, o braço direito de Maduro, Diosdado Cabello, disse: “Sim, somos uma ameaça porque somos socialistas, somos uma ameaça porque somos revolucionários, somos uma ameaça porque somos chavistas, somos uma ameaça porque queremos que o povo viva em paz!

Tudo isso é balela retórica daqueles que destruíram um país, distorceram e desgastaram os ideais socialistas. Aqueles que de verdade acreditam nesses traficantes em nome da ideologia estão apenas criando uma cortina de fumaça para defender os negócios deles.

Inútil troca de insultos

José Horta Manzano

Desde que Javier Milei, atual presidente da Argentina, fazia campanha eleitoral, já lançava insultos a nosso presidente tratando-o de “corrupto” e “ladrão”. Clamava que “o lugar de Lula é na cadeia”. Não sei se esse comportamento extravagante lhe valeu alguns votos a mais – é possível, neste mundo há bobo pra tudo.

Por seu lado, nosso Luiz Inácio não deixou os desaforos sem resposta. Torceu ostensivamente contra Milei. Deixou de comparecer à sua cerimônia de tomada de posse, atitude fortemente deselegante. É insultante deixar o presidente hermano assim, com a mão estendida no vazio.

Milei comprou a briga e botou o sarrafo mais alto. Faltou à cúpula do Mercosul, deixando assim meia dúzia de colegas chefes de Estado falando sozinhos, entre eles. Em linguagem diplomática, sua ausência soou como se ele dissesse: “Eu sou superior a todos vocês e não estou disposto a me misturar com essa ralé”.

A partir daí, os encarregados do cerimonial dos lugares em que os dois perigam estar presentes ao mesmo tempo (G20, por exemplo) caminham pisando em ovos para garantir que os dois jamais tenham de sentar lado a lado.

Na minha visão, esse tipo de querela pode ser admitida entre adolescentes. Já entre chefes de Estado vizinhos, hermanos e sem nenhum contencioso, é briga totalmente absurda. Aquele famoso “quando um não quer, dois não brigam”, que Lula opinou quando a Rússia invadiu a Ucrânia, teria de ser aplicado justamente num caso como este.

Foi Milei quem começou, estou de acordo. Os insultos de Milei foram gratuitos, emitidos sem provocação, estou de acordo. Lula faltou à posse do colega por temer ser vaiado em Buenos Aires, estou de acordo. Só que agora, chega. A brincadeira acabou, os dois foram investidos no cargo de chefe de Estado. Ficam pra trás as brigas pessoais e entram em cena os ritos do cargo.

Luiz Inácio, que é o mais velho e mais experiente, devia mostrar o caminho ao fogoso vizinho. Não é assim que um chefe de Estado deve se comportar. Atitudes assim não constroem, só dividem e destroem. Que se convide o argentino para uma visita oficial ao Brasil. Que se prepare recepção com a pompa devida a visitantes de primeira grandeza.

Fico feliz de constatar que a diplomacia do Itamaraty, apesar de Lulamorim, não parece ter sido contaminada por essas infantilidades. Na sequência da decisão de Milei de não reconhecer a “vitória” de Maduro, o ditador venezuelano cortou relações diplomáticas entre Caracas e Buenos Aires e ordenou a partida imediata do pessoal diplomático argentino.

Acontece que, além dos funcionários, a embaixada argentina em Caracas abriga meia dúzia de refugiados políticos. Que fazer? A Argentina pediu e o Brasil atendeu imediatamente: nossos diplomatas em Caracas vão substituir os argentinos que tiveram de ir-se. Vão dar o expediente burocrático (emissão de passaportes, por exemplo) e vão cuidar dos refugiados (que, sem isso, perigavam morrer de fome).

Na diplomacia mundial, é relativamente frequente que um país cuide dos interesses de outro cuja embaixada teve de ser fechada. A Suíça é muito solicitada para esse tipo de serviço. Por exemplo, desde que os EUA e o Irã cortaram relações diplomáticas, em 1980, a Suíça representa os interesses americanos em Teerã (Irã).

Em nosso atual episódio sul-americano, o Brasil aceitou imediatamente a solicitação argentina e já está exercendo as funções de representante diplomático de Buenos Aires em Caracas.

Aconteceu tão rápido, que eu me pergunto se Lula foi posto a par. Seja como for, a agilidade e a prestimosidade do Itamaraty continuam em plena forma. E isso é excelente notícia.

O que sei é que Milei , em publicação nas redes, agradeceu efusivamente pela colaboração do Brasil. Lula perdeu a oportunidade de fazer as pazes ao convidar o rapaz para uma visita e uma conversa olho no olho. Ou talvez ainda não seja tarde.

“Ô, Lula, vê se dá um jeito nesse menino travesso!”

Troca de prisioneiros

Desde a Guerra Fria, a ponte Glienicke, em Berlim, foi apelidada de “Ponte dos Espiões”. Era o local onde se faziam trocas de prisioneiros. Cada preso liberado saía caminhando de um lado, encontravam-se no meio da ponte e, sem uma palavra, continuavam a pé ao encontro dos seus.

 

José Horta Manzano

A Agência Bloomberg acaba de informar que uma múltipla troca de prisioneiros está em curso neste momento. Estão envolvidos quatro países: Rússia, Estados Unidos, Alemanha e Bielo-Rússia. Não foi publicado o rol de todos os envolvidos, mas sabe-se que o jornalista americano Gershkovitch e seu compatriota Whelan, antigo militar, fazem parte dos que serão libertados para cumprir o trato.

O jornalista americano Evan Gershkovitch trabalhava na cidade de Ekaterinburg (Rússia) quando foi detido em março 2023. Acusado de crime de espionagem, está preso até hoje. Mês passado, foi condenado a 16 anos de encarceramento em regime severo. Tudo indica que seu julgamento foi apressado para permitir a conclusão final do acordo de troca.

Outro envolvido é o jornalista e político russo-britânico Vladímir Kara-Murza, que cumpre pena de 25 anos de prisão na Sibéria por ter manifestado publicamente sua oposição à guerra na Ucrânia.

Pode-se supor que os EUA e a Alemanha estejam libertando cidadãos condenados por espionagem em favor da Rússia, ora entregues em troca dos ocidentais que estão deixando os gulags russos.

Trocas de prisioneiros eram relativamente frequentes na Guerra Fria. Volta e meia, espiões de um lado eram liberados em troca de espiões do outro lado. O fim da União Soviética significou boa diminuição desse fluxo. Mas, embora sem o cerimonial do passado, ele continua, bastando ver a múltipla troca atual.

Esse escambo de condenados até que poderia ser uma solução para o desenlace do atual drama político venezuelano. Só que não vai dar, pois Maduro & asseclas provavelmente não aceitariam ser trocados e terminar em cárceres no “Império”. De toda maneira, não estão presos, portanto não faz sentido falar em troca de condenados.

Se a pressão interna e externa aumentar ao ponto de se tornar insuportável, não há lugar para acordos na Venezuela. Só resta aos atuais mandatários a solução do exílio. No mundo atual, poucas opções se oferecem ao narcoditador. Terá de escolher entre Cuba e Nicarágua, se quiser ficar perto da pátria, no mesmo torpor equatorial.

Se não se importar de atravessar o oceano, sempre pode ir para a Rússia. Mas parece que o clima de lá nem sempre permite sair à rua de chapéu de boiadeiro e camisa vermelha.

Além do que, no dia em que Putin for apeado do poder, como é que fica? Melhor o Caribe acolhedor.

Eleições venezuelanas

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

José Horta Manzano


Palavra do dia: fraude.

É termo panromânico, disseminado das praias lusitanas à beira do Mar Negro. Aparece também em inglês, holandês e até indonésio (via holandês).

Herdamos essa palavra do latim fraus/fraudis, substantivo da 3ª declinação. O significado de fraude é próximo ao de cilada e de emboscada. Um detalhe importante, porém, marca a diferença de sentido.

A cilada e a emboscada atentam contra a vida ou a integridade física da vítima, enquanto a fraude tem por única finalidade satisfazer aos interesses de quem a pratica.


Nicolás Maduro, de tantas que aprontou, não tem outra saída que não seja agarrar-se ao poder para permanecer a salvo até o fim de seus dias. Ficará “presidente” até que seja apeado pela força. Se for obrigado a abandonar o osso, a “menos pior” das soluções seria um acordo que concedesse ampla anistia a ele e a seus cúmplices.

Anos de má gestão empobreceram o país e exauriram suas reservas em ouro e seu capital de credibilidade internacional. O povão paga a conta dos desmandos da camarilha que se instalou no topo do Estado. Os milhões de refugiados que constituem a diáspora venezuelana, espalhada pelo mundo, bem que gostariam de voltar à pátria, mas a total ausência de oportunidades os desencoraja.

Em dez anos no poder, para segurar-se no posto máximo, Maduro cooptou todos os que, de perto ou de longe, teriam poder para ameaçá-lo. Generais e outros militares de alta patente, procuradores e juízes vêm todos comer na mão do caudilho. São todos “comprados” com dinheiro da petroleira estatal e com nepotismo, favores, benesses e sinecuras inconfessáveis.

Executivo, Legislativo e Judiciário estão mancomunados e devoram as riquezas nacionais como urubus circulando em roda da carniça. Esses milhares de apóstolos cooptados dão ao governo firme sustentação. Sabem que, caso Maduro caia, o destino de todos eles será provavelmente a cadeia. Ou pior ainda: uma extradição para os EUA.

Quem espera que o ditador seja desalojado com um movimento à maneira regular, com eleição, alternância e pressão de baixo pra cima pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Não vai acontecer. A camarilha vai sempre fazer uma mágica com os números e declarar que venceu.

Portanto, vejo mal, neste momento, por qual milagre Maduro seria desalojado. Não vai servir para nada Lula da Silva fazer beicinho e dizer que “está assustado”.

O chavismo se impôs pela força e só pela força será derrubado. Quando digo “força”, não digo necessariamente tanques na rua; mas será necessária uma força bem maior que o voto de um povo que, aliás, os chavistas desprezam copiosamente.

Não adianta balançar o coqueiro, que Maduro ainda não está maduro para a queda.

Fluctuat nec mergitur

by Fernando Botero (1932-2023), pintor colombiano

José Horta Manzano

Tanto anunciaram, que fiquei com vontade de assistir à transmissão do espetáculo de abertura dos JO de Paris. Fiz bem em ligar a tevê sexta-feira passada. A bela apresentação foi realmente diferente do que se costuma ver nesse tipo de manifestação esportiva.

Até as Olimpíadas de Tóquio (2021), a representação de abertura sempre se fez num estádio. Cantos e danças eram programados para a parte central enquanto as delegações desfilavam dando uma volta olímpica. O espetáculo de Paris desempoeirou essa tradição. Fazendo jus à divisa da cidade, que é a frase latina “Fluctuat nec mergitur” (Flutua, não afunda), o tema central foi o Rio Sena, curso d’água às margens do qual a cidade cresceu.

O desfile das delegações seguiu a ordem protocolar. A primeira a desfilar é sempre a Grécia, país de origem dos JOs da era moderna. Em seguida, vêm as nações, na ordem alfabética seguindo a língua do país sede, país este que é sempre o último a desfilar.

Tirando a chuva, que embaçou um pouco o ambiente festivo, o entretenimento estava bem dosado. Certas minúcias, dirigidas mais ao público interno do que à plateia internacional, escaparam aos observadores estrangeiros.

Um assunto que anima conversas e está entre os temas principais dos partidos da extrema direita identitária, como o Agrupamento Nacional de Madame Le Pen, é a chegada à França de migrantes originários de antigas colônias, como Argélia, Marrocos e países da África negra.

Os “filósofos” desses partidos nutrem a esperança de terem sido os últimos a entrar na barca. Gostariam que a entrada fosse barrada a todos os que quiserem entrar. Na peculiar fantasia desse pessoal, a França continuará para sempre pura, branca, católica, livre de LGBTs, de africanos, de estrangeiros em geral. E fora da União Europeia.

O fio condutor do espetáculo foi justamente a diversidade da França moderna, que já deixou há muito tempo de ser uma sociedade exclusivamente branca e cristã.

A cantora Aya Nakamura, francesa de pele escura e origem africana, ganhou destaque na festa – afinal, é a cantora de língua francesa mais ouvida no mundo todo, com zilhões de seguidores nessas plataformas preferidas pela juventude.

A responsabilidade de cantar A Marselhesa, hino nacional francês, foi confiada a uma mezzo-soprano negra.

A tarefa de ser porta-bandeira da delegação francesa foi atribuída a uma atleta negra.

Por um instante, num dos quadros do espetáculo, alguns passos de dança fizeram um aceno mais que evidente a um trisal que se compõe em cena e se tranca num aposento.

Um dos quadros do espetáculo evocou a Santa Ceia, superconhecida obra de Leonardo da Vinci. A apresentação, no entanto, não se fez num ambiente de piedade religiosa. Foi, antes, no gênero burlesco, em que personagens escapados de um quadro de Fernando Botero fizeram que a contrição fosse substituída pela comicidade.

Enxerguei nesse quadro um aceno a cidadãos muçulmanos, que são legião no país. Os maometanos mais ciosos, como se sabe, não permitem que esposa e filhas saiam à rua sem o véu islâmico; tampouco admitem alusões jocosas à sua religião. No meu entender, brincar com símbolos religiosos cristãos foi como dizer aos islâmicos rigoristas: “Estão vendo, com a nossa religião, podemos brincar! Está na hora de vocês fazerem como nós e adaptarem suas práticas religiosas ao mundo moderno!”. Foi assim que entendi.

Como vocês podem imaginar, essas piscadelas em favor da quebra de barreiras entre os franceses antigos e os de imigração recente provocou um forrobodó nos ambientes de extrema direita. Os políticos mais exaltados se precipitaram nas redes para denunciar o espetáculo “woke” e indigno de uma edição francesa das Olimpíadas.

Parece que até no Brasil, ainda que não tenham nas mãos as chaves para resolver o problema, nossos frágeis (mas barulhentos) extremistas também se manifestaram. De todo modo, esses grupelhos são constituídos de bagunceiros profissionais. Não costumam se dar ao respeito, o que é um convite para serem tratados com desrespeito.

Deixe estar. Podem ladrar à vontade, que a caravana continua a flutuar. Sem nunca afundar.

Os presentes que os anos trazem

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 25 julho 2024

Correligionários e amigos do peito podem acompanhar teu corpo moribundo até o pé da cova. Podem chamar o padre para a extrema-unção. Podem até despejar pétalas quando teu caixão for baixado. Mas não esperes que algum deles se atire na cova contigo: nenhum o fará. Chega um momento em que o interesse pessoal de cada um sobressai e prevalece.

Basta ver o que aconteceu com Joe Biden. Correligionários antigos, admiradores fervorosos e financiadores generosos, daqueles que por anos o apoiaram, foram, um a um, se afastando da campanha de reeleição. Até personalidades célebres anunciaram publicamente ter desistido de apoiá-lo. Ponto alto da humilhação, o New York Times, jornal mais importante do país, declarou a seus milhões de leitores que considerava ser chegada a hora de Biden renunciar à candidatura e ceder o posto a outro pretendente.

Tudo se precipitou na sequência de um debate televisivo entre Joe Biden e Donald Trump. O desempenho de Biden foi tão calamitoso que o eleitor americano se pôs a duvidar que ele estivesse em condições de governar o país por mais quatro anos. Suas falas foram confusas e nebulosas a ponto de constranger a plateia.

Teorias de complô floresceram. Uma das mais interessantes garantiu que o ataque proveio de uma arma de energia dirigida, de origem russa, manipulada por agente infiltrado instalado no auditório, arma que bloqueou e baqueou Biden. Se os deslizes do presidente tivessem se resumido ao desempenho naquele debate, podia até ser. O problema é que ele foi vítima das mesmas perturbações em numerosos outros pronunciamentos. A “arma de energia dirigida” pôde, assim, ser descartada.

O problema de Joe Biden parece ligado a uma afecção neurológica fomentada pelo avanço da idade. A rápida degradação de sua higidez mental foi observada atentamente mundo afora. Na França, parlamentares já estão propondo um limite de idade para cargos eletivos. Um exemplo dessa prudência já existe no Brasil, com a aposentadoria compulsória dos ministros do STF.

Em princípio, velhice não rima obrigatoriamente com caduquice. Mas há que convir que, quanto mais avançam os anos, mais propenso fica o indivíduo a sofrer certa diminuição do desempenho mental. Para um cidadão qualquer, é chato mas… que fazer? Já para o dirigente máximo de um país, o cenário é mais dramático. Aos 81 anos, Biden não resistiu à pressão e finalmente decidiu entregar as rédeas. Devia tê-lo feito antes. Uma desistência assim, de última hora, ficou com cara de derrota.

Por falar em idade, Luiz Inácio da Silva completa 79 aninhos daqui a três meses. Caso a saúde não lhe falte, ele é bem capaz de tentar a reeleição em 2026. Se o fizer (e se for bem sucedido), já terá completado 81 anos ao assumir o próximo mandato – exatamente a idade de Joe Biden hoje.

Lula é impulsivo e falante. Como se sabe, quem fala muito às vezes desliza. Temos visto as encrencas que as falas de nosso presidente lhe têm trazido. Arrumou briga feia com Israel, se desentendeu com o presidente argentino, deixou os países vizinhos assustados com o apoio explícito a Maduro, causou ressábio geral na Europa com seu respaldo a Putin e seu rechaço a Zelenski. Nenhum dirigente de país grande tropeçou tanto.

Pesquisa recente diz que 55% dos eleitores acham que Lula não merece nova chance em 2026. A dois anos da eleição, não se pode cravar, mas esse resultado deveria acender no Planalto um pisca-pisca amarelo vivo. É sinal sério e grave. Com o drama de Biden ainda fresco na memória, o eleitorado pode se assustar.

Logo será dada a partida da corrida presidencial de 2026. Por enquanto, os candidatos principais não se apresentaram. Vai chegando o momento em que Lula, em seu íntimo, deveria reconhecer que chegou a hora de designar seu herdeiro político. O mais importante é convencer-se de que esse é o melhor caminho. O anúncio público pode vir mais tarde. Se Lula insistir em se apresentar como candidato, a crescente rejeição que ele sofre vai poluir a campanha. Uma avenida estará então aberta para a volta dos bolsonaristas.

É sempre melhor saltar do bonde por vontade própria do que ser atirado fora do veículo.

Preocupação e confiança

José Horta Manzano

Expressões antigas vão desaparecendo, deixando de ser usadas pelos falantes e sendo substituídas por outras. É assim que a coisa funciona e evolui, não há como estancar a roda-viva. Imaginem se a gente ainda falasse como Pedro Álvares Cabral… (Pra dizer a verdade, não se sabe exatamente como ele falava, mas devia ser bem diferente de nós.)

Uma expressão bastante poética que frequentava o dia a dia dos antigos e que faz tempo que não ouço nem leio é estado d’alma. Em geral, costuma ser hoje substituída por clima. O recorte que ilustra este post traz bom exemplo de possível uso da antiga expressão.

Celso Amorim, nosso encantador ministro das sombras do ramo Política Externa, diz que as eleições venezuelanas nos suscitam “preocupação e confiança”. Pois eu digo que a preocupação e a confiança são dois estados d’alma antagônicos. De fato, se as eleições no país vizinho nos trazem preocupação, é porque não temos confiança. Ao contrário, se elas nos deixam confiantes, é porque já não temos preocupação.

Se ele mencionou esses dois estados d’alma – e ainda botou a preocupação em primeiro lugar –, é porque o sentimento que predomina no Planalto é de preocupação. Por certo.

Governos e organizações internacionais

José Horta Manzano

Enquanto o mundo gira, A Lusitana continua rodando(*). Vira e mexe, me lembro dessa frase e me dou o gosto de reviver as alegrias daqueles tempos. Pois é, o mundo sempre girou e a política, desde sempre, vem se acomodando aos volteios da humanidade.

Só que, de uns vinte ou trinta anos pra cá, esses giros parecem estar se acelerando. Com a premonição que é permitida aos poetas, um Chico Buarque ainda mocinho percebeu o fenômeno e cantou: “A gente estancou de repente / ou foi o mundo então que cresceu?”. Acho que foi o mundo que cresceu, demais e de repente. A coisa se acelerou a tal ponto, que postulados antigos já não vigoram e verdades do passado não se sustentam mais.

Vejam o caso de organizações internacionais. A ONU, criada ao final da guerra de 1939-1945, funcionou durante mais de meio século sem que ninguém contestasse sua legitimidade. Já associações, organizações e grupos internacionais criados em décadas mais recentes têm tido longevidade mais curta.

A União Europeia foi arquitetada numa época em que era forte, em cada país membro, a separação entre Estado e governo. Partidos podiam se alternar no governo, mas os objetivos nacionais perduravam, o que conferia estabilidade à UE. De repente, surgiram sinais de radicalização emitidos por partidos extremistas de direita. Mais e mais insistentes, acabaram interferindo no papel que cada país membro representa.

As regras de funcionamento do grupo, feitas nos anos pré-radicalização, não são suficientes para enfrentar as atuais cisões internas causadas por membros rebeldes. Quando uma Hungria, por exemplo, se recusa a aplicar sanções comerciais à Rússia, como fazem todos os demais países do grupo, há poucos instrumentos para trazê-la de volta ao caminho comum a todos. O problema é cabeludo.

Nosso caro Mercosul, que já nasceu meio desequilibrado devido à assimetria entre as economias que o compõem, continua em busca de mecanismos que possam ser de utilidade permanente para seus países membros. E que não dependam do humor dos governantes de turno.

É absolutamente ridículo que um presidente qualquer falte a uma cúpula, como fez o presidente da Argentina, por motivo de incompatibilidade ideológica com um dos colegas. Isso pode até ser admissível numa reunião de condomínio mas, numa cimeira do Mercosul, cada presidente representa seu povo. Não faz sentido deixar de comparecer porque Fulano ou Sicrano lhe é intragável. Passar por situações de desconforto faz parte dos ossos do ofício.

É verdade que as políticas de extrema direita, aplicadas no Brasil de Bolsonaro e agora na Argentina de Milei se fundamentam na detestação e na exclusão: quem não está comigo é meu inimigo, e todo inimigo é alvo a ser eliminado.

Do jeito que vão as coisas, tratados e organizações internacionais têm de ser reinventados. Repensados do porão até o telhado. É imperativo encontrar um freio à interferência de governos de turno no funcionamento da organização inteira. Se uma solução não for encontrada, será chegado o momento de refletir seriamente se vale a pena continuar juntos.

A União Europeia é importante demais para ser desmontada. Vão ter de encontrar um modus vivendi. Quanto a nosso caro Mercosul, talvez seja hora de desistir. E que cada um siga seu caminho.

(*) Meio século atrás, A Lusitana, empresa do ramo de transporte, fazia propaganda no rádio com o slogan “O mundo gira e A Lusitana roda”.

Pega ladrão!

Ruy Castro (*)

Durante três anos de Bolsonaro, chamei-o de corruptor. De corruptor, não de corrupto. Embora fosse evidente sua prática de comprar o Exército para costurar o regime de força que viria no segundo mandato, não se sabia que roubasse além da prática familiar da rachadinha, que lhe rendeu mais de 50 imóveis. Só quase no quarto ano percebi o óbvio: não existe corruptor sem corrupção. Bolsonaro não estava usando seu dinheiro para subornar os militares. Estava usando dinheiro do Estado, e isso é corrupção.

Alguns dirão que, diante das facilidades da Presidência, Bolsonaro viu a oportunidade de meter a mão, como no caso das joias. É a velha ideia de que a ocasião faz o ladrão. Mas Machado de Assis, em seu romance “Esaú e Jacó” (1904), já corrigiu esse equívoco: “A ocasião faz o furto. O ladrão já nasce feito”. A prova é que, manipulando os bilhões do Orçamento à sua vontade, Bolsonaro foi apanhado pungando objetos que poderia muito bem comprar, e até com dinheiro vivo, como de praxe nos Bolsonaros.

Bolsonaro reduziu o Palácio da Alvorada a uma caverna de Ali Babá, com suas arcas de relógios, brincos, colares, anéis, braceletes, pingentes, canetas e abotoaduras de ouro e diamantes, e fez de seus auxiliares, civis e militares, a horda dos 40 ladrões – pelo menos 11 até agora. Em seguida, transformou o Alvorada num camelódromo, para vender esses bens que não lhe pertenciam. Vendidos, tiveram de ser vergonhosamente recomprados quando a Justiça deu por falta deles. Raro um contrabandista tão desastrado.

O Houaiss dá várias definições para o ato de se apossar do que é alheio: afanar, agafanhar, assaltar, defraldar, desfalcar, despojar, empalmar, furtar, gatunar, larapiar, pilhar, piratear, rapinar, subtrair, usurpar – em suma, roubar. Há vários nomes para quem se dedica a essas práticas. Mas há um bem simples e que resume Bolsonaro: ladrão.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado n’O Globo.

Judiciário: a perda do efeito surpresa

José Horta Manzano

Acontece a toda hora. De repente, em pleno andamento de um processo sigiloso, o próprio juiz responsável permite um vazamento parcial, selecionado, medido e direcionado. Ignoro qual seja o objetivo dessa manobra, todavia me parece estranha.

Em primeiro lugar, é contrassenso tirar o sigilo de parte de um inquérito, deixando o resto no escurinho, protegido pelo manto do segredo. Ou o processo é sigiloso ou não é. Não é normal ficar meio a meio, como pizza calabresa e mozzarella.

Em segundo lugar, vem o fator que me parece o mais importante. A divulgação antecipada de elementos do processo pode acabar influindo no resultado. Pode alertar a torcida, que fará pressão baseada nos detalhes tornados públicos. Dependendo do auê provocado pela divulgação, pode influenciar os advogados dos réus, facilitar a defesa e tornar mais complicado o trabalho da Procuradoria.

Sabe-se que doutor Alexandre de Moraes não costuma dar colher de chá a acusados. Isso dito, imagino que sua intenção, ao promover esses “vazamentos” parciais, é reforçar os procuradores.

Ele, que entende do riscado melhor que este escriba, deve ter outra visão do problema. Por meu lado, vejo aí um jogo arriscado, que aniquila o efeito de surpresa e que pode até frustrar as intenções de quem deu a partida.

Serviço Secreto de Trump

José Horta Manzano

Me pareceu curioso o artigo da Folha que trata de um “Serviço Secreto de Trump”. Escrito dessa maneira, com maiúsculas, transmite a ideia de que há realmente uma corporação cujo nome oficial é “Serviço Secreto”, que pertence a Donald Trump. Esquisito.

Dizem que o serviço é “secreto”, no entanto, os agentes são inconfundivelmente caracterizados. Assim que Trump foi baleado, em poucos segundos surgiu meia dúzia de agentes de 1m90 de altura, todos devidamente paramentados com terno preto, óculos escuros, fone de ouvido com fio entrando pelo colarinho e cara de poucos amigos. É isso ser agente secreto? No meio daquela multidão colorida, todos vestidos “à la vonté” e carregando um papel com slogan, esse Serviço Secreto é desmascarado fácil fácil.

Quatro presidentes dos Estados Unidos foram assassinados durante o mandato: Lincoln (1865), Garfield (1881), McKinley (1901) e Kennedy (1963). Diversos outros presidentes sofreram atentado. Entre os mais recentes, foram vítimas de tentativa de assassinato os seguintes: Richard Nixon, Gerald Ford (2 vezes), Jimmy Carter, George Bush pai, Bill Clinton (5 vezes), George Bush filho (2 vezes), Barack Obama (8 vezes), Donald Trump (3 vezes) e Joe Biden.

O distinto leitor e a adorável leitora já se deram conta de que a função de presidente dos EUA traz fama e prestígio, mas, por seu lado, é emprego de alto risco. Os eleitos deveriam exigir adicional de periculosidade, como os bombeiros e os limpadores de vidraças de edifícios altos.

Não encontrei estatísticas elencando os atentados cometidos contra candidatos à presidência daquele país. Deve ter havido numerosos. Com razão, o mundo está hoje chocado com o que aconteceu com Trump. O fato de o atentado ter sido filmado – com cores, som e imagem – amplifica o acontecido e apressa a divulgação.

Mais que o Brasil, os Estados Unidos são herdeiros de uma história pautada pela violência armada. Nossa história também viu passarem desbravadores marchando a pé armados de bacamartes, mas a deles está coalhada de bandos a cavalo armados de rifles automáticos, como nos filmes de faroeste. É a violência potencializada, que acabou desembocando numa peculiar sociedade em que os cidadãos de bem levam uma arma à cinta. Nunca se sabe.

Todos os líderes mundiais se precipitaram para esconjurar o atentado sofrido por Trump. De Macron a Lula, de Milei a Xi Jinping, todos se mostraram indignados com o fato de ver conflitos de opinião resolvidos à bala. Esses pronunciamentos me pareceram, em grande parte, um concentrado de hipocrisia. Meio mundo gostaria que a bala que atingiu a orelha de Trump tivesse passado alguns centímetros mais à direita.

Esta não é, naturalmente, a opinião deste escriba. Estou só tentando adivinhar o sentimento de muita gente fina.