Mês: julho 2016
Dissidência
Myrthes Suplicy Vieira (*)
Meu reino de escriba por uma dissidência não gratuita!
Não peço explicitamente por um cavalo, mas tomo o cuidado de informar de antemão que a dissidência, um jeito diferente de pensar, argumentado com clareza e destemor, funciona para mim exatamente como um cavalo. Monto nela e volto à arena com o coração pulsando ainda mais forte, cheio de novos brios. Cavalgo a discordância em pleno gozo, sentindo meus músculos mentais se retesando e os ventos da paixão intelectual batendo na minha pele, me estimulando a seguir na luta.
Nenhum governo se sustenta sem oposição. O regime do meu cérebro não é diferente. Precisa desesperadamente de um antagonista que o faça explorar contradições, limites, dúvidas e certezas. Que o force a pulsar, alternando momentos de expansão e de retraimento. Que encoste no seu peito a lâmina fria da espada de um outro intelecto.
Admito que hoje em dia não é nada fácil ser oposição. O contraditório é agora quase que um insulto, um tapa na cara de quem ousa se posicionar. Vivemos tempos de intolerância, de esgrima mental e verbal. Esquecemos que as palavras são meros instrumentos, cheios de som e fúria, mas que não significam nada em si mesmas. Temidas hoje como faca na mão de crianças, não mais na de cirurgiões.
É pena. Precisamos nos exercitar sempre. Pensar é desobedecer a Deus, disse Fernando Pessoa através da pluma de Álvaro de Campos. Acredito nisso. Pensar, para mim, é denunciar a onipotência do outro, ser iconoclasta, recusar-se a idolatrar o carneiro de ouro da superioridade moral ou intelectual. Contraditar é uma forma benfazeja de emparelhar ângulos de visão, redesenhar fronteiras, encontrar uma perspectiva própria.
Quando navego pelas redes sociais, não consigo ocultar de mim mesma o desconforto com aquele oceano de platitudes e de eterna reafirmação mútua. Pode soar presunçoso, mas não preciso de afagos a meu Narciso. Claro que sempre dá aquele calorzinho gostoso no peito descobrir que se tem almas gêmeas no mundo, mas sei que o demônio da vaidade costuma atacar por meio delas.
Preciso de alguém que dialogue comigo e que, aceitando o intercâmbio corajoso de opiniões, me devolva a sensação inebriante de estar viva, lúcida. A adesão irrefletida, sem contestação, a meus pontos de vista só faz dissolver aos poucos a atração que experimentei no início. Me emburrece, me empobrece emocionalmente. Tem um efeito tão deletério em meu psiquismo quanto a discordância pela mera discordância.
O confronto leal, por outro lado, tem o condão de me devolver a meu tamanho natural. Sinto-o como uma demonstração de respeito, uma forma de reconhecer a legitimidade de meus sentimentos e de minha maneira de pensar a vida. Reafirmo como um mantra para tentar salvar a mim mesma: a verdade liberta, a integridade seduz.
Saibam todos os que me lerem que, para mim, os laços afetivos pressupõem a existência de duas pessoas inteiras e separadas. Se uma aceita se dissolver como ser pensante na outra em nome da preservação da relação, o jogo amoroso desaparece, vira tédio. E, lamentavelmente, nem todo mundo se dá conta hoje em dia que o melhor antídoto para realimentar o fogo do amor é a dissensão ocasional.
Duvida? Cantarole comigo:
“O amor da gente é como um grão,
Uma semente de ilusão,
Tem que morrer para germinar…”
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
Vaquinha virtual
José Horta Manzano
Proponho a organização de uma «vaquinha virtual» ‒ a expressão está na crista da onda! ‒ para financiar meia dúzia de dicionários. Destinam-se aos fazedores de manchetes e chamadas na grande mídia.
Investir em Instrução Pública dá mais futuro que chamar de volta presidentes de passado tenebroso.
Não é «nonogenário». Aquele (ou aquilo) que já passou dos noventa anos é nonagenário. Qualquer dicionário confirma.
Apagando a História
José Horta Manzano
Nos anos 1960-1970, enquanto a Europa optava pelo aperfeiçoamento da malha ferroviária ‒ que desembocaria na construção das atuais linhas de trem-bala ‒, uma ideia um tanto tosca da modernidade fez que, no Brasil, fosse dada prioridade ao transporte por rodovia. Poderosos lobbies petroleiros deram empurrão certeiro ao projeto tupiniquim.
Vendeu-se a ideia de que o trem era um meio de locomoção ultrapassado. Empolgada com a recente instalação de filiais de montadoras estrangeiras, a opinião pública imaginou que o progresso havia chegado. E aplaudiu a ideia. Em poucos anos, linhas de estrada de ferro foram desativadas. Até os bondes foram mandados para o esquecimento.
Em vez de privilegiar o transporte coletivo por ferrovia, racional e econômico, prioridade foi dada à locomoção individual. O automóvel, apesar de ser ineficiente, barulhento e poluidor, passou a representar o objeto do desejo. Cada um queria ter o seu.
Estradas tiveram de ser construídas. Nas cidades, o número de carros cresceu exponencialmente. Rios foram enterrados para dar lugar a avenidas. O tráfego foi-se tornando infernal. Para «desafogá-lo», vias elevadas tiveram de ser erguidas. Entre elas, o ultraconhecido Minhocão paulistano. Seguindo onomástica tradicional, foi-lhe atribuído o nome de um figurão da época. Por artes do destino, o nome oficial nunca foi usado pelo povo. Nasceu Minhocão e assim continua.
Em decisão tomada esta semana, a Câmara Municipal de São Paulo ‒ cujos 55 vereadores, decididamente, não devem ter muito que fazer ‒ decidiu alterar o nome da via elevada. A denominação oficial de Elevado Presidente Costa e Silva vai às favas. Em seu lugar, entra outro presidente. Em documentos oficiais, o Minhocão torna-se Elevado Presidente João Goulart.
É sempre melhor que Elevado Presidente Dilma Rousseff, convenhamos. Ainda assim, a decisão soa como tentativa bisonha de refazer a História. O que aconteceu, aconteceu. Não tem como mudar. Muito menos cabe a uma Câmara Municipal, seja ela a da maior cidade do país, tomar a si a tarefa de apagar o passado à sua conveniência.
Senhor Costa e Silva pertence a uma casta de medalhões que mudaram, à força, o regime vigente no Brasil. Está longe de ser o único, que a casta é avolumada. Não tenho simpatia particular por esse senhor. Aliás, devo dizer que, tendo vivido no exterior durante seu inteiro mandato, pouca notícia tenho do personagem.
Certo é que, sozinho, ninguém faz revolução nem dá golpe. É preciso contar com bom número de auxiliares, acólitos, cúmplices e simpatizantes. Se o ato da Câmara paulistana reflete intuito generalizado de apagar o nome dos que participaram de todas as mudanças forçadas de regime, há muito trabalho pela frente. Milhares de logradouros terão de ser renomeados. E não só em São Paulo.
Comecemos por D. Pedro I, aquele que deu um golpe no próprio pai. Sigamos com Deodoro da Fonseca, aquele que, traiçoeiramente, apeou do trono o imperador legítimo. Continuemos com Getúlio Vargas, o sorridente baixinho que derrubou presidente eleito e conduziu o país com mão de ferro. Aliás, Filinto Müller, chefe da política política de Vargas e torturador notório, continua a dar nome a um logradouro da mesma São Paulo.
É inútil tentar ocultar a memória de um passado doloroso. Tê-lo em mente é a melhor maneira de evitar que se repita. Tentativas isoladas de pasteurizar a História aparecem como obra de um bando de eleitos ignorantes, que não entenderam bem por que razão foram eleitos nem o que estão fazendo ali.
Cavendish perde, Cavendish ganha
Na fila dos passaportes
José Horta Manzano
Até em Cuba os ventos estão mudando de quadrante. A cerca de arame farpado virtual que constringia os cidadãos e os impedia de deixar a ilha está-se afrouxando. Nos tempos em que as farpas da cerca eram ainda mais afiadas, aquela blogueira que afrontava o regime teve de ter muita paciência e insistir durante anos pra conseguir um visto de saída.
O Brasil nunca foi de segurar cidadãos. Desde que os primeiros aventureiros e piratas aqui aportaram, entrou e saiu quem quis. Desde que o cidadão tivesse meios de financiar a viagem, tinha liberdade pra ir e pra vir. Mas as coisas mudam ‒ e nem sempre na boa direção.
Saiu estes dias uma informação que nos aproxima da Cuba dos anos mais espinhudos. Passaporte solicitado à PF na cidade de São Paulo leva quatro meses para ser emitido. Trocado em miúdos, se o distinto cidadão se candidatar agora, tem chances de receber o documento em novembro. Enquanto isso, pode esperar sentado.
A razão da demora? Falta papel. Falta papel… Falta competência, cáspite! Não consta que tenha havido aumento brusco na demanda de passaportes. Portanto, o problema não vem de lá. O que se deduz é tremenda falta de planejamento. Alega-se que, na Casa da Moeda, uma máquina deixou de funcionar. Toda máquina é susceptível de enguiçar hoje ou amanhã. Prevendo isso, toda organização séria tem, guardado na gaveta, um plano B. Na Casa da Moeda, ainda acreditam em Papai Noël.
Foi a PF quem teve de improvisar seu plano B. Mediante cobrança de uma «taxa de emergência», expede o documento em prazo mais curto. Atenção: não se trata de passaporte de emergência, aquele que sai em 24 horas. É modalidade intermediária, uma novidade. Mostra que toda lei é feita pra ser burlada.
Não sei o que ressente o distinto leitor. Quanto a mim, tenho às vezes a sensação de estarmos andando pra trás.
Nota difícil de acreditar
Atualmente, há 191 mil pessoas na fila, todas esperando pelo precioso documento. Um número pra cubano nenhum botar defeito.
Nota birrenta
O assunto saiu da atualidade. Assim mesmo, fico me perguntando se a família Lula da Silva devolveu os passaportes diplomáticos que nosso guia concedeu ‒ indevidamente ‒ a todos os membros da famiglia, no seu último dia de mandato. Abuso de autoridade não é crime? Taí mais um pra adicionar ao prontuário do chefe-mor.
Lewandowski perdeu!
José Horta Manzano
Depois de meia hora empolgante, a partida de futebol entre Polônia e Portugal, jogada ontem em Marselha pelas quartas de final da Eurocopa 2016, empacou.
Foi até um certo ponto. Depois, parou. Não atava nem desatava. Nem parecia um mata-mata. Parecia que se tratava de um amistoso. E assim foi até o fim.
Em virtude do empate (1 x 1), foram à prorrogação. Sem vencedor, os dois times tiveram de encarar o cara ou coroa chamado disputa por pênaltis.
Apesar de contar com o apoio da maioria da torcida presente no estádio, um dos jogadores da seleção polonesa ‒ cujo capitão é Robert Lewandowski ‒ perdeu o pênalti.
A ‘equipa’ lusa acertou todos. Ganhou a aposta e está nas semifinais. Lewandowski perdeu.
Perdão da pena
José Horta Manzano
Faz já uns dias que o Procurador-Geral da República pediu a soltura de senhor José Dirceu, conhecido «guerreiro do povo brasileiro», atualmente na cadeia. O procurador-geral há de estar entre os que acham que idade avançada dilui a culpa do criminoso.
Não sou da mesma opinião. Não acho que velhice seja doença nem defeito. É uma fase da vida como qualquer outra, com suas regalias e suas deficiências, suas vantagens e seus problemas. E olhe lá, que falo de cátedra. Criminoso é criminoso, pouco importa a idade.
Concordo que se dê tratamento especial a doentes, inválidos e a todos os que têm capacidade diminuída por obra do acaso, por fatores independentes de sua vontade. Condoer-se da sorte de criminosos unicamente porque chegaram aos setenta é rematado exagero.
Fico pensando em Bernard Madoff, aquele estelionatário americano. Muitos hão de lembrar do personagem que fez muitas dezenas de vítimas. Aquele criminoso foi para trás das grades quando tinha 70 anos, exatamente a mesma idade que José Dirceu tem hoje. Condenado a 150 anos de prisão em regime fechado, o espertalhão só tem uma esperança de sair um dia: viver até os 220. Vai ser difícil.
Analisando bem, os «malfeitos» de Madoff, no fundo, prejudicaram um pequeno círculo de instituições financeiras e de pessoas físicas. Grandes ou pequenos, eram investidores. Todo investimento comporta riscos. Assim funciona o capitalismo.
Já os «malfeitos» de Dirceu são de outra natureza, bem mais abrangentes e infinitamente mais cruéis. Foram perniciosos ao atingir justamente os mais frágeis. Quanta gente terá morrido por falta de assistência em hospitais onde não havia dinheiro nem pra comprar esparadrapo?
Toda a mídia anunciou que o procurador-geral era favorável ao «perdão da pena» do antigo chefão caído em desgraça. Perdão da pena? Achei esquisito. Vamos por partes.
Depois de julgado e condenado, todo criminoso cumpre a pena que lhe tiver sido imposta. Se perdão houver, será concedido ao condenado, não à pena. Em outros termos, perdoado será o condenado, aquele que cometeu o crime.
O termo perdão costuma carregar ideia de julgamento moral, religioso, divino. Para bem separar alhos de bugalhos, melhor será recorrer ao verbo indultar ou ao verbo comutar. Indulta-se o indivíduo, comuta-se a pena.
Corrigindo, fica assim: o procurador-geral é favorável à comutação da pena imposta ao figurão caído. Ou ainda: o procurador-geral é favorável à concessão de indulto ao condenado. Agora, está perfeito.










