Inadequação vocabular ‒ 9

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 30 out° 2018

Por mais sórdidos que tenham sido, os crimes cometidos pelo indivíduo não têm o poder de cassar-lhe o diploma. Enfermeiro era, enfermeiro é e enfermeiro será. Não há meio de anular a formação profissional recebida pelo criminoso.

Sua licença de exercer será, naturalmente, anulada ‒ se é que já não foi. É bem provável que, ainda que um dia saia da cadeia, nunca mais receba autorização para atuar como enfermeiro. Ainda assim, enfermeiro sempre será. Enfermeiro não é função nem cargo: é profissão. Portanto, o ex- da chamada sobra.

Não dá samba

José Horta Manzano

«Mulher que não dá samba, eu não quero mais». Assim vai o refrão do samba sacudido que Paulo Vanzolini criou e Carmen Costa gravou em 1974 em duo com Paulo Marquez. Nessa música, o compositor pinta os traços de uma mulher-objeto. Fosse hoje, ele seria renegado como machista malvado, plantado a milhas do politicamente correto. Na época, no entanto, a Polícia dos Costumes ainda não havia criado essas amarras. Artista podia permitir-se maior liberdade de movimento.

Hoje não se deve mais falar em mulher que dá samba, que não pega bem. Mas ainda não é proibido ver gente famosa dar substantivo e adjetivo. Não é façanha pra qualquer um. Duas condições precisam estar reunidas. Em primeiro lugar, o personagem deve ser importante e amplamente conhecido. Em segundo, seu nome tem de permitir a criação de derivados.

Vários campos da atividade humana são propícios à criação de adjetivos e substantivos derivados de nome próprio. No campo religioso, São Bento (Benedito) deu a paciência beneditina. São Francisco desembocou na humildade franciscana. Nas artes e nas ciências, há muitos exemplos: freudiano, balzaquiana, dantesco, machadiano.

A política é campo fértil para esse tipo de derivação. No passado, tivemos adhemarismo/adhemarista, janismo/janista, juscelinismo/juscelinista, getulismo/getulista e numerosos outros. É que, por capricho da história, o nome desses figurões aceitava um sufixo. Já outros nomes não aceitam derivação. FHC, nesse campo foi estéril. Como falar em FHCismo? Impossível. No mesmo caso estão Collor, Sarney, Renan, Geisel, França e tantos outros. Não se prestam a formar substantivo nem adjetivo. Collorismo? Não dá. Sarneyista? Que feio!

A cereja em cima da glória de todo homem político é a nomeação de corrente política com base em seu nome. Nesse ponto, Lula teve sorte. (Não só nesse, aliás.) Lulismo e lulista são termos amplamente aceitos e utilizados. Convenhamos: emprestar o próprio nome a uma tendência política é pra inflar o ego de qualquer um.

Quando se apresentaram treze pretendentes à Presidência da República, examinei o nome de cada um. Acabei me dando conta de que quase nenhum permitia a criação de derivados. Haddadismo? Alckminismo? Diasismo? Boulosismo? Nem em pesadelo! Era uma coleção de nomes estéreis. Só se salvava um: Bolsonaro. E o homem acabou ganhando! Que agrade ou não, bolsonarista já está na praça, aceito por número crescente de veículos. Aliás, o número de bolsonaristas da undécima hora cresce a cada dia.

Muito poucos já ousaram bolsonarismo. O substantivo virá com o tempo. Só nos resta esperar que ele nunca assuma a conotação pejorativa que hoje carregam lulismo e, sobretudo, dilmismo.

Ça y est, c’est fait!

José Horta Manzano

Ça y est, c’est fait!, dizem os franceses, lançando mão de expressão com mil e uma utilidades. Neste caso, pode ser traduzida por Acabou, chegamos ao fim.

A expressão é vazia de emoções, não tem carga negativa nem positiva. Quem a usa não denota euforia, nem desânimo, nem espanto, nem tristeza. Cai bem pra pôr fim a uma campanha eleitoral atípica, suja, de baixo nível, violenta, desgastante tanto para candidatos quanto para eleitores. Se um sentimento sobressai neste momento, é a sensação de alívio. C’est fait!

Como toda campanha, esta também deixa marcas. Alguns nomes, sufragados pelos eleitores, sobem de elevador ao pedestal da glória. Aos abandonados pelos votantes, não resta senão recolher-se à própria inexpressividade.

Confirmando tendência já detectada pelas sondagens, doutor Bolsonaro foi, sem surpresa, escolhido para o Planalto. Apesar de todas as análises e especulações, ninguém tem a menor ideia dos rumos que tomará o Brasil nestes próximos quatro anos. Acredito que nem o próprio doutor tenha ideia de como será seu governo.

Portanto, o que vier será surpresa para todos. Esperamos que, na condução dos assuntos nacionais, os anos que temos à frente sejam mais simpáticos do que os que deixamos atrás. No fundo, não é pedir muito: é difícil fazer pior.

Uma coisa é certa. Escapamos do vexame de ter na Presidência a marionete de um condenado purgando pena por corrupção, uma situação bizarra e constrangedora. Já é um bom começo.

Lembrete horário

José Horta Manzano

Este lembrete é pra você que tem conhecidos na Europa. Neste último domingo de outubro, mudamos de hora ‒ provavelmente pela última vez. Voltamos à hora de inverno. Na madrugada passada, quando o relógio marcou 3 horas, voltou a ser 2 horas.

As autoridades encarregadas do assunto estão atualmente considerando acabar com esse vaivém horário que perturba todo o mundo duas vezes por ano. Se as discussões forem bem sucedidas, esta terá sido a última mudança de hora. Vai valer para todos os países da União Europeia e para os vizinhos que aderem à norma.

Seja como for, convém ajustar sua agenda de contactos. Se você vive no Brasil, a distância que o separa de seu amigo na Europa fica diminuída de uma hora a partir de hoje. Se eram quatro horas, agora são três. Se eram cinco horas, agora são só quatro. E assim por diante.

Pasárgada, aqui vou eu

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não tem mais jeito, aconteça o que acontecer, vou-me embora para Pasárgada. De manhã, bem cedinho, antes mesmo do horário de abertura das seções eleitorais, ponho o pé na estrada, levando comigo mala e cuia. Ainda não sei onde fica Pasárgada, nem como chegar lá, mas estou apostando que o caminho se fará no meu caminhar.

Não me entendam mal. Não estou indo para Pasárgada porque lá sou amiga do rei. Não sou. Aliás, nem mesmo sei se Pasárgada é de fato uma monarquia. Ainda que seja, ignoro se o soberano ‒ ou soberana ‒ que a governa é pessoa amistosa, intelectualmente articulada, sensível e acolhedora de forasteiros. Além disso, desagrada-me a proximidade afetiva com integrantes de um círculo fechado de poder. Prefiro a liberdade de circular em meio às gentes e conhecer-lhes as opiniões, vontades, receios, esperanças e desesperanças.

Também não espero receber favores sexuais em lá habitando. Claro que os prazeres sensuais e a catarse que o sexo propicia me seduzem, mas não é isso o que estou buscando em primeiro lugar. É minha alma que está ferida, cansada e precisada de aconchego. Não reivindico nem mesmo o direito de escolher a cama na qual me deitarei. Basta-me que ela suporte meu peso e sirva de abrigo confortável para os sonhos e pesadelos que certamente terei.

O que me encanta em Pasárgada é que Pasárgada não é aqui, não é meu país. Mais uma vez, peço-lhes que não me interpretem mal. Não estou renegando minha pátria, sou grata a tudo o que ela me proporcionou até aqui. É que não gosto de fronteiras e prefiro não me expor à fogueira das vaidades que vem provocando lesões profundas em tantos de meus compatriotas. Sou um pouco indisciplinada para perseguir com afinco a tal da promessa de ordem e progresso. Confesso que meu coração um tanto anárquico se apraz mais com a algazarra das multidões se debatendo em meio a um caos criativo.

Na condição de estrangeira residente em Pasárgada, vou finalmente poder me desobrigar de emitir opiniões, sem culpa. Estou cansada de explicar, justificar, tentar entender, conciliar. Lá serei finalmente livre para escolher um novo estilo de vida, um novo discurso e uma nova mentalidade. Como ninguém me conhece por aquelas bandas, ainda levo a vantagem de minhas esquisitices parecerem menos destoantes do perfil do grosso da população.

Estou querendo trocar ideologias por sentimentologias, se é que me entendem. Torço para que, em Pasárgada, a tecnologia ainda não tenha pervertido o psiquismo das pessoas e substituído as relações olho no olho, o toque, as festas, as danças e o riso. Ah, como me têm feito falta a leveza de espírito, a delicadeza e a generosidade…

Se, por qualquer razão, eu não conseguir chegar a Pasárgada, posso recorrer a destinos alternativos que tenho pesquisado em segredo. Primeiro, reúno toda a minha coragem e vou para Maracangalha. Não levarei comigo um uniforme branco nem um chapéu de palha porque suspeito que lá as credenciais de malandragem não sejam exigidas com muito rigor. Também não pretendo convidar a Anália, nem ninguém mais, para me acompanhar.

Quero que minha viagem para Maracangalha se configure não como uma excursão de entretenimento, mas represente uma verdadeira peregrinação. Vou em busca de um reencontro com a alegria de ser quem sou e, para tanto, preciso caminhar só. No limite, aceito a companhia de minhas cachorras. Tenho certeza de que a travessia vai ficar mais fácil, com elas me ensinando a viver um dia de cada vez.

Se, de novo, meu plano de ir para Maracangalha não der certo, minha última cartada será mudar radicalmente de estrada e seguir altiva em direção a Macondo. Não há como errar o caminho. Latino-americana que sou, estou profundamente familiarizada com as rotas que levam ao surrealismo do cotidiano e ao realismo fantástico do clima político local.

Pode lhes parecer que essa minha opção de residir em Macondo seja uma mudança cosmética, um giro de 360° graus que só vai me levar de volta ao ambiente do qual quero escapar. Não se deixem enganar. Tenho como lema de vida as sábias palavras de T.S. Elliot de que “o final de toda jornada é voltar ao ponto de partida, vendo o lugar pela primeira vez”.

Nasci e cresci sob o signo da perseverança. Estou ciente de que, daqui por diante, a difícil missão que me espera é a de ser capaz de reconhecer a queda, não desanimar, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Brasileiro não desiste nunca, que se há de fazer?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O eles despertou

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 outubro 2018.

Até o fim do século 20, o Brasil era governado por figurões que costumavam ter ideias. Com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao topo do poder, ideologias substituíram as ideias. Não são a mesma coisa. Ideias são conceitos avulsos, visões pessoais, objetivos soltos, que podem (ou não) ser partilhados in totum pelo círculo íntimo do dirigente máximo. Ideologia é o agrupamento disso tudo num sistema. São propósitos estruturados impostos aos membros do círculo dirigente. Eles não terão outra escolha: ou abraçam a totalidade do ideário ou vão cantar em outra freguesia.

Ao colher as rédeas do mando, Lula da Silva e correligionários seguiram, em obediência franciscana, a cartilha que lhes haviam arquitetado os ideólogos companheiros. Mas ai! A fina camada de generosidade do programa ocultava um coração mesquinho. Implacável, o cerne do ideário não tolerava divergências e excluía os que se atrevessem a desviar da linha. Esquecidos de que haviam recebido missão de zelar todos os brasileiros, os dirigentes brotados da nomenklatura tropical instituíram a detestação como padrão de conduta. Os que não houvessem votado neles passaram a sofrer lapidação em praça pública. Estava instalada a política do nós x eles.

Toda sociedade, em maior ou menor grau, é percorrida por linhas de fratura. Essas cicatrizes têm origens diversas. Podem demarcar etnias, podem mostrar o ponto de junção de culturas, podem separar religiões. No Brasil tivemos, desde sempre, diferenças entre povos do Norte e do Sul, endinheirados e remediados, gente de pele mais clara e gente de pele mais escura, doutores formados e ignorantes chapados, quatrocentões e imigrantes recentes. Essas diferenças ‒ com as quais costumávamos conviver, senão em harmonia, pelo menos em avença ‒ foram exacerbadas pela aplicação do ideário do Partido dos Trabalhadores. São cicatrizes que, antes apenas perceptíveis, foram excitadas e postas a nu. A molecagem deu no que tinha de dar: agravou o embate entre os que se reconheciam de cada lado de cada trincheira. O Brasil se encrespou de múltiplos antagonismos.

Secretado pela cúpula dirigente e espargido pela militância, o veneno do nós x eles se embrenhou no dia a dia dos brasileiros e contaminou a relação entre as gentes. Nunca antes neste país se havia assistido a tão explícita incitação à discórdia. Durante os anos em que o lulopetismo ditou o tom e o ritmo, colega desconheceu colega, vizinho se indispôs com vizinho, irmão viu irmão pelas costas. A coesão nacional deu sinais de esgarçamento. No entanto, a nomenklatura cometeu um erro primário que teve o poder de fraudar-lhe os planos mesquinhos: foram com demasiada sede ao pote e se lambuzaram. Rapinaram o erário. Depenaram os cofres que guardavam o fruto do trabalho dos compatriotas. Os brasileiros se abalaram com a ladroíce insolente.

Ao fim e ao cabo, a descoberta do assalto patrocinado pela cúpula despertou nojo e entravou a prática maligna de dividir para melhor reinar, que era a essência do nós x eles. Mais que bloquear antagonismos, a indignação que tomou conta da população teve o efeito de engrossar as fileiras do eles ‒ aquela banda hipotética onde se deviam enclausurar os que não compactuassem com o ideário oficial. Era tudo o que o lulopetismo não queria, mas, se deu errado, são eles mesmos os culpados.

Com a aproximação das eleições presidenciais, a repulsa nacional tinha de se coagular em torno de um candidato que representasse a mais concreta garantia de afastar a nomenklatura malfazeja. Vários postulantes poderiam ter encarnado esse papel. Quis o destino que a cristalização se fizesse em torno de um certo capitão reformado. A botar fé nas sondagens, ele deve sair vitorioso amanhã. Não me cabe prejulgar como será um mandato que ainda nem começou. Se estamos a caminho de um período de turbulência ou de bonança, só o tempo dirá. O que parece certo é que a corda da discórdia arrebentou justamente do lado dos que a tinham esticado. O eles despertou.

Mulher de soldado

José Horta Manzano

A onda do politicamente correto não é exclusividade brasileira, longe disso. Ela tem-se alastrado pelo mundo todo. Quando a conversa resvala para assuntos de sexo, de posição social ou de cor da pele, todo cuidado é pouco. Uma palavra mal pronunciada pode azedar o ambiente. Pode até pôr fim a uma velha amizade.

A feminização do nome das profissões é preocupação geral. É natural: ofícios que antes eram exclusivamente masculinos são hoje exercidos por homens e por mulheres. Se não havia palavra para indicar que o profissional era mulher, hoje ela tem de ser inventada.

Certas línguas, como o inglês, são menos afetadas por essa questão. De natureza «unissex», essa língua não perde tempo com essas miudezas gramaticais. Adjetivos, por exemplo, não vão nem para o plural ‒ que dirá para o feminino. Nomes de profissão geralmente não são flexionados. A exceção fica para os que terminam em man, como salesman. Nesse caso, a forma feminina vem naturalmente: saleswoman. E o problema está resolvido.

O alemão tem um modo muito jeitoso de feminizar nome de profissão. Como todas terminam por consoante, basta acrescentar o sufixo in. Cabe sempre. Jurist (jurista) faz Juristin. Verkäufer (vendedor) faz Verkäuferin. Ingenieur (engenheiro) faz Ingenieurin. E assim por diante. É muito prático e não ofende ninguém.

Em francês, o assunto dá dor de cabeça. Há alguns sufixos que dão ideia de feminino, mas precisa tomar cuidado ao manipulá-los, que cada caso é um caso. Todo médico é tratado por Docteur. A médica pode aceitar Doctoresse (doutora) ou preferir Madame le Docteur (Senhora Doutor). Melhor perguntar antes. É muito complicado. Tem de andar na ponta do pé. Isso vale para todas as profissões.

Nossa língua é mais camarada. Quando o nome da profissão termina em consoante, é suficiente acrescentar um a ao final pra obter o feminino: vendedor/vendedora, bacharel/bacharela, doutor/doutora, juiz/juíza. Quando termina em a ou e, não varia: o/a atleta, o/a estudante, o/a agente, o/a presidente, o/a obstetra.

Nos nomes de profissão que terminam em o, basta trocar o por a: engenheiro/engenheira, médico/médica, padeiro/padeira. Nesse particular, tenho notado certa reticência em feminizar a palavra soldado. Volta e meia, lê-se na manchete que «a soldado acudiu à ocorrência». Fica pra lá de esquisito. Fosse em francês, a hesitação seria compreensível, mas em português… francamente.

Se temos advogado/advogada, deputado/deputada, delegado/delegada, jurado/jurada, por que não soldado/soldada? Coragem, gente, coragem!

Olhar vesgo

José Horta Manzano

Não sei quem está mais próximo do desespero, se a mídia nacional ligada ao PT ou a mídia internacional em bloco. Enquanto, no Brasil, veículos próximos ao lulopetismo estão em estado de agitação, no exterior todos os veículos parecem em estado de convulsão, pouco importando em que bordo político estejam ancorados.

Os artigos e as análises são diários. Jornais, rádios de informação, tevês, portais ‒ todos se mostram horrorizados com a perspectiva de a malvada extrema direita tropical suplantar a bondosa esquerda, tão preocupada com o bem-estar dos desvalidos. (Mas tão empenhada em roubar o dinheiro desses mesmos desvalidos ‒ detalhe que passa em silêncio.) Falas e escritos vêm por atacado.

A rádio Europe 1, emissora francesa, no jornal falado e no portal, mandou ao ar: «Brasil, há urgência: a esquerda continua com dificuldade na mobilização contra Jair Bolsonaro».

Por seu lado, a oficial Rádio França Internacional dá destaque, no portal internet, ao fechamento ordenado pela Justiça de dezenas de páginas de apoio a doutor Bolsonaro. Assim mesmo, concede que se trata do “provável futuro presidente do Brasil”.

O sisudo primeiro canal da televisão pública alemã lança ao ar uma pergunta inquietante: “Com fake news rumo à vitória?”

Já o quoditiano austríaco Wiener Zeitung aborda uma outra faceta da inquietação internacional. O artigo que discorre sobre os eleitores de doutor Bolsonaro leva o título “Brasil a caminho de se tornar estado religioso”. Note-se que esse receio não costuma estar presente no argumentário de analistas tupiniquins.

O alemão Westfälische Rundschau trata Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo como ETs. Em alentado artigo, procura explicar a seus incrédulos leitores as razões pelas quais os craques apoiam o capitão reformado.

Jornal suíço Le Matin

Até o quotidiano suíço Le Matin dá contribuição ao alvoroço. Em artigo intitulado “ Os desafios da eleição presidencial no Brasil”, o site do jornal mostra vídeo de um minuto com cenas de rua de nossa campanha eleitoral acompanhadas de informações em sobreimpressão. A uma certa altura, mostram meia dúzia de gatos pingados empunhando cartazes sob a legenda: “Em Genebra, os brasileiros da Suíça protestaram contra Bolsonaro”. (A palavra ‘protestaram’ vem em letras vermelhas.)

Só que tem uma coisa. No primeiro turno, 3077 eleitores compareceram às urnas instaladas na cidade suíça. Nada menos que 51,2% escolheram doutor Bolsonaro. Doutor Haddad não ficou senão em terceiro lugar, atrás de Ciro Gomes, com apenas 12,4% dos votos. Dependesse de Genebra, o capitão já estaria eleito. É curioso ver a imprensa dar mais importância aos protestos ‒ que podiam até estar sendo organizados pela militância paga ‒ do que ao voto secreto, que é a palavra final dos eleitores. Curioso.

Como está sendo visto o Brasil de longe

José Horta Manzano

«É má notícia para a democracia [brasileira], corroída por exagerada corrupção, que o único que podia combatê-la, o ex-presidente Lula, está na cadeia.»

A frase acima que, de tão absurda, a gente tem de ler duas vezes, saiu da pluma de um jornalista e escritor mexicano. É o arquétipo da visão que se tem do Brasil no exterior. É impressionante a agitação que tem tomado conta da mídia internacional nesta época de eleições brasileiras. Conforme se vai aproximando o dia do segundo turno, então, a agitação vai se transformando em frenesi.

O diário espanhol El Pais traz, na edição online de hoje, longo artigo intitulado «Intelectuales de América y Europa alertan contra Bolsonaro». Vinte e três personalidades dão depoimento. Entre outras nacionalidades, há gente do Brasil, da França, da Argentina, da Espanha, da Colômbia, dos EUA, do Chile. Algumas declarações são comoventes de ingenuidade. Outras são fruto evidente de desinformação. Há também aquelas de deixar de cabelo em pé de tanto cinismo: atribuem, a doutor Bolsonaro, terríveis intenções que constam do programa oficial do Partido dos Trabalhadores.

Nosso decepcionante Chico Buarque também mete lá o bedelho, assim como o argentino Esquivel, o americano Chomsky e o francês Bernard Henri Lévy ‒ figurinhas carimbadas. Exclamações como retrocesso!, soberba!, extrema direita!, golpe!, terrorismo fascista! aparecem a cada duas linhas. São relembrados até os cem mil votos que recebeu o rinoceronte Cacareco na eleição para a vereança paulistana em 1959. Pra você ver o grau de apelação.

O grito
by Edward Munch, pintor norueguês

Todas as análises são equivocadas. Entre os entrevistados, há os que atribuem a derrota do PT à «onda conservadora» que varre o planeta. Há os que veem na atual política brasileira um complô das elites que, ao tirar de cena Lula da Silva, estão alinhavando o golpe iniciado com a deposição de doutora Rousseff. Há quem chegue mais perto da realidade, ao evocar a insegurança que impera no território nacional. Ninguém, no entanto, se atreve a encarar a realidade e a atribuir a vitória de doutor Bolsonaro à verdadeira razão, que é a resposta do povo à roubalheira que comeu solta no período lulopetista.

Não tivesse havido roubalheira, o PT estaria instalado no topo do poder por vinte, trinta, cinquenta anos. Teriam continuado a moldar o país segundo a cartilha do partido. Teriam transformado o Brasil numa Venezuela light, com regime autoritário mas sem débâcle econômica. Ou, na pior das hipóteses, com “débâcle light”. Ao agir como fominhas, bobearam e perderam tudo. Observadores estrangeiros não conseguem entender, mas nós, que somos os maiores interessados, entendemos muito bem. Ânimo, minha gente, que falta pouco!

O fator humano – 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma amiga, bióloga, estava curtindo um dia de sol na praia ao lado do marido e da filha de 4 anos. O pai da criança havia saído para fazer uma caminhada e as duas se divertiam construindo castelos na areia.

Lá pelas tantas, a menina interrompe o passatempo, olha longamente para o mar e pergunta à mãe: “Mamãe, por que o mar é salgado?”.

Antes de responder, a mãe hesita, se perguntando se devia dar uma resposta genérica, dessas que os pais dão distraidamente para se livrar de um interrogatório incômodo, se seria mais adequado dar uma resposta precisa, mas envolta em linguagem simples que pudesse ser rapidamente absorvida pela criança, ou se seria melhor propiciar a ela uma experiência mais ampla de aprendizagem.

Agnóstica por natureza e orgulhosa de sua formação científica, minha amiga optou por despertar na filha desde cedo o interesse pela investigação dos intrigantes fenômenos do mundo natural e dispôs-se a elencar todos os fatores envolvidos na geração desse resultado. Falou com entusiasmo sobre o movimento das marés, a influência da lua, o tipo de rocha presente no fundo dos oceanos, etc. Quando se sentiu satisfeita, concluiu, em voz terna, ao mesmo tempo maternal e professoral: “Então, filha, é porque a aguinha bate nas pedrinhas do fundo do mar, aí começa a sair o salzinho e ele se mistura na água. Entendeu, meu amor?”.

A menina ouvia tudo com ar de grande interesse e concentração. A cada etapa de explicação, interrompia apenas para acrescentar novos porquês. Quando a mãe terminou de falar, ela voltou imediata e espontaneamente a brincar com seu balde e pazinha, o que serviu de indicativo para a mãe que ela havia incorporado corretamente a mensagem.

Minutos depois, o pai volta do passeio e senta-se na areia ao lado da filha, ajudando-a com o desafio de erigir torres, portões e janelas. A mãe, ainda saboreando os frutos gloriosos de seu extenso saber científico, estimula a filha: “Conta pro papai por que é que o mar é salgado”.

A menina, entretida com seu passatempo, fica em silêncio por alguns segundos, como se estivesse metabolizando os ensinamentos recém-recebidos. Depois, abrindo um largo sorriso, encara o pai e, com toda a deliciosa ingenuidade infantil, responde de chofre: “Ué, porque…. é porque Deus quer, ué…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O estrago é maior

José Horta Manzano

Desde que a Operação Lava a Jato levantou a ponta do tapete que enfeita a sala do andar de cima, uma sujeirada começou a sair. Foi como se tivessem erguido a lápide da tumba dos horrores. O que escapou de fantasma não está escrito! As barbaridades que apareceram estes últimos anos deixaram o País de queixo caído. E quando a gente pensa que acabou, lá vem mais.

Dos bilhões surrupiados, nem precisa falar. Dá muita raiva. Poucos meses de cadeia para quem levou a saúde e os sonhos dos compatriotas é muito pouco. Muito pouco. Esses calhordas tinham de apodrecer na masmorra, pra nunca mais sair. A começar pelo chefe de todos eles.

O mal-afortunado incêndio do Museu Nacional foi edificante. Ficamos sabendo que a manutenção do venerando estabelecimento tinha sido confiada a uma universidade federal cuja cúpula dirigente estava dominada por lulopetistas de carteirinha. Os holofotes giraram para outras universidades federais. Veio à luz que estão praticamente todas infestadas por elementos de mesmo jaez.

Em artigo publicado pelo Estadão deste domingo, a jornalista Eliana Cantanhêde focaliza outra secular instituição do Brasil ‒ o Itamaraty ‒ e aponta o profundo entranhamento que a máquina lulopetista pôs em prática ali. A jornalista relata que os embaixadores Celso Amorim e José Viegas, cardeais de alta batina, se encarregaram de impor doutrinamento a uma geração de diplomatas. O resultado foi a vergonhosa diplomacia «ativa e proativa» que se aproximou de ditaduras sanguinárias e dançou quadrilha com elas. Com resultado nulo para os interesses nacionais, frise-se.

O próximo presidente do Brasil ‒ desde que não seja o candidato petista, te esconjuro! ‒ vai ter muito trabalho, mas muito trabalho mesmo, pra repor a casa em ordem. Desde que as credenciais de mérito foram abandonadas em favor da carteirinha do partido, a contaminação ideológica infestou centenas de empresas estatais, agências reguladoras, embaixadas, consulados, até a representação brasileira junto à Organização dos Estados Americanos. A contar de primeiro de janeiro do ano que vem, vai aparecer muito desempregado na praça.

Zap-zap estimula a inteligência?

José Horta Manzano

Quem já passou dos 35-40 anos há de se lembrar dos primeiros tempos da internet, lá pela virada do século, quando a rede mundial começou a se popularizar. Computador em casa ainda era artigo de luxo, inaccessível objeto de desejo de muita gente. Larga parcela de internautas frequentava cibercafés ‒ gênero de estabelecimento atualmente em acelerada via de extinção.

Inconscientes e inexperientes, os neonavegantes se enroscavam nos sargaços que infestavam as águas da internet. Naquela época, vírus se multiplicavam pela rede. Não se passavam duas semanas sem que surgisse notícia alarmante prevendo o estouro em cadeia da rede mundial. Havia perigo de que o próximo virus bloqueasse computadores, apagasse arquivos, inutilizasse o trabalho de muita gente. Às vezes, acontecia mesmo. Algum programinha malicioso se infiltrava sorrateiro e atazanava a vida de muito usuário incauto.

Naqueles tempos ‒ que já nos parecem antigos ‒ internautas eram ingênuos. Não sabendo lidar com critério, clicavam em botões onde não deviam. E assim, abriam as portas para vírus, bactérias e infecções. Era o começo, que fazer?, o povo ainda estava em fase de aprendizado.

De lá pra cá, os internautas ficaram mais espertos. Hoje em dia, todos aprenderam a lição de base. Sabem que não se deve clicar a torto e a direito só porque uma atraente luzinha insiste em piscar. Sabem distinguir o que pode do que não pode. Pra melhorar o panorama, fornecedores de serviços (Microsoft, Google & assemelhados) trazem antivírus incorporados e fornecem maior proteção. Faz anos que não se ouve mais falar naquelas ameaças de ataque viral que perigava bloquear computadores e aporrinhar a existência.

O WhatsApp anda dando que falar. Ataque maciço, robôs, boatos, fake news, compartilhamentos maliciosos ‒ são expressões que invadiram o quotidiano de todos. Utilizadores não sabem a que santo apelar. Sentem-se como num barco sem leme. Será que a notícia é verdadeira? Será que a fonte é confiável? Devo compartilhar?

O quadro de incerteza lembra nitidamente o perigo viral que ameaçava a rede no começo do século. Como naquele tempo, internautas voltam a sentir desconforto. Mas pode deixar. A oportunidade é supimpa pra desenvolver o espírito crítico. Assim como ninguém mais clica em botões à tonta, não vai demorar muito pra todos aprenderem a distinguir mensagem verdadeira de boato malicioso.

O atual problema tende a enfraquecer o espírito de maria vai com as outras e a reforçar o julgamento próprio. Nada como um momento de dificuldade pra despertar mecanismos de superação. O povo vai sair desta tempestade mais esclarecido e mais esperto, pode acreditar. Há males que vêm pra bem.

Jornalismo militante

José Horta Manzano

Às seis e meia da manhã, pela hora de Brasília, abro a edição online da Folha de São Paulo. Desfilando pela primeira página, encontro as seguintes chamadas:

  • Presidente da Gazint disse que Bolsonaro tem que ganhar para ‘não ter que gastar mais dinheiro’.
  • Grupos de WhatsApp pró-Haddad proliferam, e PT desconfia de armadilha bolsonarista
  • TSE abre investigação sobre Bolsonaro e compra de mensagens anti-PT
  • WhatsApp bloqueia contas; TSE e PTF apuram atuação eleitoral de empresas
  • Apoiadores de Bolsonaro começam a migrar grupos do WhatsApp para o Telegram
  • Empresários recuam em onda de apoio a Bolsonaro para não se expor
  • Repórter que descobriu envio de mensagens anti-PT participa do Eleição na Chapa
  • Bolinha de papel na cabeça de José Serra antecipa fake news
  • Roger Waters agradece vaias e chama Bolsonaro de insano. Músico diz que boicotaria o Brasil pela democracia caso candidato seja eleito
  • Comida na ditadura causava horror. Tem político querendo transformar o Brasil no país de 40 ou 50 anos atrás
  • O mercado ignora os riscos de um governo Bolsonaro
  • As reformas da extrema direita bolsonarista para destruir o Brasil

Não temos café
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Juro que é verdade, sem tirar nem pôr. Tudo na primeira página. Não estou tentando criar fake news ‒ pra entrar na moda. É consternante reconhecer que o autoqualificado ‘maior jornal do Brasil’ mais parece um panfleto partidário. O ativismo desse veículo, como diriam os franceses, é cousu de fil blanc ‒ costurado com linha branca. É patente, salta aos olhos. Só não enxerga quem não quer. Para conferir, basta dar uma olhada na sobriedade da primeira página dos outros dois jornais mais vendidos no país, o Estadão e O Globo. A diferença é comovente.

Vale notar que ter a maior circulação entre os jornais do país não significa ser ‘o maior’. São conceitos diferentes. Na Alemanha, o Bild tem, de longe, a maior circulação. Bate, com folga, qualquer concorrente. No entanto, com seu estilo de tabloide sensacionalista, está longe de ser ‘o maior’. Aliás, nem reivindica essa posição. É apenas o mais vendido, basta. A mesma coisa acontece com a Folha, que costumava ser jornal sério, mas está se perdendo.

A mídia tradicional tem visto seus leitores sugados pela internet. Cada veículo tenta solução própria para compensar a diminuição das vendas. “O maior jornal do país” parece ter escolhido caminho original. Mas é sempre perigoso vender a alma ao diabo. Como ensina o Conselheiro Acácio, as consequências vêm depois.

Foro do Pensamento Crítico

José Horta Manzano

Em 30 de novembro próximo, Buenos Aires acolherá a reunião anual do G20, realizada pela primeira vez na América do Sul. Como sabemos, esse organismo congrega 19 países de economia importante mais a União Europeia. Os integrantes respondem por 85% do PIB mundial. É clube de gente fina, ao qual diversos países adorariam pertencer.

Numa explícita demonstração de soberba, um alentado grupo de políticos ‒ a maioria deles já no declínio ‒ vai-se reunir na mesma cidade, dez dias antes do G20, para elaborar uma “lista de recomendações” destinadas ao clube de gente fina. Pra você ver.

José Mujica aos tempos da guerrilha comunista

Os «de fora» são figurinhas carimbadas, dignos representantes de tudo o que não deu certo na governança mundial. Cristina Kirchner, ex-presidente da Argentina e atualmente com um pé na cadeia, vai marcar presença no simpósio. Outros políticos vão ter com ela, cada um carregando maior ou menor carga de fracasso. José Mujica, que foi guerrilheiro tupamaro na juventude e presidente do Uruguai mais tarde, também participará.

O fulgor de uma importante participante vinda do Brasil periga ofuscar o brilho dos demais. Trata-se de doutora Dilma Rousseff, antiga guerrilheira, que não perde ocasião pra denunciar o ‘golpe’ de que foi vítima quando presidente do Brasil, a coitada. Rejeitada pelo eleitorado de seu Estado natal nas eleições da semana passada, não lhe resta outro caminho senão correr mundo ‒ à nossa custa naturalmente ‒ para ensinar, a quem interessar possa, sua peculiar maneira de fazer política.

Dilma Rousseff aos tempos da guerrilha comunista

O clube dos “de fora” se chama Foro Mundial do Pensamento Crítico, um nome acima de toda humildade. Pretende apresentar, às autoridades presentes na reunião do G20, propostas “plurais” para solução dos problemas globais. Fico curioso na expectativa de conhecer essas propostas. Afinal, de um foro que conta com o brilhantismo de doutora Dilma Rousseff, é legítimo esperar propostas claras, inteligentes e eficazes. Podemos dormir em paz.

Quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um de meus professores de psicanálise defendia a tese de que todas as pendengas judiciais que se arrastam indefinidamente são fruto não de um pretenso desequilíbrio de poder, mas sim de um desbalanceamento de satisfação. Embora fácil de entender, essa formulação me era difícil de aceitar. Transpondo para palavras mais simples, o que ele propunha era que, se estou satisfeita com minha cota de benefícios ou privilégios, não há razão para reivindicar aumento da minha parcela, nem contestar o tamanho das parcelas alheias.

Conhecendo os paradoxos da natureza humana, eternamente desejante, eu me esforçava por identificar alguma exceção que me permitisse ir mais fundo na compreensão da proposta, mas nunca encontrei nenhuma. Hoje, às voltas com a angústia de lidar com uma espécie de versão apocalíptica da “Escolha de Sofia” na disputa presidencial, achei por bem ir direto à fonte e reler trechos da obra do próprio Sigmund Freud.

Para minha satisfação, encontrei menção a certos fatores da psicologia de massas que podem ajudar a compreender melhor os motivos de tanta virulência na campanha. Para começar, Freud analisa a diferença entre grupos naturais ‒ isto é, aqueles que se formam espontaneamente em torno de objetivos comuns ou defesa contra inimigos comuns ‒ e os grupos que são formados de fora para dentro, a partir de um propósito ao qual se deve aderir e jurar obediência, aos quais ele dá o nome de grupos artificiais. Dentre estes últimos, ele destaca os mais emblemáticos: o exército e a igreja.

Nos dois casos, argumenta Freud, porque a adesão a esses grupos nem sempre é espontânea, torna-se necessário criar alguma forma de sanção para impedir que o grupo se desintegre caso aconteça alguma dissensão. Se uma contestação dos princípios fundadores do grupo é levantada, é preciso evitar que ela se alastre internamente e ameace a credibilidade ou continuidade da própria instituição. Traduzindo para a linguagem do Capitão Nascimento, o insubordinado tem de lembrar que entrou para a tropa porque quis e, se não aguenta mais carregar o fardo da disciplina interna, tem de “pedir para sair”. A punição prevista em tais casos – tanto para hereges quanto para traidores da pátria ‒ é, assim, a expulsão compulsória.

Outra característica comum é que esses grupos são estruturados como uma família, na qual seu chefe supremo – Cristo, para a igreja católica, e o comandante em chefe, no caso do exército – é apresentado como um pai amantíssimo, que distribui cotas iguais de afeto para cada um de seus filhos. Sua autoridade moral tem por base a crença de que não há um filho melhor que outro, mais próximo ou mais merecedor do amor do pai. Se isso fosse sugerido, ainda que implicitamente, o resultado seria a decretação de sangrentas lutas fratricidas. Isso porque é o amor equânime do chefe da família que serve de espelho e cimento para a construção de laços de solidariedade entre seus membros.

Sabemos todos que, na última década e meia, teve início, por iniciativa do governo federal, a implementação de uma estratégia explícita de conceder parcelas maiores de benefícios a alguns segmentos sociais, sob a alegação de combater distorções históricas. Aos que passaram a se indispor com o projeto de justiça social, o governo apresentava como única resposta o argumento de que tais protestos eram simples derivativo da cupidez, ganância e insensibilidade das elites para com seus “irmãos” desfavorecidos. Tal qual a incompreensão e o desapontamento do filho que se manteve sempre ao lado do pai, descritos na parábola do filho pródigo. Enquanto a economia crescia – e, com ela, se mantinha a satisfação dos estratos sociais mais altos – o sapo foi engolido, mesmo a contragosto. Um inevitável ressentimento aflorou, porém, quando essa mesma elite foi chamada a pagar a conta do desequilíbrio fiscal. A insuportável mensagem passada naquele momento era a de que havia uma classe especial de filhos a quem o pai ‒ antes símbolo por excelência do amor democrático e incondicional – adulava, dizendo ser mais merecedora de seu afeto. Não é necessário se estender na análise das consequências da estratégia. Elas estão registradas a ferro e a fogo na história nacional e na memória afetiva de cada um.

Fernando Pessoa: “Quem escreverá a história do que poderia ter sido?”

Em paralelo e aproximadamente no mesmo período, ganhou vulto no território nacional um novo credo religioso. Tímido de início, o movimento sofreu uma expansão geométrica ao propor que o reino de Deus não se conquista necessariamente apenas depois da morte, mas pode ser usufruído no aqui e agora. As dádivas divinas também foram logo redefinidas: se antes o fiel tinha de aceitar passar por um vale de lágrimas antes de conquistar a vida eterna, agora já lhe era possível encontrar a bem-aventurança logo ali na esquina, com a compra da casa própria, carro, emprego mais bem remunerado, etc. Na tentativa de reafirmar a origem divina de Cristo, desconstruiu-se sua frágil condição humana. Já não era mais necessário fazer menção à virgindade da mãe ou à ira contra os mercadores do templo. Se não está claro que o verbo divino se fez carne, habitou entre nós e sofreu os mesmos percalços, perde também valor de mercado a ideia central do cristianismo de amar o próximo como a si mesmo.

Não é, pois, de espantar que tanto fundamentalismo, fanatismo, irracionalismo, maniqueísmo, misoginia, homofobia e violência social a que temos assistido impotentes ao longo da campanha presidencial tenham advindo de uma articulação, inédita em nossa história política, entre uma força militar e uma força religiosa. Ambas exigindo submissão irrestrita à voz de comando, ambas proibindo interpretações descontextualizadas de seus discursos, ambas prometendo o alcance do paraíso na terra quando os infiéis forem finalmente esmagados.

Em resumo, estamos sendo chamados a escolher entre dois messias e dois soldados. O foco da esmagadora maioria do eleitorado não está, como seria de se esperar, na análise de seus poderes e fragilidades. O que se almeja explicitamente é conseguir bloquear o canto de sereia do outro. A insatisfação campeia dos dois lados: estamos clamando por uma parcela significativamente maior de benefícios para nossa turma e pela menor cota possível de privilégios para a outra.

Uma dica final para se livrar da angústia. Um de meus livros preferidos, escrito por um psicoterapeuta americano, leva o título “Se você encontrar o Buda na estrada, mate-o”. A mensagem é simples: o Buda não está do lado de fora. Se pararmos de perseguir profetas e gurus, vamos poder finalmente nos concentrar na espinhosa tarefa de alcançar a iluminação por conta própria.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Time que ganha

José Horta Manzano

O sucesso fascina. Quem tem dinheiro tem muitos amigos. Quem sobe na vida provoca admiração e inveja. Quem está em rampa ascendente desperta simpatia. Essas considerações valem tanto pra quem enrica quanto pra quem sobe na escala social ou profissional.

Faz ainda poucos dias, a mídia estrangeira, em uníssono, acusava os brasileiros de se estarem deixando levar pela onda conservadora” capitaneada pelo perigoso ultradireitista Bolsonaro. No entanto, as sondagens que selam a derrota do Partido dos Trabalhadores estão alterando a percepção que jornalistas estrangeiros têm do Brasil.

O francês Le Monde, quotidiano esquerdizante, fala hoje da «campanha desesperada» de doutor Haddad. Menciona os dados alarmantes das pesquisas eleitorais, lembra que Lula da Silva está na cadeia e, no final, já parece conformado com a derrota. O tom usado quando se refere a doutor Bolsonaro já não é tão ácido quanto antes. O sucesso já exerce sua magia.

O peruano El Comercio joga, logo no título, que Bolsonaro «entendió el actual momento de Brasil». Reconhece que o capitão está a um passo de se tornar presidente do país e, como é natural, lança sobre ele um olhar bem mais suave do que até pouco tempo atrás.

CNN, em sua edição em língua castelhana, vai mais longe e ousa uma reveladora pergunta retórica: «Será Jair Bolsonaro o ‘salva-vidas’ do Brasil?».

A mídia italiana, por seu lado, converteu-se à cartilha de doutor Bolsonaro por outro motivo. Foi instantâneo. Aconteceu no exato instante em que o candidato revelou intenção de expulsar Signor Battisti ‒ aquele italiano que, apesar de envolvido no assassinato de quatro pessoas e condenado à prisão perpétua pelos tribunais de seu país, foi acolhido por Lula da Silva. A opinião pública italiana nunca se conformou com a afronta feita pelo Lula contra a Justiça italiana.

À medida que nos aproximarmos da eleição, a resistência ao candidato por parte da mídia internacional deve continuar em ritmo decrescente. Todo o mundo gosta de time que ganha.