Mensagens em garrafas

Ruy Castro (*)

Tenho reparado que alguns emails enviados por mim só têm sido respondidos dez dias depois. A desculpa é sempre a de que só então haviam sido abertos pelo destinatário. Não duvido. No mundo do WhatsApp, quem se preocupa em abrir emails? O fato de que, até outro dia, eles eram o principal veículo de comunicação entre humanos não quer dizer mais nada. Mandar um email para alguém parece-se hoje com o náufrago que atira ao mar uma garrafa com uma mensagem, rezando para que, um dia, com sorte, a garrafa seja encontrada e a mensagem, lida.

Da mesma forma, deixar uma mensagem gravada na secretária eletrônica de um celular equivale a falar para um anfiteatro vazio, mesmo que se esteja recitando a Odisseia, de Homero. Por algum motivo, as pessoas já não se dão ao trabalho de escutar mensagens em secretárias. Ao ler no visor o número de quem telefonou, preferem ligar de volta e perguntar o que você deseja. O contrário também vale: ninguém mais dá bola para as secretônicas. Há um mês, ganhei um aparelho com uma secretária. Mas, até agora, o número de mensagens deixadas nela ainda não chegou a dez.

Nenhuma tecnologia, por mais moderna, está a salvo. Todas terão o destino daquele que já foi o mais querido e importante elo entre pessoas distantes: a carta de correio. As pessoas ‒ eu, inclusive ‒ deixaram de escrevê-las. É pena: há certas mensagens que só ficam bem em cartas manuscritas, vide as de amor, de despedida e até as sórdidas e anônimas, entregando a sua mulher.

E não vou me referir àquele trissecular e heróico veículo a ser brevemente extinto: o telegrama. Dizem que, mais do que todos, ele ficou inútil. Será? Como conferir aos outros veículos a reconfortante sensação de urgência de um telegrama de parabéns ou de pêsames?

Acho que vou passar a imprimir meus emails, enfiá-los em garrafas e atirá-los ao mar.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Novos tempos

by Silvano Gonçalves Mello, desenhista mineiro

by Silvano Gonçalves Mello,
desenhista mineiro

O índio vai ao cartório e o funcionário, solícito, pergunta:

― Em que posso ajudá-lo senhor?

― Índio quer mudar de nome.

― Mas, senhor, os nomes indígenas são suas raízes culturais. Tem certeza de que deseja mudar?

― Sim, certeza! Nome comprido, difícil falar.

― Bom, sendo assim… Qual é o seu nome atual?

― Grande Nuvem Azul que Leva Mensagem para outro Lado da Montanha.

― É, é verdade que é comprido. E o senhor já pensou num novo nome?

― Já.

― E qual é?

― Email.