Vuitton
Agregar
Os romanos chamavam seus rebanhos de grex, gregis. Esse substantivo deu origem a várias palavras em nosso idioma, a começar por grei, que, na linguagem eclesiástica, se refere ao “rebanho” da Igreja.
Quando uma vaca era adicionada ao rebanho, os latinos usavam o prefixo a- antes de gregis para formar aggregare = agregar.
Quando um ou mais bovinos eram separados do grupo, o prefixo se- era aplicado e dizia-se que eles estavam segregados.
Quando o rebanho era dividido, o prefixo dis- era utilizado para expressar que o grupo estava disgregado (ou desagregado).
Quando o dia chegava ao fim, o prefixo con- era usado para indicar que o rebanho estava se congregando em um só lugar para voltar ao estábulo.
Quando queremos dizer que os seres humanos gostam de viver entre seus semelhantes, como em um rebanho, atribuímos a eles um caráter gregário.
E quando um deles se destaca do rebanho, dizemos que ele é egrégio.
(*) Ricardo Soca, uruguaio, é linguista e escritor. Edita um blogue sobre a língua castelhana. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro.
Isenção fiscal
Em princípio, todos os cidadãos de um país estão sujeitos a tributação sobre a renda que recebem. Em termos claros, o imposto é para todos. Afinal, essa é a base da sociedade tal como a conhecemos: para financiar a máquina, cada um dá contribuição à sua medida.
Gostar de pagar imposto, ninguém gosta; mas não tem jeito porque é assim que a sociedade funciona. Quem ganhou mais dá mais, quem ganhou menos contribui com menos. Só quem não paga são aqueles cuja renda não atingiu o piso estabelecido.
Todos os cidadãos são iguais. No entanto, confesso que não me lembrava que, no Brasil, em matéria fiscal, alguns cidadãos são mais iguais que outros. Tinha passado fora de de meu radar o fato de “lideranças religiosas” estarem isentas de dar contribuição à bacia comum.
Gostaria de conhecer a justificativa para isso. O que é que faz dessas “lideranças” seres especiais? Serão indivíduos depenados e situados abaixo da linha de pobreza? Sinceramente, não vejo por que razão esses cidadãos têm o direito de usufruir da estrutura financiada pelo Estado, sem ter de dar sua contribuição pessoal.
As Forças Armadas, as polícias, o SUS, as estradas, o sistema escolar nacional, a Embrapa, o IBGE, as agências reguladoras, a rede diplomática e consular – são poucos exemplos das centenas de entidades e instituições financiadas com dinheiro público. Quem dá às “lideranças religiosas” o direito de se aproveitar dessa estrutura sem ter de pagar?
No país em que vivo, a Suíça, todos os cidadãos são taxados sobre seus ganhos. Como é compreensível, há uma classe de pessoas que não atinge o piso e, assim, está isenta de impostos. Fora isso, os outros(*) contribuem sobre a totalidade de seus ganhos, o que me parece justo e normal. O presidente do país está sujeito à mesma regra que o mais humilde dos cidadãos. Diferentemente do Brasil, “lideranças religiosas” (padre, pastor, rabino, imame, pai de santo) pagam imposto de renda como qualquer outro habitante. Ninguém tem nem ao menos parte de seu salário “isenta de impostos”.
Não sei se o Lula, que mexe em vespeiro ao pôr ordem na fiscalidade do país, vai aguentar o tranco. Tem gente muito influente por detrás dessa aberrante isenção concedida às “lideranças religiosas”.
Esperemos que o presidente segure essa e dê um tranco nessa gente folgada. Nos tempos de antigamente, se não houvesse senhoras na sala, a gente dizia que quem quer moleza come… aquilo que vocês estão pensando.

(*) Há na Suíça entre 4000 e 5000 multimilionários estrangeiros enquadrados num regime especial em que a taxação é baseada nas despesas e no valor imobiliário. São condições reservadas a estrangeiros endinheirados que adotam residência na Suíça. Essas pessoas, que só recebem ganhos do exterior, também pagam imposto, só que ele é calculado sobre outras bases que as dos demais cidadãos. É um privilégio concedido a fortes contribuintes, que interessam ao fisco nacional.
Língua simplificada
Você deve se lembrar que, algum tempo atrás, uma diligente brigada do ‘Exército de Perenização do Iletrismo’ encasquetou que a escrita de Machado de Assis era de padrão por demais elevado e sofisticado, e que, portanto, era urgente reescrevê-la à atenção dos brasileiros do século XXI.
De fato, vítimas da contínua deterioração do aprendizado da língua pátria, os brasileirinhos de hoje não alcançam mais o nível necessário para ler – e entender! – os livros de nosso escritor maior.
Para esses beneméritos vigilantes, a solução mais adequada não é a melhora do ensino, que seria o remédio apontado por qualquer criatura de bom senso. Para o ‘Exército de Perenização do Iletrismo’ a solução é rebaixar o grau de dificuldade da matéria ensinada. Como diz a velha piada, se a febre é muito alta, quebra-se o termômetro. É gesto de efeito mais rápido que aspirina, visto que a febre desaparece na hora.
A impressão que me fica é que a cegueira dos gênios que preconizam lançar a coleção “Machado de Assis adaptado para mal alfabetizados” também é fruto do esgarçamento do aprendizado da arte de raciocinar e entender o mundo.
O ensino pobre da língua não tem sido fenômeno isolado; acompanha-se do rebaixamento do nível de ensino das demais matérias. No final, os alunos se ressentem dessa formação medíocre e têm dificuldade em entender e enfrentar os problemas do mundo.
Quando jovens escolarizados, formados e diplomados sentem dificuldade em entender um texto técnico e não pensam em procurar ajuda num dicionário ou em outro lugar, a boa solução não é empobrecer a linguagem do texto, mas ensinar ao leitor perdido o caminho a seguir.
Faz muitos anos que, seguramente para facilitar a vida do leitor menos esclarecido, certos jornais abandonaram os algarismos romanos e adotaram os números comuns para designar sequências de reis e papas. Assim, foi-se D. João VI; bem-vindo D. João 6°. O papa João XXIII, popularíssimo em seu tempo, no Brasil responde pelo nome João 23. Se, no velho curso primário, algum de nós ousasse escrever assim, perigava levar um coque ou uma reguada de dona Mariazinha.
Suponho que a escola não ensine mais os algarismos romanos. É pena porque, caso o aluninho de hoje leia amanhã uma obra em língua estrangeira, vai empacar nessa numeração que ele desconhece e que, no exterior, não foi abolida.
O Conselho Nacional de Justiça, associado ao STF, anuncia um pacto do Judiciário “pela linguagem simples”. O objetivo é chegar a uma linguagem mais compreensível à população. Que seja enxugada a prolixidade cartorial de certos textos, com repetições a granel, é boa ideia. Mas “linguagem simples”? Abolir expressões latinas do Direito? É ilusão. Termos específicos são indispensáveis em textos jurídicos.
Soluções menos radicais já existem. Passeando pela internet, encontrei diversos glossários de termos jurídicos. Um deles, feito pela Procuradoria da República no Espírito Santo, me pareceu bem completo, com centenas de entradas.
Acho que violentar a obra de Machado de Assis ou rebaixar a qualidade de textos jurídicos é solução de ponta-cabeça. O nivelamento deve ser feito por cima, não por baixo.
Genocídio?
José Horta Manzano
A “Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio”, arquitetada pela ONU, foi assinada em 1948 e ratificada por praticamente todos os países do globo, apenas uma dezena deles ficando de fora.
A partir dessa convenção, o crime de genocídio ficou formalmente enquadrado e tipificado. São cinco condições que determinam se há genocídio ou não. O texto oficial é o seguinte:
Na presente Convenção, entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tal como:
1) Assassinato de membros do grupo;
2) Dano grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
3) Submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial;
4) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
5) Transferência forçada de menores do grupo para outro grupo.
Portanto, faz 75 anos que não deveria haver dúvida na hora de qualificar determinados atos como genocidários ou não, visto que há uma definição precisa. Na prática, porém, não é assim que funciona. Todo governo apontado como autor de genocídio costuma repelir com veemência toda acusação .
Muitos vêm acusando Israel de estar levando a cabo genocídio qualificado contra o povo gazeu estes últimos três meses. A África do Sul foi além: junto ao Corte Internacional de Justiça, denunciou o governo israelense de conduta genocidária. Trata-se de um processo altamente simbólico, mas sem efeito coercitivo. Seja qual for a decisão do tribunal (que pode demorar até anos para sair), não há meios de obrigar Israel, na hipótese de ser condenado, a pôr ponto final em seus atos.
O distinto leitor e a adorável leitora certamente têm acompanhado, ainda que com um ouvido distraído, o noticiário sobre a guerra feia que Israel está travando contra o Hamas, organização terrorista que se aninha em Gaza e cujos membros se misturam com a população civil.
Temos informações sobre a amplitude dos bombardeios, que não poupam residências, escolas, hospitais, campos de refugiados, até roças de hortaliças. Temos ciência de pronunciamentos de diversos ministros israelenses que preconizam ora uma ocupação perene do território, ora uma expulsão da população gazeia em direção ao Egito.
De posse dessas informações e conhecendo a definição de crime de genocídio, cada um pode tirar suas próprias conclusões e julgar, se sim ou não, Israel lhe parece um Estado genocida. Em nossa república, o pensamento ainda é livre.
No entanto, em política – especialmente em política internacional – há que tomar grande cuidado com o que se diz. Muitas cobras e infinitos lagartos têm às vezes de ser engolidos com o sorriso (nosso, não dos bichos). Não se tecem relações estrangeiras com o fígado, mas com um cérebro bem repousado e depurado de emoções fortes.
Nosso presidente dá mostras de ter-se deixado mais uma vez arrebatar pelo antiamericanismo primitivo e enraizado que condiciona sua visão de mundo. Ao dar-se conta de que “os louros de olhos azuis” (europeus e americanos) desaprovam a iniciativa da África do Sul, fez questão de bandear para o outro lado. Apoiou a atitude sul-africana e fez disso política oficial: o Brasil qualifica Israel como nação genocida.
É pena que Luiz Inácio nunca tenha frequentado um curso preparatório para a função de estadista. Talvez até nem exista nenhum cursinho desse gênero. Se ao menos tivesse feito uma formação rápida no Itamaraty, por exemplo, teria aprendido aquela história das cobras e dos lagartos. Embora odeie Israel (que é amigo dos americanos!), o melhor a fazer perante esse processo movido pelos africanos teria sido calar-se e não se pronunciar nem sob tortura. Não teria feito mal a ele nem a nós.
Agora, com leite derramado, é tarde. O gato já está lambendo.
O Brasil pardo detectado pelo IBGE contra o Brasil negro dos identitários
Censo do IBGE
A particularidade do censo do IBGE é que ele não apenas fornece dados, mas os apresenta orientados por teorias e embalados na ideologia dos analistas que trabalham nele.
Segundo as estatísticas geradas, 45,3% dos brasileiros se declaram como uma mistura de duas ou mais opções de cor ou raça, escolhendo entre branca, preta, parda e indígena, conforme o manual do instituto. Quem assim se identifica é pardo. Alvíssaras, o IBGE descobriu o óbvio, o Brasil é um país mestiço.
Como há um dogma dos militantes atribuído ao IBGE que reza que pardos não passam de uma subdivisão de negros, celebrou-se então a superioridade numérica dos negros nesse país. Mas apenas 10,2% se definem como negros.
É que, embora as pessoas tenham o direito de se identificar como desejarem, inclusive tendo a opção de adotar como critério de escolha a cor ou a raça, jornalistas e militantes se concedem o privilégio de ignorar tal autoidentificação e reclassificá-las conforme seus próprios critérios: pretos e pardos são espécies de negros, ponto final.
Ora, se os pardos se considerassem negros, escolheriam a identificação como pretos, como é óbvio supor. Da mesma forma, caso se vissem como brancos, optariam por essa categoria. Mas não o fizeram, assumem-se como mestiços.
Ocorre que no Brasil a escolha da categoria de cor ou raça deve ser considerada séria demais para se permitir que as pessoas decidam o que são por conta própria. A sociologia militante se concede o poder de decidir em lugar dos cidadãos, inclusive desconsiderando suas próprias percepções. Mas o tratamento é exclusividade dos pardos, claro.
A militância
Os militantes da causa negra não demoraram a ressaltar como anos de trabalho árduo dos movimentos resultaram no aumento do número dos autoidentificados como pretos e pardos no Brasil.
Embora isso possa ser verdade, esperemos algum crédito do fenômeno ao fato de que as pessoas vêm se miscigenando no país há mais de 500 anos, bem antes que movimentos negros marchassem com faixas declarando que “miscigenação é genocídio” ou inundassem as redes com denúncias de “palmitagem” de quem se envolveu com pessoas de outra cor.
O cardinalato dos influenciadores que reivindicam falar em nome de todos os negros não iria perder a oportunidade de pontificar sobre o assunto. “É uma vitória termos um Brasil que se reconhece como negro”, afirmou-se. Para depois rematar-se com: “Nunca é demais lembrar que pardos e pretos compõem a população negra do Brasil”.
Pelo visto, ignora-se o fato de que “o Brasil” se reconheceu majoritariamente como pardo, não como negro, branco ou indígena. Nem deveria ser demais lembrar que pardo é alguém que se reconhece mestiço, misturado, miscigenado, não como componente de qualquer outra população, a não ser a brasileira.
Impressionante como a matriz indígena foi esquecida, como se ela não fizesse pardos.
Ora, ocorre o contrário. O norte do Brasil é pardo, a Amazônia é parda. Os dez municipios com maior percentual de pardos estão entre o Amazonas, o Pará e o Maranhão. Como o colégio cardinalício identitário decidiu que todos os pardos são compulsoriamente negros, a origem indígena do Brasil pardo foi apagada.
O pior é que nem isso é para valer. Parafraseando o verso do Rigoletto de Verdi, “il pardo è mobile, qual piuma al vento”. Conforme a conveniência do cardinalato identitário e dos movimentos negros, movem-se os pardos para lá ou para cá.
Nos momentos de fazer volume, pardos são da população negra. Na hora das cotas em concursos ou de dividir cargos, chama-se a polícia racial, ou “comissões de heteroidentificação”, para tirar os pardos.
A autoidentificação dos pardos é desconsiderada; o que não se ignora é a premissa que há sempre um pardo querendo desfrutar de reparação que é só devida aos pretos. Pardos são úteis nos numeradores para se calcular as compensações, mas um estorvo depois do cálculo feito.
Flávio Dino
Vejam Flávio Dino. Alguém tem mais a cara do Brasil do que um caboclo miscigenado do Maranhão, justo onde a Amazônia e o Nordeste se encontram num abraço gostoso?
Pardo, no jargão do IBGE, ou moreno, mulato ou caboclo na língua real do país, Dino tem a cor e a manha da nossa gente.
No Brasil brasileiro, Dino é caboclo inzoneiro, exceto para as autoridades identitárias, que prantearam a sua indicação ao STF alegando que o cargo era para uma pessoa negra. Quando há privilégios e recompensas, pardos não são negros, nem sequer Flávio Dino.
(*) Escritor e professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).
Artigo publicado na Folha de S. Paulo.
Substituto do ministro?
Líder regional
Há quem acredite nessa balela de que nosso país exerce liderança natural sobre a vizinhança e que seríamos o farol predestinado a conduzir todos os hermanos a um mundo melhor.
Impossível, até que não seria. Mas coisas desse tipo não caem do céu, precisa fazer acontecer. E o fato é que, depois que FHC deixou o Planalto, faz mais de 20 anos, os sucessivos governantes não souberam (ou não quiseram) polir nossa faceta de liderança predestinada.
Se bastasse ser um país dotado de amplo território, o Canadá, que é maior que o Brasil, seria um dos maiorais do planeta – mas ele não é. Se bastasse ter população abundante, a Nigéria estaria no pódio dos mandachuvas, o que não é verdade. Longe de ser “natural”, liderança é qualidade que se cultiva e que leva tempo pra alcançar.
Os EUA, ao enviarem tropas à Europa em 1917, liquidaram a Primeira Guerra Mundial. Nem por isso se tornaram o farol do planeta. Foi preciso esperar a passagem de algumas décadas. Foi só ao final da guerra seguinte, em 1945, que os Estados Unidos, que haviam preparado cuidadosamente seu début na cena mundial, assumissem a posição de incontornável guia do Ocidente.
Nas últimas décadas, o Brasil preocupou-se com mil problemas, mas abdicou de toda veleidade de se tornar líder regional. Lula, que governou por mais tempo, desde cedo mostrou apetência por participar de “blocos”, atividade que ele parece considerar de extrema importância. G7, G20, Mercosul, Brics, Unasul, Grupo de Cairns são nomes que ressoam com frequência em suas falas. É pena que ele só utilize essas tribunas para se queixar dos loiros de olhos azuis; e para pedir dinheiro a eles. Quanto a Dilma e Temer, se desinteressaram do tema. Bolsonaro, com seus modos de ignorantão agressivo, foi boicotado pelo mundo, fechou-se na corte palaciana e submergiu.
Com essas e outras, o Brasil fechou-se aos vizinhos sul-americanos. Ressalte-se que, assim agindo, nosso país não fez nada de novo: já nos tempos coloniais, era assim que nos comportávamos, sempre de costas para a vizinhança.

Como ficamos sabendo ontem, o Equador, país-hermano, se encontra em estado de insurreição. Instalou-se no país uma guerra civil que não diz seu nome. A sociedade equatoriana vem passando, há anos, por um acelerado processo de desagregação. O Equador chega a 2024 com um tecido social esgarçado, gangrenado pelo poder paralelo de gangues de traficantes que passam por cima do governo oficial e impõem seu próprio ritmo ao país.
Quanto ao Brasil, não estamos em condição de cantar de galo, que o narconegócio nos atinge também em alta escala, vide o que se passa no Rio. Mas estamos mais bem equipados que o pequenino Equador para amenizar nossa situação e impedir que as gangues tomem as rédeas do país.
O problema é que o Brasil não cultivou, como eu dizia, uma imagem de irmão mais velho, aquele de quem se pode esperar uma mão amiga e protetora nas horas difíceis. Fica agora pouco credível destacar um emissário e despachá-lo às pressas a Quito para perguntar “Em que posso ajudar?”. Aliás, nem sei se o governo Lula pensou em fazer isso.
Líder regional não é somente aquele que, com sua lanterna, mostra o caminho aos vizinhos mais frágeis. É também aquele de quem se espera um braço forte e uma ajuda concreta na hora do pranto.
O Brasil não parece estar preparado para tão excelsa responsabilidade. E isso não tira o sono de ninguém.
Pra quem é, tá de bom tamanho
Myrthes Suplicy Vieira (*)
Quando eu era criança e havia alguma festinha de aniversário em casa, minha mãe se encarregava de preparar todos os salgadinhos e doces – isso para uma concentração de, pelo menos, 50 convivas. Para agilizar a execução de uma tarefa tão gigantesca quanto essa, ela colocava todas as filhas a postos para ajudar na preparação e fritura/assamento das massas, elaboração dos enfeites, arrumação da mesa e decoração da casa.
A mim era destinada quase sempre a enfadonha e repetitiva tarefa de esticar a massa das empadinhas dentro das fôrmas, talvez por não envolver o uso do fogo ou por permitir supervisão constante. Canhota e desajeitada por natureza, eu tentava de todas as maneiras corresponder às expectativas de confecção de uma camada fina de massa tanto na base quanto nas paredes laterais de modo a não comprometer a degustação do recheio.
A atenção aos detalhes sempre teve importância muito maior para mim do que a rapidez na execução de qualquer tarefa. Minha mãe dizia que eu “bordava” qualquer trabalho que me fosse solicitado. Para garantir um resultado satisfatório com a mão “errada”, eu, de fato, demorava uma eternidade: ia e voltava infinitas vezes pressionando a massa contra o fundo das forminhas até que ela se tornasse transparente, só para constatar mais tarde que ela havia rasgado na base ou que as paredes haviam ficado grossas demais. Daí era engolir em seco e recomeçar do zero. Ansiosa para se dedicar ao preparo dos demais quitutes, minha mãe tentava me apressar, relevando algumas pequenas imperfeições. Quando eu choramingava, exausta por não estar conseguindo alcançar o padrão desejado, ela piscava para mim e acrescentava com uma risada: “Não se preocupe, pra quem é, tá de bom tamanho”.
Essa frase me aturdiu desde a primeira vez que a escutei e a incompreensão pelo tom zombeteiro me assombra até os dias de hoje. Não entendia como minha mãe podia me aconselhar a usar de dois pesos e duas medidas na entrega de um trabalho, conforme o perfil de seu destinatário final. Quer dizer, então, que havia pessoas com paladar requintado o suficiente para perceber que o produto tinha um acabamento gourmet e outras que engoliam despreocupadamente qualquer coisa que lhes fosse oferecida desde que satisfizesse seu apetite? Para mim, essa categorização era inaceitável: significava (e ainda significa) que o capricho na execução da tarefa não é um valor intrínseco ao caráter do executor, mas simples conveniência social.
Cresci tentando exorcizar o caráter antiético dessa ideia, mas não teve jeito: ela nunca me abandonou e acabou sendo incorporada ao meu código pessoal de princípios morais reversos – isto é, das coisas que eu nunca deveria conscientemente tentar fazer. A opinião do usuário final sobre a excelência ou insuficiência técnica do meu trabalho também jamais foi capaz de superar minha ácida crítica interna. Se não estou satisfeita com a qualidade do que me propus a fazer, nenhum elogio tem o poder de compensar a frustração e a sensação de impotência, enquanto as críticas negativas são catalogadas apenas como mais/menos cruéis do que a minha própria.
Graças ao período recente em que fui forçada a ficar de molho por causa de uma queda, pude compreender, como nunca antes, as consequências desastrosas que a adoção de um padrão imaginário de perfeição, inatingível para o comum dos mortais, havia provocado em mim. Entendi que jamais ousei me profissionalizar de fato. Preferi sempre me apresentar como uma amadora de boa vontade, curiosa e disposta a aprender com seus erros. Todos os trabalhos que apresentei eram entregues já com as devidas ressalvas: ‘Olha, esse foi o melhor que pude fazer, mas não creio que tenha encontrado todas as respostas que você buscava’; ‘Como foi a primeira vez que lidei com isso, devo ter deixado escapar algum fator relevante’; ‘Se você me der mais tempo, posso revisar toda a análise, sem custo, e corrigir eventuais distorções’.
Claro que essa pretensa “humildade” estava a serviço de minimizar minha sensação de culpa, desviar a atenção da minha real incompetência e compensar a dor da minha ferida narcísica. Obviamente, a síndrome da impostora que me afligia acabou tendo também um enorme impacto financeiro negativo sobre meus proventos profissionais. Hoje, revendo os acordos orçamentários que me dispus a fazer ao longo da vida, penso nas infinitas oportunidades que perdi de bancar cursos de pós-graduação ou extensão universitária, viagens, ou me dedicar a outras áreas de interesse, especialmente as que não envolvessem apenas o uso do cérebro.
Por outro lado, a disponibilidade para me envolver com tarefas que eu desconhecia ou pouco exploradas no mercado acabou agregando um inesperado traço experimentalista à minha imagem profissional. Vários clientes desejosos de conhecer melhor os limites de divulgação de seu produto/marca me abriram as portas para a introdução de novas técnicas projetivas de pesquisa e novos arranjos para o público-alvo. Hoje, olhando para trás, até eu me surpreendo com tantas e tão diversificadas experiências que acumulei – desde atuar como consultora de um centro espírita para descobrir as causas das brigas entre seus médiuns até trabalhar ao lado de redatores publicitários e criativos na identificação de novos apelos mercadológicos.
Nascida e criada em solo brasileiro, no entanto, me é inescapável admitir que acreditar que “pra quem é, tá de bom tamanho” sempre foi um lema consagrado pelos integrantes dos três poderes de nossa combalida República ao elaborar projetos de combate às nossas maiores mazelas. Valores pífios para o aumento do salário mínimo, não-correção da tabela do imposto de renda, fila quilométrica para acesso aos parcos benefícios da Previdência, limitação de recursos para o SUS e para pesquisas nas áreas de educação e saúde, justiça viesada a favor dos poderosos de plantão e empedernida para lidar com as transgressões de ‘pés de chinelo’ convivem placidamente com um fundo eleitoral de 5 bilhões, fundo partidário igualmente bilionário, desrespeito às cotas para mulheres e negros na composição das chapas… a lista é interminável.
Assim, me ocorre deixar um lembrete final para quem pretende votar nas próximas eleições (municipais, estaduais e, principalmente, na presidencial):
“Nada é suficiente para quem considera pouco o suficiente.”
Epicuro
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
Recadinho a Sua Excelência
Prezado Ministro,
Vossa Excelência, ministro Gilmar Mendes, é graduado em Direito pela Universidade de Brasília, além de mestre e doutor pela Universidade de Münster, na Alemanha. Adicione-se a isso a prática adquirida em 35 anos de atividade, dos quais 20 como ministro do STF. Parabéns por ser um dos sobreviventes do tempo em que se escolhia um ministro do STF por seu notório saber jurídico.
Sua tendência a dar pronunciamentos e conceder entrevistas aqui e ali fazem parte do jogo – é assim que arde a fogueira das vaidades. Cidadãos mais recatados podem até se avexar com tal comportamento. Porém, no fundo, que fazer? Na Igreja, é pecado, mas no século passa batido.
Contudo (reparou que tem sempre um mas, um porém, um todavia, um contudo para atrapalhar?). Uma coisa é afagar o próprio ego; outra, bem diferente, é pronunciar-se fora dos autos. Até réu primário, como se vê em filme policial, sabe disso: “só falo na presença de meu advogado”. É que ele entende que palavra lançada ao ar é irrecuperável, não há como voltar atrás. Antes de abrir a boca, máxima prudência é exigida de todo cidadão, em qualquer circunstância.
Contudo, dizia eu, apesar de sua vasta bagagem jurídica, Vossa Excelência declara em praça pública ter convicção formada sobre a culpabilidade de um réu que, muito provavelmente, virá um dia a ser julgado no STF. Isso é um contrassenso. Sergio Moro, ex-Lava a Jato, caiu em desgraça, entre outras escorregadas, por não ter sido imparcial. Vossa Excelência está entrando pelo mesmo túnel. Como vai sair dele?
Um juiz que dá seu parecer antes mesmo do início do processo não está apto a julgar. Se o caso subir até o STF, Vossa Excelência terá de se declarar impedido. Se não se declarar, como é que fica? Teremos de conviver com um Supremo avacalhado, uma casa em que juízes julgam por antecipação, como os esbirros de Putin?
Permita-me a impertinência, ministro. Ouso dizer-lhe que um pouco de recato lhe faria bem. E ao Brasil também.
Saudações de ano novo!
Fim de ano, Lula e extrema direita
José Horta Manzano
Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 dezembro 2023
As pesquisas de opinião revelam um Lula da Silva que vai se segurando apesar de um tropeção aqui ou ali. Ao final de um ano de mandato, sua popularidade não parece ter sofrido desgaste significativo. Entre outras razões, estão duas especificidades.
Por um lado, o turbilhão de fatos políticos nacionais gira com tanta velocidade que as ocorrências não têm tempo de se fixarem na retina. Cada notícia empurra e apaga a anterior, só permitindo que dramas chocantes permaneçam no ar por algum tempo a mais. Por outro lado, Luiz Inácio já deu amplas provas de ser do gênero “político teflon”, aquele em quem manchas e desdouros não grudam, desaparecendo logo.
Até aqui, falamos do Brasil insular, um país cujos habitantes acreditam que, circundados por fronteiras herméticas, vivem isolados do mundo. Na vida real, não é assim. As aves que aqui gorjeiam, trinam por lá também. Frases que Lula costuma tirar do bolso do colete ao dar palpite sobre graves assuntos internacionais podem passar despercebidas ao público brasileiro, mas fazem as manchetes no exterior. E acabam nos prejudicando a todos.
A acolhida fidalga e despropositada que Luiz Inácio, ao tomar posse, ofereceu ao ditador da Venezuela pregou um susto nas chancelarias estrangeiras. Os conceitos fora de esquadro que ele declamou sobre a guerra na Ucrânia e o conflito na Palestina fizeram murchar sorrisos em velhos admiradores estrangeiros. O anúncio, feito durante a recente COP de Dubai, do ingresso do Brasil na Opep+ mostrou que a extravagância de Lula é irrefreável, podendo confinar com a incongruência.
Ao final deste primeiro ano de governo Lula 3, numerosos líderes estrangeiros que muito esperavam dele tornaram-se desconfiados e precavidos. O troco já começou a chegar. Veja-se a maneira nada sutil com que Emmanuel Macron torpedeou o acordo UE-Mercosul. Vai longe o tempo em que o francês se deixava filmar exclamando “Lula, mon ami!”. A fraterna amizade parece não ter resistido aos percalços do primeiro ano de mando lulista.
Talvez por estar ressabiado, Lula abdicou de se expor em duas recentes ocasiões. Primeiro, ao declinar de saudar o ucraniano Zelenski no aeroporto de Brasília, quando este fez escala técnica a caminho de Buenos Aires para a posse de Milei. Segundo, ao recusar-se a viajar até a ilha caribenha em que os presidentes da Venezuela e da Guiana bambeavam entre guerra e paz.
Visto do exterior, Luiz Inácio termina o ano menor do que começou. É pena, mas é constatação inescapável: o Brasil entra em novo período de refluxo, enquanto o mundo lá fora continua a girar. Esse nosso negacionismo oficial é difícil de explicar.
Dez dias atrás, a Assembleia-Geral da ONU pôs em votação uma resolução condenando a violação de direitos humanos na Ucrânia invadida. A Europa inteira (até a Hungria!) aprovou. Nossos vizinhos Uruguai, Chile e Argentina também. O Brasil se absteve, preferindo fazer companhia ao Iraque, ao Vietnã, à Indonésia, à Etiópia e a outros recalcitrantes. O Itamaraty não se dá conta de que, quando o sofrimento humano está em jogo, seja onde for, a politicagem tem de se curvar e dar passagem à empatia. É doloroso constatar que um governo que se diz progressista cede a ideologias mortas e enterradas, e passa por cima de valores essenciais do humanismo.
Daqui a uma semana, o triste 8 de janeiro de 2023 completará um ano. Alguns veem nessa data o ato final da ópera, com a morte simbólica dos protagonistas. Antes fosse, mas é bom não facilitar. A hidra extremista tem múltiplas cabeças, cada uma representando um público diferente. Libertários, evangélicos, “anticomunistas”, sebastianistas, ultraegoístas, novos-ricos, racistas – cada um deles está associado a uma das cabeças. Embora se desconheçam entre si, esses grupos contribuem, quiçá sem se dar conta, para a perpetuação do extremismo. A existência de tantos ramos disparates explica a resiliência da direita extrema que, em nosso país, é nutrida por um em cada quatro eleitores.
Portanto, olho! Não é hora de baixar a guarda. Se nossa política externa declina, continuemos vigilantes ao que fermenta dentro de nossas fronteiras, que a hidra, embora sonolenta, continua viva.
Feliz ano novo a todos!
Bolsonaro em Buenos Aires
José Horta Manzano
Gosto de observar fotografias e tirar minhas conclusões que, se não representam a verdade verdadeira, pelo menos são a verdade como eu a sinto.
Esta de hoje mostra os 34 egrégios personagens que compunham a delegação bolsonarista que viajou a Buenos Aires para espairecer e, ao mesmo tempo, prestigiar a tomada de posse de Javier Milei.
Tomei nota de alguns detalhes interessantes. Vamos lá.
- A cor azul domina incontestavelmente. Se meus cansados olhos não me enganam, todos o homens vestem camisa azul, com a exceção de um senhor de óculos escuros cuja camisa é de um verde desbotado.
- Na fila da frente, os figurantes parecem estar cobrindo o goleiro na hora do tiro livre direto. Todos lembraram de cruzar as mãos para proteger as devidas partes, menos um distraído. Cuidado! Pode ser jogador infiltrado do time adversário.
- Num incompreensível privilégio hierárquico, paletó foi exigido de todos, menos dos caciques: Bolsonaro, Tarcísio e Costa Neto.
- Osmar Terra (que alguns insistem em chamar “Osmar Trevas”) não tinha levado paletó. Correu apanhar a jaqueta. Não ficou muito chique, mas quebrou um galho.
- Como sói acontecer em toda foto de grupo, teve um que saiu com meia cara. Teve também um baixinho que, esquecido lá no fundo ao lado de altões, teve de ficar na ponta dos pés.
- Houve também um participante assaz original, que se apresentou ao lambe-lambe ostentando no cocuruto um discreto chapelão de aba larga, cor negro-graúna. Pra mostrar que não está brincando e quer realmente se destacar dos demais, vestiu uma gravata amarelo canário. O modelito ficou superelegante.
- Dos 34 figurantes, 31 são do sexo masculino. Para demonstrar que os bolsonaristas não padecem de misoginia, 3 mocinhas foram incluídas no grupo, tímidas, recatadas, esquecidas num segundo plano de onde foram obrigadas a entortar a cabeça pra aparecer no retrato. Quem encontrar as três em menos de três minutos ganha um pedaço de pizza fria pra comer de pé na calçada.
Sem dúvida, o grupo é bolsonarista da gema.
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Aproveito esta oportunidade para avisar que vou dar uns dias de descanso a meus distintos leitores. Desejo a todos um feliz Natal, boa passagem de ano e um 2024 com muita saúde e sossego. No finalzinho do ano, interrompo o recesso para publicar meu artigo que sai no Correio Braziliense. Até lá!
Farol da Humanidade
José Horta Manzano
O Lula dá sinais de ter desistido de lutar pra alcançar o almejado posto de “Farol da Humanidade”.
Nos primeiros dois mandatos, seu ego foi acariciado pela boa sorte. Os tempos eram outros, sem Trump, sem um Putin belicoso, sem Xi Jinping. Nem Bolsonaro havia ainda posto as manguinhas de fora. Na política interna, o “terrível” adversário era o suave FHC e seu partido.
Marinheiro de primeira viagem, Luiz Inácio navegou então por águas mansas, com céu de brigadeiro e golfinhos brincando a bombordo e estibordo.
Em 2009, um Obama efusivo apresentou Lula aos presidentes do G20 com um “This is my man, right here! I love this guy.” (Este é o homem, bem aqui! Adoro esse cara.). E acrescentou que Luiz Inácio era “the most popular politician on Earth” (o político mais popular da face da Terra).
Lula deve ter acreditado em cada sílaba. Tanto que, inchado, assumiu o papel de Paladino da Paz e da Justiça. Meteu-se de cabeça no jogo internacional. Aventurou-se até no insolúvel conflito palestino certo de que, com uma partida de futebol, apaziguaria os dois povos. Como se sabe hoje, sua intervenção não foi bem sucedida.
Em versão 3.0, o Lula internacional anda mais travado. Bem que ele tentou, mas falta gás. No espocar da mortífera invasão da Ucrânia pelas tropas russas, deu uma de Salomão: culpou os dois lados igualmente. Levou silenciosa vaia internacional. Na guerra entre Israel e o Hamas, tentou opinar, mas já andava sem ânimo pra essas coisas. Seus vagos pronunciamentos tiveram o condão de irritar ambos os lados do conflito.
Agora, parece ter desistido de vez. Nas últimas ocasiões em que teria podido dar diretivas à humanidade, subtraiu-se. Quando o venezuelano Maduro e seu par, o presidente da Guiana, anunciaram reunião numa ilha caribenha, não quis conduzir os trabalhos. Em seu lugar, mandou Amorim, “assessor especial”.
Outra ocasião foi quando Zelenski, presidente da Ucrânia, a caminho da Argentina para a posse de Milei, teve de pousar em Brasília para reabastecimento. Apesar do convite do ucraniano, Lula preferiu declinar de encontrar-se com ele.
Será por cansaço devido aos anos vividos? Será para não se expor ao risco de novos fracassos? Ele é quem sabe a razão, mas tudo indica que já não se empenhará para tornar-se o Pacificador das Gentes.
Se isso significa que vai dedicar mais tempo e esforço para enfrentar nossos problemas internos, aplaudiremos de pé.
Canetada
José Horta Manzano
Talvez eu tenha perdido um capítulo. Se li direito, um solitário magistrado, unzinho só, numa canetada de palácio, por motivos absconsos, resolve anular uma decisão que já havia sido tomada tempos atrás.
E não estamos falando de briga de comadres: trata-se de uma entrada de 10,3 bilhões de reais (2,1 bilhões de dólares), um caminhão de dinheiro em cima do qual nem um maluco como Mr. Musk cuspiria.
Imagine tudo o que essa fortuna poderia render se entrasse para os cofres da República – e se fosse bem empregada naturalmente. Hospitais, dá pra construir vários. Estradas, dá pra abrir e asfaltar quilômetros e quilômetros. Professores, dá pra aumentar consistentemente o salário de todos eles pelo resto da vida. E quanto mais o distinto quiser imaginar será igualmente possível.
Agora, vem um homem e decide sozinho privar a nação desses fundos? Ressalte-se que é de conhecimento público que a esposa do digníssimo magistrado advoga para os beneficiários da anulação da multa.
Em que mundo estamos? Esse é o tipo de decisão que não pode valer antes de ser ratificada pelo pleno do STF. Por unanimidade se for possível. Me espantaria que a canetada fosse referendada mas, em nosso país, nunca estamos a salvo de surpresas.
Há países em que um caso assim levaria a população indignada às ruas, homens e mulheres, jovens e anciãos. Por aqui, nada. Sai notícia em caracteres pequenininhos.
Será no intuito de manter esse estado de coisas que o andar de cima se interessa tão pouco pela Instrução Pública?
Escrituras no Morro do Alemão
Há duas semanas, como parte do Programa Solo Seguro, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 títulos de propriedade a moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. (Naquele cenário, em 2011, foi instalado o espetáculo do teleférico que custou R$ 210 milhões. Ficou sete anos parado e seria reaberto no início deste mês. Tudo bem, o que começa como presepada, como presepada se encrenca.).
A regularização dos lotes onde vivem 180 famílias do Alemão custou três meses de trabalho a 17 pessoas: duas da Corregedoria, cerca de 12 da Prefeitura do Rio e três do cartório de registro de imóveis. A impressão das escrituras deve ter saído por uns R$ 2 mil. Só.
(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 17 dez° 2023 n’O Globo.
Bill Gates e o SUS
Passou debaixo do radar um artigo que saiu semana passada na Folha de SP. O escrito trata dos comentários feitos por Bill Gates em suas páginas nas redes sociais.
Como se sabe, Mr. Gates é o fundador da Microsoft. Hoje, à beira dos 70 anos, está afastado da firma que criou. Além de bilionário – ou talvez por causa disso –, ele aparece entre os maiores filantropos de todo o mundo.
Em 2000, cedeu 5 bilhões de dólares de sua fortuna pessoal para criar a Fundação Bill & Melinda Gates. Ao longo dos anos, a dotação inicial cresceu até atingir cerca de 35 bilhões de dólares, capital que hoje sustenta a Fundação.
A instituição dedica-se a financiar grandes causas, sobretudo ligadas à saúde mundial. Aids, tuberculose, malária e poliomielite estão entre suas áreas de atuação. Bill Gates soube direcionar sua imensa fortuna para amparar causas que países pobres, sem ajuda, não conseguem cuidar.
Voltemos aos comentários do filantropo. Foram elogios rasgados endereçados ao SUS, o Sistema Único de Saúde brasileiro. “Nenhum país é perfeito, mas o Brasil é a prova do que acontece quando um país investe no cuidado com os mais vulneráveis: o retorno tende a ser grandioso” – foi uma de suas frases, postadas no Instagram. Mr. Gates ainda anexou um gráfico sobre a queda nos índices de mortalidade infantil no Brasil.
E seguiu, admirativo: “Em cerca de 30 anos, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade materna em 60% e diminuiu a mortalidade infantil em 75%, o que supera amplamente as tendências mundiais. Ainda por cima, aumentou a expectativa de vida de seu povo em cerca de dez anos.”
Bill Gates foi mais longe em seus posts. Deu uma rápida visão geral sobre a criação do SUS no fim dos anos 1980. A par disso, saudou a grande ideia de estarem atualmente em atividade 286 mil agentes comunitários de saúde, disponíveis para quase 70% dos brasileiros.
O filantropo, habituado a operar em países em que o Estado é inexistente ou quase, revelou sua admiração pelos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que ajudam a extrair famílias da miséria negra e que são responsáveis pela diminuição da mortalidade infantil.
Seria o caso de o governo propor a Bill Gates participar de uma campanha institucional do SUS, como tantos programas de autolouvação que costumam ser montados. Talvez ele aceite, não custa tentar.
O artigo original está aqui (para assinantes da Folha de SP).
Frase do dia – 571
Imagem roubada
José Horta Manzano
Uma imagem roubada da tela do celular do senador Sergio Moro foi estampada na manchete de toda a mídia. A foto, tirada durante a sabatina de Flávio Dino, eterniza uma conversa entre Moro e um correpondente misterioso identificado como “Mestrão”. (De lá pra cá, já foi identificado, mas não vem ao caso.)
Moro acabava de dar um abraço em Dino diante das câmeras que transmitiam ao vivo. Logo depois, “Mestrão” envia mensagem a Moro para prevenir que “o coro está comendo nas redes” e que não convém publicar declaração de voto a favor do sabatinado, sob pena de espichar o assunto e perder o controle da situação. Foi nessa altura que a foto foi tirada.
Os dois devem se conhecer bem, dado que “Mestrão” chama o senador pelo prenome e o trata por ‘você’. Um detalhe: “Mestrão” põe vírgula depois do vocativo, mostrando que pelo menos completou o ensino médio.
Dia seguinte, diversos articulistas da grande mídia comentaram o ocorrido. “Quem será o Mestrão?” – indaga um deles. “Veja só, o que as redes mandam, Moro faz” – se surpreende um outro. O que cresceu foi a fofoca. Me lembrou os mexericos da Candinha.
Não me lembro de ter visto nenhum articulista preocupado com a licitude da imagem. Tirar uma foto por cima dos ombros de alguém, captar um trecho de conversação particular e espalhar a imagem me parece configurar um ilícito. No mínimo, é violação de correspondência. É como abrir (e ler) a carta do vizinho. (Hoje já ninguém manda carta, mas o princípio continua de pé.)
Quem agiu assim fez exatamente o que se acusa Moro de ter feito: escarafunchar a intimidade de seus investigados para melhor acusá-los.
Não sou fã de Sergio Moro, personagem pouco recomendável a meu ver. Mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
Neste caso, é outra coisa.
X, antigo Twitter
José Horta Manzano
Só conheço o X (antigo Twitter) de ouvir falar. Não sou de “seguir” gurus nem personalidades; tampouco sinto necessidade de apregoar, a cada instante, os pensamentos que me passam pela cabeça.
Tenho acompanhado a turbulência que sacode a plataforma desde que um multibilionário tornou-se proprietário dela. Pelas notícias que leio, a impressão que me dá é que a curiosa intenção do milionário é destruir a empresa. Ele age aos trancos, um pouco hoje, um pouco amanhã, sempre no modo “tiro no pé”. Difícil de entender.
Alguns meses atrás, o grande golpe foi trocar o nome da empresa. O rapaz jogou no lixo a marca Twitter, implantada e conhecida no mundo todo. Em seu lugar, botou “X”, nome sem graça, banal, que se pronuncia de maneira diferente em cada língua. A meu ver, uma decisão desastrosa.
E parece que não sou o único a reprovar a troca de nome. No mundo inteiro, em todas as línguas, a mídia, quando se refere a essa plataforma, continua a dizer “X, antigo Twitter”.
Não sei se fazem isso preocupados com a boa compreensão ou se estão mesmo é dando um chute na canela do bilionário. Seja qual for a razão, a conclusão é a mesma: os usuários não aprovaram a mudança.
Vamos ver qual é a próxima extravagância do ricaço.
Os exemplos abaixo foram todos publicados meses após a mudança de nome.
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