Eleições na Indonésia

Eleições indonésias: transporte das urnas após encerramento da jornada eleitoral

José Horta Manzano

Quarta-feira passada, os eleitores indonésios foram convocados para votar nas eleições gerais. Quem não tem grande informação sobre o país pode calcular o tamanho do enrosco pelos seguintes números:

● 200 milhões de eleitores

● 820 mil seções eleitorais

● 10 mil candidatos para ocupar:
     – 580 cadeiras de deputado
     – 152 cadeiras de senador

● 38 províncias e 416 distritos elegem prefeitos e vereadores.

Dado que o país é um imenso arquipélago, as urnas tiveram de ser entregues a seções eleitorais espalhadas por 6 mil ilhas, ilhetas e ilhotas. Viajaram de barco, de caminhão, de canoa e até de carro de boi.

Na Indonésia, vota-se em imensas cédulas de papel, coloridas, dobráveis, com o nome e a foto dos candidatos. O voto é demorado, visto que cada eleitor leva um certo tempo até encontrar seu(s) candidato(s) preferido(s).

Encerrada a eleição, as urnas percorrem o caminho inverso, de carro de boi, de canoa, de caminhão e de barco até chegarem a um centro de apuração, geralmente situado num grande estádio coberto.

As apurações começaram no dia seguinte. Correndo tudo bem, devem terminar daqui a um mês, em março. Sublinho: se tudo correr bem.

Não sei quem fabrica nossas urnas eletrônicas mas, seja que firma for, me parece que estão marcando bobeira. O que é que estão esperando pra convencer os dirigentes daquele país de que chegou a hora de entrar no século 21? Às favas esse voto pré-histórico!

A perspectiva é de comercializar um milhão de urnas! Em vez de ofender gregos e troianos a todo instante, o Lula utilizaria melhor seu tempo vendendo tecnologia made in Brazil. A experiência de terreno é genuinamente verde-amarela.

Prisão de segurança máxima

José Horta Manzano

Talvez seja ainda um pouco cedo para apontar o dedo, mas algo me parece esquisito nessa fuga de dois presos da Penitenciária Federal do Rio Grande do Norte. Quando a esmola é muito grande, o santo desconfia – é o que se costumava dizer na minha terra. No presente caso, a esmola que os fujões receberam é pra lá de enorme.

Alguns pontos acusam a própria concepção do presídio. Vamos ver. Vinte e cinco anos atrás, um cunhado meu que morava numa casa em São Paulo decidiou instalar um sistema de alarme antirroubo. Um dos pontos frágeis assinalados pelo técnico foi o teto de madeira de casa antiga. Pra evitar que um eventual assaltante entrasse pelo telhado, foi instalada uma rede de fios finíssimos encostados à superfície do teto. Com isso, caso um ladrão invadisse o forro e tentasse entrar na casa fazendo um furo no madeirame, o alarme soaria imediatamente.

Ora, entendi que os presos da penitenciária federal saíram “fazendo um furo no teto” da cela para chegar ao andar superior, que era justamente a área de banho de sol. É de crer que uma superfície que serve de área de lazer há de ter um piso de concreto reforçado. (Fica pra ser explicado como cada um conseguiu perfurar, no teto de concreto de sua cela, um círculo permitindo a passagem de um homem.)

Se meu cunhado, um quarto de século atrás, conseguiu quem lhe instalasse um sistema simples, consistindo em uma tela de fios, me pergunto como é que um presídio de segurança máxima não dispunha desse dispositivo. O teto das celas está à disposição do primeiro que se dispuser a fazer um furo. Impressionante. Falha de concepção?

Tem um detalhe que me deixa intrigado: é a presença de um alicate “esquecido” nas obras em curso na área de banho de sol. Estamos falando de um objeto de tamanho extra grande, capaz de cortar as malhas de um alambrado. Primeiro, o que faz um objeto desses numa obra? Segundo, como é possível que um funcionário “esqueça” um trambolho desses assim, sem mais nem menos, num local utilizado pelo detentos para exercitar as pernas? Considere-se que um objeto pesado de ferro, como um grande alicate, pode perfeitamente servir de arma mortal. É inconcebível esse tal “esquecimento”.

Ainda tem muita coisa pra explicar nessa história. Enquanto isso, fica parecendo que alguém abriu a porta da cadeia e convidou dois dos hóspedes a dar um passeio lá fora.

Lula no Egito

José Horta Manzano


“A única coisa que se pode fazer é pedir paz pela imprensa, mas me parece que Israel tem a primazia de descumprir, ou melhor, de não cumprir nenhuma decisão emanada da direção das Nações Unidas”


O texto acima faz parte da declaração dada por Lula no Egito, país onde foi fazer turismo no Complexo de Gizé para visitar as pirâmides. No segundo dia, aproveitou para se encontrar com o ditador de turno, um senhor sorridente que leva o vistoso nome de Abdul Fatah Khalil al-Sissi.

Luiz Inácio se esmerou no discurso, falou bonito, usou até o verbo emanar, mas tropeçou na hora de escolher uma palavra para expressar a liberdade que as Nações Unidas dão a Israel para fazer o que quiser.

Disse que Israel tem a primazia de descumprir ordens da ONU. Primazia é superioridade, competência, excelência de algo ou alguém. Certamente não é o que Lula queria dizer. Ele quis sublinhar a licença especial que, segundo ele, Israel tem para dar de ombros às determinações onusianas e agir como bem entende.

Em vez de primazia, tinha a escolha entre uma dezena de termos:

  • Licença (como citado acima)
  • Consentimento
  • Permissão
  • Privilégio
  • Anuência
  • Direito
  • Apanágio
  • Regalia
  • Carta-branca

A lista não é extensiva. Há outras palavras ainda. Ficam para a próxima, não é, senhor Presidente?

Lembre-se de que quem usa “emanar” não pode escolher termo inadequado no mesmo discurso, pior ainda, na mesma frase. Se não, vão acabar pensando que o discurso foi escrito por outra pessoa. O que cai mal, francamente.

Pronto, poluímos a Lua: 227 toneladas de lixo já se acumulam por lá

André Masson (*)

Algumas criaturas são tão imundas que põem em perigo a própria saúde. Os seres humanos estão claramente destinados a ser tão sujos que vão alterar o curso geológico dos planetas. Como relata o site The Conversation, investigadores da Universidade de Brock (Ontário, Canadá) avisam que, no que diz respeito à Lua, a era humana já começou – e não no bom sentido.

A NASA estima que cerca de 227 mil quilos de material tenham sido deixados na Lua pela atividade humana. Esse lixo inclui veículos lunares, mas também bandeiras, bolas de golfe, estátuas, cinzas humanas, excrementos e todo tipo de objetos.

Até hoje, apenas doze homens pisaram a Lua – e lá não fizeram grande coisa. E isso resultou em 227 toneladas de resíduos. Christine Daigle, Jennifer Ellen Good e Liette Vasseur, três professoras de filosofia, comunicação e biologia da Universidade de Brock, respectivamente, estão analisando o impacto que terá a colonização humana do satélite natural da Terra.

Não é instalando estações tripuladas permanentes e enviando turistas (não particularmente conhecidos por serem mais limpos que os astronautas) que deixaremos o local nas mesmas condições em que o encontramos.

Esse impacto, ainda que esteja atualmente limitado à superfície da Lua, pode evoluir. A NASA acredita que a Lua encerra recursos no valor de centenas de bilhões de dólares, incluindo terras raras, essenciais para nossos equipamentos eletrônicos, e hélio-3, um isótopo de hélio procurado pelas suas aplicações na fusão nuclear.

A era dos humanos
As três pesquisadoras da universidade canadense indicam que essas centenas de toneladas de lixo são o início de uma nova era geológica para a Lua: a que verá a atividade humana mudar o destino de nosso satélite natural. Para ilustrar a repetição de um fenômeno que já está em curso na Terra há várias décadas, as autoras do artigo falam de “Antropoceno Lunar”, termo introduzido por um estudo científico publicado em dezembro de 2023 na revista Nature.

Para um planeta como a Terra, trata-se da era dos humanos, o que não é necessariamente uma boa notícia. O Antropoceno é um novo período geológico influenciado mais pela humanidade do que por forças geofísicas. Constata-se que a Terra está entrando nessa era há algumas décadas e a Lua parece estar seguindo o mesmo caminho.

Próximo objetivo: emporcalhar Marte.

(*) André Masson (1950-), economista francês, é diretor de pesquisa na Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais, Paris.

Odette Roitmann

by Igor Dantas, desenhista mineiro

José Horta Manzano

As investigações em torno da quadrilha instalada no Planalto nos tempos do capitão estão apertando. A conspiração se desvenda cada dia um pouco mais e o nome dos bois começa a aparecer. A boiada começa a passar. Por ironia, tudo lembra muito o auge da Lava a Jato, quando as estrelas Moro e Dall’Agnol concentravam a luz dos holofotes e os criminosos, um a um, iam sendo mandados para a Papuda.

Quanto aos conchavos bolsonáricos, a história completa ainda está por ser escrita. Todo bom romance tem de ir até o fim – não termina enquanto a trama não estiver totalmente desenrolada. Em nosso atual “Quem matou Odette Roitmann”, não basta saber quem deu o tiro. Também tem de ficar claro quem comprou a arma, quem adiantou o dinheiro, quem pagou pela munição, quem carregou o revólver, quem catou o cartucho caído no chão, quem escondeu a arma depois de consumado o crime. Tudo tem de ser apurado, nenhum figurante deve escapar “duela a quién duela”, como disse uma vez o ilibado presidente Collor.

Nesta altura dos acontecimentos, ninguém está em condições de contar o drama de A a Z – com exceção dos personagens, evidentemente. Tenho lido numerosas análises da novela. Mas todas só vão até o capítulo atual, sem arriscar palpite sobre o que virá. Todas, não. Encontrei uma, uma apenas, que não só conta o fim de Odette Roitmann como também dá o nome do assassino e dos cúmplices.

Falo do artigo que o Estadão publicou ontem, assinado pela competente jornalista Eliane Cantanhêde. Com boa visão de conjunto e espírito de síntese, a autora dá sua visão do desenrolar do drama daqui para a frente. Vale a pena dar uma olhada.

Copiei e ponho aqui ao dispor dos corajosos leitores que preferiram abondonar o Bloco do Mamãe eu Quero para ler estas linhas. Fica aqui meu agradecimento.

Virada de Mesa.

Um reparo

José Horta Manzano

Faz mais de ano que jornalistas, analistas e comentaristas vêm falando em “tentativa de golpe” quando se referem à sequência de acontecimentos preparados durante o governo do capitão e que culminaram no 8 de janeiro.

Tenho um reparo a fazer. Pelo que as investigações têm deixado cada dia mais claro, estão errados os que falam em “tentativa de golpe”. Não era uma tentativa, mas um golpe de verdade! O chato (para os arquitetos da manobra) é que não deu certo, o navio fez água e a vaca foi direto pro brejo.

Melhor então falar em “golpe fracassado”. Quem preferir, pode usar outro termo: golpe malogrado, abortado, frustrado, falhado. Acho que “gorado” cai como luva. Na verdade, chocaram o ovo sem perceberem que ele não estava fecundado. Resultado: gorou.

Tentativa é que não foi. Naqueles tempos obscurantistas, todos os atores estavam convencidos de estar trabalhando para um golpe com G de general, grandioso, glorioso e ganhador. Na cabeça daquela gente desmiolada, o futuro estava garantido.

Vamos de “golpe gorado” mesmo.

Brasil invadido

José Horta Manzano

O site britânico Statista publica bons mapas históricos. Num artigo de 2021, informa, com indisfarçado ufanismo very British, que, entre os quase 200 países do globo, somente 22 nunca foram invadidos pela Grã-Bretanha. Acompanha um mapa-múndi com os continentes recobertos de azul-marinho (os países invadidos pelos ingleses) e umas manchas de cor cinza, aqui e ali, indicando aqueles que nunca foram invadidos. (Veja ilustração.)

Pensei que, se eles afirmam isso, deve ser verdade. Mas não me lembrava de ter ouvido falar de invasão de ingleses em Pindorama. A única ocasião em que, assim por dizer, britânicos puseram os pés em terras nossas com o fim de tomar posse delas aconteceu na passagem do século XIX para o século XX.

Como sabemos, as Ilhas da Trindade e Martim Vaz hoje fazem parte do estado do Espírito Santo. Mas nem sempre foi assim. Até os anos 1890, nenhum país havia se preocupado em tomar posse do arquipélago. Desabitadas e inóspitas, as ilhas eram terra de ninguém.

Foi quando, em 1893, um sujeito bastante original, de nacionalidade americana, desembarcou em Trindade e fez saber ao mundo que ele era o dono do pedaço. Aquela minúscula ilha havia de se tornar ‘ditadura militar’ submetida a seu comando pessoal. O nome do novo país seria Principado de Trinidad (sic) e ele, o dono, seria conhecido como James I, Príncipe de Trinidad.

A declaração ecoou em Londres e no Rio de Janeiro e soou alarme vermelho. De fato, os britânicos, no auge de seu poder marítimo, entendiam que o local era ideal para instalar uma estação telegráfica. Quanto ao Brasil, considerava que Trindade era parte integrante do território nacional desde a época do descobrimento.

Os britânicos foram os primeiros a acudir ao arquipélago. Com o pretexto de estudos de astronomia, desembarcaram e detiveram o “príncipe”. A partir daí, começou a disputa entre a Inglaterra e o Brasil pela posse das ilhas. A questão não levou muito tempo para se resolver, dado que o interesse inglês não era particularmente forte. Ao final de tratativas diplomáticas, o arquipélago foi atribuído ao Brasil.

Esse é o único episódio em que o olho gordo dos ingleses “invadiu” território nacional. Não me ocorre outra ocasião. Se algum leitor souber de outra invasão britânica, me avise por favor.

Bom, o mapa está aí para a apreciação de vosmicês. Não sou o autor da ideia nem do grafismo. Estou vendendo o peixe pelo mesmo preço que paguei.

Fila da fome

Fila da fome
Buenos Aires, 5 fev° 2024

José Horta Manzano

Quinta-feira passada, os deputados argentinos debatiam a aprovação de um pacote de reformas apresentadas pelo presidente Javier Milei. O angustiante contexto é um país com inflação anual de 211% (pelos dados oficiais, nem sempre confiáveis). Como consequência direta, 45% dos habitantes estão abaixo da linha de pobreza.

Enquanto os parlamentares negociavam, um grupo de pessoas se dirigiu ao Ministério de Capital Humano para reclamar do corte de verba destinada a restaurantes comunitários.

A ministra veio em pessoa atender aos reclamantes. Vendo que não passava de um grupinho pequeno, pensou num jeito de resolver o problema. Perguntou: “Gente, vocês estão com fome?”. Sem lhes dar tempo de responder, emendou: “Venham um por um que vou anotar o n° do documento de identidade, o nome, de onde vem, e vão receber ajuda individualmente.”

A ministra não imaginou em que arapuca estava se metendo. O fato é que sua proposição extravazou do grupinho de reclamantes. A voz correu e logo todos os pobres de Buenos Aires (teoricamente 45% da população) já ficaram a par.

A proposta da ministra foi tomada ao pé da letra. Ontem, segunda-feira, os sem-dinheiro formaram a chamada “Fila da fome”. Foram milhares de participantes. A fila começava na porta do ministério e continuava por 30 quarteirões, visão impressionante.

Cartazes reclamavam: “Comer mal adoece”, “Emergência alimentar já!”, “Com a fome do povo não se negocia”, “No restaurante comunitário falta comida para as crianças”. E assim por diante.

Todos esperavam ser atendidos pela ministra, que não recebeu ninguém, com a desculpa de que “nenhum deles tinha agendado encontro comigo”.

Nossos políticos têm sorte de os brasileiros serem menos enfezados e reativos do que os hermanos. Por aqui, um ou outro é incomodado no avião ou no restaurante – coisa feia, rebotalho dos tempos do capitão, mas sempre menos visível que uma fila de três quilômetros de gente sacudindo cartazes.

De qualquer maneira, nem fila nem agressão verbal a políticos resolve problema nenhum. O único instrumento que tem o poder de mudar as coisas é o voto. Não adianta votar mal e, em seguida, xingar político ou fazer fila na rua portando cartaz com rima.

Mas que ninguém se preocupe. Votar mal e reclamar em seguida não é exclusividade destes pagos – no mundo inteiro é igual.

Curtidas e likes

O Globo, 3 fev° 2024

José Horta Manzano

Leitores poderão até reclamar que estou me preocupando com coisa de pouco interesse para cidadãos equilibrados. Respondo que não se trata realmente de preocupação, estou é curioso com os comos e os porquês. Mas vamos aos fatos.

Dona Marta Suplicy, que no mês que vem completa 79 aninhos (nem parece!), mudou de partido e voltou ao PT que havia abandonado 9 anos atrás. Por que voltou? Terá mudado o PT ou terá mudado ela? Ninguém sabe. Voltou explicando: “Sou petista raiz”. (Se for verdade, por que, diabos, abandonou seu partido de coração?)

A razão oficial da volta é conhecida: Madame vai se candidatar a vice-prefeita da capital paulista na chapa do sulfuroso Guilherme Boulos. O motivo verdadeiro do passo ousado é menos comentado. Por que razão uma senhora com currículo exuberante – já foi deputada federal, ministra do Turismo, ministra da Cultura, senadora, vice-presidente do Senado e prefeita de São Paulo – se rebaixa, em fim de carreira, a candidatar-se a substituta do prefeito, cargo de importância secundária?

Que o Lula, aos 77 anos, tenha se arriscado a tentar reconquistar o cargo de presidente, dá pra entender. Afinal, ele queria provar a si mesmo (e ao mundo) que a prisão não tinha acabado com ele. Era pra ser a grande revanche do tipo: “Quiseram me enterrar? Não conseguiram!”. Na verdade, acredito que Luiz Inácio teria se contentado com os louros da vitória, sem o ônus de ter de batalhar quatro anos no cargo de presidente. Depois de subir a rampa, foi-se o sossego e o Lula se tornou prancha de tiro ao alvo – recebe zilhões de críticas e reclamações todos os dias.

Tornar-se famoso e conhecido por amplo público é sonho de muita gente. A vida moderna oferece numerosas possibilidades de chegar lá. Redes sociais, BBBs, canais de influenciador(a) estão aí pra gerar ‘likes’ pra quem quiser. Hoje em dia, cidadão que não consegue um punhado de curtidas por dia sente-se como o infeliz que “passou pela vida, não viveu”.

Na minha humilde opinião, dona Marta (do PT, como dizia Maluf) já é dona de uma robusta coleção de ‘likes’, granjeados durante as décadas que passou na política. Acredito que candidatar-se, a esta altura dos acontecimentos, ao posto mais insignificante de sua vida política não vai glorificar seu currículo.

Se perder a eleição, pior ainda.

As aparências não enganam

Eduardo Affonso (*)

Causou espanto ao senador Flávio Dino, iminente ministro do STF, o rebaixamento do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional. Depois de qualificar o relatório como “atípico e anômalo”, com “afirmações exóticas”, Dino incorporou o estilo da saudosa mulher sapiens, hoje presidenta do banco do Brics, Dilma Rousseff:

— O que mudou é que nós pusemos fim à política de espetacularização do combate à corrupção, que é uma forma de corrupção. Quem usa corrupção como forma de combate à corrupção, como bandeira política, é tão corrupto quanto o corrupto.

(Só com essa declaração, o Brasil deve ter galgado 10 postos no Índice de Corrupção da Diversidade Vocabular.)

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.
O texto é trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

Karma

by Carol “Cospe Fogo” Andrade (1983-2023)

José Horta Manzano

Tem gente que acha isso bobagem; outros juram que é verdade. O Brasil tem um carma pesado. Será? A palavra vem do sânscrito, o ‘latim da Índia’, considerado língua-mãe de praticamente todos os falares europeus.

Quer se escreva com k, quer com c, o carma guarda, em todas as línguas, o sentido original que lhe dão os hinduístas. Admitido o princípio da reencarnação, é possível entender a formação do carma individual, a acumulação de fatos e gestos ao longo das vidas passadas. Já o carma de um país me escapa. Dado que países não morrem nem reencarnam, como é que se construiria esse acúmulo de experiências?

Assim mesmo, muitos dizem que sim, que cada país tem seu carma. Será o carma da existência única, imagino. Se assim for, fica confirmado o que escrevi dois parágrafos atrás: o Brasil tem um carma pesado.

Parece que, em vez de evoluir, nosso país involui, regride, anda pra trás. Tomemos a Educação. Cinquenta anos atrás, metade da população era analfabeta. Em compensação, os que tinham a sorte de frequentar a escola recebiam instrução de qualidade bem superior ao que se vê atualmente. Era uma época em que professor ensinava e aluno aprendia. Hoje, há quantidade de doutores diplomados incapazes de compreender um texto simples.

Na política, a involução também é notável. Em 1949, o deputado Barreto Pinto foi cassado por seus pares – nada de intervenção do STF. Seu crime? Numa uma entrevista à revista O Cruzeiro, apresentou-se vestido de fraque (paletó tipo ‘rabo de andorinha’, camisa e gravata), mas sem calça (só de cuecão samba-canção). Em sua defesa, alegou ter sido enganado pelo jornalista, que teria garantido que a foto só ia aparecer da cintura para cima. A desculpa não convenceu a comissão de ética. Perdeu o mandato por quebra do decoro parlamentar.

Poucos anos atrás, um certo Chico Rodrigues, senador da República, estava para embarcar num avião. Os federais detectaram um volume estranho no seu traseiro. Na revista, descobriu-se que ele carregava na cueca grande quantidade de notas de dinheiro, algumas enfiadas naquele lugar normalmente utilizado como porta de saída, não de entrada. Investigado, pediu licença do cargo. Depois de meses afastado, foi voltando aos poucos e continua por aí, transitando por palácios, sem ser incomodado.

Então, as coisas mudaram ou não? Sim, é certo que mudaram. E pra pior!

O povo brasileiro está precisando de aulas que ensinem a viver em sociedade. Já que a meninada nem sempre aprende essas coisas em casa, cabe à escola ensinar o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode. A impressão que se tem é de que muito brasileiro de hoje não tem essas noções. Pode parecer bizarro, mas não vejo outra explicação.

Quando bandido atual se esconde, não é por sentir vergonha pelo que fez, mas por medo da polícia. Ninguém mais é honesto por acreditar no valor da honestidade; boa parte dos brasileiros de hoje são honestos porque têm medo de ser apanhados com a boca na botija. Não fosse isso, ninguém os seguraria.

Pra mim, pessoalmente, esse estado calamitoso de dissolução da sociedade não tem grande importância: minha quota já está quase completa. Mas para vocês, mais jovens (ou menos idosos), há de ser preocupante. Mais uma ou duas décadas assim, o karma vai ficar tão pesado que o país vai se desintegrar. E aí, salve-se quem puder.

Tabus religiosos

José Horta Manzano

Faz pouco tempo, ficamos sabendo que um hospital da capital paulista se recusa a oferecer procedimentos médicos que visem à limitação de filhos. Alegando seguir à risca os preceitos da doutrina católica, não inserem DIU nem fazem vasectomia. Quem quiser que procure outro estabelecimento, lá não.

Embora me pareça uma linha de conduta de outras eras, posso até aceitar que, em se tratando de hospital particular, tenham lá suas idiossincrasias. O que me incomoda é o fato de, para esse estabelecimento de saúde, o tabu sexual-religioso se limitar a dois únicos procedimentos médicos: DIU e vasectomia.

A lista das proibições, pela lógica, não deveria se limitar a essas duas intervenções. Há outras condições humanas que a Santa Madre Igreja sempre condenou e continua condenando. Por coerência, o pudibundo estabelecimento deveria aplicar os tabus da Igreja em sua totalidade. Vamos ver.

A doutrina católica, embora torça o nariz para o divórcio, costuma olhar para o lado e fingir que não vê; assim, não proíbe a seus fiéis a separação de corpos. Já o recasamento, ó horror!, são outros quinhentos. Nenhum católico tem o direito de se casar em segundas núpcias. Se o fizer, terá de se limitar a fazê-lo no civil, sem véu nem grinalda.

Portanto, nosso pudico hospital, para estar nos conformes com a doutrina, não poderia aceitar pacientes casados em segundas núpcias, dado que vivem no pecado. No limite, podem até ser atendidos em caso de urgência, naturalmente. Para evitar quiproquó, a pergunta sobre eventual concubinato teria de ser feita antes de qualquer internação. É desagradável expulsar pacientes no meio do corredor, a caminho da sala de operação.

A Igreja Católica, que às vezes parece ter empacado no século XIX, põe atos homossexuais no catálogo das aberrações contra a natureza. Repare que, até hoje, não estendem o sacramento do matrimônio a casais do mesmo sexo. No máximo, uma bençãozinha na sacristia, mais nada.

O mesmo rigor, portanto, deveria guiar o comportamento do hospital paulistano. Antes da admissão, a pergunta teria de ser feita a todo futuro paciente: “Vive em concubinato com pessoa do mesmo sexo?”. Em caso de resposta positiva, o cidadão (ou a cidadã) deveria ser gentilmente encaminhado(a) a outro estabelecimento.

Quando se adota a doutrina de determinada fé, deve-se adotá-la por inteiro, com suas larguezas, mas também com suas proibições e seus tabus.

Nota
A recusa de efetuar procedimentos de limitação de filhos combinava com o Brasil de 100 anos atrás, vazio, despovoado, uma imensidão que precisava de braços para a lavoura e a indústria balbuciante. Uma natalidade abundante era desejável e desejada. Hoje o quadro mudou.

Com o país povoado por duzentos milhões de conterrâneos, a política natalista saiu de moda. Temos gente suficiente. O que falta é dar saúde e educação a todos a fim de mitigar o abismo entre os que têm e os que não têm nada.

Na contramão do que está fazendo o hospital paulista, procedimentos de limitação de nascimentos deveriam, sim, ser incentivados. E por propaganda institucional.

Gente bem

by Alexandre Cechetto Beck (1972-) desenhista catarinense

José Horta Manzano

Uma vez, quando eu era criança, um coleguinha (ou uma coleguinha, não me lembro bem) me perguntou: “Teus pais são gente bem?”. Não sei se dei alguma resposta, o fato é que não entendi a pergunta. Nunca tinha ouvido a expressão e fiquei com vergonha de perguntar o que era.

Anos mais tarde, aprendi que gente bem são os cidadãos que pertencem à alta sociedade, à elite. São os “bem-nascidos”.Se assim for, minha resposta teria sido “Não, meus pais não pertencem à alta sociedade”.

Em 1957, a cantora Dolores Duran lançou um samba composto por Billy Blanco, bem chacoalhado, chamado Estatuto de boate. Começava assim:

Gafieira de gente bem é boate
Onde a noite esconde a bobagem que acontece
Onde o uísque lava qualquer disparate
Amanhã, um sal de fruta e a gente esquece

Faz tempo que não ouço essa expressão “gente bem”. Acho que envelheceu, foi aposentada e hoje goza de merecido repouso na gaveta do esquecimento.

Por seu lado, há outra, bem parecida, mas de significado diferente. É gente de bem. Essa, parece, surgiu durante o regime militar, lá pelos anos 1970. Incentivada sabe-se lá por quem, estigmatizava todo oponente à ditadura. Gente de bem era o cidadão ‘normal’, de bons costumes, vida regrada, se possível cristão e, sobretudo, apreciador do regime (ou, pelo menos, conformado de viver numa ‘democracia relativa’). Quem não fosse gente de bem levava, fácil fácil, o carimbo de terrorista.

Aqueles tempos sombrios passaram. Faz alguns anos, porém, um cidadão egresso das trevas decidiu reativar aquela expressão velhusca e dar-lhe uma segunda vida. A expressão é gente de bem e o cidadão, Jair Bolsonaro. Em suas falas, volta e meia o capitão soltava um “gente de bem” ou, melhor ainda, um “cidadão de bem”. O novo significado, sem surpresa, é bem próximo do que vigorava nos tempos ditatoriais: o cidadão de bem é aquele que adere à tortuosa ideologia da extrema direita ou, pelo menos, que se resigna calado.

O antigo “gente bem” passou. O “gente de bem” da ditadura também se foi. O “cidadão de bem” bolsonárico já está passando.

Tudo passa. Amanhã, um sal de fruta e a gente esquece.

À guisa de conclusão

Bolívar Lamounier (*)

É difícil dizer o que é pior: dois grandes partidos abandonando sua tradicional moderação, como se vê atualmente nos Estados Unidos, ou um país virtualmente sem partidos, como é atualmente o Brasil, onde o que vemos é um conglomerado disforme que atende pelo nome de Centrão. Num caso ou noutro, o que precisamos ter em mente é que, com nossa renda por habitante crescendo a taxas anuais pífias, não está à vista o dia em que poderemos celebrar a superação da “armadilha do crescimento médio”. Bem ao contrário, outro confronto vitriólico como o de 2022 entre Lula e Bolsonaro nos afundará mais alguns degraus no fundo do poço.

Não descabe lembrar que não é só de partidos políticos que o Brasil carece. Não dispomos de uma elite no sentido apropriado deste termo: um grupo relativamente numeroso, competente, culto e genuinamente devotado ao bem coletivo. Temos, isto sim, um exíguo grupo de poderosos, dentre os quais seis ou sete por cento exercem um controle imexível sobre metade da riqueza nacional. Falta-nos igualmente uma classe média, ou algumas camadas que possamos designar como alta classe média, capaz não somente de identificar e defender seus próprios interesses, mas também de servir como um muro de arrimo, escorando e balizando as instituições da República, nos Três Poderes.

(*) Bolívar Lamounier é sociólogo e cientista político.

Trecho de artigo publicado no Estadão. 

Terceira Guerra Mundial?

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 25 janeiro 2024

Sir Winston Churchill foi o líder que conduziu a Grã-Bretanha à vitória na Segunda Guerra Mundial. Em 1945, encerradas as hostilidades, candidatou-se à reeleição como Primeiro Ministro mas seu povo retribuiu com pesada ingratidão: não o reelegeu. Decerto amargurado, Churchill aceitou com alegria o convite que lhe fez Harry Truman, presidente dos EUA, para visitar o país no ano seguinte.

Naquela época, forasteiro vindo de longe costumava fazer estada de vários dias. Sem saber direito como preencher o tempo em que o inglês estava de visita, o presidente Truman convidou-o para comparecerem juntos a uma cerimônia em Fulton, explicando que Missouri era seu estado natal, uma linda região. Churchill, ainda ressentido com a ingratidão dos britânicos, teve gosto em aparecer ao lado do presidente americano.

Cidadezinha do Meio-Oeste americano, Fulton nunca tinha vivido um evento histórico como o daquela primavera. E nunca mais voltaria a presenciar nada de tal importância. Ninguém imaginava que ali, num acanhado instituto de ensino, o visionário inglês havia de traçar as fronteiras do novo mundo que estava surgindo.

Naquele 5 de março de 1946, Sir Winston fez um de seus mais famosos discursos: “From Stettin in the Baltic, to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has descended across the continent” (De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente). O pronunciamento entrou para a História como o “Discurso da Cortina de Ferro”.

De fato, nenhuma expressão mais adequada poderia ter sido inventada para descrever a linha de demarcação entre o mundo capitalista, capitaneado pelos EUA, e o mundo comunista, que orbitava em torno da União Soviética. A expressão Cortina de Ferro entrou para o vocabulário comum e permeou os 50 anos seguintes. Foram décadas durante as quais o mundo viveu à beira de uma guerra nuclear entre Washington e Moscou, um conflito que, tivesse estourado, poderia ter significado a extinção da vida no planeta.

Mas a guerra, como se sabe, não aconteceu. A humanidade roçou a beira do abismo, como em 1960, quando um avião espião americano foi abatido sobre território soviético. Ou então quando da crise dos mísseis russos instalados na ilha de Cuba, em 1962. Embora EUA e União Soviética tivessem, cada um, arsenal capaz de aniquilar a vida no planeta, a temida guerra não aconteceu.

A explicação está justamente na potência bélica dos adversários. O fato de Washington e Moscou disporem ambos de força terrível não aumentou o risco de guerra. Pelo contrário, o temor reverente que mutuamente se inspiravam, de certa forma, os igualou. Cada uma das duas potências estava ciente de que, se ousasse atacar, a resposta viria, devastadora.

De uns anos para cá, temos visto forte expansão do poderio chinês. O incremento das forças chinesas, porém, não tem diminuído o potencial bélico dos EUA, que permanece no patamar em que sempre esteve. A Rússia, que não conseguiu quebrar a espinha da vizinha Ucrânia em dois anos de guerra, mostra falta de vigor no corpo a corpo, mas continua dona do maior arsenal atômico do planeta.

Bem recentemente, chegam informações de que o Irã está prestes a se inscrever no clube das potências atômicas, que o Japão já possui tecnologia para mandar foguete à Lua, que os mísseis dos guerrilheiros Houthis (Iêmen) já conseguem causar danos a navios de passagem, que a Otan acaba de organizar os mais importantes exercícios militares conjuntos desde o fim da Guerra Fria, que o Irã lançou estes dias seu primeiro satélite de órbita elevada, que a Europa dobrou seu orçamento militar.

Muitos entendem que esses sinais de rearmamento são preocupantes, mas acredito que não devemos nos deixar dominar pelo pânico. O crescimento bélico da China, do Irã e de outras praças não tem de ser encarado necessariamente como sinal de agressão iminente. O mais provável é que funcione como contrapeso, como força dissuasora, exatamente como funcionou o potencial atômico dos grandes adversários durante a Guerra Fria. A mensagem tende a ser: “Não se meta comigo porque eu também estou carregando quatro pedras no bolso”. Um mundo com potências bem armadas pode ser a receita do equilíbrio.

“Si vis pacem, para bellum”. Se queres a paz, prepara a guerra – o adágio latino emana de milenar sabedoria.

Se eu morresse amanhã de manhã

Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964)
compositor e jornalista pernambucano

José Horta Manzano

Início de ano é tempo de resenhas. Há listas dos principais fatos políticos do ano que acabou. Há relações dos melhores filmes. Num registro um pouco mais tétrico, há quem leia (e aprecie) o relato cru das piores tragédias dos últimos 12 meses, com número de mortos e feridos e até com vídeos. As músicas mais tocadas do ano também são objeto de resenhas. Há muita gente que busca na rubrica “People” quem se casou com quem, quem se divorciou, quem trocou de cônjuge – casamento e descasamento de astro, estrela e influenciador é sempre mais interessante que o casamento da vizinha.

Sem que eu estivesse à procura, me caiu no colo uma resenha – que proseia e tem feição, ou seja, com som e imagens – dos falecidos em 2023. Está lá uma centena de personalidades. Conheci bem alguns deles e soube de outros só de ouvir falar. Alguns eu nem sabia que ainda estivessem vivos. E há ainda aqueles (muitos) de quem nunca tinha ouvido falar. Mas acho que é normal. Assim como um adolescente de hoje não sabe quem foi Francisco Alves, o rei da voz, nós, os veteranos, temos alguma dificuldade em acompanhar a trajetória artística de um DJ da atualidade.

Me ocorreu que, assim como a imensa maioria dos terráqueos, nunca terei a honra de aparecer em nenhuma resenha póstuma. Devo dizer que esse nunca foi meu objetivo maior. Mas não chego ao pessimismo de um Antônio Maria que, em 1953, escreveu um samba-canção que dizia assim:

Se eu morresse amanhã de manhã
Minha falta ninguém sentiria
Eu seria um enterro qualquer
Sem saudade, sem luto também

Aí, já é fossa demais. O fato é que, tirando personagens públicos, a lembrança dos que se foram só perdura na mente dos que conheceram o falecido pessoalmente. Em princípio, ninguém tem saudade de um antepassado que não chegou a conhecer. Você se lembrará de sua vovozinha e talvez guarde até um sentimento por ela, mas é evidentemente incapaz de se lembrar do avô que era já falecido quando você nasceu.

Então, salvo se trate de personalidade muito famosa, a lembrança de alguém que faleceu segue sempre o mesmo esquema: dura enquanto não se forem todos os que conheceram pessoalmente o falecido. Quando não sobrar mais nenhuma testemunha visual, a lembrança se apagará. Retratos e histórias familiares prolongarão um pouco a memória. Depois disso, o tempo vai fazer sua obra e a lembrança vai virar poeira.

Todos temos de ir embora pra deixar espaço para os que virão. É assim que funciona a natureza.

Campeões do mundo

Tempo gasto diante da tela do celular
(em horas por dia)
clique para ampliar

José Horta Manzano

Quem é que disse que a única área em que os brasileiros são campeões é o agronegócio? Abro parênteses. (Estou aqui rindo sozinho ao lembrar que Elio Gáspari chama os agronegociantes de “agrotrogloditas”.) Fecho parênteses.

Há pelo menos mais um terreno em que os brasileirinhos e brasileirões são campeões do mundo. Como demonstra a ilustração acima, um gráfico publicado no site Datareportal.com mostra o resultado de um estudo levado a cabo em quarenta países importantes. Estudou-se o tempo médio que os cidadãos de cada um desses países gasta todos os dias olhando a tela de seus telefones celulares.

Sabendo-se que a média mundial é de 3 horas e 46 minutos por dia, as diferenças entre países que gastam pouco tempo e os que gastam muito com seus celulares é surpreendente.

Note-se que, quanto mais alto é o PIB do país, menos a população parece se interessar por passar horas navegando. E o contrário é verdadeiro: populações menos afortunadas gastam mais tempo navegando (ou mandando mensagens).

Assim, entre os países estudados, o Japão é o campeão de desinteresse pelo celular. Durante um dia, os japoneses passam apenas 1h e 54min de olho grudado na tela.

Na Europa, há boas diferenças entre países. Os alemães se limitam a 2h 29min por dia, enquanto os portugueses, campeões do continente, gastam 3h 41min do dia na tela.

Os americanos, os chineses e os russos, pouco mais ou menos, estão na mesma faixa, entre 3h 16min e 3h 40min.

Já na América Latina a atração exercida pela telinha parece ser mais forte. Argentina, México, Colômbia e Chile dedicam mais de 4h 30min diárias ao exercício.

E assim chegamos aos campeões do mundo, os povos que, em média, passam mais de 5 horas por dia grudados no celular. Estão no mesmo patamar o Brasil, a África do Sul e as Filipinas. Os três aparecem praticamente empatados, com um score entre 5h 31min e 5h 13min. Alguns diriam que é um verdadeiro despropósito.

Lanço ao ar a dúvida que me assalta.

  • Será que a produtividade nacional é menor por causa do tempo que a populaçâo gasta grudada no telefone?
  • Ou, ao contrário, será que é justamente por falta do que fazer é que a população passa tanto tempo admirando a tela?

Em suma, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?