Gaza: antes e depois

by Patrick Chappatte (1966-) desenhista suíço

José Horta Manzano

A trégua acertada entre Hamas e Israel durou pouco. Já desandou, cada parte atribuindo à outra a quebra do acordo e a retomada das hostilidades.

Aquele bombardeio contínuo, de dia e de noite, que as imagens nos mostram não é efeito especial de filme de guerra. É pra valer. A estimação é que 100.000 (cem mil !) prédios já tenham sido derrubados parcial ou inteiramente.

A britânica BBC publicou algumas fotos tiradas por satélite mostrando o antes e o depois em certas zonas da castigada Faixa de Gaza – território exíguo que abriga mais de dois milhões de pessoas, é bom ter em mente.

Achei bastante instrutivas as imagens em que se pode arrastar um marcador pra ver ANTES e DEPOIS dos bombardeios. Até as escassas plantações estão sendo devastadas.

Se as bombas parassem de cair hoje, anos se passariam até que as culturas fossem reconstituídas. Se já era o caso antes, hoje os gazeus dependem mais ainda da caridade de organizações estrangeiras, sob forma de ajuda alimentar.

Para ver as imagens de satélite, clique aqui.

Argentina e o jogo do bicho

José Horta Manzano

Por motivo de defasagem de fuso horário, não pude esperar acordado até o fim da apuração na Argentina. Logo de manhã, ligo o rádio e fico sabendo que Milei venceu. “Que horror!”, foi minha reação. “Eu é que não teria votado nesse sujeito!”

Terminado o café com pão (sem leite condensado), veio o tempo da reflexão. Os 56% de votos que o homem recebeu – já roçando os 60%! – significam que praticamente 3 em cada 5 eleitores cravaram o nome dele na cédula. Será que 60% dos hermanos são destrambelhados? Será que já se pode antever, qualquer dia desses, a invasão dos palácios governamentais da bela Buenos Aires, por uma turba ensandecida que entra e quebra exigindo golpe militar?

Minha bola de cristal foi pro conserto e me deixou sem meios de adivinhar. Assim mesmo, eu diria que não, que os mileiístas (com o perdão do neologismo) não invadirão palácio nenhum. Se por acaso invadirem, não será pra pedir golpe mas pra pedir comida. E isso só acontecerá se a situação do país se agravar a ponto de criar legiões de esfomeados. (O que não é impossível.)

Eu falava do destrambelho dos hermanos. Não, certamente uma eventual inconsistência cognitiva não afeta um contingente tão enorme no país vizinho. Em outras palavras: não endoidaram de vez.

Antes de julgar, tente se enfiar na pele de um cidadão que vê seu país desmanchando. Com 100% de inflação anual, os preços aumentam todos os dias, ninguém sabe quanto vai receber de salário no fim do mês, compras mais importantes ficam imparceláveis visto que a inflação futura é um jogo de azar e ninguém quer arriscar. Produtos comuns rareiam, falta isto, falta aquilo.

Os que podem, dão adeus definitivo ao país e se mandam para Miami (os mais abastados), ou para a Espanha ou Itália (os demais). Na verdade, grande parte da população da Argentina descende de imigrantes espanhóis e italianos. Pululam empresas especializadas em facilitar busca genealógica e recuperação da nacionalidade dos ancestrais. Quem pode, se inscreve. No país, a coisa está feia e os prognósticos são pessimistas.

De repente, aparece um candidato à presidência, saído do nada, um sujeito de quem pouca gente tinha ouvido falar. Lá vem ele, teatral, agressivo, cheio de energia, com pose de salvador da pátria. Garante que vai demolir e arrasar ‘tudo o que está aí’ pra construir tudo novo. Afirma que vai atrelar a economia do país ao dólar (na Argentina, o doce som da palavra ‘dólar’ cai como carícia aos ouvidos). Assevera, ainda, que o futuro será risonho para todos.

O eleitor argentino, cansado de ver o país governado por corruptos e ladrões incapazes, dificilmente consegue escapar ao canto de sereia entoado por Milei. Ao povo, pouco se lhe dá que as Malvinas (Falkland) sejam ou não argentinas, que isso é coisa do passado. Pouco importa também o fato de Milei “explodir” ou deixar de explodir o Banco Central. Quanto ao Mercosul, ao eleitor, pouco se lhe dá que a Argentina continue ou não no grupo. Na verdade, o que importa a nosso eleitor cansado é que a curva da decadência argentina se inverta e que o futuro venha realmente mais risonho.

Javier Milei promete que assim será. Os demais candidatos não têm alternativa melhor a oferecer se não a continuidade ‘do que aí está’. Os eleitores seguiram a receita ‘Tiririca’: pior que está não fica. Seis em cada dez resolveram tentar. Na minha opinião, não são “mileiístas” de carteirinha. Só jogaram no 14 porque gostam de gato. (E 14 é o grupo do gato.)

Torço para que seja verdadeira a promessa, feita por Milei no discurso de vitória, que a Argentina vai recuperar o brilho, a força, a grandeza e a riqueza de décadas passadas. Será um problema a menos para o Brasil. Nada como ter vizinhos ricos. Dado que dinheiro não compra belas praias ensolaradas de areia fina, os argentinos continuarão sem elas. Isso nos garante a vinda de multidões de turistas (abonados) no verão. Para nossa economia, é melhor que ganhar no jogo do bicho.

O brasileiro não pode atirar a primeira pedra, visto já ter passado recentemente por essa estrada. Aqui vão nossos votos sinceros de que a aventura deles não termine em desastre como aconteceu com a nossa.

Desejamos felicidades a nuestros hermanos!

O Grande Terremoto de Lisboa

José Horta Manzano

O Grande Terremoto de Lisboa está fazendo aniversário: aconteceu dia 1° de novembro de 1755, faz 268 anos. Foi exatamente no dia de Todos os Santos. Está entre os mais mortíferos, destruidores e assustadores que o planeta já conheceu.

Não há informações exatas, que naquele tempo o mundo ainda não tinha os meios que temos hoje de medir e esmiuçar esse tipo de fenômeno. Assim mesmo, estimativas têm sido feitas, que nos dão uma ideia bem próxima da realidade.

Num sismo, a terra treme durante um período curto – de 5 a 30 segundos – que já parecem uma eternidade para quem está sendo chacoalhado. No Grande Terremoto de Lisboa de 1755, o chão teria sacudido por um longo tempo (cinco a dez minutos), duração quase inacreditável. Não sei como esse tempo teria sido medido, numa época em que ninguém portava relógio, mas a estimativa está consignada em alguns documentos.

Estudos recentes indicam que o epicentro (ponto da superfície da Terra situado exatamente acima do ponto de atrito) estava situado ao largo de Lisboa, em pleno Oceano Atlântico. A magnitude do tremor teria sido entre 7,5 e 9,0 na escala Richter, uma tremenda sacudida.

Quando o chão se pôs a tremer, edifícios começaram a rachar e desmoronar. As igrejas, repletas de fiéis que celebravam o dia santo, foram as primeiras a rachar e desabar, matando milhares.

Para escapar, centenas de cidadãos se refugiaram nos descampados à beira do Rio Tejo. Não foi uma boa ideia. Minutos mais tarde, um tsunami com ondas de até 20 ou 30 metros varreu a parte baixa da cidade e engoliu gentes e bens que ali se encontravam.

Acalmado o tremor e recolhido o mar, chegou a vez dos incêndios. Fogareiros, velas e fogões espalhados por toda parte se encarregaram de atear fogo à cidade. As construções, compostas em grande parte por estruturas de madeira, aliaram-se ao material textil para oferecer o combustível necessário às chamas. O fogo se comunicou de uma casa a outra e tratou de destruir o que ainda se mantinha de pé.

Calcula-se que uma terça parte dos habitantes da cidade tenham sucumbido. Numa população de cerca de 300 mil almas, isso dá umas 100 mil vítimas mortais. Quanto às construções, 70% a 80% das edificações de Lisboa foram destruídas.

Foi o terremoto mais mortífero que jamais atingiu uma cidade europeia. Não se tem notícia de algo assim tão violento.

Calcula-se que um fenômeno dessa magnitude tende a repetir-se na mesma região em intervalos de mais ou menos 250 anos. O grande sismo anterior em Lisboa tinha acontecido em 1531, ou seja, 224 anos antes. Do grande terremoto de 1755 até hoje, já se passaram 268 anos.

Em termos estatísticos, o próximo “big one” está para ocorrer a qualquer momento. Resta esperar que as estatísticas estejam enganadas e que nada venha a ocorrer pelos próximos milênios.

Observação 1
O português luso prefere a forma “terramoto”. Em Lisboa (e no resto de Portugal), o termo “sismo” é mais usado que “terramoto”.

Observação 2
A força do tsunami não se restringiu a algumas dezenas de quilômetros em volta do epicentro. O efeito se propagou por todo o Oceano Atlântico, chegando até o litoral norte do Brasil. Há notícias esparsas, registradas em cartas de testemunhas oculares, de alguma destruição em terra brasileira. Esta colônia, então esparsamente povoada, não sofreu catástrofe comparável à de Lisboa. Assim mesmo, que haja havido algum estrago aqui mostra a força gigantesca de um fenômeno capaz de atravessar 7.000 quilômetros de oceano.

Fantasia de Halloween

José Horta Manzano

France Inter, estação de rádio pública francesa, apresenta um programa variado, todas as manhãs das 7h às 10h. Inclui um jornal falado a cada hora, entrevistas, um pouco de música e alguns quadros fixos. No fim de semana, a programação se altera um pouco mas mantém o ritmo variado.

Entre os quadros fixos, está uma rápida crônica de Guillaume Meurice, cômico francês. O rapaz geralmente tece sua fala de um ou dois minutos em torno de um assunto da atualidade.

Domingo passado, no meio de outras gracinhas, ele disse textualmente:


“Halloween está chegando e todo o mundo começa a procurar uma fantasia para assustar. Neste momento, a fantasia de Netanyahu está vendendo bem. É uma espécie de nazista, mas sem prepúcio”.


Os presentes no estúdio da rádio riram, mas houve gente que não achou graça nenhuma. Esse paralelo traçado entre o primeiro-ministro israelense e o nazismo caiu mal na comunidade judaica.

A comparação foi qualificada de “abjecta” por Madame Horvilleur, rabina francesa. “Prepúcio ou não”, ironizou ela, “eu sugeriria que o tempo das crônicas desse senhor fosse circuncidado”. Diversas outras personalidades também manifestaram repúdio à fala do cômico. Algumas vozes lembraram que a comparação havia sido pronunciada numa emissora pública, o que piora a ofensa.

A polêmica cresceu tanto que o ministro francês da Segurança Pública achou bom se manifestar no dia seguinte. Lembrou que, desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel, 819 ocorrências antisemitas já foram registradas na França.

Não disse isso para minimizar as palavras do cômico, mas para ressaltar que, sem querer, o país está sendo envolvido na guerra do Oriente Médio. Um conflito por procuração, em suma.

Nesse particular, o Brasil até que está saindo bem na foto. Os ecos do conflito nos chegam bastante atenuados.

Legalização do aborto

Anos 1970
Simone Veil apresenta sua PEC à Assembleia Nacional (Paris)

José Horta Manzano

A legalização do aborto é tema sensível em numerosas sociedades, especialmente por roçar proibições de caráter religioso. Até cem anos atrás, a interrupção voluntária de gravidez não estava legalizada em nenhum país.

A hoje extinta União Soviética (Rússia) foi a pioneira. Já em 1920, Lenin suprime a penalização do aborto voluntário. Poucos anos mais tarde, em 1936, Stalin, o novo ditador, ressuscita a antiga proibição. Foi somente após sua morte, vinte anos mais tarde, que o aborto voluntário voltou a ser aprovado, para pôr freio à mortandade decorrente dos milhares de abortos clandestinos praticados a cada ano.

Timidamente, outros países foram acompanhando o movimento, autorizando a interrupção de gravidez em casos específicos (estupro, ameaça à saúde da mãe, risco de malformação do feto).

Em 1971, o presidente francês Giscard d’Estaing encarregou Simone Veil, sua ministra da Saúde, de defender a legalização diante do Parlamento. A defesa feita pela ministra foi tão veemente que as câmaras aprovaram o texto por folgada maioria. A nova lei, aprovada em caráter experimental por quatro anos, foi confirmada em 1975 e, com algumas adaptações, está em vigor até hoje.

O governo francês tem acompanhado com preocupação a saga vivida estes últimos anos pelos Estados Unidos nesse campo, com retrocessos fomentados pela Suprema Corte e acatados por estados mais conservadores. Para blindar a lei francesa e evitar que o retrocesso americano aconteça na França no futuro, o presidente Macron está atualmente propondo uma solução preventiva.

Trata-se de um projeto de alteração da Constituição (o que nós chamamos PEC – Projeto de Emenda à Constituição). A intenção é inscrever o direito ao aborto voluntário na Constituição, o que servirá como garantia de perenidade.

Enquanto isso, em nosso país, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não está nem ao menos escrito em lei. Nem em lei nem muito menos na Constituição.

Até hoje, a coisa funciona com base num arreglo patrocinado pelas autoridades judiciárias. Os parlamentares, eleitos para fazer as leis, preferiram se esquivar e deixar que a Justiça resolva por eles. Enquanto isso, se queixam do STF, a quem acusam de “ativismo”. Vá entender.

Suas Excelências, os parlamentares, não têm tempo para gastar com essas minúcias. Cada um deles continua preferindo se dedicar em tempo integral a encontrar novos meios de cavar dinheiro público para sua própria paróquia.

Jabuti francês

José Horta Manzano

A Fifa foi fundada em Paris em 1904. Nos primeiros tempos, não era essa potência financeira que conhecemos hoje. Na época, não havia rádio nem televisão, portanto, alguma parca entrada de fundos se limitava aos anúncios fixos que dão a volta ao campo de futebol. Ao final, eram os próprios países membros que financiavam a instituição, e não o contrário, como é hoje.

Depois da quebra da bolsa de Nova York, em 1929, a situação financeira piorou. Para não desaparecer, a Federação aceitou a proposta da Suíça, que oferecia tratamento fiscal favorável. Deixaram Paris e foram para Zurique, onde estão até hoje.

Só que não está gravado na pedra que a sede da Fifa tem de continuar na Suíça por todo o sempre. Faz tempo que a França está de olho no assunto, com muita vontade de trazer a Federação de volta. Os Jogos Olímpicos, programados para o ano que vem em Paris, abriram boa oportunidade.

Ontem, no finalzinho dos debates da Lei Orçamentária de 2024, um grupo de deputados governistas embutiu um jabuti (com perdão do eco). Trata-se de um artigo que prevê um regime fiscal muito vantajoso para federações esportivas internacionais. Concretamente, fica instituída uma exoneração de imposto de renda e de outras taxas menores para toda federação esportiva que vier a se instalar no país.

A valer a partir do ano que vem, a isenção de imposto vale também para todos os funcionários dessas insituições: não pagarão nem um centavo de imposto durante cinco anos (!).

Os benefícios que a instalação da Fifa traz ao país que a hospeda são tantos, que os candidatos, como a França, estão dispostos a fazer concessões impressionantes.

Os deputados que ontem inseriram o jabuti no texto estão hoje meio sem jeito e preferem não dar entrevista.

Mas pode apostar que a lei será aprovada. Se a Fifa vai aceitar o tapete vermelho? Isso é outra história.

Oriente tão próximo

As lágrimas dos dois lados
Folha de SP, 17 out° 2023

José Horta Manzano

Uma visão eurocêntrica dividiu em três as terras situadas para o leste e atribuiu-lhe os nomes de: Oriente Próximo, Médio Oriente e Extremo Oriente.

O Extremo Oriente é fácil de identificar. Todos concordam que inclui a China, o Japão, as Coreias, a Sibéria oriental e os países do sudeste da Ásia.

Já o Oriente Próximo e o Médio Oriente se sobrepõem e não cabem dentro de limites amplamente aceitos. Alguns atribuem a denominação de Oriente Próximo aos contornos do antigo Império Otomano. Outros incluem países do norte da África, como o Marrocos e a Argélia. Outros ainda acrescentam a Península Arábica inteira.

Nessa inconsistência toda, o enorme subcontinente indiano fica sistematicamente de fora. Não se encaixa em nenhuma das subdivisões.

Hoje quero me referir à região da Palestina e de Israel, mas não sei se devo situá-los no Oriente Próximo ou no Médio Oriente.

O que não se consegue decidir, decidido está. O distinto leitor tem o direito de reclamar, mandar cartinha para a Redação e dar sua opinião.

Faz dez dias que o mundo observa assustado os acontecimentos da região. Aquela terra está em permanente conflagração, com episódicas irrupções de violência maior. Mas a irrupção atual não é apenas mais uma, chama a atenção por repentina, sangrenta e de mau agouro.

Repentina porque nada nem ninguém esperava uma explosão dessa magnitude. Sangrenta porque já custou a vida de milhares de humanos, de um lado e de outro do conflito. De mau agouro porque, dure quanto durar o estado de comoção, os tempos futuros hão de se ressentir, e a desconfiança mútua promete se enraizar ainda mais.

O tiro de partida do atual episódio foi dado, de surpresa e no escuro da madrugada, por paramilitares do Hamas – grupo islamista tachado de organização terrorista por dezenas de países.

Numa ação ousada, acobertados por salvas de mísseis lançados da retaguarda, comandos do Hamas penetraram em território israelense, metralharam civis desarmados, assassinaram centenas de cidadãos comuns e sequestraram duas centenas de pessoas cujo único pecado era ter cruzado o caminho dos assaltantes.

Por mais que pareça estranho, também a guerra tem suas regras, definidas pela Convenção de Genebra de 1864 e protocolos adicionais, e referendadas por praticamente todos os países do mundo. Os comandos do Hamas cometeram atos proibidos pela Convenção: ataque a alvos civis e sequestro de inocentes. O mundo civilizado não pode tolerar esse tipo de ações.

Por outro lado, as represálias de Israel tampouco estão “dentro das 4 linhas” das Convenções de Genebra. Cortar o fornecimento de água e eletricidade de um exíguo território onde 2,3 milhões de pessoas vivem apinhadas e, ainda por cima, bombardear alvos aleatórios, noite e dia, sem preaviso – eis outro comportamento proibido pelas regras e considerado crime de guerra.

Um observador desatento dirá que Hamas e Israel se igualam, que ambos cometem crimes de guerra e escancaram seu desprezo pela vida humana. Eu vou mais longe.

Que o Hamas tenha afrontado as regras bélicas e atentado contra vidas civis é atitude atitude altamente reprovável, que só vem reafirmar a inclusão do grupo na categoria de organização terrorista.

Israel, porém, não é um grupo de guerrilheiros selvagens – é um Estado constituído e organizado, membro da ONU, reconhecido no planeta.

Ao assumir atitudes como aplicar castigo coletivo a dois milhões e meio de indivíduos e privar hospitais de energia e água, o Estado de Israel faz pior que os selvagens da organização terrorista que diz combater.

Trem de Arágua

José Horta Manzano

Por maior que seja o tal “Trem de Arágua”, não é o maior bando de delinquentes da Venezuela.

A maior organização criminosa de nossa vizinha narcoditadura está instalada no topo do poder. O chefe não é esse aí da foto não. O líder máximo é um bigodudo que costuma aparecer de vermelho.

A dinastia Bongo

Foto de 1973 mostra Omar Bongo e esposa em visita à rainha da Holanda e ao príncipe consorte.

José Horta Manzano

Em 2004, no segundo ano de seu primeiro mandato, Lula da Silva viajou muito. Estava a-do-ran-do andar de avião presidencial, ser recebido com honras de chefe de Estado, visitar palácios e comer do bom e do melhor. Cá entre nós: quem não adoraria?

Deslumbrado, falava pelos cotovelos, dava suas impressões a torto e a direito e revelava seus desejos mais recônditos ao primeiro jornalista que aparecesse. Um belo dia, indagado sobre sua viagem ao Gabão (país da África equatorial, vizinho da Guiné, de Camarões e do Congo-Kinshasa) soltou a bravata: “Fui ao Gabão aprender como se fica 37 anos no poder”. (*)

As palavras sempre têm um fundo de verdade (“onde tem fumaça, tem fogo”). Por trás da fanfarronada, devia estar um desejo oculto de repetir, no Brasil, a façanha de Omar Bongo, o colega gabonês. Para sua própria sorte (e nossa também), Luiz Inácio não aprendeu a lição do ditador.

Recentemente tivemos na Presidência um indivíduo que, envolto na névoa das mentiras criadas por ele mesmo, tentou subverter a ordem e enveredar pelo caminho pedregoso e incerto da autocracia. Não conseguiu, levou uma rasteira e quebrou a cara. Afinal, o Brasil não precisa de autocrata e, ainda que precisasse, o escolhido jamais seria esse estropício falastrão.

Mas voltemos ao Gabão. O ditador que Lula visitou era o primeiro da dinastia. Chamava-se Omar Bongo. Tinha assumido o poder em 1967, seu caminho cruzou o de Lula em 2004, e faleceu em 2009, depois de 42 anos no poder. Sempre houve eleições para renovar seu mandato. Os resultados eram soviéticos: Bongo venceu sempre com pelo menos 90% dos votos, coisa do outro mundo.

Em 2009, morto e enterrado o patriarca, um dos filhos se apresentou como candidato a suceder ao pai. Herdeiro era o que não faltava: Omar Bongo tinha 52 filhos reconhecidos oficialmente! Com eleições fraudulentas e um sistema viciado, o filho Ali Bongo ganhou com folga. E o sistema continuou tranquilo nos mesmos moldes de antes. Uma dinastia estava instaurada.

Só que tudo tem um fim. Quarta-feira passada, os programas de rádio e televisão do Gabão foram subitamente interrompidos. Entrou no ar o anúncio solene feito por uma junta militar: “Ali Bongo está deposto. O agora ex-presidente está em prisão domiciliar, recebendo bons tratos, mas definitivamente afastado do poder”. A presidência do pai somada à do filho dá um total de 56 anos – mais que o longo reinado de D. Pedro II.

O Gabão é um dos países mais ricos da África em PIB por habitante. Extrai petróleo, gás natural, manganês, ferro, urânio. Os combustíveis fósseis representam oitenta porcento das exportações. Um nível tão elevado de PIB deveria indicar um país de população rica, bem de vida e próspera. No entanto, não é exatamente assim. Os habitantes são muito pobres porque, durante décadas, essa dinheirama vem sendo desviada pela corrupção.

As elites do país, irrigadas por esse dinheiro fácil, apoiaram e sustentaram a dinastia dos Bongo. Desconheço o estopim da revolta militar que depôs o presidente, acredito que tenha havido dissensões no interior da corporação.

Os membros da extensa família do ditador podem até estar sendo bem tratados, mas não vão escapar à justiça francesa. De fato, a riqueza da família, só contando o patrimônio em território francês, é calculada em 85 milhões de euros (420 milhões de reais). São 33 propriedades de luxo na região parisiense mais 11 na Côte d’Azur.

O MP francês acredita que esse patrimônio tenha sido adquirido fraudulentamente, fruto de desvio de dinheiro público e de corrupção das sociedades petroleiras. Nove dos 52 filhos do patriarca da dinastia já são réus na justiça francesa por esses crimes. É mais que provável que os imóveis serão confiscados e devolvidos ao Gabão no dia em que o país virar democracia.

O mundo está ficando pequeno e, de certa forma, mais transparente. Se, anos atrás, era viável esconder algum objeto ou algum malfeito, hoje vai ficando mais difícil. Os métodos modernos de vigiar a população têm efeito dissuasivo.

Se não dá pra esconder nem uns dólares na cueca, como é que alguém haveria de esconder dezenas de apartamentos em Paris ou…  joias de  ouro cravejadas de diamantes?

(*) Em 2016 escrevi um artigo sobre o Gabão. Clique aqui.

Beijo na boca

O Globo online

José Horta Manzano

Esse señor que, em pleno estádio, diante das câmeras do mundo inteiro, tascou um beijo na boca da capitã da Selección española de fútbol parece estar chegando direto do planeta Marte.

Nós outros, que nunca tiramos os pés deste vale de lágrimas, já adotamos a nova realidade que nos foi incutida a partir de 2017. O mundo despertou naquele ano com a explosão do caso Harvey Weinstein, produtor de cinema americano e voraz predador sexual.

Desde essa época, todos entenderam que não se podia mais tratar a mulher como simples objeto manipulável. Parece incrível, mas tínhamos adentrado o terceiro milênio com uma visão arcaica do sutil equilíbrio entre os sexos. O caso #MeToo deu lugar a reações tão marcantes e universais, que acabou pondo as coisas em pratos limpos.

“Só um sim é um sim” – é uma das palavras de ordem. Todos entenderam, menos o cartola espanhol. Ao roubar um beijo na boca, fez o que não devia. Pra piorar, instado a pedir demissão da presidência da Real Federación Española de Fútbol, deu uma de marrudinho e bradou: “No voy a demitir!”. E repetiu: “No voy a demitir!”.

O resultado veio rápido: seu afastamento forçado por ordem da Fifa, a federaçâo que congrega todas as entidades nacionais de futebol. Resta a esse senhor voltar para seu planeta e se esconder nalguma caverna marciana. No espremer dos limões, não se demitiu, foi demitido.

Vamos agora à informação que O Globo online nos traz. Estou me referindo ao texto reproduzido na entrada deste post. Lá pela quinta linha, o autor nos diz que ele “dá um beijo na boca dela.

No tempo em que professor ensinava e aluno aprendia, todos sabiam que precisa tomar cuidado para evitar encontros de palavras que produzam sons estranhos ou desagradáveis. Palavrão não é, mas convenhamos que, entre o beijo e a moça, surgir de repente uma “cadela” não tem nada a ver.

“É dez reais por cada dúzia, freguesa!”. Não está no artigo do jornal, mas vale lembrar que esse é outro encontro de palavras que produz cacófato. De repente, no meio da mercadoria, aparece uma “porcada”.

Continuando a leitura do trecho d’O Globo, noto uma inadequação vocabular. O autor diz que o dirigente “se pendura” na jogadora enquanto lhe dá um abraço. Pendurar-se é outra coisa. Roupa pendurada no varal, por exemplo, fica sempre presa por cima enquanto se espicha pra baixo. Não é o que se vê na foto. Repare bem. O dirigente se agarra na jogadora e dá um salto. Ou, se preferir, ele se apoia na jogadora pra dar um salto.

Depois da grita que se alevantou e deu volta à Terra, tenho cá pra mim que hão de se passar décadas até que outra vez um dirigente esportivo ouse beijar na boca uma jogadora.

Monte Branco

José Horta Manzano

Todos os dias, faça o tempo que fizer, o Serviço Nacional de Meteorologia da Suíça manda aos ares sondas meteorológicas. São balões cativos (presos à terra), soltos a partir de um aeroporto militar, que sobem por ação de um gás mais leve que o ar (hélio ou hidrogênio). A função deles é medir pressão, umidade, temperatura, vento e outros parâmetros meteorológicos. Essa rotina teve início em 1954, há quase 70 anos, e continua sendo metodicamente cumprida duas vezes por dia.

Para os não-iniciados, o isoterma do zero grau pode não ter significado preciso. Vamos lá. Sabe-se que a temperatura da atmosfera diminui à medida que se sobe. A velocidade desse resfriamento varia entre meio grau e um grau (centígrado) a cada 100 metros de subida. Se o tempo estiver mais seco, a diminuição de temperatura é mais rápida. Se estiver mais úmido, será preciso subir até 200 metros para perder um grau.

Uma marca importante para os meteorologistas é o isoterma do zero grau, ou seja, a que altitude a temperatura do ar encosta no zero grau. Na Suíça, esse ponto costuma se situar numa altitude de 2000m – 3000m no inverno e de 3000m – 4500m no verão.

Se faltasse uma prova do rápido aquecimento global, aqui está ela: o isoterma do zero grau está situado cada vez mais alto. Se, dez ou vinte anos atrás, nos dias muito quentes, bastava subir 4500m para o termômetro bater no zero, agora precisa subir mais.

Na noite de domingo para segunda-feira última (21 de agosto), foi batido o recorde de altitude do isoterma do zero grau. A sonda o encontrou a exatos 5.298 metros, numa altitude mais elevada que o Monte Branco, o pico culminante dos Alpes! Nunca antes essa marca havia sido registrada.

Só para entender o que se passa, imagine que o isoterma se fixasse nessa altura. O resultado seria que, em pouco tempo, os Alpes inteiros (incluindo o Monte Branco) perderiam seu manto de neves eternas. E o nome do pico (Branco) não faria mais sentido.

A coisa é muito séria e o fenômeno se precipita. O aquecimento que se esperava para o ano 2050 está acontecendo agora. Dá pena pensar no apuro das novas gerações, que vão viver num planeta bem mais problemático do que aquele que conhecemos.

Enquanto isso, um Luiz Inácio mais preocupado com a promoção pessoal que com os brasileirinhos do futuro continua firme na intenção de furar poços de petróleo. Na Amazônia, ainda por cima.

Valha-nos, São Benedito!

Mercenário

José Horta Manzano

Domingo passado, a Rússia levou um tremendo susto por causa de um golpe de Estado que não foi. É verdade que gorou, mas deve ter dado um nó nos miolos da cleptocracia instalada há décadas no Kremlin. De quebra, trouxe inquietação ao planeta inteiro.

Se a Rússia não fosse dona de imenso arsenal atômico, suas brigas intestinas não mereceriam mais que três linhas de rodapé. No entanto, vista a coleção de mísseis e bombas que entopem seus depósitos de armas, é melhor andar na pontinha dos pés e procurar não irritar o autocrata que controla o país. Mormente porque, como todo líder autoritário, Pútin é paranóico e imprevisível.

O episódio do golpe fracassado trouxe às manchetes uma daquelas palavras que não se usam todos os dias: mercenário. Vindo de um remoto indo-europeu, o étimo desembocou no termo latino merx, e de lá formou numerosa família que se espalhou por línguas de todo o globo.

Mercenário designa o combatente que se engaja por dinheiro. É o profissional que não escolhe causa; defende qualquer uma, desde que lhe paguem o soldo. O Grupo Wagner é uma organização paramilitar (um exército bis) que recruta mercenários para defender os interesses da Rússia. Seu campo de ação preferencial é o continente africano, destino de múltiplos investimentos russos em negócios nem sempre confessáveis.

Ao longo dos anos, o grupo tem sido acusado de violências, roubos, estupros, sequestros, crimes de guerra e até crimes contra a humanidade. Muitos de seus integrantes foram recrutados em prisões russas. Evguêni Prigôjin, o fundador, frequentou durante décadas o círculo mais próximo a Vladímir Pútin. O ditador, aliás, foi quem incentivou a formação do Grupo Wagner. O golpe fracassado de domingo é interessante exemplo de monstro que se volta contra seu criador.

Mercenário, como se vê, não é flor que se cheire. Um outro exemplo de mercenário é o matador de aluguel, aquele que executa mediante contrato. Mas respire: a numerosa família (etimológica) à qual pertence o mercenário também conta com parentes de respeito. Veja abaixo outros membros ilustres.

Mercado
mercadoria, mercador, mercadista, mercadeiro, mercadologia, mercadejar, mercadante, mercadinho

Merce
mercenário, merceeiro, mercearia, merceólogo, mercerização, merceologista

Comércio
Comercial, comerciante, comerciário, comercialista, comercialismo, comercializar, comerciar, comercinho

Mercar
mercancia, mercantil, mercante, mercantilístico, mercantismo, mercantista, mercantilice

E muitos outros.

Na república mercantil em que vivemos, onde leis são votadas contra favores em espécie, um vigoroso mercenarismo está presente por toda parte. Principalmente na cobertura (top floor).

O grande ditado

Megaditado nos Champs-Elysées

José Horta Manzano

Todos nós hesitamos, às vezes, na hora de escrever certas palavras complicadas. Exceção, docente, discente ou displicente, por exemplo. O traço de união, então, é praga de Deus, como diz o outro. Cor-de-rosa ou cor de rosa? Cor-de-chumbo ou cor de chumbo? Há ainda quem se enrosque nas duplas cauda/calda, mau/mal & companhia.

No entanto, comparadas com as hesitações dos franceses, nossas dúvidas são como paçoquinha comparada a pé de moleque. Ambos os doces são feitos de amendoim, mas nossa paçoca é macia e derrete na boca, enquanto o pé de moleque deles é um verdadeiro quebra-queixo.

Isso vem do fato de a grafia da língua francesa ser baseada na etimologia. Há uma quantidade de consoantes duplas imperceptíveis na língua oral. Há profusão de ípsilons, de tê-agás e de pê-agás herdados do grego. Há irregularidades, como erros de transcrição que perduram há séculos e já fazem parte da língua.

Apesar disso – ou talvez por causa disso –, impressiona o amor que os franceses têm pela própria língua. Mais que amor, sentem respeito, orgulho, veneração. Um dos esportes nacionais mais populares são os concursos de ortografia. Volta e meia, alguma instituição organiza um. Não são para crianças, não, mas para marmanjos. Os participantes são adultos e idosos. Às vezes a final passa na televisão.

Domingo passado, 4 de junho, realizou-se um desses certames. Foi disputado ao ar livre, numa ensolarada avenida dos Champs-Elysées (que os franceses garantem ser “a mais bela avenida do mundo”), fechada para a ocasião. De manhã cedinho, já estavam lá dispostas 1.700 carteiras e um telão de 102 m2. As carteiras preencheram a distância entre duas estações de metrô.

Organizado pela Prefeitura de Paris, o gigantesco ditado recebeu 50 mil inscrições de cidadãos interessados. Na impossibilidade de atender a todos, foram sorteados 5.100 participantes, que se submeteram à prova divididos em três turmas de 1.700. Às 13 horas começou a prova da primeira turma. Cada candidato recebeu uma caneta e uma folha de exame. Cada turma teve direito a um texto diferente, lido três vezes, uma em leitura normal, outra devagar e a terceira para revisão. Os raros candidatos que entregaram uma prova sem nenhum erro receberam um prêmio simbólico. Os demais ficaram felizes de ter participado.

Não consigo imaginar o fechamento da Esplanada dos Ministérios, do Aterro do Flamengo ou do Vale do Anhangabaú para um ditado gigante. Aliás, em matéria de língua, nosso maior problema não está na grafia. Mas bem que seria uma boa ideia ensinar aos aluninhos que a língua é um tesouro. Que ela é o traço de união que nos abraça a todos e que, por isso, merece ser bem tratada.

Post scriptum
O megaditado dos Champs Elysées já foi homologado pelo Guinness Book of Records como o ditado lido para o maior número de participantes.

Mofo nobre

Sauternes de diferentes produtores

Você sabia?

José Horta Manzano

Mofou, tem de jogar fora. Tem mesmo? Nem sempre. Há males que vêm para bem.

Na Idade Média, uma das atividades favoritas dos senhores feudais era a guerra. Por um sim, por um não, juntavam seus vassalos e partiam para medir forças com um outro senhor. O século XVI já anunciava outros tempos, mas certos hábitos antigos continuavam arraigados.

Conta uma lenda que, por aqueles tempos, um proprietário de terras da região de Sauternes (perto de Bordeaux, no sudoeste da França) foi à guerra. Como imaginava estar logo de volta, deixou ordens claras: fazia questão de que esperassem sua chegada para iniciar a vindima, a colheita das uvas.

As coisas não correram exatamente como ele imaginava. A contenda se prolongou e não lhe foi possível voltar a tempo para a colheita. Temerosos, seus camponeses não ousaram tocar nas uvas antes do retorno do patrão.

Quando finalmente voltou a suas terras, o proprietário constatou que as uvas, ainda não colhidas, estavam já meio mofadas. Perdido por perdido, decidiu que a vindima se fizesse assim mesmo.

As uvas foram colhidas, pisadas, e o processo de vinificação foi lançado. Alguns meses depois, a abertura da primeira barrica trouxe uma surpresa muito agradável: o vinho, habitualmente medíocre e bastante ácido, desta vez parecia um néctar feito no céu. Licoroso, docinho, frutado, um luxo!

Os proprietários da região logo se deram conta de que o fato de haver esperado que as uvas mofassem tinha provocado aquela magia. Não entenderam como era possível, mas adotaram a nova técnica assim mesmo.

Passaram-se os séculos, e se manteve a técnica de só colher as uvas depois de engrouvinharem, adquirindo aspecto de uva-passa. Os enólogos têm hoje explicação científica para a miraculosa transmutação de um vinho à toa em delícia rara. Descobriram que, sob certas condições de umidade e temperatura, colônias de fungos microscópicos do gênero Botrytis Cinerea podem se formar. O microclima da região de Sauternes se caracteriza justamente por nevoeiros úmidos no início do outono, um pouco antes da época da vindima.

O mofo nobre

Esse fungo, quando afeta outras frutas, é catastrófico: toda a colheita pode estar comprometida. No entanto, quando ataca as vinhas, faz que a água dos bagos se evapore, aumentando a concentração de açúcar. Provoca o chamado mofo nobre. O resultado é um vinho naturalmente doce e ligeiramente licoroso. A cor da bebida também se altera, tornando-se um elegante amarelo alaranjado – ambré, como dizem os franceses.

Como acompanhamento de um queijo roquefort, um gole de Sauternes é uma dádiva. O sabor ligeiramente açucarado suaviza a aspereza do queijo de ovelha. É um fecho excelente para uma refeição de réveillon.

A consumir com moderação, naturalmente.

Monarquia britânica

by Barry Blitt (1958-), artista americano-canadense

José Horta Manzano

Dá pra imaginar passear por Salvador e encontrar as baianas de acarajé vestidas de blusa florida, bermudão de jeans e boné na cabeça? De tristeza, o acarajé perderia o gosto. Sentada ou de pé, a vendedora de petiscos típicos faz parte da paisagem da Bahia. E tem de estar paramentada de branco imaculado, da cabeça aos pés, com saia rodada e tudo o que manda o figurino. Ela é peça importante do patrimônio imaterial de Salvador, uma riqueza que não se exprime em reais mas que atrai dólares para a cidade.

Tente imaginar agora uma Grã-Bretanha sem monarquia. Suponhamos que, dia destes, o povo decida, em plebiscito, dar adeus ao rei e adotar regime republicano. Desapareceriam a família real, as cerimônias, a pompa e as circunstâncias, e entraria em cena um presidente da República decorativo, de poderes limitadíssimos. O Reino Unido passaria a chamar-se República Unida – nome que assenta mal, dado que a união do país estaria ainda mais ameaçada que hoje.

Além da estranheza do novo nome, outros problemas surgiriam. Por falta de assunto, os famosos tablóides ingleses que se nutrem das fofocas da família real iriam à falência, deixando funcionários desempregados e leitores desapontados.

A monarquia é tão importante para o Reino Unido como a baiana de acarajé é necessária para a Bahia. Talvez ainda mais importante. Se não, vejamos.

Ao comentar a coroação do rei Carlos (=Charles), o venerável jornal The Times, publicado em Londres há quase 250 anos, notou que a cerimônia foi modificada para ser mais inclusiva, mas ainda assim “os rituais antiquados da coroação são um lembrete de como – em uma sociedade secular, multiétnica e digital – a coroa é fundamentalmente um anacronismo”.

Tomando o termo anacronismo em sua acepção primeira (erro de cronologia), o jornal tem razão. Os ritos que envolvem a coroação de um monarca britânico não combinam com esta era de inteligência artificial. Por seu lado, esse “anacronismo” faz na população britânica o efeito que as novelas fazem no povo do Brasil. A monarquia, com seus ritos, seu formalismo, seus encantos e suas maldades é aquele mundo de sonhos que encanta qualquer cristão. Fatos e gestos da família real equivalem à trama tecida pelos personagens de uma boa novela das nove.

É verdade que um espetáculo como a coroação de Carlos III não sai barato. É o povo britânico que vai pagar o custo estimado entre 50 milhões e 100 milhões de libras (320 milhões a 630 milhões de reais). Fora eventos excepcionais, os gastos anuais com a monarquia são estimados entre 60 milhões e 100 milhões de libras (380 milhões e 630 milhões de reais).

Mas toda medalha tem dois lados. Os custos têm de ser analisados e comparados aos ganhos. Além de ser marca registrada da nação, a monarquia representa para o país mais benefícios do que despesas.

Estima-se que um evento como a coroação do rei leve ao país um lucro em torno de 1,4 bi de libras (8,8 bi de reais). Isso inclui ganhos com turismo, hotelaria, restaurantes, pedágio, combustível, transportes, moda, souvenirs, comércio em geral, relações públicas. Os direitos televisivos são um ítem importante nesse cálculo.

Só para efeito de comparação, estima-se que o casamento do príncipe Harry com Meghan Märkle, celebrado em 2018, tenha trazido ao país um benefício total de 1,05 bilhões de libras (6,6 bilhões de reais).

Bem bobos seriam os britânicos se destituíssem o rei e abolissem a monarquia. A ilha deles, além perder boa parte da graça, estaria desperdiçando importante fonte de renda.

O mundo encolheu

José Horta Manzano

Algumas semanas atrás, em 18 de março, o Tribunal Penal International (ICC, International Criminal Court), sediado na Haia (Holanda), lançou um mandado internacional de captura contra o cidadão Vladímir Putin, ditador da Rússia.

Ele é acusado de crime de guerra por haver deportado ilegalmente crianças ucranianas para a Rússia. Assim que a notícia chegou a Moscou, o Kremlin manifestou seu desdém e alegou que “a Rússia não reconhece esse tribunal, portanto o mandado de captura não tem validade”.

O chato é que, ainda que a Rússia tenha imediatamente abandonado o tratado, renegando a própria assinatura, a ordem de captura continua válida no território de todos os países membros.

Em verde: países membros

E eles são muitos. A ilustração mostra em verde os países que assinaram e ratificaram o tratado. Repare que o Canadá e a América Latina quase inteira são estados membros (só escapam os EUA e as ditaduras). Europa idem. Boa parte dos países africanos segue na mesma linha. Japão, Austrália, Nova Zelândia e Mongólia fecham a fila dos membros.

O jornal digital Kyiv Post, bastião das liberdades da Ucrânia publicado em inglês, acompanha com interesse tudo o que se publica sobre a Rússia e especialmente o ditador Putin. No número deste 1° de maio, estampa a manchete “A África do Sul faz um alerta: Putin poderia ser detido em caso de visita”.

Em seguida, vem a explicação. É que uma cúpula dos membros do Brics está prevista para agosto, a desenrolar-se em Durban, África do Sul. Lula provavelmente comparecerá. Mas com antecedência, o governo sul-africano já avisou que, caso compareça à cúpula, Vladímir Putin poderá ser preso.

O primeiro-ministro da província de Southern Cape mostrou-se aborrecido com a decisão do governo sul-africano de convidar Putin apesar do mandado de prisão. Mas afirmou que, assim que o ditador russo desembarcasse do avião, cumpriria a lei: daria ordem à polícia local para prendê-lo e guardá-lo em custódia à espera de extradição em direção à Holanda.

Putin que se cuide. Na Rússia, ele manda. Fora do país, está na lista de criminosos procurados.

Que coisa, não? Nem bandido do andar de cima consegue mais se esconder. O mundo parece que encolheu.

O tapete vermelho

José Horta Manzano

O sistema de governo chinês – fechado, autoritário, repressivo, implacável – há de ser oprimente para os cidadãos do país, tanto para gente comum quanto para os graduados do regime, que temem a todo momento cair em desgraça. Para o brasileiro, é inimaginável viver sob um regime assim. Nem nos tempos mais duros de nossa ditadura, o rolo compressor do governo militar chegou a esmagar a população com o rigor e o método com que a ditadura do partido único faz com os chineses.

Assim mesmo, toda moeda tem duas faces. Apesar do hermetismo das decisões da cúpula dirigente chinesa, o planejamento do futuro do país continua em marcha. Com dança de cadeiras ou sem elas, os dirigentes seguem rigorosamente a política de Estado traçada para as próximas décadas. Estabelecido a longo prazo e cumprido com precisão metódica, é esse planejamento que permitiu à China, nos últimos 30 anos, galgar posições em numerosas áreas.

Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes.

Analistas estrangeiros enxergam a visita de Lula como uma jogada de mestre no tabuleiro mundial, com o objetivo de valorizar o Brasil na disputa entre a China e os EUA. Pode até ser. Primeiro, precisa ver se Lula entendeu isso ou se está só sendo traído por seu antiamericanismo.

Estamos diante de um caso curioso. Não acredito que nosso presidente morra de amores por Pequim. Durante seus dois primeiros mandatos, Lula mostrou que, em matéria de política internacional, seu interesse se concentra na América Latina. Fora das Américas, o mundo lhe parece longínquo e de parco interesse. É minha análise pessoal.

A birra do ex-metalúrgico é com os Estados Unidos. Desde a juventude, Lula encasquetou que sua missão era tentar se opor à potência e à interferência dos americanos (de olhos azuis, lembra?), tanto em nossas vizinhanças quanto no resto do planeta. O mundo mudou muito nesse meio século, mas Lula persiste.

Presidente de novo, Lula retomou a cartilha antiga. Começou afirmando que, na invasão da Ucrânia pelos russos, os dois lados eram culpados. Curiosa acusação para alguém que pretende ser o mediador do conflito. Na pressa de mostrar a língua aos EUA, acabou desagradando a russos e ucranianos.

Pequim dispõe de bons analistas de geopolítica. A cúpula do país entendeu que nosso país é uma peça importante no xadrez mundial, e que convém afagar e conquistar como aliado. Por seu lado, Luiz Inácio também entendeu que a ascensão da China no panorama internacional desbancou qualquer pretendente ao pódio. Nem Rússia, nem Índia, nem Europa. Os dois grandes são agora os Estados Unidos e a China.

Para os dirigentes chineses, conquistar o Brasil não é tarefa inatingível. Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes. Quanto a Lula, entendeu que Pequim será excelente aliado em sua cruzada antiamericanista.

Temos, assim, o casamento da fome com a vontade de comer. Eu te ajudo, você me ajuda. Não é uma beleza, este mundo?

Clube da Paz

José Horta Manzano

Faz séculos que a Rússia é uma potência imperial. Ao longo do tempo, agiu como a coroa portuguesa em terras brasileiras: foi, aos poucos, se apossando de regiões extensas e pouco povoadas. O Brasil se expandiu para o Oeste, especialmente na Amazônia; a Rússia se espichou para o Leste, pela Sibéria, até chegar às vizinhanças do Japão e da Coreia.

O desmanche da União Soviética, no início dos anos 1990, permitiu que uma dezena de países vassalos encontrassem o caminho da independência. Esse movimento pôs fim à guerra fria e o mundo imaginou que o risco de conflito mundial tinha desaparecido para sempre.

No entanto, a Rússia – país que nunca conheceu regime democrático – assistiu à ascensão de novo ditador, um antigo pequeno funcionário, de métodos mafiosos mas imensamente ambicioso. Vladímir Putin, é dele que estamos falando. Nos primeiros anos em que comandou o país, o mundo não se deu conta de que ele tinha o objetivo de recuperar territórios perdidos e restabelecer o esplendor da Rússia imperial.

Foi só em 2014, quando invadiu e se apossou da região ucraniana chamada Crimeia, que o planeta de repente se deu conta de que o risco de conflito mundial voltava a ser real. A partir desse momento, a Rússia foi objeto de sanções leves, que não entravaram o funcionamento do país.

Mas o que Putin queria mesmo era a Ucrânia inteira. Declarou que a Ucrânia não existia, que era apenas uma criação do espírito, um país inventado que não passava de um pedaço da própria Rússia e que era governado por um bando de nazistas degenerados. Foi com esse estado de espírito que invadiu o país a fim de anexá-lo.

Agora vamos refletir juntos. Vamos lembrar que o Uruguai já foi uma província do Brasil, no começo do século 19, logo depois do Grito do Ipiranga. Foi só durante três anos, depois nosso vizinho ficou independente. Agora imaginemos que um ditador aboletado em Brasília declarasse que o Uruguai é uma ficção, que não existe, que aquele território é parte do Brasil. E que mandasse soldados, tanques e metralhadoras para tomar o país à força. Dá pra imaginar? Pois foi o que aconteceu com a infeliz Ucrânia.

Da noite para o dia, começou uma chuva de bombas e mísseis aniquilando prédios de habitação, pontes, aeroportos, hospitais, creches, escolas. Sem falar dos campos de lavoura, contaminados de minas e bombas não explodidas que ainda vão matar gente daqui a cem anos. Como reagiria o mundo?

Se o Brasil invadisse o Uruguai, o mundo civilizado certamente se posicionaria em defesa do país soberano invadido. Pesadas sanções econômicas seriam aplicadas com o objetivo de prejudicar o funcionamento de nosso país.

É o que aconteceu na sequência da invasão russa. O chamado “Ocidente” (Europa, EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão) uniu esforços para amparar o país invadido. Por motivos que dizem respeito a cada um deles, outros países preferiram abster-se, ou seja, ficaram em cima do muro. Esses motivos podem ser de ordem comercial ou política. Ou ambos.

O Brasil está encarapitado no muro porque precisa de fertilizantes russos e também porque seu presidente tem a ilusão de resolver o problema no tapetão e candidatar-se ao Nobel da Paz. Quanto à China, está aproveitando a ocasião para atrair a empobrecida Rússia para sua órbita e transformá-la em país quase-súdito.

Um Lula assoberbado com os conchavos de Brasília delegou a seu assessor Celso Amorim a missão de levar adiante a ideia do Plano de Paz para acabar com a guerra. Amorim voltou estes dias de uma viagem a Moscou, onde foi recebido por Putin em pessoa, com direito a sentar-se àquela folclórica mesa de 5 metros. Em grandes linhas, apresentou sua ideia ao ditador russo, que se mostrou interessado. Ficaram de se reunir de novo.

Mas um conflito tem dois lados. Cumprida a missão do lado russo, Amorim dirigiu-se a Kiev para falar com a outra parte. Parece lógico, não é? Pois não é verdade, não foi o que aconteceu. Apesar de o presidente ucraniano já ter convidado Lula, ao vivo, para visitar seu país, Amorim se fez de desentendido e ignorou a Ucrânia.

Agora, vamos voltar a nosso terrível exemplo. Suponhamos que o Brasil tenha invadido o Uruguai e continue a martirizar seu povo. Imaginemos também um mensageiro estrangeiro que, a pretexto de pregar a paz entre os que estão em guerra, visitasse somente Brasília, deixando Montevidéu de lado. Falar com uma parte e ignorar a outra. Pode?

Pois foi o que o emissário de Lula fez. Conversou com o agressor e não quis se encontrar com o agredido. É humilhante para a própria Ucrânia, que se sente tutelada por potências estrangeiras, que discutem seu destino sem consultá-la. Curiosa concepção de mediação, essa do governo brasileiro, não?

Que Lula goste ou deixe de gostar, não há muito que conversar para acabar com essa guerra. A condição indispensável para permitir qualquer início de negociação é que a Rússia se retire do território da Ucrânia. Os invadidos não vão sossegar enquanto não expulsarem o derradeiro soldado russo. Afinal, estão defendendo a própria pátria. Antes disso, não faz sentido negociar. Negociar o quê? A entrega ao inimigo de parte do território nacional?

Lula não consegue (ou não quer) entender isso. Talvez esteja sendo empurrado por seu antiamericanismo primário. Talvez ignore a história recente dos países da Europa Oriental. Ou talvez esteja realmente sonhando com o Nobel.

Lula, o caminho não é esse! Chegou a hora de uma correção de rota.

Poisson d’avril!

José Horta Manzano

Os antigos adoravam fazer festa. Qualquer motivo valia. Tanto fazia comemorar datas pagãs ou litúrgicas. Por que tanta gana de sair do sério?

Será porque o dia a dia era mónotono e sem variedade. Será porque a ordem das coisas parecia imutável, não deixando nenhuma esperança de melhora. Será porque a vida era curta naqueles tempos, deixando pouco espaço para alegrias. Será porque a existência miserável e sofrida demandava momentos de escapatória.

A origem de muitos desses festejos – alguns dos quais perduram até nossos dias – é muitas vezes desconhecida. Um exemplo significativo é o do primeiro de abril. Na infância, conhecíamos a data como o dia da mentira. Era o único momento do ano em que contar mentira não era pecado. Não somos o único povo a enxergar esse dia como diferente dos outros. A tradição de pregar peças continua muito forte em vários países.

Na França, as crianças costumam recortar peixes de papel e em seguida grudá-los nas costas de algum distraído. Não demora muito para gritarem em coro: – Poisson d’avril!, peixe de abril.

Poisson d'avril!

Poisson d’avril!

Para os franceses, a versão mais aceita da origem da brincadeira tem quase 500 anos de idade. Até meados do século XVI, algumas regiões do país consideravam que o ano começasse em abril, não em janeiro. Outras já tinham adotado o primeiro de janeiro. Assim foi até 1564, quando o rei Carlos IX decidiu botar ordem no coreto: oficializou o 1° de janeiro como primeiro dia do ano.

No entanto, os franceses, já naquela época apreciadores de uma boa contestaçãozinha, não se conformaram tão facilmente. Muitos continuaram a formular votos de bonne année no dia 1° de abril. A data cai frequentemente em plena Quaresma. período em que era proibido comer carne. Acontece que março/abril são também os meses em que os peixes se reproduzem. Pescar nessa época significaria prejudicar a pesca para os anos seguintes. O remédio, então, era presentear os amigos com… peixes falsos. Ninguém é obrigado a acreditar, mas é a versão mais aceita por estas bandas.

Já os ingleses, que dão a esse dia o nome de April Fools’ Day (dia dos loucos), não estão de acordo com a versão francesa. Brandem antigos manuscritos dos Contos de Canterbury para demonstrar que as troças de 1° de abril já eram mencionadas 200 anos antes do decreto de Carlos IX.

Espanhóis fazem as mesmas artes, mas escolheram outra data para zombar dos ingênuos. As pilhérias são pregadas dia 28 de dezembro, justamente o dia dos Santos Inocentes. A tradição passou a algumas regiões da América hispânica.

Em toda a Europa ocidental, jornais, rádios e até canais de televisão costumam publicar notícias falsas dia 1° de abril. E sempre tem quem acredite. Uma delas, excelente, foi inventada por um jornal de Lausanne (Suíça) já faz anos.

Por meio de uma revolução, o povo filipino tinha acabado de se livrar do terrível casal ditatorial Ferdinand e Imelda Marcos. Na hora da fuga, os dois tinham abandonado palácios e bens, a tempo de salvar a própria pele. Os primeiros a penetrar nos aposentos particulares do par infernal ficaram boquiabertos com a quantidade de sapatos que a primeira dama possuía. Parece que eram mais de mil pares.

De brincadeira, o jornal anunciou que os sapatos de Imelda iam ser oferecidos, numa venda especial de um dia só, a preços de liquidação. O excepcional acontecimento se daria dia 1° de abril daquele ano, num dos salões do maior hotel 5 estrelas da cidade. Parece que o hotel nunca foi tão visitado como aquele dia.

Poisson d’avril!

Este artigo foi ao ar no 1° de abril de 10 anos atrás. Continua válido.