A síndrome e a pandemia do “entitled”

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O adjetivo “entitled”, popularmente usado há muito tempo na língua inglesa, é de difícil tradução para o português. Com exceção do óbvio sentido de “intitulado(a)” que se aplica mais especificamente a livros e textos, peças de teatro, filmes, quadros, etc., é bastante complicado encontrar uma única palavra que defina com precisão seu significado central, seja em português ou mesmo na língua inglesa.

Na essência, dizer que alguém se considera “entitled” diz respeito ao fato de que a pessoa acredita (ou imagina) que “tem o direito de”, dá-se permissão para dizer ou fazer algo ou, ainda, obter algum benefício, privilégio ou tratamento especial. Nem sempre a reivindicação é legítima, ou seja, relativa a um direito legalmente previsto – como o de receber aposentadoria uma vez cumpridos os requisitos legais. Muitas vezes a palavra é usada para se referir a um direito reivindicado “sem ter de se esforçar para conquistá-lo ou sem o merecer, apenas por ser quem você é”, como aponta o próprio dicionário Cambridge.

Nesse sentido, uma tradução mais comum entre nós é a de “permitir-se”, sentir-se “autorizado(a)” a emitir uma opinião, manifestar um pensamento/ comportamento, mesmo que ele não seja condizente com as normas do politicamente correto ou com os princípios democráticos, e mesmo que isso implique sofrimento ou constrangimento para terceiros, ou ainda a se sentir no direito de desrespeitar ou contornar restrições sociais em nome de nossa vontade soberana.

Filha dileta das carteiradas tipo “Sabe com quem você está falando?”, a síndrome do entitled transformou-se rapidamente em pandemia, com um poder de contágio só comparável ao do coronavírus. Das elites que se imaginam acima do bem e do mal para as classes populares, dos adultos para as crianças, dos homens para as mulheres, dos ateus para os religiosos fundamentalistas, dos militares para os civis. Se o entregador não aceitou subir até meu apartamento, dou-me o direito de agredi-lo verbal ou fisicamente. Se meus pais não aceitam meu namoro, sinto-me no direito de tirá-los do meu caminho à força para mostrar que quem manda no meu destino sou eu. Se minha ex-mulher acha que pode se envolver com outros homens, vou mostrar que ela está assinando sua sentença de morte. Se meu marido não me trata com respeito, não me custa nada colocar veneno na sua comida.

E por que isso acontece? Acredito que pode ter contribuído para a exacerbação da síndrome a profunda fragmentação das identidades e papéis sociais a que vimos assistindo ao longo das últimas décadas. Se antes as reivindicações aconteciam entre as diferentes “tribos” e grupos organizados de pressão, mais tarde elas se radicalizaram ainda mais com a pulverização das individualidades. Hoje em dia a única autoridade que respeitamos é a que vem de dentro, das convicções pessoais a respeito dos limites do poder aplicado às relações humanas. O mal-estar na civilização, a crise da democracia representativa e a adoção de regras típicas do mundo virtual transplantadas sem critério para o mundo real parecem ter sido outros fatores decisivos a determinar a extinção dos freios morais. E, quando a noção de bem comum se perde, é inevitável o surgimento de demandas paroquiais.

Por coincidência, durante meu período de recuperação de uma queda, tive acesso a dois livros que lançaram luz sobre outros fatores que podem servir de combustível para a síndrome do entitled. O primeiro, intitulado “Desaparecer de Si”, de David Le Breton, mostra como contemporaneamente as pessoas se esforçam para fugir das coerções de uma identidade que já esgotou seus propósitos, isolando-se do mundo ou aceitando o convite à experimentação de outras identidades. O segundo, intitulado “The tryumph of the slippers” [O triunfo das pantufas], escrito pelo filósofo francês Pascal Bruckner, mostra como a luta por um direito muda de sentido ao longo do tempo, podendo se transformar até no seu exato oposto. Durante a pandemia de covid-19, muitos líderes governamentais e boa parte das populações protestavam contra a determinação sanitária de ficar em casa, alegando que ela violava o direito constitucional de ir e vir. Pós-pandemia o cenário mudou radicalmente: depois de terem experimentado o conforto de poder ficar de pijama (e pantufas) o dia todo, não ter de enfrentar o trânsito caótico das grandes cidades, se alimentar mal e não poder acompanhar o cotidiano da família e a educação dos filhos, muitos trabalhadores passaram a defender o home office como uma questão de vida ou morte para as empresas e até como solução inesperada para enfrentar também os desafios de mobilidade urbana e proteção do meio ambiente. Hoje parece ser mais comum lutar pelo direito de não sair de casa do que alinhar-se com qualquer argumento racional de defesa do bem coletivo.

Outro fenômeno que tem chamado minha atenção para alimentar o entitlement é a emergência daquilo a que dei o nome de “arco reflexo emocional”. Sabe quando o médico bate com um martelinho no seu joelho e sua perna levanta sem que você tenha dado o comando para seu cérebro? Pois então, acredito que o mesmo está acontecendo no campo da neuropsicologia. Sem tempo para digerir as emoções provocadas por estímulos externos desagradáveis, tendemos a reagir de bate-pronto, sem considerar as consequências danosas de nossa reação sobre terceiros e sobre nossa própria imagem social. Distraídos com a miríade de estímulos multissensoriais em que as novas tecnologias nos afogam, acabamos abrindo mão de usar o cérebro humano como órgão emissor e permitimos que ele passe a ser mero receptor de informações vindas de fora. Sem a necessária mediação da reflexão e da introspecção, tenho medo de descobrir que a próxima luta na qual a humanidade vai se engajar será obrigatoriamente pelo direito de não pensar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Perigos da praia

José Horta Manzano

A foto que ilustra este artigo mostra, ao fundo, uma beira-mar de águas cinza chumbo, um dia de pouca luz, uma praia sem sequer uma palmeira para abrigar os frequentadores nos dias de calor. Em primeiro plano, ocupando 4/5 da fotografia, um apinhado de espigões de concreto armado, dando um toque de “exotismo” ao todo.

O ser humano é animal terrestre. Caminhar no chão seco é com ele mesmo. Já se meter na água é outra história. Para nós, a água é, por natureza, um mundo estranho e cheio de perigos.

Não sei se são justamente esses perigos que atraem homens, mulheres e pequerruchos; assim que chegam os dias mais quentes, correm todos para as águas mais à mão: banho de cachoeira, passeio de barco (ou jetski para os afortunados), banho de mar – ainda que na orla estejam plantados mil espigões de concreto.

Tirando os mais excêntricos – e mais abonados –, poucos se animarão a fazer uma viagem de avião para um banho de cachoeira na África tropical. São menos ainda os que voarão para um passeio de jetski nas águas da Laguna de Veneza. Já os banhos de mar estão ao alcance de mais gente. Quem pode, não hesita.

Entre as primeiras providências, estão aquelas que nos protegem contra os perigos que a proximidade das águas representa. Bloqueadores de UVs indesejados. Repelentes contra mosquitos, muriçocas e pernilongos. Escolha de praia livre de perigosas correntes, torrentes, borbulhões, correntezas e rodamoinhos. Escolha de praia distante da foz de rios e riachos que possam estar contaminados.

No mundo todo, praias são lugares potencialmente perigosos. Dependendo da natureza do perigo, as autoridades fazem a lista dos riscos que cada ponto representa. Há praias com crocodilos, com imensas aranhas passeando pela areia, com medusas venenosas colorindo o mar, com tubarões farejando pernas apetitosas. Há praias contaminadas com mercúrio, com coliformes fecais, com material radioativo residual.

Painéis costumam ser fincados em atenção a banhistas arrojados: “Não nade aqui!”, “Poluição química!”, “Cuidado, medusas!”. É assim por toda parte. Em cada lugar, os perigos locais são anunciados. É natural. O visitante não é obrigado a saber tudo.

O Estadão bolou uma ferramenta interativa que indica as praias mais perigosas do estado de São Paulo. Curioso, fui ver o que era e como funcionava. Nada a reclamar contra a ideia nem quanto ao mecanismo. Só que o perigo não era o que eu tinha imaginado. A ferramenta não alerta contra tubarões, medusas, vórtices ou contaminação química. O objeto do estudo é a presença da criminalidade nas praias.

Criminalidade nas praias! Algumas décadas atrás, essa expressão só poderia referir-se a roubo de toalha: “Se for entrar no mar, não deixe sua toalha sem ser vigiada”. O pior que podia acontecer era o cidadão, ao voltar, ter o desapontamento de descobrir que sua toalha havia batido as asas.

Já hoje a criminalidade perdeu a ingenuidade. Se o honesto cidadão tem direito a férias, a bandidagem também tem. Por coincidência, os dois grupos de população escolhem as mesmas praias. Como resultado, o meliante continua exercendo seu ofício mesmo durante os períodos de recesso enquanto o honesto cidadão, durante as férias, continua a correr de bandido.

Faz sentido. Todos se sentem em casa e a vida segue.

Que marca é?

O Globo online, 2 jan 2025

 

Folha online, 2 jan 2025

 

Estadão online, 2 jan 2025

José Horta Manzano

Quando eu era adolescente, tínhamos uma brincadeira especial que precisava de dois comparsas. Ficavam os dois sentados na calçada, um de frente para o outro de modo que cada um só podia enxergar os carros que vinham de uma das pontas da rua. Cada um tinha de adivinhar, só pelo ruído do motor, a marca de cada automóvel que vinha vindo às suas costas.

Na verdade, não era muito complicado visto que, naqueles tempos recuados, grande maioria dos carros eram Chevrolet e Ford, que tinham motor de ronco reconhecível. Mais difícil era quando surgia um Pontiac, um Studebaker ou um Lincoln.

E a gente continuava:

“É um Chevrolet!”
“É um Ford!”
“É um Austin!” (Este fazia barulho de motor fraquinho)

E assim por diante. Jamais nos veio à ideia dizer: “É um carro da Ford!” ou “É um carro da Chevrolet!”.

Acho que ainda se fala igualzinho, não é?

Pois hoje, ao ler a notícia de um atentado com carro-bomba ocorrido em Las Vegas (EUA), me dei conta de que os automóveis fabricados pelas indústrias do neopolítico Elon Musk fogem ao antigo costume que vale para todos os concorrentes. Nenhum dos três maiores jornais do país relatou a explosão de “um Tesla”; todos eles contaram a explosão de um carro da Tesla.

Achei estranha essa hesitação em dar nome aos bois. Se se trata de um carro e se o fabricante é Tesla, é um Tesla. Como seria “um Ford” ou “um Mazda” ou “um Toyota”. Por que razão se faz essa diferença com os automóveis de Mr. Musk?

A firma é nova
Não me parece argumento válido. Uma firma fundada em 2003 (22 anos atrás) não entra nesse conceito de “nova”.

O dono é bilionário
E daí? Por que, diabos, uma marca automobilística deveria ser tratada com maior ou menor respeito segundo a fortuna do proprietário? Mr. Ford e Mr. Chevrolet também nadavam em dinheiro.

O carro é elétrico
Há elétricos de outras marcas, mas todos entram na regra comum. Só Tesla escapa.

Tesla não soa como nome de montadora
Concordo que Tesla soa mais como marca de secador de cabelo. Mas uma coisa não justifica a outra. Gurgel, marca efêmera de automóveis nacionais que existiu pelos anos 70 e 80, também parecia mais ser nome de família da alta burguesia próxima ao imperador; assim mesmo, ninguém dizia “um carro da Gurgel”, mas sim “um Gurgel”.

Em resumo, não encontrei razão sólida que justifique tratar com tão reverenciosa distância os automóveis do futuro ministro de Trump. Se alguém souber, por favor mande cartinha para a redação.

Tenho mais uma observação. Antigamente se dizia que o acidente “deixou um morto” ou “fez um morto”. Dava-se por entendido que o morto era um humano, não um animal. Hoje vejo que é preciso especificar que o acidente “deixou uma pessoa morta”.

Por que escrevem assim? Para deixar mais claro? Não acredito. Concluo que a intenção oculta, nesse caso, é o respeito à ditadura do politicamente correto.

Falar de “um morto” pode até dar a entender aos ingênuos e delicados ouvidos modernos que se trata de um homem morto, não de uma mulher. Para clareza absoluta, usa-se a forma neutra “pessoa”.

“Uma pessoa morta” tanto serve para um defunto como para uma defunta. Sinal dos tempos. A sexualidade nos persegue além-túmulo.

Mundo friorento

by Maurenilson Freire, ilustrador cearense-brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 dezembro 2024

Tenho notado que o mundo hoje está mais friorento que no passado. Não me refiro ao frio que o termômetro registra, aquele que bate quando um ventinho gelado sopra do Sul. Falo de falta de calor humano, de empatia, de amizade, de sintonia. Sinto que tem faltado aquela atmosfera cálida que, ao expandir, dissipa o gelo e a desconfiança entre as gentes. Faltam braços abertos.

Em 2015, a Alemanha da primeira-ministra Merkel abriu os portões para a entrada de um milhão de estrangeiros que vinham em busca de asilo. O gesto horrorizou numerosos governos europeus, que consideraram exagerado o número de recém-chegados e tacharam o gesto de desarrazoado. Há alemães, aliás, que reprovam até hoje a decisão da chanceler e não perdem uma ocasião para atribuir aos forasteiros todos os males da nação.

O fato é que, passados quase dez anos, os asilados, em grande maioria, se integraram, aprenderam a língua, formaram-se numa profissão, fundaram família e vivem hoje como os demais cidadãos da pátria adotiva. Esses novos cidadãos vêm complementar a mão-de-obra de que a Alemanha sabe que terá necessidade estes próximos anos mas que o simples crescimento natural da população não lhe fornecerá.

Desde que Donald Trump assumiu seu primeiro mandato, em 2017, os novos tempos não têm sido benéficos para a conciliação entre os povos. Barreiras e muros foram erguidos na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes pobres – num esquecimento maroto de que todos os que hoje apoiam o bloqueio aos forasteiros pobres são descendentes de imigrantes pobres que, um dia, também bateram às portas do país, foram acolhidos e ajudaram a fazer o que os EUA são hoje. Esquecem-se de que, num país em processo de envelhecimento, todo aumento populacional é bem-vindo.

Para seu segundo mandato, Trump ameaça abandonar a Otan, pacto de defesa que seu país mantém com a Europa há 75 anos. Esquecidos de que juraram governar para todos os brasileiros, os sucessivos governos do Brasil continuam a dar as costas para os povos amazônicos, obrigando-os a sobreviver atolados num território que o Estado enjeitou e de que o crime se apoderou.

Em vista de possível nova leva de imigrantes sírios, que ora têm liberdade de deixar o país de origem, a Europa nem de longe renovou a “operação acolhida”, da Alemanha de 2015. A ditadura de Damasco ruiu num fim de semana. Dois dias depois, os principais países europeus tomaram decisão idêntica: os processos de concessão de asilo a refugiados sírios foram suspensos sine die, com efeito imediato. É decisão provisória, com direito a revisão no futuro, mas supõe-se que, com uma Síria normalizada, as portas da Europa se fecharão de fato para os nativos daquele país.

Matteo Salvini, político italiano, teve problemas recentemente com a justiça de seu país por ter sido acusado de impedir durante três semanas, quando era vice-primeiro-ministro, o desembarque de 149 migrantes chegados no barco de uma ONG. Lembre-se que a Itália ocupa um dos últimos lugares na Europa no quesito fertilidade. Sua população é declinante.

Este mês de dezembro trouxe ainda duas notícias inquietantes provenientes do meio universitário. Na Suíça, o parlamento decidiu triplicar o valor da anuidade dos alunos estrangeiros das universidades federais. Alegando dificuldades orçamentárias, o congresso tomou essa decisão de puro populismo mesquinho. Quando formados, os alunos estrangeiros voltarão para casa como embaixadores gratuitos da excelência do país onde estudaram. Entravar a vida estudantil desses alunos é contrário ao bom senso.

A outra notícia preocupante nos veio de uma Argentina em plena mutação. Suas universidades públicas devem passar a cobrar anuidade dos alunos estrangeiros – somente deles. Valem aqui os argumentos que usei no caso suíço: estarão perdendo a ocasião de formar propagadores internacionais das virtudes do país.

Acho ingênuo acreditar que cheguemos tão já à fraternidade universal que teorias do século 19 nos prometiam. Ao contrário, percebo sinais inquietantes de estarmos, a passo contínuo, caminhando no sentido oposto. O lado friorento da humanidade está querendo nos ensinar que bom mesmo é se isolar, cada um vivendo no seu canto, todos de porta fechada. Alto lá! Nem tanto ao mar, mas também nem tanto à terra! Virtus in medio.

Feliz ano novo a todos!

Conto de Natal para o ano todo

Osvaldo Molles (*)

Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento.

E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E, o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse:
― Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.

Veio um boi. Um boi que, segundo o Dicionário de Caldas Aulete, «serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem». Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
― O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai… e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que tinha de meu: meu pobre alento.

Veio uma cabra-montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
― Eu Lhe dei o leite de meu filho.

Veio, depois, uma ovelha, macia como reza de criança. No perfil trácio, trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
― Nada Lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-Lhe muito pouco: apenas meu calor.

Veio um jumento sisudo e muito percorrido, desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento muito velho e usado que conhece muito bem a História. Disse:
― Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.

Veio o peixe e disse:
― Eu saltei para o barco de Pedro. Eu Lhe dei a fé.

Veio o grão de trigo e falou:
― Eu me multipliquei quando Ele mo pediu. Dei-Lhe a ceia.

Veio a água ingênua e disse:
― Eu me transformei em vinho. Dei-Lhe meu sangue.

E veio o homem. O homem sábio ― o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é o rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
― Eu Lhe dei a cruz.

(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.

Prêmio Sákharov

José Horta Manzano

O Prêmio Sákharov pela Liberdade de Pensamento é a mais alta distinção concedida pelo Parlamento Europeu para recompensar ações em favor dos direitos humanos. Desde 1988, o nome do ganhador (ou dos ganhadores) é anunciado alguns dias antes do Natal. Em época de troca de presentes, o Sákharov é um presentão: o vencedor tem direito a um cheque de 50 mil euros (R$ 316 mil). Nada mal para um Natal farto.

Através dos anos, já foram agraciadas figuras conhecidas como Nelson Mandela (África do Sul), Alexander Dubček (Tchecoslováquia), Xanana Gusmão (Timor Leste), Alexei Navalny (Rússia) e muito mais gente.

O nome do prêmio é homenagem ao físico nuclear, ativista dos direitos humanos e dissidente soviético Andrei Sákharov (1921-1988), nascido e morto em Moscou. Jovem formado, recebeu de Stalin a incumbência de alcançar os EUA na corrida ao armamento atômico. De seu desempenho, a União Soviética pôde contar, em pouco tempo, com a bomba H made in Russia.

Com o passar do tempo, o cientista foi tomando consciência do perigo que a arma atômica poderia representar em mãos incompetentes. E enveredou pelo caminho do pacifismo, um pecado mortal na antiga União Soviética. A tal ponto seus atos irritaram as autoridades, que ele foi mandado para um exílio interno. Foi obrigado a se mudar para a cidade de Gorki (hoje Nijni Novgorod), a 7 horas de estrada de Moscou. Só não foi parar na Sibéria em razão do respeito que lhe deviam como pai da bomba soviética.

Em 1975, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz. Todavia, não pôde ir buscá-lo pessoalmente em Oslo (Noruega) dado que as autoridades soviéticas não lhe concederam um visto de saída. Anos mais tarde, com a chegada de Mikhail Gorbatchev ao posto de secretário-geral do Partido Comunista e o progressivo afrouxamento do regime, o cientista pôde finalmente viajar pela Europa e pelos Estados Unidos, onde já era admirado.

Neste dezembro de 2024, o Parlamento Europeu acaba de entregar o Prêmio Sákharov do ano. O ganhador simbólico é o conjunto de opositores ao regime de Maduro, representados por María Corina Machado e Edmundo González Urrutia. Ela era para ser a candidata oposicionista nas eleições deste ano, mas no último momento foi declarada inelegível. De última hora, González a substituiu e ganhou o pleito com quase 70% dos votos. Ele é, portanto, o legítimo presidente da Venezuela.

Não sei se a turma do Planalto está sabendo do ocorrido. Se tiver ouvido falar, nosso presidente deve estar maldizendo a hora em que recebeu Maduro em palácio, com flores, banda de música e tapete vermelho. E quando disse que a “narrativa” do companheiro seria sempre melhor que a dos opositores. É de fazer chorar de raiva no escurinho do banheiro.

Assim são as coisas. Nada fica sem troco.

Fiat lux

 

 

José Horta Manzano

É natural que Madame queira “dar luz” ao filho. Ela passou as últimas décadas sob os holofotes e se acostumou. Quer agora dar ao herdeiro um pouco da luz que tem recebido.

Brincadeiras à parte, não se deve dizer “dar luz ao pequerrucho”, mas sim “dar o pequerrucho à luz”.

No fundo, o significado das duas expressões até que se aproxima, mas o uso do falante fixou a segunda. No futuro, pode ser até que mude, nunca se sabe.

Toda poderosa

Iemanjá

 

 

José Horta Manzano

É todo-poderosa, com tracinho. Nessa expressão, a primeira parte (todo) resta invariável, visto que está por tudo. Ex:

Todo-poderoso
Na Rússia, Putin é todo-poderoso. (=pode tudo)

Todo-poderosa
No Reino do Mar, Iemanjá é todo-poderosa. (=pode tudo)

Todo-poderosos
Em seus países, ditadores são todo-poderosos. (=podem tudo)

Todo-poderosas
Numa civilização matriarcal, as mulheres são todo-poderosas. (=podem tudo)

O general e o caviar

José Horta Manzano

O Globo informa que o general Braga Netto está detido na 1ª Divisão do Exército, na Vila Militar (Rio de Janeiro). Acrescenta que o preso tem à sua disposição uma suite individual (quarto com banheiro exclusivo), armário, geladeira e televisor.

Tem gente que, ao saber da notícia, se indignou, bateu o pé no chão, cuspiu pra cima, jogou sal pra trás do ombro. Como assim? Com os presos comuns amontoados em celas de 40 indivíduos, esse aí vive como num Palace Hotel?

Pois eu digo que o importante não são as condições de detenção do graduado. O principal é ele ter sido abatido em pleno voo, apesar de todas as estrelas que carrega no ombro e da soberbia que lhe acalenta a personalidade. Lembre-se que, em qualidade de grã-general, Braga Netto tem direito a mais regalias.

A qualquer momento, pode mandar um ordenança até a banca da esquina comprar os jornais do dia. E as notícias vão martelar-lhe no ouvido a revelação de obscuras transações ora expostas à execração do distinto público.

Não há de ter perdido tampouco a edição deste domingo do Fantástico, que lhe reservou um bloco. Com ou sem cara feia do interessado, o Brasil está sabendo do comportamento criminoso de que o general é acusado.

Tem ainda a vergonha diante de todos os residentes e frequentadores do enorme (e belo) edifício onde ele se encontra: todos têm permissão para sair à rua quando de folga, só ele não tem.

A razão é simples: ele está preso, ora veja só.

Em matéria de conforto carcerário, todo o mundo sabe que os chefões de máfias e facções, embora presos, levam vida de sultães. Caviar, foie gras e champanhe fazem parte do regime, iguarias que não costumam ser servidas com frequência à mesa dos oficiais da Vila Militar.

Não se perca fazendo continha de mesquinho. Lembre-se que o general está preso, fora de circulação, tolhido de seu direito de ir e vir. Está no xilindró.

Pra coroar uma carreira 4 estrelas, não há castigo pior.

Amor próprio em queda livre

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ah, as peças que o inconsciente prega na gente!

Sofri duas quedas em sequência: a primeira, em maio do ano passado, quando fui derrubada e arrastada por minhas cachorras durante um passeio, e a segunda, em setembro passado, quando escorreguei “sem querer” em um rastro de óleo deixado pela minha atual companheira de quatro patas no chão da sala ao atacar uma lata de sardinhas que eu havia esquecido sobre a pia da cozinha.

Nas duas ocasiões, as consequências físicas foram terríveis: fratura no ombro esquerdo e fissura no quadril da primeira vez e agora fratura do fêmur e deslocamento grave da clavícula direita. Dores acachapantes, longos meses de fisioterapia para recuperar os movimentos, sequelas limitantes. Por quê? Eu estava passando por um período relativamente tranquilo de vida e de trabalho, embora me queixasse ocasionalmente de tédio e falta de perspectivas. Então, como explicar meu desejo inconsciente de me machucar?

À primeira vista, pode parecer que fui vítima involuntária de circunstâncias imprevisíveis. Aliás, esse costuma ser o argumento usado por 10 entre 10 vítimas de acidentes ou incidentes repetitivos. Curiosamente, nenhuma das minhas quedas ao longo da vida foi causada por distração, baixa visão ou problemas de articulação típicos dos idosos. Houve sempre um estímulo externo com impacto forte o bastante para me desequilibrar – o que pretensamente serviria para comprovar minha “inocência” na causação da queda.

Mas por que, então, a repetição de tantos acidentes? Lembro que no ano passado estava claro na minha consciência que eu sentia não ter forças suficientes para sair sozinha do buraco existencial e profissional em que eu própria havia me metido. Cheguei a perguntar a uma amiga, que funcionava como uma espécie de guru para mim, se ela achava que eu ainda estava sujeita a novas quedas ou se a simples conscientização quanto à minha responsabilidade já serviria para interromper a série de acidentes fortuitos. Ela me deu uma resposta à la lusitana, que guardo até hoje como alerta: “Se o motivo que leva você a cair desapareceu, então você não vai mais cair”.

Não é minha intenção psicologizar ou generalizar indevidamente as causas de uma ocorrência tão natural, inevitável na vida de seres bípedes. Parafraseando o velho e querido mestre Freud, às vezes um tombo é só um tombo mesmo. Mas, quando ele se repete indefinidamente e é causado por circunstâncias bastante diferentes entre si, há que se suspeitar da presença de um fator desestabilizador complementar à força da gravidade, não é mesmo?

Já tinha visto essa intrigante repetição de traumas físicos acontecer na vida de outras pessoas. Minha mãe, por exemplo, sofreu três quedas consecutivas após um longo e doloroso processo de divórcio: a primeira dentro de um ônibus, quando o motorista acelerou antes que ela pudesse se sentar; a segunda dentro de um taxi, que ela havia imaginado ser mais seguro, mas que bateu no meio do percurso, projetando-a para a frente e fazendo com que batesse a cabeça no painel; e a terceira, devido a um choque ultra potente no chuveiro que a fez voar e cair sobre o bidê, provocando fraturas em várias costelas e escoriações por todo o corpo e cabeça. Gato escaldado, ela me confidenciou que passou a sentir muito medo de ser atropelada. Não pude deixar de pensar com os meus botões que, sem o perceber, ela já havia permitido que a vida a atropelasse diversas vezes.

O que quero dizer com tudo isso é que o cenário para os tombos recorrentes é montado de tal forma que não reste a menor dúvida nos circunstantes de que a pessoa não teria como prever nem controlar o desenrolar dos acontecimentos. Contudo, a frequência, o sentido e a gravidade das lesões permitem começar a suspeitar que há vetores presentes no psiquismo da pessoa que apontam para a “vontade” – inconsciente – de se paralisar, de postergar indefinidamente a iniciativa de buscar ajuda e até a disposição de abrir mão da própria autonomia em troca de um amparo exterior.

Se examinadas com cuidado as circunstâncias anteriores à queda, é possível perceber que por trás de cada queda física repetitiva existe uma queda emocional, um abalo na autoimagem de competência, um rebaixamento da autoestima. Cair está simbolicamente associado com render-se à própria vulnerabilidade – o que um ego narcísico, controlador e perfeccionista (como o meu) não aceita. Tem a ver com a incapacidade de entrega amorosa às tentações (boas e más) do destino, fundada obviamente no medo da rejeição. Mas, forçoso é admitir, pode ser também uma maneira desesperada de materializar um sofrimento psíquico que muitas pessoas próximas não conseguem perceber.

O que a “vítima” de acidentes recorrentes não lembra antes de cair é que, ao abrir mão da própria autonomia, todas as decisões que determinam como ela prefere levar a vida passarão a estar dali em diante nas mãos dos cuidadores que se apresentarem para ajudar – até nas coisas mais simples, como a hora de acordar/ir dormir, o que comer ou como ocupar as horas vagas. Será que essa troca vale a pena? Uma coisa é certa: não basta levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima a cada vez que se cai.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O general na cadeia

José Horta Manzano

Nosso país conserva normas que criam privilegiados. Desde os tempos em que ainda não havia regras nesta América portuguesa, o aventureiro branco vindo d’além-mar tinha automática ascendência sobre os gentios. Era o direito habitual, que dispensa leis escritas e é por todos reconhecido como natural.

Escritas ou não, normas discriminatórias continuam a favorecer castas privilegiadas até hoje. Entra governo, sai governo, estoura revolução, baixa a poeira, ensaia-se golpe de Estado, acalmam-se as coisas – mas os privilégios permanecem.

Me parece justo que um militar de profissão, tendo cometido crime durante seu engajamento na tropa, esteja sujeito à lei militar e seja por ela julgado. Se for condenado a pena de privação de liberdade, é compreensível que a cumpra em prisão militar.

Já um militar reformado que se veja diante de justiça civil por malfeitos cometidos deverá, no meu entender, ser submetido a destino semelhante ao de seus concidadãos civis: será julgado por tribunal civil e, em caso de condenação, comprirá a pena em prisão civil.

Por essas e outras, tenho certa dificuldade em entender que nosso ex-futuro vice-presidente da República, general reformado Braga Netto, esteja recolhido ao aconchego de uma prisão militar. A estas alturas, ele já deve ter sido entregue ao Comando Militar do Leste, onde estará abrigado sob custódia do Exército Brasileiro.

Não é difícil imaginar o general de quatro estrelas sendo atendido por cabos e sargentos solícitos e reverentes que lhe levam o rango, arrumam a cama, varrem o chão, limpam o banheiro, engraxam os sapatos de manhã e trazem os chinelos à noite.

Não acho que o general estrelado, apesar do tenebroso crime de que é acusado, devesse mofar numa masmorra escura e úmida, sem julgamento, pelo tempo que lhe resta de vida. Acho simplesmente que ele deveria ser tratado como seus concidadãos comuns. Vista a idade e o histórico de vida do encarcerado, acredito que deveria ter direito a cela individual. Fora isso, nenhum privilégio extra.

O que é perturbante é saber que Braga está num universo em que todos os que o servem são hierarquicamente inferiores a ele. É situação esdrúxula, que não resiste a uma análise mais profunda.

Sosseguemos. Antes que a tinta deste texto seque, é bem capaz de o general já ter sido solto por conta de alguma manobra jurídica. Afinal, temos tantas à disposição…

Mr. Fico

Folha, 11 dez° 2024

José Horta Manzano

Resistente, o primeiro-ministro eslovaco certamente é. O homem escapou com vida de um atentado a tiros, ocorrido durante um comício, ocasião em que foi atingido por nada menos que 5 projéteis. Tem corpo fechado, como se costuma dizer.

Chama-se Fico (Robert Fico), sobrenome predestinado, daqueles que chegam é não arredam mais pé. Note-se que a gracinha não faz sentido além de nossas fronteiras. A pronúncia original não é Fico, mas Fitso.

Ovelha negra entre seus pares europeus, Senhor Fico é russófilo e, por coerência, americanófobo (ou antiamericano, que dá no mesmo). Atravessou o Atlântico com sua comitiva para prestar homenagem ao presidente do Brasil, que também se posiciona no mesmo quadrante do tabuleiro, entre os que simpatizam com Moscou e detestam Washington.

Fico, que se encontra em Brasília neste momento, nasceu e cresceu num país comunista, à sombra de Moscou. Muitos descreveriam mais tarde esse período como pesado e opressivo – não deve ser o caso de Robert Fico. Suas convicções traduzem até uma mal disfarçada nostalgia. Talvez as aulas obrigatórias de língua e cultura russas que recebeu na infância lhe tenham aberto horizontes fascinantes e desconhecidos por nós outros.

O primeiro-ministro eslovaco joga no mesmo time de Viktor Orbán, seu colega húngaro. Vivem agarrados na União Europeia como chupins, estendendo a mão para a substancial ajuda econômica que recebem, mas recusando-se a participar do esforço comum decidido pela maioria.

Em entrevista à Folha, Robert Fico fez comentários indignos de um chefe de governo, com palavras que ele não ousaria pronunciar na Europa. Disse que o Ocidente arrastou a Ucrânia para a guerra – afirmação encharcada de desonestidade intelectual.

O 24 de fevereiro de 2022 é uma data ainda fresca na memória. Acho que, naquele dia, até as redes sociais noticiaram a invasão da Ucrânia por zilhões de tanques de guerra russos, aviões bombardeiros, drones e centenas de milhares de soldados. Todos os que acompanharam aquelas primeiras semanas se lembram de como os soldados ucranianos, sozinhos e bem antes da chegada das primeiras armas ocidentais, botaram os russos pra correr e salvaram a capital de seu país.

Algumas semanas depois, a Europa e os EUA começaram a entregar armas mais modernas que permitissem aos invadidos frear o avanço dos invasores. O resto é uma história que continua sendo escrita. Afirmar que o Ocidente arrastou a Ucrânia para a guerra é distorcer a realidade para adaptá-la a seus próprios interesses. Truque indigno de um primeiro-ministro.

Robert Fico veio ao Brasil, em viagem oficial, para se encontrar com Lula. Sabe-se lá o que o visitante tinha pela cabeça, mas era até capaz de estar animado em criar uma “rede de amigos de Moscou”. Deve ter imaginado receber boa acolhida de Luiz Inácio.

Só que o destino às vezes prega boas peças. No meio da viagem, enquanto cochilava no avião, Lula foi operado às pressas. Não caiu sob as balas de um matador, mas o resultado é o mesmo: está nocaute por um bom tempo.

Fico não fica, retorna a seu país, ainda que desenxabido. Pode ser que volte um dia.

Problema do governo não está na comunicação

Elio Gaspari (*)

A ekipekonômica e o Planalto fizeram um pacote mal-ajambrado, tentando embrulhar uma vassoura, bananas e uma gaiola, o dólar passou os R$ 6, e o problema estaria na comunicação.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

Os rebeldes que derrubaram o ditador sanguinário

Síria – estradas de rodagem

José Horta Manzano

Uma boa metade da Síria é desértica, sem plantação, sem mato, quase sem gente. A rede ferroviária é limitada e não permite a circulação de pessoas e mercadorias por todos os rincões. Resta a malha rodoviária, cuja coluna vertebral é um eixo de 500 km, que atravessa todo o país na direção Norte-Sul e interliga as maiores cidades.

Esse eixo principal é constituído de excelentes autoestradas – com duas pistas mais acostamento em cada sentido, separados por um canteiro central. Foi essa estrada que permitiu aos rebeldes libertar, em apenas 12 dias, uma cidade atrás da outra, até chegarem a Damasco, a capital, no sul do país.

Sabe-se que a Rússia mantém bases militares no país incluindo uma base naval, a única que os russos têm no Mediterrâneo, e que lhes permite evitar os estreitos turcos. Sabe-se que a Rússia tem sido forte aliada do extinto regime do clã Al-Assad – aliás, o ditador só se segurou no poder até a semana passada em decorrência do apoio militar russo.

Aí vem o espanto. Como é possível que um grupo de rebeldes armados de simples metralhadoras tenha conseguido a façanha de passar 12 dias viajando de autoestrada aproveitando para libertar todas as grandes cidades do caminho, sem ser jamais incomodado pelo exército russo? Está aí um mistério que talvez um dia venha a ser esclarecido.

Vejo duas hipóteses. A primeira é que tenha havido um acerto prévio, combinado entre russos e rebeldes. (É sempre bom combinar com os russos.) Mas a hipótese me parece pouco plausível, visto que os rebeldes não estavam em condições de garantir aos russos a continuidade da autorização de funcionamento das bases militares. Os russos não abandonariam assim, tão facilmente, as bases instaladas na Síria.

Há uma segunda hipótese, que é a mais provável. A facilidade com que os rebeldes percorreram os 500 km de estrada em menos de 2 semanas, libertando cidades, vilas e vilarejos pelo caminho, só foi possível pelo fato de a Rússia estar impossibilitada de defender a ditadura do aliado Assad. Acompanharam os acontecimentos de braços atados, horrorizados mas impotentes. E por quê?

É que o intenso esforço militar que têm feito na guerra que estourou após terem invadido a Ucrânia os deixou mais diminuídos do que se imaginava. Tropas, aviões, tanques e munições que estavam estacionados na Síria já faz tempo que foram levados à Ucrânia. A atual presença russa na Síria é virtual, baseada numa imagem e não na realidade do terreno.

Com um único avião, a Rússia poderia ter bombardeado a autoestrada à frente dos rebeldes, derrubando duas ou três pontes ou viadutos. Isso teria parado a ofensiva, o ditador continuaria no trono e os russos permaneceriam no comando do país. É permitido supor que não tenham tido à mão esse simples avião bombardeiro.

A conclusão é que o temido exército russo está em condições piores do que se imaginava. Isso é ótima notícia para os ucranianos, num momento em que se aproximam as negociações de paz.

Clamor nacional

by Frits Ahlefeldt, desenhista dinamarquês

José Horta Manzano

Com atraso mas sem surpresa, o indivíduo selvagem que, ostentando farda da PM de São Paulo, tinha agarrado um cidadão pelas pernas e arremessado por cima da mureta de uma ponte, foi preso.

Não foi fácil nem rápido chegar a esse desenlace. Os superiores hierárquicos do celerado, os primeiros a ficarem a par do ocorrido, não acharam que fosse o caso de detê-lo. Entenderam que bastava um afastamento do cargo por algum tempo, enquanto a poeira não baixasse.

Num primeiro momento, aliás, eles não devem nem ter ficado a par do que aconteceu. É de acreditar que, antes de as imagens de vídeo começarem a escandalizar as redes, a hierarquia sequer tenha sido avisada. Foi preciso que o clamor popular se alevantasse para que os superiores determinassem o “afastamento” do criminoso.

Felizmente não parou por aí. Com o zum-zum crescendo e se tornando trend, a Corregedoria da Corporação houve por bem intervir. E pediu prisão preventiva do policial que, assim, passou para o outro lado do espelho e se juntou aos “elementos” que até ontem aterrorizava.

Não sei (nem ninguém sabe) como vão evoluir as coisas. O mínimo que pode acontecer é o “elemento” ser julgado como qualquer mortal, ser condenado e pagar sua pena. O que deveria vir depois, mas que não se sabe se realmente virá, é sua expulsão da Corporação. Em terras mais avançadas, ele continuaria sob detenção administrativa depois de cumprir sua pena, por representar um perigo para a sociedade.

Imagine esse indivíduo, hoje com apenas 29 anos de idade, circulando por aí, entrando num ônibus, num trem, num restaurante, num boteco. Pense quantas possibilidades diárias ele terá, nos anos que tem pela frente, de se enervar, de invocar com a cara de alguém, de receber um pisão no pé, de sua namorada ser objeto de uma olhada de um desconhecido. Imagine agora que, a cada enervada, esse rapaz agarre o interlocutor e o atire fora do ônibus, do trem, do restaurante, do boteco. Imagine que ele resolva andar armado!

No meu entender, um personagem desse quilate, de agressividade incontrolada (e incontrolável), só pode voltar a circular livremente no dia em que for aprovado numa bateria de testes psicológicos específicos que lhe meçam a periculosidade e que o confirmem regenerado e apto para viver em sociedade.

Antes disso, nem saidinha de Natal.

Crime nosso de cada dia

José Horta Manzano

Treze PMs foram “afastados”, diz a notícia, assim que veio a público o episódio do homem arremessado do alto da ponte que cruza um córrego na periferia de São Paulo. Segundo o comandante da PM, foi um “erro emocional”.

Afastados? – pergunto eu. Dos outros doze PMs, não sei, mas aquele que agarrou o infeliz pelas pernas e o precipitou no vazio merecia mais, muito mais que “afastamento”. Tinha de ser preso em flagrante de tentativa de homicídio. Com dolo, evidentemente.

Quanto aos outros, que assistiram à cena como quem assiste a um filme de mocinho e bandido, têm de ser denunciados como cúmplices da mesma tentativa de assassínio. Independentemente do resultado do processo criminal que virá, todos eles têm de perder o emprego, com proibição de exercer função pública por dez anos.

Esse seria o desfecho que me parece ideal para esse tipo de ocorrência. Não estamos no Irã nem na Rússia, e nossa polícia não pode ser homizio de cangaceiros. Certas coisas não se fazem nem mesmo com suspeitos de bandidagem – há limites que não podem ser ultrapassados e que valem para todos.

Por infelicidade, o caminho pelo qual nosso país enveredou já faz alguns anos, de confronto, incivilidade e extremismo, acrescentou fortes pitadas de violência ao comportamento nacional. O acarajé da baiana e até o insosso (mas adorável) cuscuz paulista ganharam forte picância que não é do agrado de todos.

No mesmo dia em que o celerado (imbuído da força policial) atirou um cidadão por cima de uma mureta, um cidadão foi executado por outros celerados com 11 tiros desferidos pelas costas “em legítima defesa”. Na sequência, mais uma criança foi atingida na cabeça por bala perdida.

Crime e violência, no Brasil, sempre houve. Sempre sonhamos com o progresso e o avanço da educação e da tecnologia. Hoje, com as rodas relinchando, nosso carro de boi avança, em baixa velocidade, para esse objetivo. O aumento da violência e da criminalidade não estava no programa. Por que razão, então, está aí e aumenta a galope?

Quem souber, é favor candidatar-se a algum cargo importante. Terá meu voto.