Acerte seu relógio

Relógio solar antigo

José Horta Manzano

No tempo dos romanos, não havia relógio. Nem precisava. A passagem do tempo era marcada pelo sol, pelo canto do galo, pelo mugir das vacas. Sabia-se que era meio-dia porque o sol estava no ponto mais elevado. E isso bastava.

Assim continuou na Idade Média. Os viventes, em maioria analfabetos, não sabiam sequer em que ano estavam. E isso não tinha a menor importância. O tempo era ritmado pelo calendário litúrgico que os clérigos não deixavam de recordar.

Todos sabiam que era tempo de Quaresma, que domingo que vem é Pentecostes, que estava para chegar a festa da Ascensão, de São José, ou da Imaculada. A hora do dia pouco importava.

Media-se a passagem de um tempo específico. Para os gregos, a clepsidra preenchia essa função. Seu parente, a ampulheta, continuou a satisfazer o mundo medieval. Para quem fizesse questão de ter uma ideia mais precisa das horas do dia, havia o relógio solar ― esse mesmo que ainda se pode observar no frontispício de antigos edifícios europeus. É verdade que só funcionava em dias de sol. Mas não havia outro jeito, que a técnica da época não permitia voos mais altos.

O problema começou a se agravar com as grandes navegações. Para medir latitudes, o sextante era suficiente. Mas como medir longitudes? Na falta de um relógio razoavelmente preciso, como saber que distância havia percorrido o barco e quanto faltava para chegar ao destino?

Ideias havia, já desde a antiguidade. Mas a precisão não era lá muito confiável. Há controvérsia quanto à invenção do relógio tal como o conhecemos hoje. Os ingleses são reconhecidos por sua importante contribuição para aperfeiçoar o aparelho. Grandes navegadores, tinham necessidade crucial de uma medida confiável.

Durante alguns séculos, o relógio embarcado nos navios resolveu o problema dos navegantes. E o mostrador redondo encravado na torre das igrejas foi suficiente para ritmar o dia a dia de vilas e vilarejos.

Lá por meados do século XIX, quando começaram a aparecer as primeiras ferrovias, a coisa se complicou. Antes disso, cada localidade era regulada pelo relógio de sua igreja. Contudo, os horários dos trens careciam de marcação uniforme da hora. Era impossível estabelecer horários se cada vilarejo seguia uma hora diferente.

Para encurtar a história, digamos simplesmente que o problema acabou sendo resolvido. A precisão cada vez maior dos relógios e o telégrafo ajudaram. A humanidade chegou ao século XX com uma hora, se não universal, pelo menos bem mais generalizada do que 50 anos antes.

Guerras são acontecimentos terríveis, sem sombra de dúvida. Mas são também períodos que favorecem avanços nas artes médicas, nas comunicações e na vida prática.

A Grande Guerra 1914-1918 trouxe penúria para os beligerantes. O petróleo, que já então começava a substituir o vapor e a mover o mundo, fez-se raro. A Alemanha, envolvida até o pescoço no conflito, não produzia uma gota sequer do precioso líquido. Medidas tiveram de ser tomadas para reduzir seu consumo doméstico, a fim de que sobrasse para uso militar.

Foi quando surgiu a ideia de instituir o horário de verão. A defasagem artificial entre a hora solar e a hora oficial seria benéfica para poupar combustível. A economia de eletricidade significaria, naturalmente, diminuição do gasto de petróleo.

Em 1916, os alemães foram os primeiros a oficializar o avanço dos relógios durante o período estival. Outros países apreciaram a ideia e, pouco a pouco, adotaram o sistema. Dois anos depois, os Estados Unidos já fariam sua primeira experiência.

A França discutiu, tentou, tergiversou, torceu o nariz, hesitou. A partir de 1940, ocupada pelas tropas alemãs, não teve como escapar. Enquanto durou a presença estrangeira, a cada verão os relógios tiveram de ser adiantados em uma hora. Depreciativamente, os franceses diziam que aquela era a heure allemande, a hora alemã.

O Brasil fez sua primeira experiência em 1931, quando Getúlio mandava no País. De lá para cá, houve outras tentativas esporádicas. A partir de 1986, a hora de verão foi oficializada. Tornou-se medida rotineira até ser abolida alguns anos atrás.

A Europa generalizou a medida em meados dos anos 1970. Desde então, às 2h da madrugada do último domingo de março, «perde-se» uma hora, ou seja, os relógios têm de ser adiantados. Essa hora nos é devolvida às 3h da madrugada do último domingo de outubro, a noite mais longa do ano.

A partir deste 31 de março, portanto, a Europa está um pouquinho mais distante do Brasil. Brasília está a quatro horas de Lisboa e a cinco de Madrid, Paris, Berlim, Roma.

Voltaremos a nos reaproximar no fim de outubro.

Estamos com a maioria

José Horta Manzano

Mais um Datafolha saiu. Parece que essa turma trabalha de verdade. Desta vez, quiseram saber o que pensa o povo brasileiro da comemoração do 31 de março, dia que já foi “da Revolução Gloriosa” mas, decaindo com o tempo, tornou-se “do Golpe Militar”. Nenhuma farsa dura pra sempre; com o passar do tempo, arrancam-se máscaras e descobrem-se fedores.

A quota de 63% de brasileiros que estão de acordo para desprezar o 31 de março me surpreende um pouco. Imaginava que todos os integrantes da seita bolsonárica fossem devotos da militarização do Estado brasileiro. O resultado das últimas eleições mostrou um Brasil partido em dois. Ora, 63% está mais para 2 de cada 3 conterrâneos ansiosos para virar essa página.

O de 1964 não foi o único golpe de Estado a que se assistiu no Brasil. Nossa história está coalhada por dezenas deles. Mas tem uma coisa: só são comemorados os que deram certo e perduraram até hoje.

Um exemplo é o golpe dado em 1822 por D. Pedro, quando mandou a própria família às favas e se autoproclamou imperador. O gesto foi fantasiado de “Grito da Independência” e, com esse qualificativo, é comemorado até hoje. Foi golpe que deu certo.

Outro exemplo é o golpe dado em 1889 pelo Marechal Deodoro. A família imperial foi despachada para a Europa no primeiro barco, o governo constituído foi destituído e o regime mudou de nome. Nós nos esquecemos do golpe, mas comemoramos até hoje a “Proclamação da República”. Foi outro golpe bem sucedido.

O golpe de 1964 não deu certo. Instalou militares no poder por 21 anos, mas o poder civil acabou recuperando as rédeas. Longeva por longeva, a ditadura que se seguiu ao golpe de Vargas, em 1930, durou 15 anos, tempo pra nenhum aprendiz de ditador botar defeito.

Por que razão deveríamos santuarizar 1964, quando já esquecemos totalmente 1930? E 1977, 1955, 1924, 1918 e tantos outros golpes menos importantes, que praticamente viraram pó e foram instalados na lata do lixo da História, como se diz. Por que venerar o 31 de março?

A meu ver, falar ou deixar de falar nessa data não incita nem dissuade os militares de dar um golpe. O ex-presidente passou 4 anos inteiros a insinuar sua simpatia e seu desejo de que os militares dessem um golpe de Estado e o deixassem assumir a Presidência – o que não seria automático. Apesar da insistência, à exceção de um pequeno grupo de oficiais, os fardados não lhe deram bola e o deixaram falando sozinho.

Quanto a mim, fico com os 63% de brasileiros cansados de ouvir falar num tema que não lhes parece primordial. Os tempos mudaram. Militares já demonstraram não estar interessados em golpe. Temos tantos outros problemas, não me parece inteligente criar mais um.

Quem pode, quem não pode

Chega um pouquinho mais pra lá!
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 março 2024

Num discurso pronunciado poucos dias atrás, Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, pisou com força no calo de muita gente. Atacou forte o primeiro-ministro de Israel. Com todas as letras, afirmou que, com os crimes que vem cometendo em Gaza, Benjamin Netanyahu “inscreve seu nome ao lado de Hitler, Mussolini e Stalin, como um nazista dos dias atuais”.

E não parou por aí. Garantiu que “ninguém jamais obrigará a Turquia a chamar o Hamas de organização terrorista”. Acrescentou ainda que a Turquia “conversa abertamente com os líderes do Hamas e os apoia com determinação”.

São poucos os líderes a poder pronunciar tais palavras sem que o mundo venha abaixo. Erdogan é um deles, e sabe que pode fazê-lo sem ser cobrado. O dirigente turco entendeu que a liberdade de palavra de um líder está ligada à importância de seu país no tabuleiro da política mundial. Há nações importantes pelo poder econômico, outras se impõem pelo arsenal atômico, há ainda países que, por sua posição geográfica, são estratégicos.

Antes de falar grosso, Erdogan manobrou paulatinamente para aumentar o peso de seu país. O território turco se assenta nas duas margens do Bósforo, o estreito por onde é obrigado a passar todo navio com destino ao Mar Negro.

Isso significa que toda a frota russa baseada naquelas águas tem de pedir licença à Turquia para transitar por ali, até poder largar âncoras em seu porto de armamento situado na margem russa do Mar Negro. A política externa de Erdogan torna seu país polivalente. Membro da Otan, a Turquia é próxima da Ucrânia, amiga da Rússia e inimiga de Israel. Numa hipotética futura mesa de negociação da paz na Ucrânia, a Turquia será um participante por assim dizer obrigatório.

Essa esperta ambiguidade da política turca, aliada à importância geográfica do país, faz que se releve boa parte dos exageros retóricos do presidente – que são basicamente destinados a seu público interno. Fecham-se os ouvidos para a comparação extravagante entre Netanyahu e Hitler, e fecha-se o olho para o apoio veemente e fraterno ao Hamas, grupo considerado por muitos como terrorista.

Nosso Lula nacional, depois de levar puxões de orelha por falas inoportunas e inapropriadas, parece ter mudado a espingarda de ombro. (Essa é a situação no momento em que escrevo; amanhã, ninguém sabe.) A importância estratégica do Brasil ainda não permite a nosso presidente sair por aí dando murros na mesa. Lula acaba quebrando os dentes a cada vez que se aventura por mares que não costumamos navegar.

Tudo indica que sua nova meta é assumir a liderança do “Sul Global”. O alvo está distante e o caminho será pra lá de árduo. Há sinais de que nossa sociedade está mudando. Um fato novo revelado pelo último Datafolha mostra que 10% dos entrevistados apontam a política externa de Lula como algo negativo. Isso é novidade. Política exterior nunca foi tema importante para o grande público no Brasil, sendo reservado, via de regra, para iniciados. Percebe-se que já não é assim.

Mas o que vem a ser esse tal de Sul Global? O nome é portentoso, deixando a impressão de que congrega todos os países ao sul do Equador, irmanados num interesse comum. Não é nada disso. Não passa de uma etiqueta. É um elenco de países díspares que se imagina não terem simpatia pelos Estados Unidos, país cuja hegemonia talvez os incomode. Assim, excluídos os EUA, a Europa e mais algumas antigas colônias britânicas, a etiqueta reúne em tese todos os países restantes.

O nome da etiqueta foi mal escolhido. China, Índia e Rússia – apesar de se situarem inteiramente no Hemisfério Norte, com a Rússia roçando até o Polo Norte – fariam parte do “Sul Global”. Vê-se que é uma congregação de interesses contrastados, às vezes divergentes e até antagônicos. São países que pouco têm a ver entre si. É esse Sul Global que Luiz Inácio tem intenção de liderar? Um Lula a liderar Putin, Xi Jinping e Modi?

O Brasil é um país lindo e cheio de promessas mas nossas potencialidades têm de ser desenvolvidas. Em vez de tentar liderar etiquetas ao redor do mundo, Lula deveria começar combatendo os males nacionais, pelo menos os mais evidentes e urgentes, como a dengue, a miséria, o massacre sistemático dos povos indígenas. Seria o melhor caminho para tentar recobrar a velha aura que murchou.

Um dia, o Brasil certamente será importante. Mas a estrada ainda é longa.

Bolsonaro já está preso

José Horta Manzano

Julian Assange é cidadão australiano residente na Inglaterra. Em 2012, passou a ser procurado pela justiça americana por estar envolvido no rumoroso caso Wikileaks. Para escapar a uma extradição capaz de lhe valer mais de um século de prisão, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres.

Ficou sete anos na representação diplomática, dormindo num cubículo, sem sair jamais, sem sequer ver a luz do sol. Só não embranqueceu de vez por ter à mão uma lâmpada bronzeadora facial. Só não travou das pernas por ter conseguido uma esteira.

Um dia, o Equador anulou o asilo diplomáico e expulsou Assange. Diante da porta, o rapaz foi acolhido (e colhido) pela polícia inglesa. Desde então, ele curte as delícias da prisão londrina de Belmarsh, uma das mais rigorosas do reino. Está no aguardo de uma provável extradição para os EUA. No total, já passou doze anos como prisioneiro – ainda sem julgamento, sublinhe-se.

Jair Bolsonaro vive atualmente na situação em que Assange vivia antes do asilo na embaixada. Em outras terras, com todas as acusações que lhe pesam sobre a cabeça, o capitão já estaria encarcerado à espera de julgamento. Nossa justiça é menos rigorosa que outras, razão pela qual ele ainda está solto.

Solto, sim, mas não mais senhor de seus movimentos. Está sem passaporte, com restrições de deslocamento e… monitorado (esta parte não se põe por escrito). Discretamente, a PF há de estar a par de seus menores deslocamentos. Sabem onde está, a que horas chegou, a que horas saiu, o que veio fazer, onde dormiu, com quem se comunicou, essas minúcias.

Eis por que é errado dizer que Bolsonaro está livre. Livre de verdade, como qualquer um de nós, ele não está. Você e eu, se tivermos amanhã vontade (e condições econômicas) de viajar para Israel, marcamos a passagem e vamos. Já o capitão não pode. Aliás, ele pediu estes dias a Alexandre de Morais licença para embarcar para Tel Aviv. A autorização pode até ser que venha; por enquanto, não veio.

Na verdade, Bolsonaro está num limbo entre cidadão livre e prisioneiro. O andamento dos processos que lhe pesam sobre os ombros é que decidirá de que lado ele vai cair: do lado do cidadão livre ou do outro.

Se o ex-presidente tentar de novo e obtiver asilo numa embaixada (como já tentou em fevereiro), vai pular da panela pro fogo. Vai seguir o exemplo de Julian Assange. Periga passar um bom tempo lá dentro, vivendo num cubículo, comendo quentinha ou miojo, sem ver a luz do sol, à espera de que a situação se decante. Isso pode durar meses, anos.

À porta da embaixada estará sempre estacionado um carro descaracterizado com uma duplinha de federais. Deixar a embaixada num porta-malas? Nem pensar! Se o embaixador permitisse isso, perderia o emprego e era capaz de terminar na cadeia. Além de abrir uma grave crise diplomática entre seu país e o Brasil. Não, o capitão não sairia de lá.

Portanto, Seu Jair, asilo em embaixada, melhor esquecer. Vosmicê devia ter aproveitado o turismo que fez em Orlando para negociar asilo em algum país, não na embaixada, no país mesmo. Não fez? Bobeou, dormiu no ponto.

Na situação atual, o que lhe resta é esperar tranquilo, enfrentar os processos. Em caso de encarceração, ninguém vai mandá-lo para o Complexo de Gericinó, no meio de seus amigos milicianos. Vosmicê vai ocupar uma suite confortável na Papuda, com direito a lâmpada solar e esteira. Vai ficar alguns anos, mas certamente menos do que teria de ficar no quartinho da embaixada.

Tranquilo, pois! Tome um chá de camomila e aguente firme. Vale a pena.

Observação
Na ilustração, pus uma embaixada de Cuba de propósito. Não é gozação. É porque acredito que, caso se asilasse em Cuba, Bolsonaro teria recepção e tratamento de primeiríssima. Imagine o orgulho dos bondosos dirigentes da ilha, de poder mostrar ao mundo que, entre quase 200 países e territórios, o capitão escolheu o país deles!

O espanhol se aprende facilmente em Havana, cidade de garotas estupendas, onde, para um homem de olhos azuis e 1m85, em cada esquina “pinta um clima”.

O “lapsus linguæ” do Lula

José Horta Manzano

Como todos os meus cultos leitores sabem, a expressão latina lapsus linguæ, que, ao pé da letra quer dizer “escorregão da língua”, é usada para indicar o ato de tropeçar na língua, dizer uma coisa por outra. O próprio Houaiss informa que, por influência das ciências psicanalíticas, um lapsus linguæ costuma ser interpretado como a expressão de “pensamentos reprimidos”.

Ontem, no abafamento úmido da selva amazônica, Lula recebia um Macron meio pálido, mangas arregaçadas, rosto transpirado e ar cansado. Via-se que o visitante não está habituado aos trinta e tantos graus de calor.

Os dois personagens principais tocavam conversa amena, sentados formando uma roda com numerosos participantes, entre ministros e índios paramentados.

Era a vez de Lula, personagem que nunca rejeita um microfonezinho. De repente, ele olha para Macron e lança, em seu dialeto costumeiro: “Eu e o Sarkozy vamo viajá po Rio de Janeiro inda agora à noite”.

Passado um instante de estupor, a pequena assembleia se tumultua. Vozes se elevam para apontar o erro. Lula logo conserta: “Eu e o Macron…” E a fala continua. (Trechinho de 20 segundos disponível no youtube.)

O erro não passa de um errinho sem consequências. Volta e meia, um dirigente troca o nome de um par. Talvez Macron nem tenha se dado conta, dependendo da pirueta dada pelo intérprete.

O que me ficou foi mais uma demonstração de que o Lula versão 3.0 não passa de um Lula 1.0 recauchutado por fora, mas com o miolo (=cerne) intocado. É verdade que Lula se encontrou com Sarkozy em numerosas ocasiões, mas esse fato, sozinho, não seria suficiente pra fazê-lo trocar o nome do atual presidente da França.

Muita gente reclama dos erros de governança cometidos por Luiz Inácio, que tenta aplicar hoje soluções que já não deram certo ontem. A verdade é que nosso presidente não se desgrudou de seus primeiros tempos na Presidência. Pelo jeito, não se desprenderá nunca.

Será que ele chegaria a chamar seu amigo Maduro de Chávez?

Cagão

José Horta Manzano


Disclaimer
Este texto apenas enumera hipóteses elaboradas pelo autor. Ainda não são (e talvez nunca se tornem) verdade atestada.


Peço desculpas ao distinto leitor e à graciosa leitora pelo título deste escrito. Por estas bandas, não costumamos nos alimentar de pratos escatológicos, mas a situação é especial. No entourage do capitão, palavras como essa do título são como arroz e feijão: são servidas em todas as refeições.

Mas o fato do dia é que… o imbroxável broxou de vez. Se homiziou na embaixada da Hungria em Brasília e lá passou dois dias. Não sei quanto está cobrando a embaixada pelo pernoite com pensão completa. Se o preço for abordável, vou bater-lhes à porta dia desses.

Quem liberou as imagens?

Achei estranho, em todos os papéis que li, não ter visto ninguém querendo saber quem liberou os vídeos e como eles foram parar na mídia mundial. Pois a resolução do mistério reside exatamente nesse ponto: quem liberou as imagens?

Se alguém quiser causar a maior repercussão planetária utilizando um só veículo da mídia, não há dúvida – o caminho é um só: The New York Times, de longe o jornal mais importante do mundo.

Pensei: como é que os vídeos chegaram lá? Tentei imaginar um repórter do NYT escalando o muro da embaixada da Hungria no escurinho da madrugada, em seguida arrombando a porta da entrada e aspirando, com um pen drive (chave USB), o arquivo de vídeos de segurança. Coisa de filme de espionagem, inimaginável na vida real. Mas se ninguém roubou, quem passou as imagens para o NYT?

Ora, se as imagens não foram surrupiadas, só podem ter sido entregues ao jornal pela própria embaixada, não vejo outra possibilidade. E por que razão terão feito isso?

Vamos começar do começo. Quando a justiça retirou o passaporte de Bolsonaro, o pavor de uma prisão iminente deve ter se instalado no entorno dele. Conselho de crise foi instalado e ideias foram brotando, umas mais estrambóticas que as outras: deixar o país dentro de um porta-malas, encomendar a um meliante mais jeitoso que confeccionasse passaporte falso, fretar jatinho privado capaz de percorrer longas distâncias.

A intenção era de escapar à cadeia. Mas cada ideia tinha seus inconvenientes. Deixar o país num porta-malas e, no dia seguinte, como fazer sem passaporte? Encomendar passaporte falso que responda a todos os requisitos tecnológicos? Impossível, seria parado no primeiro guichê de imigração. Viajar num jatinho privado? Seria como viajar no porta-malas. No dia seguinte, sem documento, como é que fica?

Depois de uns dias espremendo as meninges, um dos pequenos gênios que cercam o capitão veio com a ideia de pedir refúgio a uma embaixada estrangeira. Se aceitassem, ele estaria protegido, visto o estatuto de extraterritorialidade das representações diplomáticas: nenhuma polícia poderia alcançá-lo ali. Se não aceitassem dar-lhe refúgio, ficariam elas por elas, tudo discreto, episódio não visto e não sabido. A ninguém ocorreu levar em consideração o risco de a própria embaixada botar a boca no trombone.

Sim, senhores, porque foi exatamente o que ocorreu. Vamos ver como.

A embaixada deve ter sido avisada da chegada iminente de Bolsonaro, ex-presidente do Brasil. Sabiam que ele tinha um assunto urgente a tratar com o embaixador. Visita de ex-presidente não se pode recusar. O visitante chegou, entrevistou-se com o embaixador, pediu asilo diplomático. Naturalmente, nenhuma resposta lhe pôde ser dada na hora. O profissional ficou de consultar Budapest.

Era noite, e o capitão assustado pediu licença para se recolher na embaixada. Foi alojado na ala de visitantes.

Dia seguinte, ficou sabendo que nenhuma resposta tinha vindo de Budapest. O jeito era esperar, que essas coisas são complicadas e demoradas. Fico imaginando o apuro do governo húngaro, atarantado, sem saber o que fazer. Bolsonaro é um sujeito pestilento – ou tóxico, como se diz hoje em dia. É daquelas visitas fortemente incômodas, que merecem vassoura atrás da porta, de cabeça pra baixo. Não sei se, nas tradições magiares, essa simpatia também funciona.

Pousou mais uma noite nos locais, sempre na incerteza da concessão do asilo. Os vídeos publicados pelo NYT não deixam claro, mas imagino que o ex não tenha sido deixado à míngua. Pensão completa deve ter sido servida. Talvez em quentinhas, que é sempre melhor “jair se acostumando”.

No terceiro dia, não dava mais pra segurar. Deram a Bolsonaro a notícia chata: nada de refúgio, capitão, que Budapeste não está de acordo. Se você ainda não assistiu aos vídeos, preste atenção no finalzinho, quando nosso ex deixa a embaixada. Provavelmente estava sendo gentilmente acompanhado até a porta. Sai apressado, enfezado, sem olhar para os lados, não cumprimenta ninguém, encafua-se no carro e zarpa. Se aquilo não é sintoma de que seu objetivo foi pro espaço…

Isso tudo ainda não explica por que razão os vídeos saíram no NYT.

Já venho. Os serviços de segurança da Hungria são herdeiros do duro sistema soviético. Faz tempo que recobraram a independência, mas há coisas que marcam um país por décadas. Entendem que Bolsonaro, embora pareça viver livre e solto na natureza, está sendo discretamente seguido pela nossa PF. Compreenderam que a Federal estava a par da longa visita à embaixada da Hungria e devia estar com a pulga atrás da orelha.

Antes de cair na desconfiança da polícia brasileira, os diplomatas, certamente instruídos por Budapest, fizeram chegar os vídeos de segurança ao New York Times. É até possível que o jornal tenha se comprometido a não divulgar a verdadeira fonte, talvez inventem o nome de um intermediário qualquer.

Agora, publicados os vídeos, a embaixada da Hungria lava as mãos. Por certo não dirão mais nada. Vão deixar que cada um faça sua própria ideia sobre a razão da visita de Bolsonaro.

Pronto, gente boa, o círculo está fechado. Podem se dispersar, o espetáculo acabou.

Para Bolsonaro ficou a lição. “Países não têm amigos, têm interesses”. Enquanto ele era presidente do Brasil, representava um certo interesse para a Hungria. Agora, derrotado e na mira da Polícia Federal, virou um lixo que ninguém quer ver por perto.

Dicas de Português

Ortografia 4José Horta Manzano

1. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja autoincensação decorre justamente do parco conhecimento linguístico de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações antipáticas altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.

5. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai-se tornar palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer que a palavra repetida desqualifique o texto onde tal palavra for com insistência repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “Quem cita terceiros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: “Mesóclises: evitá-las-ei!”

23. De regra importante esquecer não nunca: crucial a das palavras é ordem!

24. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

25. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!! Acaba parecendo um tuíte!!!

26. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

27. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

28. Seja incisivo e coerente. Ou não.

29. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade. Com certeza, você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em abandonar esta maneira irritante de estar falando.

30. Venha cá, meu rei! Outra barbaridade que deves evitar, tchê, é usar expressões que denunciem a região de onde vens, ô meu! Uai…esquece esse trem! Vixi… entendeu, bichinho?

31. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Educação

José Horta Manzano

No verbete ‘Educação’, o Dicionário Houaiss é claro. Garante que:


“Educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano.”


Ministro da Educação é o profissional que vela pela aplicação e pelo bom cumprimento das diretivas mestras relativas à Instrução Pública nacional. Como sabemos, nosso ensino é laico, obrigatório e gratuito.

Diretivas elaboradas num ambiente como o Estadão descreve, sem música mas com acompanhamento de gritos e socos na mesa não podem dar bons frutos. Para começar, de onde saiu essa gente que, para se entender, recorre a gritos e a socos na mesa? Serão trogloditas que o capitão esqueceu de levar na bagagem?

O presidente da República (e seus assessores) têm absoluta necessidade de dar maior atenção à escolha dos que cuidam da Educação nacional. É um terreno por demais importante para ser largado nas mãos de gente que, contrariada numa reunião de trabalho, arregaça as mangas e chama pra briga.

Indivíduos que só conseguem se entender no grito e na pancada não servem para estruturar a Instrução Pública. Seja qual for o motivo do barraco, teriam de ser demitidos imediatamente.

“Dor de cabeça” ou “problemas familiares” não servem como desculpa para a violência no trato profissional.

Parabéns, chefe!

José Horta Manzano

Fica cada dia mais claro que tanto Lula quanto o PT estacionaram na era soviética, uma época em que, por falta de internet, a comunicação circulava de forma lenta e muito mais restrita que hoje.

Putin venceu uma pseudoeleição, uma votação de cartas marcadas, com os adversários mais fortes fora do páreo: afogados na própria banheira, tombados do terraço do apartamento ou simplesmente encarcerados nalguma masmorra perto do Polo Norte.

Apenas conhecido o resultado, o PT se apressou a parabenizar o presidente russo reeleito. Usou expressões elogiosas como “resultado expressivo”, “participação popular impressionante”, “momento importante e especial para o país”. Faz sentido. O partido, que ainda não se deu conta da queda do Muro de Berlim, continua afagando o Kremlin, como se lá ainda reinasse Josef Stalin, o “pai dos pobres” (o original).

Lula, como sabemos, não resiste a uma ocasião de dar uma boa escorregada. Viu a casca de banana e correu antes da passagem do gari. Mandou escrever uma carta de congratulações ao companheiro Putin em nome do povo brasileiro.

Com essa atitude, fez companhia aos dirigentes de Venezuela, Cuba, Nicarágua, China e mais alguns ao redor do planeta. Os líderes de países democráticos, por seu lado, manifestaram pesar e preocupação por uma eleição classificada como “farsa eleitoral”.

Francamente, este Lula versão 2022 é o mesmo que o de 2002, só que descomplexado. Nos dois primeiros mandatos, Luiz Inácio se segurou, tentou enfiar o terno presidencial e, bem ou mal, deixou de herança para o mundo uma imagem simpática de político pacífico e de pai dos pobres.

É que, nos dois primeiros mandatos, um Lula mais jovem tinha conseguido se conter e, a seu modo, se apropriar do estilo que se espera de um presidente. Depois disso, houve a humilhação da prisão e as trevas da era bolsonárica. Lula voltou à corrida eleitoral sabendo que este seria seu derradeiro período na Presidência, quer dure um mandato ou dois.

Assim sendo, parece ter se soltado de vez. O que vimos antes foi um Luiz Inácio tentando ser Mister Da Silva. Hoje ele se contenta de ser apenas Lula.

O indiciamento do capitão visto de fora

José Horta Manzano

Desgraça (ou júbilo, dependendo do ponto de vista) costuma dar a volta ao mundo num segundo. Nem Júlio Verne, em seus eflúvios fantasistas, ousaria imaginar que uma notícia pudesse circular a tal velocidade.

Bastou nossa PF soltar uma nota sobre o pedido de indiciamento de Bolsonaro, que de Buenos Aires a Berlim, de Washington a Moscou, a notícia já estava nos portais por aí afora.

A nota da polícia brasileira não era acompanhada por foto, dando assim liberdade a cada redação para a escolha da imagem. A maioria optou por inserir uma foto do próprio Bolsonaro.

Três das redações postaram uma imagem cômica de Bolsonaro de máscara antiviral. Quanto à expressão facial do capitão, nenhum dos portais foi “bonzinho” na escolha – os instantâneos são todos infelizes.

Ou, quem sabe, ainda está por vir um fotógrafo capaz de colher imagem “feliz” do ex-presidente. O trabalho é complicado e as inscrições para a façanha continuam abertas.

 

Brasil: Polícia acusa Bolsonaro de fraude em registros de vacinas contra a covid

 

 

Brasil, Bolsonaro é indiciado pela polícia por certificados falsos de covid

 

 

No Brasil, Jair Bolsonaro acusado de falsificar certificados de vacinação contra a covid

 

 

Jair Bolsonaro é indiciado por falsificar passaportes de vacinação

 

 

Polícia brasileira pede que Bolsonaro seja indiciado por falsificar sua carteira de vacinação

 

 

Bolsonaro é acusado de falsificar certificados de vacina

 

 

Polícia brasileira acusa Bolsonaro de falsificar registros de vacinação

 

 

Aperta o cerco a Bolsonaro: ele é acusado de “falsificar” registros de vacinação

 

 

Ex-presidente brasileiro Bolsonaro é acusado de falsificar certificado de vacinação contra a covid

 

Criminho

 José Horta Manzano

Não faz muito tempo, analistas informavam que o STF tinha planos e até um roteiro pronto para tratar o caso do fracassado golpe de Estado de Bolsonaro. O capitão só seria incriminado depois de todas as peças do processo estarem juntadas, todas as testemunhas terem sido ouvidas, todas as provas estarem reunidas.

A partir daí, viriam o indiciamento e o devido processo. Em seguida, os inevitáveis recursos. Quando não houvesse mais recurso possível e o caso tivesse transitado em julgado, só então Bolsonaro seria preso.

Mas o golpe fracassado, que culminou no ataque de 8 de Janeiro, era o “crimão”. Pelo que ora se descortina, a estratégia começa pelos criminhos, aqueles cujas penas não serão suficientemente pesadas a ponto de determinar encarceramento do réu. Mas ficarão gravadas em seu prontuário e tirarão do justiciado, para sempre, a condição de réu primário.

Até chegar ao 8 de janeiro, ainda tem chão. O caso das joias e dos presentes afanados, o incentivo ao contágio durante a pandemia, o exercício ilegal da medicina quando receitou cloroquina, a convocação dos embaixadores para dinamitar a confiança nas instituições nacionais – e outros que me escapam agora –serão julgados antes do caso da intentona.

A convocação dos embaixadores já lhe rendeu a inelegibilidade mas, se eu não estiver enganado, ainda não foi julgada criminalmente.

Se for esse o roteiro, me parece muito bem arquitetado. Sai de uma bobaginha e vai crescendo até o clímax: o julgamento do golpe abortado. O crimão.

Beijo na foto

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Lá com os seus trinta anos, ainda virgem, (procurem no Aurelião para saber ao certo o que vem a ser uma mulher virgem, é coisa que ainda existe em dicionários), continuava a agir como se fosse uma adolescente. Para tudo pedia permissão. Para sair, para entrar e, quando ficava indecisa, pedia permissão para pensar se queria entrar ou sair.

Sempre se lembrava das histórias ouvidas quando criança, sobre os príncipes encantados, cuja maior qualidade é a de serem bonitos. Príncipe encantado que se preze não precisa ser trabalhador, nem honesto, tampouco carinhoso ou inteligente. Basta ser príncipe e bonito. Já repararam como todos os príncipes de conto de fadas têm apenas essa qualidade? São bonitos. E só com essa qualidade são capazes de fazer uma donzela feliz para sempre. É o que garantem todos os contos de fadas.

Assim cresceu a Durvalina, sempre esperando por um príncipe que fosse bonito. Não sonhava com alguém inteligente, preocupado com a vida em si, com o mundo. Assim como nas histórias ouvidas, queria achar um homem que fosse bonito e que a fizesse feliz para sempre, como num passe de mágica. Também não era necessário ser um príncipe, pois isto lhe diminuiria muito as chances de sucesso na busca. Só desejava que não fosse preciso beijar um sapo. Queria um príncipe prontinho. E bonito.

Como não costumava se expor indo a festas ou mesmo frequentando barzinhos da moda, afinal isso iria contra todos os princípios morais que aprendera desde pequena, ia do serviço para casa e de casa para o serviço renovando a cada dia a esperança de encontrar, nesse percurso tão igual, um sapo, quer dizer, um belo príncipe que a quisesse.

Um dia, após muita insistência, aceitou o convite do pessoal do serviço para ir a um baile. Afinal, aquilo poderia ser uma grande oportunidade para se divertir e quem sabe um bom lugar para sair de lá acompanhada de um sapo já transformado em príncipe. E bonito.

Pensou até em já ir com um vestido branco, parecido com o de uma noiva, caso precisasse de um para a ocasião. Em sua ingenuidade juvenil ela ainda acreditava que hoje em dia as moças ainda se casam. E de branco.

Sentou-se à mesa e sentiu-se tentada a experimentar um pouquinho do uísque que todos tomavam. Pela primeira vez na vida tomava uma bebida alcoólica. Estava longe dos pais e aproveitou-se da ausência deles para fazer uma incursão no mundo etílico. Mesmo porque, eles não estando por perto, não tinha a quem pedir permissão.

Tomou os primeiros goles e gostou. Repetiu numa segunda dose quando começou a sentir que tudo já era tão natural para ela naquele lugar, que tudo era divertido, e aceitou o convite para dançar. Dançou como nunca havia experimentado na vida. Rodopiou, levou, foi levada pela pista e em intervalos voltava à mesa para reabastecer-se com um pouco mais do aditivo que a ajudava a viver tudo aquilo.

O acompanhante, bem, não se pode dizer que era exatamente um príncipe. Rapaz simpático, mas sem o principal requisito para ser visto como um príncipe: não era muito bonito não. Mais se parecia com um sapo mesmo, só não era verde, mas naquela altura do campeonato, depois do terceiro uísque, para quem não estava acostumada àquelas coisas, era o homem ideal! Ao menos foi o primeiro que em sua vida se aproximou o suficiente para sentir o calor de seu corpo e de quem ela pudera sentir o perfume.

No dia seguinte descobriu que a bebida servida não era das melhores, quando acordou com todos os sintomas de uma memorável ressaca. Estava se martirizando com tamanha dor de cabeça, quando sua melhor amiga de trabalho lhe deu uma fotografia que alguém tirou na noite anterior, na qual se podia vê-la dançando abraçada (e bem abraçada) com o seu príncipe feiínho, que estava mais para sapo mesmo, à espera de um beijo para se transformar em algo melhor.

Alguma coisa a enterneceu e fez vibrar seu inexperiente coração. Era só uma foto, mas lá estava ela, nos braços de um homem que já lhe parecia o ideal, apesar da nota baixa no quesito beleza.

Tá certo, não se lembrava do nome dele nem de como fazer para encontrar-se com ele novamente, mas a foto se salvara naquela falta de lembrança de todos os acontecimentos da noite anterior. Era uma prova de que ela finalmente havia sido tocada e abraçada por um homem. Ela, a Durvalina, quem diria!

Sua amiga, numa tentativa de animá-la, disse que provavelmente o moço viria atrás dela sim, que logo haveria de aparecer. E que então poderiam dar continuidade ao que haviam iniciado naquela noite. Ainda que ninguém soubesse ao certo o que havia se passado.

Mas isso não lhe pareceu tão importante assim. O mais importante era a existência daquela fotografia, que passou a guardar sempre embaixo do travesseiro e na qual, antes de apagar a luz, dava um beijo e tornava a guardar. Sonhava com anjos. E príncipes.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

China ou Portugal?

José Horta Manzano

Você sabia?

Quatro ou cinco milênios atrás, os chineses já plantavam laranja. Supõe-se que as variedades doces e comestíveis não tenham surgido espontaneamente. São resultado de sucessivos enxertos e cruzamentos entre diferentes cítricos. Espécies híbridas continuam sendo desenvolvidas.

Com o passar dos milênios, o território de cultivo da fruta foi se expandindo. Da China, passou pelo sul da Ásia e chegou à Europa. Na Roma antiga, a laranja já era conhecida e consumida. Sem ser propriamente árvore delicada, a laranjeira detesta frio. Climas tropicais e semitropicais são os mais favoráveis. Nas regiões temperadas, o cultivo é complicado e pouco produtivo.

Conhecida e difundida na Europa do sul e na orla mediterrânea, a fruta era, na Idade Média, praticamente desconhecida no norte do continente. De fato, na Alemanha, no norte da França, na Inglaterra, nos países eslavos do norte, o clima não permite o cultivo.

Aliás, não precisa voltar muito no tempo para chegar à época em que laranja era artigo raro, precioso e distribuído com parcimônia. Lá pelos anos 50, quando produtos importados eram raros e caros, as escolas primárias suíças distribuíam a cada aluninho, como presente de fim de ano… uma laranja. Era uma festa. Para muitos deles, era a única ocasião do ano em que saboreavam a fruta.

O maior produtor mundial é, de longe, o Brasil, cuja safra é maior que a dos três países seguintes somados (EUA, China e Índia). Clima favorável e grandes áreas de terra disponíveis são responsáveis pelo fenômeno. Nos Estados Unidos e na China, o cultivo se restringe à faixa meridional do território, úmida, chuvosa e livre dos gelos do inverno. Na Índia, apesar do clima propício e do território vasto, a impressionante massa de habitantes não pode viver só de suco de fruta. A terra tem de ser utilizada para outras culturas, o que reduz o espaço dos laranjais.

O nome da fruta vem de longe ‒ tanto no tempo quanto no espaço. Grande parte dos estudiosos apontam que o nome da fruta, em nossa língua, tem longínqua origem tâmil, língua falada no sul da Índia e na ilha de Ceilão, onde soa algo como «naram». O termo passou pelo sânscrito e pelo persa. Na atualidade, o nome da fruta se prende a três ramos principais.

Os fiéis
Numerosas línguas se mantiveram fiéis às origens. Pequenas variações ou adaptações à fonética são naturais, embora o cerne permaneça. Entre elas, estão:

● Português: Laranja
● Húngaro: Narancs (=narantch)
● Espanhol: Naranja
● Croata: Naranča (=narantcha)
● Italiano: Arancia
● Francês: Orange
● Inglês: Orange
● Persa: پرتقال (=narang)
● Japonês: オレンジ (=orendji)
● Tcheco: Pomeranč (=pomerantch)
● Esloveno: Pomaranča (=pomarantcha)

Os «chineses»
Sabe-se lá por que, alguns povos decidiram dar à fruta o nome de «maçã da China». Entre eles, estão:

● Dinamarquês: Appelsin
● Estoniano: Apelsin
● Alemão: Apfelsine, (também Orange)
● Norueguês: Appelsin
● Russo: апельсин (Apelsin)
● Sueco: Apelsin
● Holandês: Sinaasappel

Os «portugueses»
Talvez por influência de comerciantes portugueses, (é uma hipótese), certos povos dão à laranja o nome da velha Lusitânia:

● Búlgaro: портокал (=portokal)
● Grego: πορτοκαλής (=portocalís)
● Árabe: بُرْتُقال (=burtukála)
● Romeno: Portocală
● Turco: Portakal

Maçã da China, de Portugal ou do Ceilão, a laranja faz bem à saúde. Quem não quiser apanhar escorbuto, que chupe laranja.

Curiosidade
Para o europeu, a cor da casca da laranja tem de ser… cor de laranja. No Brasil, estamos acostumados a consumir certas variedades de casca verde. Na Europa, já se fizeram tentativas infrutíferas. Se a casca do produto não for cor de laranja, ninguém compra: todos pensam que está verde.

Em consequência, boa parte das laranjas passa por (mais) um processo químico que lhes confere artificialmente a cor típica. Mas não se assuste, parece que assim mesmo continua protegendo contra escorbuto.

Que um muro alto proibia…

clique para ampliar

José Horta Manzano

Especialista em arquitetura penitenciária é que não sou. Aliás, acho que não há muitos em nosso país. Se houver, parece que o governo esqueceu de consultá-los quando implantou a penitenciária de segurança máxima de Mossoró.

Ao pensar em uma prisão, a imagem que vem à mente de qualquer cidadão é um edifício de aspecto severo cercado por um muro alto encimado de rolos de arame farpado. A fotografia das instalações penitenciárias de Mossoró que sai na mídia todos os dias mostra um conjunto de edifícios baixos, emoldurados de um verde aprazível, rodeados apenas por um alambrado, sem sombra de muro. Um espanto!

Quer dizer que prisioneiros comuns são encarcerados em estabelecimentos que parecem fortificação medieval, enquanto condenados de altíssima periculosidade cumprem pena como se estivessem em vilegiatura, em meio ao verde repousante, sem muros que lhes tolham a visão. Um assombro!

É possível que teorias modernas de construção de prisão proponham que estabelecimentos de alta segurança sejam cercados apenas de alambrado. Leigo no assunto, tenho dificuldade em conceber essa escolha. Não é por nada não, mas será que a verba para construção do muro alto não teria sido – por engano, naturalmente – desviada para compra de tratores ou de bois?

Que tenha sido erro ou traquinagem, o resultado está aí. São atualmente 500 profissionais destacados para a “caçada” aos fugitivos. Quem diz meio milheiro de policiais, subentende tudo o que acompanha: locomoção, alimentação, alojamento, logística (quem lava e passa as fardas?), helicópteros à disposição, visita de ministro direto de Brasília. Tudo isso por dois homens. E por falta de muro.

Se duvidar, é capaz de esse verdadeiro movimento de tropas estar saindo mais caro do que a contrução de um muro alto com arame farpado em cima.

Cria vergonha!

José Horta Manzano

Cria vergonha! – a expressão é do tempo de meu pai. Uma notícia de hoje me fez lembrar dela, mas fazia um tempo que andava sumida. É compreensível que tenha desaparecido. Usava-se falar assim no tempo em que “ter vergonha na cara” significava alguma coisa.

Hoje, acredito que o assunto já não comova. Chamar alguém de “sem vergonha” não faz efeito, acho que nem xingamento é mais.

Por ser muito branda, a expressão não faz mais parte da escala de ofensas. Hoje em dia, insulto bom já começa em “Ladrão!”. E daí pra cima, passando por “Nazista!”, “Comunista!” e companhia bela.

É indiscutível que o nível de tolerância de comportamentos violentos anda um bocado maleável, deixando a velha “vergonha na cara” em posição de primo pobre e fraquinho. Mas não é a única razão por trás do sumiço da antiga expressão. O problema maior é que já não se dá à “vergonha na cara” o mesmo valor de antes.

Atualmente, acho que a vergonha já não aparece entre as qualidades exigidas do perfeito cidadão. Em personagens políticos, então, é virtude praticamente inexistente. Sem nenhuma vergonha, eles insultam, roubam, corrompem, deixam-se corromper, esbanjam nosso dinheiro, beneficiam parentes.

Quando a Federal apanha um deles com a mão na carteira alheia, o danado nem se mostra envergonhado. Logo alega que o culpado não é ele, é outro. E, em geral, fica por isso mesmo. Vergonha na cara, ninguém exibe.

Como eu dizia, hoje, de repente, me reapareceu diante dos olhos a velha expressão. E veio da boca do presidente da República. Numa entrevista, indagado sobre o caso Robinho, Lula foi direto: ”Todas as pessoas que cometerem crimes de estupro têm que ser presas”. E emendou:


“Um homem, jovem que tem dinheiro, um jovem rico, famoso, praticar estupro? E coletivo? E acha que não cometeu crime! Acha que estava bêbado? Ah, cria vergonha! Estupro é um crime imperdoável!”


Não sei se todo o mundo pensa igual, quanto a mim, aplaudi de pé a fala presidencial. E olhe que não é todos os dias que isso acontece…

Estupro é crime covarde, em que um indivíduo forte submete um mais fraco. No assalto à mão armada, o forte (que aponta a arma) também submete o frágil (desarmado), só que, no estupro, além da arma apontada, há a humilhação e a dor da violação do corpo desonrado. Estupro coletivo, então, é covardia ao cubo. Em outras latitudes, dá perpétua.

Está terminando a época em que nosso país acolhia o refugo da criminalidade internacional. Durante décadas, mafiosos, nazistas, assassinos, assaltantes de trem pagador & alia encontraram abrigo nestas terras tropicais. Hoje rareiam. E não está longe o dia em que não virão mais.

O Brasil não pode ser covil de criminosos. O Lula tem toda razão: lugar de estuprador é na cadeia. Vamos ver que decisão tomam os magistrados encarregados do caso desse “jovem, rico, famoso” – nas palavras do presidente.

Vai aqui uma ideia para evitar que a índole honesta do brasileiro continue a se esgarçar. No finalzinho do Hino Nacional, onde se canta “Pátria amada, Brasil!”, que se passe a cantar “Cria vergonha, Brasil!”.

Cagões em silêncio

Ruy Castro (*)

O presidente Lula afirmou que não irá ficar remoendo o passado a respeito de 1964, porque os atuais generais eram crianças quando o golpe militar aconteceu e não tiveram nada a ver com ele. Tem razão. Como esses generais estão hoje entre os 60 e os 70 anos, tinham então menos de 10, idade em que, segundo Nelson Rodrigues, deviam estar raspando perna de passarinho a canivete. Ou passando mais tempo no banheiro do que estudando.

Por não serem responsáveis por 1964, os generais hoje na ativa não deveriam se sentir herdeiros do golpe e obrigados a defendê-lo das acusações de tortura, execução e desaparecimento de seus adversários. Ao contrário – sem envolvimento emocional com os algozes e vítimas, seu maior interesse deveria ser ilibar as Forças Armadas dessa nódoa, admitindo que foram tais e quais oficiais que cometeram os crimes, e não as Forças em conjunto. O “esprit de corps” de que não se livram só serve para explicar por que, culpado ou inocente, nenhum milico saía fardado às ruas das grandes cidades brasileiras durante a ditadura.

Os generais de hoje têm agora também a oportunidade de impedir que o espírito golpista e criminoso de alguns de seus colegas contamine a opinião de quem, daqui a 60 anos, se debruçar sobre outro golpe ou tentativa de – o de 2022.

Para isso, deveriam contar tudo o que sabem nos depoimentos a que forem intimados, em vez de ficarem mudos como fizeram há pouco nove cagões, entre os quais os generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira e o comandante Almir Garnier. O silêncio só lhes serviu para, além de se autoincriminarem, exibirem sua covardia. Sim, Bolsonaro também ficou mudo, mas este sempre foi um valente de palanque – e, agora, nem isso.

Pelo retrospecto, Heleno, Braga, Paulo Sérgio e Garnier, crianças em 1964, deviam ser das que, diante do perigo, corriam para as saias da mãe. Continuam.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicano n’O Globo.

Vox populi

José Horta Manzano

A pluma do jornalista Lauro Jardim nos informa que convocar a manifestação na Avenida Paulista duas semanas atrás foi um grande erro que Bolsonaro cometeu. Não se trata de opinião de uma pessoa, mas de resultado de pesquisa do Ipec, instituto que, entre os dias 1° e 5 de março, consultou dois mil eleitores sobre o assunto.

A uma questão direta, a resposta tem de ser direta. A pergunta era: “Na sua opinião, está certo ou errado o ex-Presidente Jair Bolsonaro convocar um ato em seu apoio após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal pela suspeita de ter planejado um golpe de Estado?”. E a resposta só podia ser “certo” ou “errado”, sem mais nuances.

Pasmem: 61% dos entrevistados julgam que Bolsonaro errou ao organizar o comício. O resultado é surpreendente, visto que, pouco mais de um ano atrás, o país saiu das eleições dividido em dois campos de tamanho praticamente igual.

A pesquisa mostra que não só os que votaram no Lula acham que Bolsonaro fez uma grande besteira. Até entre os que têm simpatia pelo capitão e nele votaram, um eleitor em cada três acredita que ele errou.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro especializou-se em convocar reuniões, entrevistas e comícios que, sendo erros políticos, desabaram sobre sua cabeça.

* Vamos lembrar das desastrosas reuniões ministeriais em que a enxurrada de palavrões não encobriu a estupidez e a maldade do que foi dito. A última delas está até servindo de prova nos processos movidos contra o ex-presidente.

* Vamos recordar também o calamitoso “brienfing” com Suas Excelências, os embaixadores de países amigos. Esse meeting absurdo cobrou custo pesado: provocou a inelegibilidade do capitão.

* E não nos esqueçamos do trio elétrico montado nas comemorações de 7 de setembro, alguns anos atrás, peça importante entre as acusações que pesam sobre o ex-presidente.

Lula tem cometido erros primários, que embaçaram o brilho que envolvia sua personalidade. No entanto, verdade seja dita, até agora se absteve de convocar “brienfings” e manifestações em causa própria.

Que continue assim, pra não arriscar ficar cada dia mais parecido com seu predecessor.

Portugal: Lula na cadeia

José Horta Manzano

Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.

Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):

“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”

(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)

Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.

O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.

Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.

Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.

Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.

Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.

Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.

Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.

Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).