Imprensa subvencionada

Rui Barbosa (*)

«Eis aí, senhores. Quereis saber se as subvenções aos jornais cessaram, ou persistem, se enchem, ou vazam? Pois “a simples leitura dos jornais” vo-lo “deixará ver com a maior evidência na atitude deles para com o governo”.

Rui BarbosaBenigna atitude? É que os jornais estão subvencionados. Atitude hostil? É que já não estão subvencionados os jornais. Melhora a linguagem das gazetas? Sinal claro de que as subvenções engrossam. Piora? Sinal certo de que se adelgaçam. De sorte que, gizada segundo os traços deste debuxo de quem “sabe d’arte”, porque a praticou, e conhece o tipo, com que travara familiaridade, seria a imprensa como um realejo, cuja manivela está nas subvenções.

Quem o terá dito? Eu? Não.

Quem o diz, o repete, o acentua, o sanciona, o inocenta, e o assoalha como coisa correntia e apenas criticada entre maldizentes, é um antigo presidente da República brasileira, que, criminado por indiscretos de corromper jornalistas, se descarta a si mesmo da tacha de corruptor, dardejando contra o jornalismo a de habitualidade na corrupção.»

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Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), brasileiro de excepcional cultura, era poliglota, filólogo, jurista, escritor. Foi diplomata e homem político.

O texto citado é fragmento de A imprensa e o dever da verdade, libelo de 1920. O antigo presidente da República ao qual o autor se refere governou o País há um século – já era figura passada à época. Mentes distorcidas, no entanto, costumam afirmar que o escrito não ganhou nenhuma ruga e continua tristemente atual.

Para ler o texto integral, clique aqui.

Revendo…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

“Na véspera de não partir nunca,
ao menos não há que arrumar as malas”

Fernando Pessoa

– Você me disse que ia passar a vida toda tentando fazer-me feliz. – É que eu não imaginava que fosse viver tanto.

Há pouco tempo, registrei aqui neste espaço minhas percepções sobre o lado obscuro do envelhecimento. Hoje quero alterar meu ângulo de visão e tentar listar as mudanças que caracterizam o lado luminoso da velhice.

Antes de mais nada, sinto em mim que estou mais conectada com aquilo que alguns especialistas em psicologia e psiquiatria chamam de “energias sutis”. Explico melhor: ao longo da vida, vamos aos poucos abrindo mão das experiências de alta intensidade que atraem tanto os mais jovens. Aprendemos a trocar adrenalina por endorfina, a substituir a paixão por velocidade pela degustação lenta dos prazeres.

Vin 1Exemplos? Vários, a maior parte dos quais ligados aos órgãos dos sentidos: a sensação prazerosa de uma brisa tocando nosso rosto, o calor gostoso na pele quando nos sentamos ao sol em um dia frio, nosso palato e nossa língua absorvendo lentamente os sabores e os aromas de um bom vinho, nossa pele arrepiando e nossos pelos se eriçando quando alguém sussura alguma coisa íntima em nosso ouvido, nossos olhos se enchendo de água diante da ternura ou da beleza.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

Depois vem a “idade do conforto”. Já não prestamos tanta atenção aos ditames da moda e às regras sociais. Em vez do salto agulha, um bom mocassim. Em vez das sensuais roupas apertadas, vastidão de tecidos de toque macio. Em vez da cirurgia plástica, um bom spa. Em vez dos almoços de negócio em lotados restaurantes fashion, comidinha caseira ingerida bem devagar em meio a um papo descontraído com os amigos. Em vez do mobiliário Bauhaus, afundar gostosamente num velho sofá que, de tão usado, já assumiu a forma de nosso corpo.

Entramos então em pleno desfrute do “tempo da delicadeza”. Nada de som muito alto, nada de comida muito temperada, nada de gargalhadas histéricas, nada de arroubos passionais, nada de ativismo político exacerbado. Mais vale observar em silêncio emocionado uma flor se abrindo do que participar de um espetáculo circense. É nossa alma que começa a exigir autocontenção.

Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro Óleo sobre tela

by Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro
Óleo sobre tela

Chega mais tarde, lá pelos 75 anos, uma fase que uma amiga descrevia como a da “adolescência reciclada”. Passamos a nos permitir viver experiências que nos eram proibidas em nossa juventude. Pular de paraquedas? Por que não? Ir ao cinema sozinha? Pode ser. Deixar o medo do ridículo de lado e agitar num baile da terceira idade? Hum, dá para pensar. Paquerar aquele vizinho viúvo metido a descolado? Topo! Praticar “sincericídio” o tempo todo com parentes e amigos também pode ser uma experiência libertadora. O que importa é buscar o próprio prazer, tomando apenas o cuidado de não ferir intencionalmente outras pessoas.

Dança 3Pelo que observei no comportamento dos ainda mais velhos, depois dos 80 anos tem início uma fase que passo a denominar de “infância reciclada”. Comer todas aquelas comidas gordurosas que o médico contraindicou, esquecer de tomar o remédio, cabular o banho, talvez até fugir de casa – tudo adquire um gosto delicioso de transgressão desejada, de molecagem consentida, de verdadeira autoexperimentação.

Sol 1Loucura, diria você, ou será que, pensando bem, é uma sutil demonstração de sabedoria? Afinal, estaremos nos despedindo com savoir-faire das últimas cores e sabores de nossa vida.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Gaúchos opinam

José Horta Manzano

O jornalista Políbio Braga repercute pesquisa realizada estes dias pelo Instituto Paraná Pesquisas. Trata da intenção de voto do eleitorado gaúcho, caso eleições para presidente da República fossem realizadas hoje.

Dos candidatos propostos, os eleitores escolheram na seguinte ordem:

Aécio Neves     43,8%
Lula da Silva   19,5%
Marina Silva    14,7%
Ronaldo Caiado   3,4%
Eduardo Cunha    2,8%
Nenhum deles     7,9%
Indecisos        7,9%

Urna 7

Quando o nome de Aécio Neves for substituído pelo de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o resultado embolou. Assim mesmo, o amargor dos gaúchos pelo pífio desempenho do governo nos últimos 12 anos se reflete nas declarações de voto a nosso guia.

Fica assim:

Geraldo Alckmin   29,9%
Lula da Silva     20,7%
Marina Silva      20,3%
Eduardo Cunha      5,0%
Ronaldo Caiado     4,3%
Nenhum deles      10,4%
Indecisos          9,4%

Escolha de ministro do STF

José Horta Manzano

Conflitos são desagradáveis, mas têm, às vezes, seu lado bom. Como todos já se deram conta, Executivo e Legislativo andam às turras desde o começo do ano. Hostilidade solta faíscas, mas pode também exalar algum resultado produtivo.

Um exemplo acaba de surgir. É notório que senhor Eduardo Cunha, presidente da Câmara, não é, digamos assim, o melhor amigo de nossa presidente. Pois o medalhão mandou desengavetar um projeto de emenda constitucional que estava bloqueado fazia tempo.

STF 2A PEC 342/09 propõe modificar alguns parâmetros do cargo de ministro do STF. Aprovada, é mais que provável que venha a desagradar profundamente à presidente. Dois são os pontos notáveis cuja alteração é proposta: forma de designação e duração do mandato dos nomeados.

É indisfarçável que o intuito principal é tirar do Executivo o poder de apontar, sozinho, os ministeriáveis. Até aqui, de fato, cabe à presidência da República a prerrogativa de indicar o escolhido. A sabatina pela qual o ungido deve em seguida passar, diante dos parlamentares, costuma ser mera formalidade. Não me ocorre nenhum caso de reprovação. Nem mesmo de postulante que tenha ficado pra segunda época.

O outro ponto crucial diz respeito à duração do mandato que, pela regra atual, é vitalício, tornando o ministro virtualmente inamovível. A muitos, vitaliciedade pode combinar com monarquia, mas destoa no regime republicano. Mais que isso: em princípio, a idade mínima para nomeação é de 35 anos, com demissão compulsória aos 70. Contas feitas, um mandato, pelas regras em vigor, pode durar teoricamente 35 anos, tempo que alguns consideram demasiado longo.

STF

A prerrogativa concedida a um só indivíduo – o presidente da República – de designar membros do colegiado que chefia um outro poder quebra o equilíbrio republicano. Para eliminar o carimbo autocrático, a PEC propõe que, dos onze ministros do STF, cinco sejam indicados pelo presidente da República, dois pela Câmara, dois pelo Senado e dois pelo próprio STF.

O projeto entende também que a vitaliciedade deve ser abolida. Em seu lugar, propõe um mandato de 11 anos. Único, contínuo e não renovável.

Noves fora inimizades e retaliações entre personalidades do andar de cima, a ideia não me parece má. Vai no bom sentido para amenizar o atual desequilíbio entre poderes.

Depois do caos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 mai 2015

Mês passado, neste espaço, sugeri a Dilma Rousseff convocar um plebiscito. Matéria para consulta popular há de sobra, fato que deixaria a presidente à vontade para escolher a que lhe conviesse. O ponto crucial, a não descurar sob hipótese alguma, seria deixar bem claro que sua permanência no cargo estaria vinculada ao resultado da consulta popular. Pisar em ovosApoiada pelos brasileiros, levaria o mandato até o fim, e não se falaria mais nisso – afinal, não se pode chamar eleitores às urnas a cada semana. Se, no entanto, os votantes se atrevessem a rejeitar a proposta, ela renunciaria, pura e simplesmente, ao mandato. Fiel a seu estilo, sairia de cabeça erguida, por decisão pessoal. Ficaria patente que valoriza o nobre sentimento da honra.

Assoberbada de trabalho e sobrecarregada de preocupações, a mandatária não há de ter tido tempo de avaliar a sugestão. Ou talvez, desacostumada a seguir conselhos, tenha decidido manter-se inabalada e inabalável. Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato.

A vida (não só a da presidente) anda um bocado complicada, convenhamos. A insegurança assusta, incertezas atulham o horizonte. A gente às vezes se sente mergulhado numa autêntica casa de mãe joana, uma espelunca onde todos gritam e ninguém tem razão. Paira no ar a impressão de que conquistas e avanços, que acreditávamos consolidados, andam evaporando num processo inexorável de dissolução.

Dilma ministerio 1Ministro que entra, ministro que sai; mandatária-mor em palpos de aranha e visivelmente isolada; antigos presidentes dando palpites sobre tudo e sobre todos, como se em roda de botequim estivessem; congressistas desacreditados; revelação diária de detalhes novos de roubalheiras antigas. Arre! Tudo contribui para aumentar a desagradável sensação de que o coreto bagunçou de vez. Aos cidadãos comuns que somos, restam o desencanto e, mais que tudo, a certeza de que nos caberá pagar a conta.

Nós, brasileiros, temos tendência a exagerar os aspectos negativos de todo acontecimento. Acentuamos de tal modo a face ruim, que acabamos incapazes de enxergar o lado positivo. Alguns asseguram que essa curiosa peculiaridade está inscrita no tema astral do País. Dizem que assim são as coisas e que é impossível contrariar o carma nacional. Como não sou do ramo, prefiro dar de barato e não comprar essa briga.

OmeletteNão se faz omelete sem partir ovos. Não se constrói o novo sem demolir o antigo. Não se ganha guerra sem travar batalha. O brado da sabedoria popular é incontestável: todo avanço, todo progresso, toda conquista pressupõe a falência da estrutura antiga. Exige mudança. Provoca crise. Abre um túnel que temos de atravessar para chegar à luz do outro lado.

Erramos ao dar exagerada importância à crise, que é passageira. Convém fazer das tripas coração e considerar que o atual momento conturbado é passagem obrigatória que conduz à transformação do modelo exaurido.

Quando se sacode a árvore, os frutos podres se esborracham no chão. É o que está acontecendo. Alguns sinais já sorriem no horizonte. Semana passada, antiga proposta de voto distrital foi aprovada no Senado. Tímido, o projeto restringe a prática a alguns poucos municípios. Mas é passo na boa direção.

Discussão 3«Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar» – sentenciou Nélson Rodrigues. Durante doze anos, afagados pela brisa leve da bonança econômica, estivemos anestesiados. Pouco se nos dava que o comportamento de medalhões fosse tortuoso: tinham todos direito ao apoio negligente e (quase) unânime da nação distraída.

Dissensões pipocam hoje na classe política. A presidente colide com o Senado, que abalroa a Câmara, que esbarra em líderes partidários, que estranham o STF. Não é motivo pra se deixar abater, distinto leitor! Ao contrário, esse cafarnaum é pra lá de salutar. A presença de vulto todo-poderoso na chefia do Executivo, como ocorreu nos últimos anos, empalidece os outros poderes, desequilibra o conjunto e distorce o espírito republicano.

Faixa presidencialA todo presidente com baixa aprovação popular, corresponde um Congresso revigorado. Parlamento fortalecido e voto distrital são notícias auspiciosas. Afinal, se a presidente foi eleita com o voto de metade dos eleitores, o Congresso representa a totalidade dos brasileiros.

Não nos deixemos abater pelas nuvens escuras que encobrem o sol neste momento. Que desabem, que se precipitem e que se dissipem. Bom marinheiro ensina que, depois da tempestade, é garantido: vem bom tempo.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.