De asilo & de embaixadas

«Em junho de 1957, Juscelino nomeou embaixador em Portugal o inesquecível pernambucano Álvaro Lins, dos nossos maiores intelectuais.

Em janeiro de 1959, Álvaro deu asilo na embaixada ao general Delgado, que Salazar queria matar porque Delgado tinha saído candidato a presidente da República. Salazar ameaçou invadir a embaixada. Álvaro Lins resistiu. Quando o general deixou a embaixada para disputar, Salazar o matou.

Serra, Weffort, Teotônio Santos, Cesar Maia, José Maria Rabelo, tantos poderiam ter sido mortos no Chile se não tivessem tido asilo dos EUA, da França, da Alemanha, do México contra Pinochet que poderia matá-los. Metade do governo Dilma não existiria se não houvesse asilo político.

Dilma não pode desmoralizar a tradição de asilo do Brasil, punindo o bravo embaixador Saboia, que salvou a vida do senador Molina, só para atender a um presidente que na Bolívia é chamado Evo “Imorales”.»

Do blogue do jornalista Sebastião Nery.

Conduta estabanada

José Horta Manzano

Depois de um messias rastaquera e deslumbrado, veio uma presidente grosseira e colérica. O Brasil está bem arrumado. Ô carma pesado este nosso!

Dilma e o ET by Zé Dassilva

Dilma e o ET
by Zé Dassilva

Dilma perturbada by J. Bosco

Dilma perturbada
by J. Bosco

Dona Dilma pode até ter alguma qualidade ― confesso que ainda não me dei conta. Por outro lado, sem dúvida, tem defeitos aos borbotões. Todos visíveis, uns mais, outros menos. As repetidas demonstrações de fúria que ela nos tem dado estes últimos dias estão ultrapassando os limites da conveniência. Já não é mais questão de salvar a honra nacional, mas de vingar-se de uma afronta pessoal de que a mandatária considera ter sido vítima.

Tempos atrás, um irresponsável chamado Assange andou espalhando segredos diplomáticos aos quatro ventos. Até hoje não se sabe direito qual era sua intenção. Terá tido seus 15 minutos de glória, mas o maior prejudicado foi ele mesmo. Enquanto o mundo continuou a girar, nosso dom quixote sobrevive confinado em prisão domiciliar num cubículo da embaixada do Equador em Londres. E tudo indica que lá permanecerá por anos. Inglês não costuma largar a presa tão fácil assim.

Dilma enfezada

Dilma enfezada

Pois bem, naquela época, embora o Brasil aparecesse entre os países alvejados pelo vazamento, nossa reação oficial foi inaudível. A presidente, não se sentindo envolvida pessoalmente, deu pouca importância aos acontecimentos. Aliás, nesse ponto, acompanhou a tendência global. Nenhum governo se encarniçou com o assunto.

Já agora, a coisa mudou de figura. Anunciou-se que a própria presidente teria sido monitorada por uma potência estrangeira. Para dona Dilma, acima da honra nacional, parece estar o orgulho pessoal. Tem reagido de modo estabanado e pueril. A atual inquilina do Alvorada faz lembrar aquela criança mimada que, zangada, atira o brinquedo ao chão, pouco ligando para as consequências. Se quebrar, papai compra outro.

Antes de tomar alguma atitude ríspida e capaz de desagradar alguém, é sempre bom medir as consequências e avaliar os desdobramentos. Em interessante artigo, o Estadão nos informa que, num acesso de ira, dona Dilma atirou o brinquedo ao chão: suspendeu os preparativos para a viagem aos EUA prevista para o mês que vem. Vamos torcer para que o brinquedo não esteja irremediavelmente espatifado.

Dilma e Obama by Sponholz

Dilma e Obama
by Sponholz

Outro artigo do mesmo Estadão conta que o embaixador americano em Brasília está sendo removido, após 3 anos de serviço. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Segundo a autora deste segundo artigo, em vista da peleja que já dura mais de 10 anos contra os ideólogos antiamericanos que dominam a intelligentsia do Planalto, o governo americano preferiu fazer uso mais adequado de seus bons diplomatas. Shannon, que estava no Brasil, vai para a Turquia, país mais estratégico ao olhos de Washington. Brasília deverá contentar-se com a embaixadora que atualmente representa os interesses americanos no Paraguai.

Esse, sim, é sinal bem mais inquietante para nosso País. Nosso segundo maior parceiro comercial já nos enxerga como país políticamente menos interessante que a Turquia. Se dona Dilma continuar a fazer beicinho, pode azedar de vez as relações. E quem é que vai sair perdendo? É urgente dizer a ela que o Brasil precisa mais dos EUA do que eles de nós.

Dilma de maus bofes

Dilma de maus bofes

Não faz sentido tratar Argentina, Bolívia, Venezuela a pão de ló e os EUA a pontapé. É inacreditável a relutância que esses ideólogos do Planalto têm em aceitar que a guerra fria terminou 25 anos atrás e que o mundo mudou muito. Continuam com os pés cimentados nos anos 60.

As oportunidades políticas e econômicas que essa visão obtusa nos tem feito perder não voltarão mais. O trem da História não passa duas vezes.

Os brios

José Horta Manzano

Faz sorrir o acesso de brios que acomete o Planalto nestes turbulentos dias em que dona Dilma e sua corte descobriram que espiões ainda existem e… espionam!

Como já escreveu alguém, a maior prova de confiança que um governo poderia dar a Snowden seria acolhê-lo e contratá-lo para trabalhar em seu próprio serviço secreto. Fica aqui, grátis, a sugestão para o governo brasileiro. Nunca se sabe, pode servir. Que tal nomer o gajo para um cargozinho qualquer de subchefia no setor de inteligência do Ministério da Defesa?

Espionagem Crédito: Amorim Cartoons

Espionagem
Crédito: Amorim Cartoons

Segundo artigo do Estadão, dona Dilma quer «incluir na legislação brasileira um dispositivo que permita suspender a operação de empresas que cooperarem com esquemas de espionagem internacionais». Há dois pontos surpreendentes nos anseios da atual presidente de nossa República.

O primeiro é que, por definição, espionagem é assunto que não se anuncia em praça pública. Portanto, para «suspender» ― seja lá o que isso queira dizer ― empresas envolvidas em espionagem, precisa antes saber quais são. Não vai ser fácil. Talvez o melhor seja assistir ao Fantástico todas as semanas. Eles parecem estar mais enfronhados no assunto do que o próprio serviço federal de contraespionagem.

Blá, blá, blá by Mix & Remix

Blá, blá, blá
by Mix & Remix

O segundo ponto bizarro é a diabolização seletiva. Ficam banidos os esquemas de espionagem internacionais, em contraposição ao silêncio em torno de eventuais esquemas de espionagem genuinamente nacionais. Se entendi bem, Procleitonildo da Silva, cidadão brasileiro e residente em território nacional poderá então dedicar-se a espionar fatos e gestos do Planalto sem ser incomodado? Poderá até, desde que não deixe o território nacional, revelar ao grande público eventuais segredos políticos ou militares de que venha a se inteirar?

Vamos, gente, reflexão e bom-senso são como caldo de galinha (sem antibióticos): não hão de fazer mal a ninguém. Como aconselham, com propriedade, os italianos, certe cose non si dicono, si fanno ― certas coisas não se dizem, se fazem.

Em nosso País, desgraçadamente, fala-se muito e faz-se pouco.

A retorção

José Horta Manzano

Pasma perante o óbvio, como de costume, dona Dilma descobriu uma verdade milenar: governos costumam espionar-se entre si. Mentes mais sutis pensariam em arquitetar um plano esperto, desses que se veem nos filmes de guerra, em que o espionado se finge de morto, faz que não sabe de nada, e aproveita o mesmo canal para fazer chegar ao espião falsas informações. (Foi assim que os aliados conseguiram desembarcar na Normandia em 6 de junho de 1944, praticamente sem encontrar resistência por parte dos ocupantes alemães.)

Fazer um casus belli da notícia dada com estardalhaço pela televisão não foi uma ideia genial. Astucioso teria sido minimizar ou mesmo ignorar a informação, justamente para tirar dela o melhor proveito.

Se o governo brasileiro não espiona as altas esferas americanas, é unicamente porque não dispõe dos meios necessários para isso. Mas que ninguém se engane. Sem manter uma rede complexa de informação mundial ― como fazem EUA, China, Rússia, França, Reino Unido ― o Brasil certamente utiliza os meios que pôde desenvolver para saber o que se trama nos gabinetes que lhe interessam.

Espião

Espião

Esse não é o tipo de notícia que costuma aparecer na imprensa nem nas redes sociais, o que não quer dizer que não exista. Portanto, não adianta representar o papel de moralista indignado. Pode impressionar a galeria, mas não fará cessar a espionagem. Pelo contrário, as técnicas futuras tendem a ser ainda mais sofisticadas.

A política é a arte de engolir sapos, como sabemos todos. O governo brasileiro tem engolido cobras e lagartos. Baixou a cabeça diante da invasão de uma refinaria da Petrobrás situada na Bolívia. Silenciou a propósito da inspeção de que foram vítima aviões da FAB naquele mesmo país. Enfiou o rabo no meio das pernas no dia em que palestinos e israelenses declararam alto e bom som que dispensavam nossa intromissão para resolver problemas deles.

Brasília até hoje não passou nem um pito nos venezuelanos por não terem cumprido a parte deles no financiamento da construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O Planalto não reagiu quando Evo negou salvo-conduto ao senador refugiado ― deixou que a coisa se envenenasse ao ponto de a vítima ter de se virar sozinha para escapar do cativeiro forçado. Brasília tampouco se indignou quando Zelaya, o presidente deposto de Honduras, se aboletou em nossa embaixada em Tegucigalpa e transformou o local em comitê político.

Depois de tantas cobras e tantos lagartos, um sapinho a mais ou a menos não há de causar indigestão. Além do mais, que o governo brasileiro esperneie ou não, vai continuar sendo espionado. E não só pelos EUA. É o tributo que devem pagar os países mais relevantes.

Alguém ― além dos vizinhos de parede ― gastaria dinheiro e esforço para espionar o Nepal ou a Mongólia?

Dilma enfezada

Citando o sempre bem informado Diário do Poder de Cláudio Humberto, o jornalista Políbio Braga conta um fato ocorrido quando a presidente voltava de uma viagem aos Estados Unidos. Aqui está o relato.

«Dilma integraria a família dos Angry Birds como mais enfezada do que o próprio Red.

A fama de enfezada, irascível e má parece ter apanhado de vez a presidente Dilma Rousseff, porque a cada dia somam-se fatos que comprovam os maus bofes da líder do PT. As notas a seguir são do jornalista Claudio Humberto, todas postadas no seu Diário do Poder desta segunda-feira:

• DILMA, A ENFEZADA, LARGOU TRADUTORA NO PANAMÁ ― A presidenta Dilma não demitiu antes o ex-chanceler Antonio Patriota por achar que “todos são a mesma coisa”, com diz dos diplomatas. Mas tratava mal a todos, como a tradutora em visita aos EUA que Dilma detestou. Para se vingar do Itamaraty pela viagem pífia, ela abandonou a tradutora no aeroporto da Cidade do Panamá, após escala na viagem de volta. Os colegas da moça, diplomatas, ficaram revoltados.

• IMPLACÁVEL ― A escala para reabastecer demorou menos que previsto. Dilma mandou o avião decolar, mesmo sabendo que a tradutora ainda não retornara.

• SEM DOCUMENTOS ― A tradutora, que havia desembarcado para procurar uma farmácia, foi abandonada no Panamá sem passaporte nem malas. Dilma se divertiu.

• QUE SE VIRE ― O Airbus taxiava quando assessores ponderaram que a tradutora, sozinha, sofreria o diabo no Panamá. E Dilma: “O problema é dela”.»

Infeccionou de vez

José Horta Manzano

A Folha de São Paulo deste 3 de setembro traz excelente análise de João Paulo Charleaux, jornalista e bacharel em Comunicação Social, sobre a situação legal do senador boliviano que passou quase um ano e meio na embaixada do Brasil em La Paz.

Bem a o estilo English for beginners, o artigo deixa clara a distinção entre refúgio e asilo. O asilo é um caminho curto, sem paradas intermediárias. Sua concessão é prerrogativa da presidência da República. O refúgio segue uma via bem mais tortuosa, com intervenção de várias instituições. Periga demorar muito tempo para ser concedido.

Talvez por desconhecerem essa sutil diferença, os que organizaram a fuga do senador fizeram que ele assinasse um pedido de refúgio. O que está feito, está feito. A máquina foi posta em marcha e o trem tem de ir até o fim da linha.

Segundo a análise do jornalista, uma coisa é certa: o senador não poderá ser devolvido à Bolívia. Já é uma notícia tranquilizadora.

Cheia de encantos mil

José Horta Manzano

Quando o então presidente Luiz Inácio da Silva fez o que devia ― e talvez até o que não devesse ― para conseguir que o Brasil entrasse na rota de grandes eventos esportivos de impacto planetário, estava longe de se dar conta do tamanho da encrenca em que estava nos metendo.

O presidente emérito havia passado 30 anos rodeado por uma corte de áulicos. Diferentemente de certos mandarins que só se impõem pelo terror que inspiram, nosso messias nunca precisou dar murros em cima da mesa para se fazer respeitar. Ele era a locomotiva do partido. Melhor ainda que um enigmático Enéas ou um efêmero Tiririca. Era o abre-alas de uma turma grande.

À medida que o sucesso crescia, novos companheiros foram-se juntando aos camaradas de primeira hora. Formou-se aos poucos uma corte em que todos dependiam do chefe. Cada um tinha seu motivo ideológico ou pecuniário para mostrar submissão e, acima de tudo, jamais contrariar os caprichos do chefe. Numa confraria de viés absolutista, onde reina um único personagem, contestações não são bem-vindas. Os poucos que ousaram contradizer a verdade oficial pagaram caro: foram expulsos do grupo. Ou pior.

Mas todo exagero é perigoso. Cercado de elogios, sem jamais enfrentar o contraditório, o chefe adulado vai aos poucos perdendo o contacto com a realidade. Acaba acreditando sinceramente que, com um estalar de dedos, é capaz de transformar o mundo.

Nosso guia chegou a imaginar que, com um jogo de futebol e alguns afagos, conseguiria resolver em dois tempos o imbróglio entre israelenses e palestinos, emperrado há muitas décadas. Inexplicavelmente, seu chanceler Amorim ― dono de inegável experiência na carreira diplomática ― foi incapaz de enxergar o ridículo da situação e o fracasso anunciado. Como aos demais cortesãos, faltou-lhe ousadia para divergir do chefe.

Logo oficial ― JO Rio 2016

Logo oficial ― JO Rio 2016

Alguns anos atrás, quando Copa do Mundo e Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Brasil, a franja pensante da população intuiu que não era hora de assumir compromissos tão caros e complexos. Mas a corte não ousou passar essa advertência ao chefe. E fomos em frente alegremente.

Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça, nos dá conta do conteúdo de um relatório confidencial do CIO (Comitê Internacional Olímpico) sobre o andamento das obras em vista dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O relato é estarrecedor. Melhor do que transcrevê-lo aqui, convido os leitores a uma visita ao Estadão.

Apesar do discurso tranquilizador proferido pelas autoridades brasileiras, o atraso no planejamento e na realização das obras é catastrófico. O problema atinge todas as áreas que, de algum modo, dizem respeito aos Jogos Olímpicos. Infraestrutura, transporte, alojamento dos atletas, hotéis para visitantes, plano B para emergências, aeroportos, todas as obras estão atrasadas.

A impressão que fica é a de que o Brasil teve o olho maior que o estômago, como diz o outro. Comprou um peixe enorme e pagou por ele. Agora, não sabe direito como escamá-lo. E ainda falta limpar, temperar, cozer, servir. Os convidados já estão apontando na esquina.

Culpa do rei? Em parte. Maior responsabilidade pesa sobre os que, mais esclarecidos, titubearam e se omitiram. De qualquer maneira, quem pagará a conta somos nós.

Displicência

José Horta Manzano

O Decreto n° 7.166, assinado em 5 de maio de 2010 pelo então presidente da República, foi publicado no Diário Oficial da União no dia seguinte. Criava o Sistema Nacional de Registro de Identificação dos cidadãos. Seus 15 artigos descem a minúcias, como convém a todo texto legal brasileiro que se respeite.

O artigo n° 13 é categórico. Entre outros pontos, determina que o documento goza de fé pública e será válido em todo o território nacional. Simplificou, assim, a tarefa dos encarregados de dar forma gráfica ao papel oficial. Bastaria, além dos dados biográficos do cidadão, acrescentar a importante menção quanto à fé pública e à extensão territorial da validade. Pois não é que os grafistas conseguiram errar?

Não sei se o erro persiste ― que cada leitor confira seu documento. Na sequência do decreto, o governo tratou de disseminar o facsimile do novo modelo. Mas a displicência, um dos infelizes traços marcantes do espírito nacional, se interpôs entre o texto do decreto e a concretização do documento.

Registro de Identidade Civil

Registro de Identidade Civil

Reparem no modelo aqui acima. Verão que o texto comporta um erro grave. Não é só gramatical, não. O legislador quis dizer uma coisa e acabou dizendo outra muuuuito diferente. Ser válido em todo o território nacional significa ter validade no Brasil inteiro. Ser válido em todo território nacional dá outro recado. Confirma a validade do documento em todas as nações, o que não é verdadeiro.

Mas não se espante, caro leitor. A displicência geral e a liberdade atrevida que o brasileiro costuma tomar com a língua vêm de longe. Durante dezenas de anos, o documento de identidade ― cujo nome já foi Carteira de Identidade, RG, Cédula de Identidade e outras variantes ― trouxe um outro erro de adequação vocabular. A enormidade atravessou gerações até que uma alma caridosa resolvesse pôr fim ao disparate.

Carteira de Identidade ― Início do séc. XX

Carteira de Identidade ― Início do séc. XX

Na primeira metade do século XX, documentos descreviam o jamegão do retratado como assinatura do portador. Ora, vejam só! Portador é quem porta, quem leva, quem carrega algo. A palavra foi mal escolhida. Deveria estar escrito que era a a assinatura do titular. Hoje o problema desapareceu. O titular assina, e pronto. Desapareceu a legenda explicando que a assinatura é a assinatura. Melhor assim.

Carteira de Identidade ― Anos 60

Carteira de Identidade ― Anos 60

Tem mais. As cédulas de cruzeiro, unidade monetária que entrou em vigor em 1942, trouxeram um erro gramatical estampado bem na frente, visível, logo embaixo do nome do País ― que era, por sinal, Estados Unidos do Brasil. Estava anotado: «Se pagará ao portador desta a quantia de…». Isso significava que quem levasse a nota ao Tesouro Nacional poderia reclamar seu valor em ouro. Nunca vi ninguém fazer isso, mas a garantia estava lá.

Muito bem, na linguagem caseira de todos os dias, dizemos todos «Me dá aquilo ali!». A decência, no entanto, exige que se use a norma culta em documentos oficiais. Se uma nota de dinheiro não for documento oficial, o que será?

Cédula antiga ― Cruzeiro (1942 a 1967)

Cédula antiga ― Cruzeiro (1942 a 1967)

Não deu tempo de substituirem o «Se pagará» por um «Pagar-se-á» nem mesmo por um «Será paga». Uns doze anos depois da introdução do cruzeiro, a inflação já havia corroído a tal ponto o valor da moeda que a expressão desapareceu das notas. E a menção «valor recebido», que figurava logo abaixo do medalhão com um personagem histórico, passou a ser «valor legal».

Que marqueteiros afaguem o povo impondo bordões gramaticalmente errados tais como «vem pra caixa você também» ou «este, eu confio» dá pra engolir, é desculpável. Mas, francamente, topar com essas enormidades em papéis oficiais é de doer.