Caminho traçado

José Horta Manzano

Em março último, faz exatamente 6 meses, o Estadão passou a publicar um agregador de pesquisas eleitorais. Com metodologia própria, colhe os dados levantados por 14 diferentes institutos e chega a um resultado depurado.

A ferramenta é interessante, visto que atenua imprecisões, distorções e até dados fora da curva que algum instituto individualmente possa ter publicado.

Consulto com frequência esse agregador. Com respeito às pesquisas da corrida presidencial, tenho notado uma surpreendente constância nos resultados.

 


Em 12 de abril deste ano, bem antes do início da campanha oficial, Lula era creditado com 44% das intenções de voto; naquela altura, Bolsonaro estava com 30%.


 

De lá pra cá, tivemos distribuição de dinheiro a rodo via orçamento secreto, milhões torrados na campanha oficial, propaganda gratuita em rádio e tevê, aumento substancial da mensalidade da Bolsa Família, exposição tímida do projeto de cada um, debates entre candidatos, exposição na mídia, posicionamento firme de figurões (cada um apoiando seu candidato). E qual foi o resultado?

 


Na última atualização, publicada ontem, o agregador mostra Lula com 45% e Bolsonaro com 33%.


 

Constata-se que, pouco mais ou menos, ambos oscilaram dentro da margem de erro. Seis meses se passaram e as intenções não arredaram pé. É notável essa estabilidade. Parece que todo esse frenesi e essa gastança de dinheiro público não serviram para nada.

O astral não deve estar muito alto na equipe de campanha do capitão. Ele continua garantindo que vence no primeiro turno, mas a gente se pergunta qual é a receita para mudar em 10 dias um cenário que está congelado há 6 meses.

A menos que uma catástrofe venha chacoalhar o picadeiro – tipo assassinato, morte súbita, terremoto ou bomba atômica – o caminho parece traçado.

Darwinismo social

José Horta Manzano

Semana passada, o Estadão publicou editorial intitulado Darwinismo Social de Bolsonaro.  Me pareceu excelente definição do modo malvado e mesquinho com que o capitão espezinha as camadas mais humildes da população. É aporofobia(*) pura exercida por um indivíduo de espírito fundamentalmente escravagista.

O Darwinismo Social é doutrina impiedosa, que não cabe em nosso modelo ocidental de democracia. É parente próximo do Eugenismo, que preconiza o abandono – ou até a eliminação – dos elementos mais frágeis da sociedade.

A amputação de 60% da verba destinada ao programa Farmácia Popular está em perfeita sintonia com a ideologia bolsonárica: vence o mais forte, os fracotes que se lixem.

Na mesma linha está o veto presidencial do aumento da verba para a merenda escolar – que está congelada há 5 anos (1 ano de Temer mais 4 do governo atual).

Em numerosas ocasiões, especialmente nos momentos mais agudos da pandemia, Bolsonaro deixou claro seu desprezo pelos cidadãos que mostravam ter medo de apanhar a doença. Caçoou dos que morriam de falta de ar. Tratou de maricas os que se vacinavam. Exortou o bom povo a deixar de lado a vacina e optar pela cloroquina.

São gestos que casam com a doutrina do super-homem e da vitória dos mais fortes em detrimento dos mais fracos, exatamente como na selva de Tarzan. Não há pensamento mais tóxico e mais explosivo para tornar inviável a convivência num país tão desigual como o nosso. O “pensamento” bolsonárico é poderoso freio a nosso avanço no processo civilizatório.

Um dos sinais mais significativos da transformação de uma sociedade primitiva em uma sociedade avançada e democrática é justamente o cuidado dedicado a seus membros mais frágeis. No caso do Brasil, a franja vulnerável é constituída pelos miseráveis, pelos famintos, pelos menos favorecidos, pela infância, pelas minorias étnicas e raciais. São justamente os que precisam da merenda escolar e da Farmácia Popular.

Cortar verbas que deveriam ser dirigidas aos que vegetam nas bordas da nação equivale a arremessar esses indesejáveis ao mar e seguir o barco. Cada ato emanado desse governo vem encharcado de injustiça.

É inacreditável que um em cada três eleitores ainda apoiem a reeleição desse indivíduo. Me recuso a acreditar que um terço dos brasileiros concordem com esse Darwinismo Social. Acho que eles, principalmente os que se consideram cristãos, não entenderam o que está ocorrendo.

(*) O termo aporofobia define o ódio e o repúdio à pobreza e aos pobres.

As falsas assimetrias

Eduardo Affonso (*)

Digam o que disserem antropólogos, sociólogos e cientistas políticos, ninguém conhece melhor a alma de um povo do que seus artistas. Eles são “a antena da raça”, na definição do poeta Ezra Pound. Antena, radar, sonar, telescópio, microscópio, tradutor, oráculo, o artista atira no que sente e acerta no que talvez apenas pressinta. Mesmo quando fala de uma dor de corno ou de cotovelo, pode estar retratando o relacionamento tóxico de um povo consigo mesmo e com suas escolhas.

Esses moços, pobres moços (…)
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz

cantou Lupicínio Rodrigues com o pensamento nos que buscam os altos voos do amor se atirando no precipício da paixão. Mais ou menos o que temos feito na vida política.

Com Mário Covas, Ulysses Guimarães e Roberto Freire na disputa, elegemos Fernando Collor. Agora abrimos mão de Simone Tebet, Ciro Gomes e Luiz Felipe d’Avila para encarar uma escolha de Sofia entre o que deu errado e o que não tem como dar certo.

Mantidas as tendências apontadas nas pesquisas de opinião, Bolsonaro (em ascensão) poderia alcançar Lula (estabilizado). Mas isso foi antes das entrevistas no JN e dos debates, em que Lula leva vantagem.

Como o impossível sempre nos acontece, resta torcer por gafes, revelações bombásticas, plot twists e armadilhas do destino. Não havendo, entretanto, fato novo que nos faça dar uma chance ao bom senso, algumas previsões podem ser feitas, com probabilidade de 150% de virem a se cumprir:

O novo presidente não pacificará o país – ao contrário, ampliará o fosso. Terá contra si, se não o ódio, pelo menos o ranço de metade da população. Não respeitará o teto de gastos. Adotará medidas que já não funcionaram em governos anteriores.

Será alguém que não nutre simpatia pela imprensa livre. Que se sente perseguido, injustiçado e sonha com uma cobertura chapa branca – devidamente recompensada.

Será um iliberal. Que não esconde uma queda por regimes autoritários. O representante de um anacronismo – a velha esquerda antiamericana (ops, agora é antiestadunidense) com camiseta de Che Guevara, ou a velha direita reacionária, com bandeira do Império e mentalidade das capitanias hereditárias.

Alguém com um passivo de conivência com a corrupção, esteja o balcão de negócios no MEC, na Saúde, nos Transportes ou na Previdência dos Correios; sejam as jocosamente diminutivas rachadinhas ou os superlativos petrolão e mensalão. E que não se arrepende dos malfeitos, nem garante que não voltará a cometê-los.

Alguém que odeia a Lava-Jato – e pelos motivos errados. Que não se compromete com a lista tríplice para a escolha do PGR. Que terá deixado um país pior para o sucessor, ainda que atribua a maldição à herança recebida. Alguém incapaz de metáforas – no máximo, analogias rasas com casamento e futebol.

Será o governo de um tigrão nos cercadinhos e uma tchutchuca diante do Centrão. E de quem não admite ser comparado a seu suposto antípoda.

Sobre essa nossa sina, já cantava Lupicínio:

Se deixo de alguém por falta de carinho
Por brigar e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

O nome dos bois

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga.


A coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?


Em palavrório accessível, a questão é: mudando o símbolo muda-se a coisa?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» – se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, distinto leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi criada. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se puseram de acordo para acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Palavras estranhas – e nem sempre bem escolhidas – nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua a qualquer hora sem medo de enfrentar violência, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nome aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos que meio século atrás (ou menos pobres, se preferirem), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de segurança, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, desde que fomos assaltados pelo “politicamente correto”, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional por motivo de vocabulário inapropriado.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.

Publicado originalmente em 13 dez° 2012.

Zé Pequeno

Gaudêncio Torquato (*)

Dinarte Mariz era governador do Rio Grande do Norte. Em uma de suas costumeiras visitas a Caicó, visitou a feira da cidade, acompanhado da sempre presente Dona Nani, secretária de absoluta confiança. Dá de cara com um amigo de infância e logo pergunta:

– Como vai, Zé Pequeno?

O amigo, meio tristonho e cerimonioso, responde:

– Governador, o negócio não tá fácil; são oito filhos mais a mulher… tá difícil alimentar essa tropa vivendo de biscate. Mas vou levando até Deus permitir.

Dinarte o interrompe de pronto:

– Zé, que é isso, homem, deixe essa história de governador de lado. Sou seu amigo de infância, sou o Didi!

Vira-se para Dona Nani e ordena:

– Anote o nome do Zé Pequeno e o nomeie para o cargo de professor do estado.

Na segunda-feira, logo no início do expediente, Dona Nani entra na sala de Dinarte e vai logo informando:

– Governador, temos um problema, o Zé Pequeno, seu amigo, é analfabeto; como podemos nomear…

Antes que concluísse a fala, o governador atalha:

– Virgem Maria, Dona Nani! O Rio Grande do Norte não pode ter um professor analfabeto. Aposente o homem imediatamente.

E assim foi feito!

(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e colunista.

A avó da Europa

Lago de Lucerna (Suíça)
aquarela pintada pela rainha Victoria em 1868

José Horta Manzano

Recordes são feitos pra serem batidos. Antes do longo reinado de Elizabeth II, o recorde de longevidade no trono britânico tinha sido proeza de sua bisavó, a rainha Victoria (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e reinou por 64 anos, até sua morte.

Aos 21 anos, em 1840, casou-se com Albert, um príncipe alemão. Tiveram nove filhos e quarenta netos. Muitos descendentes se casaram com membros da realeza europeia.

Seus bisnetos – contando só os legítimos – são 142. Entre eles, há gente conhecida: a rainha Elizabeth II e o marido Philip, o rei Juan Carlos I da Espanha e sua mulher Sofia, o rei Constantino II da Grécia e sua mulher Anne-Marie.

Além desses descendentes que se casaram com primos distantes, há outros: o rei Harald V da Noruega, o rei Carl XVI Gustaf da Suécia, a rainha Margrethe II da Dinamarca, o rei Peter II da Iugoslávia e o rei Michel I da Romênia.

Nesse elenco, só aparecem os bisnetos que se tornaram reis; ficam de fora príncipes, duques, viscondes e quetais.

Victoria enviuvou em 1861, aos 42 anos. Daí pr’a frente, perdeu gosto pela vida. Vestiu-se de preto e nunca mais abandonou o luto. Alguns anos depois da morte do marido, chegou a um estado de grande cansaço, de desânimo, de estafa. Hoje o diagnóstico seria certamente mais sofisticado; na época, falou-se de esgotamento nervoso.

Foi organizada uma viagem de algumas semanas à Suíça. Para espairecer e mudar de ares, a rainha veio em 1868. Testemunhas relatam que ela adorou a temporada. Dado que ela falava alemão, pôde conversar com gente do povo, especialmente com trabalhadores agrícolas. Ficou encantada de ver que as vacas tinham nome e que, quando seu nome era pronunciado, cada uma respondia ao chamado e se aproximava. Na Inglaterra, tinha disso não.

A rainha, que gostava de pintar, registrou a paisagem que vislumbrava do Lago de Lucerna. É a imagem que ilustra este artigo.

Victoria é, de certa forma, a “avó da Europa” – ou, pelo menos, da realeza europeia.

Os mantras da política brasileira

Crédito: MoisesCartuns.com.br

Myrthes Suplicy Vieira (*)


De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Fernando Pessoa


Em psicologia clínica, é comum o alerta aos jovens terapeutas: é justamente nos momentos de maior vulnerabilidade e dor que o paciente menos tem condições emocionais de pedir e de aceitar ajuda. A pessoa está tão empenhada em provar que não há solução viável para o seu caso que rejeita sistematicamente toda forma de aconselhamento e descarta todas as medidas profiláticas sugeridas. Pior, entra numa desesperada batalha inconsciente para desqualificar a expertise, o profissionalismo, a sensibilidade ou a isenção de todos que lhe estendem as mãos.

“Você não entende… Se eu prestar queixa contra meu marido e ele for preso, vai querer se vingar nos meus filhos e na minha família. E eu não saberia viver carregando essa culpa. Além disso, eu não teria como sobreviver financeiramente sem a ajuda dele. Você não sabe como é duro ver seus filhos passarem fome… O que ninguém quer entender é que eu não posso viver o resto da vida em um abrigo, nem depender da decisão de um juiz para evitar que ele saia da cadeia e aí, sim, queira se vingar de todos. Preciso trabalhar e não tenho estudo suficiente, nem onde deixar as crianças… Melhor deixar pra lá, eu me viro sozinha, sei me defender quando é preciso. O problema é que ele está passando por um período difícil sem trabalho e acaba bebendo muito, mas tenho certeza que ele não teria coragem de me matar. Ele só faz essas ameaças porque tem medo de me perder…”

Tristemente, não é diferente na vida de uma nação. No Brasil, além do desastre humanitário causado pela pandemia e pela crise econômica que se sucedeu, estamos tendo de nos debater com uma aliança inédita entre o fundamentalismo pentecostal e o militarismo golpista. E, forçoso é admitir, nenhuma dessas duas forças conhece limites para a manipulação de mentes e de vontades. Seus códigos disciplinares não são somente vendidos a granel, mas agressivamente impostos em bloco a quem não partilha dos mesmos valores como uma questão de patriotismo. A luta deixa, então, de ser política e se configura como a batalha decisiva do bem contra o mal. Saem de cena os direitos e deveres consolidados na Constituição de 1988 e reassume triunfante seu lugar no palco o Código de Hamurabi, com sua Lei de Talião a tiracolo.

Assim, o eleitorado brasileiro já não tem a quem recorrer para pedir ajuda, e não quer – ou não pode – ser ajudado no esclarecimento dos fatores críticos que estão em jogo, seja porque desacredita da análise especializada dos cientistas políticos e juristas, da imparcialidade dos órgãos de imprensa e da credibilidade individual dos jornalistas ou da isenção dos ministros do Supremo. Acossados pela fome, pela total falta de perspectivas de um futuro melhor para todos, pela brutal insegurança pública e pelo ódio que contamina todos os setores da experiência cotidiana, vivem todos enclausurados em seus guetos ideológicos, acusando-se mutuamente de serem gado alienado e recusando-se a serem dissuadidos de suas respectivas intenções de voto.

Num estado de ânimo como esse, é fácil para o eleitor embarcar na ilusão de que “é tudo farinha do mesmo saco”. Depois de incontáveis tentativas frustradas de eleger um salvador da pátria, um pai amoroso que os resgate de seu desalento e impotência infantil, como acreditar que pode ser diferente agora? É quase inescapável a tendência de adotar uma postura cínica de equivalência moral entre os candidatos líderes nas pesquisas – principalmente quando se considera que o eleitor brasileiro vota em pessoas e não em ideias ou projetos de governo.

No que diz respeito à escolha dos melhores candidatos para o Legislativo, a situação é ainda mais aterradora. Sem se darem conta de que eles teriam um papel fundamental para reequilibrar e limitar os desmandos do futuro Executivo, desinformados pelo horário gratuito de propaganda eleitoral, herança trágica da ditadura militar, o que resta para a maioria é adotar como principal método de escolha aquele que se usava descuidadamente nas brincadeiras infantis: “Minha mãe mandou bater neste daqui, mas como sou teimoso bato neste daqui”.

Ainda não entendemos que a irracionalidade não tem como ser combatida com argumentos verbais lógicos. É o profundo investimento emocional do eleitor e sua identificação com figuras polêmicas de poder que precisariam ser confrontados. E quem ousaria se oferecer para essa tarefa? O analfabetismo político de boa parte da população, a abissal desigualdade que impede a visualização de uma solução única para todos os estratos sociais, a falta de uma identidade ideológica clara dos partidos, a crise da democracia representativa e o presidencialismo de coalizão reforçam-se mutuamente para afastar de vez a possibilidade de mudança dos ventos.

Há ainda outra tragédia à espreita. Hoje em dia ninguém mais se apresenta ao eleitorado como capaz de elaborar propostas criativas para a solução dos problemas sociais que nos afligem ou por ter maior capacidade de trânsito e negociação com forças políticas opostas. Agora tudo se resume a comprovar que você desfruta de fama e prestígio nas redes sociais – e que, portanto, suas chances de angariar o número de votos necessários para se eleger são maiores, quase certas. E dá-lhe influencer, tiktoker, subcelebridades, gente ligada ao entretenimento de massa. Não importa seu histórico educacional, profissional ou sua visão de mundo, nem que pesem sobre cada um acusações graves de descomprometimento com os valores iluministas e democráticos.

Dessa forma, a intenção de voto acaba ficando mesmo ao sabor do resultado das pesquisas eleitorais: com medo de “perder o voto” apostando num candidato lúcido mas sem reais chances de chegar lá, qualquer um que prometa pulso firme para enfrentar os poderosos de plantão, ser diferente de ‘tudo isso que aí está’ ou acabar com a corrupção e a impunidade pode atrair o interesse e a confiança maciça da população.

Ignorar que seu voto representa também a permissão para que seu país continue priorizando a economia em detrimento da qualidade de vida e bem-estar da população, que o meio ambiente sofra as consequências trágicas de uma visão deturpada de progresso, que o acesso a uma educação de qualidade continue apenas nas mãos de uma elite endinheirada, que falte capacidade ao sistema de saúde para dar atendimento digno aos mais carentes, que se normalize o infernal acréscimo no número de moradores de rua, de famintos, de desempregados e de violência contra as minorias. Em última instância, que sua indiferença significa autorizar que a democracia agonize nas mãos de déspotas nada esclarecidos. E que, ao fazê-lo, você consente em arrastar seus compatriotas para um abismo ético sem volta apenas para não entrar em contato com sua própria dor, impotência e desesperança.

O que fazer, então? Não tenho as respostas, mas pressinto que a única forma de colocarmos fim a estes tempos de barbárie é acolher terapeuticamente as frustrações e o ressentimento que ainda desorientam os dois lados do espectro ideológico. Aceitar que escolha moral é para quem não tem fome, ser capaz de ouvir os argumentos ainda não-explicitados que forem surgindo à medida que formos nos desapegando da sensação de desamparo como quem realmente quer compreender, e não como quem apenas se prepara para contra-argumentar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O king

José Horta Manzano

Uma parte dos britânicos tem o sentimento de que a monarquia, ainda que constitucional, é tradição empoeirada, que não combina com os tempos atuais. As gerações mais antigas são mais complacentes e não se sentem chocadas pelos gastos engendrados pela família real. Já os mais jovens são menos indulgentes.

Nos últimos setenta anos, toda discussão séria em torno da abolição da monarquia foi inibida pela personalidade carismática da rainha Elizabeth II. O magnetismo da monarca era tão grande que abafou toda dissensão. A maioria dos britânicos sentia orgulho de sua rainha e, colateralmente, da família real – apesar das estrepolias. (Ou talvez por causa delas.)

Esta semana, ainda estamos em período de luto. A comoção provocada pelo falecimento de Elizabeth II ainda paira no ar. O reino tem novo rei, mas, na verdade, a ficha ainda não caiu. Só a partir da semana que vem, quando a poeira baixar, é que os súditos vão pouco a pouco encarar a nova realidade.

Uma pesquisa do site britânico YouGov, feita no primeiro semestre deste ano para aferir a popularidade dos membros da família real, informa que o (agora) rei Charles III ocupava um obscuro 12° posto. Em primeiro, aparece a rainha, com 68% de popularidade. Seguem-se os filhos de Charles, as noras, a irmã (Anne), a esposa (Camilla) e até algumas sobrinhas. Charles alcançava apenas 34% de popularidade, nível muito baixo para um rei.

A emoção da perda da rainha fez que a popularidade do novo rei subisse imediatamente. Mas não há que se deixar enganar por esse movimento. O que sobe muito rápido hoje pode descer amanhã com a mesma rapidez. Bastam dois ou três escorregões do novo monarca.

Ele nem esperou passar o período de luto para começar a escorregar. Pelo menos em duas ocasiões, já mostrou diante das câmeras toda a sua arrogância e todo o seu mau humor. Comporta-se como um ser superior, que todos são obrigados a temer e a reverenciar.

Num dos episódios, no momento de assinar uns documentos, a caneta vazou. O soberano deu um piti, saiu praguejando, largou a esposa desamparada falando sozinha.

O outro vexame também ocorreu na hora de assinar papéis. (Francamente, parece que Charles tem um problema com canetas.) Incapaz de encontrar um lugar na mesinha para acomodar a bandejinha com as canetas, fez uma careta de impaciência, sacudiu a bandeja para chamar um serviçal e obrigou-o a vir correndo tirar o pequeno porta-canetas para ele conseguir assinar. Foi um acesso de arrogância explícita.

A continuar desse jeito, sua popularidade vai pro beleléu, e a aventura pode terminar mal. A Grã-Bretanha, que já teve seu Brexit, pode perfeitamente ter um Kingxit.

Se acabou

João Selva, cantor e compositor carioca

José Horta Manzano

Hoje, logo depois do almoço, estava eu tranquilamente na cozinha pondo ordem em panelas, pratos e talheres. Observe-se que deste lado do mundo, pra pagar serviçais, precisa ser abastado. O rei da Inglaterra, por exemplo, com os bilhões que já tem mais outros tantos que acaba de herdar, tem quem lhe arrume a cozinha. Eu não tenho.

O rádio estava ligado. O locutor comentava das algas que infestam os grandes lagos pré-alpinos. E continuava falando de algas comestíveis, que alguns gostam de misturar na salada. Eu ouvia sem escutar, que o assunto não era lá tão interessante. Eis senão quando, entra um intervalo musical. E a música me pareceu familiar.

O ritmo estava entre o baião e a marchinha de carnaval. Acompanhamento singelo e uma voz masculina suave. Prestei atenção na letra. Dizia:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Em seguida falava em galo, galinha, periquito, carcará e toda a animália que pode caber numa letra de música. A imagem era de a bicharada toda estar comemorando a despedida do capitão. E voltava o refrão:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Pensei: “Puxa, será que o horário de propaganda eleitoral gratuita chegou até aqui?” Logo me dei conta de que a ideia era absurda. Que tolice!

Cogitei então que os candidatos de oposição a Bolsonaro tivessem feito uma vaquinha pra inserir um anúncio pago na rádio pública suíça. Cheguei logo à conclusão de que a ideia não fazia sentido. É verdade que a colônia tem aumentado e que somos hoje dezenas de milhares de conterrâneos no país; assim mesmo, não dá um contingente em que valha a pena investir.

Em seguida, pensei em mais uma explicação para o fato de a rádio suíça estar tocando uma musiquinha anti-bolsonarista às vésperas da eleição brasileira. Certamente estão dando a contribuição que podem para abrir os olhos daqueles que ainda teimam em mantê-los fechados.

Não acredito que funcione. Ninguém consegue ensinar uma avestruz a desenterrar a cabeça. Assim mesmo, fico grato aos serviços públicos de radiodifusão do país pela boa vontade.

O autor
O locutor descreveu a musiquinha como “Sê acabú” cantada por “Joaô Sellvá”. Traduzi: Se acabou, por João Selva.

Nunca tinha ouvido falar nesse artista. Fui pesquisar e fiquei sabendo que se trata de um carioca que se casou com uma moça de Guadalupe (ilha francesa do Caribe) e se estabeleceu na França há alguns anos. Não sei se é conhecido no Brasil, mas em seu país de adoção lança discos, participa de festivais e se apresenta em programas de rádio.

Se você quiser ouvir um trechinho, está aqui no Youtube.

Imbrochável ou imbroxável?

Aldo L. Bizzocchi (*)

O coro de apoiadores de Bolsonaro que, no último Sete de Setembro, entoou o grito “imbroxável, imbroxável” suscitou, além de perplexidade em muitas pessoas, algumas dúvidas linguísticas. Primeira: essa palavra existe? Segunda: qual a sua origem? Terceira: a grafia correta é imbrochável ou imbroxável?

Primeiramente, é preciso dizer que, ao contrário do que afirmam muitos gramáticos, uma palavra existe na língua a partir do momento em que é criada e passa a ser usada socialmente. Essa nova palavra, que ainda não consta nos dicionários, é chamada de neologismo. Nesse sentido, pode-se dizer que Bolsonaro e os bolsonaristas criaram um neologismo. Se ele sobreviverá a ponto de ser dicionarizado ou se desaparecerá após algum tempo como moda passageira, só a história dirá. Muitos neologismos são assim criados como termos da moda (vide as gírias dos jovens) e, meses depois, caem em desuso. É a lei da seleção natural agindo sobre as palavras como age sobre os seres vivos. Algumas sobrevivem e até deixam descendentes (palavras derivadas, por exemplo), outras morrem e por vezes nem deixam vestígio.

Quanto à origem da palavra imbroxável, é um derivado parassintético do verbo broxar (parassíntese é um processo de derivação que consiste em prefixar e sufixar a palavra primitiva ao mesmo tempo). Trata-se de um termo um tanto chulo para designar a perda da ereção do pênis durante a relação sexual. Logo, imbroxável é o indivíduo que supostamente (apenas supostamente) nunca broxa. E broxar, de onde vem? Vem de broxa.

E broxa, todos sabem, é aquele pincel graúdo que os pintores usam para pintar paredes, especialmente com tinta à base de cal. A relação entre a broxa de pintura e a disfunção erétil é bem sugestiva: quando o pintor mergulha a broxa na tinta e depois a retira da respectiva lata, os pelos do pincel arqueiam todos para baixo sob o peso da tinta impregnada neles.

Como o leitor deve ter percebido, até o momento utilizei broxa, broxar e imbroxável com x, mas também existe em português a brocha com ch, só que com outro significado. Brocha é um tipo de prego, ao passo que o pincel se grafa broxa. Essa é mais uma das pegadinhas do nosso idioma que podem representar uma casca de banana no caminho de vestibulandos e concurseiros. Brocha e broxa são denominadas palavras homófonas, isto é, que têm a mesma pronúncia, mas grafias diferentes.

Portanto, se imbroxável deriva de broxar, e este de broxa, a grafia correta do primeiro é com x e não com ch, como tem saído na imprensa.

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

12 de setembro

Juscelino Kubitschek

José Horta Manzano

No meio de tantos horrores que fermentam no magma da classe política nacional e afloram à superfície durante campanhas presidenciais, é sempre refrescante relembrar coisas agradáveis. São coisas que estão obrigatoriamente no passado visto que, da política atual, não se pode esperar nada de bom.

Faz hoje exatamente 120 anos que nasceu em Diamantina, nas Minas Gerais, um menino que viria a ser um dos dois grandes presidentes que nossa República conheceu desde a redemocratização de 1945. Falo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). O outro grande foi Fernando Henrique Cardoso.

Fora esses dois, só estropícios subiram a rampa. E pelo que tudo indica, a desgraça não está perto de acabar. Considerando os dois principais pretendentes ao trono, seja qual deles for eleito, o Brasil vai continuar fazendo parte da periferia do mundo.

Continuaremos sendo um daqueles países folclóricos capazes de produzir soja para engordar gado, mas incapazes de contribuir para o processo civilizatório global.

Bolsonaro: a imbroxabilidade desvendada

José Horta Manzano

Bruno Meyerfeld é um escritor e jornalista franco-brasileiro. É o correspondente no Brasil do jornal Le Monde, quotidiano francês de referência. Acaba de lançar novo livro, redigido em francês, com o título Cauchemar brésilien – Pesadelo brasileiro. A ilustração mostra a capa da obra.

Fruto de acurado trabalho de investigação jornalística, o livro, ainda sem edição brasileira, retrata a história da ascensão de Jair Messias Bolsonaro, desde a infância até a Presidência. A obra está cheia de historietas interessantes – algumas conhecidas, outras menos – todas girando em torno da vida do capitão.

O público francês vê em Bolsonaro apenas um incansável destruidor da floresta amazônica. O livro trata de esclarecer que Bolsonaro é muito mais que isso – mais e pior. Narra suas obsessões, sua incrustada paranoia, suas transgressões, sua ojeriza às minorias (pretos, mestiços, homossexuais, índios), sua misoginia, seu comportamento mortífero perante a epidemia de covid. E muito mais.

Entre as revelações, aparece uma muito interessante. Lá pelas tantas, depois de descrever as noites arrastadas que um presidente insônico passa a perambular pelos corredores do Alvorada nas horas mortas, o autor continua:

«En plus de ses soucis de sommeil, [Jair Bolsonaro] souffre également de ‘dysfonction érectile’. Il est un utilisateur régulier de Cialis, ce vasodilatateur concurrent du Viagra. Et ne s’en cache nullement. La présidence, cela fait ‘débander même les super-héros’.»

«Além do problema de insônia, [Jair Bolsonaro] sofre também de ‘disfunção erétil’. Ele é cliente regular de Cialis, vasodilatador concorrente do Viagra. E não se preocupa em esconder. A presidência deixa ‘até um super-herói broxa’.»

Sensacionalismo não é o forte do jornal Le Monde nem de seus jornalistas. Se o autor citou essa peculiaridade do presidente do Brasil e assinou embaixo, é porque checou a informação junto a fontes confiáveis.

Sabendo disso, a gente agora começa a entender por que o capitão concordou com a distribuição de Viagra para oficiais das Forças Armadas. E fica também claro o porquê de ele se referir continuadamente à própria ‘imbroxabilidade’. Compreende-se. Apoiado no braço amigo do Cialis, não precisa ser super-herói: qualquer um consegue.

No fundo, ele parece mais é estar em marcha acelerada para a impotência total. Se é que já não chegou lá.

Se você estiver em Paris
Está marcada para este 12 de setembro a noite de autógrafos do lançamento do livro Cauchemar brésilien. Será no Bar Cultural 61, Paris 19ème, a partir das 19 horas.

Multidão x multidão

Ascânio Seleme (*)

Havia 64,6 mil pessoas no comício de Bolsonaro em Copacabana na tarde de quarta-feira, segundo o Monitor do Debate Público da USP. Na noite do mesmo dia, 66,6 mil torcedores assistiram à vitória do Flamengo sobre o Vélez Sarsfield no Maracanã.

Pode não significar muita coisa, são apenas dois mil a mais, mas os que foram ao Maracanã pagaram para entrar. Já muitos dos que estiveram em Copacabana receberam algum “incentivo” para participar do ato e gritar “mito”.

No Maracanã, Bolsonaro foi vaiado e xingado. E Rodolfo Landim não pôde fazer nada.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

Este mar é meu

José Horta Manzano

Você sabia?

A expressão águas territoriais define, em grandes linhas, a superfície marítima que pertence a cada país com saída para o mar. Até o século XIX, o assunto não aparecia entre as preocupações maiores.

Naquele tempo, considerava-se que as águas territoriais se estendiam até 3 milhas da costa (menos de 6km), que era o alcance de um tiro de canhão. Essa distância era suficiente para proteger o país  contra ataques vindos do mar.

Brasil – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Brasil – Zona Econômica Exclusiva
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O século XX trouxe outra visão de mundo. O litoral adjacente a cada país passou a ser olhado como zona de exploração econômica – para atividades pesqueiras principalmente. Convencionou-se então fixar o limite das águas territoriais em 12 milhas marítimas, cerca de 22km.

A partir dos anos 70, alguns Estados pressionaram para conseguir que sua zona de exploração fosse alargada. Depois de anos de discussão, uma convenção foi assinada em 1982 em Montego Bay. Ela põe os pingos nos ii, dá nome aos bois e fixa limites precisos. Define com precisão as expressões mar territorial, zona contígua, zona econômica exclusiva, plataforma continental e águas internacionais. Fixa em 200 milhas a contar da costa (370km) o limite da zona econômica exclusiva.

França – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

França – Zona Econômica Exclusiva
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O país «proprietário» exerce domínio exclusivo sobre as 200 milhas que lhe são atribuídas. Seus direitos englobam a coluna d’água e o subsolo sobre o qual ela se assenta. O dono é o único com direito a pescar e extrair do subsolo o que bem entender. Está em casa.

Quando se fica sabendo dessas particularidades, entende-se melhor por que certos países beiram conflito armado pela posse de ilhotas desertas e inabitadas. É o caso do diferendo entre a Rússia e o Japão sobre as Ilhas Curilas.

A China é outro país que batalha pela posse de ilhazinhas das quais ninguém nunca ouviu falar. Não fosse a Convenção de Montego Bay, o petróleo brasileiro de alto-mar poderia ser explorado pelo primeiro que chegasse. O icônico pré-sal incluído.

Chile – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Chile – Zona Econômica Exclusiva
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A convenção de 1982 deixou uma brecha. Estabeleceu que a zona exclusiva de cada país pode ser prolongada até um máximo de 650km, caso o interessado assim o deseje. Só tem um porém: a partir de 200 milhas, o «proprietário» só tem direito exclusivo para exploração das riquezas do subsolo. A coluna d’agua é internacional, aberta a todos. A água e tudo o que ela contém naturalmente.

Valendo-se dessa brecha, em 2015 a França estendeu sua zona exclusiva de exploração do subsolo marinho a 650km. Visto que possui pequenas ilhas espalhadas pelo globo, o país acrescentou meio milhão de quilômetros quadrados à superfície de que já dispunha.

Com isso, pelo critério de zona econômica exclusiva, os onze milhões e meio de quilômetros quadrados franceses ultrapassam todos os outros países. Nesse quesito, a França ocupa doravante o primeiro lugar. Surpreendente, não? O Brasil só aparece em 12° lugar, com pouco mais de 3,5 milhões de km2, atrás do Japão e até do Chile.

Petroleo 2

Essa história de zona exclusiva pode parecer bobagem mas não é. A China anda construindo navios para exploração mineral em alto-mar. Ao longo da navegação, a água vai passando por sistema de filtragem que retém o que interessa: ouro, titânio ou qualquer outro mineral raro e precioso. Quem diria, não?

Publicado originalmente em 22 out° 2015.

Email de Buckingham

José Horta Manzano

O jornalista Lauro Jardim informa que os estrategistas da campanha do capitão estão seriamente cogitando enviá-lo a Londres para estar presente nos funerais da rainha Elizabeth II.

Acreditam que o fato de ele aparecer em meio a chefes de Estado de todo o planeta é altamente positivo para passar a imagem de um líder importante. Seria um golpe de mestre, uma cartada simbólica fora do alcance dos demais candidatos, especialmente de Lula.

Na ideia dos estrategistas, o ideal é que Bolsonaro compareça acompanhado da esposa. Só que, por enquanto, estão ainda no estágio da cogitação. Ainda não se tem nem a data do funeral. O Palácio de Buckingham também ainda não mandou convite.

Apelo urgente
Alguém teria o email de Buckingham? Se tiver, mande uma cartinha para a Redação. Vou aconselhar o cerimonial londrino a desistir do convite ao capitão. Pelo bem do Brasil.

Sua Majestade, o rei

José Horta Manzano

Dizem que a morte de um ancião nunca é uma tragédia mas o caso da rainha Elizabeth talvez seja a exceção que confirma a regra. Ela era, com certeza, a pessoa mais conhecida do mundo, e seu desaparecimento deixa um vazio. Todos os veículos da imprensa mundial, sem exceção, dão destaque hoje à morte da rainha.

Na Inglaterra, até aqueles que são contra a monarquia e que gostariam que a instituição fosse abolida apreciavam e, sobretudo, respeitavam Elizabeth II. Ela era como um rochedo, sempre firme no meio das tempestades.

Ninguém nunca soube o que ela pensava. A rainha permaneceu a vida toda fiel ao dever de reserva que impôs a si mesma. Dizem uns que ela era a favor do Brexit; outros garantem que nunca ela apoiaria uma ideia tão maluca – ao fim e ao cabo, não saberemos jamais.

De longe a personalidade mais fotografada do mundo, ela deixava qualquer estrela do cinema ou das artes comendo poeira. Elizabeth II visitou praticamente todos os países, mas – curiosidade singular: nunca teve passaporte.

A rainha nunca teve documento de identidade. Sempre carregava uma bolsa cuja utilidade era desconhecida. Não pagava nenhuma compra. Não entrava em nenhuma loja. Nunca foi ao cinema. Nunca fez compra numa padaria ou num açougue. Não deve nunca ter usado dinheiro vivo. Talvez nunca tenha entrado numa cozinha. Dá pra imaginar passar 70 anos num regime rígido assim?

Ela vai fazer muita falta. Não fosse ela, a monarquia britânica já teria desmoronado. Vamos ver se o novo rei aguenta o tranco. Não será fácil, visto que sua popularidade é bem mais baixa que a da mãe, sem contar a esposa, vista por muitos britânicos como uma intrusa.

Não será fácil preencher o vácuo deixado por Elizabeth. Não é o filho nem a nora que têm carisma para isso. Num futuro mais distante, quem sabe.

Por enquanto, la reine est morte, vive le roi! – a rainha morreu, viva o rei!

PS
Charles não é obrigado a conservar o nome de batismo. Pode adotar um outro nome que lhe agrade, a escolha é dele. Seu avô, pai de Elizabeth, nasceu Albert, mas reinou como George VI. Saberemos rapidamente.

O ministério inglês e o nosso

José Horta Manzano

Nestes dias de bicentenário da independência, a desfaçatez ostentatória do capitão tem ocupado todo o espaço midiático. É como um Carnaval fora de época: tudo o que não for coberto de paetês e lantejoulas vira nota de rodapé.

Talvez o distinto leitor tenha vagamente tomado conhecimento da troca de primeiros-ministros no Reino Unido, onde Boris Johnson cedeu seu lugar a Liz Truss. Em princípio, não é esperado nenhum terremoto na política do país, visto que o governo continua nas mãos do Partido Conservador.

No entanto, assim que Ms. Truss anunciou seu ministério, ficou flagrante uma mudança de época. Foi-se o tempo em que bastava ser um homem branco para ter certeza de subir com facilidade os degraus do poder, deixando eventuais concorrentes a comer poeira. Pra começo de conversa, a primeira-ministra é uma mulher. Não é a primeira, mas, antes dela, só duas outras haviam ocupado esse cargo: Margaret Thatcher e Theresa May.

Pela primeira vez na história, entre os membros mais importantes do gabinete, nenhum se enquadra no padrão tradicional “male & pale” – de sexo masculino e pele clara. Os sete principais são: Kwasi Kwarteng, Suella Braverman, Thérèse Coffey, James Cleverly, Nadhim Zahawi, Kemi Badenoch et Ranil Jayawardena. Com uma única exceção, todos eles são cidadãos britânicos oriundos de imigração recente. Não têm a pele, o cabelo nem os olhos claros que a gente costuma atribuir aos anglo-saxões.

A composição do gabinete não é fruto de um capricho da nova chefe de governo. Entre os oito que concorreram ao cargo de primeiro-ministro, quatro eram mulheres enquanto os outros quatro eram homens descendentes de imigrantes. Esses cidadãos não se filiaram ao Partido Conservador por acaso; são apoiadores fervorosos do Brexit e de pautas liberais. A composição do novo governo é a prova de que a Grã-Bretanha teve sucesso na integração de imigrantes das antigas colônias. Em apenas meio século, descendentes de povos exóticos conquistaram o status de cidadãos britânicos como os demais.

Esse arco-íris ministerial de peles alvas e escuras, de tipos escandinavos e paquistaneses, de olhos cuja cor varia entre a água-marinha e o negro profundo é único na Europa, quiçá no mundo. Na França, que também recebeu correntes de imigração provenientes das antigas colônias, não se encontra a mesma diversidade no topo do poder. Quando muito, um negro aqui, um árabe acolá, geralmente em cargos de menor importância.

E o Brasil? Num país como o nosso, onde a miscigenação começou há meio milênio e resultou num contingente populacional em que mais da metade dos integrantes são mestiços, como é que ficam as coisas? Pois nossa situação está longe do exemplo da Inglaterra. A diversidade de nossa população não se reflete nas altas esferas. Nos ministérios de Brasília, encontrar uma mulher é coisa rara; um mestiço, então, mais raro ainda. No quesito representatividade dos variados estratos de nossa população, permanecemos fincados nos tempos coloniais.

Na era PT, apesar das barbaridades que cometeram, Lula e Dilma tiveram a sensibilidade de escolher ministros que escapassem do paradigma “homem e branco”. No governo Bolsonaro, demos um passo atrás. O capitão reforçou o sentimento de que, fora do padrão “homem e branco”, só há cidadãos de segunda classe.

É um tremendo erro considerar que só homens brancos estão habilitados a condividir o poder. Nossa diversidade cultural, racial e religiosa é o que é. Veio e está aí pra ficar. Quem a ignora incorre no mesmo tipo de negacionismo que os que consideraram a covid uma gripezinha: serão atropelados pela realidade.

Somos o que somos, e só no dia em que reconhecermos essa realidade teremos alguma chance de ver nosso processo civilizatório desempacar.

O Sete de Setembro é realmente o dia da independência do Brasil?

Dona Leopoldina e o conselho de ministros
Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1822
obra de 1922 by Georgina de Albuquerque (1885-1962)

Antônio Aurélio do Amaral (*)

Em viagem a São Paulo para controlar uma rebelião, o então príncipe regente Pedro transferiu formalmente o poder para a esposa austríaca, a futura imperatriz Leopoldina. Na época não existia telefone nem telégrafo para dispensar essa transferência de poder ao viajar.

Em fins de agosto de 1822, Dona Leopoldina recebeu uma carta de Portugal que comunicava a destituição de seu marido das funções e determinava que ele voltasse para Portugal. A missiva ordenava ainda que tratasse de obedecer pois uma força de 25.000 soldados portugueses estava a caminho do Brasil.

A princesa sopesou a situação, reuniu os ministros e tomou a decisão: assinou o rompimento das relações com Portugal e a independência do Brasil. Era 2 de setembro de 1822. Em seguida, enviou um emissário atrás do príncipe informando a situação e a sua decisão oficial.

Dom Pedro só foi alcançado pelo emissário no dia 7 de setembro, montado em sua mula, quando a vila de São Paulo já surgia no horizonte. Num cenário bem menos épico do que a “narrativa” retratada no imponente quadro de Pedro Américo – obra concluída na Itália 66 anos mais tarde –, proclamou a independência.

Na minha época de escola nunca ouvi nem li nada disso. Hoje os historiadores sabem, baseados em registros e documentações da época. A pavonice insegura dos machistas tóxicos elaborou a narrativa que foi para os livros escolares. Machismo que ainda hoje mata cruel e covardemente várias mulheres por dia no Brasil. E que “fez a cabeça” da minha geração (homens e mulheres), dentre outras discriminações.

Narrativas
Esse longo “delay” de 66 anos entre o evento e a famosa pintura de Pedro Américo só é menor que o espaço de tempo decorrido entre a morte de Jesus Cristo e os primeiros relatos: 70 anos. Os evangelhos de São Tomé, Maria Madalena e outros foram proibidos pelo Concílio de Niceia, convocado pelo imperador romano Constantino.

Leopoldina era membro da família real austríaca, de pensamento alinhado com os chamados “déspotas esclarecidos”, incomuns na época, porém marcantes pela visão e decisões alinhadas com o progresso social de seus povos. Ou pelo que assim podia ser entendido diante dos padrões vigentes.


Em síntese:
O nascimento do Brasil independente ocorreu por decisão e pela assinatura de uma mulher !


E agora, por conta da minha imaginação. Ela pode ter dito ao emissário: “Corra! Entregue esta carta a ele. E diga ao paspalho que encene uma proclamação perante sua tropa. Vá!”

Viva a independência do Brasil!

(*) Antônio Aurélio do Amaral é engenheiro.