As falsas assimetrias

Eduardo Affonso (*)

Digam o que disserem antropólogos, sociólogos e cientistas políticos, ninguém conhece melhor a alma de um povo do que seus artistas. Eles são “a antena da raça”, na definição do poeta Ezra Pound. Antena, radar, sonar, telescópio, microscópio, tradutor, oráculo, o artista atira no que sente e acerta no que talvez apenas pressinta. Mesmo quando fala de uma dor de corno ou de cotovelo, pode estar retratando o relacionamento tóxico de um povo consigo mesmo e com suas escolhas.

Esses moços, pobres moços (…)
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz

cantou Lupicínio Rodrigues com o pensamento nos que buscam os altos voos do amor se atirando no precipício da paixão. Mais ou menos o que temos feito na vida política.

Com Mário Covas, Ulysses Guimarães e Roberto Freire na disputa, elegemos Fernando Collor. Agora abrimos mão de Simone Tebet, Ciro Gomes e Luiz Felipe d’Avila para encarar uma escolha de Sofia entre o que deu errado e o que não tem como dar certo.

Mantidas as tendências apontadas nas pesquisas de opinião, Bolsonaro (em ascensão) poderia alcançar Lula (estabilizado). Mas isso foi antes das entrevistas no JN e dos debates, em que Lula leva vantagem.

Como o impossível sempre nos acontece, resta torcer por gafes, revelações bombásticas, plot twists e armadilhas do destino. Não havendo, entretanto, fato novo que nos faça dar uma chance ao bom senso, algumas previsões podem ser feitas, com probabilidade de 150% de virem a se cumprir:

O novo presidente não pacificará o país – ao contrário, ampliará o fosso. Terá contra si, se não o ódio, pelo menos o ranço de metade da população. Não respeitará o teto de gastos. Adotará medidas que já não funcionaram em governos anteriores.

Será alguém que não nutre simpatia pela imprensa livre. Que se sente perseguido, injustiçado e sonha com uma cobertura chapa branca – devidamente recompensada.

Será um iliberal. Que não esconde uma queda por regimes autoritários. O representante de um anacronismo – a velha esquerda antiamericana (ops, agora é antiestadunidense) com camiseta de Che Guevara, ou a velha direita reacionária, com bandeira do Império e mentalidade das capitanias hereditárias.

Alguém com um passivo de conivência com a corrupção, esteja o balcão de negócios no MEC, na Saúde, nos Transportes ou na Previdência dos Correios; sejam as jocosamente diminutivas rachadinhas ou os superlativos petrolão e mensalão. E que não se arrepende dos malfeitos, nem garante que não voltará a cometê-los.

Alguém que odeia a Lava-Jato – e pelos motivos errados. Que não se compromete com a lista tríplice para a escolha do PGR. Que terá deixado um país pior para o sucessor, ainda que atribua a maldição à herança recebida. Alguém incapaz de metáforas – no máximo, analogias rasas com casamento e futebol.

Será o governo de um tigrão nos cercadinhos e uma tchutchuca diante do Centrão. E de quem não admite ser comparado a seu suposto antípoda.

Sobre essa nossa sina, já cantava Lupicínio:

Se deixo de alguém por falta de carinho
Por brigar e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

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