A lei do trabuco

José Horta Manzano

Dia sim, outro também, Bolsonaro e sua malta nunca nos decepcionam. Há sempre alguma barbaridade nas manchetes. A imprensa internacional, quando falta assunto, não deixa de dar uma espiada por cá: nunca saem de mãos abanando.

 

Ex-deputado bolsonarista fere dois policiais que o vinham deter

 

 

Ao ser preso, apoiador do presidente Bolsonaro fere policiais

 

 

Ao ser preso, ex-deputado brasileiro lançou granadas e atirou contra a polícia

 

 

Político brasileiro joga granadas na polícia no estado do Rio

 

 

Político ia ser preso – lançou granada

 

 

Ex-deputado atira e lança uma granada ferindo dois policiais

 

Refém da eleição

Bandeira brasileira, refém da eleição

José Horta Manzano

A foto tirada em BH atravessou o Atlântico e chegou à imprensa francesa. Era pra ser alegre, com todas aquelas bandeirinhas em formato flâmula a compor uma cena comum a todas as Copas. Tinha sido assim em 2018, em 2014, em 2010 e nas anteriores. Só que…

Só que, desta vez, o cenário está sombrio. A falta de imaginação da franja doente de nossa sociedade não lhe permitiu criar símbolo próprio. Na ausência de símbolo, as cores nacionais, que são de todos, foram monopolizadas por aqueles cuja argumentação se faz pela granada e pelo fuzil.

Como se vê na ilustração, a revista L’Express gastou três linhas para explicar a seus incrédulos leitores o caso peculiar de um país em que a bandeira nacional foi sequestrada por uma parte da população – na indiferença dos demais, que agora têm de dar explicações para poder agitar o símbolo maior.

O Brasil decente não se preocupou em defender a bandeira. Entregou-a, sem luta, aos discípulos do cafajeste.

Grã-Bretália

Capa da revista

José Horta Manzano


“Podem falar de mim à vontade, desde que seja bem. Falar mal, não admito.”


A historieta que vou lhes contar hoje é bom exemplo dessa afirmação. Na verdade, creio que é próprio do ser humano. Todos a-do-ram ser incensados e de-tes-tam ser zombados.

A conceituada revista britânica The Economist é famosa por suas capas. A cada semana, leitores (e não leitores) se põem curiosos pra tomar conhecimento da nova tirada.

Talvez o distinto leitor se lembre da capa que a revista fez, lá pelos anos eufóricos da Copa 2014, quando o Brasil ainda bombava. Foi publicada uma montagem com o Cristo Redentor do Rio subindo aos céus como se fosse um foguete. Simbolizava o arranque de um Brasil que se preparava para sentar à mesa dos grandes.

Talvez vosmicê se lembre também que, alguns anos depois, constatando que o foguete brasileiro tinha dado chabu, a Economist publicou capa muito parecida, com o mesmo Cristo impulsionado por foguete, só que em queda, em direção ao solo.

Os mesmos que haviam aplaudido a primeira capa se sentiram indignados quando saiu a segunda. É natural. Ninguém gosta de ser caçoado.

Esta semana, a capa da revista apresentou uma Liz Truss (primeira-ministra britânica) vestida como deusa da Roma antiga. Só que, no lugar do escudo, está uma pizza margherita; em vez de lança, há um garfo; e na ponta do garfo, espaguete enrolado. O mais marcante é o título: “Welcome to Britaly”, uma fusão de “Brexit” com “Italy”, que o Estadão teve a luminosa ideia de traduzir: “Bem-vindo à Grã-Bretália”.

A intenção da Economist foi comparar a atual bagunça político-econômica do Reino Unido com a Itália, país onde crises de governo e problemas econômicos são recorrentes.

O fato é que os italianos não acharam nenhuma graça na gracinha. A mídia da península está indignada, em pé de guerra. Não houve um veículo que não manifestasse desagrado, embalado sob forma de editorial ou artigo.

O Corriere della Sera faz longa explanação político-econômica para demonstrar que os atuais percalços britânicos não podem ser comparados às agruras italianas. Trata o Brexit de “catástrofe econômica, cultural e civil”. Lembra que a Itália é o 7° exportador mundial, enquanto a Grã-Bretanha é o 14°. E continua por numerosos parágrafos a demonstrar que a Itália está em posição bem mais confortável e segura que a Inglaterra.

Carta do embaixador

A onda de protesto bateu até na Embaixada da Itália em Londres. O embaixador endereçou carta de reclamação à redação da Economist. Lamenta que a capa tenha se baseado unicamente em estereótipos batidos. Sugere que, de uma próxima vez, a revista não se atenha ao espaguete e à pizza (embora sejam a comida mais popular no mundo), mas que se lembre dos setores aeroespacial, biotécnico, automotivo e farmacêutico.


“Podem falar de mim à vontade, desde que seja bem. Falar mal, não admito.”


 

Diz-me com quem andas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depois de ler algumas análises feitas por especialistas da área de Humanas a respeito da politização da religião, destrinchando as motivações ocultas por trás das falas sórdidas de Damares e de Bolsonaro, repercutindo os recentes conflitos entre religiosos católicos e fanáticos bolsonaristas, tive certeza: quanto mais se fala no assunto, quanto mais se ataca o comportamento do “gado”, quanto mais se tenta rebater os preconceitos e as perigosas ilações que os líderes da extrema-direita costumam fazer contra os adeptos das ideologias de esquerda, quanto mais nos embrenhamos nessa pseudoluta do Bem contra o Mal, mais se aprofundam os laços entre o público fundamentalista e seu “Mito”.

Fera acuada reage com muita maior agressividade. Pode parecer paradoxal que nosso esforço de aclarar os fatores-chave que estão em jogo obtenha o efeito exatamente contrário ao pretendido. Ainda assim, é algo bastante fácil de entender. É como acontece com as campanhas de prevenção contra as drogas, o álcool ou o fumo. Estabelece-se uma argumentação lógica, de ordem estritamente técnica, apontando os efeitos maléficos do vício e enquadrando o usuário como “vítima” inconsciente ou involuntária dessas armadilhas. O problema é que nenhum dos argumentos utilizados consegue se antepor de forma minimamente crível aos “benefícios” percebidos de prazer e escape temporário de uma realidade dolorosa causados por essas substâncias.

Adianta menos ainda apelar para os brios morais ou para a responsabilidade social – argumentos do tipo: comprando drogas você está abastecendo o crime organizado; bebendo, você perde tudo, emprego, apoio da família e respeito por si próprio; fumando, você causa prejuízo ao SUS que vai ter de tratar das comorbidades e deixar de atender quem mais precisa. Sem perceber, essa forma de mensagem aciona imediata e automaticamente um poderoso mecanismo de defesa, que se engalfinha na luta para racionalizar a necessidade de adesão ao vício.

Ou seja, toda forma de admoestação usada até aqui só comunica uma mensagem desagradável, de oposição aos seus bons propósitos: a de que os especialistas no combate a esses males são pessoas “quadradas”, alienadas, com a vida ganha, que “não entendem” as necessidades de segmentos sociais específicos – jovens desesperançados, desempregados, vítimas de violência doméstica e/ou policial, pessoas de periferia e de baixa renda que não veem futuro de ascensão social e os discriminados em função de sua origem racial, orientação sexual ou simples diferenças no jeito de se vestir, se comportar em público ou questionar o “sistema”.

Da mesma forma, no plano político, as críticas vindas das forças progressistas de esquerda às propostas e ao projeto de poder do bolsonarismo naufragam miseravelmente, antes mesmo de atingir seu alvo. Basta desqualificar de antemão essas vozes, associando-as a perigosas intenções dissimuladas: querem instaurar uma ditadura comunista (e para nós a liberdade é mais importante do que a vida, ainda que isso implique o fechamento do Congresso e do STF); defendem o aborto (e nós somos radicalmente a favor da vida, ainda que acreditemos que algumas vidas não merecem ser preservadas); são cristofóbicos (e nós odiamos quem não se pauta pelos mandamentos inscritos no Velho Testamento, ainda que sejamos obrigados a perseguir os que veneram o diabo); tentam impor a ideologia de gênero (o que representa para nós a destruição dos valores da família e a perversão de mentes infantis pela introdução precoce do tema da educação sexual nas escolas).

O irracionalismo definitivamente não pode ser combatido racionalmente. Isso porque ele está ancorado na própria identidade do convertido, nos conflitos inconscientes que permeiam sua estrutura psíquica. Está enraizado no imenso benefício emocional de se sentir parte indissolúvel de um grupo coeso e aguerrido, que conta com a proteção de uma figura poderosa e temida pelos adversários, que acolhe a todos sem julgamento e dá segurança para lidar com as incertezas da vida cotidiana.

Negar os desvios de caráter do líder passa, assim, a ser uma questão de sobrevivência psicológica. Aceitar que se abram brechas na estrutura monolítica do código pessoal de valores equivaleria a suicidar-se social e espiritualmente. Trata-se, no fundo, de uma cosmovisão dogmática. E dogma é, por princípio, uma verdade que não pode ser discutida nem contestada pela razão secular.

Mas não é só às hordas bolsonarista que isso se aplica. Infelizmente. Vale também, com força máxima, para o outro lado do espectro político-ideológico. Alegar que sua causa é nobre, que se está do lado certo da história, que somos seres iluminados a serviço da conscientização geral antes que seja tarde demais, também revela o quão pouco entendemos da natureza humana.

Se não concordássemos intimamente com a ideia de que o inferno são os outros, muito provavelmente já teríamos encontrado humildade de espírito suficiente para dialogar com o ressentimento histórico dessa gente, eternamente abandonada pelos governantes de plantão – e que, portanto, não vê diferença alguma entre ser governado pela esquerda, pelo centro, ou pela direita. Opor barbárie à civilização pode fazer sentido para uma elite intelectual, mas não agrega um só osso com restinho de carne à sopa a ser preparada para a família hoje à noite.

Um antigo chefe meu, sociólogo holandês, brincava que havia só duas teorias de aprendizagem: a que afirma que as pessoas aprendem pelo prazer e a que dita que a verdadeira aprendizagem só acontece pela dor. E, acrescentava ele, rindo: “Idealmente, todos deveriam aprender exclusivamente pelo prazer, mas não dá para esquecer que tem uns FDP por aí que merecem aprender pela dor”.

Qual seria, então, a saída? O que estou propondo de fato: censura, guerra civil, tratamento psicológico compulsório para quem adere a teses que considero absurdas? Nada disso. Como diria Stanislaw Ponte Preta, “ou nos locupletamos todos ou reinstaure-se a moralidade”. Que se reinstale o diálogo democrático sereno, que todos sejam chamados à mesa de negociação, que aceitemos abrir mão de alguns anéis para não perder os dedos, que se testem novas propostas de convivência democrática ainda não experimentadas entre nós.

Só não sei ainda como implementar essas mudanças na prática. Sei que não dá para negociar com terroristas armados até os dentes. Sei que não é possível eliminar a insanidade a golpes de realidade. Entendo que nenhum progresso humano é linear e incorpora avanços e recuos estratégicos permanentes. Mas será que não é suficiente perceber que se pode levar um cavalo até à água, mas é impossível fazê-lo dela beber?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pinóquios

José Horta Manzano

Todo mentiroso contumaz, de tanto mentir, já não percebe que cai em contradição a cada esquina. É muito difícil sustentar uma mentira. Dá um trabalho danado. Tem de se policiar a cada frase, a cada instante, a cada dia, que é pra não se desmentir. O mentiroso inveterado não se dá ao trabalho de se autovigiar, então… catapum! Cai do cavalo a toda hora.

Não sei qual dos dois finalistas da corrida presidencial deste ano merece o título de Pinóquio-mor. O páreo está dureza. A dez dias do turno final, Bolsonaro soltou mais um desses pronunciamentos enrolados, com frases que se contradizem.

Ao lado do neo-bolsonarista governador de São Paulo, discursou e conclamou prefeitos paulistas a “virar votos”. Logo em seguida, afirmou que está ganhando “em todos os estados do Brasil, sem exceção”. Disse ainda que “daqui pra lá não vai voto, mas de lá pra cá vem”. Esta última frase deve significar que é possível que eleitores de Lula no primeiro turno votem em Bolsonaro no segundo, mas o vice-versa é impossível. (Há controvérsia.)

Ora, nessa embolada de afirmações, há colisão frontal.

1) Se ele estivesse realmente ganhando em todos os estados e se fosse impossível virar votos “daqui pra lá”, não haveria razão pra pedir empenho aos prefeitos: a vitória já estaria desde já assegurada.

ou

2) Se o capitão vê necessidade de pedir empenho de prefeitos para “virar votos”, é sinal de que a vitória “em todos os estados do Brasil, sem exceção” não está tão garantida assim.

Conclusão
Este blogueiro crava na opção 2. E o distinto leitor?

Os estreantes

Chamada da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Em desastrada declaração feita nos anos 1970, Pelé – nossa glória nacional – afirmou que “brasileiro não sabe votar”. De lá pra cá, a fala do camisa 10 é volta e meia citada.

As eleições de 2020 deixaram a impressão de que Pelé estava totalmente enganado. Dois anos atrás, candidatos ligados ao bolsonarismo sofreram forte derrota. Parecia até que os brasileiros tinham aprendido a votar e que o pesadelo estava chegando ao fim.

Passaram-se dois anos e chegaram as eleições de 2022. Para a Presidência, no primeiro turno, apenas 33% do eleitorado votou no capitão, o que mostrou estabilidade ou até queda em sua aprovação.

No turno inicial, ele teve muito menos votos que em 2018, quando tinha alcançado a marca de 46% do eleitorado. Isso mostra que, apesar de barulhentos e arruaceiros, os bolsonaristas não representam hoje mais que 1 em cada 3 eleitores. Até aqui, tudo dominado.

O problema surge quando se lê uma notícia como essa que a Folha publicou:


40% dos estreantes na Câmara foram alvo de ação ou investigação


De cada dez estreantes, quatro não chegam envoltos em perfume de santidade. As suspeitas que pesam sobre eles variam entre calúnia, mau uso de recursos públicos, estelionato e homicídio.

E olhe que são estreantes, iniciantes, calouros! Dá pra imaginar como estarão daqui a alguns meses, quando estiverem formados, treinados, com diploma de parlamentares experientes?

João Baptista Figueiredo, último presidente do período militar, era mestre em declarações bruscas, pesadas, ofensivas, um nobre precursor do estilo bolsonárico. Como o atual presidente, não escondia o imenso desprezo que sentia pelo povo. Entre outras barbaridades, disse um dia, referindo-se aos brasileiros: “povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar”.

Se, por milagre da física quântica, Figueiredo se levantasse da tumba e lesse a chamada estampada no alto deste artigo, era capaz de dizer: “Eu não falei?”.

Mais ecos do debate

José Horta Manzano

O debate que Lula e Bolsonaro protagonizaram na tevê ecoou forte além-fronteiras. Debates à brasileira, que se assemelham cada dia mais a briga de criançada do ensino fundamental, são desconhecidos na Europa, onde o nível costuma ser menos rasteiro.

Essa história de “Acusado! Eu vi você mostrando a língua pra professora!” não cabe numa confrontação entre candidatos à Presidência de país civilizado. O que tem divertido a imprensa estrangeira são justamente essas alfinetadas pré-adolescentes, comportamento que destoa vindo de dois personagens que já ocuparam o posto máximo.

 

 

El Mundo
O espanhol El Mundo não se ateve a detalhes. Deu uma nota global: “Um eletrizante debate corpo a corpo”.

 

 

Corriere della Sera
O Corriere della Sera é escrito numa língua (italiano) que não é pródiga no uso de diminutivos. Para traduzir a expressão “pequeno ditadorzinho”, que Lula dirigiu a Bolsonaro, o jeito foi duplicar o adjetivo: “Um piccolo piccolo dittatore”um pequeno pequeno ditador.

 

 

The Guardian
O mesmo problema de diminutivos tem a língua inglesa. Na hora de verter o “pequeno ditadorzinho”, o Guardian de Londres escreveu: “Tiny little dictator” – minúsculo pequeno ditador.

 

 

Sud Ouest
O francês Sud Ouest fez a chamada em dose dupla, com réplica e tréplica. Não só o “ditadorzinho” apareceu, mas a “vergonha nacional” também. Falaram então de “petit dictateur” – ditadorzinho e “honte nationale” – vergonha nacional.

 

 

HLN
Já o holandês HLN escolheu outro par de insultos. Afinal, não foi dícil encontrar, tantas foram as ofensas estúpidas e contraproducentes. A chamada incluiu: “klein dictatortje” – pequeno ditadorzinho e “koning der leugens” – rei da mentira.

 

 

Thuner Tabglatt
Mais dramático, o suíço Thuner Tagblatt escolheu palavras impactuosas para descrever o que considerou ‘batalha de lama’: “Pädophil” e “Kannibale”. Dispensam tradução.

 

 

Para travar a língua
A descrição alemã do debate, mostrada nesta última ilustração, traz uma palavra de aspecto assustador: Schlammschlacht. Essa fila indiana de 15 letras comporta apenas 2 vogais para 13 consoantes. Essa massa de letras forma só duas sílabas, acredite. Significa batalha de lama.

Doa a quem doer

José Horta Manzano

A expressão “doa a quem doer” me traz à memória a gafe histórica perpetrada por Fernando Collor, então presidente do Brasil. Há exatos 30 anos, em entrevista à televisão argentina, Collor afirmou que estava preparado para punir os culpados por quaisquer irregularidades em seu governo. Em refinado portunhol, acrescentou: “duela a quién duela”, que lhe pareceu ser a melhor tradução para “doa a quem doer”.

Expressões idiomáticas não devem ser traduzidas ao pé da letra porque, em geral, dá linha cruzada (essa é do tempo do Onça). Por exemplo, se você pegar a expressão “ao pé da letra” e traduzir para o inglês – ao pé da letra –, fica “to the foot of the letter” – sequência de palavras incompreensível para ouvidos anglófonos.

Dando de ombros a toda prudência, Collor ousou. E se estrepou. Naquela circunstância, um ouvido hispanofônico esperaria algo do tipo “no importa a quién le duela”.

Só ouvintes muito espertos devem ter entendido o “duela a quién duela”. Mas Collor não era esperto.

Debate

José Horta Manzano

Não assisti ao último debate entre os dois presidenciáveis. Para me inteirar do que foi dito, não me fiei a hashtags, memes ou rumores da internet – fui direto à imprensa séria, que dá mais certo.

Depois de dar uma vista d’olhos a uma dezena de artigos e análises, fiquei sabendo de tudo. Está aqui abaixo o que retive.

• Bolsonaro provocou Lula. E este errou ao cair na arapuca

• Bolsonaro chamou Lula de “vergonha nacional”

• Lula chamou Bolsonaro de “pequeno ditadorzinho”
(Dessas duas últimas, quem me informou foi a mídia estrangeira)

• Bolsonaro tocou no ombro de Lula, o que causou frisson nacional

• Moro deu conselhos a Bolsonaro durante o debate.

• Dados distorcidos de segurança, covid e corrupção foram citados por ambos

• Houve ironias, uma encarada e até troca de sorrisos entre os protagonistas

• A audiência foi pr’as alturas

• A esposa de Lula bocejou ostensivamente enquanto Bolsonaro discursava

• Lula vestiu a gravata preferida por presidentes de 2014 pra cá

• Bolsonaro vestiu gravata verde (amarela teria dado demais na vista)

• Lula estourou o tempo, e permitiu um monólogo bolsonárico

• Bolsonaro enrolou sobre mexida na composição do STF. Não confirmou nem informou, muito pelo contrário

• Os candidatos se trataram mutuamente de “mentiroso”
(E acertaram)

• O ambiente esteve menos agressivo; gestos e palavras foram menos incivis do que estamos acostumados

Bom, chegando a este ponto, é hora de fazer umas perguntas. E daí? Pra que serviu o debate? Resumiu-se a tentativas de desqualificar o adversário? Que projetos foram discutidos? Quais foram os novos planos revelados ao distinto público?

Pelo que entendi, nenhum projeto foi tratado com a profundidade que se deve. Ideias soltas, do tipo “farei isso” ou “farei aquilo” surgiram, mas os candidatos giraram em torno da compota sem botar a mão dentro.

Ambos se referem basicamente ao passado, sem revelar sua visão de futuro (talvez por não a terem), sem a menor ideia do lugar que o Brasil deve ocupar num mundo transtornado pela nova distribuição de forças, com guerra na Europa, exportação de combustiveis bloqueada, mudanças climáticas, ameaça de conflito nuclear, veganismo em marcha acelerada, Amazônia em chamas, alta da inflação mundial, bolsas mundiais em queda desde o começo do ano.

Não se discutiu nenhum projeto para tirar o país do atraso. Educação, saúde, transportes, saneamento básico, formação profissional foram temas ausentes.

O horizonte está sombrio. Se os candidatos tivessem ideia de como agir para melhorar a vida da população, por certo teriam exposto seus planos. Se não o fizeram, é porque não sabem o que fazer.

Como de costume, vamos votar de olhos vendados. Dos dois, Bolsonaro tem sido o mais transparente. Sabemos que, com ele, o projeto será um só: sua permanência vitalícia no poder, custe o que custar, doa a quem doer(*).

Quem se contentar em ter na Presidência um cafajeste candidato a ditador, que vote no capitão. Ele não costuma decepcionar.

(*) Fico devendo para amanhã uma reflexão sobre a expressão “doa a quem doer”.

Voto à moda antiga

Urna modelo anos 1950

 

José Horta Manzano

Quando a Constituição de 1988 determinou que a votação para cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito) se realizasse em dois turnos, estipulou um prazo de 4 semanas entre a primeira e a segunda rodada.

À época, serviram de referencial as eleições de 1960, as últimas realizadas em sistema democrático e livre. De fato, a partir da instauração do regime militar, em 1964, caiu a noite sobre a democracia e não se votou mais para presidente da República.

Em 1960, computador ainda era chamado “cérebro eletrônico” e estava mais pra ficção científica que pra realidade palpável. Assim sendo, votava-se em cédula de papel. O eleitor chegava à seção eleitoral, se apresentava, dava uns passos, puxava a cortininha, entrava na cabine e punha dentro de um envelope a(s) cédula(s) com o nome de seu(s) candidato(s). Baixava a aba do envelope sem colar , voltava e depositava o voto na urna, que era em geral um saco de lona com uma boca rígida de madeira ou metal, com uma fenda.

Terminada a votação, as urnas permaneciam sob vigilância policial durante a noite. No dia seguinte, caminhões e caminhonetes percorriam a cidade para recolher todas as urnas e transportá-las ao local de apuração, que, nos centros maiores, era um amplo galpão ou ginásio de esportes. Todos os sacos de lona eram amontoados ali.

A apuração começava ao meio-dia da segunda-feira. No local, estavam já dispostas mesas compridas de madeira, com jeito de mesas de piquenique familiar. Havia bancos para acomodar os apuradores. Por toda parte, viam-se guardas, fiscais de diferentes partidos, apuradores que se levantavam para ir ao banheiro, pessoas que tiravam um sanduíche da sacola, outras que conversavam, muita gente circulando, tudo num vozerio persistente. Um verdadeiro cafarnaum.

Não encontrei informação do tempo exato que os apuradores levaram para contar os doze milhões de votos de 1960, mas, até que fossem contabilizados os votos do último grotão, devem ter passado uns 15 dias.

Pois foi nessa realidade que os constituintes de 1988 se basearam para fixar o prazo de 4 semanas entre os dois turnos: contaram, grosso modo, duas semanas para a apuração e duas semanas de campanha.

Sessenta anos se passaram e a realidade mudou. Mudou muito. Hoje, com o ultraeficiente sistema eletrônico, fica-se sabendo do resultado em poucas horas, fato inconcebível quando foi escrita a Constituição. Só que, a roupa agora ficou folgada. Em vez de duas semanas de campanha, como nos tempos de antigamente, os dois concorrentes da reta final têm quatro semanas à disposição para angariar votos. É tempo demais. Desnecessário, caríssimo e francamente dispensável. Desgasta os candidatos e cansa o distinto público.

Os meses que precederam o primeiro turno são o tempo em que candidatos se dedicam a tornar-se conhecidos, a dizer quem são e a que vêm. Passado o primeiro turno, é só questão de ajustar o tiro. O grosso do trabalho, em princípio, está feito. Aliás, é a razão pela qual não é frequente que o segundo colocado vire o jogo e atropele o que estava à frente. Pode acontecer, mas está longe de ser a regra.

Vamos esperar que o novo Congresso atente para essa relíquia de um tempo que passou e proponha encolher o espaço entre os dois turnos. Será uma decisão de bom senso.

Observação
Se o intervalo entre os turnos fosse de quinze dias, já teríamos votado ontem e já conheceríamos o nome do novo presidente. Em vez disso, temos pela frente mais quinze dias de tensão, insultos, agressões, vilanias, golpes baixos. E para quê? Seja o que for que ele nos reserve, nosso destino já está escrito. Os dados estão lançados e não há como detê-los.

Cortes de orçamento

José Horta Manzano

Foi amplamente divulgado que, para o Orçamento 2023, Bolsonaro cortou drasticamente verbas que deviam ter sido destinadas à cultura e à ciência.

Faz milênios que a humanidade aprendeu o valor das ciências e das artes para o progresso da sociedade, só que alguns ainda não entenderam.

Aqui abaixo está um punhado de máximas antigas, algumas com dois mil anos, sobre o assunto.

Latim
Ars non habet inimicum nisi ignorantem.
A arte não tem outro inimigo senão o ignorante.

Italiano
L’arte non ha maggior nemico dell’ignorante.
A arte não tem inimigo maior que o ignorante.

Francês medieval
Science n’a ennemis que les ignorants.
Ciência não tem inimigos que não sejam os ignorantes.

Alemão
Wissenschaft und Kunst
haben nie der Toren Gunst.
Ciência e arte
nunca são apreciadas pelos tolos.

Inglês antigo
Art hath an enemy called ignorance.
A arte tem um inimigo chamado ignorância.

Os trogloditas que nos governam ainda estão na Idade Média.

Pronunciamento de Bolsonaro

Ruy Castro (*)

Você já viu pelo menos um pronunciamento oficial de Jair Bolsonaro. Ele fala sentado a uma mesa numa sala, tendo ao fundo uma indefesa bandeira nacional e uma simulação de biblioteca. Os livros, comprados pelas cores das lombadas, estão ali para sugerir compostura e reflexão.

Inútil, porque o que sai pela boca do orador, em forma, conteúdo, expressão, timbre e dicção, revela um analfabeto funcional – aquele que, tecnicamente alfabetizado, capaz de reconhecer as letras, despreza o pensamento abstrato, por não lhe servir para nada.

Segundo pesquisas, o brasileiro médio lê 4,96 livros por ano. Já é pouco, mas Bolsonaro deve levar 4,96 anos por livro.

Nesses pronunciamentos, Bolsonaro se faz acompanhar de um dois de paus, que não abre a boca, e de um tradutor ou tradutora de libras, cuja função é levar os palavrões e grosserias de Bolsonaro aos deficientes.

Uma vez, quando ele evacuou sua imortal declaração “Caguei! Caguei pra CPI!”, a intérprete de libras era uma patusca senhora de óculos. Conhecendo Bolsonaro, e pelo desembaraço com que traduziu o desaforo – nem sombra de titubeio –, já deve ter um estoque de porras, não f…. e PQPs em seu vocabulário. A não ser que emita uma tradução asséptica, caso em que merecerá um sonoro esporro por desfigurar o estilo do patrão.

Não quer dizer que Bolsonaro seja um ignorante. Seus poucos e inglórios anos de Exército só lhe serviram para aprender a lavar cavalos, pintar postes e atirar, mas os quase 30 de Câmara dos Deputados, mesmo na Terceira Divisão, o ensinaram a mentir, corromper e mamar.

Ensinaram-lhe também a se cercar de ideólogos que, estes, sim, leitores atentos, lhe sopram o que fazer para invadir legalmente as instituições e dominá-las por dentro – os instrumentos da democracia que permitem trabalhar contra ela própria.

O Bolsonaro boçal é só uma frente. O perigo está no que isso esconde.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Este texto, publicado quase ano e meio atrás, não envelheceu e continua refletindo à perfeição o estilo do capitão.

A cama já está feita

José Horta Manzano

Diversos analistas já deram o sinal de alerta para o perigo que nos espreita. Por razões que ainda estão por ser estudadas, os eleitores brasileiros abriram as portas do Congresso para ignorantes, incapazes e extremistas.

A partir daí, que Bolsonaro seja reeleito ou não, essa gente já detém a maioria no Senado e, mediante alguns poucos acertos, será majoritária também na Câmara.

Essa situação é como um trem engatado, que roda em alta velocidade em direção à autocracia (= governo de uma pessoa só). Como todos sabem, trem segue os trilhos, reto, sem olhar pros lados.

A não reeleição do capitão é a derradeira esperança de evitar o pior. É verdade que o Congresso continuará tal e qual, que não dá mais pra mudar. Mas pelo menos não teremos, no topo do Executivo, um desequilibrado metido a Mussolini tropical. Além do quê, um gelatinoso Centrão sempre acaba se acomodando aos caprichos do Presidente, seja ele quem for.

Estes dias, diversos analistas têm escrito sobre esse risco. Juntei alguns dos artigos e deixo aqui à disposição da graciosa leitora e do distinto leitor. A cama já está feita. Só falta o cafajeste se apossar dela.

É bom tomar consciência do triste destino que nos espera. O voto de cada um conta. Não deixe de votar e… vote bem!

 

 

 

 

 

 

Barbaridade no aeroporto

José Horta Manzano

Desde que Putin lançou sua guerra de conquista sobre o território ucraniano, cerca de 5 milhões de habitantes abandonaram o país e fugiram direção à Europa. Nenhum país estava preparado para um afluxo tão caudaloso, mas em pouco tempo, organizou-se uma corrente de solidariedade.

Governos, ongs e simples cidadãos arregaçaram as mangas e cada um deu contribuição à altura de suas possibilidades. A Polônia, com seus parcos 38 milhões de habitantes, já deu abrigo a um milhão e trezentos mil refugiados. A Alemanha já acolheu um milhão. A pequenina Moldávia, país mais pobre da Europa, recebeu quase cem mil ucranianos.

Uma reportagem do Estadão informa que, neste momento, um grupo de 150 afegãos vive acampado num saguão do Aeroporto de Guarulhos (SP). Adultos, anciãos e famílias com crianças pequenas integram o conjunto. Sobrevivem com a caridade de funcionários e frequentadores do aeroporto. Há quem traga um cobertor, comida, um colchão. Além de famintos, os estrangeiros estão precisando de um banho e de roupa lavada. Faltam remédios para os mais idosos.

Um detalhe muito importante: esses afegãos não são clandestinos como aqueles que atravessam ilegalmente a fronteira do México para os EUA. Os migrantes de Guarulhos são titulares de um visto humanitário concedido por uma representação diplomática do Brasil no exterior.

O tratamento que estão recebendo é uma barbaridade. É desesperante constatar a desarticulação entre as instituições brasileiras. Conceder visto humanitário é uma coisa, mas a sequência da acolhida tem de estar concatenada: recepção dos imigrantes, fornecimento de ajuda de custo, um abrigo, alimentação, cuidados de saúde, escola para as crianças – enfim, o necessário para amparar quem tudo perdeu e aqui chegou só com a roupa do corpo.

Onde está o senso de acolhida do povo brasileiro? Nunca passou de ilusão ou foram o capitão e seus neandertais que instalaram essa revoltante aporofobia?(*)

(*) O termo aporofobia define o ódio e o repúdio à pobreza e aos pobres.

Birds of a feather

Sites de namoro no Brasil:
“Por favor, não me diga que você é de esquerda, você é bonita demais pra ser esquerdista.”

 

José Horta Manzano

Em 1969, Jorge Ben compôs e Wilson Simonal cantou “País Tropical”, aquela que dizia:

Moro
Num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza

Desde aquela época, a expressão “bonito por natureza” tornou-se uma daquelas frases feitas, citadas a todo momento em relação a nosso país tropical. A expressão não chocou ninguém, muito pelo contrário: encantou. É que combina com a imagem que nos fazemos de nosso Brasil cheio de encantos mil.

Sempre aprendemos que em nossa terra de sol e de música reinavam a paz e a concórdia. Aprendemos também que em certas regiões do mundo, esquecidas pelo Altíssimo, os habitantes viviam em pé de guerra, parte da população jogada contra a outra parte.

Sabemos que na Irlanda do Norte católicos e protestantes se odeiam, e que volta e meia entram em conflito. Houve embates sangrentos até os anos 1990. De lá pra cá, as tensões arrefeceram, mas as brasas continuam quentes e podem se inflamar a qualquer momento.

Outra coisa que sabemos é que, em certos países do Oriente Médio, como o Líbano, a população vive dentro de bolhas confessionais. Homem de família muçulmana não se casa com mulher de religião cristã. Na segunda metade do século 20, o país já foi castigado por uma guerra mortífera de origem religiosa que durou dez anos.

Na Índia, o fosso divisório passa entre hinduístas e muçulmanos. Os dois grupos não se bicam. Dado que são bem minoritários no país, os muçulmanos são frequentemente atacados pelos hinduístas, majoritários. Misturar-se? Não passa pela cabeça de ninguém.

Quanto a nós, até outro dia tínhamos certeza de viver num país abençoado por Deus e, ainda por cima, bonito por natureza. Isso foi até outro dia. Depois do desastre lulopetista e da catástrofe bolsonárica, o panorama mudou. O distinto leitor há de ter notado. Mas fique sabendo que até a mídia estrangeira já se deu conta.

A revista francesa Notre temps (Nosso Tempo) traz uma reportagem sobre o surpreendente caso brasileiro. Para espanto de seus leitores, revela qual é a primeira pergunta feita por usuários de aplicativos de namoro – aqueles em que cada um procura a alma gêmea. Logo no primeiro contacto, antes de dar bom-dia, a pergunta é: “Você vai votar em quem?”. Vale também a variante: “Você é de esquerda ou de direita?”.

Usuários entrevistados explicam não ter vontade de perder tempo com uma pessoa com ideias políticas diferentes das suas. Há até quem já declare suas preferências políticas logo no perfil, descartando assim todo mal-entendido.

Parece que alguns aplicativos vão mais longe. Já se especializam em usuários de direita (ou de esquerda), numa tendência “private club” à moda dos aristocráticos ingleses. Os frequentadores desses sites pensam todos da mesma maneira, o que evita perguntas inúteis e potencialmente agressivas.

Não sei você, mas eu acho essa situação lastimável. Recuso-me a considerar que esse estado de coisas seja fruto de um “progresso” qualquer. Ao contrário, parece-me uma regressão, uma involução. Mostra que, tendo perdido a capacidade de conviver com diferentes, aspiramos a viver num mundo de iguais, onde todos têm as mesmas ideias, gostam das mesmas pessoas, detestam as mesmas coisas, pensam do mesmo jeito.

Pôxa, que monotonia, não lhes parece? É uma vida monacal, sem sal e sem sabor.

O nome do movimento

O inglês diz:
Birds of a feather flock together.
Pássaros de mesma plumagem se aninham juntos.

Os franceses dizem:
Qui se ressemble s’assemble.
Quem se parece se ajunta.

Os italianos preferem:
Dio li fa e poi li accoppia.
Deus os faz e depois os junta.

Quanto a nós, temos algumas expressões correspondentes:
Os semelhantes se atraem.
Cada qual com seu seu igual.
Uma vaca reconhece a outra.

Mas melhor mesmo é dizer: Vade retro, vida besta! Xô!

Teoria conspiratória de ocasião

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não gosto nem estou habituada a embarcar em teorias conspiratórias, mas não teve jeito: ainda em estado de choque com o resultado do primeiro turno das eleições, especialmente as dos governos estaduais, deputados federais e senadores, vi-me forçada a criar eu mesma uma que lavasse de alguma forma minha honra de pesquisadora com mais de 20 anos de experiência. Ela pode parecer um tanto alucinada, como aliás são todas as outras, mas retrata uma possibilidade bastante factível e traz um fundinho de veracidade que precisa ser ainda mais bem explorado.

Refletindo sobre as causas dos erros monumentais cometidos por todos os institutos de pesquisa de renome nacional, me ocorreu que a inversão de última hora nas preferências pode não ter sido fruto de incompetência técnica ou metodológica, ingenuidade, parcialidade ou falta de integridade ética de tantos pesquisadores envolvidos. Algo me diz que o “erro” está na força do bolsonarismo de raiz nas redes sociais. Os institutos podem apenas não ter sido capazes de rastrear a tempo o tsunami de votos despejados no capitão provavelmente porque embalados pela confiança na altíssima estabilidade das previsões e convergência da intenção de voto apontada pelas diferentes instituições e confirmada por diversos agregadores de pesquisa.

Convenhamos: para que tivesse havido uma fraude dessa dimensão, seria preciso que todos os dirigentes desses institutos e pesquisadores subordinados, que elaboraram os questionários, determinaram a amostragem e treinaram o pessoal de campo, tivessem concordado em “suicidar” sua reputação e afundar voluntariamente a futura credibilidade comercial e política de suas empresas. Uma possibilidade que evidentemente está longe de ser lógica ou exequível.

Imagino, então, que o arrastão de votos a favor de Bolsonaro no dia do primeiro turno tenha acontecido da seguinte maneira: um comando do Gabinete do Ódio teria sido enviado desde as últimas semanas das sondagens eleitorais aos principais cabos eleitorais do presidente para que determinassem por sua vez que, caso fossem entrevistados por algum grande instituto associado a jornais, emissoras de tevê e portais de internet “de esquerda”, os eleitores intencionalmente mentissem, respondendo ou que ainda não sabiam em quem votar ou que estivessem pensando em votar nulo ou branco. Mas essa era só a primeira fase do complô que imagino e descrevo a seguir.

O primeiro sinal de que algo de grande porte e malcheiroso estava sendo tramado por baixo dos panos foi dado quando, a menos de 10 dias da eleição, o próprio presidente se encarregou de espalhar a notícia de que seria reeleito, com “ao menos 60% dos votos”. Além disso, na mesma época ele ensaiou pela primeira vez encarnar o personagem “JB paz e amor”, conclamando os eleitores a optarem pela “harmonia” social, pela segurança das armas e pela diminuição dos indicadores de fome e desemprego.

Na sequência, entre sexta-feira e domingo, o comitê central da ala mais radical do bolsonarismo deve ter ordenado aos principais cabeças regionais da campanha – isto é, gente com forte ascendência sobre uma massa de subordinados/dependentes e também capaz de garantir sigilo absoluto da operação – que “persuadissem” gentilmente o maior número possível de eleitores indecisos, além dos de Ciro Gomes e Simone Tebet, a despejar seus votos em massa no capitão. Dada a complexidade logística da operação, o comando pode ter sido distribuído através de sites da ‘dark web’ que não pudessem ser facilmente monitorados, e multiplicado aos milhares através de grupos fechados de whatsapp. O que foi prometido a cada um para que alterassem de última hora sua intenção de voto é difícil de saber. Além das habituais promessas de dentadura e alpercatas, emprego e comida, deve ter funcionado fundamentalmente a pressão dos grandes empresários do agronegócio e da indústria extrativista, dada a promessa explícita de muitos de demitir todos os funcionários que manifestassem direta ou indiretamente a intenção de votar em Lula. Não me parece improvável ainda que a operação tenha contado com o auxílio luxuoso de lojistas de grande porte do sudeste, como Luciano Hang, e até de milicianos para reforçar o exigido código de silêncio.

O que me leva a pensar que isso tenha acontecido de fato? Antes de mais nada, o silêncio e a compostura dos bolsonaristas fanáticos no dia das eleições. Aquilo que todo mundo temia – gigantescas manifestações e conflitos sangrentos de rua, boca de urna agressiva, intimidação aberta de eleitores nas ruas do entorno das seções eleitorais – simplesmente não aconteceu. Nem aqui nem no exterior. Tenho vários amigos que moram além-mar e todos registraram, sem exceção, sua surpresa (e até uma pontinha de orgulho) com a civilidade dos apoiadores de Bolsonaro na França, na Suíça, na Holanda e na Inglaterra.

Ninguém mais voltou aos temas-lemas de urnas auditáveis, sala secreta de totalização dos votos, fiscalização dos militares, etc. por pelo menos duas semanas antes da eleição. Ninguém protestou ou xingou Alexandre de Moraes em função das regras de proibição de celulares e do transporte de armas. Um estranhíssimo silêncio, compatível com a tradicional estratégia dos índios americanos antes de um ataque mortal contra as caravanas dos primeiros colonizadores.

Outra evidência para lá de suspeita: pouquíssimos votos em branco e nulos foram observados na contagem final. Mais uma vez, uma estranhíssima coincidência dado o grande contingente de eleitores declaradamente ‘nem-nem’. Raríssimos casos de crimes eleitorais – como postagem de imagens de celular de dentro das cabines de votação, denúncias fake de fraudes ou conflitos com mesários – surgiram nas redes sociais e compõem os derradeiros indicadores. Curiosamente, todas as peças publicitárias da campanha de segundo turno do capitão exibem eleitores entusiasmados declarando que “consegui mais dois”, “e eu consegui trinta”. Coincidência?

Finalmente, uma vez constatada a gritante incoerência entre as previsões e o resultado efetivo colhido nas urnas, o que foi que aconteceu? A generalizada gritaria e exigência de criminalização dos institutos de pesquisa por parte de figuras manjadas do Centrão, além da cara de paisagem do filho de Bolsonaro, Carlos, ao lado do pai, subitamente sereno e com ar de aliviado, na primeira aparição pública após a divulgação dos resultados.

Seja ou não confirmada minha teoria conspiratória por outras evidências, posso apostar que a mesma estratégia será usada no segundo turno e causará um clima de tensão inaudito entre os analistas e cientistas políticos. Não me espantarei se Bolsonaro colher mais votos ainda em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já quanto à eleição do carioca Tarcísio de Freitas para o governo paulista, a meu são favas contadas, independentemente da participação dele ou não nesse grande imbróglio: paulista adora um canteiro de obras atrapalhando o trânsito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os cortes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Em artigo de sábado, o Estadão expõe os cortes feitos por Bolsonaro nas áreas da Educação e da Saúde Pública. A razão da poda é desviar recursos para alimentar o orçamento secreto, nebuloso sistema de distribuição de verbas a parlamentares, sem critério de transparência – daí o nome de “secreto”.

Percebe-se que a restrição de recursos é direcionada às áreas que o capitão odeia com maior furor.

De fato, a Saúde Pública é seu espantalho, como seu comportamento ao longo da pandemia revelou. Recluso num universo paralelo, Bolsonaro cultiva o negacionismo em seu esplendor. Nega-se obstinadamente a reconhecer a fragilidade do ser humano e as agruras do sofrimento alheio. Em sua lógica, o brasileiro deve enfrentar, peito aberto, todos os riscos à saúde. Afinal, este não pode ser um país de maricas! Que os fracos sejam varridos do mapa! Vacina? Tratamento? Remédio? Consulta? Pra quê? Tome cloroquina, que passa.

Ao lado da Saúde, a Instrução Pública é seu outro saco de pancada. Visto que ele não aprendeu grande coisa na vida, acabou atraindo uma coorte de brutos e ignorantes – o que é lógico e natural. Estendendo o raciocínio, ele não vê necessidade de oferecer os benefícios de uma educação de qualidade à população. Talvez pressinta que, se os eleitores tivessem aprendido a pensar, ele jamais teria sido eleito. Não serviria nem para síndico de condomínio.


Cortes de orçamento programados para 2023
– um florilégio –

Farmácia Popular
É programa que beneficia mais de 21 milhões de brasileiros. Sofrerá amputação de 59%. Ítens cortados: 13 diferentes princípios ativos. Entre eles, tratamentos usados contra diabetes, hipertensão, asma. A tesoura atingiu até fraldas geriátricas.

Prevenção e controle do câncer
O câncer é a segunda doença mais mortal no país. A verba destinada a prevenção e controle dessa enfermidade foi reduzida em 45%.

Aids
Programa que distribui remédios para tratar aids, hepatite viral e outras IST (infecções sexualmente transmissíveis) sofreu uma tesourada de R$ 407 milhões.

Merenda escolar
O governo de Bolsonaro vetou o reajuste, com correção pela inflação, da verba para a merenda escolar, que já não era reajustada havia 5 anos. Aluninhos vão continuar tendo de estender o dedinho pra receber um carimbo que indicará que já foram servidos e não podem repetir o prato. E vão continuar a dividir um ovo entre quatro crianças. Para muitos deles, a merenda é refeição mais nutritiva do dia – quando não é a única.

Outras áreas
Há outras áreas penalizadas pelos cortes. A Educação é a que mais vai sofrer. O programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é outra destinação visada pelo bloqueio bolsonárico. A pasta de Ciência e Tecnologia e a de Desenvolvimento Regional também vão receber recursos minguados. Há outras áreas, mas é bom parar por aqui, que é pra evitar ficar mais deprimido.

Quem achar que isso é uma beleza e que está muito bom assim, que vote no capitão. Só que tem uma coisa: depois não vale dizer que não sabia.