Humor
Zé Pequeno
Dinarte Mariz era governador do Rio Grande do Norte. Em uma de suas costumeiras visitas a Caicó, visitou a feira da cidade, acompanhado da sempre presente Dona Nani, secretária de absoluta confiança. Dá de cara com um amigo de infância e logo pergunta:
– Como vai, Zé Pequeno?
O amigo, meio tristonho e cerimonioso, responde:
– Governador, o negócio não tá fácil; são oito filhos mais a mulher… tá difícil alimentar essa tropa vivendo de biscate. Mas vou levando até Deus permitir.
Dinarte o interrompe de pronto:
– Zé, que é isso, homem, deixe essa história de governador de lado. Sou seu amigo de infância, sou o Didi!
Vira-se para Dona Nani e ordena:
– Anote o nome do Zé Pequeno e o nomeie para o cargo de professor do estado.
Na segunda-feira, logo no início do expediente, Dona Nani entra na sala de Dinarte e vai logo informando:
– Governador, temos um problema, o Zé Pequeno, seu amigo, é analfabeto; como podemos nomear…
Antes que concluísse a fala, o governador atalha:
– Virgem Maria, Dona Nani! O Rio Grande do Norte não pode ter um professor analfabeto. Aposente o homem imediatamente.
E assim foi feito!
(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e colunista.
Machismo linguístico
Cão animal de companhia.
Cadela prostituta.
Vagabundo homem que não trabalha.
Vagabunda prostituta.
Touro homem forte.
Vaca prostituta.
Pistoleiro homem que mata por encomenda.
Pistoleira prostituta.
Aventureiro homem que aceita o risco.
Aventureira prostituta.
Garoto de rua menino pobre que vive na rua.
Garota de rua prostituta.
Homem da vida pessoa de grande saber.
Mulher da vida prostituta.
Galinhão o ‘bonzão’ que traça todas.
Galinhona prostituta.
Tiozinho irmão do pai ou da mãe.
Tiazinha prostituta.
Feiticeiro praticante de magia.
Feiticeira prostituta.
Colhido por aí.
Privatização dos Correios
Quadrinhos ‒ 284
Complexo de inferioridade
Saltando do barco
José Horta Manzano
As pesquisas, a persistirem no ritmo atual, apontam para inevitável derrota do capitão em outubro.
Os parlamentares mais firmes, aqueles dotados de estofo ideológico, não arredam pé de suas convicções.
Já os que nadam na geleia geral – e que constituem o abundante ventre flácido da República – estão se preparando para saltar do barco. Efetivamente, diz-se que os ratos são os primeiros a saltar. (Peço desculpas aos ratinhos, que entraram neste parágrafo como Pilatos no Credo.)
Na foto vemos o presidente da Câmara, bolsonarista desde criancinha, que de bobo não tem nada. Sua Excelência entendeu de que lado sopram os ventos e já prepara sua reconversão.
Dois dias atrás, foi comer brigadeiro na festinha de aniversário de Zeca Dirceu. O homenageado é deputado federal pelo PT do Paraná. Além disso, é filho do José Dirceu, companheiro que tem sido, há décadas, fiel aio do Lula.
Este blogue dá os parabéns ao aniversariante. Em troca espero ser nomeado para uma sinecura. Afinal, é dando que se recebe.
Disclaimer:
Este artigo contém ironia.
O elixir
A reforma da gramática
A tentativa de implantar uma linguagem neutra, obrigando 213 milhões de brasileiros a incorporar novos substantivos (amigue, alune, patroe, empregade), pode até não ser uma ideia ruim de todo.
Se essa turma voltar ao poder (e ela está à frente nas pesquisas de intenção de voto), teremos a chance única de pegar carona no fim do machismo tóxico do idioma, aproveitar o inevitável processo de realfabetização e liquidar vários outros problemas da língua.
Com os novos adjetivos (progressiste, gorde, fasciste, golpiste), podíamos dar um jeito nos verbos irregulares.
Não há criança que não diga “eu fazi” antes de ser repreendida e adestrada a dizer “eu fiz” – que não faz nenhum sentido e vem sem qualquer explicação.
“Fazi” é, intuitivamente, o certo – e o cérebro (principalmente o infantil) é inteligente o bastante para entender conceitos, generalizá-los e colocá-los em prática. Cada verbo irregular é obstáculo ao aprendizado, uma freada brusca nas sinapses, um “volte duas casas” na compreensão de como funciona essa abstração maravilhosa que é a linguagem.
Se a criança diz “eu comi, eu li, eu corri”, por que haveria de estar errada ao dizer “eu queri, eu sabi, eu trazi ou eu cabi”? Acabemos com o falocentrismo do masculino genérico e com as irregularidades verbais, de uma tacada só.
Como vamos ter novos pronomes inclusivos (elu, minhe, nenhume, outre, cuje), que tal eliminar os privilégios ortográficos? Poderíamos começar pela palavra “exceção”, que costuma ser escrita das mais variadas formas – excepcionalmente, até da forma correta.
Pronomes neutros e tratamento igualitário à grafia – isso, sim, é uma pauta democrática. Se o som é de S, só o S deve ter lugar de fala (ops, de escrita). Não à apropriação fonética feita por Ç, SS, SC ou X. Exceção vira “esesão” – e, assim, até ministros do atual governo serão capazes de escrever palavras difíceis como “acesso” e “impressionante” (doravante, tudo com S). O mesmo valerá para o que soe como Z ou como J. Quem corrige prova do Enem poderá se ater apenas ao conteúdo, sem uma síncope a cada batatada ortográfica.
Com particípios também passados a limpo (eleite, derrotade, auditade, ressentide), será hora de abolir o hífen. Por que guarda-chuva tem hífen e mandachuva não tem? Por que não tem hífen em camisa de força e tem em água-de-colônia? “Fora, hífen!” viria se juntar às faixas de “Fora FHC!”, “Fora Temer!”, “Fora Bolsonaro!” e “Fora ____!” (preencher com o nome do próximo presidente que não for de esquerda). Vírgula separando o vocativo, por favor.
Mas pode-se também partir para a terceira via, que é ensinar a língua como se deve, entendendo que mudanças ocorrem naturalmente e que as supostas imperfeições têm uma história e só tornam o idioma mais belo, mais humano. Que não se obriga ninguém a nada, seja na linguagem, seja na política: conversa-se, articula-se, dialoga-se, trocando o “vencer” pelo “convencer” (etimologicamente, “vencer junto”).
Emília, a boneca de pano que resolveu reformar a natureza, colocou abóboras em árvores e jabuticabas em plantas rasteiras. Quem leu Monteiro Lobato sabe no que deu.
(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.
Caldas da Rainha
José Horta Manzano
O Centro Cultural da cidade portuguesa de Caldas da Rainha (que nome simpático!) está expondo neste momento as obras dos participantes de seu concurso anual de ilustração editorial, desenho de humor e caricatura. Os interessados em visitar a exposição têm três meses, até o fim de agosto.
Cerca de 200 ilustradores e desenhistas do mundo inteiro participaram. Os temas mas abordados foram a despedida de Angela Merkel e de Donald Trump, o famigerado vírus da covid e seu “amigo” brasileiro Jair Bolsonaro. (Essa última frase aparece no catálogo da exposição.)
Os vencedores são originários de diferentes países, entre os quais: México, Montenegro, Alemanha, Grécia, Cuba, Espanha, Polônia. Reproduzo abaixo o trabalho dos grandes ganhadores.
![]()
O argentino Matías Tolsá levou o primeiro prêmio com esta caricatura de Angela Merkel.
![]()
O mexicano Victor Solís e o alemão Frank Hoppmann empataram em segundo lugar e condividiram o prêmio.
Este é o trabalho do mexicano.
![]()
E esta é a obra do alemão.
![]()
Não sei se o distinto leitor teve a mesma impressão que eu, mas me pareceu que o caricaturista se inspirou no troféu da Copa 14.
Ou será que essa associação de ideias entre o capitão e uma derrota acachapante é só birra minha?
![]()
Quadrinhos ‒ 283
O 17
José Horta Manzano
Ao demorar para abraçar um partido, Bolsonaro está bobeando. Está deixando que se cimente o “recall” do 17, número que 57 milhões de eleitores apertaram no teclado da urna eletrônica para elegê-lo.
Se continuar bobeando, nas próximas eleições ainda é capaz de aparecer algum incauto que, certo de estar votando no capitão, vai apertar o 57, número do jacaré.
Quanto à ema, não tem risco: não consta do jogo do bicho.
Cresceu rápido
José Horta Manzano
O caderninho de notas do jornalista Lauro Jardim não deixou escapar. Entre as anotações de 15 de nov°, aparece:
“André Mendonça chamou a atenção hoje, no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo IDP de Gilmar Mendes e com meia República presente. E não exatamente pelas suas intervenções nos debates.”
Dizem as más línguas que, caso seja confirmado como ministro do STF, Mendonça não será o primeiro a ostentar cabeleira fixa, daquelas que, por nunca crescerem, dispensam visitas ao barbeiro. Será sempre uma economia para os cofres da nação, que terão uma conta a menos para pagar.
Não vai dar
José Horta Manzano
Dizem que quem vê cara não vê coração. Dizem também que o rosto é o espelho da alma.
Sei não. A julgar pela expressão dos dois, a chapa Lu-Gê tem pouca chance de dar certo. O primeiro está chateado por ter estado, mas não estar mais lá. O segundo está amargurado por ter tentado, mas nunca ter chegado lá.
Uma parceria, pra funcionar, exige, em primeiríssimo lugar, que os parceiros estejam satisfeitos e animados. Pela expressão mal-humorada, parecem estar cumprindo tabela, longe do objetivo. Não pode dar certo.
Ilhas Virgens
A máquina do tempo
Esta é do Sensacionalista, o caderno de humor do jornal O Globo. E a continuação do texto é estricnina pura.
“Quem é que disse que a ciência no Brasil está morta (por overdose de cloroquina) e enterrada (numa cova rasa porque os cemitérios estão lotados)?
O presidente Jair Bolsonaro é concorrente fortíssimo para o Nobel de Física de 2021. Ele assombrou a comunidade científica internacional ao fazer o país voltar no tempo em 30 anos.
E não foi só. A inflação voltou a níveis de 27 anos atrás. Em alguns lugares, o país retrocedeu séculos, até uma época em que se cozinhava à lenha, religiões mandavam na política e se morria de doenças para as quais havia vacina.”
O bacana
José Horta Manzano
A gente está habituado ao linguajar de meliante utilizado pelos membros da família Bolsonaro. ‘Habituado’ é maneira de dizer. Acho que quem tem ouvidos sensíveis e vive distante desses ambientes rasteiros não se acostuma nunca. É um susto a cada novo pronunciamento do clã.
Tem horas em que o palavreado que eles usam em público deixa o cabelo mais arrepiado que de costume. Foi o que aconteceu em 10 de março deste ano. Um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado, irritado com a obrigação de portar máscara para proteger a si e aos outros, exprimiu-se no fino linguajar da família e ordenou à nação que “enfiasse a máscara no rabo”. Não se sabe se foi atendido.
Ao se deixar fotografar ontem no momento em que recebia vacina anticovid, surpreendeu a nação. Ninguém imaginava que o bacana fosse aparecer dando o braço a torcer – perdão! – dando o braço a vacinar. Provou que é macho e que não tem medo de agulha. Só um pouquinho.
Ainda por cima, mostrou que é homem de palavra: apareceu sem máscara. Só que a demonstração de coerência ficou pela metade. Por descuido ou por pudor, não instruiu o cinegrafista a filmá-lo de costas, de modo que não ficou confirmado se realmente enfiou a máscara no lugar que ele mesmo tinha sugerido à nação.
A atitude do bolsonarinho inspira nova cantiga de roda. Pra cantar depois que as crianças forem pr’a cama. Chama-se “Onde está a mascarinha?”
Ti-ra, ti-ra,
Tira a cuequinha
Não deve ficar brabo
Queremos ver seu rabo
O soluço
Brasil x Argentina
Corto cabelo e pinto
José Horta Manzano
Frases mal formuladas podem causar efeitos estranhos. O exemplo lapidar está contido nessa curiosa placa de barbearia. A foto circula na internet há anos, mas o efeito hilário continua garantido.
No caso do “Corto cabelo e pinto”, nem mesmo acrescentando uma vírgula se resolve o problema. Uma solução será: “Corto e pinto cabelo”. Ou talvez: “Cabelo: corto e pinto”. Vi outro dia na Folha esta chamada.
Dado que eu estava, naquele momento, chegando do planeta Marte, fiquei na dúvida se o vendedor de vacinas e o líder do governo Bolsonaro eram uma só pessoa. Quê? É impossível? ¡Que va!
Nestes tempos estranhos, com o governo desregulado que é o nosso, nada mais espanta. Se um ministro do Meio Ambiente está sendo processado por ter se envolvido com contrabandistas de madeira, o líder do governo pode perfeitamente estar vendendo vacina. E faturando alto com isso. Ora, ora.
Buscando a clareza (e evitando que o freguês tenha de ler o artigo inteiro pra saber quem é quem), seria bom reformular a chamada.
Se o líder do governo e o vendedor de vacinas forem uma só pessoa, uma solução seria esta:
“CPI convoca líder do governo Bolsonaro, que vende vacinas e que denunciou propina”
Se forem duas pessoas, é melhor reformular a chamada:
“O líder do governo Bolsonaro e o vendedor de vacinas que denunciou propina são convocados por CPI”.
Assim, nenhum líder poderá botar defeito. Nenhum vendedor de vacinas também.























