As trapaças de lá e as de cá

José Horta Manzano

Tudo é relativo, costuma-se dizer. É verdade.

Um resto de pão seco, daqueles que se costuma descartar, pode parecer um banquete para alguém que esteja sem comer há vários dias.

A declaração de um figurão que brada «eu não sabia de nada» pode parecer fichinha perto da de um outro que despeja uma ladainha de mentiras, brotadas diretamente de sua imaginação.

Um tempo frio e ventoso de 10 graus, ressentido como clima polar por quem está acostumado a viver em terras tropicais, será percebido por um siberiano como brisa de primavera.

Poderia continuar a citar exemplos. A lista poderia prolongar-se a ponto de cansar meus caros leitores. Não vou fazer isso. Quero citar só mais um caso. Depois dele, dou-lhes uma pausa para refletir.

Faz uns 10 dias, a ministra da Educação da Alemanha, doutora Annette Schavan, amiga chegada da primeira-ministra Merkel, foi acusada de plágio. Alguém descobriu que sua tese de doutorado havia sido fortemente inspirada ― para não dizer copiada ― de textos anteriores.Diploma

Em civilizações mais evoluídas, não se brinca com esse tipo de coisa. Principalmente em países germânicos. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Angela Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira. Caso alguém tenha saltado esse capítulo, vale a pena ver de novo. Aqui.

Lembrei-me de um caso semelhante, ocorrido faz alguns anos em terra tupiniquim. Em julho de 2009, quando a atual presidente ainda era ministra, mas já bastante chegada ao então presidente, exatamente como sua confrade alemã, mentiras ― perdão! ― inverdades foram flagradas em seu currículo oficial, publicado aos quatro ventos pelo sistema Lattes.

Ok, ok, os casos não são idênticos. Enquanto a alemã apresentou tese plagiada, a brasileira, segundo se comprovou, não apresentou tese nenhuma. A seu favor, pode-se dizer que não copiou nada de ninguém.

A maior diferença, no entanto, foi o tratamento dado a cada caso. Frau Schavan foi demitida no ato, o que resultou em seu banimento ad vitam æternam da política e da vida acadêmica alemã. Será para sempre lembrada como fraudadora.

Nossa esperta ministra recebeu tratamento diferente. Declarou, sem corar, que tudo não passava de um erro de assessores ― sempre os outros! O currículo foi emendado, e pronto: ficou tudo por isso mesmo.

O resto, todos conhecemos. Guindada pelo aparelho mercadológico que a sustentava, foi ungida candidata ao posto maior do Executivo e… foi eleita. Currículo fraudado? Ora, que bobagem, ninguém se lembra mais disso.

Se você também se esqueceu, talvez goste de dar uma vista d’olhos por aqui.

Pois é, caros amigos. Tudo é relativo. Até a noção de honra.

Tsunami urbano

José Horta Manzano

Tsunami é uma imensa vaga oceânica provocada por um tremor de terra, geralmente submarino. Chega a atingir altura de 30m ou 40m. Nada lhe pode resistir, nem central atômica.

Rua Frederico Steidel - fev° 2013Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Rua Frederico Steidel – fev° 2013
Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Queda de meteorito é outro fenômeno natural contra o qual pouco ou nada se pode fazer. O rochedo vaga pelo universo até que resolve cair em algum lugar. O risco de despencar em terra habitada é pouco, embora às vezes aconteça, como na Rússia, semana passada.

Diferentemente de fenômenos dos quais não podemos escapar, há aqueles que, se não podem ser banidos, podem, sim, ser controlados ou contornados. Enchentes e alagamentos fazem parte dessa categoria.

O clima do Sudeste do Brasil é subtropical chuvoso. Do sul da Bahia a Santa Catarina, chove. E cai muita água, geralmente concentrada em certos períodos do ano. Esse regime não começou na semana passada, já vigora faz alguns milhões de anos.

A natureza é sábia. Para muita chuva, muitos drenos. À diferença de outras partes do planeta, onde o clima é mais árido, nosso território é densamente provido de drenos naturais. São fios d’água, tanques, ribeirões, riachos, rios.

Os primeiros habitantes destas terras, aqueles que, por um engano histórico-geográfico, chamamos até hoje de «índios», bobos não eram. Jamais se estabeleceriam em zonas periodicamente inundáveis.

Região da Frederico Steidel - 1895

Região da Frederico Steidel – 1895

Região da Frederico Steidel - 2013

Região da Frederico Steidel – 2013

Durante os primeiros quatro séculos de ocupação das novas terras, o homem branco respeitou a sabedoria dos indígenas. Na cidade de São Paulo, até fins do século XIX, não viria à cabeça de ninguém urbanizar charcos ou zonas alagadiças. Sabiam que, se o fizessem, estariam garantindo problemas para o futuro.

De repente, sabe-se lá se terá sido por ignorância ou por cupidez ― provavelmente pela conjunção dos dois fatores ―, o homem decidiu que era chegada a hora de domar a natureza. Ingenua mas arrogantemente, sentiu-se capacitado para a empreitada.

Alagadiços foram drenados, cursos d’água foram escondidos debaixo de ruas novas, riachos tiveram seus cursos alterados, tanques naturais foram desativados. Mas esqueceram de combinar com as chuvas. Estas, como de hábito, continuaram a cair, impassíveis e abundantes. Deu no que deu.

A maior metrópole do País, vitrina e orgulho do povo, traz na alma a intrepidez dos bandeirantes, mas… tem medo de chuva. Uma pancada mais forte, e o caos se instala.

Neste 19 de fevereiro foi a vez da Rua Frederico Steidel, no centro da cidade, a um passo do Minhocão, a dois do Largo do Arouche, a três da Praça da República. E olhe que não foi aguinha de molhar a sola do sapato, não. Enchente de submergir motor de automóvel!

De onde vem esse problema recorrente? Pouco mais de um século atrás, como registra a planta da cidade publicada por Hugo Bonvicini em 1895, o arruamento da região ainda não estava terminado. Um riacho natural de escoamento das águas da Praça da República e de Higienópolis estava no meio do caminho. Estorvava. A municipalidade autorizou que se enterrasse o fio d’água. Por cima, abriu-se a Rua Frederico Steidel. A comparação da planta de 1895 com as imagens de 2013 mostra que a rua inundada ainda não existia 120 anos atrás.

Nos primeiros anos, o tubo dentro do qual o riacho foi aprisionado deu conta do recado. O crescimento selvagem da cidade, no entanto, provocou crescente impermeabilização do solo. As chuvas continuam caindo. Sem ter por onde se infiltrar, as águas respeitam a lei da gravidade: escorrem sempre pelos mesmos caminhos, estejam eles arruados ou não.

Buraco do Adhemar - 1967

Buraco do Adhemar – 1967

Pode-se encontrar paliativo para a situação. Se o problema das enchentes do Vale do Anhangabaú foi resolvido, não há por que deixar outras regiões ao deus-dará. É verdade que dá menos visibilidade política, mas melhorar a qualidade de vida de seus governados faz parte da tarefa de prefeitos e de governadores. Moradores das regiões descuradas também são eleitores.

Ninguém faz milagres, nem São Pedro.

O cantor das multidões

José Horta Manzano

Os mais jovens hão de me perdoar. Que é que se há de fazer? Cada um tem sua história, cada um se lembra daquilo que conheceu, cada um tem seus ídolos.

Se um dia eu lhes falar de Noel Rosa ou de Chiquinha Gonzaga, estarei relatando o que li ou o que ouvi dizer. Não fomos contemporâneos neste vale de lágrimas. Assim como meu sobrinho nascido em 2012 ― tenho um, não é figura de expressão ― aprenderá pelas coletâneas de músicas antigas quem foi Roberto Carlos ou o que cantava Beyoncé. Assim é a vida.

Eliete Negreiros escreveu um belo artigo publicado no dia 15 de fevereiro na Revista Piauí. Traz algumas pinceladas de Orlando Silva (1915-1978). Aquele que um dia foi o cantor das multidões teve uma existência de altos e baixos. Quem quiser conferir, que faça uma visita por aqui.

Não se pode dizer que Orlando fosse um deus de beleza, não era nenhum Apolo. Sua estrela começou a brilhar, como a de tantos outros, no rastro de um encontro fortuito, obra do acaso. Não tivesse havido aquele vis-à-vis com Chico Alves ― o inconteste rei da voz ―, jamais o jovem teria sido projetado no cenário musical brasileiro. Ele trazia um único predicado: sua voz. Melodiosa, afinadíssima, potente, um tiquinho anasalada, inimitável.

Para Chico, o indiscutível rei da época, 17 anos mais velho, o modesto novato despontava como uma promessa de continuidade. Não lhe pareceu ― como nunca foi ― um concorrente ou uma ameaça. Dizem que Francisco Alves, inteligente e arguto, era pessoa muito generosa.

Orlando teve uma fase de ouro fértil e festejada, mas, infelizmente, demasiado curta para alguém de tamanho talento. Não durou mais que uns dois ou três anos, nos idos de 1937, 1938. Minha mãe contava que chegou a presenciar alguma de suas apresentações. Na época, o espetáculo ocorria ao vivo, no superlotado auditório da Rádio Record, rua Quintino Bocaiúva esquina com rua Direita, em São Paulo ― o prédio ainda está lá. Ao final, as mocinhas sacavam tesouras de suas bolsas e se acotovelavam para cortar um pedaço da gravata do artista. Queriam levar para casa uma relíquia, um troféu.

O desastre de que o cantor foi vítima, relatado no artigo de Eliete, obrigou-o a longo tempo de hospitalização, quando recebeu doses de morfina para alívio das dores. O medicamento cavalar amenizou-lhe os sofrimentos, mas desgraçou-lhe a existência.

Orlando Silva - 1960    Crédito: jhm

Orlando Silva – 1960
Crédito: jhm

Como todos os opiáceos, a potente morfina induz à adição. Nosso desventurado Orlando Silva desceu aos abismos da dependência. O entorpecente, alidado ao consumo de bebidas alcoólicas, afastou o cantor de seu público. O ostracismo durou mais de uma dúzia de anos.

Quando Orlando tentou uma volta à ribalta, muito tempo havia passado, já estávamos nos anos 50. A valsa tinha saído de moda e o samba-canção começava a ocupar lugar na preferência dos ouvintes, já prenunciando a bossa-nova.

A voz do cantor também já não era a mesma. Não que tivesse envelhecido, não tinha ainda 40 anos de idade, mas o lampejo cristalino da juventude havia desaparecido.

Por teimosia, ou mais provavelmente por necessidade, Orlando persistiu. Gravou ainda alguns discos, mas as mocinhas já não disputavam retalhos de sua gravata.

Por mero acaso, tive ocasião de vê-lo pessoalmente, numa viagem que fizemos juntos num ônibus da Cometa, de Águas da Prata a São Paulo. Foi de relance, em janeiro de 1960. Munido de minha máquina fotográfica caixotinho, como se usava na época, tirei uma foto do cantor através do vidro. Estávamos esperando pela partida do coletivo. Foi de novo minha mãe quem exclamou: «Olha, aquele é o Orlando Silva!».

Na época, eu estava mais interessado em Ray Charles e Chubby Checker, mas assim mesmo bati a chapa. Saiu meio desajeitada, meio desfocada, mas fiz questão de inseri-la aqui no artigo.

Orlando Silva não estava mais portando gravata, que a moda tinha passado. Ainda que estivesse, já fazia tempo que as gentes haviam esquecido o cantor das multidões. Não foi senão muitos anos mais tarde que aprendi a conhecer e a apreciar sua arte.

Como costumava dizer minha avó:

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre.

Fofocas impróprias

José Horta Manzano

O nome antigo era mexerico. Lá pelos anos 60, a revista semanal O Cruzeiro, então a mais importante do País ― é verdade que não havia muitas ―, lançou uma secção humorística.

Já havia páginas de humor antes disso, naturalmente. Ninguém perdia o Pif-Paf, de Millor Fernandes, com seu humor característico, suas máximas e seu traço naïf. O Amigo da Onça, sempre estampado na última página, assinado pelo pernambucano Péricles Maranhão, fez tremendo sucesso durante duas décadas. Muita gente não resistia e começava a leitura da revista pela última página só para ver logo a mais recente malvadeza do pitoresco personagem.Amigo da onça

A novidade de 1963 foram as Fotofofocas baseadas em fotografias reais. Mexiam com políticos e com gente conhecida. O humor não estava nas fotos, mas nos dizeres fantasistas que os humoristas inventavam e metiam nas bolhas. Naturalmente, os diálogos não tinham nada que ver com a realidade, mas o efeito podia ser engraçadíssimo.

O neologismo fez tanto sucesso que entrou nos dicionários. O Houaiss indica que o termo fofoca foi imortalizado já a partir de meados dos anos 70.

O tempo passou, O Cruzeiro desapareceu, a tevê se popularizou. Com isso, as fotofofocas acabaram relegadas ao esquecimento que costumamos reservar a tudo aquilo que sai de moda.

Um dia, surgiu o telefone de bolso, também chamado de celular. No começo era um tijolão que dava boa impressão, dava status, dava cartaz, dava importância, mas… raramente dava linha.

Mais alguns anos se passaram, internet se popularizou e, um belo dia, alguém teve a ideia de conjugar funções múltiplas num só aparelho. A situação atual, todos vocês conhecem. Um telefonezinho minúsculo permite falar, ouvir, ver, transmitir dados, guardar zilhões de coisas na memória, tuitar, despertar dorminhocos, e mais 1001 utilidades. As redes ditas «sociais» dão a seus usuários a possibilidade de fofocar a qualquer hora do dia ou da noite.

Assim como não há ida sem volta, nenhuma ação fica sem reação. Há limite para tudo. O erro de um não pode servir de justificativa para o erro de um outro. Os novos fofoqueiros nem sempre se dão conta dessas verdades velhas, mas inexoráveis.

Reportagem do Correio Braziliense do dia 15 de fevereiro nos dá conta de que duas jovens foram demitidas logo após haverem surpreendido um rato no prédio da oficina gráfica do Senado da República, onde cumpriam seu estágio. Seu crime? Fotografaram o bicho morto e postaram em suas respectivas contas facebook. Até aí, poderiam ter sido acusadas de indiscrição, de comportamento pouco elegante, mas ninguém é obrigado a ter gostos requintados.

O problema maior é que a foto difundida para o planeta estava acompanhada de comentário desairoso em que o presidente da Casa era comparado ao roedor. Foi aí que a porca torceu o rabo.

Que não me compreendam mal: não morro de amores pelo senhor Calheiros, não o conheço nem de elevador, não pretendo arrumar uma boquinha em nenhum de seus protetorados. O ensinamento que gostaria de extrair deste episódio é outro.

Na verdade, o que me deixa boquiaberto é o fato de as jovens ― certamente por ingenuidade própria da pouca idade ― terem ousado injuriar publicamente seu próprio patrão.

Quem é, como eu, do tempo em que aluno se punha de pé assim que o professor entrava em classe, e só se sentava quando lhe davam autorização, fica abismado com o desdém que as estagiárias mostraram. Descancar o presidente da própria Casa onde se trabalha! E difundir grande piada a um número de leitores potenciais que O Cruzeiro jamais sonhou atingir!Bolha cartum 1

Uma coisa é não concordar com decisões do Senado e de seus componentes. Nesse ponto, estamos todos de acordo. E o remédio é um só: votar bem. Outra coisa é comparar seu próprio patrão a um rato. Certos comentários podem ser feitos numa roda de amigos, não numa rede social de alcance mundial. É impertinente e cai mal.

Isso já não é fofoca, é mexerico de cortiço. Berrado num megafone.

O site do Senado Federal dá a informação in extenso. Aqui.

A demissão parental

José Horta Manzano

Não, caros e fieis leitores, não é da demissão do papa que pretendo falar hoje. É de uma abdicação menos midiática, mas não menos inquietante. Assim mesmo, não dá para fugir da atualidade: o chefe da Igreja passa raspando pelas linhas que vêm a seguir.

Em reportagem publicada na edição online de 16 de fevereiro, a Folha de São Paulo nos informa que crianças não sabem o que faz um papa. Há até os que torcem para que o próximo seja… corintiano.

Até aí, nada demais. Eu também não sei exatamente o que faz o sultão de Omã ou o xamã de uma tribo da Sibéria oriental. São figuras distantes de nosso dia a dia, das quais não ouvimos falar praticamente nunca.

Acontece que a reportagem se baseia em relato de crianças e pré-adolescentes que estudam em colégio religioso, sob a orientação de eclesiásticos. No meu tempo, ser mandado para um colégio de padres era ameaça feita a crianças desobedientes, tal o pavor que essa ideia nos infundia. Mas estou divagando.Teologia

O que me deixa surpreso e preocupado é a demissão parental. Que diabo é isso? Refiro-me ao fato de, ao matricularem seus filhos na escola, os pais confiarem cegamente a outrem a formação dos rebentos. Na certa não se dão conta de que, ao fazer isso, estão abdicando da função de coeducadores que lhes cabe. A escola vai dispensar ao aluno não somente o ensino formal, mas vai também encharcá-lo com valores que não são necessariamente os de sua família.

Pais que escolhem um colégio de padres para o filho mostram duas particularidades: a primeira é que dispõem de meios suficientes para custear os estudos do pequerrucho; a segunda é que consideram importante que a formação escolar do herdeiro seja completada por formação religiosa.

O que me inquieta é constatar que, ao entregar o filho à escola, os pais ― que não hão de ser ignorantões ― lavam as mãos e se desinteressam pelo ensino que o colégio possa estar dispensando. Abdicam de suas funções. A escola que se encarregue de ministrar ao guri a noção de céu, de inferno e de seus intermediários. Se esta não o fizer ― como sugere a reportagem da Folha―, formará alunos ansiosos para que o papa seja corintiano.

Que um aluno de colégio de padres nunca tenha ouvido falar do papa ― e que, ingenuamente, até se alegre que o próximo torça para seu time de futebol ― é sintoma preocupante. Falha a escola, mas falham principalmente os pais. Aquela não ensina o que devia, enquanto estes últimos não aferem o que está sendo ensinado.

O infográfico inserido na reportagem, então, é cômico. Diz que a segurança do Vaticano é garantida pela Guarda Suíça, cujos recrutas «vestem uma roupa esquisita» (sic). E pára por aí, sem explicar a razão da vestimenta anacrônica. Evidentemente, quando não se sabe, fica complicado ensinar. O artigo diz ainda que a palavra papa é uma sigla. Não é. Uma rápida consulta aos dicionários que qualquer repórter tem à mão teria evitado proferir tamanha enormidade.

Como se vê, os colégios de padres acompanham a degringolada da Instrução no Brasil. E a demissão parental só faz piorar o quadro.

E a gente quase acreditou…

José Horta Manzano

Quando o antigo presidente da República impôs à massa sua sucessora, apresentando-a como perita em economia, voluntariosa, firme, visionária, tocadora de obras, uma luzinha de esperança se acendeRessacau. Luz fraquinha, é verdade, mas parecia apontar para o fim do túnel. Passaram-se dois anos.

Em seu artigo deste sábado 16 de fevereiro, o jornalista Rolf Kuntz deitou no papel palavras duras. Mas, infelizmente, verdadeiras. A quem interessar possa, aconselho uma vista d’olhos no texto claro e lúcido. Está aqui.

Mas não nos desanimemos, brava gente, que vem aí a Copa 2014! Será melhor que um Carnaval! Duro mesmo vai ser enfrentar a ressaca da Quarta-feira de Cinzas que se seguirá. Periga ser pesada.

E a coisa continua!

José Horta Manzano

A finalidade principal deste blogue não é, definitivamente, tratar de assuntos de religião. Especular sobre o resultado da escolha que os cardeais farão no próximo conclave seria como dar palpite em briga alheia.

Mitra 2.Parece que nem todo o mundo pensa como eu. Alguns continuam imaginando que o próximo papa tem de estar sintonizado com a situação declinante do catolicismo no Brasil, que tem de levar em conta nossa situação «emergente», que não pode ignorar o fato de que concentramos o maior número de católicos declarados.

Aos que pensam assim, eu gostaria de dizer que:

1°) Ao assumir seu encargo, o papa ganha automaticamente a nacionalidade vaticana. Não há papa italiano, nem polonês, nem brasileiro, nem tadjique. São todos vaticanos. Ou vaticanenses, como preferirem. Os dicionaristas hesitam.

2°) O chefe supremo de uma Igreja não é escolhido necessariamente em função da comunidade mais numerosa entre as muitas que compõem seu rebanho. Pelo contrário. Se, no Brasil, a alternância e o contraditório tornaram-se noções fora de moda, continuam valendo em outras esferas e em outras partes do mundo.

3°) O papa não é o secretário-geral da Igreja Católica brasileira, mas o chefe supremo do catolicismo planetário. A população (que se diz) católica no Brasil, de 120 milhões de almas, não está muito à frente do número de fiéis americanos, filipinos, mexicanos.

4°) No Brasil, o número de pessoas que se declaram católicas vem decaindo dia após dia. O futuro papa pouco ou nada pode fazer contra essa debandada. Como também tem limitado poder contra a perseguição de cristãos na Índia, no Egito ou no Paquistão. Se os católicos abandonam a Igreja tradicional, não será por razões filosóficas nem teológicas. As causas do sangramento estão fora do alcance do poder papal.

.:oOo:.

Cabe à cúpula da Igreja decidir em que direção quer avançar e, coerentemente, escolher o chefe mais bem sintonizado com o programa.

Podemos até nos considerar «emergentes», visto que latifundiários tupiniquins vendem atualmente muita soja e muito minério de ferro aos chineses. Ainda assim, não chegou a hora de nos atrevermos a pressionar os grandes eleitores de cúpulas religiosas.

Conclave não é reunião de diretoria de ong. Não se está a eleger o síndico de um condomínio.

Segredo é pra quatro paredes

José Horta Manzano

Já faz um tempinho que se fala menos de Julian Assange, aquele que andou bisbilhotando mensagens confidenciais do governo americano e espalhando o resultado da façanha pela internet.

Muita gente aplaudiu. O homem foi, por um breve tempo, elevado à categoria de herói, uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, aquele que rouba segredos dos poderosos para distribui-los aos sem poder. Não é minha visão.

Mala diplomática 1Um bonito samba-canção de Herivelto Martins e Marino Pinto que Dalva de Oliveira gravou em 1947 (*) dizia justamente que «segredo é para quatro paredes». Naqueles tempos recuados, as paredes já tinham ouvidos, mas o som não ia muito além do quarto ao lado. O pior que podia acontecer é que algum maldizente espalhasse a fofoca pela vizinhança. Hoje não é mais assim.

A internet e os novos meios de difusão da informação abriram caminhos que nós, pioneiros, estamos ainda longe de conceber aonde vão levar. Hoje em dia, um sussurro emitido em Singapura será ouvido instantaneamente em Sydney, em Helsinque e até em Ushuaia. Quem joga informações na rede deve estar bem consciente dessa nova realidade. E o senhor Assange certamente estava quando decidiu divulgar dados obtidos por meios fraudulentos.

Na primeira metade dos anos sessenta, foi assinada a Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas. É aceita por praticamente todos os países. Até Cuba e a Coreia do Norte são membros do clube. Entre outras determinações, a Convenção de Viena reitera e regulamenta o antigo princípio da mala diplomática.

Tradução portuguesa da expressão valise diplomatique, a mala chegou, realmente, a ser uma espécie de baú. Os países signatários da convenção comprometeram-se a deixá-la passar, sem violá-la e sem controlar seu conteúdo. O nome ficou, mas a mala, nos dias atuais, se desmaterializou.

Mensagens diplomáticas transitam agora por internet. A mudança de meio de transporte, no entanto, não invalidou o princípio da inviolabilidade do conteúdo. Violá-lo continua sendo um crime. Difundir por internet o produto do crime, a informação surrupiada, é duplamente repreensível.

Os tempos do faroeste passaram. As leis são feitas para serem obedecidas. A ninguém ― salvo, naturalmente, a alguns figurões brasileiros «especiais» ― é dado desobedecer a elas. Quem o fizer, terá de prestar conta de seus atos.Mala diplomática 2

O senhor Assange cometeu um ato de pirataria. C’est plus bête que méchant, diriam os franceses, está mais para tolice que para malvadeza. Seja como for, o ato foi leviano e deu pano pra mangas. Agora, para coroar, o pirata mostra que sua coragem só funcionava quando se sentia protegido por um biombo, perdão, por uma tela de computador. Desmascarado, exposto e procurado por polícias do mundo inteiro, amoita-se num cômodo acanhado da embaixada londrina de uma pequena República sulamericana.

Na entrevista que teve a fineza de conceder a um correspondente do Estadão, Assange fez questão de se apresentar fantasiado de jogador de futebol. Uniformizado como se fosse dos nossos. É receita certeira para embevecer muita gente. Veja aqui e aqui.

Plugado e conectado, o hóspede da exígua embaixada deve estar a par da acolhida peculiar que o governo brasileiro costuma dispensar a refugiados. Deve saber que, durante a Segunda Guerra, nossas representações diplomáticas estavam instruídas a negar visto de entrada a judeus. Deve saber também que o último grande bandido internacional extraditado pelo Brasil foi Tommaso Buscetta, um mafioso pentito (arrependido), faz 30 anos. Deve ter estudado tim-tim por tim-tim o caso Battisti.

Em resumo, sabe que não poderá ― nunca mais ― atravessar fronteiras e circular livremente. Se tiver a sorte de se safar da embaixada onde se encontra encurralado, imagino que trocará o apertado Equador(2) por um refúgio no espaçoso Brasil. À beira-mar, se possível.Mala diplomática 3

Nesse particular, não tem muito a temer: muito provavelmente será aceito. Talvez de braços não tão abertos, dado que seu crime não foi de sangue, mas, assim mesmo, lo recibiremos de corazón.

Seus feitos combinam com o clima de malandragem e de traição.

(1) Quem quiser recordar o samba-canção, siga por aqui.

(2) Quem quiser assistir a um pouso no aeroporto de Quito, clique aqui.

Mister Vatican

José Horta Manzano

Aprecio muito o estilo irreverente de Elio Gáspari. Mais que isso, estou, a maior parte do tempo, de acordo com o que ele diz. A prova é que mantenho, neste blogue, um link permanente para sua coluna da Folha de SP.

Mas ninguém é perfeito. Em seu artigo deste 13 de fevereiro ― Vem aí um conclave inesquecível Gáspari extrapola. Exprime seu amargor pelo que ressente como eurocentrismo do Vaticano. Reclama que grandes cidades de outros países vêm sendo privilegiadas com nomeação de novos cardeais, em detrimento de megalópoles brasileiras. Especula sobre as chances de este ou aquele país ser premiado com a eventual promoção de um de seus cardeais ao cargo de papa. Não passa longe de propor um sistema de quotas, tantos cardeais para países evoluídos, tantos para os subdesenvolvidos.

MitraNosso caro Elio não é o único a misturar no mesmo tacho uma instituição religiosa com orgulho nacional. Muitos outros jornalistas andam enveredando pelo mesmo caminho. Quem será o próximo? Um africano? A América Latina tem chances? A Europa está sobrerrepresentada no colégio cardinalício! Não se dão conta de que não se está a escolher entre países nem entre raças, mas entre personalidades.

Para mim, essas observações são impertinentes e intempestivas. Não estamos tratando de Copa do Mundo nem de concurso de Miss Universo. Esta não é uma disputa entre países. Não haverá ― ou não deveria haver ― ganhadores nem perdedores. O próximo ocupante do trono de São Pedro não deverá ser louvado ― tampouco estigmatizado ― por sua nacionalidade, pela cor de sua pele, por sua língua materna. Nem por torcer por este ou por aquele time de críquete.

Todos nos apercebemos de que o catolicismo vive uma época difícil. Faz alguns séculos, nos tempos em que a Igreja conjugava o domínio das mentes com o poder temporal, não havia discordância. Nem podia haver, que não era tolerada.

Mas os tempos mudam. Aos poucos, a rachadura que havia entre preceitos religiosos e comportamento civil foi-se alargando até chegar ao fosso que ressentimos hoje. Não há de ser fácil exercer a função de chefe espiritual de um rebanho que, a cada dia, mais se distancia da espiritualidade.

Cada cardeal votará naquele que melhor representar sua visão pessoal da Igreja. Cada um de nós é livre de dar sua opinião ou seu palpite. Mas não me parece que estejamos assistindo a um certame entre países ou entre cores de pele. A personalidade de cada postulante é o que conta.

Seja quem for o eleito, terá um caminho pedregoso pela frente. E será cobrado por suas decisões, isso é certeza.

On ne peut pas plaire à tout le monde, não se pode agradar a gregos e a troianos.

Carnaval na Quaresma

José Horta Manzano

Você sabia?

Para nós, acostumados à tradição brasileira, Carnaval é a festa maior. Suplanta São João, dia das Mães e até o Natal. Mas, como tudo o que é bom ― para quem gosta, naturalmente ―, dura pouco. Na Quarta-feira de Cinzas está tudo acabado. Não sei se ainda se usa fazer uma visita à igreja para «tomar as cinzas», um jeito de pedir perdão pelos excessos cometidos.

Você gostaria de dar uma esticadinha, mas não pode porque já estamos na Quaresma, tempo de penitência. São coisas da vida. Mas… Drummond já havia constatado que o mundo é vasto. Que você se chame Raimundo ou não, e se quiser mesmo, vai sempre encontrar um jeitinho de espichar a folia.

Por razões históricas ou simplesmente por respeito a pactos de não concorrência, nem todas as metrópoles, cidades e vilarejos do vasto mundo festejam o Carnaval ao mesmo tempo. Na Suíça, cada cidade é livre de marcar a data que melhor lhe aprouver.

Quem tiver realmente vontade de encompridar a festa, que tome nota dos carnavais que ainda estão programados para este ano. Pode ir reservando sua passagem. Mas faça rápido, porque já estão para começar.

Vai aqui abaixo um florilégio de carnavais suíços. Não se esqueça de que, em alemão, Carnaval é Fasnacht:Carnaval Basel

Carnaval de Moudon
(Chamado Brandons)
de 28 fevereiro a 3 de março

Carnaval de Payerne
(Chamado Brandons)
de 15 fevereiro a 18 de março

Carnaval de La Chaux de Fonds
dias 13 e 16 de março

Carnaval de Basiléia
Este é considerado o mais importante carnaval suíço
Estende-se por todo o mês de fevereiro, com ponto alto dia 18

Carnaval de Berna
de 14 a 16 de fevereiro

Carnaval de Biel/Bienne
de 13 a 17 de fevereiro

Carnaval de Lucerna
Este é bem esticado. Vai de 18 janeiro a 15 fevereiro

Carnaval de Sainte-Croix
de 15 fevereiro a 17 março

Carnaval de Winterthur
de 14 a 16 de fevereiro

Basler Fasnacht Guggemusiker

Para quem prefere a França ― eta país chique ―, fica aqui a informação sobre o carnaval mais famoso:

Carnaval de Nice
de 15 fevereiro a 6 março

Importante: Seja qual for seu destino, esqueça o fio dental, a manga curta e o umbigo de fora. Nesta época, faz um frio do cão. Agasalhe-se bem!

NOTA: Debaixo de cada nome de cidade, há um link para o site oficial dos respectivos festejos.

Habebimus novum papam! (*)

José Horta Manzano

Clemente IV ― papa francês nascido em Nîmes ― faleceu em 1271. Como de costume, os cardeais se reuniram para escolher um sucessor. As deliberações se eternizavam. Passavam-se as semanas, os meses, e nada de decisão. Os cardeais eleitores continuavam a reunir-se, a discutir, a pelejar, sem conseguir chegar a um acordo.

Depois de 3 anos (três anos!), o segundo escalão da Igreja e também os fiéis já não aguentavam mais. Parecia brincadeira! Alguém teve então a astuciosa ideia de trancar o colegiado de cardeais numa sala e proibi-los de sair enquanto não tivessem chegado a um acordo sobre o sucessor do papa Clemente.

A palavra conclave, que chegou até nossos dias, tem origem exatamente nesse episódio digno do parlamento de certas repúblicas de bananas. A expressão latina cum clave quer dizer, literalmente, com chave. Ficaram Suas Eminências trancados à chave. E alimentados a pão e água.Chave

Foi medida eficaz: em brevíssimo tempo, o italiano Tebaldo Visconti foi eleito por seus pares. Adotou o nome de Gregório X e reinou até falecer, uns 5 anos mais tarde.

Por determinação do próprio Gregório, a tradição foi mantida e permanece até nossos dias: chegada a hora de escolher o novo chefe da Igreja Católica, os cardeais são simbolicamente trancados numa sala do Vaticano. O magro regime de pão e água, por demasiado espartano, foi atenuado. Hoje são servidas refeições normais. Talvez por receio de voltar à antiga dieta, os eleitores nunca mais deixaram que as discussões durassem tanto tempo.

Um novo conclave está para ser convocado, questão de poucas semanas. Vista a idade provecta de muitos dos participantes, o cardápio dificilmente incluirá feijoada, torresmo pururuca ou salada de pepino. Um franguinho ou um peixe grelhado serão provavelmente servidos. Peixe será mais adequado, dado que os debates cairão em plena Quaresma.

Subitamente, muita gente descobriu uma repentina vocação para vaticanista. Cada um vem com sua análise. Uns falam de complô, de conspiração, de golpe de estado. Outros lamentam o que consideram decisão abrupta, repentina e incompreensível do atual ocupante do trono de São Pedro. Há mesmo quem evoque pressões políticas, como se vivêssemos ainda no tempo dos Habsburgos. Li até artigos que especulam sobre intrigas palacianas, como se os Borgias ainda reinassem.

Na minha humilde opinião, a realidade é bem menos complexa. As explicações mais simples são às vezes as mais difíceis de encontrar. Os dois mais recentes papas foram os primeiros não italianos a ocupar o cume da hierarquia no último meio milênio. O mundo havia-se acostumado ao comportamento de personalidades italianas. O arrebatamento e a paixão são componentes essenciais da alma latina. Todo aquele que “chegou lá” pisa até no pescoço da mãe, como se diz maldosamente, para manter seu poder, sua visibilidade e seus privilégios.

O dignitário que antecedeu Bento XVI, embora não fosse italiano, era dono de personalidade pra lá de especial. Não cabe aqui discutir as razões que o terão levado a agarrar-se ao cargo até o último suspiro.

Já nosso simpático Joseph Alois Ratzinger ― sorridente, de olhos vivos e andar saltitante ― é, antes de tudo, um teutônico típico. Alemães, suíços, austríacos, holandeses e outros povos do espaço germânico carregam certos traços comuns. Um dos mais marcantes é a visão realista. Para eles, o ofício que exercem, antes de ser uma missão, é um trabalho, uma obrigação. Não costumam considerar-se insubstituíveis. Encaram a alternância e a sucessão como coisas naturais da vida, bem longe de nossa visão messiânica.

No meu entender, a decisão tomada por Bento XVI se inscreve nessa lógica. A partir do momento em que não me sinto mais à altura de exercer minhas funções, abdico e deixo que alguém em melhores condições tome meu lugar. Sem mágoas.

O papa tomou uma decisão de bom senso. Mostrou desapego. Deu a prova de que não se considera ungido pelo Altíssimo para flutuar acima do bem e do mal.

Pode-se discutir sobre os caminhos que preconizou para seu rebanho. Uns dirão que era retrógrado, conservador, inflexível. Outros replicarão que deu os pequenos passos que podia dar, sem pretender forçar suas ovelhas a uma guinada demasiado brusca.

A verdade é que cumpriu seu mandato. Chegou a um ponto em que a saúde não lhe permite ir além. Na impossibilidade de transmitir suas responsabilidades a um parente, um suplente, um vice ou um irmão ― como sói acontecer em certos lugares que conhecemos bem ― simplesmente apresentou sua demissão e vai-se embora.

Tomara certos dinossauros de nossa maltratada República seguissem seu exemplo.

(*) Teremos novo papa!

Bruzundanga

José Horta ManzanoPapagaio

“Não há na História republicana nenhum caso de um presidente que em dois anos de mandato tenha sido obrigado a demitir tantos ministros acusados de atos lesivos ao interesse público.”

Este é um trecho do artigo assinado pelo professor Marco Antonio Villa, publicado no Estadão online deste 11 de fevereiro. Imperdível. Quem quiser conferir, que clique aqui.

São Valentim

José Horta Manzano

Você sabia?

Em muitos lugares do mundo, no dia 14 de fevereiro se festeja São Valentim, o patrono dos namorados. Que caia numa segunda-feira, numa quinta, num domingo, ou em qualquer outro dia da semana, é festa fixa, será comemorada sempre naquele mesmo dia.

Os franceses e outros europeus não apreciam muito que se diga, mas, segundo vários pesquisadores, a festa de São Valentim é de origem inglesa. Poderia ser alemã, russa ou chinesa, mas parece que é britânica mesmo, desde a Idade Média, que é que se há de fazer?

Alguns autores consideram que o «Valentine‘s day» é o que os romanos chamavam Lupercale, festival dedicado a Lupercus, deus da fertilidade. A demonstração cabal não foi feita, mas faz sentido.

Como sabem todos os meus eruditos leitores, a crueza do inverno no hemisfério norte aperta justamente na virada do ano, dezembro, janeiro, fevereiro, por aí. Diferentemente do Brasil, as diferenças de temperatura e de paisagem são muito marcantes por aqui. A partir de novembro, a temperatura começa a cair, o sol se faz raro, amanhece mais tarde e anoitece bem cedo, as árvores perdem as folhas, os pássaros desaparecem, um lençol branco de neve recobre frequentemente a terra.

Hoje em dia ― é coisa recente, de algumas dezenas de anos para cá ― temos casas aquecidas, máquinas para tirar a neve dos caminhos e das estradas, até rampas de saída de garagem com aquecimento no chão para evitar a formação de gelo. Luxos inimagináveis até há bem pouco tempo. Já houve até quem dissesse que a luz elétrica revogou a noite. Um exagero, certamente. Se bem que…Coração

Reza a tradição que, em meados de fevereiro, quando os dias começam a se alongar, os passarinhos nidificam. Antes disso, naturalmente têm de formar pares, que nenhum pássaro constrói ninho individual. Então, começa aquela cantoria, uns piam, alguns gralham, outros cantam melodias surpreendentes. Tudo isso para seduzir uma parceira. É o que chamamos a «estação dos amores», a vida que renasce.

Faz séculos que os ingleses festejam seu Valentine’s day. No princípio, era uma festa do tipo «liberou geral». Ô, mentes sujas, não é necessariamente o que estão pensando! Era um dia em que os rapazes tímidos se sentiam liberados para declarar sua paixão pela amada. Um bilhetinho, um recado, um sorriso, qualquer um desses sinais valia declaração. Só isso.

Até 40 ou 50 anos atrás,  a festa ainda não representava oportunidade comercial na Europa. Foi a partir dos anos 60 ou 70 que os comerciantes começaram a enxergar aí uma excelente ocasião para aumentar seu movimento. Ainda estes dias ouvi uma entrevista gravada em 1962 com uma florista parisiense. O repórter perguntava se seus negócios aumentavam com a aproximação do dia 14. A resposta foi um «não» redondo ― para ela, não mudava nada.

Hoje muda. E muito. Nos dias que antecedem a festa, as vendas de flores, de chocolates, de joias, de tudo o que possa servir aos que querem declarar seu amor aumentam consideravelmente. E tem mais. Se, antigamente, a ocasião era aproveitada unicamente pelos que queriam se declarar, hoje vale também para os que querem confirmar seus sentimentos pela pessoa amada. Jovens, maduros e velhinhos trocam presentinhos. Os comerciantes aplaudem de pé.

Quanto à origem do santo, do Valentim propriamente dito, a controvérsia é inextricável. Há pelo menos sete versões diferentes. Ele teria existido, não teria existido, seria um mártir, teria morrido de morte natural, seria um eremita, seria um camponês beato. No fundo, hoje em dia, poucos estão preocupados em saber quem foi o santo que emprestou seu nome ao dia.

Não é impossível que nunca tenha existido, que seja apenas uma lenda. Valentim é descendente direto do latino valere, que também deu valor, valente e valioso. O renascer primaveril é vigoroso, vem cheio de promessas. Para quem atravessou o inverno ― frio, longo e desnudado ― tem muito valor.

Objetos e decorações em forma de coração podem não ser tão valiosos, mas são onipresentes por esta época. Aos namorados que apreciam a paz, é recomendado que, por nada deste mundo, esqueçam de comprar uma lembrancinha para a amada.

Duas histórias para pensar em casa

José Horta Manzano

Primeira história
O jovem Alcebiades é um bom rapaz, sorridente, generoso, sempre pronto para dar uma mão a quem precisa. Seu defeito maior é vestir-se como gosta, apresentar-se ao mundo como lhe dá na telha. Não dá muita bola paCrete rouge 2ra o que os outros vão pensar. Ele é assim, uai.

Um dia, resolveu mandar rapar a cabeça nas laterais, deixando apenas uma faixa de cabelo da testa até a nuca. Pintou a crista de vermelho e modelou-a com gel ― parece que está na moda. Mandou fazer alguns piercings entre sobrancelhas, orelhas e lábios. Sem esquecer da língua, naturalmente.

Cebide, como é conhecido, gosta de contacto com gente e resolveu candidatar-se a um emprego de atendimento ao público. Currículo para lá, telefonema para cá, tudo correu bem. Foi chamado para entrevista.

Para se apresentar pessoalmente, Cebide achou que uma boa camada de sombra em torno dos olhos lhe daria um ar mais sério. Vestiu-se de negro dos pés à cabeça e foi. Não conseguiu passar da portaria da firma, o coitado. Foi barrado pelo segurança. Teimou, garantiu que tinha entrevista marcada. O leão de chácara foi-se informar e, meio a contragosto, deixou-o passar.

A moça da recepção mandou-o sentar-Crete rouge 1se numa salinha acanhada, lá no fundo do corredor. Depois de uma boa meia hora de espera, ela voltou para avisar que, infelizmente, o selecionador tinha tido um imprevisto e não ia poder recebê-lo. Cebide foi-se embora desenxabido e nunca mais conseguiu marcar outra entrevista lá.

Nosso amigo chegou até a desconfiar que a recusa pudesse ter sido causada por sua aparência física. As pessoas são preconceituosas, sacumé, não conseguem imaginar que há coisa boa por detrás de uma aparência surpreendente. Mas resolveu deixar pra lá. Achou que não valia a pena, que a vida é assim mesmo. Da próxima vez, havia de dar certo.

.:oOo:.

Segunda história
Um casal de classe média alta, já de idade madura, tinha muita vontade de ter um filho pequeno. Por algum motivo, tomaram a decisão de adotar. O destino é insondável. Os dois, brancos, tornaram-se pais adotivos de um menininho de pele negra. A história não registrou detalhes, mas é de crer que os três viviam felizes.inter-racial adoption

Um dia, foram visitar uma concessionária de automóveis importados da Alemanha, daqueles potentes, raçudos, de forte cilindrada. Coisa que não está ao alcance de qualquer mortal. Levaram o menino junto.

A um dado momento, enquanto o casal se preparava a entreter-se com o gerente da loja, o filho afastou-se alguns metros. O dirigente não se deu conta de que os três estavam juntos. Ao ver um menino pequeno e negro dentro de uma concessionária daquele porte, tomou-o por um intruso e não teve dúvida: fez que fosse enxotado.

Chocados, os pais julgaram que o acontecido não podia ficar por isso mesmo. Passando por cima do gerente, endereçaram uma reclamação diretamente à diretoria do grupo automobilístico. E não pararam por aí: criaram uma página numa dessas redes sociais para dar publicidade ao episódio. Só não deram queixa à polícia. Por enquanto.

.:oOo:.

Epílogo
A primeira história é totalmente inventada. Caso se assemelhe a algum fato real, terá sido mera coincidência. Já a segunda é verídica. Pode ser conferida no artigo publicado pela Folha de São Paulo faz pouco mais de duas semanas.Adotado 2

Parece-me interessante traçar um paralelo entre esses dois fatos que põem em evidência casos de gente bruscamente descartada com base na aparência externa. Surgem muitas perguntas , mas, infelizmente, poucas respostas.

O Cebide ficou quieto, enquanto o casal estrilou. Por que essa diferença de reação? Será porque o primeiro é pobrezinho enquanto os outros estão bem de vida? Será porque o preconceito que vitimou o casal foi classificado como racial, ao passo que o que prejudicou o Cebide foi apenas facial? Se o menininho enxotado não fosse filho do casal branco, será que teria tido direito a página de desagravo no facebook? Se o Cebide fosse um figurão, será que teria sido tratado com a mesma sem-cerimônia?

A rejeição ao diferente é inerente a todo ser vivente. É síndrome ancestral. As leis de quotas raciais que se propagam hoje em dia perigam maquiar o problema sem resolvê-lo. Pelo contrário, o risco é de que venham a azedar ânimos e a criar uma vala entre “os de cá” e “os de lá”. Em resumo: o resultado pode ser exatamente o oposto do que se pretendia.

Quando várias comunidades, sejam elas étnicas ou raciais, são obrigadas a conviver, enorme cuidado tem de ser tomado antes de votar leis que favoreçam uns em detrimento de outros. No Brasil, esse assunto tem sido tratado com leviandade.

.:oOo:.

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 2a. parte

José Horta Manzano

Agradeço aos estoicos que se esforçaram em ler o post de ontem. Não é à toa que justamente aqueles que residem fora do País formaram a maioria. Hão de estar menos envolvidos pelo grande evento carnavalesco.

Quero lhes contar como é o Carnaval por aqui, mas hoje não dá tempo. Fica para a próxima.

Para este ‘sábado de folia’, mais algumas pérolas.

Não entendo 2
From a brochure of a car rental firm in Tokyo:
When passenger of foot heave in sight, tootle the horn. Trumpet him melodiously at first, but if he still obstacles your passage then tootle him with vigor.

In an advertisement by a Hong Kong dentist:
Teeth extracted by the latest methodists.

A translated sentence from a Russian chess book:
A lot of water has been passed under the bridge since this variation has been played.

In a Rome laundry:
Ladies, leave your clothes here and spend the afternoon having a good time.

In a Slovakian tourist agency:
Take one of our horse-driven city tours – we guarantee no miscarriages.

Advertisement for donkey rides in Thailand:
Would you like to ride on your own ass?

On the faucet in a Finnish washroom:
To stop the drip, turn cock to right.

In the window of a Swedish furrier:
Fur coats made for ladies from their own skin.

On the box of a clockwork toy made in China:
Guaranteed to work throughout its useful life.

Detour sign in Kyushi, Japan:
STOP. Drive sideways.

In a Swiss mountain inn:
Special today ― No ice cream.

In a Bangkok temple:
It is forbidden to enter a woman even a foreigner if dressed as a man.

In a Tokyo bar:
Special cocktails for the ladies with nuts.

In a Copenhagen airline ticket office:
We take your bags and send them in all directions.

On the door of a Moscow hotel room:
If this is your first visit to this country, you are welcome to it.

In a Norwegian cocktail lounge:
Ladies are requested not to have children in the bar.

At a Budapest zoo:
Please do not feed the animals. If you have any suitable food, give it to the guard on duty.

In the office of a Romanian doctor:
Specialist in women and other diseases.

In an Acapulco hotel:
The manager has personally passed all the water served here.

In a Tokyo shop:
Our nylons cost more than common, but you’ll find they are best in the long run.

From a Japanese information booklet about using a hotel air conditioner:
Cooles and heates: if you want just condition of warm in your room, please control yourself.

Two signs from a Majorcan shop entrance:
English well talking. Here speeching American.

Outside a Paris dress shop:
Dresses for street walking.

At the entrance of a Nairobi building:
Mental health prevention center.

Y se acabó!

ENGRISH AROUND THE WORLD ― 1a. parte

José Horta Manzano

O Carnaval está aí, minha gente! É hora de esquecer, nem que seja por alguns dias, as agruras da vida real.

Cem anos atrás, quando nossa festa maior ainda se confundia com o entrudo, não havia internet. Mas todo cidadão medianamente escolarizado possuía alguns rudimentos de francês, língua dominante da época. Minha avó sabia até a letra da Marseillaise ― na sua visão muito pessoal, entenda-se.

Hoje em dia, somos quase todos navegantes da rede. O mundo mudou, o francês foi suplantado pelo inglês, e todos os que se aventuram na internet têm de ter, queiram ou não, alguns rudimentos de inglês. Se não, estão perdidos.

Vamos aproveitar estes dias para atenuar a dureza do quotidiano. Vamos observar um pouco como se ajeitam outros povos para se comunicar numa língua que nem sempre lhes é familiar. Diversão garantida.

Quem preferir, pode mudar de canal e torcer por sua escola preferida no desfile da avenida. Ou do sambódromo.Não entendo

Dry cleaners in Bangkok:
Drop your trousers here for best results.

In a Nairobi restaurant:
Customers who find our waitresses rude ought to see the Manager.

On the grounds of a private school:
No trespassing without permission.

On an Arctic River highway:
TAKE NOTICE: When this sign is under water, this road is impassable.

On a sign in Japan:
Do not lean on gate for it occurs you Trouble.

On a poster at Fight Illiteracy:
Are you an adult that cannot read? If so, we can help.

In a City restaurant:
Open seven days a week and weekends.

A sign seen on an automatic restroom hand dryer:
DO NOT ACTIVATE WITH WET HANDS!

On a Japanese hotel’s website:
Beautiful green, seasonal flowers, and carps in the pond are waiting for you.
Is the public bath hot spring?
Tofu is made of soybeans, water, and magnesium chloride.
Here is tasteful Kyoto that you have been thinking of!
The link is free and there is not getting in touch on the occasion of the link in this page, being necessary.
Is there a laundry machine? Yes. It is on the roof top of our hotel.

In a maternity ward:
NO CHILDREN ALLOWED.

In a cemetery:
Persons are prohibited from picking flowers from any but their own graves.

Sign in Japanese public bath:
Foreign guests are requested not to pull cock in tub.

Tokyo hotel’s rules and regulations:
Guests are requested not to smoke or do other disgusting behaviours in bed.

Hotel room notice in Chiang-Mai, Thailand:
Please do not bring solicitors into your room.

Hotel brochure in Italy:
This hotel is renowned for its peace and solitude. In fact, crowds from all over the world flock here to enjoy its solitude.

In a Shanghai Hotel:
Is forbitten to steal hotel towels please.
If you are not person to do such thing is please not to read notis.

In another Chinese hotel room:
Please to bathe inside the tub.

In a Bucharest hotel lobby:
The lift is being fixed for the next day. During that time we regret that you will be unbearable.

In a Leipzig elevator:
Do not enter the lift backwards, and only when lit up.

In a Belgrade hotel elevator:
To move the cabin, push button for wishing floor. If the cabin should enter more persons, each one should press a number of wishing floor. Driving is then going  alphabetically by national order.

In a Paris hotel elevator:
Please leave your values at the front desk.

In a hotel in Athens:
Visitors are expected to complain at the office between the hours of 9 and 11 a.m. daily.

In a Serbian hotel:
The flattening of underwear with pleasure is the job of the chambermaid.

In a Japanese hotel:
You are invited to take advantage of the chambermaid.

In the lobby of a Moscow hotel across from a Russian Orthodox monastery:
You are welcome to visit the cemetery where famous Russian composers, artists, and writers are buried daily except thursday.

In an Austrian hotel catering to skiers:
Not to perambulate the corridors in the hours of repose in the boots of ascension.

On the menu of a Swiss restaurant:
Our wines leave you nothing to hope for.

On the menu of a Polish hotel:
Aalad a firm’s own make; limpid red beet soup with cheesy dumplings in the form of a finger; roasted duck let loose; beef rashers beaten up in the country people’s fashion.

In a Hong Kong supermarket:
For your convenience, we recommend courteous, efficient self-service.

Outside a Hong Kong tailor shop:
Ladies may have a fit upstairs.

In a Rhodes tailor shop:
Order your summers suit. Because is big rush we will execute customers in strict rotation.

From a Russian Weekly:
There will be a Moscow Exhibition of Arts by 15,000 Russian Federation painters and sculptors. These were executed over the past two years.

In an East African newspaper:
A new swimming pool is rapidly taking shape since the contractors have thrown in the bulk of their workers.

In a Vienna hotel:
In case of fire, do your utmost to alarm the hotel porter.

A sign posted in Germany’s Black Forest:
It is strictly forbidden on our Black Forest camping site that people of different sex, for instance, men and women, live together in one tent unless they are married with each other for that purpose.

In a Zurich hotel:
Because of the impropriety of entertaining guests of the opposite sex in the bedroom, it is suggested that the lobby be used for this purpose.

Amanhã tem mais.

Os picaretas

José Horta Manzano

Muitos anos atrás, um personagem da vida política declarou que o Congresso brasileiro era uma espécie de antro em que vadiavam «uns 300 picaretas». Talvez você se lembre quem disse isso. Eu esqueci.

Pode até ser que que o figurão tivesse razão. Aliás, nos tempos em que pronunciou sua frase lapidar, ele mesmo se candidatou ― e foi eleito ― deputado federal. Aconteceu na época em que foi preparada, temperada, cozinhada e servida ao bom povo a fabulosa ‘constituição-cidadã’ de 1988, ainda hoje em vigor. Com algumas centenas de correções e ajustes, naturalmente.

A seu favor, diga-se que o incriminador da picaretagem não teve atuação destacada na elaboração da Lei Maior. Por certo, havia de ter outras preocupações pela cabeça, que ninguém é de ferro.Picareta

Não me lembro se a constatação foi exprimida antes ou depois de ele ter sido eleito parlamentar. Pouco importa. Não consta que tenha jamais desmentido sua visão do Executivo, o que nos leva a crer que, até hoje, mantenha sua opinião. Está aí um homem de convicções firmes!

Infelizmente, estes últimos anos, numerosos indícios têm corroborado a afirmação do mandachuva. Ainda estes dias, houve troca de cadeiras em nosso parlamento tupiniquim. O recém-eleito presidente do Senado Federal, terceiro personagem na linha sucessória da presidência da República(!) , é alvo de processos criminais.

Um outro personagem, já condenado criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de assumir o cargo de deputado que lhe cabe. Com toda a pompa e a dignidade que lhe são devidas.

Para coroar, acabamos de tomar conhecimento da decepção de um nobilíssimo representante do povo, por acaso o deputado federal mais votado do País nas últimas eleições. Antes de ser levado pelos braços do povo à Casa dos Representantes, exercia o ofício de palhaço.

Tiririca quer voltar ao antigo mister. Era de esperar. A sabedoria popular, em sua secular erudição, sempre profetizou: cada macaco no seu galho. Tudo indica que fazer palhaçada é mais gratificante que fazer picaretagem. Talvez até mais rendoso.

Que ninguém mais acuse os parlamentares brasileiros de fazerem palhaçada! O nome do jogo é picaretagem. No duro.

Para quem esteve em cura de sono estes últimos dias e perdeu a notícia, aqui está a reportagem da Folha de São Paulo, que não me deixa mentir.

Plágio? (parte 2)

José Horta Manzano

O artigo de ontem rendeu pano para mangas. Dizem que os adolescentes querem todos ser diferentes vestindo-se todos da mesma maneira. Com gente grande não funciona exatamente do mesmo jeito.

É bem verdade que há gente de comportamento um tanto excêntrico ― antigamente, diríamos esquisito ― , que elege um modelo e passa a vida tentando imitá-lo, mas a maioria não chega a tal extremo de mimetismo.

Falei em plagiato porque me surpreendeu a semelhança entre duas canções populares, nada mais. O caso me deixou a impressão de ir além de uma simples coincidência.

Nunca tinha dado maior atenção a esse assunto, mas uma boa amiga e fiel leitora me chamou a atenção para outros casos tanto ou mais contundentes do que o que citei.Notas musicais

Andei pesquisando e me dei conta de que há muito mais plágios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia. Peraí!  O que eu acabo de dizer não é plágio, é citação, coisa bem diferente. Citação (ou paródia) é uma piscadela, uma reminiscência que se insere aqui e ali para florir um texto ou uma melodia. Copiar trechos inteiros de obra alheia e assinar embaixo são outros quinhentos.

Uma rápida busca me revelou inúmeras acusações de plágio. Há material para livros inteiros, um artiguinho não basta. Quero só apontar alguns casos mais flagrantes.

O ‘rei’ Roberto Carlos foi acusado, anos atrás, de se apoderar de uma canção de um músico diletante. Processado pelo autor, defendeu-se. Passou uns 15 anos interpondo recursos, mas não houve jeito: foi condenado. Veja aqui.

O crítico de arte Luís Antônio Giron  já publicou diversos artigos apontando trechos de composições de Tom Jobim que se assemelham estranhamente a obras de outros autores. Os cinco últimos parágrafos deste artigo publicado na Gazeta Mercantil são edificantes.

Lúcio Ribeiro e Pedro Alexandre Sanches, em texto estampado na Folha de São Paulo, vão pelo mesmo caminho. Lançam uma sombra de dúvida sobre a autoria de Águas de Março.

Tem um caso que merece a palma de prata. É a parecença entre o Prelúdio n°4 de Frédéric Chopin e A Insensatez de Antônio Carlos Jobim. As peças são gêmeas univitelinas. Veja o inteligente entrelaçamento.

And the winner is….  A palma de outro vai para… Lamartine Babo! Torcedor fanático do América Futebol Clube, não hesitou em copiar a canção americana Row Row Row e transformá-la em hino de seu time. Sem tirar nem pôr.Violino

Confira:

Row Row Row, de Joy Hodges

Hino do America F.C., de Lamartine Babo

Vamos copiar o Ai, se eu te pego, assinar embaixo, e entrar numa grana firme? Que tal?

Plágio?

José Horta Manzano

Os dicionários informam que plágio é o ato de apresentar, como de sua própria autoria, obra intelectual produzida por outra pessoa. Tanto faz que seja texto, pintura, desenho, música, foto. Há que convir que a definição é ao mesmo tempo precisa e vaga.

Sua precisão está na clareza: apresentar como seu algo que foi feito por outro, não resta dúvida, é apropriação indébita, roubo.radio 1

No entanto, quando nos referimos a obras musicais, entram dois complicadores: a inspiração e o tempo de execução da obra. Não é impossível que dois compositores tenham na mesma época inspiração semelhante e que, em toda honestidade, escrevam peças musicais muito parecidas. Há mais: existem casos em que apenas trechos de uma peça guardam certa semelhança com passagens de obra alheia.

Já houve quem acusasse o grande Tom Jobim de plagiar o não menos grande Cole Porter. De fato, os primeiros compassos do Samba de uma nota só lembram muito o início de Night and day. No entanto, algumas notas mais adiante, as obras seguem caminhos tão diversos que fica afastada a ideia de pura e simples cópia. Por mim, Jobim está absolvido.

Os mais antigos talvez se lembrem de uma canção de autoria de Dolores Duran (1930-1959), composta em 1958. Chamava-se Castigo. O nome é pouco evocador, mas muita gente deve se lembrar da letra: «A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, briga pensando que não vai sofrer (…)». Marisa Gata Mansa foi a primeira a gravar. Maysa ― que ainda era Maysa Matarazzo ― fez do samba-canção seu cavalo de batalha.

Fiquei conhecendo, algum tempo atrás, um bolero mexicano composto por Wello Rivas (1913-1990). Ok, ok, a simples menção ao termo bolero, hoje, incomoda. Nossa estética musical se modificou. Mas não vamos perder de vista que a própria Dolores Duran ― que, apesar do nome artístico hispanizante, se chamava Adiléia Silva da Rocha ― iniciou sua carreira cantando… boleros.

A composição a que me refiro se chama Llegaste tarde. Por mais que tenha procurado, não consegui encontrar o ano de lançamento. Quando ouvi pela primeira vez a composição de Rivas, fiquei um bocado surpreso. A primeira parte guarda semelhanças intrigantes com o Castigo de nossa Dolores. Mesma linha melódica, mesma harmonia.

Será coincidência ou plágio? Se for cópia, quem terá copiado quem? Dolores já se foi há mais de meio século. Rivas também já fez sua travessia faz mais de 20 anos. Llegamos demasiado tarde. Não saberemos nunca.radio 3

Para quem quiser conferir, há registros no youtube. O caminho é este aqui:

Gravação de Castigo, por Taiguara

Gravação de Llegaste tarde, por Amparo Montes

Gravação de Castigo, por Roberto Luna

Gravação de Llegaste tarde, por Los Soberanos

O pior cego…

José Horta Manzano

Trecho de um dos editoriais do Estadão desta segunda-feira 4 de fereveiro.

“Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, saudou como altamente importante a recuperação lenta, mas aparentemente firme, da produção americana. Afinal, a recuperação da maior economia do mundo é benéfica para todos. Não se sabe se o ministro, antes desse comentário, consultou o líder Luiz Inácio da Silva. O ex-presidente havia-se mostrado muito feliz por chegar ao fim do mandato com o Brasil ainda em crescimento e os Estados Unidos em recessão. Seria um despropósito, exceto em caso de guerra, festejar as dificuldades de qualquer outro país. Mais que um despropósito, seria uma enorme tolice alegrar-se por uma crise no mais importante mercado do mundo.
Mas essa tolice ocorreu.”

O texto completo está aqui.