O meu exército

José Horta Manzano

«Nunca vou ser preso», gritou um soberbo Jair Bolsonaro alguns anos atrás, no tempo em que os áulicos eram muitos, solícitos, servis. Ninguém ousou contestar.

O mundo dá voltas. Taí, Bolsonaro está preso. Em casa, é verdade, mas não é mais senhor de seus movimentos. Se quiser ir até o shoppinho tomar um chopinho, não pode. E nem adianta pedir autorização, que não vão deixar.

“Canalha!”, bradou um destemperado e temerário Jair Bolsonaro alguns anos atrás, no tempo dos setes de setembro transformados em comício. O insulto era dirigido pessoalmente a Alexandre de Moraes, ministro do STF. O capitão tinha confiança na docilidade do “seu” exército.

O mundo dá voltas. Outro dia, quando compareceu ao STF, sentou-se ao lado do advogado e frente a frente com Alexandre de Moraes. Ao responder a uma pergunta de Moraes, Bolsonaro tratou-o por “Excelência”. O mundo dá voltas mesmo.

Estamos assistindo a coisas que a gente nunca imaginou presenciar um dia.

Veja o caso do Trump. Nem o Nostradamus mais perspicaz teria imaginado que, no século XXI, o presidente dos EUA se deixaria influenciar por um deputado brasileiro pilantra e, na sequência, se poria a pisar no calo do Brasil e a nos tratar como se fôssemos um povo de categoria inferior.

Veja outro caso, esse convescote que reuniu algumas dezenas de ditadores na China estes dias. Estavam lá os líderes da China, da Rússia, da Coreia do Norte, do Paquistão, da Índia, do Casaquistão, da Bielo-Rússia e outras eminências. Pois o Brasil deu um jeito de enviar um representante. O enviado não se envergonhou de figurar na foto de família em tão excelsa companhia. Era Celso Amorim, aquele amigo do Lula, que se pôs na ponta dos pés para aparecer no retrato.

Outro caso, bem próximo de nós: o julgamento de Bolsonaro. O Brasil se divide atualmente entre os cidadãos que gostariam de ver Bolsonaro condenado e encarcerado, se possível até o fim de seus dias – na Papuda ou em casa, tanto faz. Já outro contingente de eleitores, bem menor do que o alarido das redes deixa supor, gostaria de vê-lo absolvido, solto e sem mais enroscos com a justiça.

O que vou dizer agora, pode chocar alguns: para mim, tanto faz. Tanto faz que seja condenado a 43 anos ou que seja absolvido por insuficiência de provas. A meu ver, a boa justiça não precisa ser necessariamente vingativa. Acho que o importante, o que ficará na história, não é o resultado do julgamento nem o tamanho da pena. O que será lembrado é o julgamento em si.

É admirável que, diferentemente do que ocorreu nos EUA, onde Trump conseguiu escapar à justiça, Bolsonaro foi obrigado a aguentar até o fim, apesar do esperneio. Não adiantou ter escapado para os EUA em 2022, não adiantou o filho pilantra ter conspirado junto à Casa Branca, não adiantou a Lei Magnitsky, não adiantaram os impostos de importação de Trump. Imperturbável, o processo seguiu seu curso até o fim.

Agora, se o STF julgar que o capitão deve ser condenado, que o condene. Se achar que as provas são insuficientes, que o absolva. Seja como for, o Congresso encontrará, de uma maneira ou de outra, modo de lavar sua culpa, por anistia, graça, indulto ou outro nome que soe bonito. Ou então o capitão se livrará por ter idade avançada e uma polpuda lista de enfermidades.

Por minha parte, fico satisfeito de ele ter tido de enfrentar o Tribunal Maior, voz trêmula e peito arfante, com um medo que há de ter-lhe envenenado a existência, pusilânime que sempre foi. Agora vai passar o que lhe resta de vida remoendo o ódio que sente contra os generais do seu exército, que o abandonaram e o atiraram às feras.

Para a pequenez do personagem, já está de bom tamanho.

Depois da morte

by Maurenilson Freire
desenhista cearense-brasiliense

 

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 1° setembro 2025

No Brasil, a crença na reencarnação perpassa todos os estratos sociais. Está nos muito ricos, nos muito pobres e nos remediados. Vai da favela ao condomínio de luxo, atravessando fronteiras de classe e instrução. Junto com o arroz com feijão, a novela das oito e o futebol de domingo, o reencarnacionismo é parte constitutiva da identidade nacional. Mesmo não sendo dogma oficial de nenhuma grande igreja tradicional, e mesmo sendo incompatível com a doutrina católica, está profundamente enraizado no imaginário coletivo do brasileiro.

O sincretismo é traço peculiar da nossa religiosidade. Assim como orixás e entidades das crenças africanas se amalgamaram a santos e arcanjos da fé católica, a ideia de múltiplas vidas foi se entranhando na crença popular, servindo de pano de fundo para todo um universo esotérico – de médiuns de televisão a centros de mesa branca, passando por horóscopos, regressões, florais e cristais. O brasileiro, mesmo quando diz “não acreditar em nada”, costuma bater na madeira três vezes “só por via das dúvidas”.

E quanto mais se envelhece, mais a questão do depois vai se infiltrando no pensamento. O que virá depois do último suspiro? Costumo dizer, em tom de brincadeira (mas com sinceridade), que não me agradaria passar a eternidade sentado numa nuvem, de camisola branca, tocando lira, esperando não sei bem o quê. Um céu estático e entediante não me seduz. Já a doutrina espírita parece bem mais dinâmica, instigante até. Nela, a morte é apenas um ponto de passagem entre duas jornadas. Com ela, entra-se em fase de aprendizado, reflexão e planejamento, antes de reencarnar para mais uma etapa da longa caminhada.

Se for assim mesmo – se a alma tiver mesmo que voltar –, quero fazer um pedido modesto. Aceito ir e vir quantas vezes for necessário, sem medo, livre e galhardo. Mas não quero voltar a este planeta. Peço licença para seguir adiante, para outro mundo, uma outra Terra, quem sabe, mais justa, mais humana, mais honesta, mais igualitária. Uma sociedade menos estressante, menos predatória, mais sensível ao sofrimento alheio. Um planeta habitado por gente de boa vontade e incapaz de odiar, gente que ri com facilidade e vive com leveza.

Digo isso com o peso de quem sonhou diferente. Os da minha geração, quando jovens, acreditávamos sinceramente que a humanidade, em poucas décadas, teria superado sua fase mais bárbara. Achávamos que a era de Aquário traria sabedoria, paz e equilíbrio. O tempo passou e, infelizmente, nos desmentiu um bocado.

Houve avanços significativos, sim. Hoje se viaja pelo espaço, há curas médicas antes inimagináveis, a tecnologia nos conecta em tempo real, o número de analfabetos caiu, a expectativa de vida subiu, e o número de famintos diminuiu. Mas os retrocessos gritam. A violência atingiu um nível intolerável, a desigualdade persiste com cara renovada, e nacos do nosso território são hoje terra sem lei, dominada por forças paralelas – narcotráfico, milícias, facções. A educação pública foi sendo sucateada, minada de dentro para fora. Em vez de formar cidadãos, forma estatísticas. A ignorância, antes vergonha, agora é ostentação. Ou pior: há quem prefira permanecer nela, por conveniência ou por preguiça.

E não é só aqui. O mundo parece tomado por uma onda de lideranças sombrias, despóticas, personagens trevosos que cavam trincheiras em vez de pontes. Vampiros modernos, sedentos de poder, ergueram seus tronos em territórios diversos: nos Estados Unidos de Trump, na Rússia de Putin, na Venezuela de Maduro, na Coreia do Norte dos Kim, na Nicarágua de Ortega. Há também regimes disfarçados, onde a repressão vem com verniz de ordem e progresso. O Brasil, por exemplo, sob o clã dos Bolsonaros, por pouco não cruzou a fronteira que separa a democracia frágil do autoritarismo escancarado.

No mundo para onde quero voltar, esse tipo de liderança não existe. Não pode haver lugar para os que mentem em série, que instrumentalizam a fé alheia, que manipulam a verdade conforme lhes convém. E menos ainda para seus fiéis seguidores, cegos por preguiça, fanatismo ou desinformação. Quero viver num lugar em que a verdade não seja alvo de disputa, em que os direitos humanos não sejam vistos como “coisa de comunista”, em que a empatia não seja taxada de fraqueza.

Se um mundo assim existir – e há de existir, algures, entre os bilhões de planetas que coalham nosso céu noturno –, é para lá que quero ir. Nem que precise renascer com aspecto de homenzinho verde, de três olhos, com três dedos em cada mão.

Na volta do futuro

Cena do filme
A máquina do tempo (1960)

José Horta Manzano

Você talvez já tenha assistido a um daqueles filmes que roçam a ficção científica e que contam a história de uma viagem ao futuro, com direito a tempo de observação e interação com populares, e com volta garantida ao presente (nem que fosse pra relatar o que o(s) viajante(s) viu(viram).

A máquina do tempo (1960) e De volta para o futuro (1985) são bons exemplos desses bate-volta para o futuro. Os protagonistas vão e acabam voltando, que é pra terem o que contar.

Eu gostaria muito de poder entrar numa dessas máquinas, com bilhete de ida e volta pra daqui a, digamos, cinquenta anos. No futuro, naturalmente. Minha curiosidade é observar o planeta e a humanidade – se humanidade existir – pra avaliar a influência, a longo prazo, de Donald Trump e Vladímir Putin.

Como se sabe, os dois representam a junção da escuridão das trevas com o poder das armas. E, cada um na medida de suas possibilidades, tem maltratado a humanidade.

Trump, ignorante, estabanado, mas ultrapoderoso, tem dado dor de cabeça a muita gente fina. Com sua doutrina de aumentar arbitrariamente impostos de importação, está espalhando decepções e dúvidas. Está colocando firmas no caminho da falência. Está desempregando levas de cidadãos que não têm nada a ver com o peixe.

Putin, raposa esperta que busca dar impressão de ter mais poder do que tem, tem martirizado a população da vizinha Ucrânia. Ele deu início a essa guerra estúpida por um erro de cálculo – contava que suas tropas seriam acolhidas com flores e que o governo de Kiev cairia em poucos dias. Não foi o que aconteceu, mas já era tarde pra voltar atrás.

O apoio cego e incondicional de Trump aos israelenses os tem encorajado a forçar a mão. Não só em Gaza, onde levam a cabo um revoltante genocídio, mas também nos territórios ocupados da Cisjordânia, onde implantam novas colônias a cada dia.

À vista do que sucede na Ucrânia, os demais vizinhos da Rússia – e são muitos! – vivem num pavor permanente, indagando-se quem será o próximo. Faz algumas décadas, foi a Finlândia que foi amputada de boa parte de sua terra. Mais recentemente, foi a vez de a Geórgia perder para os russos um terço de seu território.  Do ponto de vista econômico, a Rússia está longe das grandes nações: sua população é declinante e seu PIB corresponde, grosso modo, ao da Espanha.

Daqui a cinquenta anos, tanto Trump (79 anos este ano) quanto Putin (73 anos este ano) já terão partido deste vale de lágrimas. Quem estará no topo do poder na Rússia? Provavelmente um outro ditador, talvez menos belicoso que Putin, mas nâo muito. E quem estará na Casa Branca? Se Trump não tiver quebrado a democracia americana, um novo presidente de um dos partidos principais.

Mas pouco interessa quem vai estar no poder. O que quero saber é quais terão sido as consequências da passagem destes dois trevosos pelo poder. É muito difícil fazer uma ideia de como será um futuro tão distante. Se não se sabe ainda nem quais serão os candidatos às presidenciais brasileiras do ano que vem, imagine querer saber do estado do planeta daqui a meio século… É justamente por isso que eu adoraria embarcar numa máquina do tempo em direção a 2075.

Estas próximas cinco décadas são tempo suficiente pra consertar muita coisa no planeta. Só que precisa empenho e boa vontade, moléculas nem sempre abundantes na superfície terrestre. Que a Rússia continuará sendo uma ditadura, é quase certeza. Aquele país nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tsarista à ditadura comunista. E da ditadura não saíram até hoje.

Quanto aos EUA, o futuro é uma incógnita. Trump ainda tem três anos e meio de mandato. É tempo suficiente para escangalhar a democracia e instalar uma ditadura dinástica, como um certo capitão um dia sonhou implantar aqui em nossa terra.

Vamos fazer uma coisa? Embarco assim que puder e, na volta, conto a vocês o que tiver visto. Prometido!

Venezuela: donas de casa e aposentados

José Horta Manzano

Os atos de certos políticos são às vezes difíceis de entender. A gente lê a noticia, coça a cabeça, reflete um pouco, relê um parágrafo, e continua sem perceber a intenção por trás do gesto. O que é que está por trás? Nem sempre é claro.

Já faz meses que Donald Trump vem ameaçando a Venezuela. E não é só ameaça verbal, chegou a deslocar uma frota de três navios de guerra abarrotados de sofisticado material, transportando um contingente de 4.000 fuzileiros navais.

Uma armada desse calibre tem potencial de mandar a capital do país a nocaute em três tempos. Mas, se fosse pra mandar Caracas pelos ares, não precisava despachar uma flotilha. O exército americano tem condições de fazer isso a partir de suas bases, sem deslocar ninguém. Mas então, por que a presença dos militares no Mar das Caraíbas (Caribe)?

É aí que fica difícil entender Trump e seu movimento ostensivo de tropas. Ele acusa Nicolás Maduro de chefiar um narcotráfico sofisticado, cujo principal objetivo é contrabandear cocaína para os Estados Unidos. Outros, antes de Trump, já descreveram esse cenário com detalhes. Dada a concordância de numerosas fontes, é possível acreditar que seja assim mesmo, o que coloca os altos coturnos do governo venezuelano no topo de uma rede narcomafiosa.

Ainda assim, não vejo bem o que é que navios de guerra podem fazer para desbaratar esse sistema. Aniquilar um sistema mafioso com tiros de canhâo? Não parece sensato. Nem eficaz. Por que os navios, então?

Só vejo uma hipótese. Seria nosso amigo Trump trabalhando para mostrar que está atento ao seu “quintal” e cuidando bem dele. “Quintal dos USA” é qualificativo dado outro dia por um de seus assessores à América Latina. Quem cuida bem de seu rebanho e aí mantém paz e concórdia merece o Nobel da Paz. (Deve ser o que ele pensa.) Cada um tem direito a suas ilusões.

Agora, comovente mesmo é a ideia de um previdente Maduro que, sabendo que Caracas não será mandada pelos ares por tiros de canhão, arrebanha assim mesmo seu povo num movimento caseiro de defesa nacional. Tal um Hitler nos derradeiros dias da Segunda Guerra, quando os canhões soviéticos já ribombavam nos arrabaldes de Berlim, Maduro alista “donas de casa, aposentados e servidores” para formar um escudo humano, com cidadãos prontos a morrer pela pátria.

A foto que ilustra este artigo nos mostra alguns convocados recebendo as instruções para manejo de bazucas. Não vejo donas de casa, certamente virão mais tarde. Estão todos devidamente uniformizados. (Diferentemente do Brasil, em que patriotas costumam se vestir de bandeira, os de lá trajam vermelho vivo, uniforme decerto providenciado pelo poder.)

Num eventual combate na selva, a cor não serve como camuflagem, mas também não se pode pensar em tudo. De todo modo, Maduro sabe que combate na selva, não haverá. Trump não é besta de expor sua tropa e registrar baixas. Bastaria um marine morto, um só, para sua popularidade ir pro beleléu.

Se tem certeza de que guerra não haverá, por que razão Maduro faz essa mise-en-scène? Há de ser para contentar seu povo, para mostrar a todos que o pai da nação está de olho, ciente da ameaça do “Imperio” e preocupado com ela. Pra confirmar que patriotas de uniforme rubro estão dispostos a arriscar a vida para defender a pátria. Não é bonito?

E assim vamos indo. Para os movimentos de ambos, Trump e Maduro, não há razões claras. Só razões ocultas.

De toda maneira, ambos sabem que não é desbaratando uma rede de traficantes que se elimina o narcotráfico. O fim do tráfico só virá no dia em que não houver mais demanda, quando ninguém mais pedir sua dose diária de estupefaciente (palavra hoje em desuso, mas ainda sugestiva).

Enquanto esse dia não chegar, derrube-se uma rede, outra brotará no dia seguinte.

Golpe?

Proclamação da República

José Horta Manzano

Uma mudança de governo – quando violenta e provocada voluntariamente em afronta às normas vigentes – configura um golpe de Estado. Essa é a teoria, mas na prática nem sempre funciona assim.

No Brasil de 1889, a queda do regime monárquico foi provocada por um golpe de Estado. Hoje isso nos parece cada vez mais evidente. No entanto, passados quase 140 anos, ainda nos ensinam na escola que o novo regime, a república, foi “proclamada” naquele 15 de novembro. O aluninho entende cada vez menos o significado da tal “proclamação”, mas fica por isso mesmo. Ninguém lhe ensina a história de verdade.

Em 1930, tropas depuseram o presidente eleito e levaram Vargas ao poder. Foi um evidente golpe de Estado que ninguém nunca chamou pelo nome. Entrou para a história como Revolução de 30 e até hoje se chama assim.

O movimento de tropas de 1964 foi outro que, como em 1930, defenestrou o presidente da república e mandou-o para o exílio. Em seu lugar, instalou uma ditadura de generais. Pelo tempo que durou o regime militar, os acontecimentos de 1964 foram chamados de “revolução”. Naquele tempo, se alguém se referisse ao movimento de 64 chamando-o, em público, de “golpe de Estado”, estaria arriscando a pele.

Foi só bem depois do fim da ditadura e com as instalação de governos mais à esquerda que a “revolução” pôde ser chamada pelo nome verdadeiro de golpe.

Contando todos os golpes e tentativas de golpe de que nossa história está coalhada – revoluções, inconfidências, intentonas, etc – é interessante notar que o de 1964 é o primeiro que acabou sendo popularmente qualificado de golpe. Não me ocorre nenhum outro caso, nem mesmo o evidente golpe de 1945 que depôs Vargas.

Para dar continuidade à nova tradição, temos agora a tentativa de “virar a mesa” protagonizada por Bolsonaro entre 2022 e 2023, Não sabemos ainda como estes acontecimentos serão conhecidos no futuro: Golpe de 2022? Golpe de Bolsonaro? Golpe pra derrubar Lula?

O que se sabe é que a tentativa de virada de mesa está sendo (e continuará sendo) chamada pelo nome correto: Golpe Malogrado. Ou Tentativa de Golpe, que dá no mesmo.

Alaska e a continuação

José Horta Manzano

Por mais que Donald Trump tente tranquilizar suas tropas (e o mundo) dizendo que o encontro com Vladímir Putin, no Alaska, foi “produtivo”, as evidências mostram outra coisa. O homem que tem tanto sangue nas mãos (Putin) saiu triunfante. Já o homem que imaginava sair do encontro com o conflito encerrado (Trump) naufragou. Para ele, o colóquio foi um malogro.

  • Dez horas era o tempo estimado de duração do face a face. Durou só duas horas e meia. Sinal claro de que as pretensões de Putin eram firmes e que ele esteve inarredável. Não quer devolver nem um centímetro do território que conseguiu invadir. Ao final de duas horas, o assunto estava esgotado.
  • Trump saiu tão aturdido da reunião, que disse aos jornalistas que estava “voltando aos Estados Unidos”, esquecido de que o Alaska é um estado como os demais (só que mais frio).
  • Trump deixou escapar uma parte da realidade. Disse que agora a paz “depende de Zelenski”. Com isso, quis adiantar que cabe ao país invadido fazer concessões e entregar parte de seu território ao invasor. O invasor não abrirá mão de sua conquista militar. Sentença terrível.
  • O comunicado comum, prometido para o final do encontro, não veio. Cada um acabou fazendo, por sua conta, uma declaraçãozinha protocolar e meio chocha.

Trump receberá Zelenski no Salão Oval nesta segunda-feira.

Desde o primeiro dia do conflito, três anos atrás, a União Europeia condenou a Rússia e amparou a Ucrânia. Conhecedores das artimanhas de Putin, não botavam fé no encontro do Alaska. Ficaram incrédulos com a aparente ilusão de Trump de que ia dar certo e de que a paz seria acertada durante aquele colóquio. De fato, o presidente dos EUA parecia acreditar. É que ele anda obnubilado por seu sonho de receber o Nobel da Paz, sonho que o próprio Lula acalentou durante muitos anos, mas do qual parece ter abdicado.

Os líderes dos principais países europeus se alvoroçaram quando souberam que Zelenski tinha sido convidado para um colóquio com Trump. Sozinho, sem Putin. Continua viva na memória a cena insuportável de um Zelenski apanhando sozinho, num Salão Oval repleto de aliados de Trump, jornalistas, câmeras e holofotes. Aquele linchamento público ocorreu no fim de fevereiro, mas, na memória dos europeus, é como se tivesse sido ontem. Foi a imagem de um cristão atirado a feras famélicas numa arena romana.

Macron arregimentou logo uma escolta para garantir a defesa do ucraniano, para o caso de Trump & áulicos voltarem a ter a péssima ideia de descer-lhe bordoadas como fizeram da primeira vez. Como penetras em festa de debutante, devem marcar presença: Emmanuel Macron (presidente da França), Ursula von der Leyen (presidente da UE), Friedrich Merz (chanceler da Alemanha), Keir Starmer (primeiro-ministro britânico), Giorgia Meloni (presidente do Conselho Italiano), Alexander Stubb (presidente da Finlândia), Mark Rutte (chefe da Otan). Espero que o Salâo Oval seja grande o suficiente para acolher a todos.

Os dirigentes europeus acham que seria uma grande perda se Trump “obrigasse” Zelenski, garrucha colada na têmpora, a abrir mão de 20% do território da Ucrânia para entregar ao invasor russo. Pelo raciocínio de todos, o presidente americano vai deixar a selvageria pendurada no cabide da entrada, nem que seja em respeito diante de tanta gente fina.

Na verdade, Trump está fazendo o papel de menino de recado de Putin. Vai expor aos visitantes as exigências da Rússia, e colher a resposta.

Deve ser um dia importante. Vamos ver.

Bolsonaro e o filho imaturo

José Horta Manzano

Segundo palavras do próprio Jair Bolsonaro, seu terceiro filho – aquele que se autodegredou para os EUA a fim de atravancar a vida do Brasil – é imaturo. De diagnóstico de pai, quando é elogioso, é melhor desconfiar; mas quando é crítico, convém prestar atenção.

Quando li essa declaração, que o capitão tirou do bolsinho de trás no meio de uma fala qualquer, concordei com ele. Tratá-lo de “imaturo”, aliás, me pareceu quase elogioso. A imagem do rapaz, no dia em que posou para uma foto (ao lado do pai que jazia numa cama de hospital em recuperaçâo de cirurgia), abrindo o paletó e exibindo ostensivamente um revólver grande como os dos capangas de Al Capone, me deu certeza de que algo estava fora de prumo no bestunto do bolsonarinho.

O tempo passou. Um dia, o Zero Três decidiu instalar-se nos EUA. Muitos acharam que estivesse fugindo. Também acreditei, mas hoje não tenho mais tanta certeza. O plano arquitetado para livrar o velho Bolsonaro da cadeia, detalhado pelo zerinho, parecia não passar de ameaça. Quem imaginaria que Trump, apesar dos rompantes ególatras, ia atravessar o Rubicão e aplicar contra o Brasil uma lei feita pra castigar bandidos?

Mas acontece que um Trump, irritado com:

  • o antiamericanismo explícito e persistente de Lula (considerado por Donald Trump um perigoso comunista);
  • o ativismo terceiro-mundista do Brics, que a cada dia mais parece um conclave de ditaduras sanguinárias;
  • os permanentes ataques, proferidos por Lula em particular, contra o predomínio do dólar como moeda de trocas internacionais;
  • as limitações impostas pelo Congresso brasileiro a big techs americanas,

aproveitou o tsunami de “tariffs” para aplicar mais 50% aos impostos de importação que incidem sobre mercadorias vindas do Brasil.

Por seu lado, o zerinho expatriado não passou férias nem folgou: fez o que disse que ia fazer. Tanto chuchou os áulicos de Trump, que conseguiu o que tinha ido buscar: a Lei Magnitsky, em princípio feita para castigar gângster, foi aplicada contra o ministro Moraes, relator dos processos ligados ao malogrado golpe do 8/1.

Mas o pior vem agora. Como espada de Dâmocles, a mesma lei fica como ameaça pendurada sobre a cabeça dos “aliados” de Moraes, ou seja, os que acompanharem seus votos.

As consequências da aplicação da tal lei antigângster são tão temidas, que os demais ministros já parecem amarelar. Barroso já deu a entender que estará se aposentando em breve. Outros dois, Mendonça e Fuchs, já mostraram seu temor, ao pedir vista para atrasar processos.

É bem provável que, como bons brasileiros com finanças mais folgadas, ministros do STF tenham interesses pessoais nos EUA: apartamento em Miami, um filho que estuda lá, uma reserva de dólares aplicada no país, etc. Assim, é compreensível que todos estejam inquietos com a perspectiva de que a espada se lhes despenque sobre a cabeça.

A dosagem dos “tariffs” de Donald contra o Brasil foi tão violenta, que automaticamente afastou toda perspectiva de negociação. Com taxa assim, nem dá pra ensaiar uma conversa.

Mas a “dosimetria”, se assim me posso expressar, de aplicação da Lei Magnitsky, já efetiva para um dos ministros e latente para os demais, foi lance de mestre. Não acredito que essa graduação tenha saído do bestunto “imaturo” (segundo Bolsonaro) do Zero Três. Mas tanto faz.

A história registrará que o rapaz foi lá, cutucou, pediu, argumentou, explicou, e acabou conseguindo o que queria. Poucos meses atrás, ninguém além dele acreditava que fosse dar certo. É chato constatar, mas… parece que deu.

Estamos todos, a nação inteira, à mercê do que vier e, sejamos francos, impotentes diante das rajadas musculosas com que Trump tenta sabotar nossa integridade.

Vamos ver o que o futuro nos reserva.

Seja o que Deus quiser

José Horta Manzano

O Globo relata as consequências que se arrastam até hoje de um triste desastre ocorrido ano passado. Você talvez se lembre. Na madrugada de 31 de março, um motorista de aplicativo, de 52 anos de idade, rodava por uma avenida de São Paulo quando seu veículo foi violentamente abalroado, por trás, por um Porsche Carrera. O bólido, avaliado em R$ 1,3 milhão, trafegava a 136 km/h num trecho onde a velocidade era limitada a 50 km/h.

O motorista de aplicativo morreu antes de ser socorrido. O condutor do veículo de luxo tinha 24 anos de idade e havia bebido e saiu ileso. Apesar da habitual carteirada tentada por sua família, acabou encarcerado, dias depois, na Penitenciária de Tremembé (SP), onde se encontra ainda hoje à espera de ser julgado por um tribunal do júri.

O motorista de aplicativo havia comprado seu carro pelo sistema de leasing, com entrada e 48 prestações. Ao morrer, já havia pagado boa parte da dívida, faltando ainda quitar 18 parcelas.

Para espanto deste escriba, o contrato de leasing não incluía seguro que cobrisse o não pagamento de parte da dívida por razões que escapassem da responsabilidade do condutor. Assim sendo, a destruição do veículo em acidente sem culpa do contratante não estava coberta por nenhuma apólice!

O resultado é que a viúva do motorista de aplicativo recebe diariamente uma dezena de chamadas telefônicas de empresas especializadas em cobrança de dívidas atrasadas. Além dela, os filhos do falecido também começam a ser atormentados.

Como esse litígio vai se resolver, não sei. Advogados poderão dar as respostas que eu não tenho. Mas o que me espanta é que está fazendo quinhentos anos que o Brasil vive na imprevidência, na base do “seja o que Deus quiser”. A religiosidade de nossa gente é admirável e respeitável, mas não convém abusar da Providência Divina.

Os desbravadores desta terra não tinham a quem recorrer se não à esperança e ao trabuco. Mais que nunca precisamos conservar a esperança, mas está na hora de pendurar o bacamarte na cristaleira da sala. Desarmado, of course. Muitos litígios nem surgiriam caso os envolvidos se precavessem contratando uma apólice de seguro.

No caso do veículo vendido em sistema de leasing, é inconcebível que o contrato não tenha incluído, logo de saída, um seguro cobrindo a perda total do veículo em determinadas circunstâncias. Um cretino pode acabar com o carro (como aconteceu), uma árvore pode cair em cima, uma enchente pode levar o veículo e arrastá-lo para o mar ou para um rio.

Mas não só automóvel em leasing tem seus riscos. Uma casa ou um apartamento pode ser destruído pelo fogo, vítima de acidente doméstico ou de propagação do incêndio do vizinho. Um pequeno comércio ou indústria estão expostos aos mesmos riscos que uma casa. Em caso de incêndio, que fazer?

O vaso de gerânio que vosmicê colocou no beiral dá umas flores lindas. Mas um dia, uma de suas crianças (ou uma visita, ou o gato ou o cachorro) pode relar nele e derrubá-lo lá embaixo. Por desgraça, cai em cima de um senhor e o manda para o hospital. O cidadão, pai de quatro filhos menores, é posto em coma artificial durante meses. Como é que fica? Quem paga? Quem é que assume?

Vivo num país em que todos os cidadãos têm um seguro de responsabilidade civil. Não é obrigatório, mas ninguém é louco de não ter. Esse seguro – que, imagino, existe no Brasil – cobre danos que o contratante possa causar a terceiros ou a objetos pertencentes a terceiros. Vale a pena consultar a disponibilidade aí.

Há seguro para praticamente todas as atividades humanas. No Brasil, não estamos acostumados a prevenir. Espera-se que o mal aconteça, para só então pôr as mãos na cabeça e descobrir que… é tarde demais.

Com espontaneidade e elegância, a linguagem “wok” traduz assim:


Um homem(uma mulher) prevenido(a) vale por dois(duas).


 

Maracanazo

“Maracanazo” – 16 jul° 1950

José Horta Manzano

Señor Ghiggia
O dia 16 de julho tem lugar garantido na História do Brasil. Em 1950, marcou a derrota da seleção brasileira de futebol. Fosse um jogo amistoso, o 2 x 1 em favor do Uruguai teria sido derrota banal, logo esquecida por todos. O drama é que era uma final de Copa do Mundo e, pra mal dos pecados, jogada no Maracanã, com 200.000 espectadores espremidos nas arquibancadas. Nosso país perdeu o caneco.

Em 2015, sessenta e cinco anos depois do jogo, señor Alcides Ghiggia, autor do decisivo gol uruguaio, faleceu. Exatamente num 16 de julho. Durante 64 anos, tinha sido chamado de “algoz” do Brasil. Mais recentemente, um certo 7 x 1 relativizou as coisas. Señor Ghiggia pode descansar em paz.

Maracanazo
Tenho ouvido ultimamente que o Brasil perdeu a Copa de 1950 “no episódio que ficou conhecido como Maracanazo”. A afirmação não é verdadeira. Nunca jamais se utilizou, no Brasil, essa expressão para qualificar o desastre. Foi criação platense e por lá ficou.

A primeira vez que a palavra apareceu no Estadão, jornal brasileiro de referência, foi em 1977, vinte e sete anos depois do jogo. E, assim mesmo, como citação de publicação estrangeira.

Na verdade, foi o traumatizante 7 x 1 que, apelidado de Mineiraço, ressuscitou a expressão Maracanazo (ou Maracanaço) e a espalhou do Oiapoque ao Chuí.

A velhinha do Alto da Lapa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ingênua que sou, talvez até mais do que a própria velhinha de Taubaté, sempre acreditei que os nobres parlamentares eleitos para as duas casas do congresso nacional eram representantes da vontade popular. Ao menos eu votava tendo essa crença em mente.

Tolerei diversas vezes a inação dos presidentes da Câmara e do Senado, acreditando que não era mesmo o momento certo de pautar o impeachment do ex-presidente, dadas as terríveis contingências internas e externas causadas pela pandemia de covid. Fiz de conta que não percebi a tragédia da atuação em longo prazo das bancadas da bala, do boi e da bíblia, acreditando que o novo governo eleito teria forças e credibilidade para decretar o fim de tantas excrescências legislativas. Me irritei com a conduta misógina, racista e fundamentalista de figuras emblemáticas da atual composição do Congresso, mas deixei para lá acreditando que elas seriam punidas pela própria Casa, uma vez colhidas as abundantes provas de falta de decoro parlamentar.

Ultimamente, no entanto, eles não cansam de superar minhas expectativas mais pessimistas e de me causar perplexidade dia sim, outro também, com muitas de suas recentes decisões, sempre tomadas “na calada da noite” (desculpem o jargão, coisa de velha mesmo) e sem que elas tivessem passado por comissões especializadas ou discussão ampla com setores organizados da população.

Embora 72% dos brasileiros tenham repudiado o tarifaço de Trump e sua tentativa de intervir nas deliberações da mais alta corte brasileira, 53% tenham se manifestado a favor da prisão de Jair Bolsonaro e 55% se dizerem contrários à anistia dos golpistas de 8/1, nossos ínclitos parlamentares acharam legítima a iniciativa de obstruir a pauta de votações do Congresso, como se sua principal função legislativa fosse a de proteger aliados de sua causa ideológica ou defender interesses próprios em detrimento de causas importantes para a população, como a isenção de imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais. Além de pretenderem desconhecer as estatísticas e não se deixarem abalar diante da crescente imagem negativa do Congresso (que rivaliza com a do Judiciário e a do Executivo, diga-se de passagem), as recentes manifestações de rua serviram para evidenciar que eles não se envergonham de tomar a vontade da parte tenebrosa do rebanho bolsonarista-raiz como a do todo da população brasileira.

Juro que tenho me esforçado para entender os gestos kafkaescos dessa turma, de prestar continência à bandeira americana, apoiar as atuais e futuras sanções aos ministros do STF, não compreender o significado exato do conceito de soberania nacional e não perceber nenhuma consequência negativa do tarifaço imposto pelo mito-mor da extrema-direita mundial para a manutenção de seus próprios empregos e recuperação da economia, mas confesso que está sendo muito difícil, quase impossível, não ceder ao desejo de dar umas boas palmadas em seus traseiros flácidos, como faria sem pestanejar qualquer boa mãe latina.

Vou pedir ajuda espiritual a São Benedito, Santo Expedito e Santa Rita de Cássia das causas milagrosas, para voltar a acreditar que todo esse nonsense pode ser superado em breve, preferivelmente antes das próximas eleições. Se não der certo, prometo sair à rua com cartazes de apoio à internação obrigatória de toda essa gente alienada. No fim, como mostrou Machado de Assis, é bem possível que eu me junte a eles voluntariamente no hospício e até acabe por liberá-los, já que estatisticamente não passo de minoria da minoria da população brasileira.

Como dizia um amigo meu, não sei se sou eu que estou certa e eles errados ou se eles é que estão certos e eu me engano redondamente, mas, em última instância, por ser uma em meio a milhares, sei que sou eu que preciso mudar e me adaptar. Que os anjos e santos me ajudem a voltar a apostar cegamente na força da democracia brasileira. Amém.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Bolsonaro, Trump e o teatro da prisão domiciliar

Clã Bolsonaro

José Horta Manzano

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, longe de ser um acidente político ou uma mera consequência judicial, parece ter sido provocada de forma deliberada. Tudo indica que o ex-presidente, em conjunto com membros do seu clã familiar, esticou a corda conscientemente, de caso pensado, e “cavou” essa prisão domiciliar como parte de uma estratégia que vai além das fronteiras nacionais. O objetivo? Despertar a atenção – e a ação – de Donald Trump.

Trata-se de uma jogada desesperada, mas alinhada com a lógica que rege o bolsonarismo desde o início: a crença de que a realidade pode ser moldada a partir de narrativas delirantes e alianças simbólicas. Essa movimentação, por mais absurda que soe (pode até ser confundida com roteiro de novela), segue um raciocínio próprio da bolha em que o bolsonarismo se aninha. É, em essência, a ingenuidade bolsonarista levada ao paroxismo.

Nesse contexto, até Donald Trump – com todo seu histórico de absurdos – passa a parecer um dirigente equilibrado, se comparado à atuação tresloucada dos Bolsonaros. A família revela um egoísmo sem limites. Ao que tudo indica, não haveriam de hesitar em ver o país ruir se isso significasse a salvação pessoal do patriarca. Se a única saída fosse um bombardeio atômico que destruísse o Brasil, a escolha seria óbvia para eles: que se dane o país, desde que o pai se salve.

O que parece estar em curso, neste momento, é uma tentativa explícita de provocar Trump. Os Bolsonaros querem ser vistos como vítimas de um sistema judicial “perseguidor”, esperando que isso alimente o discurso populista e conspiratório do ex-presidente americano. Com isso, esperam que Trump amplie as sanções contra o STF e contra o Brasil.

O problema dessa estratégia é que ela desconsidera uma realidade simples: nem o STF, nem o governo brasileiro, estão dispostos a se curvar diante de pressões externas. As instituições brasileiras seguem com firmeza o caminho que lhes traçou a Constituição de ‘88. Para um grupo que passou anos governando o país sem demonstrar qualquer apreço por valores como brios, pudor ou responsabilidade, há de ser incompreensível descobrir que ainda existem líderes com vergonha na cara.

Em certas cabeças, a esperança bolsonarista de escapar das consequências jurídicas depende menos de fatos e mais da construção de uma narrativa internacional de martírio político. O plano, no entanto, está fazendo água e parece cada dia mais deslocado da realidade.

Enquanto isso, o Brasil segue seu curso, enfrentando as turbulências deixadas por um governo que jamais colocou os interesses nacionais acima dos seus próprios.

A ingenuidade bolsonarista: entre bravata e realidade

by Darío Castillejos
desenhista mexicano

José Horta Manzano

Sempre que vêm a público, figuras preeminentes do bolsonarismo dão involuntária demonstração de suas qualidades. Tais virtudes revelam-se menos admiráveis do que imaginam. Sobressai um traço comum a muitos: uma surpreendente e persistente ingenuidade – disfarçada, às vezes, com tintas de coragem, ousadia ou patriotismo.

A retórica do ataque substitui o argumento racional. A crítica vira insulto. E, quando a realidade não se curva às expectativas do grupo, ela é simplesmente negada. Se algo dá errado, a culpa nunca é do autor, mas sempre de terceiros: da mídia, do Supremo, do “sistema”, ou de inimigos imaginários cuidadosamente cultivados.

Há também um traço de fé no inacreditável. Uma crença quase infantil na própria impunidade, como se bastasse dizer-se “patriota” para tornar-se imune. E há sempre a compulsão à mentira – não como instrumento estratégico de convencimento, mas como pilar de uma construção paralela, em que a verdade é moldada ao gosto do freguês.

Vejamos alguns exemplos concretos.

Daniel Silveira, ex-deputado, ficou famoso por seus ataques virulentos ao Supremo Tribunal Federal. Em vídeos nas redes sociais, insultou ministros, ameaçou-os fisicamente e tentou posar de herói nacional. Estava convencido de que sua imunidade parlamentar o protegeria de qualquer consequência. Não perdeu por esperar. Acabou preso, processado e condenado. Pagou caro por sua ilusão de invulnerabilidade. Ironicamente, pagou com privação da liberdade que tanto dizia defender.

Carla Zambelli talvez tenha levado a ingenuidade a um novo patamar. Envolveu-se com um estelionatário autodenominado “hacker”, com o objetivo de invadir sistemas da Justiça Eleitoral. Uma iniciativa ousada – temerária até, de qualquer ponto de vista. Após processo e condenação, fugiu do país, acreditando que sua cidadania italiana a blindaria de toda punição e lhe garantiria driblar o encarceramento. Durante a fuga, não resistiu à tentação de provocar o Judiciário brasileiro pelas redes sociais, vangloriando-se de ser “intocável”. Resultado: acabou localizada e presa. Hoje divide cela com outras três detentas numa prisão romana. Em vez das regalias a que certamente teria direito em cárcere tupiniquim, enfrenta a realidade crua do sistema penitenciário europeu, enquanto espera o julgamento do pedido de extradição feito pelo Brasil.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, optou por um exílio voluntário nos Estados Unidos. Não para fritar hambúrguer, como em sua fase anterior, mas para fazer lobby junto a aliados de Donald Trump. Seu objetivo: punir o inimigo número um da família, o ministro Alexandre de Moraes. Esqueceu, porém, que o STF é um órgão colegiado, dotado de forte espírito de corpo. Imaginou que, ao pressionar um único magistrado, poderia amedrontar os demais. Erro de cálculo. O Supremo não cedeu, e o tiro saiu pela culatra. A retaliação não veio contra o ministro, mas contra o agronegócio brasileiro, com o aumento de tarifas americanas que atingiu diretamente exportadores. Para completar, Eduardo dificilmente voltará ao Brasil sem enfrentar alto risco de ser preso.

Conclusão
Esses casos revelam um padrão inquietante: a bravata bolsonarista cresce à sombra de uma suposta proteção – seja a imunidade parlamentar, a cidadania estrangeira ou o distanciamento geográfico. Quando a rede de proteção falha, sobra desespero, vitimização e surpresa diante das consequências, como se o mundo real não funcionasse com regras claras.

O mais intrigante, porém, é que, antes do malogrado golpe do 8 de janeiro, muitos bolsonaristas agiam como se o sucesso da empreitada já estivesse garantido. Comportavam-se como personagens de um roteiro em que o final feliz – a tomada do poder – era inescapável e estava sacramentado. Essa confiança cega tem origem no convívio fechado dentro de uma bolha ideológica. Nela, informações circulam sem contestação, e mentiras repetidas ganham status de verdade absoluta.

Em última análise, a ingenuidade não é apenas um traço de personalidade de alguns indivíduos, mas um componente estrutural do bolsonarismo. Alimentada por desinformação, reforçada por lideranças irresponsáveis e sustentada por uma fé peregrina na própria narrativa, ela transforma cada erro de avaliação em tragédia pessoal – e, por vezes, em dano coletivo.

Enquanto permanecerem presos a essa bolha, seus integrantes continuarão a cometer os mesmos erros: superestimar suas forças, subestimar a inteligência alheia e mal avaliar as consequências. Nesse jogo de ilusões, a realidade sempre chega – e costuma ser implacável.

Recordar é viver

Elio Gaspari (*)

Os ministros do Supremo Tribunal Federal que tiveram seus vistos cassados talvez não lembrem, mas estão em ilustre companhia.

Em 1971, sabe-se lá por quais meios, o Dops paulista registrava que um perigoso subversivo “desenvolve grande atividade a fim de visitar os Estados Unidos. Contudo, não lhe será concedido o visto de entrada.”

Em 1977, durante o governo de Jimmy Carter, um jovem assessor do presidente pediu que o nome do subversivo fosse retirado da lista de indesejáveis nos Estados Unidos. Foi atendido e pouco depois, Robert Pastor acompanhou Fernando Henrique Cardoso numa visita à Casa Branca. Pastor tinha tamanha intimidade com Carter que levava visitantes ao Salão Oval (vazio).

Em 1995, com visto e passaporte diplomático, o subversivo desceu em Nova York e ouviu queixas porque o governo do Brasil havia sobretaxado em 70% as importações de automóveis americanos.

Tempos mudam, lá e cá.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

A bordoada

José Horta Manzano

A soberania nacional não se mede apenas pelo controle das próprias fronteiras, mas também pela capacidade de um Estado de fazer valer sua autoridade interna sem interferência externa. Quando se trata de comércio internacional, por exemplo, cada país estabelece suas próprias regras tarifárias. O imposto de importação é um instrumento legítimo de política econômica, ajustado conforme os interesses nacionais. Trata-se, portanto, de um campo soberano e consensualmente reconhecido na diplomacia global.

Bem diferente é o caso de leis com pretensões extraterritoriais, como a chamada Lei Magnitsky, praticamente desconhecida até poucos dias atrás. Criada nos Estados Unidos como resposta a casos de corrupção e violações de direitos humanos em outros países, essa legislação confere ao Executivo norte-americano o poder de sancionar estrangeiros – indivíduos que, vale frisar, não vivem sob sua jurisdição. Em tese, seu uso já suscita questionamentos quanto ao respeito às normas do direito internacional. No caso concreto que nos atinge, a aplicação dessa lei a um ministro da mais alta Corte do Brasil é uma bordoada que ultrapassa todas as fronteiras da razoabilidade.

O que vimos foi um ataque frontal à soberania brasileira. Não se trata de uma crítica isolada a um magistrado, por mais influente que seja. O que se tem é uma tentativa de deslegitimação institucional – um gesto que, por sua gravidade, ecoa momentos históricos de verdadeira afronta à dignidade nacional. Não é exagero lembrar que, desde os tempos em que o ditador Solano López invadiu nosso território, dando início à Guerra do Paraguai, o Brasil não era alvo de uma ação externa tão agressiva e humilhante.

No pacote em que nos foi entregue essa sanção, vieram também o escárnio contra nosso sistema de justiça, o desdém pela separação de Poderes e um desprezo mal disfarçado pela ordem jurídica brasileira – que, em muitos aspectos, é mais avançada que a dos Estados Unidos. É irônico, por exemplo, recebermos sanções morais e jurídicas provenientes de um país que ainda mantém em vigor a medieval pena de morte, resquício de um tempo em que o castigo físico substituía o Direito.

Diante desse cenário, surgiram sugestões de que o próprio ministro atingido – ou mesmo o Supremo Tribunal Federal, como instituição – deveria reagir formalmente, em nome da própria honra. Essas propostas, embora bem-intencionadas, carecem de ponderação estratégica. Reagir diretamente pode parecer defesa pessoal ou, pior, tornar o episódio um embate entre magistrados e governos, o que só aumentaria o desequilíbrio do gesto original. A serenidade que se espera de um tribunal deve prevalecer mesmo diante da provocação. O silêncio, neste caso, não seria omissão, mas expressão de compostura.

A resposta, se houver, deve vir do lugar institucionalmente competente: o Poder Executivo. É o presidente da República, como representante legítimo do povo brasileiro, quem deve se posicionar diante dessa afronta à Nação. Não se trata de solidariedade a um indivíduo, mas de um dever de Estado: defender a autoridade e a dignidade das instituições do país perante o mundo.

É pouco provável que uma nota diplomática mude a política externa dos Estados Unidos. Mas há ocasiões em que o gesto, mais do que o efeito prático, carrega uma lição. Um país menos poderoso pode, sim, ensinar civilidade ao mais forte.

Às vezes, um pito bem dado dói mais que um cascudo.

Carla está presa

Carla Zambelli
by Jeribeto (via Twitter)

 

José Horta Manzano


La signora Carla Zambelli è stata arrestata a Roma.
A senhora Carla Zambelli foi detida em Roma.


Se vão extraditá-la para ser encarcerada no Brasil, se vai cumprir pena na Itália mesmo ou se será solta, tanto faz. O importante é que, diferentemente do que imaginava, foi alcançada pelas garras da lei. Talvez esteja entendendo agora que ela não é melhor que ninguém e que deve explicações à sociedade.

De pouco valeu ser casada com militar, ter sido unha e carne com o capitão, gozar de imunidade parlamentar. Exibiu um passaporte vermelhinho, correu, mas o bicho acabou pegando. Assim como vai pegar todos os trapaceiros que, como ela, se imaginaram mais espertos que o povão.

O povo italiano não está nada de acordo com a ideia de transformar o país num depósito de foragidos da justiça. Em matéria de imigração, preferem receber gente de bem, não bandidos. O fato de o delinquente ser titular de um passaporte nacional não lhe confere mais direitos, antes, acentua o fato de que descendentes de italianos só requerem a nacionalidade dos antepassados para obter vantagens, como entrar nos EUA sem visto ou refugiar-se na pátria para escapar à justiça .

Esse tipo de transgressor não é bem-vindo na Itália.

Violência e sedentarismo

José Horta Manzano

Num artigo de Andressa Lima, o Estadão destacou, faz alguns dias, a curiosa (e estreita) correlação entre violência urbana e sedentarismo no Brasil. Deve-se creditar essa descoberta a cientistas brasileiros da UFG e da Unifesp. O estudo mostra que, no mundo, 31% da população não atinge os níveis recomendados de atividade física, enquanto, no Brasil, o índice dos ociosos é de 59,5%. Trocado em miúdos, 3 em cada 10 terráqueos, em média, são adeptos da sombra e da água fresca. Enquanto isso, aqui em nossas terras tropicais, 6 em cada 10 brasileiros estão no mesmo caso. Dá pra desconfiar que nossa sombra e nossa água fresca sejam ainda mais refrescantes.

Não é, como o título deste meu escrito poderia sugerir, que o ócio esteja na raiz da violência que nos atormenta. Estranhamente, os cientistas descobriram que o mecanismo funciona ao contrário. A violência que nos atormenta é que está na raiz do ócio que nos confere prejuízos à saúde tais como moléstias cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, câncer, depressão, ansiedade. A OMS (Organização Mundial da Saúde) adverte que o Brasil é o país mais sedentário da América Latina e o quinto do mundo.

Como assim? Pois a razão desse caminhão de misérias é uma só: o medo que o brasileiro tem de sair à rua. Por consequência, quem não sai à rua fica na impossibilidade de praticar exercícios que demandam grandes espaços ao ar livre: corridas, passeios, longas caminhadas, jogos em quadras, ginástica com barras fixas, ciclismo, dança ao ar livre. E certamente outras que não me ocorrem neste momento.

Quem tem condições de pagar a mensalidade de uma academia está com sorte. Mas essa é uma despesa não está ao alcance de todos, embora todos precisem se exercitar. Que fazer então? No Brasil desvairado em que vivemos, a questão fica sem resposta neste momento.

O que vou dizer agora não estava no artigo que citei – fica por minha conta.

Me pergunto até que ponto o medo de sair às ruas não estaria criando uma geração inteira de brasileiros com tendências associais, incapazes de interagir com seus semelhantes. Uma faixa de população que, embora já adulta e, em princípio, preparada para a vida em sociedade, reage como nossos ancestrais que viviam em cavernas, agrupados em reduzidos grupos. Qualquer desconhecido era tratado como intruso, portanto, perigoso. E tome flechada!

Esse comportamento de desconfiança selvagem deve poder explicar notícias que surgem dia sim, outro também, de brigas de tráfego que terminam em tiroteio com mortos. É que muitos cidadãos saem hoje às ruas armados como se vivêssemos na Idade Média. Naquela época, carregava-se a espada e a clava, hoje leva-se arma de fogo – desembainhada mais facilmente que o porrete de mil anos atrás.

O eixo violência <—> sedentarismo é mais que simples relação de causa a efeito. Na verdade, se estendemos o raciocínio ao exposto acima, temos um círculo vicioso, em que a violência favorece o sedentarismo, o sedentarismo favorece comportamentos associais, e comportamentos associais reforçam a percepção de violência.

Violência —>  Sedentarismo —> Associabilidade —> Violência

E a corrente está formada, um caminho em que cada elemento alimenta o seguinte, formando um círculo fechado, autoalimentado e difícil de ser rompido: um círculo vicioso.

Nada é impossível, mas a ruptura desse esquema infernal periga não acontecer a curto prazo.

O legado de Trump: a nacionalidade em xeque

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 julho 2025

Pode parecer cedo, passados apenas seis meses de governo, para falar em legado da presidência de Donald Trump. Há ainda um longo caminho até o término de seu mandato, e o cenário político dos Estados Unidos anda por demais volátil. No entanto, mesmo nesse estágio inicial, já se delineiam traços que provavelmente marcarão de forma duradoura a história americana, chegando a influenciar outros países nas décadas por vir.

Trump ascendeu à presidência com um discurso duro, inflamado e nacionalista, sustentado por métodos políticos pouco ortodoxos. Seus modos abrutalhados, frequentemente à margem de práticas diplomáticas e institucionais, têm deixado marca em diversos setores da vida pública americana. O estilo de governo que impõe, centralizador e inflexível com o dissenso, é próprio de quem detém grande poder e não hesita em usá-lo até os limites – por vezes, além deles.

Espera-se, naturalmente, que esse modo de governar não vire padrão. Imagina-se – e deseja-se – que futuros presidentes dos EUA abandonem a mão pesada que Trump tem imprimido à condução do Executivo. Ainda assim, seu impacto não se limitará ao tempo presente. Em alguns aspectos, pode vir a alterar, de maneira profunda, os próprios fundamentos da cidadania americana.

Um desses aspectos é o princípio de jus soli, o direito à nacionalidade pelo local de nascimento. Embora esse conceito esteja hoje solidamente ancorado na Constituição e na cultura dos EUA, já se vislumbram sinais de que esse alicerce pode ser abalado. Os discursos e ações do presidente em relação aos imigrantes, estudantes estrangeiros e visitantes forasteiros não deixam dúvidas: o ideal de uma América aberta a quem nasce em seu solo está sob ameaça.

O jus soli – princípio segundo o qual basta nascer em território nacional para adquirir automaticamente a cidadania – é uma peculiaridade de poucos países, quase todos situados no continente americano. A razão é histórica. Quando as colônias europeias das Américas se tornaram independentes, foi necessário estabelecer critérios para definir a cidadania de cada indivíduo. Como resultado, adotou-se majoritariamente o princípio da territorialidade.

Nos Estados Unidos, o jus soli foi consagrado na 14ª Emenda à Constituição, aprovada em 1868, após a Guerra Civil, para garantir cidadania aos filhos de escravos alforriados nascidos em solo americano. Desde então, essa norma se manteve, intocada. Países como o Brasil e praticamente todos os ibero-americanos valeram-se de regra semelhante para embasar sua política de nacionalidade.

Mas o governo Trump reintroduziu no debate político americano ideias há muito marginalizadas: o nacionalismo étnico, o apego a jus sanguinis (nacionalidade por filiação sanguínea) e a noção de que a cidadania deve ser um privilégio concedido, não um direito automático. O uso frequente de expressões como “raça americana” e a valorização de uma “herança nacional” restritiva dão pistas claras do caminho que Trump e seus apoiadores gostariam de seguir.

Se esse rumo se consolidar, os efeitos perigam se tornar profundos e duradouros. A revogação do jus soli representaria não apenas uma mudança legal, mas uma transformação simbólica na identidade americana. Os Estados Unidos deixariam de ser a terra de oportunidades acessível a todos para se tornarem uma comunidade fechada, definida por laços de sangue, e não mais por um contrato social baseado na inclusão e na integração.

Mais inquietante ainda é a possibilidade real de esse modelo ser exportado. A história demonstra que movimentos políticos nos Estados Unidos frequentemente repercutem em outras partes do mundo, especialmente nas Américas. Não seria impensável, portanto, que o Brasil viesse a seguir o mesmo caminho num futuro não muito distante.

Hoje, a Constituição brasileira garante a cidadania a qualquer pessoa nascida no território nacional, ainda que de pais estrangeiros. Mas num país ao qual imigrantes já não acorrem em massa, e onde o tema da identidade nacional volta e meia é instrumentalizado politicamente, uma eventual mudança nesse sentido poderia passar quase despercebida. A substituição de jus soli por jus sanguinis não afetaria a maioria da população no curto prazo, o que tornaria a transição mais palatável – em todo caso, menos exposta a contestação.

Assim, o legado de Trump pode se estender muito além de suas fronteiras e de seu tempo na presidência. Ao desafiar princípios centrais do ideal democrático americano, o ex-presidente contribui para o enfraquecimento de valores universais como a inclusão, a igualdade e o direito de pertencer. Se a cidadania passar a ser tratada como um privilégio hereditário, não como um direito civil, estaremos diante de uma regressão histórica cujas consequências serão sentidas por gerações.