Tudo o que é demais…

José Horta Manzano

Estava observando o número de seguidores de certas personalidades da internet. É pra lá de impressionante: chega a ser estonteante. Tem gente – artistas, influenciadores, políticos, esportistas – que exibe incontáveis seguidores. São 60 milhões para fulano, 95 milhões para sicrano, 130 milhões para beltrano.

De repente, a gente pára e faz as contas. Adicionando todas essas centenas de milhões de fãs, chega-se a um total que equivale a muitíssimas vezes a população do país, incluindo recém-nascidos e anciãos. Conclusão: cada seguidor está inscrito em mais de um, quiçá em dezenas de canais.

Agora vem a pergunta: será que cada um desses fãs lê, sem falta, todas as postagens de todos os canais em que está inscrito?

A meu ver, é praticamente impossível. Passar o dia (e a noite) olhos grudados na telinha não seria suficiente pra ler tudo de verdade, sem deixar escapar nada.

Ao fim e ao cabo, conclui-se que tomar como base o número de seguidores de cada personalidade é uma informação que deve ser estudada com grande precaução. Cada postagem daquele que tem 70 milhões de fãs não será necessariamente lida por 70 milhões de assinantes. O número de verdadeiros seguidores assíduos é infinitamente mais baixo.

E isso significa o quê? Significa que o alcance verdadeiro da influência deste ou daquele artista (ou esportista, ou político) é certamente bem mais modesto do que pode parecer à primeira vista.

Além disso, a influência de cada personalidade se dilui no caldeirão onde borbulham tantas influências vindas de tantas bocas. O balanço final das diversas influências periga se anular.

O bombardeio de opiniões é superior à capacidade de absorção dos seguidores. Tudo o que é demais enjoa.

Fetichismo

A Folha de São Paulo esqueceu que a cidade do Porto pede artigo. Sempre. Não se deve dizer “em Porto”, mas no Porto”. Quanto à Irmandade, ela não é “vunerável”, mas venerável.

 

José Horta Manzano

Um miocárdio que passou dois séculos mergulhado em formol há de interessar médicos-legistas e estudantes de medicina. Talvez biólogos e estudiosos de paleomedicina também encontrem nele algum encanto. Já para o distinto público leigo, é outra coisa. Eu me pergunto o que move um cidadão que decide sair de casa e fazer fila pra admirar o coração de D. Pedro I, o defensor perpétuo do Brasil, morto há 188 anos.

A prática de arrancar o coração de um cadáver antes de enterrá-lo já me parece um atentado ao respeito que se deve aos mortos, uma idéia estrambótica digna de filme de terror. Ao organizar uma viagem transatlântica dos despojos do imperador – com o único objetivo de animar a festa dos 200 anos de independência –, atingimos os píncaros de um fetichismo doentio.

O costume de prestar reverência a objetos que tenham sido um dia tocados pelas augustas mãos de Sua Majestade Imperial já me incomoda. Pasmar diante de um resto de seu cadáver me parece o fim da picada. Enlouqueceram todos: os que tiveram a ideia de trazer a “relíquia”, os que anuíram em cedê-la e os que vão se abalar a admirá-la.

Guardar as tripas do falecido durante dois séculos e fazê-las atravessar o oceano para exibição aos plebeus? Que fizessem vir a pluma com que D. Pedro escreveu ao pai anunciando que a pátria-mãe acabava de perder as colônias sul-americanas. Isso, sim, seria simbólico. Mas… o coração?

Bolsonaro se engana ao tentar fazer uso político dos destroços do imperador para afagar sua galera neopentecostal. Escapulários, relíquias, ex-votos e quetais são exclusividade da Igreja Católica. Os evangélicos, menos apegados a genuflexões e a práticas fetichistas, perigam não apreciar.

Pedras da fome

José Horta Manzano

Você sabia?

As mudanças climáticas, que enfrentam o negacionismo de gente desinformada ou de má-fé, têm se acelerado neste século. Situações que se previa fossem ocorrer por volta do ano 2050 estão ocorrendo agora.

O Hemisfério Norte, que concentra 2/3 das terras emersas, tem sofrido particularmente nesse sentido. Episódios climáticos extremos, que costumavam aparecer de raro em raro, têm-se tornado frequentes, quase corriqueiros. Chuvas de proporções bíblicas, calores saarianos, furacões, gigantescos incêndios florestais e secas catastróficas se sucedem.

Este ano, o calor e a seca têm castigado a Europa Ocidental. Paris, Berlim, Milão e até a brumosa Londres tiveram seus dias de 40° de temperatura. Em toda a região, a seca começou em junho e dura até agora. Não tem praticamente chovido, a não ser uma garoinha aqui, outra ali.

Agricultores estão perdendo a colheita, o gado já não tem o que comer. Lagos estão secos. Numerosos rios estão com um filete d’água. O Rio Reno, importante via de transporte fluvial, está com restrições de navegação devido à altura da água, que não dá calado. Até a nascente do Rio Tâmisa, atração turística da Inglaterra, secou. Na França, muitas cidadezinhas estão sendo abastecidas por caminhão pipa, pois água não há. Na Suíça, diversos lagos completamente secos se transformaram num gramado.

Tirando o dramático da coisa, aparece o lado pitoresco. “Pedras da fome”, surgidas do passado, estão reemergindo. Essa curiosa expressão designa pedras de beira de rio que, em tempos normais, ficam invisíveis, abaixo do nível da água. Nos anos de grande seca, apareciam. Os antigos então esculpiam e traçavam uma linha para mostrar o nível mínimo a que as águas chegaram. É que, na Idade Média (e até não faz muito tempo), falta d’água era sinônimo de colheitas perdidas e, no final, de morte por inanição. Naquele tempo, não dava pra importar alimento por via aérea do outro lado do mundo. Não havia meio de transporte. Cada vilarejo tinha de se virar com o que a terra dava.

Já se conheciam algumas “pedras da fome”. Este ano, com a baixa de nível dos rios, numerosas outras vêm sendo descobertas. A pedra mais antiga que se conhece foi esculpida em 1417. Outras são mais recentes. Muitas estão sendo gravadas este ano. Assim que o nível das águas faz surgir nova pedra, o ano de 2022 é esculpido.

Na pedra da fome que aparece na ilustração, gravada séculos atrás, está escrito: “Wenn du mich siehst, dann weine” – se você me vir, chore!

Não há ateus na política

Eduardo Affonso (*)

Demonstrações oportunistas de fé no Altíssimo e apreço à baixa gastronomia são tão tradicionais nas campanhas políticas quanto a troca de ofensas entre os novos adversários e de afagos entre os ofendidos na eleição passada.

Deus é testemunha de que, no Estado laico em que vivemos, campanha que se preze tem de ter candidato comendo pastel de feira e/ou em pose contrita – sempre de joelhos, se possível de mãos postas –, invocando a intercessão divina para ganhar mais voto do que peso. Pode até haver ateus em aviões que despencam – na propaganda eleitoral, jamais.

Tecnicamente, Estado e Igreja estão separados no Brasil desde 1891. Mas a atual Constituição foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Nas cédulas, há a recomendação de que “Deus seja louvado”. O presidente de turno chegou ao poder com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. É um Deus nos acuda em tempo integral.

Para fazer jus à cidadania brasileira, o Todo-Poderoso teve de se licenciar de suas inefáveis funções e virar cabo eleitoral na peleja de 2022. Ele se sentirá em casa por estar, desde a queda de Lúcifer, engajado nessa luta do Bem contra o Mal. A diferença é que, aqui, o Mal tem o dom da bilocação – está ao mesmo tempo nos dois cantos do ringue.

Michelle Bolsonaro tem dito que “o Brasil é do Senhor”, que “Deus tem promessas para o Brasil”, que “aquele lugar [o Palácio do Planalto] era consagrado a demônios”. Como o inferno são os outros, para Lula, “se há alguém possuído pelo demônio, é esse Bolsonaro”.

O petista atacou o uso da religião por parte de seu oponente: “É heresia falar o nome de Deus em vão como fala esse cidadão (…) que está mais para fariseu que para cristão”. Contudo se permitiu pregar: “A gente tem que olhar a Bíblia e ela tem que ser cumprida”. A que preceitos bíblicos estará se referindo? Aos que punem a homossexualidade e mandam apedrejar mulheres que não chegam virgens ao casamento? Aos mandamentos que condenam o roubo, o falso testemunho? Deve-se obediência coletiva a livros sagrados apenas nas teocracias – o que não é o caso. Porém levantamento feito pelo GLOBO revela que são 902 os candidatos que se declararam sacerdotes ou integrantes de ordem ou seita religiosa – um quarto a mais que em 2018. Majoritariamente evangélicos, vêm reforçar a bancada do dízimo – conservadora e pouco sensível a questões ligadas à laicidade do Estado ou à tolerância para com a fé alheia.

Rezam as feiquenius difundidas por bolsonaristas que, em caso de vitória do PT, “brasileiros serão impedidos de falar em Deus” (restrição que viria a calhar em relação aos que exercem cargos públicos) e que “templos serão fechados”. Interditar estabelecimentos caça-níqueis, que enriquecem os empresários da fé com “doações” obtidas mediante fraude, venda de caneta ungida (para passar em concurso) e de grão de feijão que cura Covid-19 seria uma ação legítima contra o estelionato. Mas, para dar cabo dos vendilhões do templo, só Jesus na causa.

Quando se faz o diabo para conseguir votos, lambuzar-se na gordurama do pastel de feira por puro populismo chega a ser um pecado menor.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Vias de fato

Sempre alerta, a mídia europeia não deixou passar a refrega

José Horta Manzano

“Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” – foram as palavras amáveis dirigidas ao capitão por um “youtuber de direita”, seja lá o que isso queira dizer. Na atualidade, todo cidadão faz obrigatoriamente jus a uma etiqueta a especificar se ele é do bem ou do mal, de Jesus ou de Belzebu.

Em tempos mais gentis que o atual, os epítetos lançados ao presidente seriam inadmissíveis, inconcebíveis. No entanto, desde que Bolsonaro vestiu a faixa, a civilidade foi pro espaço. Hoje em dia, nem aqueles palavrões cabeludos que a gente tinha vergonha de pronunciar chocam mais. Que saiam da boca de um cidadão qualquer ou até do presidente da República(!), o efeito é nulo. Nenhum frisson. Expressões de calão entraram para a conversa corriqueira.

Assim mesmo, é menos comum assistir-se à cena de um presidente se atracar fisicamente com um cidadão pelo motivo de ter escutado qualificativos que não lhe agradaram. Já fiquei sabendo de coronéis e deputados que se comportaram assim. De um presidente, principalmente quando está em campanha de reeleição, é mais raro.

Pensando bem, as palavras utilizadas pelo rapaz refletem a pura verdade. Nua, crua e sem retoques. “Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” é excelente resumo da personalidade presidencial. Ou não?

Mas dá pra entender a razão pela qual o capitão se sentiu tão à vontade pra rodar a baiana no meio da rua. Em primeiro lugar, o interlocutor era baixo e franzino. Em seguida, Bolsonaro estava rodeado daqueles agentes tamanho leão de chácara. Nessas condições, até eu me aventuraria a abordar fisicamente o “ofensor”.

Queria ver se a macheza seria a mesma caso os seguranças não estivessem ali e o “youtuber de direita” fosse do tamanho daquele deputado anabolizado, aquele que foi condenado à masmorra e salvo pela graça presidencial. Não tenho certeza de que Sua Excelência encararia, peito aberto.

Se eu fosse o youtuber agredido, não hesitaria em dar parte na polícia por ter sido vítima de vias de fato – em reação desproporcionada a mera interpelação verbal.

Mudança de alvo

José Horta Manzano

Nós, os brasileiros menos fanáticos e mais esclarecidos, estamos torcendo para que as eleições de outubro devolvam o capitão de volta ao lar de onde nunca deveria ter saído. Isso é ponto pacífico.

Se dependesse de mim, o substituto na Presidência não seria Lula nem Ciro. Boto mais fé na Simone Tebet. Me parece a mais equilibrada e bem intencionada de todos. Mas o resultado não depende de mim, portanto o jeito é continuar torcendo.

Do jeito que as coisas vão, o páreo será decidido entre Lula e o capitão. Há que ser realista: os demais candidatos não parecem ter estofo nem fôlego para aguentar até a meta de chegada.

Nós, que frequentemente comentamos a vida nacional – com ênfase naqueles que nos governam –, temos um motivo a mais para torcer pela derrota do presidente atual. Estou farto de malhar o capitão! E acredito que muitos escribas também estejam.

Afinal, são quatro anos de observação desse horror. No começo, a gente imaginava que o homem fosse apenas um desequilibrado inofensivo, o que se dizia antigamente um “louco manso”. O tempo nos fez entender que, por detrás do desequilíbrio, havia um projeto pra valer. Não vejo a hora que a apuração indique a vitória de outro candidato – que, com grande possibilidade, será o Lula.

Estive fazendo um rápido levantamento dos 5.300 posts que já publiquei neste blogue. Contei o número de artigos em que o nome do Lula foi mencionado nestes últimos anos. No período de 4 anos que corre de 2018 a 2022, seu nome apareceu em 20 artigos, o que dá uma média de 5 vezes por ano.

Em seguida, contei quantas vezes o nome do mesmo Lula foi mencionado unicamente no ano de 2013 (quando já nem mais presidente era). Deu 72 vezes, num ano só, numa média de 6 artigos por mês. Uma festa!

Cansado de malhar o capitão, torço para que o Lula tome seu lugar. As críticas contra o novo presidente vão continuar fluindo, mas uma mudança de alvo é sempre bem-vinda.

A torcida

José Horta Manzano

Fora dos EUA, o antigo presidente Donald Trump era visto como uma espécie de palhaço. Seu comportamento de elefante em loja de cristais incomodava. Só que tem uma coisa: ele era palhaço, mas um palhaço com exército e bomba atômica. São argumentos fortes que impõem respeito.

Em nosso triste Brasil, temos um presidente que tenta, há quase quatro anos, seguir a cartilha de Trump. Como se sabe, as mesmas causas costumam produzir os mesmos efeitos. Assim, não deu outra: no exterior, Bolsonaro também é visto como palhaço. Só que… um palhaço sem bomba atômica, fato que deixa todo o mundo à vontade, língua destravada.

Em meio século de vivência no exterior, acompanhei numerosas campanhas eleitorais e eleições presidenciais. Naqueles tempos pré-internet, pra saber como iam as coisas em Pindorama, o único jeito era pedir a alguém que mandasse uma revista ou um jornal pelo correio. Com quinze dias de atraso, a gente se atualizava.

Hoje, com internet, a informação circula com a velocidade do raio. No entanto, vale contar que, mesmo que não tivessem inventado a rede, não haveria mais necessidade de encomendar revista. De fato, a mídia europeia passou a se interessar de perto pelas peripécias eleitorais do Brasil.

Dado que, até poucos anos atrás, havia pouquíssimo interesse pelos acontecimentos brasileiros, acredito que o fervor atual seja um “efeito Bolsonaro”. Os estrangeiros, que não dependem de auxílio nem de cesta básica, são mais propensos a ver as coisas como elas são, despojadas da cosmética eleitoreira.

Ainda hoje, o rádio informou do início oficial da campanha eleitoral no Brasil. Contaram até como foi o primeiro dia de cada um dos integrantes da dupla mais cotada – Lula e Bolsonaro. Com ênfase neste último, naturalmente. Até uma parte do discurso do capitão foi transmitida, com tradução simultânea, veja só.

Em outros tempos, a gente se sentiria até orgulhoso – veja como nosso país ficou importante! Só campanha eleitoral nos EUA e nos países da Europa Ocidental costumavam atrair a atenção. Infelizmente, sabe-se que o Brasil não ficou importante de repente. O mal é a ameaça representada por Bolsonaro, estranho dirigente que trabalha contra seu país e seu povo. Vem daí o interesse internacional.

Não são só os brasileiros decentes que não veem a hora de se livrar do Capitão Tragédia. Não estamos sós. O mundo decente está ao nosso lado, na torcida. Infelizmente, essa massa de gente de boa vontade não vota no Brasil. Mas sabe fazer pressão. A ameaça de golpe vai arrefecendo. No final, que vença o que tiver mais votos. Mas sem golpe.

Em francês

Em inglês

Em italiano

Em sueco

Em espanhol

Em alemão

Mundo

José Horta Manzano

Veio ao mundo numa família pra lá de modesta. Esforçado, conseguiu superar as dificuldades. Ao fim da adolescência, ganhou o mundo. Com trabalho e boa dose de sorte, chegou a poupar um pouco. Não era um mundo de dinheiro, mas dava pro gasto. Afinal, economizar um pouquinho não é nada do outro mundo.

Em momentos de folga, enquanto outros deixavam o espírito vagar no mundo da lua, ele sonhava em viajar, correr mundo. Para concretizar o sonho, havia de mover mundos e fundos sem se deixar distrair. E seguiu a boa receita: sempre correto, passou ao largo de toda tentação do baixo mundo.

Assim que a poupança atingiu o montante necessário, comprou uma passagem de avião e caiu no mundo. Pra deixar amigos e conhecidos com água na boca, contou a novidade pra meio mundo. Em suas viagens, o que mais apreciou foi o Velho Mundo. Não se sentia atraído por países do Terceiro Mundo – sempre preferiu os do Primeiro Mundo.

Mesmo assim, ladrão há por toda parte. Um dia, foi assaltado. Levaram-lhe dinheiro vivo, cartões de crédito, passaporte e toda a bagagem – perda total. Seu mundo veio abaixo.

Precisou pedir asilo na embaixada, que o acolheu gelidamente. Com muita vergonha, foi obrigado a aceitar a passagem de retorno que lhe ofereciam. Voltou com uma mão na frente, outra nas costas. O pior mesmo foi quando todo o mundo ficou sabendo. O final da aventura foi melancólico. No aeroporto, em vez de um mundaréu de gente, não havia um gato pingado pra abraçá-lo. Mundo cruel…

Brincando de candidato

José Horta Manzano

Na hora de votar, paulistas e paulistanos são gente pouco preconceituosa. Não costumam ser mesquinhos. A capital já elegeu prefeitos cariocas (Faria Lima, Celso Pitta), uma prefeita vinda da Paraíba (Luíza Erundina), um mato-grossense (Jânio Quadros). Este último, aliás, antes de chegar à Presidência da República, foi governador dos paulistas durante quatro anos, eleito pelo voto direto. Lembremos que Fernando Henrique, o carioca que viria mais tarde a presidir o Brasil, também foi senador por São Paulo durante oito anos.

Paulistas não gostam é de ver gente que só conhece o estado de ouvir falar se apresentando como “profundo conhecedor” da terra dos bandeirantes. Vez por outra, aparece algum político que, não se sabe por que razão, se recusa a subir um degrau após o outro e prefere ser lançado de paraquedas pra pousar logo no topo da escala.

Não faz muito tempo, o paranaense Sergio Moro arrumou um endereço fantasma e, numa burla às regras, tentou inscrever-se como candidato ao Senado pelo estado de São Paulo. Foi apanhado e caiu do cavalo. Conhecia pouco ou quase nada do estado.

Temos agora o caso do doutor Tarcísio de Freitas, candidato do bolsonarismo ao governo paulista. Nascido do Rio e tendo passado boa parte de sua vida em Brasília, ele tem tanta intimidade com o estado de SP quanto você, distinto leitor, tem com a Mongólia. Pra quem nunca ouviu falar desse senhor, foi diretor de autarquia nomeado no governo Dilma, em seguida ministro nomeado por Bolsonaro. Costumava aparecer na garupa do presidente em alguns passeios de moto à la Mussolini.

A jornalista Bela Megale relata, em artigo d’O Globo, que senhor Freitas caminhava outro dia pelas ruas de Osasco (grande SP), quando um popular lhe perguntou se conhecia o estado. “Conheço mais que paulista” – foi a resposta, petulante e grosseira, ao melhor estilo bolsonarista.

O artigo nos informa também que, antes de bater o martelo, senhor Freitas relutava em aceitar a candidatura à governança de São Paulo, como lhe exigia o capitão. Em vez de candidatar-se a governador por um estado que não conhece, teria preferido representar o estado de Goiás no Congresso, o que lhe permitiria levar vida tranquila e continuar residindo em Brasília. No final, a pressão presidencial foi tamanha que, bom devoto, cedeu.

Agora chegamos ao ponto. Como eu dizia na entrada, não é questão de mesquinharia nem de rejeição ao forasteiro. O que os paulistas teriam preferido era um candidato com raízes no estado, pouco importando seu lugar de nascimento. Afinal, os 46 milhões de habitantes de São Paulo equivalem à inteira população da Espanha ou da Argentina. Se o estado fosse uma nação independente, seu PIB a situaria entre as 20 maiores economias do planeta.

Diga-me agora se é normal que a governança de uma massa de gente e de bens de tal magnitude seja entregue nas mãos de um indivíduo que, além de mal conhecer o estado, carece totalmente de experiência política? E que, ainda por cima, se candidatou de má vontade, só porque Seu Mestre mandou.

Governar o estado mais importante da União não é função para indivíduos desmotivados, que lá estão só porque o chefe insistiu.

Essa clique que se aglutina em torno da Presidência está tratando cargos políticos como bibelôs, que a gente escolhe na prateleira pensando em combinar com a cor da cortina da sala, manda embrulhar e leva embora. Os brasileiros merecem maior consideração.

11 de agosto

Ascânio Seleme (*)

Não adianta Bolsonaro e bolsonaristas reagirem com deboche ou ódio, o 11 de agosto entrou para a História como data nacional de repúdio à ditadura. Será comemorado daqui para sempre. Será lembrado como o dia do basta, o dia em que a sociedade civil tomou a si a defesa da democracia como bem maior da nação.

Os brasileiros fizeram o que seus representantes no Congresso não fazem por interesses privados e escusos: disseram não ao golpe e ao golpista.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

Cochilou

Chamada da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O autor da chamada cochilou. O escritor Salman Rushdie não é iraniano. Iraniano era o aiatolá Khomeini, que, em 1989, lançou sentença de morte sobre sua cabeça. A chamada do jornal confundiu sujeito e objeto.

Sir Ahmed Salman Rushdie nasceu em 1947 na cidade indiana de Bombaim, numa época em que a Índia integrava o Império Britânico. Cresceu na Índia e, jovem ainda, estabeleceu-se na Inglaterra.

Desde o ano 2000, vive nos EUA, país do qual adquiriu a nacionalidade em 2016. Tem, assim, as duas cidadanias: britânica e americana.

Passeata virtual

Brasileiros mobilizados para salvar a democracia
Le Temps, diário suíço de referência

José Horta Manzano

Não é só no Brasil que o capitão virou motivo de piada. Também na Europa, a menção de seu nome vem geralmente em tom de caçoada. Nosso presidente costuma ser visto como uma espécie de palhaço, mais ou menos na linha de outros dirigentes cômicos – como o líder da Coreia do Norte, por exemplo.

A Carta aos Brasileiros – verdadeira passeata virtual que reuniu mais de um milhão de participantes – foi noticiada com euforia por toda a mídia europeia. De redes sociais, não sei, mas rádios, tevês e jornais ecoaram o grito retumbante de um povo heroico.

É um alívio constatar que ainda há brasileiros pensantes e que importante naco da população parece ter acordado de um coma profundo. Vamos ver se dura.

A norma culta do futuro

Aldo L. Bizzocchi (*)

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

République bananière

 

José Horta Manzano

“Mas… de onde saiu essa gente?” – é a pergunta que se faz desde que o capitão vestiu a faixa. De onde vem esse povo estranho que cerca o presidente, gente desprovida de inteligência, de bom senso e de lógica, sempre com quatro pedras no bolso e uma faca entre os dentes? Onde se escondiam antes? Como é que passaram despercebidos até chegar ao entorno de Seu Mestre?

Todos os jornais da França, sem exceção, reproduziram a inacreditável fala de Sua Excelência Guedes, ministro-chave desta República, que ousou apontar o dedo para a França e declarar que ela estava “ficando irrelevante para nós”.

O trecho do discurso em que o ministro chantageia o tradicional parceiro do Brasil e o ameaça de “irrelevância”caso não cessem as críticas sobre o desmatamento da Amazônia foi estampado em todos os jornais. Até o palavrão (coisa fina, Guedes!) sujou o papel. Fico aqui imaginando a incredulidade que marcou a expressão dos leitores, gente pouco habituada ao baixo nível da fala de Guedes. Talvez o ministro nem desconfie, mas francês é um povo que lê.

Falando nisso, muitos dados importantes sobre o comércio exterior brasileiro devem estar escapando a nosso bizarro ministro. Levantamento do Estadão mostra que, segundo dados fornecidos pela embaixada da França em Brasília, há 1.042 empresas francesas instaladas em nosso país, que dão emprego a 471.784 funcionários e atingem um volume anual de negócios de 66,1 bilhões de euros (R$ 350 bi).

No ano de 2020, com um volume de 32,3 bilhões de dólares (R$ 165.3 bi) a França foi o terceiro investidor estrangeiro no Brasil, atrás apenas dos EUA e da Espanha. Agora vem o dado mais interessante: enquanto a França ocupa o 11° lugar entre todos os países que vendem para o Brasil, o Brasil ocupa o 36° lugar entre todos os países que vendem para a França.

Tenho o dever de contradizer o ministro e informá-lo de que, no ponto em que estamos, é o Brasil que se está tornando irrelevante para a França, não o contrário. Sem as importações do Brasil, a França poderia continuar funcionando sem sobressaltos. Já sem as importações da França, o Brasil teria problemas.

É verdade que Paulo Guedes é reincidente. Já reclamou do horror que seria ter de viajar de avião ao lado de uma empregada doméstica; já deixou claro que lugar de filho de porteiro não é na faculdade; já insultou a primeira-dama da França ao dizer (em discurso público) que ela era feia mesmo. Tudo isso é verdade.

É verdade que ele é tolo, arrogante, boca-suja, inconsequente, imbuído da própria importância. Só que tem uma coisa: se seu chefe fosse um outro presidente que não Bolsonaro, sua soberba e essa sujeira que lhe sai pela boca ficariam quietinhas, guardadas no fundo de uma gaveta e trancadas a sete chaves. Se abre as asinhas e se comporta como se discursasse para bêbados num botequim, é porque se integrou no time presidencial e absorveu os princípios éticos e morais em vigor no Planalto.

Senhor Guedes acaba de dar excelente contribuição para cristalizar, aos olhos europeus, a imagem do Brasil como legítima república de bananas.

No Brasil, sua fala já saiu das manchetes e faz parte do passado; na França, há de marcar nossa imagem por décadas.

Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

Como é que é? Vosmicê ainda não assinou? Corra, que amanhã já é o dia da leitura oficial da carta. Não deixe passar a oportunidade de fazer parte oficial da História do Brasil.


Neste 10 de agosto,
o total de adesões está batendo nos

850.000  cidadãos!


 

Não sabe onde assinar? É por aqui:

https://estadodedireitosempre.com

Sabonete Lever e… democracia

José Horta Manzano

Quando eu era criança (faz muito tempo), muito anúncio de sabonete aparecia em rádio, jornal e revista. As marcas mais conhecidas – algumas hoje desaparecidas – eram: Palmolive, Eucalol, Gessy, Phebo, Lifebuoy. E também o conhecido Lever, o “sabonete das estrelas”, que um dia passou a chamar-se Lux.

Esse Lever se gabava de ser usado por 9 entre 10 estrelas do cinema. (Que se saiba, o fabricante nunca publicou pesquisa feita por instituto sério para embasar a afirmação.) Já este blogueiro, que nunca teve vocação pra acreditar em tudo o que se diz, ficava a matutar: “Mas qual será a marca usada pela estrela que, numa amostragem de 10, recusa o Lever?”.

Estes dias, tive notícia de uma pesquisa levada a cabo pela Fundação Tide Setúbal. Mais de 400 empresários brasileiros foram entrevistados e responderam a uma lista de questões. Note-se que eles provêm de empresas grandes e pequenas, de todas as regiões do país. Representam toda a paleta: comércio, indústria e serviços. Segue um apanhado da sondagem.

Democracia
Forte maioria deles (82%) concorda que a democracia, ainda que imperfeita, é preferível a qualquer outro sistema de governo.

Tortura
Uma pergunta era concernente à tortura: 82,5% dos entrevistados repeliu o emprego de tal violência, independentemente das circunstâncias.

Autocracia
Indagados se achavam que, em situação de crise, seria justificável que o presidente da República fechasse o Congresso e governasse sozinho, 55% repudiaram vigorosamente essa solução.


Agora vamos voltar à brecha aberta pelo velho sabonete Lever. Como em toda sondagem, uns concordam com isto, outros discordam daquilo. Voltemos à pesquisa em pauta e analisemos o outro lado da medalha.


Democracia
Considerável fatia dos entrevistados (18%) prefere um sistema de governo diferente da democracia. A pesquisa não perguntou qual era esse regime, mas é lícito supor que 18% dos empresários dão preferência a um regime ditatorial. Não está longe de 1 em cada 5 empresários.

Tortura
De novo, quase 1 em cada 5 empresários (17,5% dos pesquisados) não vê nenhum inconveniente em empregar a tortura em determinadas situações. A pesquisa não perguntou quem teria o poder de utilizar esse método brutal. O carcereiro na cadeia pra corrigir um preso indisciplinado? O policial na delegacia pra extorquir uma confissão? O dirigente de empresa dentro da fábrica pra dar uma lição nos representantes sindicais? O pai de família no quartinho dos fundos pra corrigir o filho rebelde ou a empregada respondona?

Autocracia
Esta parece pior que as demais. Dos empresários entrevistados, 45% acham normal que, em situação de crise, o Congresso seja extinto e que plenos poderes sejam dados ao presidente da República. Não ficou claro o significado de “situação de crise” mas, seja como for, o Congresso abriga os representantes do povo. Fechar essa instituição equivale a curto-circuitar a população e dar plenos poderes à panelinha que constitui o Executivo. Quase metade dos empresários não vê nenhum mal nisso.


Se a pesquisa tiver sido bem conduzida – e tudo indica que foi – a paisagem do empresariado nacional é aterradora. Porção significativa de grandes e pequenos empresários encara a tortura, a autocracia e a ausência de democracia como situações aceitáveis, pra não dizer desejáveis.


A conclusão a que se chega é que o país vai mal mesmo. Pior do que se imaginava. A disposição do empresariado diante dessas três questões concretas é estonteante. Se a pesquisa tivesse sido feita num reduto de devotos do capitão, não se esperaria outro resultado. Agora, de uma amostragem variada de empresários, é de dar vertigem.

Com um empresariado assim, falta muito pouco pra batermos no fundo do poço.