Espaço de liderança

José Horta Manzano

Ao ler a chamada que estampo acima, fiquei pensativo. Quem lê essas palavras pode até ficar com a impressão de que o “espaço de liderança” do Brasil – seja lá o que isso possa significar – está sendo atacado e que necessita ser defendido. Esse raciocínio nos leva direto à doutrina Lulamorim, que divide o mundo em dois enormes grupos de países.

De um lado, estão os EUA e seus aliados, malvados que querem dominar o mundo à custa dos países atrasados. De outro, está o resto do mundo, um amálgama de países díspares, que vão da enorme China ao minúsculo Timor Leste, da rica Arábia Saudita ao paupérrimo Haiti.

Se a chamada do jornal tivesse sido fabricada na gráfica do Planalto, sairia nos mesmos termos. A filosofia do coitadismo está aí, resumida em uma dúzia de palavras: atacado, coitado, o Brasil precisa de um líder (no caso, Lula) para defendê-lo.

Essa dúzia de palavras toma o problema pelo avesso. O espaço de liderança de um país não se decide com discursos na ONU, ainda que pronunciados à frente daqueles belíssimos blocos de granito verde. Aquele recinto não foi feito para esse tipo de pleito. Dos que sobem àquele púlpito, esperam-se palavras que evoquem e encoragem a boa convivência entre os povos. Eventuais boas notícias sobre avanço sanitário e educacional de cada um também são bem-vindas.

Não faz sentido subir àquele pódio para defender o Brasil de ataques que fraudam nossa hipotética liderança onde quer que seja. Liderança não é medalha concedida pela ONU. A conquista da liderança é fruto de uma sequência de ações que vão firmando o Brasil como país estável, confiável e líder em algum tema ou em alguma região: aquele que segura as rédeas e dá as cartas.

Essas ações não estão sendo empreendidas. Olhando para trás no tempo, faz quase sete anos que o governo brasileiro “pedala pra trás” em política externa – tanto regional quanto internacional. Com o capitão, foram quatro anos de esforço continuado para nos levar à condição de pária internacional, status que quase alcançamos.

Desde que o imobilismo lulopetista, sincronizado com a doutrina de Celso Amorim, voltou ao poder, temos nadado de braçada para alcançar a outra margem, aquela que não é a nossa, e onde nos sentimos estrangeiros. Temos tentado, a todo custo, nos afastar do Atlântico, berço civilizatório de onde provêm os povos que constituem nossa nação, para tentar nos ancorar na margem das ditaduras e dos regimes ferozes. Que não combinam com nossos ideais de democracia.

Aproximação com Putin, desprezo da agredida Ucrânia, apoio envergonhado ao Hamas, apoio inabalável e indisfarçado a Maduro – esses são os atos que nos afastam de uma almejada liderança regional. Se pretendesse ser a locomotiva à qual se engatam todos os países vizinhos, o Brasil teria de se comportar com maior clareza e, sobretudo, com menos parcialidade.

Lula dirá e fará o que acha que tem de dizer e fazer em Nova York. Ao fim e ao cabo, porém, vai acabar se dando conta de que a liderança começa por um dever de casa benfeito. Nesse quesito, não são só as arestas que precisam ser aparadas – é hora de sentarem-se em volta de uma mesa e repensarem a política exterior brasileira, que tem sido tratada a sopapos.

Os nomes do capitão

José Horta Manzano

Exatamente dois anos atrás, em setembro de 2022, compilei uma lista de adjetivos que me pareceram combinar bem com a personalidade do então presidente de nossa República.

O tempo passou, o presidente perdeu o trono, mas a lista ficou aí, nunca usada, à espera de novo manequim em que pudesse servir. Até hoje, a novidade política que mais lembra o velho capitão apareceu brusco como boneco de mola que assusta ao saltar fora de uma caixinha-surpresa: chama-se Pablo Marçal.

Rios de tinta têm sido gastos para dar conta da novidade. Os comentários da imprensa séria nem sempre são complacentes, antes, são nitidamente críticos dos métodos pérfidos do rapaz que, sob a aparência de “bom capiau semiletrado e inofensivo”, esconde um espírito viperino, exatamente como cobra pronta a atacar à traição.

Não, os adjetivos que cabem em Bolsonaro não servem obrigatoriamente para o “influenciador”, não dão bom caimento. A diferença é que Bolsonaro, o original, cobre toda a gama, de “tolo” a “pedaço-d’asno”. Já o hoje candidato a prefeito de São Paulo não passa de pálida imitação. Não corresponde a toda essa renca de qualificativos.

Veja bem, o “influenciador” pode até ser mais perigoso que o ex-presidente, mas aqui estamos falando de adjetivos que cabem ou deixam de caber. Este escrito não tem pretensão de ir além.

Aqui estão os quarenta e poucos adjetivos que selecionei para Bolsonaro (Primeiro e único).

Alofo
Animalejo
Babaca
Babaquara
Besta quadrada
Boçal
Bordalengo
Bronco
Bufão
Cepo
Charro
Chavasco
Coiçoeira
Lorpa
Madeiro
Maninelo
Modorro
Morcão
Néscio
Obtuso
Pábulo
Pacóvio
Palerma
Palonço
Palúrdio
Panal
Pancrácio
Papalvo
Parrado
Pascácio
Pasconço
Patau
Patego
Pateta
Patola
Patureba
Pedaço-d’asno
Simplório
Tacanho
Tanso
Tapado
Tolaz
Toleirão
Zamboa
Zote

A cadeirada

José Horta Manzano

Campanha eleitoral sempre foi, e continua sendo, um picadeiro. Dependendo do espírito do momento, pode ser picadeiro exposto à chuva, transformado em lamaçal. Pode também ser forrado de areia, material escolhido para contrastar com o sangue que aí vai se derramar. Pode ainda ser um tablado revestido de madeira, apto para salamaleques e contradanças elegantes. Esta última opção é menos frequente, convenhamos.

A atual corrida de acesso à cobiçada cadeira de prefeito da cidade de São Paulo tem passado ao largo do velho estilo “salão literário”, onde se trocam ideias e se apresentam propostas para cuidar os problemas da metrópole. Um candidato inesperado conseguiu, sozinho, impor seu tom e seu ritmo à campanha.

Trata-se de um forasteiro, vindo de Goiás. Não é a primeira vez que um candidato de outro estado concorre a esse cargo. Entre outros, o mato-grossense Jânio Quadros, a paraibana Luiza Erundina, o carioca Celso Pitta foram eleitos para o posto de prefeito paulistano. Entre os seis principais nomes da atual campanha, o candidato de nome Marçal é o único não paulista.

Mais que os demais, esse candidato deixa claro que seu maior objetivo não é propriamente assumir o governo da maior cidade do país e melhorar a vida de seus habitantes. Percebe-se que sua intenção é usar seu desempenho nas artes da internet para arrebanhar adeptos e aumentar sua fortuna, já hoje considerável.

Até ontem, estava eu longe de imaginar que viria a comentar fatos da campanha paulistana. Os anos passados longe acabam aumentado a distância física, que já é grande.

Mas hoje, não houve como escapar. Todos os veículos, sem exceção, deram a notícia da cadeirada que um candidato desferiu sobre a cabeça de outro. Em pleno debate da TV Cultura (!), diante de assistentes e câmeras. O picadeiro-lamaçal evoluiu para arena-sangrenta, o que não deixa de ser singular.

Em política, já se tinham visto tiros, tapas, bolos de chantilly, explosões, pedradas, facadas. Cadeirada, que eu me lembre, é a primeira vez no Brasil. Quem disse que o brasileiro não é um povo imaginativo?

Falando sério agora, a cadeirada do Datena no Marçal é bastante diferente da facada que o Bolsonaro levou ou dos tiros que (quase) “neutralizaram” o Trump. No caso da facada e dos tiros, o agressor não tinha relação pessoal nem estreita com o agredido. Foram, portanto, atentados nitidamente políticos.

Já no caso de ontem, a política passou longe. Aquilo foi briga de bar entre bebuns, depois da terceira cerveja. Marçal atiçou pensando em faturar na internet, e Datena reagiu com o fígado. Foi desavença de cunho estritamente pessoal, mais próxima de bafafá de pátio de escola infantil do que de querela política.

O maior castigo que se poderia dar a esses dois energúmenos seria a inabilitação da candidatura, combinada a uma pena de alguns anos de inelegibilidade.

A população, que apenas deseja escolher o ‘menos pior’ dos candidatos para ser seu prefeito, ficaria agradecida se aqueles dois saíssem de cena. O cadeirador e o cadeirado.

Circuito Elizabeth Arden

José Horta Manzano

Quem dá a notícia é o jornalista Ancelmo Góis, n’O Globo.


Depois de viagens a Paris e ao Catar, Janja vai a Nova York para debater a… fome

Depois de viajar a Paris para os Jogos Olímpicos, e ao Catar, para discutir a educação em territórios de conflito, Janja vai a Nova York, sexta, dia 21, para participar de um painel sobre a “fome”, na famosa Universidade de Columbia.

Endosso

Taylor Swift, “Childless Cat Lady”

José Horta Manzano

Para as pessoas que, como este escriba, têm uma visão nítida do mal que um Trump – se eleito presidente dos EUA – pode causar à humanidade, soa irreal imaginar que algum eleitor americano possa redirigir seu voto, para atender à recomendação de uma celebridade. A gente acredita que trumpistas e kamalistas pertencem, cada um, a um mundo diferente: como água e óleo, não se misturam.

No entanto, pesquisas feitas estes últimos anos revelam que há eleitores que escolhem seu candidato mas, ao mesmo tempo, não se sentem comprometidos com suas ideias. Esse posicionamento entreabre o caminho de uma eventual mudança de voto.

A plataforma The Conversation, que reúne artigos de acadêmicos e jornalistas, lembra o resultado de um estudo feito em fevereiro de 2020 nos Estados Unidos. A pesquisa descobriu que 89% dos adultos não mudariam seu voto mesmo que sua celebridade preferida endossasse a candidatura adversária.

Como de costume, pode-se também ler esses resultados ao contrário. Se 89% dos cidadãos não mudariam seu voto, os restantes 11% confessam que provavelmente acompanhariam a recomendação de um artista ou de alguém conhecido e influente, e mudariam o voto. Entre os jovens eleitores, essa porcentagem é ainda maior: 19% deles estariam dispostos a aceitar a sugestão de seu artista preferido.

Numa eleição presidencial apertada, como a deste ano nos EUA, a recomendação dada por Taylor Swift tem eco especial nessa franja de eleitores. São 283 milhões de seguidores que potencialmente leram seu post de endosso à candidatura de Kamala Harris. Desse mato podem sair coelhos suficientes para dar a vitória à simpática candidata.

Nos EUA, a apuração é lenta, aventurosa e cheia de surpresas. Portanto, na pior das hipóteses, assim que o Natal chegar já estaremos sabendo.

O debate Trump x Kamala

Kamala Harris: expressão corporal durante o debate com Trump

José Horta Manzano

Não assisti ao debate eleitoral americano de ontem. É que, devido à defasagem causada pelo fuso horário, o programa caiu por aqui no meio da madrugada. Mas já li a notícia e mais meia dúzia de artigos de opinião.

Parece que os analistas se puseram de acordo: descrevem o duelo com palavras semelhantes e são unânimes em atribuir a vitória a Kamala Harris. Por pontos, é verdade, mas sempre vitória é. (Aliás, como seria mesmo uma vitória por nocaute?)

Entretanto (ou however, como dizem eles), a história tem um nó. A opinião pessoal dos eleitores de lá anda tão cristalizada, que é difícil que o debate, por mais esclarecedor que seja, abale alguém a mudar o voto. Ao fim e ao cabo, cada eleitor desligou a tevê satisfeito de ver que seu(sua) candidato(a) é de fato superior ao adversário. Afinal, cada um ouve o que quer e retém o que deseja, não é mesmo?

De fato, tenho dificuldade em imaginar um trumpista roxo ter se encantado com a verve de Kamala, a ponto de decidir se tornar kamalista, se me perdoam o neologismo. O mesmo vale para o vice-versa. Ou alguém imagina um fervoroso democrata ter-se tornado trumpista desde ontem?

Logo, para que servem esses debates? Se não servem pra orientar eleitores e fazê-los escolher candidato, qual é a utilidade? Talvez para incentivar eleitores preguiçosos a se levantarem do sofá e se dirigirem ao posto de votação.

E há outro nó. É um pouco complicado de entender para nós, que vivemos numa república onde, na hora de escolher o presidente, todos os votos são iguais. Para nós, um eleitor equivale a um voto; e o chefe da nação será o candidato que obtiver mais votos. Nos EUA é mais enrolado.

Na intenção de dar uma ajuda aos estados menos populosos, os fundadores do país complicaram o sistema. Não tenho a pretensão de explicar aqui como funciona, mas o fato é que, a nossos olhos, o resultado pode ser distorcido. O candidato que tiver o maior número de votos não é necessariamente o vencedor. Acontece com certa frequência que o vencedor do voto popular perca a eleição.

Assim, por mais empolgante que seja – tem gente que perde horas de sono só pra acompanhar – o debate eleitoral americano é jogo que não vira o jogo. Um desastre, como o desempenho de Biden no duelo anterior, tem mais força que um bem estruturado debate de ideias.

Só me resta dar um conselho a nossos leitores americanos (não sei se os há, mas devem ser numerosos).

Votem em quem quiserem, mas não votem em Trump.
Para o bem da humanidade.

Multidão

José Horta Manzano

Que multidão imensa! Será um comício do capitão nas praias do Rio de Janeiro?

 

 

Que nada! Visita do papa Francisco ao Timor Leste, pequenino país de língua portuguesa situado do outro lado do mundo, nas proximidades da Indonésia.

700.000 fiéis assistiram à missa, ou seja, mais da metade da população do país. Isso é que é sucesso de audiência!

Começou bem

José Horta Manzano

A propósito da nova ministra dos Direitos Humanos, dois dos jornalistas do Estadão assinaram um longo e esclarecedor artigo cujo primeiro parágrafo é o seguinte.

“Macaé Evaristo (PT), nova ministra dos Direitos Humanos do governo Luiz Inácio Lula da Silva após a demissão de Silvio Almeida, é ré na Justiça de Minas Gerais sob a acusação de superfaturamento na compra de kits de uniformes escolares quando ela era secretária de Educação de Belo Horizonte em 2011, no governo do ex-prefeito Márcio Lacerda, então no PSB. Ela também chegou a ser acionada judicialmente pela mesma suposta prática quando foi secretária de Estado de Educação na gestão de Fernando Pimentel (PT), entre 2015 e 2018. Neste último caso, porém, fez um acordo com o Ministério Público de Minas Gerais para encerrar o processo.”

Murro em ponta de faca

José Horta Manzano

Tem uma expressão conhecida, clara, usada com frequência e que carrega uma imagem doída do que nunca se deve fazer: dar murro em ponta de faca. Ui! Precisa ser demente pra fazer um negócio desses, não lhe parece?

Pois Jair Bolsonaro, nosso saudoso ex-presidente, está dando mostra de sua especial disposição para o sacrifício. Seria heroico, não fosse inútil. O capitão chegou ao cúmulo de convocar um comício no dia 7 de Setembro para dar publicidade a seu ato de coragem.

A multidão não veio tão compacta como costumava vir no passado, mas a mise en scène seguiu à risca o que tinha sido ensaiado. Os protagonistas principais discursaram, cada um dando sua contribuição e botando falatório para plateia cativa.

Quanto ao ex-presidente, abdicou do cargo de messias, posto ao qual se tinha autopromovido no passado. Deixou claro que sua única preocupação atualmente é salvar a própria pele e escapar dos processos a que responde. “O povo que se dane, eu quero mais é tirar Alexandre de Moraes do meu caminho” – ele não pronunciou exatamente essas palavras, mas elas resumem seu pensamento.

O capitão quer que o juiz seja destituído de suas funções e, se possível, que seja condenado a apodrecer numa masmorra. Puro murro em ponta de faca. Jair não se dá conta das consequências de sua insistência.

Quanto mais o capitão vocifera contra o juiz, mais forte este fica. Tão forte ele está se tornando, que foi a estrela do desfile oficial do Dia da Independência. Apareceu sorridente e prestigiado, ao lado do presidente e dos figurões da República.

Quanto mais o capitão bate no juiz, mais se reforça o corporativismo do STF. Ainda que, numa hipótese de probabilidade quase nula, Moraes fosse destituído, mais coesos e ressentidos ficariam os magistrados restantes. Um perigo, capitão!

Da justiça, vai ser difícil Jair escapar. Seus esperneios mais irritam que ajudam. Atacar e insultar aqueles que vão te julgar é péssima ideia. Percebe-se que os anos passaram, mas o capitão nada aprendeu: continua vociferando como quem acha que se ganha no grito. Não se ganha, capitão.

Se ele não aprendeu até hoje, é caso sem esperança.

Candidato a prefeito, em tempos idos, numa cidade do Ceará

Gaudêncio Torquato (*)

Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque: “Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês”. E foi.

(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e colunista.

Marçal, Bolsonaro ao cubo

Ruy Castro (*)

Primeiro, a má notícia: estamos ameaçados de ter Pablo Marçal como presidente. Agora, a boa notícia: ficaremos livres de Bolsonaro para sempre.

É dos casos em que uma notícia não compensa a outra. Bolsonaro, por exemplo, não está achando graça em nenhuma das duas. Ao acompanhar atônito a escalada de Marçal rumo à, por enquanto, Prefeitura de São Paulo, consegue identificar e até antecipar cada movimento dele. Sabe muito bem como a história vai terminar —na qual ele, Bolsonaro, morre no final. Na verdade, seu enterro já saiu.

Bolsonaro está ciente de que Marçal, que aprendeu tudo com ele em violência e estupidez, vai esmagar seu opaco candidato Ricardo Nunes. Isso o obrigará a jogar Nunes aos cães, como fez com muitos outros, e, para sobreviver politicamente, juntar-se a Marçal, levando seus filhos hoje reduzidos aos zeros. Marçal talvez aceite o apoio, pela massa de votos bolsonaristas que isso lhe pode trazer. Mas, do jeito que as coisas vão, Marçal poderá ter esses votos jogando parado e ele próprio chutar Bolsonaro aos abutres. O que será bem feito, mas que vantagem levará nisso a democracia?

Bolsonaro abriu a porta do inferno para Marçal. Antes dele, Jânio Quadros, com a caspa na lapela, e Fernando Collor, a bordo de seus jet skis, já tinham sido eleitos em nome da antipolítica. Bolsonaro foi além. Estuprou o decoro presidencial, cuspiu na cara da nação, corrompeu meio mundo e deu shows diários de desumanidade, tudo para consolidar o espírito da antipolítica junto aos pacóvios.

Pois Marçal é Bolsonaro ao cubo —faz antes da eleição o que Bolsonaro só ousou fazer de faixa. Desmoraliza o processo eleitoral, zomba de suas condenações criminais, devolve os epítetos de bandido e ladrão, chama todo mundo para a briga e define seus eleitores como idiotas, para deleite deles. É Bolsonaro sem filtro e sem meias palavras.

Já chamam Marçal de demente e descontrolado. Mas não há demência nem descontrole. Cada palavra, cada ofensa, cada gesto é calculado. Conhece seu gado, sabe o que quer e como chegar. Comparado a ele, Bolsonaro é um amador.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado na Folha de SP.

É Natal na Venezuela

José Horta Manzano


“Está chegando setembro, e graças ao fato de termos encerrado o mês de agosto com boas perspectivas econômicas, podemos dizer que [o ar] já traz um cheiro de Natal”.


Quem disse isso, em seu programa semanal de televisão, foi o presidente da Venezuela, señor Nicolás Maduro. Até aí, a declaração podia não passar de mais uma autolouvação, comum entre mandatários. Mas ele foi adiante.

Depois de aproveitar a ocasião para açoitar os “sabotadores” e os “fascistas” que tentaram, sem sucesso, atacar a nação, anunciou o prêmio maior: este ano, o Natal venezuelano muda de data. Em vez de ser comemorado no tradicional 25 de dezembro, fica reagendado para 1° de outubro, daqui a um mês.

A mídia do país, que calça luvas para tratar de assuntos ligados à alta cúpula, não disse nem sim, nem não, muito pelo contrário. Ninguém ousou denunciar o tragicômico da situação. Ninguém teve coragem de lembrar que, dado que é festa religiosa católica, só quem tem o direito de modificar a data do Natal é o Vaticano – que, aliás, não mexe no assunto há séculos.

Nas entrelinhas dos veículos, perdido entre comentários de leitores, está o desabafo de um cidadão segundo o qual, num momento em que muitos não têm o que comer, não fica bem decretar que este ou aquele dia é dia de festa. É indecente.

De fato, na terra dos amigos de Lulamorim, cidadãos passam fome. E o tirano que os domina e constrange pelo medo tem delírios dignos de um Musk.

A diferença é que Musk é um rei sem reino, enquanto Maduro é rei com coroa, manto e cetro. E um povo inteiro pra chamar de seu e pra oprimir.

O jeitinho

by Caio Gómez (1984), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 agosto 2024

Todo povo tem um conjunto de características próprias que o distinguem. Assim, também no Brasil temos atributos que perpassam a população. Mas vamos examinar primeiro as características que não costumam ser associadas ao brasileiro.

O brasileiro não tem a aplicação dos povos do Extremo Oriente, em especial o japonês. De fato, um país com muita gente e pouca terra, como o Japão, exige de seus habitantes qualidades tais como paciência, comedimento, rigor e aplicação. Se cada um agisse sem se importar com os demais, o país não teria alcançado seu atual nível de civilização.

O brasileiro não tem a audácia dos colonizadores da América do Norte. Diferentemente dos que para cá vieram, muitos dos imigrantes que povoaram aquelas terras deixaram a Europa na esteira de perseguições religiosas ou políticas. Vinham com a família, de mala e cuia, com a intenção de fincar pé para nunca mais voltar. Os rigores do clima recompensaram os audazes e deixaram os timoratos na beira da estrada.

Os brasileiros não compartilham o ultra-conservadorismo resignado dos povos da Índia que, neste 21° século da Era Cristã, ainda toleram viver numa sociedade estratificada em castas, sistema que ainda não implantou um elevador social. Quem nasceu na casta A nunca será aceito na B, muito menos na C. Ainda que, em nossa terra, alguns ainda torçam o nariz para o 13 de maio da princesa Isabel, felizmente não são maioria nem imprimem seu egoísmo na lousa das qualidades nacionais.

No meu entender, a faceta mais significativa da alma nacional responde pelo simpático nome de “jeitinho brasileiro”. Todos sabemos o que quer dizer, só falta definir com precisão. Tal como a palavra “saudade”, nosso jeitinho resiste a toda tentativa de definição clara e rigorosa. Será justamente porque clareza, rigor e precisão não combinam com o jeitinho.

Uma terra em que milhões conseguem sobreviver e seguir adiante com o salário de miséria que lhes toca mostra que seu povo tem poderes mágicos, inexplicáveis, quase atávicos. Em outros horizontes, uma revolução popular já teria defenestrado todo o andar de cima. (Para, em seguida, recomeçar do zero e, poucas décadas depois, retornar ao mesmo estado de coisas. Mas essa é uma outra história.)

Nosso jeitinho inclui atitudes altamente positivas. Nossa tolerância para com os que se desnorteiam é proverbial. Centenas de movimentos religiosos tratam de reintegrar no rebanho as ovelhas extraviadas. A flexibilidade de nossas atitudes tem algo de notável. Quem não tem cão caça com gato é ditado que faz sentido entre nós. O brasileiro não é de empacar se lhe falta um ingrediente para a receita: dá rápido um jeito.

Do lado menos charmoso, nosso jeitinho dá vazão a comportamentos e atitudes pouco elogiáveis. “Leis que pegam” vs “leis que não pegam” é fenômeno tipico nosso. E isso nos parece normal. Todos nos conformamos com a falta de rigor e com a falta de apego à lei. Cidadãos que são condenados hoje a pesadas penas e “descondenados” amanhã não causam escândalo. Costumamos nos resignar com imprecisões da lei. Criminosos bacanas que escapam à justiça contam com nossa leniência – a frouxidão dos procedimentos legais não nos revolta.

Esse coquetel de imprecisão, elasticidade e ambiguidade se derrama e se aninha nos recônditos da alma nacional. Essa síndrome de informalidade se entranha em instâncias em que sua presença é extravagante. Ainda recentemente doutor Moraes, ministro do STF, frequentou as manchetes, na sequência de uma denúncia de que foi vítima: foi acusado de valer-se de procedimentos informais para angariar subsídios para processos que relata.

Só o futuro nos dirá se a denúncia contra o magistrado terá consequências. A bem considerar, ela é a prova de que o jeitinho nacional, que a gente imagina se restringir a castas inferiores, atravessa todos os estratos sociais e se faz presente até na cobertura deste imenso condomínio.

No regime do brasileiro, se arroz com feijão são o prato principal, o jeitinho é a mistura.

O desafio do sul-africano

José Horta Manzano

O empresário sul-africano Elon Musk (que adquiriu a nacionalidade americana em 2002) tem ganhado rios de dinheiro. Como ocorre com quase todos que saem de baixo e entram no clube dos imensamente ricos, o dinheiro lhe subiu à cabeça e lhe deu uma (falsa) sensação de onipotência.

O rapaz não é o único a experimentar a embriaguez do poder. Ditadores lhe fazem companhia. Putin, Kim Jong-un, Maduro, Ortega, os pranteados irmãos Castro passaram por esse estágio. Steve Jobs, Bill Gates, Jeff Bezos também. Uns mais, outros menos, todos tiveram seu momento de Tio Patinhas ou até de Deus todo-poderoso.

Nem todos sucumbem. No ramo das novas tecnologias, se bem me lembro, Musk é o único que foi tão longe, a ponto de se imaginar auxiliar de Deus-Pai ou talvez até seu substituto. Sua fortuna é tão imponente, que ninguém costuma lhe negar os favores que seus caprichos exigem.

Como muitos cidadãos de países ricos e desenvolvidos, nosso personagem lança, a países como o nosso, um olhar de desprezo enojado. Só isso explica ter metido a mão em cumbuca. Imaginou estar tratando com uma republiqueta de bananas e decidiu afrontar o ministro Alexandre de Moraes, logo ele! Apostou que o magistrado nunca ousaria tocar no seu Twitter.

Esborrachou-se no chão. Quem estourou a banca foi nosso juiz carequinha, quem diria. O bilionário caprichoso, com todos os seus dobrões, perdeu a parada. Deve estar decepcionado e furioso. Afinal, perdeu 22 milhões de adeptos, clientes que justificavam os anúncios inseridos em sua plataforma e engordavam sua conta bancária. Não são muitos países que lhe oferecem essa multidão de assinantes.

A gente fica curioso para saber o que vai acontecer daqui pra frente.

O respeitado The New York Times estampou hoje um texto que reproduzo aqui abaixo.


X began to go dark across Brazil on Saturday after the nation’s Supreme Court blocked the social network because its owner, Elon Musk, refused to comply with court orders to suspend certain accounts.

The moment posed one of the biggest tests yet of the billionaire’s efforts to transform the site into a digital town square where just about anything goes.

O X começou a apagar por todo o Brasil no sábado, depois que a Suprema Corte do país bloqueou a rede social devido ao fato de Elon Musk, seu proprietário, ter recusado cumprir ordens judiciais que o intimavam a suspender determinadas contas.

Isso representa um dos maiores testes para os esforços que o bilionário tem feito para transformar seu site numa “praça de vilarejo digital”, onde quase tudo pode rolar.


 

Conservadores atacam Moraes…

Sergio Denicoli (*)


Conservadores atacam Moraes, mas deixam STF no controle ao ignorar regulação da internet


Há muitos políticos surfando na onda da falta de regulação da Internet. São pessoas que bradam à liberdade sempre que o STF toma alguma decisão referente ao mundo online, sobretudo envolvendo as redes sociais. Mas o que eles não dizem é que estão sendo, no mínimo, hipócritas e oportunistas.

Eles certamente sabem que, quando não há uma lei clara, cabe ao Supremo criar jurisprudências. Essa é uma das tarefas primordiais da Corte. Ou seja: sem uma regulação das redes, é função de Alexandre de Moraes e dos demais ministros definirem o que vale e o que não vale.

Portanto, se há abusos, a culpa é de quem se faz de indignado para ganhar votos, mas não coloca a mão na massa para que o Brasil possa ter uma legislação clara sobre o ambiente digital.

(*) Sergio Denicoli é pós-doutor, escritor e colunista.

Este texto é parte de artigo publicado no Estadão. Aqui (para assinantes)

Manifesto Constitucionalista

Conrado Hübner Mendes (*)

A marcha do retrocesso entrou numa nova fase. Descobriram estar fácil esvaziar ou destruir a Constituição sem mudar seu texto, sem decretar formalmente seu fim. O plano de liquidação de ativos constitucionais se expressa, por um lado, numa tenebrosa agenda legislativa. Por outro, por arranjos informais entre os Poderes que rejeitam institucionalidade.

No varejo cotidiano de nossas indignações, perdemos de vista a magnitude do projeto: turbinar o colapso climático, multiplicar o fogo e o desmatamento, privatizar acesso a praias, anistiar golpistas, militarizar escolas, milicianizar polícias, legalizar milícias, armar milicianos, prender meninas estupradas e aliviar pena do estuprador de meninas, violentar indígenas, afagar milicos, desinvestir em direitos, transformar a família constitucional em família colonial e patriarcal. Transformar jurisdição em negociação de direitos indisponíveis, legislação em alocação clientelista de orçamentos secretos, sufocar capacidade governamental do Executivo.

(*) Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e em Ciência Política.

Este texto é parte de artigo publicado na Folha de S.Paulo. Aqui (para assinantes)

Fim da mídia impressa?

José Horta Manzano

A crise vem castigando, há duas décadas, o que se costumava dizer “a imprensa” e hoje se diz “a mídia impressa” ou “a mídia em papel”.

É compreensível. Com a profusão de informações e a atratividade do que desfila na telinha, só os muito aferrados continuam a ler jornal impresso. Ou os que não têm telinha à disposição – como é o caso deste escriba. Mas somos um grupo declinante e em via de rápida extinção.

O drama da mídia impressa não atinge somente os jornais brasileiros. Tirando os supergrandes como The New York Times e mais um ou outro dessa categoria, os outros andam pulando miudinho. No mundo inteiro.

Volta e meia, a cada vez que um periódico fecha as portas e sai do mercado, ressurge a velha polêmica de o Estado encampar publicações em dificuldade financeira. Parece ser boa ideia, mas é um caminho pedregoso.

De fato, jornais controlados pelo poder público perigam servir de canal de propaganda para o governo de turno, o que desvirtuaria o objetivo da imprensa, que tem vocação a ser livre de amarras oficiais.

É difícil imaginar se, daqui a duas ou três décadas, ainda haverá jornais, se ainda subsistirão quiosques ou bancas de jornal. Talvez não sobrevivam.

Nos lugares em que as autoridades estão realmente preocupadas com a população, ideias construtivas são aplicadas enquanto ainda é possível.

O governo da cidade de Genebra, na Suíça, pôs em prática um expediente interessante. Todo cidadão que atinge a idade de 18 anos recebe de presente da municipalidade uma assinatura de um ano de seu jornal preferido, edições digital e impressa.

A ideia é criar no jovem adulto o hábito de ler e, ao mesmo tempo, fidelizá-lo a um veículo de informação. O hábito de ler só traz vantagens a qualquer um. A fidelização a um jornal contribui para sua perenidade. Levando em conta a considerável utilidade pública desse programa, seu custo é mínimo.

Bem que uma pequena parte desses bilhões em emendas que têm sido encomendadas por Suas Excelências podia ser reservada para a mesma finalidade em nosso país. Deixaria muita gente feliz. O leitor, que podia até se habituar a ler jornal; o jornal, que receberia contente essa nova clientela caída do céu.

Em Genebra, que é cidade organizada, os cidadãos estão cadastrados na Prefeitura, com nome, endereço e todos os dados. O programa, portanto, se põe em movimento automaticamente.

No Brasil, a coisa é menos fluida. Mas não tem erro, basta espalhar a novidade e cada jovem adulto se apresentará onde tiver de se apresentar, documento na mão, pra receber sua fatia desse bolo de modernidade.

O genial ministro de Belíndia

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense
via Correio Braziliense

Christovam Buarque (*)

Apesar de sua genialidade, Delfim e demais economistas “de direita” consideram que a baixa qualidade de nossa educação é consequência do subdesenvolvimento, e não que o subdesenvolvimento é consequência da baixa qualidade e da desigualdade como a educação é oferecida; por sua vez, os economistas “de esquerda” consideram que a educação de base só será bem distribuída quando a renda for bem distribuída, não que a boa distribuição de renda depende do acesso isonômico de toda população à educação de qualidade, independentemente da classe social da criança.

(*) Christovam Buarque é professor emérito da Universidade de Brasília

Este é trecho de artigo publicado no Correio Braziliense. O texto integral está aqui.

Exportação de droga

José Horta Manzano

Sábado passado, pacotes de cocaína foram apreendidos pela Polícia Militar no Porto de Santos. Eram dezenas de pacotes, encontrados grudados num casco de navio, abaixo da linha d’água.

A mesma notícia de jornal informa ainda que cerca de 2.000 contêineres são escaneados diariamente pela Receita Federal antes de partirem do porto em direção ao exterior. O objetivo é detectar droga escondida.

Até aí, tudo bem, tudo em ordem. Polícia Militar e Receita Federal estão, cada uma por seu lado, cumprindo seu dever. Parabéns a elas.

Não sendo especialista em detecção de tráfico de droga, só me resta conjecturar. Conjecturemos, pois.

Se é verdade que, como imagino, o objetivo de nossas autoridades não é de se apossar do entorpecente, mas de desbaratar o tráfico, tenho dificuldade em entender o modo de proceder delas.

Ao apreender a droga grudada nos navios e divulgar a façanha ao grande público, a única recompensa da polícia é tirar aqueles quilos de cocaína do mercado. (Droga que será substituída rapidinho por nova remessa ilegal.)

Penso em outra maneira de agir, que não sei se seria possível, mas que me parece mais proveitosa. Ao descobrir a droga encastrada num contêiner ou colada num casco, por que é que nossa polícia não deixa a mercadoria onde está? A ideia é entrar em contacto com a polícia do país de destino do navio dando conta do que acontece.

A carga ilegal apreendida sábado último estava num navio com destino à Espanha, país que, imagino eu, está também equipado para lidar com esse tipo de criminalidade. Se a polícia espanhola fosse informada de que no contêiner número tal (ou no casco do navio tal) há uma quantidade de droga ilícita encastrada, teriam tempo de preparar uma “operação acolhida” destinada a dar ‘boa recepção’ à bandidagem.

No destino, um grupelho de criminosos virá certamente recuperar a mercadoria. Enquanto isso, no porto, a polícia está de emboscada. Tanto faz que venham de barco, por baixo d’água ou a pé. Assim que os receptadores encostarem a mão no navio, serão detidos em flagrante delito. Vão direto para o interrogatório. Com um pouco de sorte, vão acabar entregando uma parte da cadeia de comando, o que permitirá que a polícia efetue outras prisões. E assim por diante, uns delatando, outros prendendo.

Ao apreender a droga ainda no Porto de Santos, a PF fica só com a mercadoria, renunciando a todo o resto.

Devem ter alguma razão para proceder assim. Este leigo aqui desconhece qual seja.