O chuchu de cada um

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 julho 2023

Em 1939 Carmen Miranda embarcou para os Estados Unidos. No horizonte, já assomavam sinais ameaçadores da guerra que estava para estourar. Para os serviços americanos de inteligência, estava fora de questão que o Brasil, país mais importante da América Latina, se alinhasse com as ditaduras nazi-fascistas.

Junto a outros esforços para cativar nossa simpatia, o governo de Washington decidiu importar uma artista brasileira com potencial de mostrar ao público americano uma faceta atraente e simpática de nosso país, e, ao mesmo tempo, levar os brasileiros a se orgulharem do sucesso de uma compatriota nos EUA.

A escolha recaiu sobre Carmen Miranda e ela viajou. Um ano depois de ter deixado o Brasil, voltou para apresentações no Rio de Janeiro. Não se sabe ao certo a razão – talvez por pura inveja –, a recepção a ela foi pouco calorosa. Um diz-que-diz pérfido chegou a espalhar que a artista, depois de um ano fora, tinha ganhado dinheiro mas perdido o ritmo e a graça.

Luiz Peixoto e Vicente Paiva compuseram então o samba “Disseram que eu voltei americanizada” especialmente para ela. A letra repele veementemente toda “americanização” e termina: “Enquanto houver Brasil, na hora das comidas, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.

Chuchu (ou maxixe) é legume popular. Na cabeça de pobre, “rico não come chuchu” (embora nem sempre seja verdade). O fato é que, lançada a música, Carmen logo recuperou os fãs ressabiados. O povão voltou a se identificar com a cantora, que, mesmo enricada, continuava comendo chuchu.

Antes de chegar à Presidência, o jovem Jânio Quadros teve ascensão fulgurante. Em pouco mais de dez anos foi vereador, deputado estadual, prefeito, deputado federal e governador. Desde muito cedo, frequentou palácios, recepções e banquetes. Na base de seu eleitorado, porém, estavam pessoas simples, de parco poder aquisitivo. Não ficava bem que imaginassem o “político que varria a bandalheira” levando vida de rico, longe do quotidiano das massas.

Para desfazer essa impressão, Jânio sempre cuidou sua aparência quando discursava em comício. Vinha desgrenhado e com caspa no ombro. Lá pelas tantas, tirava do bolso um sanduíche de mortadela já mordido e explicava ao auditório que não tinha tido tempo de almoçar (ou jantar, conforme o caso). Era sua maneira de mostrar que continuava comendo chuchu.

Logo no início de sua gestão, Jair Bolsonaro foi um dia apanhado comendo lagosta com um embaixador estrangeiro. Em 2021, enquanto brasileiros empobrecidos substituíam carne por ovo, foi fotografado exibindo a embalagem do prato de resistência de seu almoço daquele Dia das Mães: picanha de R$ 1.799 o quilo. Pegou mal.

Decerto aconselhado por algum assessor, o então presidente resolveu mostrar humildade. Um dia, deixou-se filmar enquanto comia, junto a uma barraquinha de rua, uma porção de frango com farofa. Com as mãos, sem talher. Era sua maneira de dizer que continuava comendo como o povão. Só que, desastrado, emporcalhou-se todo, espalhando farofa na calça e na calçada. A emenda ficou pior que o soneto. Seu chuchu não convenceu.

No quesito viagens internacionais, Lula 3 começou a todo vapor. Em seis meses, tinha visitado uma dúzia de países distribuídos por três continentes. Um luxo. Mas o partido em que ele militou a vida toda (PT) prega, em teoria, um mundo de desigualdades sociais aplainadas. Assim, não fica bem o presidente, só porque presidente é, ser recebido por figuras principescas, participar de banquetes e comer do bom e do melhor sem ao menos trazer um pratinho de doces para os catadores.

Um assessor mais atento – ah, esses assessores! – talvez tenha chamado a atenção do chefe para esse contrassenso. Luiz Inácio resolveu remediar. Ao retornar de recente viagem à França e à Itália, queixou-se publicamente das refeições que lhe costumam oferecer no exterior. Disse que, quando viaja, não tem ocasião de comer do que gosta, na quantidade que lhe apraz. Afirmou que, nos banquetes, “as porções são minúsculas”, é “tudo pequenininho”, não tem uma” bandejona pra gente se servir”. Dia seguinte, a mídia francesa e a italiana não perdoaram a gafe.

É interessante perceber que as quatro figuras aqui descritas encontraram na comida o escudo contra acusações de elitismo. Esses quatro não devem ser os únicos. O mundo é vasto e cada um tem sua maneira de dizer que adora comer chuchu.

Zé Gotinha e a vacinação

José Horta Manzano

Desde a Antiguidade até meados do século passado, a poliomielite (paralisia infantil) fez muito estrago. Trata-se de doença infecciosa e contagiosa causada por um vírus específico aos humanos. Em suas formas mais benignas, deixa sequelas de deformação ou paralisia dos membros inferiores; suas formas mais agressivas podem até levar à morte do paciente.

Não se sabe ao certo por que razão, essa doença recrudesceu a partir da urbanização e da industrialização. Desde o início do século 20, surtos de poliomielite passaram a assombrar o mundo, principalmente as grandes cidades. A ciência se debruçou sobre o problema e passou a buscar uma imunização.

Nos anos 1950, as primeiras vacinas eficazes apareceram no mercado americano. Chegaram em boa hora pois, só no ano de 1955, a paralisia infantil tinha contagiado 60 mil crianças americanas. Logo no ano seguinte, teve início a primeira campanha de vacinação, com aplicação da vacina desenvolvida pela equipe do doutor Jonas Salk.

Estranhamente, a adesão popular foi mais baixa do que se esperava. Principalmente entre os meninos: apenas 0,6% deles espicharam o braço. Medo da picada? É bem capaz.

Foi quando o governo americano pensou num estratagema. O artista do momento era Elvis Presley, ídolo de todos os jovens, especialmente dos meninos. O cantor foi convidado a se apresentar no Ed Sullivan Show, popular programa de televisão da época. Um terço dos americanos largaram tudo pra assistir ao show. Quem é que havia de perder uma passagem na tevê de um Elvis na flor de seus 20 anos?

Só que o artista não tinha vindo para cantar, mas para tomar a vacina contra a pólio, ao vivo, diante do país boquiaberto. Sem luvas, como se fazia à época, um médico aplicou a injeção no galã. Seis meses depois, a adesão dos meninos à vacina subiu a 80%.

Em nossa terra, em questão de vacina, Bolsonaro refugou. Mas o Lula, que parece não ter tanto medo de picada, podia aproveitar a ideia. Reforçar o Zé Gotinha com ídolos da garotada (e das mães da garotada também). Elvis Presley já se foi, mas hoje temos um vasto leque de possibilidades. Há “influencers”, cantores, atores de novela, futebolistas.

A proteção da população contra doenças infecciosas passa pela vacina, quando há. É interesse de todos que a meninada cresça com saúde. Traz alegria e alivia os gastos com o SUS.

Os falantes são os donos da língua

Eduardo Affonso (*)

A Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou Projeto de Lei que proíbe o uso de linguagem neutra nas escolas do município. Pura perda de tempo e falta do que fazer.

A lei é inconstitucional (o STF já deixou claro que diretrizes e bases da educação são de competência da União). E tentar proibir que se adote a linguagem neutra, como propõem os milicianos do idioma, é tão inútil quanto querer enfiá-la goela abaixo, como pretendem os guerrilheiros da causa.

Lei similar já foi derrubada em Rondônia e logo será também no Paraná e em Santa Catarina bem como em Manaus e Porto Alegre. Igual destino terão os projetos em tramitação em cinco estados, cinco capitais e no Distrito Federal.

Qualquer ação para impor entraves ou transformações no idioma por meio de decreto será ineficaz. Pelo simples motivo de que não é assim que a coisa funciona. A língua não muda de fora para dentro ou de cima para baixo: ela muda porque nós, os falantes, mudamos. Nada impedirá a língua de fluir (não há barragem capaz de contê-la); nada a desviará arbitrariamente de seu curso. (Reforma ortográfica é outro departamento.)

Será que alguém acredita que professorus e alunes passarão, todes juntes, a se expressar de uma forma artificial, contraintuitiva, só porque paladinos da justiça resolveram embaralhar gênero biológico e gênero gramatical? Escolas do Brasil inteiro tentam, há décadas, sem sucesso, ensinar que a conjugação na primeira pessoa do singular do futuro do subjuntivo do verbo “ver” é “quando eu vir”. Que há quatro porquês. Que não existem “menas” ou “houveram problemas”. Que vocativo leva vírgula. E… nada.

Sim, a língua mudará. Na nossa geração, trocamos chofer por motorista, menu por cardápio, perdemos a vergonha de começar frases com pronome oblíquo. “Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta”, escreveu Cecília Meireles, numa época em que o usual era dizer “poetisa”. Poeta, de dois gêneros, causaria estranheza a nossos avós: para nós, soa naturalíssimo. Assim como “a travesti”, que durante muito tempo foi ignorada, apesar de aplicável.

Diz Caetano Galindo em seu ótimo “Latim em pó”:

— As línguas mudam. O tempo todo surgem modos alternativos de dizer alguma coisa, formas mais velhas vão desaparecendo, destronadas por novas variantes. E essa mudança, assim que começa a ocorrer, é sempre percebida como um desvio, como aberração a ser evitada a qualquer custo.

Os nobres edis e parlamentares, ocupados em imobilizar a língua, e estus abnegades ativistes, empenhades em expurgar do idioma um suposto laivo machista, precisam conhecer o grande dr. Castro Lopes, que, no final do século XIX, fez o que pôde para expulsar do português os estrangeirismos (futebol, turista, abajur, greve) substituindo-os por neologismos puro-sangue (ludopédio, ludâmbulo, lucivelo, operinsurreição). Não rolou.

Em compensação, ele emplacou calçada, cogumelo, retroagir, postar, cardápio. Sem lei obrigando ou proibindo: apenas porque fizeram sentido para os falantes.

“O povo é o inventalínguas”, escreveu Haroldo de Campos. E língua não tem cabresto. Nem nunca terá.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Cadeia pra quem xingar

José Horta Manzano

Essa história de o governo arquitetar projeto de lei aumentando para 40 anos a pena de prisão para quem for condenado por ter “atacado” o presidente ou algum ministro do STF ou o chefe de uma casa do Legislativo me deixou encafifado.

Em princípio, não se deve legislar na rabeira de um escândalo recente. Em geral, passado o clamor popular, percebe-se que a lei foi longe demais, por ter sido feita sob medida como resposta a um determinado delito. Nem sempre é adequada para todas as situações do mesmo espectro.

A recente agressão denunciada pelo ministro Alexandre de Morais contra sua família num aeroporto de Roma gerou uma onda de reprovação na República. Fica evidente o elo entre o projeto do Executivo e o desassossego criado pelo episódio do aeroporto. Não faz sentido propor uma lei no calor da emoção.

A impressão que me dá é que o lulopetismo está aproveitando o clima de indignação, já levantado pelo 8 de janeiro e agora reforçado pelo ataque ao ministro, para avançar algumas casas na implantação do projeto autoritário do partido.

Se há um ponto em que as ideologias petista e bolsonarista se dão as mãos é exatamente este: a fantasia de um chefe supremo forte, autoritário, inatacável, seguido fiel e cegamente pela totalidade dos súditos. Me parece claro que o objetivo do projeto de lei é, em primeiríssimo lugar, blindar o presidente da República, o chefe soberano.

Com a nova lei, que o protege mesmo de ataques verbais, ele estará tranquilo durante todo o mandato e até depois. A extensão das mesmas garantias aos membros do STF e aos chefes do parlamento parece mero afago a essas instituições.

É precipitado e desnecessário entrar com esse projeto imediatamente. O Brasil tem outros problemas mais sérios a resolver.

A legislação que temos é suficiente para intimidar cidadãos que se dispuserem a atacar figurões de primeira linha. Basta aplicar a lei. Se os três agressores de Roma imaginassem qual seria a repercussão e quais seriam as consequências de seus atos, certamente teriam passado reto pelo ministro, sem ao menos fixá-lo nos olhos.

Esses comportamentos exaltados e incivis fomentados por Jair Bolsonaro estão em nítido declínio. Se ainda pipocam aqui e ali, é por inércia. Mais um pouco de paciência e irão para o baú do esquecimento, lá fazer companhia a seu criador.

Se nossos congressistas estiverem alerta, essa lei não passa. Suas segundas intenções são demais evidentes. Vamos ver se são espertos.

Hitler & Mussolini

José Horta Manzano

Giorgia Meloni é a primeira-ministra da Itália. Afiliada a um partido de extrema-direita, já chegou a ser acusada de enaltecer o fascismo – denúncia que ela hoje rejeita. Chegou à chefia do governo italiano pelo fato de sua coligação ter obtido maioria nas últimas eleições parlamentares.

Em princípio, o que se espera de um governante alinhado com a direita extrema é um distanciamento com relação à guerra na Ucrânia, no estilo que Lula vem adotando. Espera-se uma posição dúbia, hesitante, hipócrita, “em cima do muro” – como o posicionamento de Luiz Inácio, que vem embaçando a lucidez que se espera do governante de um grande país como o nosso.

Pois pasmem! Signora Meloni mostrou que, apesar de seu metro e sessenta, tem coragem pra dar e vender. Na cúpula UE-Celac desta semana,  ao dirigir-se ao plenário, falou da guerra de Putin. Disse que, durante as reuniões da cúpula, ouviu muito falar de “paz”, mas que é importante dar a cada palavra seu verdadeiro significado. Mandou:


“A palavra paz não pode ser confundida com a palavra invasão.”


E continuou, com clareza:


“Considero que a guerra na Ucrânia, além de ser nova guerra colonial, é também uma guerra declarada contra os mais frágeis. E constatamos isso com a não-renovação do acordo de exportação de cereais ucranianos.”


Isso é que é uma fala clara, contundente. A primeira-ministra, apesar de depender do gás russo, posicionou-se nitidamente em favor da pobre Ucrânia. Preferiu o lado civilizado da História.

Está passando da hora de Luiz Inácio meditar sobre a catástrofe humana que ele está apoiando. Seu erro é tão brutal quanto teria sido Getúlio Vargas errar de lado e declarar apoio a Hitler e Mussolini.

Vargas escapou por pouco, mas Lula não fugirá ao veredicto da posteridade.

A dimensão bolsonárica de Lula

José Horta Manzano

Ainda na série “Barbaridades pronunciadas por presidente em viagem ao exterior”, vamos comentar hoje mais uma (grave) patacoada dita por Luiz Inácio quando de seu mais recente passeio no estrangeiro.

Foi esta semana, em entrevista coletiva concedida em Bruxelas ao final da cúpula UE–Celac. Instado a dar sua visão da agressão sofrida pelo ministro Alexandre de Moraes no aeroporto de Roma, Lula mandou ver:


“Nós precisamos punir severamente as pessoas que ainda transmitem ódio, como o cidadão que agrediu o ministro Alexandre de Moraes.”


Até aí, Lula emitiu julgamento severo. Mas não deixou de mostrar esperança de que as coisas mudem, ao se referir aos que “ainda” transpiram ódio. Falou do ódio transmitido por certas pessoas como se falasse de um modismo passageiro. Antes fosse.

Continuou:


“Um cidadão desses é um animal selvagem, não é um ser humano.”


Aí, Luiz Inácio se enrolou. O cidadão é, sim, um ser humano – daí a gravidade do fato. Um animal selvagem age por instinto, não tem noção do bem e do mal. Chamar o cidadão de “animal selvagem” é ofensivo a todos os animais selvagens.

Logo em seguida, veio o pior:


“Essa gente que renasceu no neofascismo colocado em prática no Brasil tem que ser extirpada.”


Extirpada, Luiz Inácio? Extirpada? Será que vosmicê conhece o significado do verbo extirpar? É arrancar, abolir, suprimir, eliminar, extinguir, acabar com – uma imagem de extrema violência. Equivale a “Precisa fuzilar a petralhada!”, frase de triste memória pronunciada por Bolsonaro.

Com esses sentimentos violentos, Lulinha, vosmicê está se equiparando aos “neofascistas” cujo renascimento o incomoda. Está mostrando que, neste triste momento que o Brasil atravessa, as duas pontas da polarização são farinha do mesmo saco, ambas encharcadas de violência e loucas pra acabar com o adversário.

Caro presidente, um conselho: procure diminuir o ritmo de suas viagens ao exterior. Depois de seu posicionamento sobre a invasão russa da Ucrânia, seu Nobel da Paz está perdido de qualquer maneira. Seu brilho pessoal empalideceu. Suas excursões, sempre acompanhadas de suas palavras estranhas, não fazem bem ao Brasil.

Deixe a política externa para profissionais, fique por aqui e procure amenizar os graves problemas que temos internamente. Dá mais certo.

Smörgåsbord

José Horta Manzano

Não conheço esse evento que, imodesto, se autodenomina “o maior festival de gastronomia de rua do mundo”. Por seu lado, percebo que seu nome, Smorgasburg, é uma brincadeira com o original smörgåsbord, termo de origem sueca. O final da palavra que dá título ao festival foi alterado para “burg”, provavelmente para evocar hambúrguer.

Nem todos sabem que, além de reis como Pelé e Roberto Carlos, o Brasil tem uma rainha – monarca de verdade, de manto e coroa. É Silvia, rainha da Suécia. Sua Majestade é brasileira pelo direito do sangue dado que sua mãe, Alice Soares de Toledo, era paulista de quatro costados. Além de ter mãe brasileira, a rainha Silvia viveu no Brasil entre os 4 e os 14 anos de idade. Fala nossa língua como nós.

Só mencionei isso porque me ocorreu agora. O assunto de hoje é o “maior festival de comida de rua do mundo”. Não faço ideia de como se apresentará esse festim, mas imagino que não tenha muito a ver com o original sueco. O smörgåsbord original passa longe do que entendemos por “comida de rua”.

Por razões de convivialidade, o sueco aprecia particularmente uma mesa de pratos variados, em geral servidos em temperatura ambiente, da qual cada um pode se servir e levar o prato para comer onde lhe agradar. É um misto de bufê, piquenique e festa de criança. Se alguém o convidar para um smörgåsbord, vá na fé que é refeição de alto padrão.

Smörgås significa sanduíche aberto (smör = manteiga). Bord é mesa. Mas um smörgåsbord é bem mais que uma mesa atapetada de sanduíches abertos. Sobre a mesa, não podem faltar fatias fininhas de salmão marinado, talvez filé de arenque, batatas cozidas (servidas frias ou mornas). Camarão (cozido e descascado) e outros mariscos aparecem frequentemente assim como embutidos fatiados, queijo duro, queijo cremoso e obrigatoriamente queijo azul. A escolha de pães deverá incluir o pão sueco (fino e crocante) e o pão de centeio. O resto fica por conta da imaginação (e das posses) de quem convida.

O princípio de uma refeição preparada apenas para um grupo de amigos é idêntico ao de uma imensa mesa preparada para centenas de convivas, como um bufezão de navio de cruzeiro.

Tecnicamente, o smörgåsbord difere de um bufê ou de nosso restaurante “por quilo” (= por peso). Em geral, no bufê e no restaurante por peso se enche o prato uma vez só. Já na refeição sueca, usam-se pratos menores e os convivas só se servem de pequena quantidade a cada vez; em seguida, voltam buscar mais. O vaivém incessante de comensais faz parte do espetáculo.

Se vosmicê quiser surpreender seus amigos com um smörgåsbord, é melhor adaptá-lo ao gosto nacional. Filé de arenque sobre uma fatia de pão de centeio, além de custar caro, pode não agradar ao distinto público. No fundo, o que conta é que seja bom de gosto e bonito de ver.

Vamos ver se o “Festival Smorgasburg” realmente se parece com o festim do qual tomou emprestado o nome. Tenho cá minhas dúvidas.

Fominha

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Como é sabido, chefe de Estado (ou de governo) em passeio fora do país é um perigo. É em ocasiões assim que ele costuma “falar abobrinha”. Não sei qual é o mecanismo que leva dirigentes a se comportarem assim, nem cabe aqui discutir a origem: o fato é que assim é.

Mais uma vez Lula comprovou o perigo dessa tradição. Na viagem à Bélgica, que se conclui nesta quarta-feira, o presidente usou e abusou da liberdade que sente quando está longe da pátria. Vamos falar de um desses deslizes e deixar o outro para uma próxima ocasião.

Na hora de redigir o comunicado final conjunto da cúpula UE-Celac, Luiz Inácio ameaçou não assinar caso o documento mencionasse a Rússia. Diante de sua inflexibilidade, o comunicado foi peneirado para excluir o nome daquele país. Ficou meio sem graça, mas não havia outro jeito.

Gabriel Boric, presidente do Chile, não apreciou a prepotência de Lula e ousou exprimir sua discordância. Como todos os quase 30 países europeus e diversos latino-americanos, ele também achava que o documento devia trazer uma firme condenação da Rússia em razão da invasão da Ucrânia.

Ao saber da reclamação de Boric, Luiz Inácio tomou o ar mais paternalista que conseguiu e desancou o colega chileno. Tratou-o de jovem inexperiente, chamou-o de fominha, explicou que, com o tempo, a experiência virá e que ele se acalmará.

Foi muito feio tratar o colega dessa maneira. Lula mostrou que não consegue conviver com o contraditório. Se alguém não estiver inteiramente de acordo com ele, é porque o outro está errado: Luiz Inácio não erra nunca. Foi um acesso de agressividade em público, pra quem quisesse ouvir.

Com a maior cara de pau, nosso presidente voltou a sacar sua “narrativa” favorita para encerrar qualquer conversa sobre a invasão da Ucrânia. Disse que as hostilidades têm de cessar; só então será possível conversar sobre a paz. “Enquanto tiver tiro, não tem conversa” – voltou a bater na tecla.

A falsidade de nosso guia é comovente. Ele sabe perfeitamente que a Rússia invadiu a Ucrânia e se apropriou de 20% do território. É legítimo e compreensível que o país invadido combata para expulsar o invasor e recobrar o território perdido. Cessar o combate significaria concordar em entregar uma quinta parte do território da pátria ao inimigo.

Qualquer um consegue entender que a guerra não pode tomar essa direção. Qualquer um, menos o Lula. Sua hipocrisia é imensa quando prega um cessar-fogo, que significaria entregar à Rússia boa parte do território da Ucrânia. É como se o Brasil fosse invadido e viesse um país estrangeiro sugerir que os brasileiros parassem de combater e entregassem um naco do território nacional aos invasores. Podia ser o Sul, o Sudeste, o Nordeste. Como se diz, pimenta nos olhos dos outros é colírio.

Lula e seus assessores não podem ser tapados a ponto de não entenderem a situação. O ódio que sentem pelos EUA não parece ser grande a ponto de explicar o raciocínio oficial do governo brasileiro. Ou será?

Lula em Bruxelas – II

José Horta Manzano

Pronto, Lula já discursou na Cúpula Celac-UE. Quem aguardava gesticulação tipo político fazendo comício em cima de trio elétrico saiu desapontado. O palavreado foi meio chocho. O Lula entusiasmado e expressivo só aparece em falas de improviso, quando ele costuma dar uma escorregadela aqui, chutar uma bola fora ali, cometer alguma ofensa à cartilha do politicamente correto acolá.

Lula leu o discurso inteirinho, da primeira à última página. O texto soou por vezes artificial, recheado de expressões inabituais na boca do presidente: “combater ilícitos cibernéticos”, “perpetuação da assimetria” e outras tecnicidades geralmente banidas do repertório de todo populista que se preze. Foi uma fala, por assim dizer, pasteurizada.

Diferentemente do que havia anunciado, não deu uma palavra sobre inteligência artificial. Muito menos tocou no tema da Nicarágua e seus perseguidos políticos encarcerados. Talvez volte a fazê-lo em alguma reunião bilateral, mas é de duvidar. O que de importante tivesse de ser posto à mesa já teria sido dito na reunião plenária desta segunda-feira.

O discurso, de pouco mais de 10 minutos, foi composto de platitudes e de generalidades. Nada de novo foi anunciado. Não foi feita menção a nenhuma das pautas sensíveis da atualidade. Nicarágua, Venezuela e Ucrânia ficaram de fora.

A discurso protocolar, aplausos protocolares. Bem diferente da ovação que se costuma reservar a discursos que realmente mexem com a plateia.

Pra se abalar de Brasília a Bruxelas – com tudo o que isso representa de logística, combustível, gastos com a comitiva, segurança, alojamento em hotel de alto luxo e outros detalhes – acredito que não tenha valido a pena. O acordo Mercosul-UE, que aguarda há duas décadas sua finalização, não andou um milímetro.

Se Luiz Inácio tivesse passado estes dois dias descansando no Torto, teria sido mais proveitoso. E uns bons milhões de nosso dinheiro teriam sido poupados.

Lula em Bruxelas

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Neste momento, domingo à tarde (na Europa) ou domingo de manhã (no Brasil), acompanho o voo do Aerolula. O aviãozinho, que leva o presidente a bordo cercado de sabe-se lá quantos assessores e penetras, está a meia hora de aterrissar em Bruxelas. Nessa cidade, Luiz Inácio se juntará a uma trintena de chefes de Estado ou de governo latino-americanos e caribenhos. Vão todos participar de uma cúpula entre a União Europeia e a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe).

A cimeira se realizará na segunda e na terça-feira. Não haverá tempo útil para debater, pela enésima vez, o acordo comercial UE – Mercosul, que se encontra há mais de 20 anos enredado na burocracia. O máximo que os integrantes das comitivas presidenciais dizem esperar, além de um passeio pela capital da Europa, é “estreitar os laços que unem os países participantes”. É pouco, mas é o que temos para hoje.

Lula espera ser a maior atração da cúpula. Visto que é a figura mais conhecida entre todos os colegas latino-americanos e caribenhos, é de apostar que monopolizará as atenções. Suas palavras serão seguidas com interesse.

Luiz Inácio faz questão de abordar um assunto pelo qual ninguém imaginava que ele fosse se interessar: IA. Se o discurso realmente sair, esse dia periga entrar para a história da humanidade.

Além de falar de IA, Lula deseja também abordar a situação na Nicarágua. Lembremos que o papa lhe pediu, poucas semanas atrás, que interviesse junto ao ditador Ortega para obter a libertação de prelados católicos que mofam nas masmorras do país.

Vai ser interessante acompanhar as falas de nosso Lula nacional. Vamos ver que piruetas vai dar pra falar em liberar prisioneiros políticos e ao mesmo tempo negar que sejam prisioneiros políticos. Prepare-se para um exercício explícito de “cara-de-pauíce” e de contorcionismo verbal.

Pra lá de interessante vai ser sua palestra sobre inteligência artificial. Será que ele vai ler um discurso escrito por… IA? Quem viver verá.

Nota
Nesse vaivém, o Aerolula pousou.

Você já entregou hoje?

Ruy Castro (*)


No Brasil, cada vez mais tentamos falar português em inglês


No próximo programa de esportes a que assistir, tente acompanhar quantas vezes ouvirá o verbo entregar. “Fulano não entregou o que o treinador esperava.” “Beltrano entrega mais como meia do que como volante.” “Jogar com o nome não basta, tem que entregar.” “Nunca vi esse time entregar tão pouco.” “Sicrano não entrega no Lá Vai Bola o que entregava no Arranca-Toco.” Entregar, no caso, é uma apropriação do verbo “to deliver”, que, entre muitos outros sentidos em inglês, significa desempenhar, render, ser eficiente.

“Entregar”, em sua nova acepção, é um produto do dialeto farialimer, uma espécie de português versão Herbert Richers, usado por economistas, executivos, corretores da Bolsa e outros profissionais que compram suas gravatas em Nova York. De lá, espraiou-se entre os humildes e chegou ao futebol. É comum, ao fim de uma partida, ouvir até dos jogadores mais xucros: “A gente sabe que não entregou o que devia, o time deles é muito qualificado, quando acordamos já estava 5 a 0, mas agora é levantar a cabeça porque quarta-feira tem outro jogo e vamos entregar mais.”

Nada contra esta nova acepção de “entregar”. É somente mais uma utilidade de um verbo que já nos presta tantos serviços: entregar [algo a alguém], entregar alguém à polícia [alcagüetá-lo], entregar-se [dizer sem querer algo que não devia], entregar-se [dedicar-se] a alguém, entregar-se [doar-se] a uma causa e entregar-se [ceder] à bebida ou ao desânimo. No próprio futebol, entregar já teve outro significado: “Não foi frango! O goleiro é que entregou!” [entregou o jogo, vendeu-se, deixou-se subornar].

No Brasil, onde cada vez mais tentamos falar português em inglês, “entregar”, no sentido de “to deliver”, é só um exemplo. O cômico é que, agora, já não usamos o verbo para pedir que nos entreguem em casa algo que compramos na rua ou pela internet.

Hoje pedimos delivery.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Sarnentos

José Horta Manzano

Décadas atrás, chamar alguém de “sarnento” era ofensivo. Não sei se esse xingamento ainda sobrevive no balaio de mimos atuais. No universo dos pré-adolescentes de antigamente, “sarnento” concorria com “leproso” e “peste bubônica”, finezas que evocavam doenças desaparecidas ou em via de extinção.

A sarna animal ainda persiste e ataca cachorros de rua. É doença de pele causada por um ácaro. A região infectada coça intensamente. De tanto se coçar ou se mordiscar, o cão acaba provocando feridas. Dá pena ver. Mas não se assuste: sarna animal e sarna humana são obra de ácaros diferentes. Ninguém pega essa doença de um cachorro. Em nosso país, a melhora nas condições de higiene fazem que a sarna humana esteja pouco a pouco desaparecendo.

Faz alguns dias, a mídia voltou a falar dos “náufragos do aeroporto”. Refiro-me aos refugiados afegãos que, ao cabo de um roteiro penoso, demorado e perigoso, chegam a Guarulhos – o mais importante aeroporto da América do Sul – e, não tendo para onde ir nem dinheiro para se virar, por lá permanecem encalhados. Adultos, anciãos, crianças são obrigados a dormir no chão, sobre cobertores ou colchonetes puídos. Alimentam-se do que a caridade de funcionários lhes oferece. Não têm como tomar banho nem cuidar da saúde.

Se a triste história daquelas dezenas de infelizes saiu nos jornais é porque estavam começando a representar um perigo para a saúde pública: praticamente todos eles estavam com sarna, doença altamente contagiosa que se transmite por simples contacto.

Me pareceu estranho que tantos refugiados consigam chegar ao Brasil e, em seguida, que o aeroporto seja o fim do caminho, sem perspectiva de seguir adiante. Coisa esquisita, não? Como é que entram no país? Com visto ou sem?

Não foi preciso pesquisar muito. Fiquei sabendo que esses afegãos são titulares de visto humanitário concedido por representação brasileira no exterior. Fiquei sabendo também que o Brasil concedeu mais de mil vistos a afegãos candidatos a asilo. Mas entendi também que a generosidade do Itamaraty é parcimoniosa: fornecem visto aos infelizes mas, para o resto, eles que se virem.

Essa gente teve de vender tudo o que tinha (que não era grande coisa) e lançar-se em aventura complicada. Deixar o Afeganistão já é arriscado; passar fronteiras até chegar a um aeroporto de onde possam voar para o Brasil é programa perigoso, especialmente para quem tem poucos recursos e ainda por cima leva mulher e filhos pequenos.

Para os que conseguem chegar ao Brasil, a “acolhida” é uma pancada na cabeça. Ninguém os espera, não há estrutura de apoio, não há quem lhes dê um teto, não há quem pense em proporcionar-lhes alimentação, curso de língua, cuidados de saúde. Nada. Nothing. Nulla.

A Prefeitura de Guarulhos tem um abrigo, mas alega que está lotado. Assim sendo, os recém-chegados ficam à mercê de algum milagre, num país estranho, com língua estranha, comida estranha, dormindo no chão. E transmitindo sarna uns aos outros.

Na verdade, não acredito que tenham apanhado essa doença em Guarulhos. É muito provável que já a tenham trazido do exterior e que a promiscuidade do acampamento no aeroporto só tenha feito aumentar o contágio.

E pensar que, na virada do século 19 para o século 20, quando aportavam 70 mil imigrantes por ano, o Brasil estava mais bem aparelhado para recebê-los. Embora o país fosse muito mais pobre que hoje, as autoridades se entrosaram e foram capazes de oferecer acolhida digna para os que chegavam. Não se tem notícia de que, por falta de assistência, imigrantes tenham sido obrigados a dormir no cais do porto ou se cobrir com andrajos e se alimentar de doações de almas caridosas.

Depois que a mídia relatou o escândalo, rapidamente as autoridades se mexeram e instalaram os náufragos de Guarulhos numa colônia de férias à beira-mar. Tem afegão que passou 20 dias acampado no aeroporto. Agora estão sendo cuidados – vamos ver até quando. Enquanto isso, novas levas continuam chegando ao Brasil.

Ninguém se refugia em outro país de coração alegre. Se um indivíduo deixa o país de origem e se aventura do outro lado do mundo, num lugar estranho, não é por espírito de aventura juvenil. É porque as coisas estão muito muito feias. Os motivos são diversos: guerra, violência, fome, perseguição religiosa ou étnica.

Se nosso governo federal concede visto humanitário, não deve lavar as mãos e achar que já cumpriu sua obrigação. A acolhida de um refugiado é muito mais que um carimbo num passaporte.

Lá pelos anos 1980, entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores, vários haviam conhecido as agruras do exílio. Haviam conhecido na própria pele o drama de chegar numa terra estranha, sem lenço nem documento, empurrado pelo destino.

Seria interessante que os petistas, que atualmente detêm o poder, tornassem a encarnar o espírito universalista de que são herdeiros. Que desçam do pedestal da glória passageira e deem uma mão aos pequeninos.

Lula… ambíguo?

O Globo, 8 jul 2023

José Horta Manzano

Li ontem um artigo que discorria sobre a relação mantida por Lula com ditaduras mundo afora, em especial com as latino-americanas. Não contesto o pensamento do autor, o que me incomoda é o título: “Lula é ambíguo com ditaduras”. Não é descrição adequada.

O dicionário esclarece que “ambíguo” é o que desperta dúvida, que admite interpretações diferentes e até contrárias. O comportamento de Lula com relação a qualquer ditadura não é nada ambíguo – é constante, claro e cristalino. Desde quando ele fundou o Foro de São Paulo, trinta anos atrás, sua posição não se moveu nem um milímetro. Todo regime ditatorial desperta sua simpatia.

Há que partir do princípio de que ditadura é ditadura, sem essa de “ditadura de esquerda” ou “ditatura de direita”. Quando se suprimem o direitos dos cidadãos a escolher seus representantes de forma justa, quando a imprensa livre é cerceada ou suprimida, quando a liberdade de ir e vir é entravada, tanto faz que o ditador se proclame de “direita” ou de “esquerda” – sempre ditadura será.

Lula nunca deu o menor sinal de ambiguidade nesse sentido. Nunca escondeu suas simpatias. Com grande desenvoltura, ele outro dia recebeu em palácio o mandachuva da Venezuela.

Ao regressar do Vaticano, pediu, com indisfarçada hipocrisia, que o ditador da Nicarágua libertasse “o bispo”, transmitindo assim um recado do papa. Digo que foi atitude hipócrita porque o mundo inteiro está sabendo que dezenas de membros do clero estão atrás das grades naquele país, todos perseguidos por serem religiosos. Lula, o falso humanista, só falou do “bispo”, com certo enfado, como se os demais não existissem.

A admiração que Luiz Inácio sente por autocratas é forte. Se ainda não foi visitar meia dúzia deles – Putin, Maduro, Ortega, os sucessores dos bondosos irmãos Castro – é porque assessores devem tê-lo retido pela manga.

Não é possível perceber ambiguidade na simpatia que nosso presidente demonstra por ditadores e autocratas em geral. Os Estados Unidos, por seu lado, são o fantasma que vem assombrando sua vida desde a juventude. A forte antipatia que Lula sente pelo grande irmão do norte é palpável, impregnada, inalienável.

Talvez seu cérebro ressentido veja, na proliferação de ditadores ao redor do mundo, uma forma de abalar o país detestado.

Ciúmes ex-presidenciais

O Globo, 7 jul 2023

José Horta Manzano

OK, quando o ciúme é grande, é permitido mandar a palavra para o plural: ciúmes. Só que tem uma coisa. A lógica gramatical continua valendo.

Substantivo no plural pede artigo e adjetivos no plural, o que não deixa de ser evidente. Portanto, esqueça-se “do seu ciúmes” e corrija-se: “dos seus ciúmes”.

Tem mais. Este escriba é do tempo em que alguém tinha ciúme (ou ciúmes) de alguém. Sentir ciúme sobre alguém é modismo dispensável. Corrija-se: ‘recibo dos seus ciúmes de Tarcísio’.

Multas

José Horta Manzano

Jair e Eduardo, os dois membros do clã Bolsonaro que mais amam afrontar a lei, pintaram e bordaram durante os quatro anos em que Jair permaneceu no topo do poder. A cada oportunidade que se apresentou, pai e filho carteiraram: ignoraram regulamentos, prescrições e leis. Foi como se as regras que organizam a vida em sociedade tivessem sido criadas só para a ralé. Eles, gente acima da carne seca, estavam isentos de se curvarem.

O pai, escorado em suas prerrogativas de função, fez mais que o filho. Desafiou mundos e fundos. Não se passou uma semana sem que deixasse marca de incivilidade, no limite da selvageria. Sem máscara (quando seu porte era obrigatório), espalhou perdigotos e carregou crianças no colo. Sem capacete, liderou “motociatas”. Se não zombou mais da lei é porque não teve ocasião.

O capitão foi vítima do mal que castiga toda pessoa de poder: a (ilusória) sensação de onipotência e de imunidade eternas. Como sabemos hoje, ele persistiu nessa crença até seu último dia de mandato. Decolou para os EUA na certeza de que seu poder se prolongaria, que seus antigos comandados se rebelariam e que ele voltaria nos braços do povo, Ou na garupa de um blindado das Forças Armadas, tanto faz.

Furou. Não sei se a ficha já caiu, mas o clã perdeu. E perdeu feio. Não só o sonho de um futuro de poder e imunidade desabou, como também estão chegando as cobranças de um passado delituoso. Com a condenação à inelegibilidade, o ex-presidente já levou a primeira pancada. Outras vêm por aí.

A Justiça do estado de São Paulo está tratando de cobrar as multas que os Bolsonaros acumularam por desprezar o uso da máscara no tempo da covid. Consolidada e atualizada, a conta do capitão chega a um milhão de reais. A do filho desordeiro é mais modesta: 130 mil reais. Os dois contestam naturalmente. Não sei se vão conseguir alguma clemência, imagino que não. Agora o capitão virou cidadão comum e o n°03, embora continue deputado, não tem mais pai presidente.

Acho excelente que a Justiça não tenha deixado pra lá. Acho melhor ainda que estejam insistindo na cobrança. E espero que levem o processo até o fim. Sei que os dois personagens estão escudados pela robusta fatia de fundo eleitoral que toca ao partido deles e imagino que, no fim da aventura, o boleto acabe sendo pago pelo próprio partido.

Assim mesmo, a cobrança é exemplar. Por um lado, serve para mostrar aos Bolsonaros que realmente perderam, e que mais vale se recolherem a sua insignificância. Por outro lado, serve de aviso para incautos que possam imaginar que um eventual momento de poder os blindará pelo resto da vida. É ilusão.

Mas – que fazer? – dizem que o ser humano é o único animal capaz de repetir os próprios erros.

A ambulância

crédito: Infodefensa.com

José Horta Manzano

O governo ucraniano não publica estatísticas oficiais dando conta das perdas humanas em decorrência da invasão russa. Na contagem oficiosa, as vítimas se aproximam de 250 mil. E continuam aumentando ao ritmo diário de 500-1000 vidas.

No finzinho de abril, a Ucrânia solicitou que o Brasil lhe vendesse 450 unidades do veículo blindado Guarani em versão ambulância.

Numa guerra de trincheira disputada em terreno minado, como está ocorrendo no conflito ucraniano, uma ambulância comum não dá conta do recado. O governo de Kiev escolheu o Guarani por ser um veículo fortemente blindado, capaz de transportar duas macas com feridos e mais três pacientes sentados. Além disso, cabem também um médico, um enfermeiro, o comandante do veículo e o motorista. O Guarani resiste a tiros, rajadas de metralhadora, estilhaços de grosso calibre e até explosão de minas.

É importante salientar que o blindado em versão ambulância não é dotado de canhão nem do armamento que normalmente integra a versão de combate. A Ucrânia queria que os veículos viessem já pintados com as cores do país e a cruz vermelha que simboliza transporte de feridos de guerra. Era um negócio de 3,5 bilhões de reais.

No governo, o primeiro a tomar conhecimento do pedido de compra foi o ministro brasileiro da Defesa. Rapidamente foram informados também o ministro das Relações Exteriores, o assessor Amorim e o próprio Lula.

A partir daí, entrou em ação a visão distorcida de geopolítica que caracteriza o lulopetismo. Figurões do PT se puseram a dar palpite. Consideraram que as Forças Armadas brasileiras estavam muito saidinhas, tratando de fazer “política externa independente”. Com o PT, pode não. E veio o bloqueio: o governo Lula vetou o que teria sido o maior negócio de exportação da indústria bélica nacional.

O mal disfarçado apoio que o lulopetismo dá à Rússia de Putin fez mais um estrago. Em nome de uma suposta “neutralidade” no conflito, o Brasil, que podia ajudar a salvar milhares de vidas, acovardou-se. Os ucranianos não nos pediam dinheiro, nem armas, nem presença militar, nem apoio a sanções econômicas – queriam apenas ambulâncias. E estavam dispostos a pagar.

Para que conste: a Suíça, país tradicionalmente neutro desde 1815, declarou que neutralidade não rima com indiferença. Desde o início da guerra, tem ajudado a Ucrânia com remédios, equipamento médico, material de primeira necessidade para a população civil, doações de todo tipo. Esse tipo de ajuda não atenta contra a neutralidade.

Além disso, nada impede que o Brasil, caso houvesse interesse por parte dos russos, vendesse ambulâncias medicalizadas também para eles. É o tipo de negócio que não quebra a neutralidade. Não quebra na cabeça de gente normal, é claro. Quando temos, no comando das Relações Exteriores, barbudinhos empacados em mágoas e ressentimentos, a coisa muda.

Com isso, se descobre que a empatia com o sofrimento alheio, base de toda doutrina socialista, era só pra inglês ver.

E os feridos e mutilados de guerra ucranianos, nessa mixórdia, como é que ficam? Que se virem, ora.