Carta-renúncia

Cláudio Humberto (*)

Apesar de ter declarado que “suporta a pressão”, a presidente Dilma já teria preparado uma carta-renúncia. Fontes do Palácio do Planalto garantem que a redação da carta não foi um ato solitário, como é comum nesses casos. Dilma teria contado com a ajuda de dois de seus ministros mais próximos: Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça) – apesar de ambos serem contrários à ideia.

Panelaço 3Confirmada a renúncia de Dilma, o vice-presidente Michel Temer assumiria imediatamente o comando do Executivo.

Além da renúncia, há outras hipóteses para a saída de Dilma: representação da oposição por crime financeiro e ação na Justiça Eleitoral.

Se prosperar a representação da oposição na Procuradoria-Geral da República por crimes financeiros, Dilma poderia ser cassada.

Já a ação eleitoral por financiamento ilegal de campanha pode culminar no cancelamento do registro da chapa. Assim, cairiam Dilma e Temer.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

A elite pensante e o descaso com a violência

Guy Franco (*)

Assalto 7Antes dos meus 10 anos de idade, minha casa foi invadida duas vezes. Coisa que nunca me esqueço, os bandidos gritando com meus avós, querendo dinheiro, eletrônicos, a Variant marrom do meu vô – e eu no meu quarto me torturando sem poder fazer nada. Nas semanas seguintes, acordava no meio da noite com qualquer barulho e via na sombra das árvores, através das cortinas, a forma de pessoas invadindo a casa.

O tempo passou, comecei a andar de ônibus sozinho. Entre os 13 e os 17, fui assaltado pelo menos cinco vezes. Já fui assaltado na rua e em ônibus, em grupo e sozinho, indo e voltando da escola, por drogados, por menores – quase sempre por menores. Me levaram dinheiro, passes e um boné. No tempo em que eu estudava, bastava que moleques passassem por baixo da roleta do ônibus para a viagem deixar de ser tranquila. O cobrador nada fazia.

Assalto 6Aos 20, no caminho do trabalho, dois sujeitos numa moto me roubaram. Eles queriam a minha mochila. Um olhava para o outro e dizia: “mata ele, mata ele”. Eu me lembro do desespero da minha mãe, que estava comigo. Desde então, não posso ver moto com passageiro na garupa perto de mim. O frio na espinha é inevitável.

Depois disso, ainda fui assaltado mais algumas vezes: me levaram celulares, documentos e quase me roubaram uma câmera de vídeo. Por sorte, só apanhei uma vez, de marginais, perto de estação de metrô. Tendo sofrido tantos assaltos, sou sensível à questão da violência. E observo que é assim com muita gente, principalmente com quem já passou por algo parecido.

by Élcio "Edra" D.R.Amorim desenhista mineiro

by Élcio “Edra” D.R.Amorim
desenhista mineiro

Assalto 8Estatisticamente, uma pessoa está sofrendo algum tipo de violência neste instante em algum ponto do país. Até antes do almoço, mais de 70 terão sido assassinadas. Enquanto isso, a elite bem pensante está mais preocupada em atacar quem não limpa a própria privada. Intelectual adora falar mal dos bravos cidadãos da classe média e se cala sobre a violência sofrida por gente como você e eu.

Daí a vergonha que tenho de abrir o jornal para ler a elite pensante. Não moro no Jardim Paulista, no Leblon ou no bairro chique do cartunista engajado, onde o risco de ser roubado e assassinado é oito vezes menor do que em Americanópolis.

Assalto 5O descaso é uma afronta a quem vive com medo da violência. Fingir que nada acontece é o tema preferido de nossa elite intelectual. O país tem os índices de criminalidade mais grotescos do mundo. A elite intelectual, no entanto, não gosta que se lembre disso. Qualquer proposta mais dura que apareça contra a violência passa por fascismo – isso quando não cai no papo ridículo de que o bandido é a vitima ou que punição não resolve nada. Aí é melhor sair de perto mesmo.

Eu me disponho a não discutir com quem ignora os índices de violência do país. Assaltos? Estupros? Homicídios? O importante é fazer bonito entre os leitores All Star e discutir o uso de linguagem ofensiva em programas humorísticos.

(*) Guy Franco mantém blogue alojado no Yahoo.

A guerra franco-suíça que não houve

José Horta Manzano

Você sabia?

Foto: Jean-Christophe Bott

Foto: Jean-Christophe Bott

Se tivesse ocorrido em outros tempos, teria sido casus belli, um daqueles acontecimentos que justificam declaração de guerra. Mas vamos passar o filme desde o começo.

As vacas suíças passam o inverno no estábulo. De outubro a março, os campos estão frequentemente cobertos de neve, mato não cresce, e os animais não têm o que comer. São alimentados com feno – mato ceifado durante o verão, secado e guardado para os meses frios.

Quando volta a bela estação, lá por março ou abril, os campos se cobrem de verde. Em comboio, as vacas são conduzidas a montes elevados, onde o pasto é gordo e farto. Ficam por lá até outubro, quando são trazidas de volta ao curral. Esse vaivém chama-se transumância.

É bom ter em mente que cada uma das 600 mil vacas leiteiras suíças ingere diariamente 100kg de mato e bebe de 100 a 130 litros d’água. No total, são 70 milhões de litros diários – volume respeitável.

A seca anda brava este ano. Entre 22 de junho e 22 de julho, não caiu uma gota de chuva. A temperatura tem sido senegalesa. Como resultado, começa a faltar água para os animais. Estão todos lá em cima, os tanques secaram, as reservas se esgotaram, que fazer?

Transumância

Transumância

O governo federal determinou que o exército desse uma mão. Helicópteros Super Puma foram encarregados de recolher água de lago e transportá-la até os reservatórios de montanha. A fronteira franco-suíça passa justamente na região dos Montes Jura. Do lado francês, há um lago de montanha.

Pertinho, do lado suíço, estão as vacas. O governo suíço pediu à França autorização para recolher água do lago. Paris permitiu o sobrevoo. Dia seguinte, helicópteros militares suíços deram início a um balé incessante de recolha d’água. Autoridades regionais francesas, que não haviam sido informadas, escandalizaram-se. É que a legislação francesa exige que, para retirar água de lago, se obtenha permissão das autoridades regionais.

O exército suíço, imaginando que a autorização de sobrevoo dada por Paris fosse suficiente, não cuidou de verificar regulamentos regionais. Foi um deus nos acuda. É compreensível. Imagine o distinto leitor o susto que levaram moradores do lado francês ao ver baixarem aeronaves militares estrangeiras pra roubar água do lago deles. É fato gravíssimo. Em outros tempos, podia ter dado origem a uma guerra.

Helicoptero 3

Foto: Eric Chevassus

Felizmente, os modernos meios de comunicação são rápidos. Em 24 horas, desfez-se o mal-entendido. O exército suíço apresentou pedido formal de desculpas ao governo francês e, imediatamente, parou de chupar água do laguinho.

O precioso líquido está sendo retirado agora do Lago Léman. Fica um pouquinho mais longe das vacas, mas, pelo menos, o transporte não periga provocar incidente diplomático. Além disso, com seus 100km de comprimento, 10km de largura e 300m de profundidade, o Lago Léman tem água pra muita vaca.

Síndrome de insensibilidade perceptual

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Globo 2Um distúrbio alarmante vem se disseminando como praga nos cinco continentes. Apesar dos esforços empreendidos por pesquisadores científicos em várias partes do mundo, ainda não foi possível determinar sua causa. Embora não represente um fenômeno novo para a neurociência, os cientistas estão intrigados com o rápido alastramento do transtorno.

Sabe-se apenas que o distúrbio atinge indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e idosos. Pressupõe-se que os casos mais graves estejam relacionados à negligência afetivo-emocional na tenra infância, ainda que não se descarte a possibilidade de ela ser decorrente também dos altos níveis de estresse nas grandes cidades e da alta competitividade no mundo profissional.

O principal sintoma observado é a incapacidade do portador da síndrome no sentido de perceber as conotações simbólico-afetivas das imagens que visualiza. Alguns estudos indicaram uma possível falha na comunicação entre os neurônios do lobo occipital e os do sistema límbico, que mimetiza lesões nos corpos amigdaloides.

by Shaina Craft

by Shaina Craft, artista americana

É fato conhecido que, entre humanos, uma lesão nas amígdalas do sistema límbico faz com que o indivíduo perca o sentido afetivo da informação vinda de fora, tornando-o indiscriminativo e emocionalmente indiferente. Ou seja, embora do ponto de vista cognitivo o sujeito seja capaz de identificar e categorizar corretamente o objeto visualizado, é-lhe impossível apreender as conotações simbólico-afetivas do mesmo.

Em função dessa indiferença afetiva, pesquisadores ingleses batizaram a síndrome como “Insensitive Perceptual Misjudgement Syndrome” [IPMS]

Alguns dos casos mais recentes e notórios registrados nos últimos meses são os seguintes:

Interligne vertical 17eUm dentista americano realizava um safári no Zimbábue e, ao olhar pela mira de seu fuzil de caça, viu só um leão velho e o matou. Na realidade, tratava-se de Cecil, o amado animal-símbolo de um país e de todo o continente.

Interligne vertical 17dUm colono judeu, buscando retaliar o que entendia ser agressões sofridas pelos seus, atirou uma bomba incendiária pela janela de uma casa e viu só uma residência palestina. Na realidade, tratava-se do lar de um bebê de 1 ano de idade.

Interligne vertical 17cIntegrantes do Isis, o autodenominado Estado Islâmico, entregaram a uma criança a tarefa de justiçar um homem, que viam só como infiel. Na realidade, tratava-se de um grupo de seres humanos.

Interligne vertical 17bNo calor da torcida no estádio de futebol, o homem atirou uma banana em direção a um dos jogadores, já que viu só um macaco. Na realidade, tratava-se de um esportista jovem e hábil, aclamado por seus concidadãos.

Bandeira olhoO ministro Levy e a presidente Dilma dirigiram-se à plateia para explicar a necessidade de ajuste fiscal e viram só contribuintes e analfabetos políticos. Na realidade, eram cidadãos brasileiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sem apoio

José Horta Manzano

Príncipe Ali bin al-Hussein

Príncipe Ali bin al-Hussein

Quando autoridades americanas estouraram a bolha da roubalheira deslavada em que medalhões do futebol nadavam de braçada, o mundo ficou sabendo de coisas assombrosas. Muitos já suspeitavam, agora todos têm certeza: cartolas-mores levam vida de nababo.

Doravante, por algum tempo, o nível de corrupção nas altas esferas do futebol deve baixar. Assim mesmo, com ou sem roubalheira, o cargo máximo da Fifa continua pra lá de atraente. Dinheiro, poder, favores e mordomias despertam apetite em muita gente.

Foi dada a partida da corrida para a sucessão de Sepp Blatter. Muitos gostariam de se candidatar, poucos têm ousado. Para se apresentar, postulantes têm de obter o apoio oficial e declarado de pelo menos cinco federações nacionais.

O candidato natural e esperado é o príncipe Ali bin al-Hussein, da Jordânia, justamente o desafiante de Blatter na última eleição. Os 73 votos que recebeu em maio dão-lhe cacife. É rico e vem de país insignificante no futebol – qualidades interessantes.

Outro candidato evidente é Michel Platini, antigo craque da seleção da França, que preside, há anos, a poderosa Uefa – União Europeia de Futebol. Esse também tem grande possibilidade de ser eleito.

Fifa del NeroAlém dos dois, há meia dúzia de paraquedistas. Entre eles, o antigo futebolista carioca Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico. O moço terá, é certo, dificuldade grande pra chegar lá.

O histórico de suspeitas que embaçam brasileiros como Havelange, Teixeira e del Nero (aquele que fugiu de Zurique pra escapar da polícia) contamina a candidatura de Zico.

Pra conseguir os cinco apoios, ele começou por pedir a bênção de del Nero. Ao deixar-se fotografar ao lado do cartola, embora fosse passagem obrigatória, assinou sua sentença de exclusão do páreo.

Michel Platini

Michel Platini

Para piorar, nossos hermanos já começaram a nos dar as costas. Ah, os ingratos! A Asociación Paraguaya de Fútbol já comunicou oficialmente à Fifa seu apoio a Platini. O Paraguai não está sozinho: Chile, Uruguai, México e a União Caribenha de Futebol também estão com o antigo craque francês.

A “liderança regional” brasileira ambicionada por Marco Aurélio “top-top” Garcia e pelo lulopetismo ainda está longe de se tornar realidade.

¡Que viva nuestra Latinoamérica!

Iria se tornaria

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 4 ago 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 4 ago 2015

Iria se tornaria…
Se o Zé Dirceu estiver tão desorientado quanto o estagiário que redigiu essa chamada, é bom que os companheiros se acautelem. Há perigo no ar.

O neopresidiário carrega uma sacola de informações constrangedoras para os mais chegados.

A estranha escolha de Lula

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa (*)

Lula, o sabe-tudo, deveria rezar em praça pública: “Eu pecador me confesso…”

Como é que ele teve coragem de nos enfiar goela abaixo essa senhora capaz de, em relação ao Pronatec, declarar num palanque: “Não vamos colocar uma meta e quando atingirmos ela, nós dobraremos a meta”.

Além do dilmês que arrebenta com nossa língua, dona Dilma não se acanha em dizer que quando atingirmos o nada, vamos multiplicá-lo por dois?

by Alberto Correia de Alpino F° Desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°
Desenhista capixaba

Ele a escolheu, dizem, por ter ficado fascinado pelo modo como ela pilotava um laptop. É o tal negócio, em terra de cego quem tem um olho é rei…

Dona Dilma, além de perita em manejar as novas tecnologias e no uso do Power Point, é uma feminista daquelas de não ter pejo em pedir – bem, tentou exigir, mas nessa não levou a melhor – que todos os seus auxiliares se dirijam ou se refiram a ela como “a presidenta”.

Fiquei à espera de um auxiliar mais atilado que lhe dissesse: «Isso eu só faço se a senhora chamar o Lula de “presidento”». Mas qual, esperei em vão.

Em julho do ano passado, uns três meses antes da reeleição, durante a campanha para a qual dona Dilma e seu marqueteiro fiaram histórias do arco da velha para enrolar o distinto eleitorado – com o maior sucesso, diga-se a bem da verdade – uma mulher, analista de um banco de grande porte, o Santander, cujo dono era um amigão do Lula, fez jus ao cargo que ocupava e ao salário que recebia e advertiu, por e-mail, seus clientes preferenciais sobre as previsões que fazia para um segundo governo Dilma Rousseff.

Sinara Polycarpo Figueiredo, a analista, em uma mensagem eletrônica, dizia que uma eventual reeleição da presidente pioraria o quadro econômico no país. Que a bolsa iria cair, os juros subir e o câmbio se desvalorizar. Ou seja, a economia iria se deteriorar.

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

Lula, ao ser informado da análise, com a categoria que lhe é peculiar, em um discurso na 14ᵃ plenária da Central Única dos Trabalhadores, ressaltou que não há outro país em que o Santander lucre tanto como no Brasil e questionou ainda o fato da funcionária que escreveu o informe ter chegado a um cargo de chefia: “Essa moça que falou [isso] não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma Rousseff. Manter uma mulher dessas em cargo de chefia é sinceramente… Pode mandar embora e dar o bônus dela pra mim, que eu sei como é que eu falo”, completou.

Conselho que o Santander, com a rapidez dos que amam o poder, seguiu de imediato. Demitiu a analista! Não sei se deu o bônus ao Lula. Quero crer que não chegou a tanto.

Não sou, nem nunca fui, feminista. Minha teoria é a seguinte: somos diferentes, os homens das mulheres, em dezenas de coisas, todas da maior importância. Menos intelectualmente. Nesse caso, tendo as mesmas condições para desenvolver nosso intelecto, somos absolutamente iguais.

Mas se eu fosse uma ardente feminista, o que eu faria diante de uma mulher que, evidentemente, entendia do que falava, como agora está fartamente provado? Ia convidá-la para fazer parte de minha equipe, ora se ia…

by Nélson Nunes Martins, desenhista mineiro

by Nélson Nunes Martins,
desenhista mineiro

Não se trata de acreditar em bola de cristal ou em querer bancar a profetisa do passado, mas de um fato comprovado: o cliente do Santander que seguiu os conselhos de Sinara se deu bem. Os clientes do Lula quebraram a cara.

Segundo matéria no Estadão de 28/12/2014, Sinara Polycarpo Figueiredo entrou com ação na Justiça do Trabalho contra o Santander. Não sei no que deu esse processo. Mas de uma coisa eu sei: torço por Sinara.

Interligne 18c

(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora, tradutora e escritora, é filha do grande Adoniran Barbosa. Escreve semanalmente para o Blog do Noblat, alojado no portal d’O Globo.

Quem foi, hein?

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Como todo o mundo, meu amigo Sigismeno ficou sabendo da bomba caseira atirada na área externa do escritório do Lula. Falo daquele comitê político que leva o pomposo título de instituto.

Bomba 2Sigismeno é desconfiado por natureza. Costuma ficar com um pé atrás quando algo lhe parece ilógico. «C’est trop beau pour être vrai» – é bonito demais pra ser verdade, filosofa ele como os franceses.

Meu amigo aprendeu que todo crime tem de ter um móvel. Com ares de magistrado romano, pergunta: «Cui prodest?» Quem tira proveito do crime? Quem lucra com ele?

Tivesse sido para ferir funcionários, não teriam atirado o artefato às dez da noite, mas no horário comercial. De que serve detonar bomba cheia de pregos quando não há ninguém por perto?

by Sinfrônio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

by Sinfrônio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

Tivesse sido para destruir ou danificar seriamente o prédio, a potência teria de ser bem superior e o engenho não precisava estar recheado de pregos.

Tirando essas duas motivações, o que é que resta?

A multidão que se opõe ao Lula e a todo o atraso que ele representa é cada dia mais encorpada, é verdade. Assim mesmo, Sigismeno não acredita que algum oponente cometeria a tolice de jogar bombinha no jardim de nosso guia, na solidão e no escurinho da noite, só pra ver a notícia passar no Jornal Nacional.

Depois de analisar com afinco, meu amigo acha que matou a charada. Segundo ele, essa história estranha leva jeito de ser ideia de marqueteiros.

Bomba 1O partido do Lula é contumaz adepto da tática de vitimização. Num momento em que tudo e todos acusam o ex-presidente de ser o patrocinador-mor de cataratas de corrupção, uma bombinha caseira pode, por um ou dois dias, desviar a atenção da galeria. Um distraído pode até achar que são artes de algum louro de olhos azuis…

Como de costume, o que Sigismeno diz pode até ser verdade. Que cada um forme sua opinião.

Nuremberg

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° ago 2015

Em 1961, o já maduro e magistral ator Spencer Tracy protagonizou o filme Julgamento em Nuremberg. Somente quinze anos haviam decorrido desde o fim da guerra, e a lembrança do horror e das atrocidades ainda estava presente em todos os espíritos. Além de acentuar a tensão, as imagens em preto e branco, paradoxalmente, conferem ao drama cores vigorosas. Nuremberg 2A obra cinematográfica retrata um dos numerosos processos penais que Nuremberg sediou entre 1946 e 1949, cada um deles organizado para julgar uma categoria de incriminados.

Daquela feita, os réus eram magistrados alemães que, desdenhando todo senso de justiça e atendo-se crua e comodamente ao ordenamento jurídico nazista, haviam condenado – amiúde à pena capital – gente reconhecidamente inocente. Por conveniência e por poltronaria, haviam-se vergado ao catecismo oficial, iníquo e distorcido, desonrando assim a nobre função para a qual haviam sido formados.

Todos os acusados acabaram sentenciados à pena de prisão perpétua. A cena final traz um diálogo entre o presidente do tribunal – encarnado justamente por Spencer Tracy – e um dos juízes condenados. Em meio minuto, pronunciam frases lapidares, daquelas que valem pelo filme inteiro.

O condenado não pede absolvimento, mas implora ao presidente que procure ao menos compreender suas motivações. Numa tentativa de descarregar a consciência, alega jamais ter imaginado que a incriminação de um inocente aqui, outro ali pudesse se multiplicar e fazer que a coisa «chegasse ao ponto a que chegou».

A réplica do protagonista é fulminante: «Herr Janning, a coisa “chegou ao ponto a que chegou” desde a primeira vez em que o senhor condenou à morte um homem sabidamente inocente.» Pano rápido e pausa pra reflexão.

Spencer Tracy (1900-1967), ator americano

Spencer Tracy (1900-1967), ator americano

A conclusão é universal. Cristalina, decorre de trivial bom senso: juiz ímprobo é juiz ímprobo desde o primeiro julgamento desonesto. Por analogia, criminoso é criminoso desde a primeira transgressão. Assassino, que tenha matado um ou dez, assassino será desde o primeiro homicídio. Ladrão, que tenha afanado um real ou um milhão – nestes tempos de inflação, mais vale dizer um bilhão –, ladrão será desde o primeiro roubo. Ponto e basta.

No Brasil, de uns tempos para cá, a Justiça parece ter despertado de letargia secular. Coisas nunca dantes vistas vêm-se sucedendo num crescendo alucinante. Parlamentares de alta estirpe e empresários-mores são acusados, indiciados, processados. Alguns são até despachados à prisão. Um espanto! O povo hesita entre assombro e júbilo.

Escorados na doutrina que garante terem sido ladrões todos os mandachuvas deste País desde os tempos de Tomé de Souza, os acusados insistem em minimizar malfeitos cometidos. Botam fé na condescendência com que o povo costuma brindar os poderosos.

Mas o próprio termo «malfeito», tão utilizado estes últimos anos, é um despropósito. Nossa língua é vasta e generosa – há que dar a cada coisa o nome que a coisa tem. Contravenção é contravenção, delito é delito, crime é crime. Indo mais longe, cada crime tem nome específico. «Malfeito», genérico demais, não deve ser usado como palavra-ônibus.

Nuremberg 3Até o termo corrupção, de tanto ser rebatido, está se desgastando e perdendo substância. Assalto ao erário não é corrupção, é assalto ao erário. Rapina na Petrobrás não é corrupção, é rapina na Petrobrás. Contrato superfaturado de companhia estatal não é corrupção, é peculato. Outros eufemismos estão em voga e vêm sendo bovinamente repercutidos por espíritos pouco críticos. Quem forja dossiê falso não é aloprado, é caluniador. Quem falsifica contas públicas não dá pedaladas, comete estelionato e prevaricação.

Numa referência canhestra a fatos dos quais tem apenas conhecimento de ouvir falar, o Lula comparou, dia destes, a «elite» brasileira aos ‘nazistas que criminalizavam o povo judeu’. Rematado disparate, é conversa pra dar nó nos miolos. Como tem feito ultimamente, nosso declinante mandatário deitou essa inacreditável falação diante de plateia amestrada e previamente convicta. É verborragia a descartar sem sequer desempacotar.

Petrobras 3Em vez de martelar essa tal elite, assombração intangível que tanto parece incomodá-lo, nosso antigo presidente deveria mandar passar, em sessão privada, o Julgamento em Nuremberg. Que escolha a mais confortável de suas residências e convide os companheiros mais chegados para apreciar. Importante: que prestem todos especial atenção ao diálogo final. Sem muito esforço, entenderão que tanto é ladrão o que vai à vinha quanto o que fica à porta.