Diz-me que fake news queres proibir e eu te direi quem és

Fabiano Lana (*)

Aborto, clube de tiro, maconha, apologia à ditadura brasileira, fake news sobre o governo Bolsonaro, fake news contra o governo Lula. Faça uma lista do que você quer ver proibido ou punido e em troca irá receber seu rótulo ideológico. O confronto de valores chegou a tal ponto que o diálogo se tornou impossível e o que se quer é o silêncio forçado do lado oponente. E o caminho mais fácil é dizer que ele espalha mentiras, ódio, ou prega contra a ordem democrática.

Ser intolerante com os intolerantes nem sempre é uma solução viável. Tomemos um exemplo histórico. Os maiores pilares do pensamento ocidental até os dias de hoje, na ciência, nas artes, na lógica, na política – Platão e Aristóteles –eram críticos da democracia ateniense. A República de Platão, que inspirou tantos livros de organização da sociedade, incluindo os de Karl Marx, prevê que a comunidade ideal deve ser uma ditadura conduzida por um… filósofo, que coincidência.

Platão dos dias de hoje deveria ser encarcerado por pregar contra a ordem democrática não importa o resto do seu legado? Não há soluções simples para esse dilema de cercear quem quer um regime fechado. Prender e censurar os defensores do autoritarismo e espalhadores de “mentiras” é apenas o desespero institucional de não saber lidar com esse fenômeno das opiniões transgressoras que se tornaram muito mais expostas com o advento das redes sociais. Se de um lado todo mundo fala e escreve o que quer, para chocar ou sem medir as consequências, de outro até humorista passou a ser censurado – o que é pior?

Existe um certo padrão nas tentativas de proibição. São esquerdistas querendo proibir teses de expoentes direitistas e o contrário. Você não vê os tais “bolsominions” querendo prender o jornalista Alexandre Garcia por dizer que a culpa das enchentes no Rio Grande do Sul é do PT. Nem petistas quiseram prender Marilena Chauí por dizer “sem qualquer prova” que o ex-juiz Sérgio Moro foi agente do FBI para prejudicar o pré-sal brasileiro. Fake news, falas de ódio, muitas vezes são algo dito por um desafeto ideológico que te choca e não mentiras ou declarações repugnantes em si.

A luta moral pela verdade não é pura, mas se subordina à sua posição política, interesses e visões de mundo. Aliás, Lula dizer que não se lembrava do Tribunal Penal Internacional, que já foi invocado por ele a ponto de enviar uma carta de congratulações à juíza brasileira de lá, foi esquecimento ou fake news presidencial? E Bolsonaro dizer que vacinas contam em sua composição com dióxido de grafeno que se acumulam no ovário e testículos? É fake news, ingenuidade, ou má-interpretação da bula? Lula prega contra a ordem democrática ao defender a Rússia e a Venezuela? As respostas dependem de que lado você está.

Outro exemplo, que tal a frase: “Lula é o responsável pelo genocídio do povo negro no Brasil”. Fake news, frase a ser proibida e seu autor punido? Depende de sua paixão política. Na era do PT o número de negros assassinados anualmente no Brasil passou de 25 mil para 42 mil, um aumento de 70%. Ou seja, os dados permitem quase infinitas possibilidades para se fazer política, inclusive essa. Política ocorre muitas vezes escolhendo fatos a seu favor, não é necessariamente uma fake news. Um sentença como essa poderia ser contestada por argumentos como o crescimento econômico da época teve um efeito colateral do aumento da violência e não pedir sua proibição pura e simples.

Mas há uma solução possível para o nosso impasse: estar aberto às falas e valores dos oponentes. Tentar compreendê-los, entender as razões de seus pensamentos, antes de defender sua extirpação da sociedade. Por exemplo, ir a um clube de tiro e perceber que nem todos lá são monstros que querem matar quem está a sua frente. Para muita gente é apenas um esporte. Perceber, por outro lado, que é bastante razoável defender a liberação das drogas, talvez as leves, com o argumento de que se trata de um problema de saúde que o é melhor institucionalizar, fazer o Estado recolher os impostos, e que a polícia se concentre nos crimes mais graves. Discordar, debater e não querer coibir.

Nunca houve e nunca haverá sociedade sem proibições. É a antessala do caos e da anarquia destrutiva. Crimes de ódio por óbvio existem e, com certeza, os atos de oito de janeiro em Brasília mostram em si que um limite foi rompido. Mas daí em transformar em “crime de ódio” tudo que você considera politicamente inconveniente tem sido um passo. A partir do momento em que proibir falas e posicionamentos se torna algo banal a sociedade estará doente e longe de qualquer tipo de conciliação. Toda proibição de posicionamentos deveria ser seguida por um lamento de porque falhamos como corpo social.

Há uns 2,4 mil anos a filosofia está em busca dos conceitos de verdade e mentira sem chegar a uma conclusão consensual satisfatória. Será fenomenal que a turma que quer calar e prender todo mundo que os chateia tenha finalmente conseguido estabelecer esses princípios de maneira definitiva. Se sim, estão de parabéns por encontrarem o Santo Graal. Por fim, uma dúvida sincera: a afirmação “fake news é crime” é realmente fake news, crime passível de prisão?

(*) Fabiano Lana é filósofo e analista político.

A dimensão bolsonárica de Lula

José Horta Manzano

Ainda na série “Barbaridades pronunciadas por presidente em viagem ao exterior”, vamos comentar hoje mais uma (grave) patacoada dita por Luiz Inácio quando de seu mais recente passeio no estrangeiro.

Foi esta semana, em entrevista coletiva concedida em Bruxelas ao final da cúpula UE–Celac. Instado a dar sua visão da agressão sofrida pelo ministro Alexandre de Moraes no aeroporto de Roma, Lula mandou ver:


“Nós precisamos punir severamente as pessoas que ainda transmitem ódio, como o cidadão que agrediu o ministro Alexandre de Moraes.”


Até aí, Lula emitiu julgamento severo. Mas não deixou de mostrar esperança de que as coisas mudem, ao se referir aos que “ainda” transpiram ódio. Falou do ódio transmitido por certas pessoas como se falasse de um modismo passageiro. Antes fosse.

Continuou:


“Um cidadão desses é um animal selvagem, não é um ser humano.”


Aí, Luiz Inácio se enrolou. O cidadão é, sim, um ser humano – daí a gravidade do fato. Um animal selvagem age por instinto, não tem noção do bem e do mal. Chamar o cidadão de “animal selvagem” é ofensivo a todos os animais selvagens.

Logo em seguida, veio o pior:


“Essa gente que renasceu no neofascismo colocado em prática no Brasil tem que ser extirpada.”


Extirpada, Luiz Inácio? Extirpada? Será que vosmicê conhece o significado do verbo extirpar? É arrancar, abolir, suprimir, eliminar, extinguir, acabar com – uma imagem de extrema violência. Equivale a “Precisa fuzilar a petralhada!”, frase de triste memória pronunciada por Bolsonaro.

Com esses sentimentos violentos, Lulinha, vosmicê está se equiparando aos “neofascistas” cujo renascimento o incomoda. Está mostrando que, neste triste momento que o Brasil atravessa, as duas pontas da polarização são farinha do mesmo saco, ambas encharcadas de violência e loucas pra acabar com o adversário.

Caro presidente, um conselho: procure diminuir o ritmo de suas viagens ao exterior. Depois de seu posicionamento sobre a invasão russa da Ucrânia, seu Nobel da Paz está perdido de qualquer maneira. Seu brilho pessoal empalideceu. Suas excursões, sempre acompanhadas de suas palavras estranhas, não fazem bem ao Brasil.

Deixe a política externa para profissionais, fique por aqui e procure amenizar os graves problemas que temos internamente. Dá mais certo.

A armação do Moro

NaniHumor.com

José Horta Manzano

Sabe aquela do tiro que sai pela culatra? Vamos aos fatos.

Houve um momento, faz poucos anos, em que o juiz Sergio Moro era reverenciado por boa parte da população. Tirando petistas de raiz, descontentes com as investigações que mandavam companheiros para a Papuda, os brasileiros estavam animados com a Operação Lava a Jato. Muita gente chegou a acreditar que a “limpa” ia erradicar a corrupção política no país. Moro estava prestes a entrar para o panteão nacional.

Deslumbrado com seu momento de ator, o juiz abandonou a toga e colou em Bolsonaro. Verdade seja dita, a vitória do capitão em 2018 se deve em parte à imagem do Xerife de Curitiba. Muita gente acreditou que Bolsonaro tivesse realmente intenção de enterrar a corrupção. Que nada, enterrou mesmo foi a Lava a Jato.

Escanteado e desprestigiado, o ex-juiz saiu atirando e renunciou à companhia do capitão. Tornou-se ex-ministro. Sua travessia do deserto levou alguns anos. Sem muita esperança, candidatou-se ao Senado em 2022. Foi eleito. Mas o problema é que ele já estava numa espécie de limbo, brigado com Lula e com relação bamba com Bolsonaro.

Tomou posse de seu assento de senador. Não devia estar se sentindo confortável, dado que é hostilizado por lulistas e olhado com desconfiança por bolsonaristas. Estava destinado a passar os próximos anos atolado, uma ex-estrela, um astro apagado.

Eis que de repente, a espuma fria do ódio aflorou à boca de nosso velho presidente. Lula ofereceu a Moro o posto de melhor inimigo. Esta semana, em duas ocasiões declarou em público toda a raiva que ele guarda do homem que o julgou. Como resultado, o antigo astro de Curitiba – que já foi a coqueluche de meio Brasil mas que agora percorria as penumbras do Senado feito alma penada – voltou à ribalta.

Se o Lula continuar a dirigir os holofotes para Sergio Moro (e tudo indica que continuará), dará ao ex-juiz a grande oportunidade de sua vida: eclipsar Bolsonaro e apresentar-se como candidato à Presidência em 2026.

O distinto leitor já imaginou: elegemos o Lula pra tirar Bolsonaro e agora perigamos ter de eleger Moro pra tirar o Lula? Que dança de cadeiras mais extravagante!

Ode ao ódio

Odeon – Teatro da Grécia antiga

José Horta Manzano

Ode
A ode nasceu na Grécia antiga. Era o nome que se dava a um poema lírico destinado a ser cantado ou recitado com acompanhamento musical. Através do latim, o termo se espalhou por praticamente todas as línguas europeias, do finlandês ao português, com os devidos ajustes ortográficos.

Da mesma raiz grega, vêm outros parentes: paródia, melodia, prosódia, rapsódia, comédia, tragédia, odeon. Na origem, são termos técnicos ligados ao teatro antigo.

Com a evolução das artes cênicas, a palavra ode praticamente deixou de ser usada no sentido próprio; sobrevive no sentido figurado. Dizemos hoje que uma manifestação exaltada de elogio ou de apreço por algo ou por alguém é uma ode. Ex: “Este seu texto é uma verdadeira ode à Bahia!”

Ódio
Apesar da semelhança sonora, o ódio tem significado oposto. É antônimo de amor. Derivada de raiz indoeuropeia com sentido de repulsão, a palavra nos veio pelo latim. Portanto, ode e ódio são termos que traduzem estados de espírito antagônicos.

Fiz uma rápida pesquisa no Google. Bem, pesquisa no Google vale o que vale, não convém tomar como verdade científica. Mas é o que temos.

Tomei alguns conceitos básicos e conferi quantas vezes cada um deles é mencionado quando acoplado com a palavra “ode”, em seguida com a palavra “ódio”. O resultado está aqui abaixo. (Número de menções dividido por 1000.)

Conceito        Ode     Ódio     Relação
Lula          1.520    3.010     2 pra 1
Natureza      2.010    9.950     5 pra 1
Beleza        1.850    9.470     5 pra 1
Ciência       1.250    8.060   6.5 pra 1
Estudo        1.170    8.250     7 pra 1
Bolsonaro       558    4.480     8 pra 1
Dinheiro      1.530   12.700   8.3 pra 1
Inteligência    360    3.370   9.5 pra 1
Corrupção       233    3.330    14 pra 1

Rápida análise
O ódio vence a ode em todas as categorias. A conclusão apressada seria que somos um povo que odeia mais do que aprecia. Será verdade? Já  veremos.

Pra cada menção de ode ao ex-presidente Lula, há 2 de ódio a ele. No caso de Bolsonaro, pra cada ode há 8 ódios. O conjunto até que faria sentido. Comparado com Bolsonaro, qualquer um parece coroinha – até o Lula.

Pra cada ode ao dinheiro, há uma baciada de ódios, numa razão de 8.3 ódios x 1 ode. Esse ítem é difícil de entender. Será que o povo brasileiro tem assim tanto ódio ao dinheiro? Vamos ver.

Há 6.5 que odeiam a ciência contra 1 que a exalta. Esquisito? É. Parece que tem ódio demais nessa conta. E a beleza então? O ódio à beleza dá de 5 x 1 na ode.

No ítem corrupção, é compreensível que 14 menções ao ódio apareçam para cada menção à ode. Já no ítem inteligência, é muito esquisito ver tanto ódio (14 x 1) contra ela. Será que já chegamos ao ponto de odiar a inteligência?

Conclusão final
Não dá pra acreditar que o ódio domine, a esse ponto, o panorama do brasileiro. Esses números, com poucas exceções, mostram que há uma distorção em algum ponto.

Refletindo um pouco, acho que não precisa se aprofundar em nenhuma análise sociológica. A razão dessa predominância do ódio em nossa terra é muito simples: a maior parte dos brasileiros desconhece a palavra ode. Não conhecendo, não a utilizam. Está aí a razão da aparente predominância  do ódio. Elementar, meu caro Watson.

TV Escola

José Horta Manzano

Muito provavelmente, o distinto leitor nunca assistiu aos programas da TV Escola. Nem eu. Aonde vivo, não chega o sinal dessa emissora. Pouco importa, que não estamos falando de novela nem de programa de variedades. Trata-se aqui de canal dedicado à educação.

Sai, fresquinha, a notícia de que a tal TV Escola está sendo fechada por ordem do ministro Weintraub em razão de divergências quanto ao conteúdo dos programas. Mais uma vez, ressurge aquela velha história de cartilha “comunista” x cartilha de extrema-direita. São critérios elevados demais, fora do alcance da filosofia de botequim deste blogueiro. Sou do tempo em que professor ensinava, aluno aprendia e escola abrigava a todos. Pouco importava a cartilha, desde que o aluno saísse da escola sabendo ler, escrever e contar direitinho.

Num país de iletrados, semianalfabetos e alfabetizados de poucas luzes – como o nosso –, o desaparecimento de uma escola é sempre uma tragédia. Pouco importa o motivo. Governantes deveriam ter isso em mente antes de tomarem decisões drásticas.

Pra tudo, há conserto. Se a cartilha estiver malfeita, será reescrita. Se os professores forem ruins, serão substituídos. Fechar a escola é solução desesperada, tomada por alguém cujo intesse é manter a criançada na ignorância. Casos como esse, da TV Escola, deixam clara a intenção final: estão jogando o bebê fora com a água do banho.

No fundo, pouco importa a cartilha. Não é ela que determina a orientação política de aluno nenhum. O que leva o aluninho a pender para a revolta é a fome. O que leva um aluninho a pender para o ódio é a ignorância. Quando se junta a fome com a ignorância, o resultado só pode ser explosivo.

Formar criançada com ideias “comunistas” ou com visão de extrema-direita é sempre melhor do que formar um bando de semianalfabetos. Ideias se modificam com o tempo. Já um adolescente semianalfabeto tende a passar a vida nessa condição. É a perpetuação de nossa tragédia nacional.

Brexit ‒ 8

José Horta Manzano

A Irlanda do Norte é um caso muito sério. É um país, pero no mucho. São seis pequenos condados que, agrupados, formam hoje «nação constitutiva» do Reino Unido. Congregando, grosso modo em partes iguais, cidadãos protestantes e cidadãos católicos, a região sempre foi um barril de pólvora pronto a explodir à primeira faísca.

O país vive fragmentado entre as duas comunidades. Por um lado, os católicos não se oporiam à ideia de a província passar a fazer parte da República da Irlanda. Por outro, os protestantes, temendo tornar-se minoria desprezível, aferram-se à coroa britânica e preferem continuar firme como súditos da rainha Elisabeth II.

Desde sempre, as práticas religiosas falaram mais alto que a língua, a história e a cultura comuns. A contar dos anos 1970, emboscadas e atentados tingiram de sangue o quotidiano. A região entrou em convulsão e caiu num círculo vicioso: a violência atiçava o ódio, que nutria a violência. Era impossível antever o fim das hostilidades. Permanecendo as causas, é natural que o efeito permanecesse.

A entrada conjunta na União Europeia da República da Irlanda e do Reino Unido (incluindo a Irlanda do Norte) foi passo importante para a pacificação da região. De repente, Grã-Bretanha, Irlanda e Irlanda do Norte integravam uma entidade maior, supranacional. A ficha até que demorou a cair, mas lá pelo fim do século XX, cansados de guerra, católicos e protestantes norte-irlandeses chegaram a uma trégua que já ninguém ousava esperar. Embora a desconfiança mútua perdure, já faz duas décadas que parecem ter aprendido a conviver.

Eis senão quando… uma infeliz decisão britânica vem perturbar a paz da região. Refiro-me ao plebiscito que deu origem ao Brexit ‒ a saída do Reino Unido da União Europeia. Para a Irlanda do Norte, é terrível desastre. Quarenta anos de união aduaneira haviam apagado a noção de fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. As gentes e as mercadorias passavam de um lado para o outro sem pedir licença. Até os postos de fronteira haviam desaparecido.

Depois do Brexit, as duas Irlandas vão voltar ao statu quo ante bellum, ou seja, à situação em que se encontravam antes da adesão à UE. Voltam a ser países separados. Dado que uma das Irlandas permanece na UE enquanto a outra vai embora, a fronteira entre elas torna-se fronteira exterior da Europa. Uma tragédia!

O potencial explosivo da nova situação é tão forte que está emperrando o acordo de divórcio entre o Reino Unido e a UE. Irlandeses ‒ do norte e do sul ‒ gostariam que a fronteira continuasse como está: invisível, permeável, aberta e amiga. Mas a União Europeia não pode admitir que sua fronteira externa, ainda que seja num curto trecho, esteja desguarnecida.

O dilema é cabeludo. Ninguém sabe qual será a solução. Seja ela qual for, descontentará uma das partes e deixará sequelas.

O que nos separa e o que nos une

Cabeçalho 3Myrthes Suplicy Vieira (*)

.

Estarrecida com os recentes atentados ocorridos em Paris e, consequentemente, incapacitada de articular em palavras toda minha tristeza e solidariedade às vítimas, resolvi repassar a vocês as sábias palavras proferidas por minha cachorra mais velha:

Cachorro 2“O mal também está entre nós. O mal é irracional e, nesse sentido, animal. Como toda pulsão instintiva, ele age de forma devastadoramente intempestiva e inesperada. Não há como prever nem deter sua força destruidora. Só resta aos atingidos recolher-se por um tempo, lamber as feridas e ponderar sobre as próprias fragilidades. Depois, aos poucos, retomar a vida cotidiana com uma compreensão mais abrangente da responsabilidade de cada um no sentido de enfrentar de peito aberto os perigos que nos rondam.

Cachorro 7Há, no entanto, algumas diferenças importantes entre a forma humana e animal de agir maldosamente que eu gostaria de explorar por alguns instantes. Em primeiro lugar, nós animais somos incapazes de planejar uma ação, seja ela boa ou má. Vivemos exclusivamente no aqui e no agora, reagimos apenas aos estímulos que se nos apresentam de imediato. Em segundo lugar, os sinais de que algo ruim está prestes a eclodir são mais inequívocos entre nós. Quando um cachorro penetra em nosso território com o rabo erguido e não se deixa cheirar pelos demais, não há como ignorarmos o alerta vermelho. Não importa se o agressor em potencial é um pitbull descontrolado e todos os demais assustados chihuahuas, a reação virá de pronto na forma de rosnados, latidos e união de forças da matilha para perseguir o agressor prepotente.

Crédito: Yogi.centerblog.net

Crédito: Yogi.centerblog.net

Nem sempre nossa estratégia de sobrevivência dá certo, tenho de confessar. Às vezes, a força do adversário é descomunalmente desproporcional e, quando isso acontece, só nos resta lançar mão de um último recurso instintivo. Nós nos deitamos de barriga para cima, esticamos o pescoço para trás, deixando nossas jugulares expostas à sanha do atacante. Pode parecer um gesto tresloucado de nossa parte, mas funciona: o ataque é interrompido instantaneamente. Equivale ao que vocês chamam de ‘jogar a toalha’, gritar que a luta está terminada, que estamos nos rendendo. Para nós, não há vergonha nem humilhação nessa tomada de decisão, uma vez que entendemos que a continuidade da luta implicaria a utilização de recursos que contrariam mesmo a natureza mais selvagem. Uma coisa é medir forças para garantir a sobrevivência do indivíduo e outra, bem distinta, é recorrer à violência gratuita na tentativa de preservar nossa raça ou nossa espécie.

Cachorro 19Em terceiro lugar, somos alheios à mágoa e ao ressentimento. Cada novo encontro entre nós é, literalmente, um recomeço. Só somos capazes de guardar a memória do cheiro de quem nos agrediu anteriormente e associar esse cheiro à lembrança de dor física. Mesmo assim, quando o sentimos novamente, não tomamos a iniciativa de contra-atacar. Tentamos mais uma vez nos aproximar e, caso sejamos repelidos agressivamente, eriçamos nossos pelos, rosnamos, retesamos nossos músculos, abaixamos nossas cabeças e as patas da frente, levantamos nossas caudas, engolimos o medo e partimos para a luta, mesmo que ela seja mais uma vez desigual.

Crédito: Ellem.ca

Crédito: Ellem.ca

Respeito a necessidade que vocês humanos sentem de identificar as causas de cada ataque que sofrem, ainda que não acredite pessoalmente na eficácia dessa atitude. O que a própria vida já deve ter-lhes ensinado é que algumas vezes é preciso não entender, admitir o pasmo, passar recibo da sofrida perplexidade que um ataque como esse provoca. Também não me parece promissor desqualificar o comportamento de quem os ataca de surpresa, pelas costas, como “não humano”. Ele é humano, sim, infelizmente. Apenas quando vocês puderem admitir que a natureza humana é, por definição, imperfeita, já que é metade de bicho racional e metade irracional e, portanto, comporta os gestos de maior grandeza e benevolência, assim como os mais covardes e cruéis, é que alguma forma de mudança poderá começar a se delinear.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Temos, entretanto, um traço em comum que pode realimentar a esperança de dias mais felizes para vocês. Tanto entre humanos quanto entre animais, não é preciso ensinar nossos filhotes a amar. Basta que o outro se aproxime de nós com docilidade, seja no corpo ou na voz, para que nosso sistema de retribuição seja acionado de imediato.

Apesar dessa herança filogenética comum, é triste constatar que, para que um filhote humano chegue a cultivar o ódio, as lições dos adultos têm de vir de forma sistemática. É realmente uma pena que isso aconteça na sua espécie. Só posso lamentar que vocês ainda não tenham desenvolvido a capacidade de ignorar o passado e o futuro e de se ater ao cheiro do presente”.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Indignação e catarse

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Atos violentos, como os ataques terroristas perpetrados na França há alguns dias, costumam gerar forte indignação em todo o mundo. Em mim também. No entanto, o que mais tem chamado minha atenção nos últimos meses é a repetição por toda parte de comportamentos que têm por objetivo primário o de impor de forma violenta as próprias percepções, crenças e visões de mundo a todo o restante da humanidade.

Cagoule 1Exemplos desse tipo de conduta incluem desde casos corriqueiros, como carros circulando com o aparelho de som ligado na potência máxima, passando por comentários raivosos nas redes sociais diante de literalmente qualquer tipo de opinião expressa, até os assim chamados “hate crimes” – crimes de ódio. É como se os outros tivessem se transformado em simples obstáculos que impedem que cada um acesse e desfrute tudo aquilo que lhe dá prazer. Assassinatos em série com requintes inimagináveis de perversidade, esquartejamentos, estupros, casos de pedofilia e violência doméstica multiplicam-se exponencialmente, atingindo agora não apenas os desafetos habituais mas também as pessoas mais próximas do círculo familiar, do ambiente de trabalho ou com as quais o infrator possui laços afetivos. Não há escrúpulo, culpa ou remorso. Nenhuma emoção penosa o suficiente para demover o mal-intencionado do desejo de causar dor, sofrimento e morte.

Frente a esse cenário catastrófico, uma pergunta insiste em percorrer meu cérebro: o que leva um ser humano a romper com as as regras civilizatórias mais básicas? Desconfio instintivamente do diagnóstico pontual de transtornos mentais. A coisa está mais para epidemia do tipo ebola do que para asilo de loucos. O vírus do rancor, do ódio e da vingança dissemina-se em velocidade francamente espantosa em todos os cantos do mundo.

A agressividade não é estranha nem rara no mundo animal. Lutas de vida ou morte são bastante frequentes entre animais que disputam território, comida, água ou parceiros sexuais mas, até onde eu saiba, não há notícia de embates sangrentos que não envolvam essas causas.

Há alguns meses, assisti a um debate capitaneado por um filósofo francês cujo argumento central era o de que a indignação não é um sentimento verdadeiramente moral. E explicava: nós só nos indignamos com o comportamento dos outros, nunca com nossa própria conduta. Caso alguém aponte um ato antiético que tenhamos eventualmente cometido, temos sempre uma justificativa na ponta da língua: eu estava desequilibrado naquele momento, não tive a intenção, foi um segundo de distração, não pesei as consequências, etc. etc. etc.

Cruzada 1Essa argumentação voltou à minha cabeça com força nos últimos dias. Temos, como sociedade, um novo bode expiatório já pronto para o abate: o fanatismo islâmico contraria os princípios mais caros do cristianismo, do judaísmo, do budismo e de muitas outras religiões “ocidentais”. O que fazer então? Treinar novos exércitos de combatentes e declarar nova guerra santa? Exterminar todos aqueles que agridem frontalmente nossa fé? Em nome de quê? É bem possível que os comandantes desses novos batalhões argumentem que estão apenas defendendo os valores da vida, da solidariedade, da compaixão, da harmonia e da conciliação.

Mas… espere um pouco: é somente a mim que esse convite à conflagração parece insano? Ou será que ainda há pessoas que se dão conta de que os dois lados do conflito estão contaminados pela mesma doença? Aquela enfermidade que nos obriga a colocar, como ponto de honra de nossa vida, a minha ideologia, as minhas crenças políticas e religiosas, o meu estilo de vida têm de prevalecer, custe o que custar.

by Diogo Salles, desenhista paulista

by Diogo Salles, desenhista paulista

A pergunta permanece: por quê? Um de meus professores de psicanálise me encantou com a teoria de que todas as pendengas sociais partem de uma sensação pessoal de insatisfação. Não de desequilíbrio de poder, repetia ele, mas de um desequilíbrio de satisfação. Um formulado bastante sensato, a meu ver. Se estou satisfeita com minha vida afetiva, profissional e financeira, que razão teria para ficar me perguntando se outras pessoas estão mais ou menos satisfeitas do que eu?

Em nossa sociedade psicologicamente imatura e egocêntrica, parece ser mais fácil confundir poder e força, conhecimento e sabedoria. Infelizmente, ainda estamos às voltas com as crises de birra típicas da infância e engatinhando na difícil arte de lidar com frustrações e limites.

O mais angustiante, entretanto, é que a indignação diante de acontecimentos tão nefastos dura apenas um segundo. Os protestos de massa podem aliviar significativamente a tensão do momento, mas a catarse não constrói. Quase imediatamente voltamos à rotina de engolir outros sapos pessoais, a tensão começa a se acumular novamente e a insatisfação nos empurra para a busca de novos bodes expiatórios.

A pergunta agora é: até quando vamos nos conformar em tratar dos sintomas e voltar as costas para a busca dos motivos de nossa insanidade coletiva?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A Copa é uma beleza!

Percival Puggina (*)

MegafoneQuem xingou Dilma no Itaquerão? Fossem sonoros aplausos, a comunicação oficial não teria constrangimento em ressaltar a ruidosa e alegre saudação popular dedicada à presidente. Mas não foram aplausos. Impunha-se, portanto, circunscrever a ação a um pequeno e seleto grupo de privilegiados e encontrar responsáveis.

O ex-presidente Lula, que, prudentemente, não passa nem de avião por sobre os estádios com cuja construção se comprometeu, veio às falas. Ao se manifestar, no dia seguinte, durante um comício do PT em Pernambuco, apelou para o velho truque de emoldurar o fato num quadro simplista: o estádio teria sido capturado por não torcedores, gente cheia de ódio.

Quem estimulou esse ódio? Setores da imprensa. Quais as razões do ódio? Revolta dos ricos contra o crescente bem estar dos pobres. Mas, adiante, sublinhou não haver no estádio ninguém com cara de pobre. “A não ser você, Dilma”. Nenhum “moreninho”. E afirmou que o público era formado pela “parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira”.

by François Matton, desenhista francês

by François Matton, desenhista francês

Ao querer simplificar, Lula complicou e se complicou. É impossível não perceber os preconceitos desse discurso. Para que tal oratória fique de pé, o ex-presidente decide que branco é bonito e moreninho, feio. E que quem sempre comeu se revolta quando todos comem. Por quê?

Faltando os porquês, o discurso cai. Desaba como uma pedra sobre os sapatos Louboutin da presidente com cara de pobre. Lula sempre forçou antagonismos para se posicionar: pobres contra ricos, moreninhos contra branquinhos, olhos claros contra olhos escuros, empregados contra patrões, índios contra civilizados. Ou vice-versa, ao gosto do freguês. Agora, nos apresenta o Brasil dividido, também, entre o Brasil dos bonitos e o Brasil dos feios. Arre, Lula!

DiscursoMas não foi só aí que, por excesso de simplificação, a oratória ex-presidencial despencou a ponto de tornar a fala imprestável para qualquer par de neurônios que lhe desse atenção. Afinal, quem ― sem consultas, sem ouvir a opinião pública, na escuridão do próprio bestunto ― decidiu trazer a Copa de 2014 para o Brasil? Quem cedeu às exigências e padrões da Fifa? Quem multiplicou as sedes e construiu estádios onde sequer existem clubes de futebol? Quem, se não o próprio Lula, criou o cenário para a festa do dia 12, não no histórico Maracanã, não na Capital Federal, mas no estádio do seu Corinthians?

Agora, após o acontecido, ele imagina que o país também se divide entre uma multidão burra e uns poucos inteligentes, entre os quais ele próprio. E fala, novamente, como se nada tivesse a ver com o que acontece no País.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Grande homem

José Horta Manzano

Grandes personalidades têm sua nota de falecimento preparada com antecedência. Pode parecer tétrico, mas assim é. Com mais razão ainda quando o personagem vai atingindo idade avançada.

Já em 2007, Bill Keller, do New York Times, começou a escrever o elogio fúnebre de Nelson Mandela, cujo vigor físico declinava.

Em entrevista com o ancião, o jornalista perguntou como era possível, depois de atravessar uma vida de sofrimento tão brutal, que ele conseguisse reprimir seu ódio. A resposta do velho sábio foi desconcertante:

«O ódio obscurece a mente. Atravanca a estratégia. É um sentimento pelo qual os líderes não podem se deixar dominar.»