Nós, os touros e as rãs

Dad Squarisi (*)

Que país é este? Ninguém sabe com certeza. O andar de cima está em apuros. Presidente, senadores, deputados, empresários & cia. sem fim estão afundados num mar de corrupção. Alguém escapa? A impressão que se tem é que entrou em cartaz velha história cuja ideia central pode ser esta: «Se procurar, acha». Ou talvez esta: «Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come».

Alguns acham bom. Comemoram. Com os olhos no próprio umbigo, pensam não ter nada a perder. Outros se preocupam. Pensam no futuro de filhos e netos. Lembram, a propósito, a fábula Os touros e as rãs. Conhece?

A fábula
Dois touros vizinhos se desentenderam. Um xingou o outro, xingou a mãe do outro, xingou a vó do outro. Resultado: sem diálogo, ambos partiram pra luta. Patas e chifres entraram em ação. Foi um deus nos acuda.

Uma rã velha e sabida que vivia por perto olhava a briga com preocupação. Rãzinhas, ao contrário, se divertiam com a briga dos titãs. Ora torciam pra um. Ora pra outro. Uma delas percebeu o pânico da rãzona. Curiosa, perguntou:

‒ O que houve? Por que você está triste?

Eis a resposta:

‒ O touro que perder a luta será expulso do pasto. Virá pra cá. Nós vamos pagar a conta de uma luta que não é nossa.

Não deu outra. O derrotado foi para o brejo. Todos os dias dava uma voltinha pelas redondezas. Na caminhada, esmagava montões de rãzinhas com as patas.

A moral da história tem a ver com a realidade verde-amarela. Quando os poderosos brigam, os mais fracos pagam o pato. Quem? Eu, tu, ele.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Pagando o pato

José Horta Manzano

O folclore político nacional tem engordado com novos figurantes. O pixuleco e o pato são as imagens mais recentes. A presença do pixuleco, todos entendem: simboliza o corruptor-mor. Já o pato representa o cidadão que acaba pagando a conta da capetagem de seus governantes.

Mas por que ter escolhido um pato? Faz alusão à expressão «pagar o pato». E qual é a origem dessa curiosa frase? Há quem conte alguma tortuosa história de um pato que teria servido como moeda de troca numa hipotética negociação. Parece que o caminho não é esse.

É interessante notar que, na roupagem castelhana «pagar el pato», a expressão é corrente também na Espanha. A explicação que os espanhóis dão sobre a origem dela é mais convincente. Tem a ver com a expulsão dos judeus, determinada em 1492 por Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

Pato 1Naquela época, duas opções foram dadas aos israelitas: ou se convertiam ao cristianismo, ou deixavam o país. Muitos se foram, outros preferiram se converter e ficar. Entre os que permaneceram e se converteram, alguns conservaram a antiga fé. Em público, agiam como cristãos, mas na intimidade familiar, mantiveram ritos e práticas da antiga religião.

Volta e meia, uma ou outra família acabava desmascarada por um vizinho ou por um curioso. Nessas horas, antes de os denunciar à Inquisição, o bisbilhoteiro costumava chantagear os infelizes. Para escapar do tribunal, da tortura e da fogueira, os contraventores preferiam pagar o montante que o denunciante lhes exigia.

Pagavam por não ter abandonado o «pacto com Deus», ao qual os judeus aderem desde os tempos bíblicos. A linguagem popular se encarregou de deturpar a expressão. De «pagar o pacto», transformou-se em «pagar o pato».

Pato 2Etimologia
Em muitas línguas europeias, o nome do simpático palmípede deriva de antiquíssima raiz sânscrita que deu em latim=anas/anatem; em italiano=anatra; em alemão=Ente; em catalão=ànec; em lituano=antis.

Nas línguas ibéricas, a influência árabe se impôs. Tanto em espanhol quanto em português, dizemos pato, derivação do persa bat através do árabe clássico baṭṭ e do árabe hispânico páṭṭ.