Trump quer esvaziar Gaza

José Horta Manzano

Em 27 de janeiro passado, está fazendo quase dez dias, escrevi um post ao qual dei o nome de Plaza Strip. Naquele texto, botei no papel uma realidade que me parecia evidente, bastanto juntar duas falas de Donald Trump pronunciadas em momentos diferentes. Eu tinha entendido que o presidente americano, experiente no ramo de promotor imobiliário, enxergava a Faixa de Gaza como excelente localização para implantar um complexo turístico de luxo.

Pelas manchetes que vejo hoje nos jornais do mundo inteiro, fico com a impressão de ter sido o único a ligar as duas falas de Trump. Esse é o lado lisonjeiro. Do lado decepcionante, percebo que nenhum dos líderes globais – Xi Jinping, Macron, Putin nem mesmo Lula – leu meu artigo. Se tivessem lido, já teriam reagido antes dos comentários da multidão. E olhe que não leram de bobeira: aqui não tem anúncio! Enfim, paciência.

As manchetes devem estar fazendo muita gente fina cair das nuvens, todos assustados com o pronunciamento que Trump fez ontem sobre Gaza. Desta vez, ele juntou tudo numa fala só, e foi bem claro. Lançou no ar a ideia de que os EUA devem tomar conta de Gaza, não sem antes tirar de lá os gazeus e reparti-los entre Egito e Jordânia. Em seguida, a faixa de terra será reconstruída e se tornará uma “Riviera” do Mediterrâneo Oriental. (Daí eu ter chamado meu escrito de Plaza Strip, fazendo rima com Gaza Strip, mas numa declinação mais chique e sofisticada, lembrando grandes hotéis de luxo da orla mediterrânea.)

Não precisei ir mais longe que nossa mídia online nacional para encontrar as primeiras reações ao projeto: desumano, limpeza étnica, roubo de território, mundo chocado, projeto truculento, mandar palestinos para onde? (Lula), violação de leis internacionais, genocídio.

Concordo com todas essas expressões. Trata-se de mais um passo no genocídio montado contra os infelizes palestinos, cidadãos cujo triste destino todos lamentam mas que ninguém se anima a convidar pra morar em casa.

Agora vamos mudar de tom. Não se trata de ser cínico, mas realista, questão de ver as coisas como são.

Israel controla a Faixa de Gaza. Ninguém lá entra nem de lá sai sem autorização de Tel Aviv. Desde o começo da guerra, nenhum jornalista estrangeiro pisou o território. Remédio só entra a conta-gotas. Todos os hospitais foram destruídos ou fortemente degradados. Em Gaza City, 90% dos imóveis desmoronaram.

Os Estados Unidos são a maior potência econômica e militar do planeta. São também aliados incondicionais de Israel.

Juntando os dois, Israel e EUA, temos a fome e a vontade de comer. Portanto, não perca dinheiro na bolsa de apostas de Londres: o que Donald Trump quer, se fará. Que  seja chocante ou não, que pareça legal ou não, que o mundo aprecie ou não, dentro de pouco tempo o território será esvaziado dos trapos humanos que o habitam. Alvas construções em estilo brotarão e palmeiras recém-plantadas enfeitarão a borda das piscinas para suavizar o clima desértico. E os primeiros nababos começarão a chegar.

Quem poderá impedir que isso tudo aconteça? Xi Jinping? Putin? A União Europeia? Quem se arriscaria numa guerra contra os EUA?

Como disse, prezado leitor? Pra onde vão os gazeus? Ora, uma parte para a Jordânia e outra para o Egito, exatamente como Trump deseja. E como é que ele vai conseguir que esses países aceitem dois milhões de maltrapilhos? Pela ameaça. Tanto a Jordânia quanto o Egito são tributários de substancial ajuda americana. Todo ano, recebem quantia que não podem perder. Receberão, naturalmente, uma compensação pela gentileza de acolher os refugiados. E vão acolhê-los, sim, senhor.

Mas tem uma coisa. Como se sabe, toda moeda tem duas faces. Na outra face desta, está o precedente que Trump estará abrindo caso insista nessa ideia descabida. Se sua cupidez imobiliária o cegar, estará dando ao mundo prova de que é legítimo intervir de forma truculenta para conquistar territórios estrangeiros.

Daí pra frente, não poderá mais dar um pio se a Rússia intervier militarmente na Moldávia ou na Geórgia ou se a China decidir tomar Taiwan à força dos canhões. O mundo terá regredido aos séculos de antigamente. Estará aberta nova era de conquistas territoriais como nas guerras napoleônicas. Só que agora a espada será substituída por drones incendiários, minas antipessoais e outros bijuzinhos da guerra moderna.

Os onze milhões

 

José Horta Manzano

Uma maluquice incomoda muito a gente
Duas maluquices incomodam muito mais

Duas maluquices incomodam muito a gente
Três maluquices incomodam muito mais

E assim por diante…

Donald Trump entrou de sola no segundo mandato. Desde o primeiro momento, soltou um festival de maluquices que tem assustado muita gente. No entanto, dado que cada maluquice empurra a anterior para a tumba do esquecimento midiático, as primeiras já passaram para segundo plano.

A primeira (assustadora) medida que Trump tomou foi garantir que cumpriria ao pé da letra a ameaça de expulsar onze milhões de cidadãos estrangeiros que vivem ilegalmente no território dos EUA. Por mais que soe impossível de cumprir, promessa de presidente costuma ser levada a sério.

Convém considerar que será necessário expulsar uma média de 7.500 clandestinos por dia – dia sim, outro também, sábados e domingos incluídos – para atingir a meta dos onze milhões nos 1.460 dias do mandato. Trocando em miúdos, será necessário mobilizar em permanência entre 100 e 150 aviões das forças aéreas americanas, cada um com capacidade de 100 passageiros em média. Todos farão rotações incessantes, ida e volta, rápida parada para embarque, desembarque, abastecimento e troca de equipagem. Vai sair caro.

Dessa primeira maluquice do presidente-estrela, apesar de ela ser missão impossível, já se fala menos. A atenção do planeta está voltada para a maluquice seguinte, o aumento brutal nas taxas de importação de nações amigas e/ou inimigas, tanto faz. Canadá, México, China entram no mesmo molde. Os outros países estão preocupados na expectativa de serem os próximos da lista.

Especialistas garantem que essa guerra de tarifas alfandegárias vai causar a ruína da própria economia dos EUA. Será uma pena. Trump, veja você, só dura 4 anos. Por seu lado, se a China preencher o lugar dos Estados Unidos declinantes, teremos de viver por décadas sob a lei de Pequim.

EUA e a caquistocracia

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense
via Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 janeiro 2025

Corria a última década do século passado quando a palavra internet começou a circular. Ela já existia antes, mas só circulava entre peritos e iniciados. Naquela época, corria a voz de que logo logo essa tal de internet seria introduzida na firma em que eu trabalhava. A curiosidade me levou a procurar me informar junto a um colega mais enfronhado.

Por meio de esquemas e desenhos rabiscados num canto da mesa, o rapaz me explicou que internet representava o futuro da telecomunicação. Permitia que qualquer um, da comodidade de seu escritório, se comunicasse com qualquer pessoa ao redor do globo, instantaneamente, sem custo. Perguntei quem era o dono dessa maravilha. Quem se maravilhou com a resposta fui eu: a invenção não tinha dono.

Como assim, não tem dono? Confesso que não entendi bem como uma estrutura gigantesca poderia vir a existir e funcionar sem dono. Os anos passaram e internet se tornou a companheira inseparável de parte considerável da humanidade. Hoje em dia, sem internet, nada mais funciona. Nem trem, nem avião, nem hospital, nem firma, nem telefone. Nada mesmo.

Surgiram as redes sociais – que às vezes dá vontade de chamar de “redes associais”. Foram chegando de mansinho, infiltraram-se entre jóvens e maduros, entre ricos e remediados, entre inteligentes e cretinos. Com raras exceções aqui e ali, enredaram as gentes. (“Enredar” é o próprio de toda rede que se preza, pois não?)

O que antes se aparentava a fenômeno passageiro acabou tornando-se um tique mundial: ninguém dá dois passos sem consultar suas “redes” pra conferir se o planeta continua de pé. Para muitos, as redes se tornaram o único veículo de informação. Só que tem uma coisa: o advento das redes sociais enquadrou e canalizou a liberdade que a internet prometia 30 anos atrás. Aquela sonhada “cabeça fresca e cabelos ao vento” foi acaparada pelas redes sociais, com formatação imposta e chuva de anúncios publicitários.

Um dia a gente acorda e descobre que a internet livre de dono não passou de sonho fugaz. As redes que hoje canalizam os fluxos da comunicação humana têm nome, endereço e, sobretudo, proprietário. O que, até outro dia, parecia um espaço de total liberdade já não é exatamente um. Firmas têm dono, e donos impõem sua visão de mundo. Com o crescimento exponencial dos negócios, os donos das redes enricaram. Insaciáveis, não se contentam com os bilhões arrecadados. Querem mais, muito mais.

Ao se dar conta de que Donald Trump se preparava para assumir a presidência cercado de bilionários, aí incluídos os donos das redes sociais, Joe Biden alertou, em seu discurso de despedida, para o perigo de os Estados Unidos virem a ser governados por um clube de bilionários.

Sem tirar-lhe a razão, convém acrescentar que, entre esses magnatas, estão os proprietários das maiores redes sociais do planeta, como Twitter (agora chamada X), Facebook, Whatsapp, Instagram. Que o mundo seja governado por ricaços é compreensível, tem sido assim desde sempre. A novidade é ver aninhados no poder os donos dos canais que, com frequência, exercem a função dos confessionários de antigamente. É preocupante deixar alegrias e penas accessíveis a um nababo que, com o auxílio da IA, terá nas mãos uma massa de conhecimentos que lhe conferem poder extraordiário sobre cada um dos habitantes do planeta.

Dispor desse arsenal de informações e sentar à mesa do homem imprevisível que lidera o país mais poderoso é bagagem perigosa como dinamite. Explosiva. O único caminho para minorar o problema seria que todos cancelassem sua inscrição nas redes. Mas… cancelar, quem há de?

Os Estados Unidos de Trump 2.0, a julgar pelos nomes já anunciados de ministros e auxiliares, não prenunciam contar com um governo de sumidades. Está mais para um “L’État c’est moi” de Louis 14, com um magnata de temperamento narcisístico e explosivo no centro de uma corte de adoradores, alguns tão magnatas quanto ele ou mais. Uns dizem “amém” e outros respondem “amém nós todos”.

Que ninguém se engane: nos EUA, está instalado o governo dos piores, a caquistocracia.

Os dez primeiros dias

Trump subindo a escadaria

José Horta Manzano

Dez dias se passaram desde que Donald Trump “subiu a rampa” da Casa Branca para seu segundo mandato. Falei em “subir a rampa” como linguagem simbólica. Bem mais antiga que nosso Palácio do Planalto, a sede do Executivo americano só tem uma rampinha lateral construída em anos recentes. A entrada mesmo se faz pela escadaria, e é por lá que Trump subiu.

É praxe conceder a todo governante iniciante um armistício (ou paz provisória) de 100 dias para permitir-lhe mostrar a que veio. No entanto, pelos tempos frenéticos que correm – especialmente para um governante hiperativo como Trump –, os primeiros dez dias já deveriam mostrar uma tendência. De fato, mostram.

Meus argutos leitores já devem ter reparado que o novo presidente é mais destruidor que construtor, é mais de rasgar que de costurar, é mais de cuspir fogo que de apagar incêndios. Prestem atenção agora. Nestes dez dias, Trump já afrontou dezenas de países (com ameaça de sançôes e, principalmente, com expulsões de imigrantes clandestinos). Me digam se lhes ocorre, entre os países afrontados, algum que seja poderoso ou simplesmente importante.

Não encontraram? Nem eu. Mostrou ao vizinho México quem é que manda no pedaço, mas não se atracou com o vizinho Canadá. Está despachando, com espalhafato, trabalhadores imigrantes clandestinos da América Latina, mas não deu um pio quanto aos ilegais de origem chinesa ou indiana. Vociferou contra os povos mais frágeis do Oriente Médio (no momento, os habitantes de Gaza), mas não fez o mesmo contra Israel. Contra China, Rússia, Índia? Também nem um pio.

Vai ficando claro que Trump escolhe suas vítimas entre os mais fracos, nunca entre os mais fortes. Vai ficando também claro que o presidente se permite gastar dez dias fornecendo manchetes sensacionalistas para os jornais enquanto os verdadeiros problemas de seu país (e do mundo) passam ao segundo plano e continuam à espera.

Trump se preocupou com pessoas trans, assunto que apaixona todo político de extrema-direita, mas cuja discussão deveria ser confiada ao Congresso. Não faz sentido um chefe de Estado preocupar-se com esse tipo de problema de sociedade.

Trump retirou seu país da Organização Mundial da Saúde, abrindo a porta para que a China passe a dominar esse importantíssimo setor da vida do planeta. Também retirou os EUA da Organização Mundial do Comércio – seria cômico se não fosse trágico que o país responsável por uma fatia de quase 10% do comércio mundial renuncie a fazer parte da organização que trata desse assunto. De novo, a porta está escancarada para a China.

Adicione os gestos que acabo de mencionar. Só encontrará afronta a países menores e destruição de políticas estabelecidas de longa data. Destrói-se o que não agrada sem propor substituição, esse parece ser o lema.

Espera-se que o espetáculo ignóbil e indigno da deportação de trabalhadores estrangeiros pobres e algemados chegue rapido ao fim. Se não, em breve não mais haverá no país quem varra as ruas, quem lave a louça, nem quem limpe as latrinas.

Ágio

José Horta Manzano

Por coerência, quem diz “ágio acima” também deveria dizer “entrar pra dentro” e “descer pra baixo”. O “acima” sobra. Ágio é sempre calculado acima de um valor de referência, nunca abaixo.

Ex:
O dólar está sendo vendido no paralelo com ágio de 10%.
(ou seja, pelo valor do oficial com acréscimo de 10%)

A chamada do jornal deveria dizer:
“Com ágio de 40% sobre o valor cobrado em dinheiro vivo”

Se, ao contrário, o cálculo tivesse de ser para baixo, como um desconto, seria possível usar “deságio”, embora seja termo pouco frequente.

Ex:
O produto está sendo vendido com deságio de 15% com relação ao preço da semana passada
(ou seja, com desconto de 15% sobre o preço da semana passada)

Plaza Strip

by Jean Galvão (1972), desenhista paulista
via Folha de São Paulo

José Horta Manzano

Este sábado 25 de janeiro, tive confirmação de minha teoria sobre o perigo dos pronunciamentos que líderes fazem quando estão fora de casa. Quando estão de viagem no estrangeiro ou também no avião que os conduz de um lugar a outro, chefes de Estado e chefes de governo deveriam prestar extrema atenção às palavras que proferem. Políticos de alto coturno já tiveram de encerrar a carreira devido a uma frase imprudente pronunciada em viagem. Há anos escrevi um post sobre o assunto.

Com um impressionante barulho de fundo – eu nâo imaginava que o 747 Air Force One fosse tão barulhento – Trump conversou uns vinte minutos com jornalistas que viajavam com ele, num estilo pingue-pongue (perguntas breves e respostas rápidas).

O assunto principal era a guerra de Israel em Gaza. Donald Trump exprimiu seu desejo de esvaziar totalmente a Faixa de Gaza (2 milhões de habitantes!) e despachar essa população para os países vizinhos, Egito e Jordânia.

Aqui tenho de abrir um parêntese. Convém estabelecer uma correlação entre a espantosa ideia revelada no avião e as palavras que o próprio Trump pronunciou logo depois de ter sido empossado. No dia da posse, o novo presidente disse que Gaza “realmente tem de ser reconstruída de um jeito diferente”. Ele acrescentou que “Gaza é muito interessante por gozar de localização espetacular à beira-mar, no melhor clima, onde tudo é bom. Coisas lindas poderiam ser feitas lá”.

Nesse ponto, é bom sentar, tomar uma respiração profunda e refletir um instante.

Esvaziar? Expulsar aquela ralé? Limpar o terreno? Construir coisas lindas? Vindas de quem enricou no ramo imobiliário e mantém negócios na indústria hoteleira, essas palavras fazem sentido. Não são elucubrações de um qualquer, são projetos com começo, meio e fim, feitos por quem é do ramo. É capaz até de o orçamento estar pronto.

Esses acontecimentos me inspiram pelo menos duas reflexões.

A primeira
Donald Trump mais uma vez passa recibo de absoluta inaptidão para as funções que ocupa. Apesar das lantejoulas e dos paetês, salta aos olhos sua ignorância profunda de História Geral, em especial da História do Oriente Médio. Tampouco sabe como funcionam as relações entre estados. No vácuo de sua cabecinha, cabe a ideia de dar, aos países vizinhos, ordem de abrir a fronteira e aceitar os milhões de infelizes habitantes de Gaza. E pronto, o problema está resolvido.

Ignora que cada país tem sua soberania, seus problemas, seus objetivos em política interna e externa. E que, apesar de receberem ajuda dos Estados Unidos, nenhum deles está disposto a importar milhões de estrangeiros só para agradar Donald Trump. Se o problema é encontrar um pouso para os gazeus, por que é que o presidente não os leva diretamente para os EUA? Por que não lhes daria um pequeno território para viverem tranquilos, longe dos israelenses e das bombas? É feio dar esmola com o chapéu alheio, como Trump está fazendo.

Os eleitores de Donald, que vivem alienados do mundo, que não leem nada, que não assistem nem ao jornal da tevê, que só se informam pelas redes trumpistas, nunca vão se inteirar do que se passa em Gaza, nome que só conhecem de ouvir falar. Trump pode dizer ou fazer o que bem entender, que seus fãs vão continuar usando um boné vermelho escrito “Make America great again”. E vão continuar votando no Salvador.

A segunda
Mais uma vez, Trump mostra que só se lembra da raça humana em tempos de eleição. Fora isso, para ele, os seres humanos não passam de peões, peças sem grande valor alinhadas num tabuleiro. Tirá-las do caminho ou eliminá-las faz parte do jogo e não lhe causa engulhos. É tão humanista, flexível e empático quanto uma porta de aço. Fechada.

Os EUA não são nenhuma Finlândia, nenhuma Islândia, países onde a distância entre os abastados e os necessitados é pequena. No país de Trump, há amplo contingente populacional de renda baixíssima, que não tem nem como tratar da saúde ou dos dentes. Depois de “limpar” a Faixa de Gaza, o que é que Trump pretende fazer com esses infelizes? Fazer uma limpeza de terreno, tirá-los do caminho e despachá-los para longe da vista, digamos, para a Groenlândia?

Inepto, ignorante e desumano, assim é o miliardário que hoje governa o país mais poderoso do mundo. E certamente assim são os que o cercam, miliardários ou intrometidos. É um clube em que cada sócio puxa a brasa para sua sardinha sem ligar a mínima para as necessidades do populacho.

A continuar nesse passo, daqui a pouco tempo Gaza terá se tornado destino turístico mundial, com palmeiras à beira-mar, livre de árabes pobres, com hotéis, cassinos, “resorts” de luxo e cais especiais para grandes iates. Seu nome será mudado. Em vez de Gaza Strip, será Plaza Strip, um spot internacional de luxo aberto aos nababos de todo o planeta. Naturalmente, os árabes serão acolhidos de braços abertos – desde que sejam endinheirados.

O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Bispa

José Horta Manzano

Se Sua Excelência Reverendíssima soubesse que está sendo chamada de “bispa” por 10 entre 10 veículos da mídia brasileira, havia de torcer o nariz. Esse feminino caseiro pode até ser tolerado por prelados neopentecostais, mas essa religiosa é autoridade da Igreja Anglicana, derivada do catolicismo e dele bastante próxima.

Pode soar estranho por falta de uso, mas a palavra bispo tem feminino. Precisa lembrar do original grego (epískopos). Ele deu a forma episcopisa, aceita na língua portuguesa e mencionada até no Houaiss.

O próprio recorte de jornal estampado mais acima menciona a Diocese Episcopal de Washington.

Falar em episcopisa pode soar meio raro, mas tem um charme indiscutível.

Internacional reacionária

Viktor Orbán, Giorgia Meloni, Donald Trump, Marine Le Pen, Elon Musk

José Horta Manzano

Duas semanas atrás, num discurso proferido na Conferência dos Embaixadores em Paris, o presidente Macron se referiu a Elon Musk como o homem que “dá apoio a uma nova Internacional Reacionária. Nessa comparação, ele se referiu a duas organizações que realmente existiram: a Internacional Comunista (que viveu de 1919 a 1943) e a Internacional Socialista (fundada em 1951 e que ainda sobrevive).

Essas duas organizações buscavam favorecer a implantação do comunismo (respectivamente, do socialismo) em todos os países. Como sabemos hoje, o objetivo de nenhuma das duas foi alcançado, embora ainda haja muita gente assustada com o “perigo do socialismo”. O próprio capitão, quando conduzia(!) o Brasil, declarou na ONU que tinha livrado nosso país do perigo do socialismo.

Hoje Donald Trump toma posse do cargo que havia perdido quatro anos antes. Volta a ser presidente dos Estados Unidos por um mandato único e não renovável de quatro anos. A tradição americana não inclui convidar políticos estrangeiros para assistir às cerimônias. Assim mesmo, expoentes da extrema direita internacional fizeram questão de anunciar, com antecedência, sua presença.

Assim, os regozijos pela assunção de Trump contarão com o prestígio de três chefes de Estado ou de governo em exercício: Giorgia Meloni (primeira-ministra da Itália), Viktor Orbán (primeiro-ministro da Hungria) e nosso vizinho Javier Milei, presidente da Argentina.

Mas não é só. Eric Zemmour, ex-candidato à presidência francesa já confirmou presença. As francesas Sarah Knafo e Marion Maréchal, ambas deputadas europeias, também vão. Todos os três são conhecidos por suas posições de direita extrema, anti-imigração, isolacionistas, antimuçulmanos.

Há mais figuras peculiares. O espanhol Santiago Abascal, do partido extremista Vox, estará presente. É aquele que gostaria de enforcar os independentistas da Catalunha por crime de traição. Um espírito suave e tolerante, como se vê.

Outro que fez questão de marcar presença é o britânico Nigel Farage, um dos líderes do movimento isolacionista que culminou no (hoje pranteado) Brexit.

Um alto dignitário do partido Alternative für Deutschland estará, naturalmente, entre os políticos europeus presentes. Afinal, Elon Musk declarou que seu partido extremista, o AfD, era o único capaz de “salvar a Alemanha”. Parece mentira, mas é verdade. Faz poucos dias que isso aconteceu.

Não se sabe bem por que razão, a francesa Marine Le Pen estará ausente. Uns dizem que ela não foi convidada. Outros creem que ela procura se resguardar com vistas às próximas eleições presidenciais. Não quer perder pontos aparecendo em má companhia.

Tem um que anda choramingando pelos cantos. Fez besteira grossa e está de castigo sem poder viajar. Ah, e ele gostaria taaaanto de estar naquele clube acolhedor, no meio de tanta gente fina, todos se ajoelhando diante de um mesmo senhor. Perder uma festa dessas é punição pior que uns dias na cadeia. Ah, como Jair Bolsonaro deve estar se sentindo mal. Excluído de uma reunião da Internacional Reacionária! Ai, como dói.

Raiva do Xandão que não deu licença. Saudades do Trump e dos bons tempos de recepção em Mar-a-Lago. Medo de ser superado por Milei no coração de Trump. Tristeza de não poder se encontrar pessoalmente com Orbán para cobrar a verdadeira razão pela qual a embaixada da Hungria em Brasília não lhe concedeu asilo.

Tem nada não, fica pra outra vez. Mas… será que haverá outra vez?

Tu não te manca?

by Laerte Coutinho (1951-), desenhista paulista
via Folha de S. Paulo

José Horta Manzano

Chega a ser irritante a insistência do ex-presidente Bolsonaro em fazer de conta que ainda é o que já deixou de ser. De fato, um indivíduo que foi apeado do poder há dois anos e que é hoje inelegível e indiciado em um balaio de crimes deixou de ser um cidadão comum, como a maioria de seus concidadãos. Ele é hoje uma pessoa suspeita de ter praticado crimes e tem, portanto, contas a prestar à justiça.

Você e eu não vivemos sob “medidas cautelares” impostas pela justiça do país. Não temos de bater o ponto na delegacia; não precisamos pedir licença para visitar quem nos dê na telha; não estamos de passaporte retido pelas autoridades, impedidos de pôr o pé fora do país. Bolsonaro não pode dizer o mesmo. Suas liberdades estão cerceadas. É um indivíduo a um passo da infâmia de tornar-se réu da justiça criminal.

Apesar disso, ele volta e meia dá uma de joão sem braço e manda seus advogados solicitarem ao STF favores aos quais não faz jus. Sua proeza mais recente foi pleitear lhe concedessem autorização especial para reaver o passaporte e partir para uns dias de vilegiatura em Washington (EUA). A-do-ra-ria prestigiar(?) os festejos da tomada de posse de Donald Trump como presidente do país. Se conseguisse tirar uma selfie ao lado do empossado, então, seria a glória, a consagração.

Ó Bolsonaro, tu não te manca não, cara? – é assim que a gente costumava arrematar uma ousadia desse calibre. É impressionante como certos caras se consideram importantes como se fossem figurinha carimbada, enquanto não passam de reles figurinha rasgada. Não ornam mais nem álbum de criança.

Por que, raios, a justiça concederia favores especiais a um sujeito que passou os quatro anos de seu mandato a invectivar as instituições da república, o Judiciário em particular?

Que ele curta o empossamento de seu amigo Donald pela tevê, como todo o mundo, sentado no sofá da sala. Que aproveite, porque, quando estiver em cana, talvez nem direito a televisão lhe concedam.

Asdfg çlkjh!

Ruy Castro (*)

A moça do outro lado da mesa na agência bancária está me abrindo uma conta. À sua frente, o computador. Digita sem olhar, enquanto me pergunta sobre aplicativos, senhas, tokens e outros mistérios da vida contemporânea. Os dedos, cheios de anéis e com longas unhas, talvez artificiais, teclam a uma velocidade que, nas antigas escolas de datilografia, renderia prêmios ao aluno. Não vacila, não erra uma letra. Eu apenas observo e me espanto porque, com o dobro de anos de teclado do que ela de vida, às vezes o dedo escorrega, bato em falso e sou obrigado a corrigir.

Nos idos do século 20, sempre que alguma chatice me obrigava a ir a uma repartição pública, eu me via micado no balcão enquanto um funcionário catava milho na máquina de escrever para preencher um formulário. Aquela era a profissão do sujeito, e ele não estava preparado para a simples missão que tinha de executar: datilografar um texto. A ninguém ocorria agilizar o serviço pagando-lhe um curso de datilografia, do qual, em poucas semanas, até com o teclado coberto, ele executaria a jato o

Asdfg çlkjh asdfg çlkjh asdfg çlkjh
Asdfg çlkjh asdfg çlkjh asdfg çlkjh
Asdfg çlkjh asdfg çlkjh asdfg çlkjh.

Sendo a máquina de escrever a única alternativa mecânica à escrita manual, e estando presente em repartições de todos os tipos, eu me perguntava por que, desde a escola, não se ministravam cursos de datilografia aos estudantes. Seria uma disciplina como as outras, com provas parciais e finais, notas vermelhas para quem não aprendesse direito e possível bomba no fim do ano.

Bem, isso nunca foi feito. E, a partir dos anos 1990, deixou de precisar. Assim que se viram diante do teclado do computador – o mesmo que o das velhas Remingtons e Olivettis –, as pessoas começaram a nascer já sabendo digitar.

Asdfg!

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado na Folha de SP.

Fique esperto!

José Horta Manzano

Este escriba é do tempo em que produtos alimentícios não eram etiquetados com data de validade. Nenhum artigo tinha data, nem mesmo garrafas de leite fresco. E como é que se fazia pra sobreviver sem se envenenar neste mundo tão cheio de perigos?

Pra começar, o mundo era menos perigoso, pelo menos é a lembrança que guardo. Por seu lado, visto que nunca ninguém tinha ouvido falar de etiqueta de validade, estávamos todos preparados pra resolver esse tipo de problema com nossos próprios meios.

Peixe no mercado ou na feira? Um rápido exame do olho do bicho nos indicava se era fresco ou se já começava a passar. Frutas e legumes? Um exame visual também era suficiente. Congelados? Não havia. De todo modo, ninguém tinha congelador. Leite, manteiga, queijo? Quem detectava o estado do artigo era o nariz do freguês. Uma cheirada bastava para dar o veredicto. Em vez de etiqueta com data, tínhamos o conhecimento familiar, transmitido de mãe para filha (e de pai para filho também).

Desde que a data de vencimento passou a ser indicada nos produtos, esses reflexos antigos começaram a se perder. Hoje a gente vai buscar os óculos, torce o pescoço e vira a embalagem de todos os lados até encontrar a data. A ninguém mais ocorre recorrer aos métodos antigos. Talvez o conhecimento milenar legado de geração em geração desde o tempo das cavernas, esteja se perdendo, atropelado pela comodidade da etiqueta de validade, que nada mais é que um nariz alheio cheirando nossa comida.


O planeta anda desacorçoado porque aquele bilionário cujo nome lembra um pão de açúcar, dono de Facebook e Instagram, decidiu abolir, ou pelo menos afrouxar, a restrição de notícias falsas que circularem por suas redes. Muita tinta tem sido gasta em comentários e catastróficas previsões sobre o futuro das redes. Sobreviverão, perguntam-se muitos, ou a rede vai virar uma cacofonia dos diabos, um imenso mercado persa em que todos gritam e ninguém se entende?

Olhe, com ou sem controle de “fake news”, eu diria que o ambiente já é caótico, um universo onde a gritaria é tanta que acaba impedindo a circulação da boa informação.

Muitos dos que estão há tempos mergulhados nesse universo sobreviveram até hoje e já provaram ser capazes de viver na tormenta, com mar revolto e ondas gigantescas. Para esses, a eliminação da censura prévia não fará quente nem frio. De toda maneira, sabiam se virar sozinhos.

Para os que se sentirem perdidos, meu conselho é adotarem o sistema da vovó. Não é complicado, é mais ou menos como expliquei nos primeiros parágrafos. Já que vão eliminar todas as etiquetas de validade, o que nos resta é sopesar cada pedaço de informação e só então aceitar ou rejeitar. É bom se desacostumar a engolir como verdade absoluta tudo o que vem escrito.

O novo esquema nos tira uma comodidade (o material não vem mais depurado de vícios e inverdades) porém nos abre largas possibilidades de desenvolver nosso espírito crítico. Agora podemos julgar por nós mesmos, situação que faz bem ao espírito.

No começo, não vai ser fácil. Uma vez passado o tempo de aprendizado, vai ficando mais fácil distinguir o verdadeiro do falso. No fundo, se os frequentadores das redes aproveitarem a oportunidade para aprender a mastigar a própria comida, o clima de liberou geral das redes terá sido uma dádiva.

Obrigado, Mr. Musk, Mr. Pão de Açúcar e quem mais vier!

A fonte da juventude

José Horta Manzano

Outro dia, estava lendo a incrível história de um magnata americano, homem de meia idade, que enfiou na cabeça a ideia de permanecer jovem para sempre. Diz ele que despende milhões todo ano – ele pode, ora – com medicamentos, práticas de cultura física, ingestão de moléculas experimentais. Tem-se submetido a protocolos agressivos de tratamentos anti-envelhecimento (em português: “anti-aging”). A troca de plasma intergeneracional com o filho de 18 anos faz parte da bateria de procedimentos.

A busca da eterna juventude está em pauta desde o alvorecer da humanidade. Cada civilização acrescentou um tijolo na construção do conjunto de lendas que ilustram esse sonho.

Muitas expedições de conquistadores ibéricos sofreram triste desencanto ao não conseguir localizar, depois de anos de busca em terras americanas, o almejado Eldorado, lugar fantástico todo feito de ouro, onde não se envelhecia.

A fonte da juventude é tema recorrente em lendas europeias. O pacto com o diabo para obter a juventude eterna é ideia que, volta e meia, também reaparece, em poemas, romances e como tema de ópera.

De maneira subjacente, a conservação da juventude é tema latente de uma lenda como a da Bela Adormecida, que narra a história de uma jovem que, após um século de letargia, desperta garbosa e sorridente, com a mesma idade que tinha ao adormecer.

Sem querer ser desmancha-prazeres, devo dizer aos que acreditam na eterna juventude que estão iludidos. Se isso fosse possível, já estaríamos sabendo, sobretudo agora que as redes sociais liberaram geral e que cada um pode cuspir veneno como bem lhe aprouver.


“Limitar o consumo de café a um único período do dia reduz o risco de morte

diz a manchete jornalística reproduzida na entrada deste artigo.


A afirmação é falsa, é pura fake news. Nem o papa, com seus bilhões de fiéis; nem o Musk, com seus bilhões de dólares; nem Trump, com seus bilhões de mentiras; nenhum deles tem poder de reduzir o risco de morte de quem quer que seja. Os seres humanos, como todos os seres vivos, hão de morrer um dia. Mais cedo ou mais tarde, não tem como escapar. É um risco que não há como reduzir. É uma certeza.

Portanto, tome café quando quiser e não acredite nessa balela de redução do risco de morte. A indesejada das gentes virá um dia, armada com sua foice, e nos levará a todos, um por um.

Viva o café, produto que sustentou nossa economia durante pelo menos dois séculos! Ele faz parte de nossa cultura e de nossa constituiçâo física.

Captar e capturar

José Horta Manzano

O distinto estagiário autor da chamada d’O Globo se enganou, isto é, se curvou a um anglicismo que, embora esteja muito na moda, só apareceu para atrapalhar.

Em nossa língua, temos dois verbos que, apesar de terem a mesma origem, não podem ser utilizados como se sinônimos perfeitos fossem.

O primeiro é capturar e o segundo, captar.

Capturar – exemplos:
Os leões que tinham escapado do zoológico foram capturados pelos bombeiros.
Esta nova invenção promete capturar gases nocivos da atmosfera.
A polícia capturou os foragidos.

Captar – exemplos:
Os primeiros telefones portáteis só captavam o sinal se a antena estivesse a menos de dois quilômetros.
Maria não captou o espírito da mensagem de João.
O reporter fotográfico não conseguiu captar o momento da explosão.

Na língua inglesa, o verbo capture preenche as duas funções: a de capturar e a de captar. Usar, em português, o verbo capturar a torto e a direito, no lugar de captar, é anglicismo desnecessário.

Voltando à ilustração, “o fotógrafo captou os ataques do 8 de Janeiro”. Naturalmente.

A síndrome e a pandemia do “entitled”

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O adjetivo “entitled”, popularmente usado há muito tempo na língua inglesa, é de difícil tradução para o português. Com exceção do óbvio sentido de “intitulado(a)” que se aplica mais especificamente a livros e textos, peças de teatro, filmes, quadros, etc., é bastante complicado encontrar uma única palavra que defina com precisão seu significado central, seja em português ou mesmo na língua inglesa.

Na essência, dizer que alguém se considera “entitled” diz respeito ao fato de que a pessoa acredita (ou imagina) que “tem o direito de”, dá-se permissão para dizer ou fazer algo ou, ainda, obter algum benefício, privilégio ou tratamento especial. Nem sempre a reivindicação é legítima, ou seja, relativa a um direito legalmente previsto – como o de receber aposentadoria uma vez cumpridos os requisitos legais. Muitas vezes a palavra é usada para se referir a um direito reivindicado “sem ter de se esforçar para conquistá-lo ou sem o merecer, apenas por ser quem você é”, como aponta o próprio dicionário Cambridge.

Nesse sentido, uma tradução mais comum entre nós é a de “permitir-se”, sentir-se “autorizado(a)” a emitir uma opinião, manifestar um pensamento/ comportamento, mesmo que ele não seja condizente com as normas do politicamente correto ou com os princípios democráticos, e mesmo que isso implique sofrimento ou constrangimento para terceiros, ou ainda a se sentir no direito de desrespeitar ou contornar restrições sociais em nome de nossa vontade soberana.

Filha dileta das carteiradas tipo “Sabe com quem você está falando?”, a síndrome do entitled transformou-se rapidamente em pandemia, com um poder de contágio só comparável ao do coronavírus. Das elites que se imaginam acima do bem e do mal para as classes populares, dos adultos para as crianças, dos homens para as mulheres, dos ateus para os religiosos fundamentalistas, dos militares para os civis. Se o entregador não aceitou subir até meu apartamento, dou-me o direito de agredi-lo verbal ou fisicamente. Se meus pais não aceitam meu namoro, sinto-me no direito de tirá-los do meu caminho à força para mostrar que quem manda no meu destino sou eu. Se minha ex-mulher acha que pode se envolver com outros homens, vou mostrar que ela está assinando sua sentença de morte. Se meu marido não me trata com respeito, não me custa nada colocar veneno na sua comida.

E por que isso acontece? Acredito que pode ter contribuído para a exacerbação da síndrome a profunda fragmentação das identidades e papéis sociais a que vimos assistindo ao longo das últimas décadas. Se antes as reivindicações aconteciam entre as diferentes “tribos” e grupos organizados de pressão, mais tarde elas se radicalizaram ainda mais com a pulverização das individualidades. Hoje em dia a única autoridade que respeitamos é a que vem de dentro, das convicções pessoais a respeito dos limites do poder aplicado às relações humanas. O mal-estar na civilização, a crise da democracia representativa e a adoção de regras típicas do mundo virtual transplantadas sem critério para o mundo real parecem ter sido outros fatores decisivos a determinar a extinção dos freios morais. E, quando a noção de bem comum se perde, é inevitável o surgimento de demandas paroquiais.

Por coincidência, durante meu período de recuperação de uma queda, tive acesso a dois livros que lançaram luz sobre outros fatores que podem servir de combustível para a síndrome do entitled. O primeiro, intitulado “Desaparecer de Si”, de David Le Breton, mostra como contemporaneamente as pessoas se esforçam para fugir das coerções de uma identidade que já esgotou seus propósitos, isolando-se do mundo ou aceitando o convite à experimentação de outras identidades. O segundo, intitulado “The tryumph of the slippers” [O triunfo das pantufas], escrito pelo filósofo francês Pascal Bruckner, mostra como a luta por um direito muda de sentido ao longo do tempo, podendo se transformar até no seu exato oposto. Durante a pandemia de covid-19, muitos líderes governamentais e boa parte das populações protestavam contra a determinação sanitária de ficar em casa, alegando que ela violava o direito constitucional de ir e vir. Pós-pandemia o cenário mudou radicalmente: depois de terem experimentado o conforto de poder ficar de pijama (e pantufas) o dia todo, não ter de enfrentar o trânsito caótico das grandes cidades, se alimentar mal e não poder acompanhar o cotidiano da família e a educação dos filhos, muitos trabalhadores passaram a defender o home office como uma questão de vida ou morte para as empresas e até como solução inesperada para enfrentar também os desafios de mobilidade urbana e proteção do meio ambiente. Hoje parece ser mais comum lutar pelo direito de não sair de casa do que alinhar-se com qualquer argumento racional de defesa do bem coletivo.

Outro fenômeno que tem chamado minha atenção para alimentar o entitlement é a emergência daquilo a que dei o nome de “arco reflexo emocional”. Sabe quando o médico bate com um martelinho no seu joelho e sua perna levanta sem que você tenha dado o comando para seu cérebro? Pois então, acredito que o mesmo está acontecendo no campo da neuropsicologia. Sem tempo para digerir as emoções provocadas por estímulos externos desagradáveis, tendemos a reagir de bate-pronto, sem considerar as consequências danosas de nossa reação sobre terceiros e sobre nossa própria imagem social. Distraídos com a miríade de estímulos multissensoriais em que as novas tecnologias nos afogam, acabamos abrindo mão de usar o cérebro humano como órgão emissor e permitimos que ele passe a ser mero receptor de informações vindas de fora. Sem a necessária mediação da reflexão e da introspecção, tenho medo de descobrir que a próxima luta na qual a humanidade vai se engajar será obrigatoriamente pelo direito de não pensar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Perigos da praia

José Horta Manzano

A foto que ilustra este artigo mostra, ao fundo, uma beira-mar de águas cinza chumbo, um dia de pouca luz, uma praia sem sequer uma palmeira para abrigar os frequentadores nos dias de calor. Em primeiro plano, ocupando 4/5 da fotografia, um apinhado de espigões de concreto armado, dando um toque de “exotismo” ao todo.

O ser humano é animal terrestre. Caminhar no chão seco é com ele mesmo. Já se meter na água é outra história. Para nós, a água é, por natureza, um mundo estranho e cheio de perigos.

Não sei se são justamente esses perigos que atraem homens, mulheres e pequerruchos; assim que chegam os dias mais quentes, correm todos para as águas mais à mão: banho de cachoeira, passeio de barco (ou jetski para os afortunados), banho de mar – ainda que na orla estejam plantados mil espigões de concreto.

Tirando os mais excêntricos – e mais abonados –, poucos se animarão a fazer uma viagem de avião para um banho de cachoeira na África tropical. São menos ainda os que voarão para um passeio de jetski nas águas da Laguna de Veneza. Já os banhos de mar estão ao alcance de mais gente. Quem pode, não hesita.

Entre as primeiras providências, estão aquelas que nos protegem contra os perigos que a proximidade das águas representa. Bloqueadores de UVs indesejados. Repelentes contra mosquitos, muriçocas e pernilongos. Escolha de praia livre de perigosas correntes, torrentes, borbulhões, correntezas e rodamoinhos. Escolha de praia distante da foz de rios e riachos que possam estar contaminados.

No mundo todo, praias são lugares potencialmente perigosos. Dependendo da natureza do perigo, as autoridades fazem a lista dos riscos que cada ponto representa. Há praias com crocodilos, com imensas aranhas passeando pela areia, com medusas venenosas colorindo o mar, com tubarões farejando pernas apetitosas. Há praias contaminadas com mercúrio, com coliformes fecais, com material radioativo residual.

Painéis costumam ser fincados em atenção a banhistas arrojados: “Não nade aqui!”, “Poluição química!”, “Cuidado, medusas!”. É assim por toda parte. Em cada lugar, os perigos locais são anunciados. É natural. O visitante não é obrigado a saber tudo.

O Estadão bolou uma ferramenta interativa que indica as praias mais perigosas do estado de São Paulo. Curioso, fui ver o que era e como funcionava. Nada a reclamar contra a ideia nem quanto ao mecanismo. Só que o perigo não era o que eu tinha imaginado. A ferramenta não alerta contra tubarões, medusas, vórtices ou contaminação química. O objeto do estudo é a presença da criminalidade nas praias.

Criminalidade nas praias! Algumas décadas atrás, essa expressão só poderia referir-se a roubo de toalha: “Se for entrar no mar, não deixe sua toalha sem ser vigiada”. O pior que podia acontecer era o cidadão, ao voltar, ter o desapontamento de descobrir que sua toalha havia batido as asas.

Já hoje a criminalidade perdeu a ingenuidade. Se o honesto cidadão tem direito a férias, a bandidagem também tem. Por coincidência, os dois grupos de população escolhem as mesmas praias. Como resultado, o meliante continua exercendo seu ofício mesmo durante os períodos de recesso enquanto o honesto cidadão, durante as férias, continua a correr de bandido.

Faz sentido. Todos se sentem em casa e a vida segue.

Que marca é?

O Globo online, 2 jan 2025

 

Folha online, 2 jan 2025

 

Estadão online, 2 jan 2025

José Horta Manzano

Quando eu era adolescente, tínhamos uma brincadeira especial que precisava de dois comparsas. Ficavam os dois sentados na calçada, um de frente para o outro de modo que cada um só podia enxergar os carros que vinham de uma das pontas da rua. Cada um tinha de adivinhar, só pelo ruído do motor, a marca de cada automóvel que vinha vindo às suas costas.

Na verdade, não era muito complicado visto que, naqueles tempos recuados, grande maioria dos carros eram Chevrolet e Ford, que tinham motor de ronco reconhecível. Mais difícil era quando surgia um Pontiac, um Studebaker ou um Lincoln.

E a gente continuava:

“É um Chevrolet!”
“É um Ford!”
“É um Austin!” (Este fazia barulho de motor fraquinho)

E assim por diante. Jamais nos veio à ideia dizer: “É um carro da Ford!” ou “É um carro da Chevrolet!”.

Acho que ainda se fala igualzinho, não é?

Pois hoje, ao ler a notícia de um atentado com carro-bomba ocorrido em Las Vegas (EUA), me dei conta de que os automóveis fabricados pelas indústrias do neopolítico Elon Musk fogem ao antigo costume que vale para todos os concorrentes. Nenhum dos três maiores jornais do país relatou a explosão de “um Tesla”; todos eles contaram a explosão de um carro da Tesla.

Achei estranha essa hesitação em dar nome aos bois. Se se trata de um carro e se o fabricante é Tesla, é um Tesla. Como seria “um Ford” ou “um Mazda” ou “um Toyota”. Por que razão se faz essa diferença com os automóveis de Mr. Musk?

A firma é nova
Não me parece argumento válido. Uma firma fundada em 2003 (22 anos atrás) não entra nesse conceito de “nova”.

O dono é bilionário
E daí? Por que, diabos, uma marca automobilística deveria ser tratada com maior ou menor respeito segundo a fortuna do proprietário? Mr. Ford e Mr. Chevrolet também nadavam em dinheiro.

O carro é elétrico
Há elétricos de outras marcas, mas todos entram na regra comum. Só Tesla escapa.

Tesla não soa como nome de montadora
Concordo que Tesla soa mais como marca de secador de cabelo. Mas uma coisa não justifica a outra. Gurgel, marca efêmera de automóveis nacionais que existiu pelos anos 70 e 80, também parecia mais ser nome de família da alta burguesia próxima ao imperador; assim mesmo, ninguém dizia “um carro da Gurgel”, mas sim “um Gurgel”.

Em resumo, não encontrei razão sólida que justifique tratar com tão reverenciosa distância os automóveis do futuro ministro de Trump. Se alguém souber, por favor mande cartinha para a redação.

Tenho mais uma observação. Antigamente se dizia que o acidente “deixou um morto” ou “fez um morto”. Dava-se por entendido que o morto era um humano, não um animal. Hoje vejo que é preciso especificar que o acidente “deixou uma pessoa morta”.

Por que escrevem assim? Para deixar mais claro? Não acredito. Concluo que a intenção oculta, nesse caso, é o respeito à ditadura do politicamente correto.

Falar de “um morto” pode até dar a entender aos ingênuos e delicados ouvidos modernos que se trata de um homem morto, não de uma mulher. Para clareza absoluta, usa-se a forma neutra “pessoa”.

“Uma pessoa morta” tanto serve para um defunto como para uma defunta. Sinal dos tempos. A sexualidade nos persegue além-túmulo.

Mundo friorento

by Maurenilson Freire, ilustrador cearense-brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 dezembro 2024

Tenho notado que o mundo hoje está mais friorento que no passado. Não me refiro ao frio que o termômetro registra, aquele que bate quando um ventinho gelado sopra do Sul. Falo de falta de calor humano, de empatia, de amizade, de sintonia. Sinto que tem faltado aquela atmosfera cálida que, ao expandir, dissipa o gelo e a desconfiança entre as gentes. Faltam braços abertos.

Em 2015, a Alemanha da primeira-ministra Merkel abriu os portões para a entrada de um milhão de estrangeiros que vinham em busca de asilo. O gesto horrorizou numerosos governos europeus, que consideraram exagerado o número de recém-chegados e tacharam o gesto de desarrazoado. Há alemães, aliás, que reprovam até hoje a decisão da chanceler e não perdem uma ocasião para atribuir aos forasteiros todos os males da nação.

O fato é que, passados quase dez anos, os asilados, em grande maioria, se integraram, aprenderam a língua, formaram-se numa profissão, fundaram família e vivem hoje como os demais cidadãos da pátria adotiva. Esses novos cidadãos vêm complementar a mão-de-obra de que a Alemanha sabe que terá necessidade estes próximos anos mas que o simples crescimento natural da população não lhe fornecerá.

Desde que Donald Trump assumiu seu primeiro mandato, em 2017, os novos tempos não têm sido benéficos para a conciliação entre os povos. Barreiras e muros foram erguidos na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes pobres – num esquecimento maroto de que todos os que hoje apoiam o bloqueio aos forasteiros pobres são descendentes de imigrantes pobres que, um dia, também bateram às portas do país, foram acolhidos e ajudaram a fazer o que os EUA são hoje. Esquecem-se de que, num país em processo de envelhecimento, todo aumento populacional é bem-vindo.

Para seu segundo mandato, Trump ameaça abandonar a Otan, pacto de defesa que seu país mantém com a Europa há 75 anos. Esquecidos de que juraram governar para todos os brasileiros, os sucessivos governos do Brasil continuam a dar as costas para os povos amazônicos, obrigando-os a sobreviver atolados num território que o Estado enjeitou e de que o crime se apoderou.

Em vista de possível nova leva de imigrantes sírios, que ora têm liberdade de deixar o país de origem, a Europa nem de longe renovou a “operação acolhida”, da Alemanha de 2015. A ditadura de Damasco ruiu num fim de semana. Dois dias depois, os principais países europeus tomaram decisão idêntica: os processos de concessão de asilo a refugiados sírios foram suspensos sine die, com efeito imediato. É decisão provisória, com direito a revisão no futuro, mas supõe-se que, com uma Síria normalizada, as portas da Europa se fecharão de fato para os nativos daquele país.

Matteo Salvini, político italiano, teve problemas recentemente com a justiça de seu país por ter sido acusado de impedir durante três semanas, quando era vice-primeiro-ministro, o desembarque de 149 migrantes chegados no barco de uma ONG. Lembre-se que a Itália ocupa um dos últimos lugares na Europa no quesito fertilidade. Sua população é declinante.

Este mês de dezembro trouxe ainda duas notícias inquietantes provenientes do meio universitário. Na Suíça, o parlamento decidiu triplicar o valor da anuidade dos alunos estrangeiros das universidades federais. Alegando dificuldades orçamentárias, o congresso tomou essa decisão de puro populismo mesquinho. Quando formados, os alunos estrangeiros voltarão para casa como embaixadores gratuitos da excelência do país onde estudaram. Entravar a vida estudantil desses alunos é contrário ao bom senso.

A outra notícia preocupante nos veio de uma Argentina em plena mutação. Suas universidades públicas devem passar a cobrar anuidade dos alunos estrangeiros – somente deles. Valem aqui os argumentos que usei no caso suíço: estarão perdendo a ocasião de formar propagadores internacionais das virtudes do país.

Acho ingênuo acreditar que cheguemos tão já à fraternidade universal que teorias do século 19 nos prometiam. Ao contrário, percebo sinais inquietantes de estarmos, a passo contínuo, caminhando no sentido oposto. O lado friorento da humanidade está querendo nos ensinar que bom mesmo é se isolar, cada um vivendo no seu canto, todos de porta fechada. Alto lá! Nem tanto ao mar, mas também nem tanto à terra! Virtus in medio.

Feliz ano novo a todos!

Conto de Natal para o ano todo

Osvaldo Molles (*)

Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento.

E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E, o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse:
― Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.

Veio um boi. Um boi que, segundo o Dicionário de Caldas Aulete, «serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem». Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:
― O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai… e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que tinha de meu: meu pobre alento.

Veio uma cabra-montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:
― Eu Lhe dei o leite de meu filho.

Veio, depois, uma ovelha, macia como reza de criança. No perfil trácio, trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse :
― Nada Lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-Lhe muito pouco: apenas meu calor.

Veio um jumento sisudo e muito percorrido, desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento muito velho e usado que conhece muito bem a História. Disse:
― Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.

Veio o peixe e disse:
― Eu saltei para o barco de Pedro. Eu Lhe dei a fé.

Veio o grão de trigo e falou:
― Eu me multipliquei quando Ele mo pediu. Dei-Lhe a ceia.

Veio a água ingênua e disse:
― Eu me transformei em vinho. Dei-Lhe meu sangue.

E veio o homem. O homem sábio ― o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é o rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:
― Eu Lhe dei a cruz.

(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.