O plebiscito de Maduro

Território reivindicado pela Venezuela representa 2/3 da superfície da Guiana. Repare que a área disputada respeita rigorosamente as fronteiras do Brasil. A Venezuela não pretende reivindicar nem um centímetro nosso, que ninguém é besta.

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, nossos vizinhos venezuelanos estão votando no plebiscito de Maduro. Terão de responder a cinco perguntas em torno do tema da soberania da Venezuela sobre um imenso território de mata virgem que atualmente é parte integrante do país vizinho, a Guiana. O enunciado de cada uma das cinco questões do plebiscito (redigidas em puro juridiquês) é bastante longo. Mas não tem importância, que ninguém vai precisar ler no escurinho da cabine. Todos os cidadãos já estão amestrados: precisam responder 5 x Sim.

Na verdade, não é bem a mata virgem que interessa à Venezuela, visto que, nesse particular, já está bem servida: mais da metade de seu território é coberto pela Floresta Amazônica. Caracas está de olho é nas reservas de petróleo ao largo da costa litorânea do vizinho, uma riqueza imensa que dorme sob as águas. Se conseguir abocanhar o território, fica com as jazidas de petróleo e gás também.

Esse pedação de mata virgem está sendo contestado pelo menos há 150 anos, desde o tempo em que a Guiana era colônia britânica, conhecida como Guiana Inglesa. Em 1899, um laudo arbitral deu a posse das terras à Inglaterra, dona da Guiana. Pouco antes da independência da colônia inglesa, nos anos 1960, Venezuela e Grã-Bretanha assinaram novo acordo que não aclarou totalmente a questão. Dá margem a dúvida. Venezuela se baseia nesse acordo e garante que ele lhe dá a posse das terras. Só que, tendo em vista que 60 anos se passaram sem que a Venezuela tenha tomado posse da área, a Guiana o considera caduco. Assim sendo, continua valendo o laudo de 1899.

Sentindo diminuir seu domínio sobre o povo venezuelano, Maduro resolveu desengavetar essa luta patriótica. Nada como um inimigo externo para solidificar o patriotismo da nação em torno de um líder máximo. O ditador decidiu dar o passo que deram os generais ditadores argentinos em 1982, quando mandaram a tropa conquistar manu militari as Ilhas Malvinas (Falkland). Naquela ocasião, as Forças Armadas argentinas perderam feio para a Inglaterra. Pouco depois, veio a consequência: o regime argentino desmoronou e os ditadores foram parar na prisão.

Maduro está dando um passo arriscado. Todo o mundo sabe que “sacou, tem de atirar” e “ajoelhou, tem de rezar”. Pois é, o ditador venezuelano está arriscando seu trono. Ele deveria levar em conta o fato de poder haver outros dirigentes mundiais de olho no petróleo guianense. Ele pode não ser o único.

O resultado do plebiscito de hoje não deixa grande margem para a dúvida: o “sim” deve vencer por boa maioria. Depois disso, Maduro terá de tomar uma decisão. Se ele ousar atacar militarmente os guianenses com a intenção de despossuí-los de 2/3 (duas terças partes!) da superfície do país, a coisa periga não ficar por isso mesmo.

O Brasil de Lula é gigante adormecido. Nosso Guia é capaz de lavar as mãos e dizer que “isso é problema interno deles, não podemos intervir”. Já alguma outra potência pode não reagir da mesma maneira. O exército da Guiana, comparado às bem equipadas forças venezuelanas, ainda vive na era do bodoque de mamona. “Não dá nem pro começo”, como se costuma dizer.

Era exatamente o que se dizia quando a Rússia invadiu a Ucrânia. O mundo imaginou que, em três tempos, a pequena Ucrânia seria varrida do mapa pelo poderoso exército de Putin. Só que outras nações não foram da mesma opinião. Armaram a Ucrânia, e o resultado está aí: três anos se passaram, o prestígio da Rússia encolheu, centenas de milhares de russos e ucranianos já morreram, a guerra estagnou, e nenhum dos lados pode parar de lutar.

Quem garante que alguma potência não veja aí uma oportunidade de virar “sócia” da Guiana (e de seus campos de petróleo)? A melhor maneira de conseguir isso seria ajudando o pequeno país a se defender dos venezuelanos. Pronto: se algo desse tipo acontecer, teremos instalada uma guerra sangrenta às portas de nosso país.

Pode ser que o que acabo de dizer não passe de delírio. Espero que assim seja. Mas também pode não ser. Se eu fosse o Lula, não lavaria as mãos nem consideraria que se trata de “problema interno” dos dois países. O Brasil é o único que faz fronteira com ambos os contendores. O melhor é agir com firmeza nos bastidores e tratar de apaziguar essa gente antes que a guerra comece.

Depois que for dado o primeiro tiro, já será tarde demais.

Gaza: antes e depois

by Patrick Chappatte (1966-) desenhista suíço

José Horta Manzano

A trégua acertada entre Hamas e Israel durou pouco. Já desandou, cada parte atribuindo à outra a quebra do acordo e a retomada das hostilidades.

Aquele bombardeio contínuo, de dia e de noite, que as imagens nos mostram não é efeito especial de filme de guerra. É pra valer. A estimação é que 100.000 (cem mil !) prédios já tenham sido derrubados parcial ou inteiramente.

A britânica BBC publicou algumas fotos tiradas por satélite mostrando o antes e o depois em certas zonas da castigada Faixa de Gaza – território exíguo que abriga mais de dois milhões de pessoas, é bom ter em mente.

Achei bastante instrutivas as imagens em que se pode arrastar um marcador pra ver ANTES e DEPOIS dos bombardeios. Até as escassas plantações estão sendo devastadas.

Se as bombas parassem de cair hoje, anos se passariam até que as culturas fossem reconstituídas. Se já era o caso antes, hoje os gazeus dependem mais ainda da caridade de organizações estrangeiras, sob forma de ajuda alimentar.

Para ver as imagens de satélite, clique aqui.

O penteado

A partir do alto à esquerda, em sentido horário:
Geert Wilders (Hol.), Javier Milei (Arg.), Donald Trump (EUA), Boris Johnson (UK)

José Horta Manzano

As redes sociais de língua espanhola estão fervendo com uma descoberta. Trata-se de fato evidente, mas ninguém tinha ligado uma coisa à outra. Os líderes de extrema-direita parecem ter especial predileção por penteados extravagantes.

Donald Trump e Boris Johnson deram o sinal de partida à nova moda. O topete alaranjado do americano e o “cabelo assanhado com muito cuidado”(*) do inglês surpreenderam o mundo. Lá no fundo, cada um de nós pensou: “Como é que pode um presidente (um primeiro-ministro) se apresentar com uma cabeleira esquisita dessas?”. Mas pouca gente ligou uma coisa à outra.

Este mês, de repente, com poucos dias de intervalo, são eleitos dois novos membros da tendência ultra-direita populista. Na Holanda, é Geert Wilders, e na Argentina, nosso já familiar Javier Milei. Ambos ostentam o que, décadas atrás, se conhecia como “cabeleira de maestro”. De fato, não se costumava ver ninguém assim, exceto os diretores de orquestra.

Com mais esses dois na lista, não dá mais pra esconder. É por isso que as redes de língua espanhola estão excitadas. No Brasil, imagino que a empolgação seja bem menor, afinal nenhum dos personagens nos é conhecido e familiar – quem já ouviu falar de Geert Wilders?

Sigismeno, um amigo meu que, na juventude, foi cabeleireiro de dama, me garante que o cabelo de Bolsonaro, apesar do aspecto emplastado e descurado, é tingido. Tintura feita nos conformes, nada de trabalho caseiro com pincel e bacia sobre a mesa da cozinha, e a esposa ajudando. Como prova, Sigismeno aponta a meia dúzia de fios brancos que surgem ao lado da orelha do capitão, um embranquecimento lentíííssimo que não avançou um fio em seis anos, desde que o político se tornou conhecido.

Fico meio assim. Se bem que é verdade que, quando presidente, Bolsonaro mais de uma vez se deixou fotografar sentado numa cadeira de babearia de aspecto chinfrim. Será que não passava de disfarce pra desviar a atenção do distinto público?

Voltemos aos ultradireitistas cabeludos. No tempo dos Beatles, quando todos os jovens começaram a deixar crescer o cabelo, as vovós costumavam resmungar: “Cabelos compridos, idéias curtas”.

Trump e Johnson já deram sua contribuição para confirmar o resmungo das velhinhas. Vamos ver se os recém-chegados ao clube – o holandês e o argentino – conseguem fazer uma boa gestão e, assim, desmentir a maldição.

José Irimia Barroso, escritor hispano-venezuelano, tuitou: “Se vierem os extraterrestres, vão achar que ‘populismo de ultra-direita’ é algo relacionado com o penteado…”.

(*) “Cabelo assanhado com muito cuidado” é trecho da música Mocinho Bonito, do compositor Billy Blanco. O samba foi lançado no fim dos anos 1950, gravado por Isaura Garcia e, em seguida, por Doris Monteiro.

Speranza

José Horta Manzano

É provável que o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham lido algum dia a frase


Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate (*)
Abandonai toda esperança, vós que entrais


É o 9° verso do terceiro canto do Inferno, parte da obra A Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri há 700 anos. A frase terrível está gravada na porta do inferno, aconselhando aos recém-chegados que percam as esperanças – estão entrando ali para nunca mais sair, que o castigo é eterno.

A frase é frequentemente usada como citação, como paródia ou como metáfora. Usa-se a frase, por exemplo, quando nos referimos a uma situação tão complicada que é melhor não insistir porque não há solução possível.

Lembrei disso hoje ao observar os altos e baixos da política externa do Brasil, inconstante como uma montanha russa de parque de diversões. Aliás, mais inconstante ainda. Uma montanha russa, apesar dos sustos que prega nos viajantes, tem percurso delineado, balizado, fixo, previsível. Ao término da sessão, costuma-se desembarcar inteiro, são e salvo. Já nossa política exterior não tem mostrado ser balizada nem previsível.

Lula, que imaginava ser candidato prioritário ao Nobel da Paz, tem bombardeado a própria candidatura com inacreditável frequência. Não falo tanto das ações internas, que essas têm visibilidade pequena para quem está fora. Falo das tomadas de posição do chefe do Estado brasileiro em assuntos internacionais, o melhor termômetro para aqueles que, de Estocolmo e de Oslo, observam, selecionam e julgam os candidatos finalistas para a premiação do Nobel.

Em disputas internacionais, Luiz Inácio parece fazer de propósito: coloca-se sistematicamente do lado que choca o mundo civilizado – justamente aquele que lhe poderia atribuir o almejado Nobel. Quando assumiu o trono, deu honras especiais ao ditador da Venezuela, recebido 24h antes dos demais e paparicado à beça. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, pôs-se ao lado da Rússia. Quando o grupo terrorista Hamas atacou populações civis em Israel, condecorou o embaixador da Palestina em Brasília. Parece ou não parece que ele faz de propósito?

A cada pronunciamento, mormente se for espontâneo, sem script, pode se preparar porque lá vem alguma enormidade.

Dizem, com razão, que a mentalidade de Lula estacionou nos anos 1970 e de lá nunca mais saiu. Há quem tenha esperança de que, com o tempo, ele consiga tirar os pés da areia movediça em que se enfiaram e assim arejar a mente e adaptar seu pensamento ao mundo do século 21.

Quanto a mim, não boto fé. Lula está a dois dedos de completar 80 anos. Nessa idade, falo de cátedra, não se muda mais. O que tinha de mudar, já mudou. O que está, é pra ficar. Seu antiamericanismo infantil está cristalizado. Encruou, não tem mais jeito. Já foi presidente por 9 anos, já viajou mundo, já conversou com reis, rainhas, presidentes, chefes de Estado e de governo. O que tinha de aprender, já aprendeu.

Não tem remédio: continua preferindo ditadores e chefes de regime fechado e autoritário. E não vai mudar. Continuará assim até o último suspiro.

Lasciate ogni speranza!

(*) Essa é a grafia original proposta por Dante. Em italiano moderno, escreve-se Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate.

Aproximação

José Horta Manzano

A chamada d’O Globo me chamou a atenção.


Em viagem, Lula busca aproximar Brasil dos países árabes


Dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Pois bem, se essa frase fosse uma continha de vezes, a inversão de fatores faria uma sutil diferença sim, senhor. Veja só.


Em viagem, Lula busca aproximar os países árabes do Brasil


Então, deu pra notar?

Dizer que o Lula está se abalando de Brasília até as Arábias para tentar aproximar o Brasil dos países do Médio Oriente me incomoda um pouco. Me faz pensar no conhecido “complexo de vira-lata”. Fica a impressão de estarmos batendo à porta dos milionários e pedindo pra nos aceitarem. “Você me aceita no seu grupo?”. Humilhante.

O que Lula deveria estar fazendo – e na certa é o que vai fazer – é marquetear o Brasil. Mostrar aos estrangeiros as vantagens que eles podem conseguir caso invistam aqui, mandem seus dólares, abram empresas, construam casas de veraneio aqui, paguem impostos aqui, comprem mais frango.

O fato de não haver pendências nem contencioso entre Brasil e países árabes é uma bênção. Lula tem de dar carona a uma equipe de camelôs de luxo, com prática em vender o que o cliente nem sempre quer comprar.

Vamos fazer com que os países árabes se aproximem do Brasil e descubram as vantagens que essa aproximação vai lhes trazer. É o que se quer.

Visita secreta

José Horta Manzano

Um segredo, no instante em que é tornado público, deixa de ser secreto.

Podiam fantasiar um pouco: “visita surpresa”, “visita inesperada”, “visita fora da agenda”, “visita não anunciada”. Mas visita registrada em foto e publicada na mídia? Não pode ser descrita como “secreta”.

O cantil

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 novembro 2023

Outro dia, uma moça bonita e jovem viajou horas pra chegar ao Rio. Estava realizando o sonho de assistir ao vivo a um show de sua cantora preferida. Mas o destino foi cruel. O tempo tórrido, o estádio lotado, a atmosfera abafada e a falta d’água foram além do que a jovem podia suportar. Ela sentiu-se mal e, em que pese o rápido atendimento médico, perdeu os sentidos e não os recobrou mais.

O fato fez as manchetes da imprensa, se esparramou pelas redes, despertou comoção. Morte de pessoa jovem comove sempre. Rapidamente se descobriu que os organizadores do evento haviam proibido que o público entrasse com água para consumo próprio. Assim que a notícia correu, um dos primeiros a se manifestar foi nosso ministro da Justiça. A chamada de importante jornal carioca online informou que “após morte de jovem, Dino manda shows permitirem garrafas de plástico e água grátis”.

Ao dar a ordem, Sua Excelência perdeu belíssima oportunidade de incitar a população a abandonar o uso de recipientes plásticos descartáveis. Na era dramática que vivemos, de aquecimento global e mudança climática, toda diminuição no consumo de derivados do petróleo são bem-vindas. Bastava ele ter dito “Vou liberar a venda de água nos estádios, mas aconselho a cada um trazer sua própria água no cantil!”.

Fora do Brasil, está cada dia mais comum ver pessoas carregando um cantil com água para consumo próprio. Estudantes, ciclistas, trilheiros a pé, gente a passeio e cidadãos conscientizados são costumeiros do hábito de levar sua garrafinha d’água. Sai mais barato que água comprada, faz bem ao bolso e à natureza. É a generalizada consciência ecológica, que ainda não temos.

Para decepção dos negacionistas climáticos, fenômenos atmosféricos têm se tornado cada vez mais extremos e mais frequentes desde que entramos no novo milênio. Incêndios florestais na Sibéria, temperatura saariana na Inglaterra, inundações devastadoras no Rio Grande do Sul, furacões com ventos de 300 km/h, sensação de 60 graus no Rio – são eventos extremos que se multiplicam e preocupam autoridades e governos do mundo inteiro. A Austrália acaba de regulamentar a acolhida, como refugiados climáticos, dos habitantes de Tuvalu, país independente do Oceano Pacífico que vai pouco a pouco sumindo sob as águas.

Em outras partes do mundo, a população – os jovens especialmente – estão cientes de que o problema maior do planeta não está na política rasteira, nem nas guerras, nem nas alianças. A ameaça principal que paira sobre a humanidade é o desregramento climático. A situação que se antevia para 2050 já chegou, quase vinte anos adiantada.

No Brasil, até poucos anos atrás, não se sabia o que era um ciclone extratropical. Hoje, o fenômeno tem assolado o sul do país e ceifado vidas. Só este ano, já vieram dois desses eventos. A exorbitante onda de calor que nos atingiu este mês veio fora dos padrões. Sua extensão, sua força e sua duração escapam aos parâmetros. Praticamente o território nacional inteiro foi assolado.

A população brasileira tem de ser conscientizada para as mudanças climáticas, que nos anunciam um futuro complicado. Em vez de anunciar subsídios para quem comprar carro com motor a explosão, como fez o governo este ano, a ênfase tem de ser posta no paulatino banimento do petróleo e na adoção da energia limpa. Ao oferecer prêmio para o povo sair por aí envenenando o ar que respira, o governo está fazendo exatamente o oposto do que deveria.

Dizem que a orquestra do Titanic continuou tocando enquanto o navio afundava. É verdade que os músicos nada podiam fazer para evitar o naufrágio. Nós podemos. Portanto, não vamos ficar tocando flauta. A catástrofe planetária já começou, mas ainda temos tempo de amenizar o estrago. Compete a nosso governo investir em propaganda institucional para levar a informação a todos. Cabe também às autoridades desenhar um programa para implementar todos os conselhos de bom senso que ajudem a população a modificar seus hábitos.

Se os habitantes de um pequeno país adotarem comportamento amistoso com relação à natureza, será boa ideia, mas de pouco impacto. O Brasil tem território vasto e população importante. Se os brasileiros se conscientizarem de que cada um pode agir em favor da natureza, será um movimento de grande alcance. No fundo, a natureza somos nós. Chega de fomentar nossa própria perdição.

Hongqi

Hongqi, o Bandeira Vermelha

José Horta Manzano

Em 1958, rodou o primeiro automóvel fabricado na República Popular da China. Sua marca era Hongqi, que se pronuncia hon dji e que significa Bandeira Vermelha – evidente alusão à bandeira nacional chinesa.

Nas primeiras décadas, os carros Hongqi foram reservados aos mandarins do Partido Comunista. Eram os únicos naquele país em condições de possuir automóvel. Os demais chineses viviam na pobreza, sem esperança de acesso a esses luxos.

Hoje, com a sensível melhora do nível de vida no país, a marca tenta se impor também no mercado internacional. Para isso, conta com um vistosíssimo “garoto propaganda”. Quando Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista da China, viaja ao exterior, seu carro oficial, um Hongqi modelo N701 que viajou antes dele, o espera na descida do avião.

Esse modelo N701 tem quatro portas, mede 5 metros e meio de comprimento e é movido por um motor turbo V12 (12 cilindros) de 408 cavalos de potência. Roda 800 quilômetros sem precisar reabastecer. A versão presidencial tem alguns opcionais especiais: blindagem à prova de tiro de bazuca, isolamento contra ataque químico, pneus de 50cm à prova de bala, aparelhamento e monitores para transmissão criptografada. Peso mínimo: 3,1 toneladas. O preço de venda até que é modesto: US$ 700 mil.

Pouca gente precisa de tantos opcionais. A firma Hongqi produzirá não mais que 50 unidades nos próximos dez anos.

Em contraposição, o carro presidencial americano é um Cadillac de 5 lugares chamado The Beast (A Fera). É três vezes mais pesado que seu primo chinês: 10 toneladas. E sai pelo dobro do preço. Quanto aos acessórios de defesa, os americanos são menos loquazes que o chineses.

Mas cada um pode imaginar o sofisticado desempenho dessa fera. Só falta voar. Falta?…

Repeteco

2010 – Dona Marisa recebe a Ordem de Rio Branco das mãos do marido

José Horta Manzano

Luiz Inácio aprecia honrarias. Títulos de doutor “honoris causa” e condecorações estrangeiras, tem aos montes. Quando pode, estende também aos parentes as honras que recebe.

Todos ainda devem se lembrar que, em 31 de dezembro de 2010, último dia de seu segundo mandato, distribuiu passaporte diplomático a todos os membros de sua família – esposa, filhos e agregados. No dia seguinte, quando já não era presidente, criou uma situação de absoluta excepcionalidade: foi passar férias com a família no Forte Militar dos Andradas, litoral de São Paulo, à nossa custa. Ficou por isso mesmo. (Depois a gente reclama do Bolsonaro.)

Naquele mesmo 2010, aproveitando sua staliniana cota de popularidade, que roçava então os 80% de aprovação, fez uma bufonaria. Concedeu a Ordem de Rio Branco, mais alta honraria do Itamaraty, a Dona Marisa, sua esposa. E não deixou por menos: outorgou-lhe a ordem no mais alto grau, o de Grã-Cruz. A faixa com a medalha foi entregue pessoalmente por Lula em cerimônia oficial.

A imprensa se encarregou de difundir a notícia, que rodou o país e causou espanto. Proibido não é, mas é chocante por contrariar a ética e o decoro presidencial.

21 Nov 2023 – Chamada da Folha de São Paulo

O tempo passou. Ontem, 13 anos depois da jactância de 2010, Lula reincidiu. Enviuvado e recasado, concedeu à atual esposa a mesma honraria com que tinha mimado dona Marisa. Janja da Silva acaba de ser agraciada com a Ordem de Rio Branco, no grau Grã-Cruz. Só que desta vez, pra fugir a eventuais reprimendas, Lula preferiu fazer a entrega numa cerimônia discreta, privada, sem imagens. Nem mesmo as fotos do Ricardo “Stuquinha” Stucker, fotógrafo pessoal do presidente, circularam.

Lula é malandro. Não corrigiu a agressão à ética, mas aprendeu a camuflá-la. Numa época em que tudo passa pelas redes sociais, imagem é crucial. Sem imagem, não há notícia. Ninguém mais lê informação de texto. Se a Globo não der (e como vai dar notícia sem imagem?), ninguém vai ficar sabendo.

Assim, fica o dito pelo não dito. E estamos entendidos.

Argentina e o jogo do bicho

José Horta Manzano

Por motivo de defasagem de fuso horário, não pude esperar acordado até o fim da apuração na Argentina. Logo de manhã, ligo o rádio e fico sabendo que Milei venceu. “Que horror!”, foi minha reação. “Eu é que não teria votado nesse sujeito!”

Terminado o café com pão (sem leite condensado), veio o tempo da reflexão. Os 56% de votos que o homem recebeu – já roçando os 60%! – significam que praticamente 3 em cada 5 eleitores cravaram o nome dele na cédula. Será que 60% dos hermanos são destrambelhados? Será que já se pode antever, qualquer dia desses, a invasão dos palácios governamentais da bela Buenos Aires, por uma turba ensandecida que entra e quebra exigindo golpe militar?

Minha bola de cristal foi pro conserto e me deixou sem meios de adivinhar. Assim mesmo, eu diria que não, que os mileiístas (com o perdão do neologismo) não invadirão palácio nenhum. Se por acaso invadirem, não será pra pedir golpe mas pra pedir comida. E isso só acontecerá se a situação do país se agravar a ponto de criar legiões de esfomeados. (O que não é impossível.)

Eu falava do destrambelho dos hermanos. Não, certamente uma eventual inconsistência cognitiva não afeta um contingente tão enorme no país vizinho. Em outras palavras: não endoidaram de vez.

Antes de julgar, tente se enfiar na pele de um cidadão que vê seu país desmanchando. Com 100% de inflação anual, os preços aumentam todos os dias, ninguém sabe quanto vai receber de salário no fim do mês, compras mais importantes ficam imparceláveis visto que a inflação futura é um jogo de azar e ninguém quer arriscar. Produtos comuns rareiam, falta isto, falta aquilo.

Os que podem, dão adeus definitivo ao país e se mandam para Miami (os mais abastados), ou para a Espanha ou Itália (os demais). Na verdade, grande parte da população da Argentina descende de imigrantes espanhóis e italianos. Pululam empresas especializadas em facilitar busca genealógica e recuperação da nacionalidade dos ancestrais. Quem pode, se inscreve. No país, a coisa está feia e os prognósticos são pessimistas.

De repente, aparece um candidato à presidência, saído do nada, um sujeito de quem pouca gente tinha ouvido falar. Lá vem ele, teatral, agressivo, cheio de energia, com pose de salvador da pátria. Garante que vai demolir e arrasar ‘tudo o que está aí’ pra construir tudo novo. Afirma que vai atrelar a economia do país ao dólar (na Argentina, o doce som da palavra ‘dólar’ cai como carícia aos ouvidos). Assevera, ainda, que o futuro será risonho para todos.

O eleitor argentino, cansado de ver o país governado por corruptos e ladrões incapazes, dificilmente consegue escapar ao canto de sereia entoado por Milei. Ao povo, pouco se lhe dá que as Malvinas (Falkland) sejam ou não argentinas, que isso é coisa do passado. Pouco importa também o fato de Milei “explodir” ou deixar de explodir o Banco Central. Quanto ao Mercosul, ao eleitor, pouco se lhe dá que a Argentina continue ou não no grupo. Na verdade, o que importa a nosso eleitor cansado é que a curva da decadência argentina se inverta e que o futuro venha realmente mais risonho.

Javier Milei promete que assim será. Os demais candidatos não têm alternativa melhor a oferecer se não a continuidade ‘do que aí está’. Os eleitores seguiram a receita ‘Tiririca’: pior que está não fica. Seis em cada dez resolveram tentar. Na minha opinião, não são “mileiístas” de carteirinha. Só jogaram no 14 porque gostam de gato. (E 14 é o grupo do gato.)

Torço para que seja verdadeira a promessa, feita por Milei no discurso de vitória, que a Argentina vai recuperar o brilho, a força, a grandeza e a riqueza de décadas passadas. Será um problema a menos para o Brasil. Nada como ter vizinhos ricos. Dado que dinheiro não compra belas praias ensolaradas de areia fina, os argentinos continuarão sem elas. Isso nos garante a vinda de multidões de turistas (abonados) no verão. Para nossa economia, é melhor que ganhar no jogo do bicho.

O brasileiro não pode atirar a primeira pedra, visto já ter passado recentemente por essa estrada. Aqui vão nossos votos sinceros de que a aventura deles não termine em desastre como aconteceu com a nossa.

Desejamos felicidades a nuestros hermanos!

Espírito universalista

José Horta Manzano

O universalismo é conceito básico de todas as correntes de pensamento socialistas, comunistas e social-democratas.


Proletarier aller Länder, vereinigt euch!
Proletários de todos os países, uni-vos!


O manifesto lançado, século e meio atrás, pelo alemão Karl Marx não conclamava os proletários alemães a se unirem. Nem mesmo os colegas europeus. Seu chamado se dirigia aos proletários de todos os países, sem exceção.

Luiz Inácio só abraçou a doutrina com meio braço. Seu espírito universalista não é amplo nem irrestrito. Está inquieto apenas pelos reféns latino-americanos. Os demais? Que se lixem!

Num surto de deslumbramento, Lula fala com o presidente de Israel como se tivesse recebido mandato dos países latino-americanos para defender seus interesses. Dado que não recebeu procuração nenhuma, soa esquisito. Dá impressão de uma forçada de barra pra se autoeleger líder regional na marra.

De outra vez, nosso presidente deve mostrar interesse por todos os reféns, sem excluir os “louros de olhos azuis”. Todos os sequestrados caíram na mesma arapuca e merecem benevolência planetária, pouco importando a cor dos olhos ou do passaporte.

Se Luiz Inácio for incapaz de alargar seu horizonte, será melhor não tocar no assunto. Melhor ainda, será falar com quem manda. Em Israel, o presidente é figura decorativa. Netanyahu, o primeiro-ministro, é quem dá as ordens.

Parece que Lula só divulgou o telefonema pra sair no jornal.

População do planeta

José Horta Manzano

Isonomia, paridade e proporcionalidade são conceitos em voga. São aplicados em muitas áreas, mas estão longe de vigorar por toda parte. A distribuição geográfica da humanidade, por exemplo, passa ao largo e não respeita nenhum desses conceitos de equilíbrio.

Por motivos complexos, a população do mundo está distribuída de forma bastante irregular e desigual. A imagem abaixo é instigante. Acredite: há mais gente vivendo dentro do círculo do que fora dele.

 

Este outro planisfério, desenhado por autor desconhecido (trabalhador abnegado, que deve ter feito muitas continhas), também é muito interessante. A população das regiões cor de abóbora somadas equivale à população das áreas brancas. Em outros termos, metade da humanidade se concentra nesses pequenos territórios coloridos.

Clique nos mapas para ampliar.

Devassa na República da Muamba

Sérgio Rodrigues (*)

As investigações da Polícia Federal ainda estão em andamento, mas já jogaram uma luz nova sobre o governo Jair Bolsonaro. Que ele tinha sido o mais indigno e mortífero da história da República já se sabia. Que fosse basicamente uma quadrilha de muambeiros ainda não estava tão claro.

Mais do que um grupo de extrema direita de viés populista e golpista – o que a turma que esteve no poder entre 2019 e 2022 também era –, emerge das investigações uma organização criminosa que lançou mão dessas tintas ideológicas para camuflar operações comuns de roubo, contrabando e mutreta. Era a República da Muamba.

E assim essa palavra brasileira de origem africana, dicionarizada desde o século 19, chegou finalmente ao primeiro escalão da vida nacional – se é que se pode chamar aquilo de primeiro escalão, a que ponto descemos.

Muamba nasceu no quimbundo, língua da família banta falada em Angola, na qual “muhamba” queria dizer em primeiro lugar “engradado de hastes e folhas de palmeiras usado em viagens, cesto, carga, carreto” (definição do dicionário Priberam). A mesma palavra designa em Angola um ensopado feito com dendê.

Foi a partir da primeira acepção, a de cesto usado para transportar carga em viagens, que muamba ganhou no Brasil os sentidos que passariam a ser os principais entre nós: primeiro, furto de mercadoria armazenada em portos; em seguida, comércio de produtos roubados e contrabando, além da própria mercadoria assim traficada. A isso se somou ainda, sempre no Brasil, uma última extensão semântica – a de fraude, velhacaria, golpe, ganho.

Um sentido mais restrito do termo entre nós é o de feitiço, bruxedo, registrado pela maioria dos estudiosos como se tivesse a mesma origem. No entanto, segundo a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro, autora de “Camões com Dendê”, nesse caso a palavra veio do quicongo “(m)wanba”.

A muamba fez sucesso tão grande no Brasil, tanto a palavra quanto o comércio escuso que ela nomeia, que não demorou a se transformar num dos incontáveis sinônimos de cachaça. Aqui também teve um filhote, muambeiro, ou seja, contrabandista ou comerciante de mercadoria não declarada.

É curioso que, apesar de todo esse peso cultural, a muamba tenha presença tímida em nossa literatura. Registros da palavra não são fáceis de encontrar fora das obras de autores que se debruçaram mais detidamente sobre a fala das ruas, como João Antônio e Rubem Fonseca.

“Assim parado, se vendo pelo avesso e fantasiando coisas, Malagueta, velho de muito traquejo, que debaixo do seu quieto muita muamba aprontava, era apenas um velho encolhido”, escreveu o primeiro em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, de 1963, dando à palavra o sentido menos comum de golpe, artimanha.

No conto “Botando pra quebrar”, do livro “Feliz Ano Novo”, de 1975, Fonseca emprega muamba no sentido mais consagrado. Um ex-presidiário se queixa de que ninguém lhe oferece trabalho, “só malandro como o Porquinho que estava a fim de eu ir apanhar pra ele uma muamba na Bolívia…”.

O dicionário Houaiss traz no pé do verbete “muambeiro” uma curiosa nota: “Desde 1990 a palavra vem caindo em obsolescência (…), substituída por ‘sacoleiro’”.

Se muambeiro corria mesmo risco de obsolescência – do qual admito que estou ouvindo falar pela primeira vez –, este parece ter sido definitivamente afastado pelas trepidantes trapalhadas de Mauro Cid, assistente de ordens da República da Muamba.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Bom-dia a cavalo

by Gerson Kauer, desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Quem fala demais dá bom-dia a cavalo. Doutor Flávio Dino, nosso ministro da Justiça (e candidato ao STF), é homem sem dúvida inteligente. Inteligente e instruído, conjunção de qualidades raras no mundo político brasileiro atual. Mas ninguém é perfeito. Apesar das qualidades, o doutor tem um defeito: padece de uma compulsão irrefreável a manifestar sua opinião em qualquer ocasião.

A personalidade de nosso atual ministro da Justiça o leva a sentir-se obrigado a mostrar que sabe tudo, que tem resposta a tudo, em todas as ocasiões, seja qual for o assunto. Deve parecer-lhe inconcebível permitir que outra pessoa possa dar um fecho a qualquer conversa – a palavra final tem de ser dele. Essa compulsão, inofensiva e compreensível quando o ministro tem de fato opinião formada, torna-se perigosa quando ele não domina o tema.

Recentemente, o doutor andou dando bom-dia a cavalo. Distraído, esqueceu que é ministro da Justiça e decidiu comentar um vídeo meio besta que circulou pelas redes, no qual uma portuguesa insultava uma brasileira, em Portugal, e a mandava voltar para o Brasil. Coisa de gente malcriada.

Pois doutor Dino não se segurou. Passou por cima do fato de a senhora portuguesa se encontrar em estado visivelmente alterado – não se sabe se temporaria ou permanentemente. Num erro de apreciação indigno de um ministro de Estado, tomou as palavras daquela senhora como se representassem o clamor da totalidade do povo português. E fez questão de dar resposta.

Em vez de ficar quieto ou mandá-la catar coquinho, declarou que concordaria com o banimento dos brasileiros que vivem em Portugal desde que os portugueses “devolvessem o ouro que levaram de Minas Gerais”. Nessa altura, o doutor não só deu bom-dia ao quadrúpede, mas já estava batendo papo com o dito cujo.

Em primeiro lugar, fica muito feio um ministro imprudente se meter em briga de rede social. E se o bate-boca entre as duas mulheres não passasse de mise en scène, de gozação para ganhar likes? Quem é que ia passar carão, hein? Imprudência…

Além disso, o doutor deu flagrante mostra de não ter retido as aulas de História do Brasil recebidas de dona Leocádia. Na época da exploração do ouro das Gerais (século 18, anos 1700), nosso país ainda não tinha existência independente. As terras onde hoje vivemos eram as possessões portuguesas da América. Portanto, a corrida do ouro se deu em terras lusas. O “roubo” não foi roubo. Quem rouba o que já lhe pertence, a Deus convence.

Não se pode acusar os portugueses de terem levado “nosso” ouro. Não faz sentido. Quem diz isso se esquece de que seus antepassados talvez nem tivessem ainda emigrado para estas terras. Ou, quem sabe até, seus ancestrais eram os próprios portugueses que viviam na colônia. Não é impossível que o doutor seja descendente dos “ladrões” do ouro.

Só se pode falar de “nosso ouro” ou de “nossa terra” a partir da Independência, quando o Brasil passou a ter existência reconhecida pelo resto do mundo. Antes, isto aqui não passava de uma extensão de Portugal.

A meu ver, doutor Dino escorregou duas vezes. Quando se meteu em briga alheia e tomou a ofensa malcriada como se emanasse do povo português inteiro. E resvalou de novo ao considerar que o Brasil já existisse como terra independente um século antes do Grito do Ipiranga.

O discurso é prata, o silêncio é ouro. Se não… bom dia, senhor cavalo!

Le rouge et le noir

O Capital, de Karl Marx
1a. edição – 1867

José Horta Manzano

Contava-se esta historinha nos tempos da censura que nossa ditadura militar nos impôs.

Um sargento é encarregado de vasculhar um centro estudantil e de recolher todo material subversivo. Chegando lá, deu uma olhada na estante dos livros, leu o título de cada um e estancou diante de um exemplar de “Le rouge et le noir”(*), romance do francês Stendhal, publicado em 1830.

Naquela época, diferentemente de hoje, todo cidadão com ginásio completo (escola média) tinha noções básicas de língua francesa. O sargento arregalou os olhos ao ver o livro que ostentava um título ousado. “Como é que é?”, pensou ele, “Vermelho? Só pode ser comunista.” E apreendeu o volume.

Lembrei da historieta ao ler a notícia de que a Secretaria da Educação de Santa Catarina, sem expor seus motivos, mandou recolher uma dezena de títulos das bibliotecas de escolas públicas de todo o estado. A lista das obras é tão heterogênea que parece rol de lavadeira: cuecas, cachecóis e camisas sociais, tudo se mistura lá dentro.

Entre os livros banidos há um best-seller assim como um clássico como Laranja Mecânica. Lá estão também quatro obras que, desconfio, entraram no rol por causa do título (ao estilo de Le Rouge et le Noir): Coração Satânico, Demonologistas – arquivos sobrenaturais, Exorcismo, O Diário do Diabo.

Fica a impressão de que essa proibição foi apenas balão de ensaio. Pela (falta de) lógica da amostragem, a lista integral almejada pelo governo catarinense deve ser quilométrica, capaz de esvaziar todas as bibliotecas escolares do estado.

Criar um index – um repositório de obras banidas – é ideia tão velha quanto a invenção da imprensa. Aliás, é até anterior: na Idade Média, livros manuscritos já eram condenados ao Index Librorum Prohibitorum, o elenco das obras proibidas. É que, naquele tempo, quem mandava era a Igreja. Hoje não é mais assim, mas tem gente que não foi avisada.

Nesse sentido, o governo de SC não está inventando a pólvora. Inventando, não está, mas está acendendo o estopim, manobra arriscada.

Toda proibição de obra literária é sintoma palpável de que a sociedade está descambando para o autoritarismo, ladeira traiçoeira que se desce fácil mas que dificilmente se sobe sem ajuda externa.

Povo atento e escolado, os catarinenses deveriam dar um basta curto e grosso a essa operação de solapamento da formação do espírito crítico da juventude. Que os jovens leitores sejam alertados para trechos obscuros de determinadas obras é boa decisão. Que eles sejam orientados para entender certos livros e analisá-los no contexto da época em que foram escritos é procedimento excelente. Agora, simplesmente esconder textos, como se esconde o pote de geleia dos guris menorzinhos, é medida contraproducente.

Os primeiros autos de fé promovidos pelo regime nazista na Alemanha tiveram lugar já em 1933. Todos sabem como terminou a aventura. Não convém seguir o mesmo caminho.

Um espirituoso poderia até argumentar que, finalmente, chegou o incentivo que faltava para fazer a criançada voltar a ler. De fato, tudo o que é proibido é mais saboroso…

Temos que abrir o olho, que com essas coisas não se deve brincar. Essa moda que começou banindo palavras do dicionário e agora se dedica a banir livros da biblioteca é perigosa. Não leva a bom porto.

(*) Stendhal nunca revelou a razão do título “Le rouge et le noir”. Muitas conjecturas já se fizeram. A mais aceita é a de que o vermelho simboliza o exército, enquanto o preto representa o clero.

Toda alusão ao comunismo que pudesse ser imputada a Stendhal seria anacrônica. De fato, quando Karl Marx publicou o primeiro volume de sua obra maior, “O Capital”, já fazia vinte e cinco anos que Stendhal havia falecido.