Melhor não saber

Mãe! O vovô roubou meu carro!

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 novembro 2024

Um ano atrás, um antigo e conceituado laboratório brasileiro de análises clínicas informou à distinta clientela que seu arsenal passava a contar com um novíssimo teste para diagnóstico do mal de Alzheimer. O informe veio escrito em mediquês, mas assim mesmo o não iniciado consegue entender que, para o teste, basta uma trivial amostra de sangue; como se vê, um simples exame de laboratório hoje pode mais que bola de cristal.

A grande novidade é que o futuro doente já pode ficar sabendo, com anos de antecedência, que vai terminar a vida com Alzheimer. Do ponto de vista médico, é uma conquista e tanto! Do ponto de vista do paciente, a vantagem de um pré-diagnóstico tão precoce ainda está para ser validada.

Faz alguns meses que este blogueiro, já entrado em anos, vem notando que, com irritante frequência, palavras lhe faltam no meio de uma conversa. Não se trata, por enquanto, da situação dramática do indivíduo que se encontra vagando na rua à noite de pijama e que não se lembra mais do próprio nome. Mas o fato é que, no meio de uma fala, quero usar um verbo, um nome ou um adjetivo, e o verbo não vem, nem o nome, nem o adjetivo. Não é trágico, mas é desagradável.

Comentei com o médico generalista que me cuida há anos. Contei a ele o problema e disse também que tinha ouvido falar de uma instituição especializada em detectar, por meio de apurados testes de memória, os primeiros achaques de algum tipo de demência que estiver para apontar no horizonte. Pensei que talvez pudesse ser útil saber antes, para tomar alguma providência.

O doutor me aconselhou a não procurar a tal instituição. Seu argumento foi claro: “O senhor vai voltar pra casa com um carimbo aplicado na testa. Além do mais, pra essa doença não há vacina nem cura. Fique tranquilo e viva normalmente.” Entendi a mensagem e desisti de procurar a tal instituição. E continuo tranquilo e tocando a vida normalmente.

O falecimento do homem de letras e acadêmico Antônio Cícero, ocorrido há algumas semanas, ecoou na mídia brasileira. Numa viagem sem volta, o poeta veio à Suíça para um procedimento de suicídio assistido – que eu saiba, a Suíça é o único país onde essa prática está legalmente descrita e rigorosamente enquadrada.

Se o poeta decidiu tirar a própria vida, não terá sido em decorrência de um desengano amoroso, nem por ter dívidas insolúveis, tampouco por estar com câncer em estado terminal – nenhuma dessas desgraças. O que o atormentava a ponto de tirar-lhe o gosto de viver era a perspectiva de ser entranhado pelo mal de Alzheimer, do qual já sentia as primícias.

Cada cabeça, uma sentença. Assim como acatei o conselho de meu médico e abandonei a ideia de fazer a bateria de testes de memória, não tenho intenção de me submeter a exame de sangue para detectar Alzheimer. Se a doença for pra vir, virá de qualquer maneira, com testes ou sem eles. Portanto, de que adianta ficar sabendo de véspera, se nada se pode fazer para evitar?

Pode ser que alguém prefira estar preparado. Na minha maneira de pensar, não faz sentido. Se houvesse meios de retardar, suavizar ou eliminar a doença, seria outra coisa; mas, no estágio atual da ciência, não há que fazer.

Ao contrário. Tenho a impressão de que saber de antecedência o nome da doença feia que vai nos agarrar daqui a não se sabe quantos anos pode até precipitar a chegada que se queria retardar. O estresse que essa pré-ciência vai provocar é capaz de estragar a existência e tirar o gosto de viver.

Não conheço os detalhes do caso do acadêmico Antônio Cícero. No entanto, é permitido supor que, se os descarrilamentos de sua memória não tivessem sido etiquetados com o nome de Alzheimer, ele ainda estivesse entre nós. E talvez viesse a morrer de outra coisa antes da piora da doença.

Asilo na embaixada

Embaixada da Rússia em Brasília
Painel no saguão monumental

José Horta Manzano

Cutucado por jornalistas, Jair Bolsonaro acenou com a possibilidade de refugiar-se numa embaixada. Foi um balão de ensaio que ele soltou, não se sabe bem com que intenção.

A ‘ameaça’, se assim se pode qualificar a fala do figurão agora penalmente indiciado, me fez cogitar. Fazer o quê numa embaixada? E que embaixada escolher?

Parece que faz um tempão, mas foi este ano, em março, que Bolsonaro entrou de mala e cuia na embaixada da Hungria em Brasília, crente de que sua “amizade” com Viktor Orbán fosse lhe garantir tratamento VIP. De mala e cuia é expressão, que na verdade ele não levou roupa de cama nem alimento. Lá se instalou, sem pedir licença, com o sentimento de quem acha que tudo lhe é devido.

A tragicomédia durou dois dias, o tempo de o embaixador pedir instruções a Budapest. Que fazer com o incômodo visitante? Antes que a coisa caísse na voz do povo, Bolsonaro foi gentilmente convidado a retirar-se do local. Asilo? Não é possível.

Para que a notícia entrasse no domínio público pela grande porta, entregaram ao The New York Times, considerado o jornal mais importante do mundo, o relato do acontecido, acompanhado das imagens do circuito interno. Pra ninguém botar defeito. Todos puderam ficar sabendo que o candidato ao asilo tinha entrado por livre e espontânea vontade, sem coação.

À porta da embaixada da Hungria é que Bolsonaro não bate mais. Não quer levar outro desacato. Que embaixada(s) nosso ex-presidente indiciado poderia escolher agora? Vejamos.

Estados Unidos
Precisaria primeiro atravessar as portas do prédio. Não entra lá quem quer. Se lhe permitissem entrar, é de apostar num cenário à la húngara, ou seja, com um asilo sumariamente negado. Com ou sem Trump na Casa Branca, ninguém – nem Donald Trump – quer importar um trambolho incontrolável como Bolsonaro. O melhor a fazer é cortar o mal pela raíz, não permitindo a entrada dele sequer na embaixada. (Dependesse de mim, é o que seria feito.)

Países do mundo ocidental
Nas outras democracias ocidentais, calculo que o raciocínio seja o mesmo. Portanto, Alemanha, Canadá, Japão, França, Romênia, Austrália & semelhantes entram neste capítulo.

Argentina
Depois de eliminar o Ocidente democrático, sobram as ditaduras, a América Latina, a África e o sudeste da Ásia. Não imagino Bolsonaro batendo à porta da Argentina. Milei reina por enquanto mas… e amanhã?

África, Ásia
África? Ásia? Não consta que o ex-presidente se sentisse bem na África. No sudeste da Ásia (Tailândia, Filipinas, Nova Guiné)? Você acha?

China, Rússia, Índia
Eliminados todos os anteriores, quem é que sobrou? As ditaduras mais fechadas, que combinam com a alma e o espírito de Jair Messias. O nome principal é a Rússia. Seus satélites também entram na lista: Casaquistão, Bielo-Rússia, e os outros. Tirando a Rússia, o último refúgio possível seria a China ou a Índia.

Bolsonaro e seus filhos já trataram Pequim de todos os nomes e já lhe atribuíram todos os defeitos possíveis, a começar por “comunistas”. Com que cara vão agora pedir favor aos chineses? Quanto à Índia, é exótica demais.

Espremido o limão, quem é que sobrou? A Rússia, não vejo outro país. Se quiser escapar de Alexandre de Moraes, é para lá que deve ir. Mas não convém ir entrando assim na embaixada sem mais nem menos, como ele fez com a Hungria. Precisa antes combinar com os russos.

Carrefour

José Horta Manzano

Não é de hoje que as grandes redes de varejo europeias dão sinais de descontentamento com o acelerado desmatamento da Amazônia. O problema está ‘dans l’air du temps’ (em sintonia com a atualidade). Na França, país em que qualquer pequeno acontecimento tem potencial de gerar grande polêmica, esse problema do rápido encolhimento da mata tropical é ressentido com maior intensidade.

Nestes dias em que o tratado entre o Mercosul e a União Europeia parece que vai desencantar – depois de mais de 20 anos! – os agricultores franceses começam a sentir-se ameaçados. O medo deles é difuso, um tanto irracional. Está mais pra temor do desconhecido do que receio de uma ameaça real.

Nenhum deles se preocupou em ler o texto do tratado. O que planta hortaliças tem medo de ver o mercado inundado por salsinha e rabanetes uruguaios a preço de banana. O que colhe abricô está apavorado de perder mercado para os abricôs argentinos. O que está criando uma dúzia de galinhas e três porcos tem pesadelos à noite só de pensar na invasão de carne brasileira a preços de liquidação.

Não fica bem montar no trator e fazer carreatas de protesto, trancando as estradas do país, para reclamar de rabanetes e salsinha. Já a carne é excelente motivo. Inventou-se, não sei por que motivo, a balela de que a carne brasileira é produzida segundo normas de qualidade inferiores às normas francesas, e que os bois são engordados à base de hormônios. O mundo agrícola se agarrou a essa notícia falsa.

Faz semanas que o mundo agrícola francês está em ebulição. Não se passa um dia sem alguma manifestação em algum lugar. Monsieur Alexandre Bompard, diretor-geral do grupo Carrefour, farejou excelente ocasião para ficar bem-visto pelos agricultores e para, ao mesmo tempo, promover sua empresa. Mandou carta aos sindicatos agrícolas e repicou nas redes seu compromisso de não vender carne da América do Sul em seus supermercados.

O problema é que o Monsieur não mediu as consequências de sua promessa. Não lhe passou pela cabeça que sua filial brasileira é responsável por quase 25% das vendas do grupo e que a carta enviada aos sindicatos franceses podia vazar e até ecoar no Brasil. Pois vazou e ecoou.

No Brasil, o clamor popular – justificado – foi tal que o CEO logo percebeu a catástrofe que tinha causado. Mais que rápido, curvou-se e mandou uma carta de desculpas a nosso ministro da Agricultura. Na missiva, pede desculpas, elogia a carne brasileira, reconhece que as normas de produção são de Primeiro Mundo, mas não desmente a afirmação que havia feito, de que suas lojas francesas não vão mais vender carne brasileira. Portanto, ficou parecendo pedido de desculpas de mentirinha, só pra enganar ministro.

Outra coisa que Monsieur Bompard não disse é se sua empresa pretende continuar a importar costeletas de carneiro da Nova Zelândia, produzidas não se sabe como, mas que chegam às gôndolas francesas baratinhas, baratinhas.

Vitória da diplomacia brasileira

José Horta Manzano

Leio no jornal de hoje que a cúpula do G20 foi uma “vitória da diplomacia brasileira”. Tenho minhas reservas. Podiam dizer, com mais propriedade, que foi uma vitória da organização do evento, que:

não sofreu nenhum tropeço;

policiou por terra, mar e ar, abatendo drones intrusos;

preocupada com possíveis dificuldades masticatórias ligadas à idade avançada de alguns chefes de Estado, mandou servir-lhes pirarucu (que é peixe) e carne desfiada (que é molinha);

geriu com maestria o alojamento dos milhares de participantes, não deixando nenhum deles ao relento nas areias de Copacabana;

tocou com profissionalismo a complicada tradução multilíngue e simultânea das falas e dos discursos pronunciados em todas as línguas de Babel;

conseguiu convencer os cariocas a esvaziarem ruas e avenidas, sem fazer cara feia, para ceder passagem a alguns dos grandes deste mundo;

coordenar a presença de nossos graúdos com os graúdos de fora que pousavam ou decolavam do Galeão e requeriam uma acolhida à altura da ocasião. Há participantes que vieram de muito longe: alguns estão desde ontem voando de volta a seu país, onde só pousarão nesta quarta-feira à noitinha, hora de Brasília.

Entre outros, que me escapam neste momento, foram esses os pequenos ou grandes detalhes que compuseram a feira de vaidades que o Rio acolheu.

Quanto ao brado ufanista de “vitória da diplomacia brasileira”, acho-o exagerado. Quando o evento se abriu, já fazia dias que assessores e colaboradores tresnoitavam na confecção de um “comunicado final” que agradasse a todos os participantes ou, pelo menos, que não desagradasse frontalmente a nenhum deles.

É obra quase impossível. Em tese, há tantas posições quantos são os participantes. Todas divergentes entre si. Nessas horas, a solução é limar asperezas, aplainar desacordos, arredondar cantos, até que o texto se torne aceitável por todos. O resultado dessa busca de um denominador comum são comunicados finais insossos, pasteurizados, que não comprometem ninguém, que excluem dissensos e pontos de atrito.

Não se falou dos massacres provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, não se deu importância aos massacres entre árabes e judeus. Sobraram vagas promessas de trabalhar pela erradicação da fome no planeta, arroz com feijão que ressurge a cada cúpula, seja ela qual for.

É o caso de se perguntar para quê servem essas cúpulas. Não tenho resposta exata e cravada, mas eu diria que, no mundo internetizado em que vivemos, não têm mais grande utilidade. Tudo o que se pode discutir em torno daquela imensa mesa, redonda ou em ferradura, pode ser debatido, com vantagem, numa videoconferência. Que, aliás, sai imensamente mais barata.

Nos anos 1970 e 1980, as reuniões do G7 (que já foi G5, G6, G8) eram um acontecimento. Numa era pré-internet, conferências presenciais eram indispensáveis. Naqueles anos, talvez, alguma decisão importante tenha sido tomada na ocasião desses encontros.

Hoje não é mais assim. Há grupos demais, conferências demais, reuniões demais. O que é demais cansa. Cada novo evento desse tipo suga a importância do anterior. Saibam meus caros leitores que, na Europa, não ouvi nem li uma linha sobre esse G20. Nada. Ninguém aqui ficou sabendo da extraordinária “vitória da diplomacia brasileira”.

Quando dois se reúnem, temos discussão séria e pra valer. É um pingue-pongue radical e frutuoso: se houver vontade de entrar num acordo, uma meta comum vai aparecer. Reunião de três participantes pode até funcionar, embora já não seja a mesma coisa. Mais que isso, complica.

Por outro ângulo, quando há uma certa uniformidade entre países participantes (PIB per capita, níveis de pobreza, avanço tecnológico razoavelmente compatíveis), as discussões tendem a ser menos ásperas e mais produtivas.

O chamado G20 é composto por países de grande disparidade de população, nível econômico, sistema de governo. Há democracias e autocracias medievais como Arábia Saudita e Rússia. Há países leigos e outros que se encaminham para tornar-se uma teocracia como Turquia e EUA. Há fortes diferenças em matéria de PIB (o da China é 37 vezes maior que o da África do Sul).

Nenhuma declaração de guerra jamais sairá dessas cimeiras. Nem tratados de paz, que necessitam seleção específica de participantes. Desse tipo de reunião, seja de G20, G7, Brics & congêneres, só podem sair esparadrapos – insuficientes para conter sangrias.

Mas já que divertem o povo e confortam o ego de organizadores e participantes, que se divirtam todos.

Fuck you, Musk!

Brasil: A primeira-dama insulta Elon Musk
Tribune de Genève, Genebra, Suíça

José Horta Manzano

“A função dela é dormir comigo!” – lançou uma vez um conhecido político cearense, então candidato à Presidência, quando lhe perguntaram qual era a função de sua mulher. A boutade, proferida bem antes do Movimento #MeToo, rendeu umas poucas críticas apagadas e acabou ficando por isso mesmo. Frases desse naipe, naquele tempo, não eram ainda vistas como crime de sexismo.

Os tempos mudaram, é verdade, mas não a ponto de virar o mundo de cabeça pra baixo. Frases como a do político, pronunciadas hoje, haviam de lhe valer aborrecimento. O #MeToo botou freios a manifestações públicas de masculinidade brutal. E é melhor assim.

“Fuck you, Musk!” – foi a inacreditável frase pronunciada pela primeira-dama(!) da República do Brasil, diante de um microfone num meeting. Dizem que as primeiras palavras que se aprendem de uma língua estrangeira são os palavrões. Pois imagino que dona Janja esteja deslumbrada com a primeira lição da língua de Shakespeare. Recomendo que passe urgentemente para a segunda lição a fim de enriquecer seu vocabulário.

Se ainda estivéssemos no tempo dos castigos corporais, seria o caso de se esfregar pimenta malagueta nos lábios da primeira-dama. A sociedade tem evoluído. Não se chamam mais os pais de senhor e senhora, é verdade, mas o avanço social também não é tão rápido assim. À mesa, entre a comida de sal e a banana, ainda não é costume soltar frases graciosas do tipo “Vai te fo***”.

Se não convém fazer esse tipo de gracinha entre quatro paredes, menos ainda num discurso público, aberto, sem filtros, sem saber a que ouvidos vai chegar. O fato de a frase ter sido pronunciada em inglês não embala as palavras num mistério só accessível aos iniciados. Bem ao contrário, facilita a difusão pela mídia mundial.

Durante quatro anos, Bolsonaro muito nos envergonhou, a nós que vivemos no estrangeiro e que fomos obrigados a aguentar insinuações e risadinhas a cada vez que ele escorregava e soltava uma das suas. Quando Lula voltou ao Planalto, eu já imaginava que não ia fazer um governo fantástico, mas pelo menos esperava que não nos envergonhasse como o capitão.

Falsa esperança! Com as falas que refletem seu ranço antiamericano, tem conseguido se colocar sempre do lado errado do tabuleiro. Em vez de procurar se juntar aos melhores, prefere se amaziar com China, Rússia, Irã, Venezuela, Cuba, Nicarágua – enfim, com todas as ditaduras que há pelo mundo.

Não bastasse isso, sua mulher, que não recebeu mandato de ninguém para exercer função política ou governamental, põe-se a dar palpites (públicos) em assuntos variados, geralmente com opinião clivante. E agora, com o palavrão de ontem, subiu ao cume da montanha. É o cúmulo da desenvoltura irresponsável!

Não morro de amores por esse senhor Musk, mas se trata de um visitante estrangeiro de passagem por nosso país, por ocasião de um evento organizado pelo presidente de nossa República. Cai muito mal a esposa desse mesmo presidente dirigir palavras ofensivas ao forasteiro. Sem contar que já é de conhecimento público que Musk terá cargo ministerial no próximo governo americano.

“Quem nasceu pra tostão nunca chega a milréis”, dizia-se faz um século. “Quem pode, pode; quem não pode se sacode”, dizíamos faz meio século.

É preciso alguém de bom senso soprar ao pé do ouvido da primeira-dama que está na hora de ela se sacudir porque está exagerando e, ao expor sua raiva e seus recalques, acaba prejudicando o próprio marido. E, de tabela, o povo brasileiro.

Maluco?

José Horta Manzano

Se eu não estiver enganado, é a primeira vez que temos no Brasil a autodetonação voluntária de um homem-bomba. Lembro da explosão do Riocentro, no longínquo 1981, só que aquele foi o estouro acidental e temporão do artefato que era pra ser usado num atentado, mas explodiu antes, por acidente, no colo de um militar. No caso de ontem, em Brasília, o homem realmente “se explodiu”, como se costuma dizer.

Instado a dar sua opinião, Bolsonaro foi logo se eximindo (em língua de casa: “tirando o corpo fora”) ao declarar não fazer a mínima idéia de quem fosse o explodido. Acrescentou que devia se tratar de um maluco. Acho que, até aqui, estamos todos de acordo: certos atos só podem ser atribuídos a malucos.

Maluco desvalido sai pela janela do trem em movimento e surfa no telhado. Maluco classe média aposta o valor do aluguel na véspera do vencimento. Maluco grã-fino fica feliz de ter dado o sinal para comprar um terreno na Lua aconselhado por um influenciador.

Agora, com um maluco que pega a estrada em Santa Catarina e dirige 1.700 km até Brasília a fim de cometer um atentado contra o STF “para consertar a Justiça e garantir nossa liberdade”, já entramos em outra ordem de grandeza. Com tráfego favorável, o homem há de ter viajado 22 horas carregando bananas de dinamite, coisa pra quem está realmente animado e convencido do que tem intenção de fazer.

Não sei se esse infeliz era pobrezinho ou ricaço. Não sei se estava mais pra surfar em telhado de trem ou pra comprar terreno na Lua. Uma coisa é certa: se o acesso de loucura que o levou a Brasília tivesse ocorrido antes da era bolsonárica, jamais teria tido a ideia de “explodir essa Justiça de merda”, conforme seu testemunho escrito. Teria surfado num trem ou, no paroxismo da crise, teria se jogado debaixo da locomotiva.

O ímpeto – ingênuo mas perigoso – de atacar fisicamente estátuas e personagens dos Poderes da República tem origem certa e atestada: Jair Messias Bolsonaro, seus atos, suas palavras, seus silêncios, suas insinuações, suas incitações. Ele, aliás, é quem está encrencado com a Justiça, que já se deu conta da influência que exerceu no encorajamento de atos tresloucados, que começaram com brigas de rua, assassinatos políticos e foram crescendo até o bouquê final: o 8 de janeiro.

O que se quer dizer aqui é que a “maluquice” de nosso homem-bomba, que se pôs a bombardear estátuas e edifícios, foi orientada pela intensa pregação de Bolsonaro, homem que é dinamite pura, embora nossa benevolente Justiça ainda o deixe solto por aí.

O pastor de almas malucas que nos serviu de presidente durante quatro anos, aquele que convenceu o homem-bomba a desdenhar trens e se dirigir contra Brasília, é, portanto, o verdadeiro autor intelectual dessa tragédia.

O palavreado de Milei

José Horta Manzano

Num aprendizado benfeito, o aprendiz que se aplica de verdade chega, às vezes, a superar o mestre.

Tome por exemplo Donald Trump, presidente eleito dos EUA. Seu palavreado tem feito sucesso entre os que apreciam um governo autoritário. O personagem é mentiroso contumaz, dono de um discurso recheado de lorotas. Um dia, falando em público na época do covid, revelou que tinha o hábito diário de tomar creolina(*) como preventivo contra a doença. Pois sim… (como se dizia antigamente para demonstrar que não dava pra acreditar).

Tremendas mentiras, sim. Apesar delas, Trump não é conhecido por fazer discursos recheados de insultos e palavrões. Pode ser que escape alguma coisinha aqui ou ali, mas não é a tônica.

Nosso Jair Bolsonaro nacional, admirador declarado de Trump, tentou adotar o estilo oratório do ídolo. Só que seu baú de expressões é pobre e sua mente, pouco criativa. Em decorrência, decerto por falta de palavras, não conseguiu elevar o nível de suas invectivas. Seus quatro anos na Presidência escorreram sem que ele fosse além de palavrões rasteiros, daqueles de boteco de beira de estrada. Foi incapaz de estruturar um raciocínio sequer.

Virada a página de Bolsonaro, novo aprendiz apareceu na Argentina. Chama-se Javier Milei. Mais jovem, mais vigoroso e mais instruído que o capitão, conseguiu juntar, em seus discursos, a agressividade de Trump e a vulgaridade de Bolsonaro. Mas não se contentou de apenas continuar vivendo de carona, aboletado no calhambeque dos tutores. Com sua motosserra, alargou a picada a fim de poder trafegar com seu caudal de impropérios.

Assustados com seu palavreado, catedráticos da própria universidade em que Milei se formou vêm publicando artigos no site da instituição, textos que acabam repercutindo na mídia argentina. Karina Galperín, diretora-geral de estudos da universidade, declarou que a luta selvagem de Milei pela desregulamentação atingiu seu discurso político. O jornal La Nación analisou um discurso pronunciado pelo presidente no mês passado e descobriu que, em 70 minutos de fala, o discursante cometeu nada menos que 29 agressões.

Aqui estão alguns dos insultos, cuja variedade deixa Trump e Bolsonaro comendo poeira: casta podre, vendidos, kirchneristas, ratazanas, bando de delinquentes, ladrões, excremento humano(!), mentirosos, traidores, covardes, imbecis, ratos miseráveis, bunda suja, degenerados fiscais, esterco imundo(!).

Essa moda de se comportar há de corresponder a uma tendência mundial. Ainda outro dia, a cidade de São Paulo passou pertinho de mandar para o segundo turno um forasteiro aventureiro que parecia ter incorporado o espírito do presidente argentino. Desta vez, foi por pouco, mas ninguém garante que, da próxima, o resultado não seja diferente.

Os argentinos usam um verbo cujo significado, à primeira vista, nos escapa: putear. Em política, se usa para definir um palavreado chulo, rasteiro, recheado de palavrões. A imprensa informa que Milei sempre foi fã desse modo de se exprimir. Só que, enquanto era um personagem obscuro, o problema não era tão grave. Agora, que se tornou chefe do Estado, o eco chega mais longe.

Como se vê, parece que a puteada está se tornando o dialeto habitual dos novos dirigentes autoritários, uma política de comunicação eficiente e aceita pelos eleitores. Os discípulos de Trump estão se saindo melhor que o mestre.

(*) Não me lembro bem se Trump disse creolina, benzina ou querozene. Tanto faz, dá no mesmo: seja qual for o desinfetante, a mentira da afirmação é ululante.

Lembro a meus queridos leitores que “creolina” não tem nada a ver com as palavras hoje proibidas por habitarem no index verborum prohibitorum. Creolina não tem a ver com raça. É marca comercial de um antigo desinfectante e antisséptico feito à base de creosoto, daí o nome. Não sei se ainda é produzido.

Inútil diplomacia do coice

José Horta Manzano

Impressionados com a inútil diplomacia do coice, implantada por Bolsonaro e seu impagável ministro de Relações Exteriores (lembra-se dele, aquele barbudo que se orgulhava de ser pária?), Lula e assessores vêm se empenhando para não deixar cair a peteca. Têm imprimido à diplomacia brasileira um feitio rude, arrogante, sectário, petulante, tolo, mesquinho. São muitos adjetivos, mas cada um deles foi pesado e escolhido por representar uma faceta da atuação do Brasil em suas atuais relações exteriores.

Algum tempo atrás, pus num artigo uma visão geral do funcionamento da OCDE. Expliquei que, se o Brasil ainda não é membro desse grupo, é porque, até poucos anos atrás, nunca tinha tido interesse em se candidatar. México, Chile, Colômbia e Costa Rica, nossos vizinhos de hemisfério, já integram o clube. Sem contar nações pequenas e de pouca expressividade econômica como Letônia e Estônia, com menos de 2 milhões de habitantes cada uma, que também fazem parte do esquadrão.

Como sabemos, daqui a exatamente uma semana abre-se no Rio de Janeiro a reunião anual do G20. O Brasil, que sedia o evento, é o encarregado de emitir os convites aos que participarão. Em princípio, ninguém entra de penetra como fez Nicolás Maduro outro dia na reunião do Brics na Rússia, quando chegou na cara de pau, sem ser convidado.

O Itamaraty convidou todos os membros do G20, mais alguns países não membros, como é costume. Enviou convite também à União Europeia. Só que cometeu o impensável: passando por cima da praxe estabelecida desde a 1ª. Cúpula do G20, que teve lugar no longínquo ano de 2008, deixou de convidar a OCDE.

A OCDE, acreditando que tivesse havido um engano no protocolo do Itamaraty, escreveu pedindo que seu secretário-geral fosse convidado. Silêncio total: nosso Ministério das Relações Exteriores simplesmente fez cara de paisagem, ignorou o pedido e nunca respondeu à missiva. Em diplomacia, tal deselegância não se vê todos os dias.

Ao saber disso, o governo da África do Sul, que sediará a Cúpula no ano que vem, já avisou que a OCDE será, sim, convidada no ano próximo, retomando a tradição que o Brasil tentou quebrar. Com isso, o coice do Itamaraty ficou ainda mais doído. O Brasil é o único país sede das cúpulas anuais do G20 a ter ousado excluir a OCDE da lista de convidados.

É difícil entender as razões pelas quais nosso Itamaraty se orgulha de receber o G20 e, ao mesmo tempo, não quer saber da OCDE. Numerosos membros de um dos blocos são também membros do outro. Politicamente, nenhum dos dois apita nada, dado que suas resoluções são meramente indicativas, não obrigatórias para os membros.

Será que, aos olhos dos peritos do MRE, o antiamericanismo entranhado do atual governo aceita receber todos os membros do G20 mas não suportaria ver, em solo nacional, o secretário-geral da OCDE?

Em que planeta vive essa gente, que não se dá conta de que as coisas aqui na Terra vêm se transformando a toda a velocidade? Já perderam o bonde do passado e, a continuar remoendo desgraças que só existem na cabeça deles, vão acabar perdendo o trem bala do futuro também.

Trump, Lula & Milei

Eliane Cantanhêde (*)

Além de convidar Bolsonaro para a posse, Trump deixa no ar que não vai atender a ligação de Lula nem convidá-lo. E mais: o primeiro presidente estrangeiro que pretende receber é Javier Milei. Pela importância dele e da Argentina? Ou para espicaçar Lula, do principal país da América Latina?

A manifestação de Lula a favor de Kamala Harris, em nome da democracia e às vésperas da eleição, pode ter dado uma pitada a mais de acidez nas relações entre Lula e Trump, mas, com ou sem essa pitada, estava claro e precificado que a convivência dos dois já tinha irremediavelmente azedado. O aliado de Trump no Brasil é Bolsonaro, ponto.

(*) Eliane Cantanhêde é jornalista. O texto acima é parte de artigo publicado no Estadão de 10 nov° 2024.

Mais quatro aninhos

by Neil Davies, desenhista britânico

José Horta Manzano

Donald Trump vai assumir a Casa Branca a partir de janeiro próximo, isso é uma verdade que não há como mudar. O que, de bom ou de mau, tiver de acontecer durante seu mandato, acontecerá, gostemos ou não.

Contra fatos, não há argumentos. Escolhido por sólida maioria de seu povo, o magnata será presidente pelos próximos quatro anos, salvo se o céu lhe caísse sobre a cabeça, catástrofe que não aconteceu mais desde os tempos bíblicos.

Meu palpite – gratuito e sem compromisso – é que Trump 2 será menos impactante que Trump 1. Primeiro, todo o mundo já conhece a peça e espera dele o pior, portanto não há surpresa. Segundo, o bilionário não tem mais grande coisa a provar. Nasceu em berço de ouro, conseguiu multiplicar a fortuna que recebeu, tornou-se personalidade de projeção nacional devido a sua constante presença na televisão. Depois disso, contra todos os prognósticos, alcançou a Casa Branca, foi na segunda tentativa, ressuscitou e voltou surfando na crista da vontade popular. Pela segunda vez, vai se tornar o homem mais poderoso do planeta.

Que mais pode ele querer? Na idade em que está, o momento de glória máxima é este. Não vejo mais o que pode almejar. Creio que não fará como nossos desajeitados políticos que, depois de um cargo maior, se resignam a descer alguns degraus e aceitar um cargo menor. Ou alguém imagina um futuro Trump deputado?

Eu tinha lembrança de que, nos EUA, presidentes não podem exercer um terceiro mandato. Pra ter certeza, fui pesquisar e encontrei. A 22ª emenda à constituição americana, ratificada sete décadas atrás, é taxativa: ninguém poderá exercer a Presidência do país por mais de dois mandatos (consecutivos ou não).

Assim sendo, a não ser que Donald Trump decida iniciar uma carreira de ditador aos 78 anos de idade – e que obtenha o apoio necessário para tal empreendimento – daqui a quatro anos ele deixará a Presidência. É o consolo que nos resta.

Para nós, minha gente, duro mesmo foi aguentar os quatro anos do capitão. Trump, nóis tira de letra.

Observação
O glorioso ano de 1946 foi o único, até hoje, que deu aos Estados Unidos três presidentes da república: Bill Clinton, George Bush (júnior) e Donald Trump nasceram naquele mesmo ano. Este escriba também.

Pesadelo voltou

José Horta Manzano


Algumas considerações sobre Trump e sua nova eleição (que alguns chamam equivocadamente de “reeleição”)


Nem as preces, promessas, novenas, oferendas e despachos de meio mundo foram suficientes. Os americanos, os verdadeiros donos da bola, votaram como bem entenderam. E mais uma vez elegeram Donald Trump para a Casa Branca. Como é que pode? Para mim e para muitos, aquela mulher simpática, sorridente e diplomada transmite mais confiança que aquele velho pretensioso, grosseiro e ameaçador.

Acredito firmemente que as tradições daquele país – ligadas à força física, à violência, à lei do mais forte, à crença de que vence o que atira primeiro ou o que bate mais forte – falaram mais alto. Não é tão já que entregarão as rédeas do país a uma mulher. E, ainda por cima, de pele escura.

Muitos povos têm fixação em tempos gloriosos que ficaram no passado. Franceses e ingleses vivem a nostalgia da época das colônias, em que viviam num país rico e poderoso.

Em Portugal, esse sentimento é especialmente presente. Fala-se sempre, com certa saudade, do tempo em que o pequenino país tinha importância mundial por ter colônias ultramarinas. Muitos anos atrás. tive um colega de serviço português, que suspirou um dia, balançando a cabeça e, com ar acabrunhado, me confessou sua tristeza: “Ah, e perdemos o Brasil…”.

A partir de 1945 e pelas três décadas seguintes, os EUA viveram seu apogeu. Eram os maiores em todos os pontos: os mais poderosos, os mais ricos, os mais influentes. Todo o mundo respeitava aquele país e gostaria de viver lá. O cinema nos trazia imagens de uma civilização avançada.

Quando Trump insinua que vai fazer com que seu país volte a ser importante (Make America Great Again), está aludindo àquele período. Quem é que não gostaria, não digo de voltar ao passado, mas de reviver uma época dourada, de crescimento, sem desemprego, sem concorrência comercial à altura do país? Um período de dólar forte, que permitia à população viajar à Europa ou ao México com dinheiro farto no bolso.

Pois é esse argumento de dar água na boca que aflora no imaginário do americano comum quando Trump brande seu MAGA (Make America Great Again). Seria difícil perder a eleição.

Cantinho da Candinha
Será que é impressão minha? Pela foto do início deste artigo, parece que Donald Trump abandonou a perturbadora coloração laranja do cocuruto e permitiu a seus cabelos viver uma velhice normal?

Como meus cultos leitores sabem, dona Melania Trump é originária da Eslovênia, pequeno país de dois milhões de habitantes, resultado do despedaçamento da antiga Iugoslávia. Estive hoje dando uma vista d’olhos aos jornais de lá. Como se pode imaginar, estão exultantes com a perspectiva de voltar a ter, por quatro anos, uma conterrânea no posto de First Lady dos EUA.

Por um desses veículos, fiquei sabendo que Barrow Trump, aquele garoto meio desengonçado que aparecia nas fotos durante a primeira presidência do pai, está hoje com 18 anos. Cresceu, cresceu, passou mãe e pai, está com 2,06m. Um assombro! Além do inglês, fala esloveno fluentemente. Fora de casa, só inglês. Da porta pra dentro, só esloveno. Se o pai não estiver, naturalmente.

Você fala esloveno?

Questão de apreciação

José Horta Manzano

Em visita a Valencia, o rei da Espanha, Felipe VI, foi vaiado pela multidão que se aproximou aos gritos de “Assassino!” e atirou punhados de lama. O rei e a rainha saíram enlameados do episódio.

O jornal informa que o casal foi “quase agredido”.

Pelo que se vê, o jornal julga que o que foi feito contra os monarcas não foi bem uma “agressão”. Eu me pergunto o que faltou para o casal ser considerado de fato agredido. Socos na cara? Rajada de metralhadora? Linchamento?

Codinome

José Horta Manzano

Quando alguém ou algo é chamado por um nome que não é o seu, há várias maneiras para dar nome ao nome – se é que ouso me exprimir assim.

Entre nós, a forma mais usada é apelido.
Ex: O nome dele é Antônio mas o apelido é Tonico.

Em Portugal, preferem utilizar alcunha.
Ex: Este é o tão falado Rayovaque, cuja alcunha é “Rei”.

Cognome é palavra mais rara. Substitui apelido e alcunha.
Ex: No soldado mais valente, puseram o cognome de “Ludovico”.

Na linguagem da geração Z, está em voga o termo americano nick.
Ex: Ei, galera! A influenciadora é a Kriseldina. O nick dela é Kris.

Foi na ditadura militar que o termo codinome apareceu. É de uso restrito. Costumava ser atribuído aos que pegavam em armas para combater o regime. A ditadura acabou, mas tem gente que usa o termo até hoje.
Ex: O guerrilheiro mais ousado do grupo leva o codinome de “Ludovico”.

No exemplo acima, convém substituir codinome por “nome de código”. O melhor é deixar a expressão codinome morrer de morte morrida. Que se use uma palavra que não evoque período tão obscuro.

Unrwa

Unrwa – países doadores

José Horta Manzano

A resolução da ONU que repartiu o território palestino entre judeus e árabes criando o Estado de Israel (1948) foi o ponto de partida da desavença que dura até hoje na região. A questão é muito delicada e de difícil solução, por envolver dois povos que reivindicam o mesmo território.

No dia seguinte à criação de Israel, a ONU criou a Unrwa – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente-Médio. Nestes 75 anos, essa agência vem garantindo assistência e proteção aos refugiados palestinos.

Estabelecidos em Gaza, em Israel (Cisjordânia ocupada), no Líbano, na Síria e na Jordânia, os postos da agência oferecem escolas, cuidados de saúde, ajuda alimentar, microfinanciamento, apoio legal à população desvalida, ou seja, a praticamente todos os árabes da região.

Com o pretexto de que haveria funcionários da Unrwa entre os terroristas do Hamas que atravessaram a fronteira e massacraram civis israelenses em outubro do ano passado, o parlamento de Israel acaba de aprovar o banimento da agência de todo o território do país.

Essa expulsão vale para a Cisjordânia (territórios ocupados) e para toda a Faixa de Gaza (ocupada de facto por Israel). Esses territórios abrigam justamente a população que mais carece de ajuda para sobreviver. Sem o amparo da Unrwa, o que significa sem remédios, sem escolas, sem alimentos, sem proteção contra agressões, há que temer pelo futuro desse povo infeliz.

A Unrwa se apoia numa grande organização de cerca de 27 mil funcionários. São financiados por dezenas de países ao redor do mundo; até o Brasil aparece entre os doadores (veja mapa que encabeça este artigo). No entanto, nem uma agência como esta, sustentada pelos EUA, pela China, pela Rússia, pela Índia e até pelo Brasil, poderá levar um prato de comida a quem tem fome naquele pedaço de mundo se Israel não deixar entrar.

Temos visto a ferocidade com que o exército israelense cuida da destruição de Gaza, prédio por prédio, quarteirão por quarteirão. Temos visto a desumanidade com que atacam escolas, hospitais e campos de civis refugiados. Temos visto a pontaria com que mandam pelos ares ambulâncias e civis que se locomovem em lombo de burro. Temos agora o banimento do único canal de ajuda de que dispunham os palestinos.

Fica um nó na garganta e uma insuportável impressão de estar assistindo a um meticuloso, planejado e organizado genocídio.

Nota
Uma das condições estabelecidas na Convenção de 1948 em que a ONU definiu o crime de genocídio é o item 3°:

“Submissão intencional do grupo [cujo extermínio esteja sendo executado] a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial”.

É o caso.

Telefone de parede

José Horta Manzano

Minha avó contava que, lá pelos anos 1930, o povo desconfiava de telefone. Desconfiar não é o termo exato – ninguém via utilidade naquele aparelho esquisito, preto, de baquelite(*), com fios saindo daqui e dali. Pra ser instalado, a parede tinha de ser furada e estragada. E depois… pra falar com quem? Ninguém tinha telefone. E, mesmo que tivesse, era esquisito conversar sem ver a cara do interlocutor. O único caso que se assemelhava era quando a gente ia contar os pecados, ajoelhado no confessionário, situação em que o penitente não enxerga a cara do padre. Mas aí já é outra coisa, um preceito religioso. Não se compara.

Naquele tempo, operadora se chamava companhia telefônica. Havia várias, muito mais do que hoje. Algumas delas praticavam marketing agressivo. Propunham-se a instalar gratuitamente um aparelho na casa do freguês e lá deixá-lo por um período de experiência de uns três meses, absolutamente de graça. Caso o cliente desejasse, podia, ao final do período, tornar-se assinante. Se não quisesse, a companhia vinha recolher o aparelho. O buraco na parede ficava.

Com o passar das décadas, o telefone cresceu em importância. Popularizou-se. Vulgarizou-se. Vinte anos atrás, dispensou o fio e começou a entrar no bolso do cidadão. Ainda assim, continuava a funcionar como aparelho destinado a assegurar conversa vocal entre duas pessoas.

De uns dez anos pra cá, o progresso tecnológico despejou maravilhas sobre o telefone de bolso. Hoje, ele ainda fala, mas também escreve, faz contas, dá a previsão do tempo, permite a leitura do jornal, paga compra no supermercado. Deixa recado sonoro – sem incomodar a vizinha, como era antigamente! Serve para envio de bilhetes escritos em estilo telegráfico, dispensando o uso do velho telegrama! E ainda tira fotos descartáveis, daquelas que a gente vê uma vez e depois esquece. Exerce até as funções de diário íntimo. É o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida do cidadão. Um espanto!

Só que, diferentemente do antigo telefone de parede, o telefoninho de bolso é perigoso. Com o antigo, o único risco era que se desprendesse da parede e caísse no pé de alguém, probabilidade bastante remota. Nunca ouvi falar de acidente assim. Com o telefone atual, são outros quinhentos.

Já li revelações sobre um sistema de piratagem fabuloso, caro mas ideal para quem está interessado em espionar adversários, inimigos ou desafetos. Instala-se a arapongagem à distância, sem necessidade de mandar um email envenenado. Esse é o sistema sofisticado, mas há outros, mais baratos, mais difíceis de instalar, mas tão eficientes quanto. Tome cuidado, que ninguém está ao abrigo de uma violação de privacidade.

Razão tinha minha avó, de desconfiar do telefone.

(*) A baquelite, inventada no fim do século 19, é a primeira matéria plástica que apareceu no comércio. É o ancestral de todos os plásticos que povoam (e contaminam) nosso mundo atual.

Observe que, até os anos 1950, a gente ainda se referia a esse produto com o cerimonioso nome de «matéria plástica». Foi com o passar dos anos que a convivência diária e a proliferação de novos produtos favoreceram a intimidade e permitiram o encurtamento da expressão. A ‘matéria’ se perdeu e só sobrou a ‘plástica’. Que, aliás, mudou de gênero – virou ‘plástico’. Plástico pode, portanto, ser considerado palavra transgênero. Será?