Furacão

José Horta Manzano

Você sabia?

Contam que os esquimós têm 16 palavras para descrever a neve, o que pode parecer surpreendente. Pensando bem, é natural numa paisagem constantemente branca, um universo feito de neve e gelo. Os que lá vivem fazem diferença entre neve úmida, seca, fininha, pesada, com vento, de flocos grandes, endurecida, esvoaçante e outras variedades.

Para a maioria de nós, que só conhecemos neve de cartão de Natal, uma palavra basta. Já vi até fotos de paisagens cobertas pela geada descritas como campos cobertos de neve. Para quem não está acostumado, tanto faz.

Já para falar de vento e de chuva, a coisa muda de figura. Aí é nossa vez de dispor de dezenas de termos. Chuva, chuvisco, garoa, pé d’água, ventania, temporal, pancada, salseiro, aguaceiro, tromba d’água não são exatamente a mesma coisa. Descrevem realidades bem diversas. Em linguagem mais rebuscada, podemos até nos referir a procela, termo poético que lembra tempestade enfrentada em alto-mar.

Trabuzana e bátega andam um tanto em desuso. Vórtice é mais do gosto de meteorologistas enquanto tormenta, de delicioso sabor vetusto, lembra Vasco da Gama contornando a extremidade sul da África, no ponto hoje conhecido como Cabo da Boa Esperança.

Adotamos a palavra espanhola tornado para nomear aqueles turbilhões de ventos ascendentes que surgem no interior das terras e arrasam o que estiver pelo caminho, chegando a levantar casas e veículos, deixando um rastro de destruição.

Quando esses vórtices se formam sobre o mar, dizemos ciclones. No Hemisfério Sul, de poucas terras e escassa população, são praticamente desconhecidos. Na metade norte do globo, no entanto, são velhos conhecidos. O fim do verão, época em que as águas marítimas estão mais quentes, é propício ao recrudescimento desse fenômeno.

O nome técnico ‒ e genérico ‒ é ciclone, termo derivado da raiz grega que significa roda, círculo (cf. bicicleta, reciclagem). Aparecem em várias regiões do planeta, mas duas delas são particularmente expostas. Nas Américas, o Golfo do México e o Mar das Caraíbas (ou Caribe, para quem prefere o nome espanhol) assistem a vários episódios a cada ano. Do outro lado do globo, o sudeste asiático também está sujeito a esses acontecimentos.

É curioso que o mesmo fenômeno atmosférico mude de nome conforme a região onde surgem. Os ciclones americanos são chamados furacões enquanto os asiáticos são tufões. Furacão vem do espanhol huracán, tomado emprestado das línguas pré-colombianas faladas nas Antilhas. O termo foi adaptado para a fonética de cada idioma: hurricane, ouragan, uragano, Orkan, Ураган (uragan), uraganas, hurikán.

Os ciclones asiáticos são chamados tufões. A origem da palavra tufão é incerta, mas pode bem ter-se originado no cantonês tai fong (= grande vento). Chegou à nossa língua depois de longa viagem, passando pelo persa e pelo árabe. Como é normal, cada língua adaptou a palavra à própria fonética. Temos typhon, tifón, tifone, Taifun, тайфун (taifun).

Ciclones têm nome. O Centro Nacional de Observação de Furacões (Miami, EUA) encarrega-se de nomear os do Atlântico Norte. Há seis listas de prenomes que se repetem a cada seis anos. Cada uma delas é constituída de prenomes masculinos e femininos, alternados e em ordem alfabética.

Este ano, furacões têm sido excepcionalmente violentos. Como vimos, Harvey devastou a região de Houston, no Texas. Irma veio logo atrás e destruiu São Martinho e São Bartolomeu, nas Antilhas francesas. Enquanto Irma prossegue seu caminho em direção à Florida, José vem logo atrás, ameaçador. O próximo, que ainda não está em vista, vai chamar-se Katia. Resta esperar que seja menos devastador.

Coreia do Norte e Venezuela

José Horta Manzano

Duas maneiras de lidar com a paranoia

Coreia do Norte e Venezuela são países com vários pontos em comum. Têm população comparável: 25 milhões para o primeiro, 30 milhões para o segundo. Têm ambos a economia em frangalhos, com o povo passando fome enquanto a nomenklatura se farta de champanhe e caviar. Os dois países são atormentados por uma ditadura ‒ a da Coreia é hereditária e a da Venezuela segue adiante com sucessor designado.

Talvez a semelhança maior entre as duas nações seja a ignorância manifesta da classe dirigente, que parece viver num outro planeta, à margem da civilização. É certo que ambas as cliques vivem numa situação de paranoia permanente. Com ou sem razão, acreditam estar prestes a ser atacados por forças militares estrangeiras. Os tuítes estrambóticos do atual inquilino da Casa Branca não fazem senão reforçar esse sentimento. O folclórico personagem já ameaçou os coreanos com «fogo e furor» e não excluiu intervenção armada no nosso vizinho do norte.

Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte

Agora falemos das diferenças. A Coreia do Norte não foi agraciada pelos deuses na hora da distribuição das riquezas. O solo é pobre, as reservas minerais não são significativas. Como o país não fornece estatísticas oficiais, é difícil conhecer a economia no detalhe. Estima-se um baixíssimo PIB per capita, entre 1000 e 1500 dólares por ano. Para comparação, o do Brasil é dez vezes mais elevado.

Já a Venezuela passou três vezes na fila da distribuição de riquezas. Tem petróleo a dar com o pau ‒ a maior reserva do mundo. O solo é rico e o sol, generoso. Se tivesse lá aportado, Pero Vaz de Caminha não hesitaria em afirmar: «em se plantando, dar-se-á nela tudo». No entanto… o povo passa fome. Um paradoxo.

Ambos os países são governados por gente ignorante e paranoica, disso já sabemos. Mas há sensível diferença na maneira que cada qual encontrou pra lidar com essa sensação de iminente ataque externo.

A Coreia do Norte investiu (e continua investindo) o pouco que tem em armamento dissuasivo. E tem tido sucesso. Os testes balísticos destes últimos meses nem de longe têm intenção de atingir o Japão, nem Guam, nem quem quer que seja. Servem apenas de advertência: «Não brinquem conosco, que temos como nos defender». E olhe que tem funcionado. Alguém ousaria atacar o país?

Nicolás Maduro, ditador da Venezuela

Já a Venezuela, ai, santa ignorância! Como já fazia seu finado mentor, señor Maduro tem se contentado em subir o nível das bravatas. Incapaz de alimentar o povo, com o país expulso de facto do Mercosul, abandonado pelas companhias aéreas e impossibilitado de importar a não ser que pague adiantado, o bobão veio ontem com a enésima fanfarronice. Prometeu enviar «ajuda humanitária» de cinco milhões de dólares para as vítimas das enchentes de Houston.

O mandachuva de um país cujos cidadãos fogem aos milhares por falta do que comer não tem o direito de cometer tamanho escárnio. Os estragos causados pelas inundações no Texas são estimados, por alto, em 100 bilhões de dólares. Os cinco milhões doados por Caracas não vão além de 0,005% do total. Francamente, melhor faria señor Maduro se destinasse a bolada a comprar esparadrapo para seus hospitais.

Em resumo: a ditadura dinástica coreana está garantida por muitos anos. Quanto à Venezuela, ninguém apostaria um vintém furado na permanência do hermano bigodudo e paspalhão à frente da anacrônica ditadura.