Tempos difíceis

José Horta Manzano

Os tempos andam complicados para todos – mais para uns que para outros. Para o partido que dominava a cena política federal até poucos meses atrás, o momento é mais que espinhoso. Depois que perderam a hegemonia, seus afiliados estão tentando colar os cacos.

O instantâneo tomado ontem no Congresso Nacional do PT deixa perceber que, por detrás de sorrisos de triunfo, há muita preocupação. Vejamos dois detalhes:

Dilma 12Interligne vertical 14A bancada oficial é ornada pelas bandeiras do Brasil, da Bahia e do partido. Detalhe sintomático: a bandeira nacional ocupa a posição central, jogando a do partido pra escanteio.

Nos tempos áureos, teriam vindo todos de roupa vermelha. Hoje, dado que o partido está irremediavelmente associado à roubalheira e à bandidagem, o vibrante vermelho-revolução – marca registrada da agremiação – foi substituído pela sem-gracice do traje de todos os dias. Alguns até de camisa pra fora da calça, composição pra lá de chique.

Pra finalizar, fato singular, importante e inquietante: a presença da presidente da República. A pessoa que acumula as duas funções maiores – chefe do governo e chefe do Estado brasileiro – deve ter a sabedoria de pairar acima de partidos. No momento em que foi eleita, dona Dilma deveria ter passado a distanciar-se de comemorações e festejos partidários. Faz parte da liturgia da função.

Dilma e Lula 2A presidente não fez mera visita de cortesia. Foi parte integrante e figura capital do convescote. Dado que nunca foi vista em convenção de nenhum outro partido, fica a certeza de que não é a presidente de todos os brasileiros, mas somente do partido do «nós». O «eles» fica de fora.

No fundo, é melhor assim.

A presidente reeleita e a bandeira brasileira

Jorge Béja (*)

Pode parecer bobagem, pode parecer intransigência ou apego exagerado, mas não é não. Também é certo que Dilma e todo o seu staff palaciano-presidencial-eleitoral não agiram com malícia, nem com intenção ou ausência de civismo. O que aconteceu foi mesmo a mais completa falta de conhecimento. Foi ignorância – que não se apaga mais e que mostra a falta de cultura tanto dos que assessoram a presidente quanto da própria Dilma Rousseff.

O Brasil inteiro viu e ouviu o discurso de Dilma, após proclamada sua reeleição pelo TSE. De uma tacada só, às 8 da noite de domingo passado, o tribunal divulgou perto de 100% da apuração para presidente que, sigilosamente, ocorria desde as 5 da tarde, seguindo os fusos horários. Dilma venceu e ponto final. Roma locuta, causa finita.

Então, de uma tribuna, montada em um palanque e cercada do pessoal que lhe é mais próximo, Dilma agradeceu aos eleitores e fez promessas “aos brasileiros e brasileiras” para este segundo mandato presidencial. Falou em reconciliação e até no empenho pessoal que, doravante, terá para apurar as denúncias de corrupção que atingem a Petrobras. “Doa a quem doer”. Pelo que disse e prometeu, parece que teremos uma outra Dilma a governar o Brasil até o final de 2018. Tomara que seja verdade. A foto da fala de Dilma correu o mundo.

Dilma vitoria 2Mas poucos, poucos mesmo (ou ninguém) perceberam que naquele cenário (palanque e tribuna) a presidente reeleita, sem malícia, sem intenção ou falta de civismo, estava cometendo contravenção penal, sujeitando-se, portanto, a receber voz de prisão em flagrante de parte de qualquer um. Isso porque a tribuna do palanque de onde Dilma discursava estava revestida com a bandeira nacional. Se foi decidido usar a bandeira brasileira para aquela ocasião, o que era perfeitamente normal e recomendável, ela somente poderia estar hasteada. Revestindo a tribuna, como apareceu, jamais.

Dilma 1Um presidente da República e todos os que integram a presidência devem ser os primeiros a cumprir as leis do país. Deles parte o exemplo. Ao lado do hino, das Armas e do Selo Nacional, a bandeira nacional integra os símbolos nacionais aos quais todos devemos respeito cego, em obediência à lei que os disciplina – a Lei n° 5700, de 1971, revisada em 1992 e complementada pela Lei n° 8421.

O artigo 31 é imperativo, não dando margem à menor dúvida. Não admite atenuante. Diz: “São consideradas manifestações de desrespeito à bandeira nacional, e portanto, proibidas: (…) Usá-la como roupagem, reposteiro, pano de boca, guarnição de mesa, revestimento de tribuna, ou como cobertura de placas, retratos, painés ou monumentos a inaugurar“. O processo a que se submete o infrator “obedecerá ao rito previsto para as contravenções penais”.

(*) Este texto é excerto de artigo de Jorge Béja, advogado carioca. A versão integral está aqui.

Vai dar trabalho

José Horta Manzano

O discurso de união nacional da presidente reeleita ficou bonito no papel. Era o que se esperava. Faltou avisar à militância, que não parece estar sintonizada com os novos tempos.

Como prova eloquente, veja esta foto da alegre manifestação que se seguiu à notícia da reeleição. Foi tirada na avenida Paulista, São Paulo, na noite de 26 out° 2014.

Dilma vitoria 1

Alguém distingue alguma bandeira brasileira?

A haste e o pau

José Horta Manzano

Um brusco acidente de avião levou a vida de sete pessoas. Entre os desafortunados, estava um candidato ao posto de presidente de nossa República, cadeira que vai vagar dia 1° de janeiro do ano que vem.

Jornais, rádios, tevês, redes sociais, taxistas, porteiros, estudantes, manicures, ambulantes, aposentados só falam nisso. Como foi? O que é que vai ser agora? Como fica? Será que foi atentado? Cui bono ― quem é que ganha com isso?

Vamos deixar a cada um a liberdade de interpretar e de vaticinar como bem lhe parecer. De qualquer maneira, a Terra continuará a girar e, passada a comoção, as coisas vão acabar se ajeitando. Vamos aproveitar este espaço para uma observação linguística.

Bandeira a meio pauEm sinal de luto, o Planalto determinou que, nos edifícios oficiais, a bandeira brasileira fosse hasteada a meio pau. A meio pau ou a meio mastro? Valem ambas. Curioso é observar a transformação do falar. Em Portugal, a expressão mais usada é a meia haste. Por aquelas bandas, essa é a forma que predomina na hora de designar bandeira hasteada em sinal de luto.

Em terras brasileiras, faz dois séculos que a forma portuguesa perde terreno para sua equivalente nacional. Já faz cinquenta anos que a meia haste lusa praticamente desapareceu de nosso falar, sobrepujada pelo meio pau. Interessante é notar que, a partir dos anos 2000, uma terceira expressão ― a meio mastro, decalque do francês à mi-mât ― começou a dar mostra de vigor.

Nos últimos quinze anos, o mastro vem ganhando terreno entre nós. De cada três locutores, um prefere o mastro ao pau. Quem garante? Como muitos de meus distintos leitores devem saber, já faz alguns anos que o jornal O Estado de São Paulo permite acesso a seu precioso acervo. Pode-se lá consultar a totalidade das edições, de 1875 até os dias de hoje.

A tabelinha que ponho a seguir analisa as 1200 vezes em que as três expressões foram usadas desde o primeiro número do jornal. É interessante notar a porcentagem de ocorrência de cada uma delas em relação ao total da década.

Década   Meio pau   Meio mastro   Meia haste
1870        80%         —            20%
1880        87%         —            13%
1890        95%         —             5%
1900        89%         —            11%
1910        81%         —            19%
1920        86%         5%            9%
1930        90%         3%            7%
1940        75%        25%            —
1950        96%         2%            2%
1960        90%        10%
1970        92%         7%            1%
1980        96%         4%            —
1990        87%        13%            —
2000        92%         8%            —

2010        63%        38%            —

A meia haste sumiu. E o meio pau vem perdendo força em favor do meio mastro. Será sinal destes tempos politicamente corretos? Só Deus sabe.

Calote argentino

 

Credit: Bloomberg

                                                                                                                              Credit: Bloomberg

 

Dura lex, sed lex

José Horta Manzano

Você sabia?

Foto: TDG, Genebra

Foto: TDG, Genebra

Os que vendem aqueles petrechos imprescindíveis para compor o perfeito torcedor andam fazendo bons negócios. Bandeiras, bonés, cornetas & congêneres se vendem bem estes dias. E não só no Brasil.

Todo suíço adora hastear uma bandeirinha ― seja em época de Copa ou não. Na janela, num mastro plantado no jardim, na barraca de acampamento, qualquer lugar é bom. Países de território exíguo tendem a ser mais apegados a marcas de nacionalidade.

Fachadas de prédios, nestes dias de «Copa das copas», andam coloridas. O número de estrangeiros é grande, donde a diversidade de bandeiras. Além das suíças, as portuguesas, as italianas e as alemãs são as mais comuns. Até ontem, viam-se muitas espanholas também. Compreensivelmente, desapareceram todas hoje de manhã.

Tenho até um vizinho exótico, que arbora a bandeira da Nova Zelândia ― e não somente durante campeonatos de futebol. Mas isso é raro.

Anda na moda cobrir o espelho retrovisor externo do automóvel com uma capa estampada com o desenho da bandeira. É costume recente e tem feito muito sucesso. Mas cuidado! Pode ser ilegal!

Foto: Keller Fahnen, Suíça

Foto: Keller Fahnen, Suíça

Um automobilista do Cantão de Berna escreveu a um jornal local lamentando-se da multa que levou por ter coberto seu retrovisor com a bandeira nacional. O motivo? É que, em certos modelos de automóvel, o espelhinho externo incorpora uma lampadazinha que serve de pisca-pisca.

Se a capa, ao cobrir o retrovisor, ocultar o pisca-pisca, o automobilista pode ser acusado de ter modificado de modo ilícito as características homologadas do veículo. E a multa pode ser salgada.

A polícia promete não pecar por excesso de zelo, isto é, não tem intenção de parar todo carro que passar com capinha sobre o retrovisor. No entanto, se isso acontecer numa batida policial, aí não tem jeito: multarão.

Dura lex, sed lex. No cabelo, só Gumex.

Sinto vergonha de mim

Cleide Canton (*)

Sinto vergonha de mim
por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Fonte: site da escritora

Fonte: site da escritora

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos floreios para justificar
atos criminosos,
Bandeira chorandoa tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.

Bye bye BrasilNão tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei minha Bandeira
para enxugar meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

(*) Cleide Canton é educadora, advogada, escritora e poeta
www.cleide.poeta.ws/