O bolso e a bolsa

José Horta Manzano

Chegou o fim do ano e, com ele, o tempo dos balanços. Uns medem o que venderam, o que compraram, o que construíram, o que gastaram. Outros avaliam quanto engordaram, quanto emagreceram, quanto envelheceram. Cada qual com seu problema.

Em artigo de 30 dez°, Josette Goulart, do Estadão, nos informa que o índice Bovespa ― da Bolsa de Valores de São Paulo ― caiu 15.5% em 2013.

Esclarece a jornalista que o esfacelamento de uma companhia petroleira pertencente a um certo senhor Batista responde por nada menos que 40% do baque. O resto vem principalmente do encolhimento da Petrobrás e da Vale. A retração do mercado chinês se encarregou de completar a derrocada.

Não é preciso ser doutor em Economia para entender que, por detrás desse fracasso, estão as impressões digitais do governo brasileiro.

Os negócios do senhor Batista foram encorajados pelo Planalto e generosamente regados com dinheiro nosso. Em atitude típica daquele que nunca tinha comido mel, os luminares que imaginam governar o País se lambuzaram. E acabamos todos melados.Estatísticas 2

A Petrobrás ― cujo capital, frise-se, é majoritariamente constituído de dinheiro nosso ― tem sido instrumentalizada à moda bolivariana.

Para coroar a trapalhada, a ideologia míope que domina nossas altas esferas optou por menosprezar clientes tradicionais e atrelar nosso destino econômico à China.

O negócio do senhor Batista era vidro e se quebrou. A Petrobrás, sugada, enxugada e usada para fins politiqueiros, anda mal das pernas. A China desacelerou. Deu no que deu: a bolsa brasileira, que reflete a confiança que o mundo deposita no futuro de nossa economia, desceu a ladeira.

A Bolsa de Tóquio logrou excepcional valorização de 55%. A de Nova York subiu mais de 25%. Com informações da Reuters, aqui abaixo está a lista da valorização anual das principais bolsas europeias até 30 dez° 2013:

    Dublin         + 33,5
    Helsinque      + 28,7
    Atenas         + 27,9
    Frankfurt      + 25,5
    Copenhague     + 24,0
    Oslo           + 23,0
    Madri          + 20,9
    Zurique        + 20,1
    Bruxelas       + 17,8
    Paris          + 17,3
    Amsterdã       + 16,7
    Lisboa         + 16,6
    Milão          + 16,6
    Londres        + 14,0
    Viena          +  6,1

Para o ano que vem ― quem sabe? ― nosso governo toma jeito. Não boto muita fé, mas estamos em época de festa, de euforia. Afinal, Deus é brasileiro, não?

Frase do dia — 37

«Hoje é dia de lamentar o enterro dos nossos impostos escandinavos em negócios africanos, Eike Batista, Petrobrás, Cuba e mordomias oficiais.»

Cláudio Humberto, in Diário do Poder, 2 nov° 2013

Jogo de cena

José Horta Manzano

Todos já ouviram falar no drama do senador boliviano que, ameaçado pelo governo do folclórico e bolivariano Evo, tinha solicitado asilo à embaixada do Brasil em La Paz faz mais de um ano. Ao ligar o rádio, a tevê ou a internet neste domingo, todos ficarão sabendo que o homem passou a fronteira e se encontra em território brasileiro. Melhor assim.

O círculo mais próximo do senador garante que ele concederá à imprensa uma entrevista coletiva na segunda-feira 26 de agosto. O Itamaraty preferiu não comentar o assunto. O governo boliviano fechou-se num silêncio ensurdecedor.

Seja o que for que disserem ― antes, durante e depois da entrevista do senador ― nós, meros mortais, jamais saberemos exatamente o que aconteceu. Alguma historinha rocambolesca terá de ser costurada, naturalmente, para tirar todo resquício de responsabilidade das costas das autoridades bolivianas e das brasileiras. Mas eu não poria a mão no fogo sobre a veracidade do relato que está por vir.

Vigiar uma embaixada e impedir a entrada ou a saída de alguma pessoa não é empreendimento difícil. Que o diga o senhor Assange, que continua cumprindo sua pena de privação de liberdade na representação londrina do Equador. Por coincidência, um país também bolivariano.

Embaixada do Brasil La Paz, Bolívia

Embaixada do Brasil
La Paz, Bolívia

Em 1956, na esteira da fracassada revolução húngara, o cardeal József Mindszenty recebeu asilo na Embaixada dos EUA em Budapest, onde permaneceu 15 longos anos. Só saiu quando lhe foi concedido, na sequência de um acordo político, um salvo-conduto para deixar o país. Antes disso, nem por sonho. Faleceu 4 anos depois de libertado, já com 83 anos.

Portanto, nenhuma explicação, por mais sofisticada que venha, me fará acreditar que o senador boliviano «fugiu» da embaixada. E em seguida? Dirigiu-se ao aeroporto, comprou uma passagem, entrou num avião, desceu em Corumbá (ou em Cuiabá, dependendo da fonte)? Tudo isso sem dinheiro e sem passaporte? Me engana, que eu gosto ― como diz o outro.

É muito mais plausível que a vinda do senador seja fruto de um arreglo político entre Brasília e La Paz. Nenhuma das partes estava interessada em fazer durar a situação. Ao mesmo tempo, nenhuma queria perder a face. Estou curioso para ouvir a explicação oficial.

Há males que vêm para bem. Nesse melodrama, algo de positivo começa a apontar: o Brasil aparenta já não mais estar de joelhos diante da Bolívia. Que alívio! Como parecem distantes aqueles tempos bizarros em que o Lula não só aceitou como também aprovou a invasão e a encampação de uma refinaria da Petrobrás situada em território boliviano. Uma prova de fraqueza!

Vale lembrar que o sócio majoritário da semiestatal de petróleo somos nós, o povo brasileiro. O governo federal, por mais enfatuados que sejam seus integrantes, não é dono da gigante. Ele é mero representante dos verdadeiros donos, que somos nós. Fosse o Brasil um país menos preocupado com direitos individuais e mais atento ao Direito ― com D maiúsculo ―, o presidente pusilânime teria sido processado por crime de responsabilidade.

Enfim, vamos a quedarnos con lo bueno. A novela de La Paz teve final feliz. Podemos dormir em paz.

Interligne 37i

Despacho do Estadão e da Folha de São Paulo.

Pamonha de Piracicaba

Texto de Alcindo Garcia (*)Interligne 3e

A presidente Dilma ouviu mal a voz das ruas. Ninguém pediu plebiscito. Isso foi proposto pelo PT para desviar o foco. A voz das ruas pediu melhoria na educação, mais verbas para a saúde, segurança e transportes e o fim da corrupção. A senhora ouviu mal a voz das ruas. Pensou que a voz das ruas fosse a caminhonete que passa vez ou outra diante do meu prédio anunciando «Olha a pamonha, pamonha de Piracicaba». Nunca tive a curiosidade de experimentar a pamonha de Piracicaba. Se a voz das ruas fosse pelo menos para anunciar as deliciosas bananinhas de Palmital, até que valeria a pena eu descer para adquirir alguns pacotes.

Com essa crise toda, herança maldita deixada pelo Lula, que está provocando indignação nacional, confirma-se que inhambu na muda não pia. Perceberam que o Lula está calado? Até agora não disse nada, prefere enviar seus conselheiros, palpiteiros que querem que o governo Dilma se lixe. A herança maldita que ele deixou foi o mensalão, a Petrobrás quebrada, a economia lá embaixo e a volta da inflação. O Palocci era melhor, pelo menos seguia a política econômica deixada pelo Fernando Henrique e com isso evitou a volta da inflação.

Na reunião ministerial, Dilma se reuniu com seus 40, perdão, com seus 39 ministros para discutir essa crise sem precedentes na história do país. Quem compareceu lá de bicão, ou a mando do Lula, foi o Franklin Martins, seu ex-ministro de Comunicações, o autor do projeto para calar a mídia. Parece que a estratégia do Luiz Inácio, é queimar o filme da Dilma, retirá-la da reeleição e se colocar como estrategista para ser ele o candidato, atendendo ao «Volta, Lula!», campanha já orquestrada pelo PT.

Dilma parece que está começando a acordar para essa realidade, pois na semana passada se queixou de que «todos a abandonaram». Todos, com endereço certo: o Luiz Inácio ― que, tal qual inhambu na muda, preferiu se calar e dar mais um giro pelo exterior.

Presidente Dilma (presidenta, como a senhora prefere), ainda há tempo. Procure um bom otorrino. Ele vai cuidar da sua audição. A voz das ruas, presidenta, não é essa da caminhonete que passa anunciando: «Pamonha, pamonha, pamonha de Piracicaba».

(*) Alcindo Garcia é jornalista, colaborador do Diário de Assis e do Jornal da Comarca, de Palmital.

Latino-americanos

José Horta Manzano

Sou do tempo em que latino-americanos eram os outros. Nós, brasileiros, não tínhamos nada que ver com essa gente. Havia os americanos (que falavam inglês), os latino-americanos (que falavam espanhol) e nós. Música latina era bolero, rumba, chá-chá-chá, mambo. Nossa música não era latina, era brasileira. No nosso imaginário, Lima, Bogotá e La Paz estavam mais distantes que Londres ou Lisboa.

Petrobrás invadida Bolívia

Petrobrás invadida
Bolívia

De uns 10 ou 12 anos para cá, os brasileiros passaram por uma lavagem cerebral. Desde que estes novos tempos se instalaram e a orientação de nossa política externa deu uma guinada para um lado estranho, fomos instados a nos identificar, à força se necessário, com os antigos adversários castelhanos.

O fato de vários caudilhos latino-americanos terem tido a mesma ideia ao mesmo tempo só favoreceu a busca de uma hipotética «integração» ibero-americana. Como toda criação artificial, não deu e nunca dará certo.

Generoso, o brasileiro está pronto a ajudar os vizinhos necessitados, a dar-lhes uma mão, a prestar-lhes o devido auxílio. Contudo, «identificar-se» com eles já requer um salto que nem todos estão dispostos a dar.

O fracasso da economia venezuelana, o descalabro da governança argentina, a interminável agonia do regime cubano não nos encorajam a perseverar nessa linha. Já temos dificuldade para resolver nossos problemas internos, não nos fazem falta trapalhadas estrangeiras.

Lula recebe Evo Morales

Lula recebe Evo Morales

Como toda criação artificial, nosso «latino-americanismo» é bastardo e de ocasião. Não foi feito para durar. Com o ocaso dos regimes «progressistas» que se haviam instalado em algumas ex-colônias ibero-americanas, o Brasil há de abandonar logo essas aventuras inconsequentes e voltar aos trilhos de onde nunca deveria ter saído.

Interligne 23

Quando o ogro boliviano se apoderou de uma refinaria da Petrobrás implantada naquele país, o governo brasileiro entrou em pânico, mas não teve coragem suficiente para se defender. Note-se que a Petrobrás, além de ser a maior empresa nacional, tem como proprietário majoritário de seu capital votante o povo brasileiro, através de seu governo.

A vergonhosa pusilanimidade do governo brasileiro de então não foi nem está sendo imitada pelos governos europeus. Um episódio folclórico ocorrido na noite de ontem mostra que o ogro, por aqui, não assusta ninguém.

Evo Morales, presidente do Estado Plurinacional da Bolívia (é o nome oficial, sem brincadeira), sobrevoava a Europa em voo de Moscou a La Paz. Correu o boato de que o avião carregava Snowden, aquele que vazou segredos da espionagem americana.

Portugal, onde um pouso para reabastecimento do aparelho estava previsto, fechou imediatamente seu espaço aéreo. A França tomou idêntica decisão. A Itália, idem. O avião não teve outra opção senão pousar em Viena.

Petrobrás invadida Bolívia

Petrobrás invadida
Bolívia

Furibundos, os mandachuvas bolivianos fizeram as habituais declarações grandiloquentes do tipo «a América Latina está sendo pisoteada» e «Morales foi sequestrado pelo imperialismo».

Esqueceram-se ― ou talvez não saibam ― que estavam voltando de visita amiga a um dos últimos grandes impérios que sobraram. Moscou é a capital de um imenso complexo composto de 21 repúblicas, 46 regiões e 4 distritos autônomos. São 128 etnias que, embora muitas o façam a contragosto, vivem sob obrigatória autoridade russa. Se esse não é um império, o que será?

Para se fazer respeitar, há que começar respeitando os demais. No dia em que señor Morales e nossos outros hermanos entenderem isso, terão dado um grande passo à frente.